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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.13 no.2 Florianópolis May/Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2005000200020 

RESENHAS

 

Künstlerroman: a mulher artista e a escrita do ser

 

 

Cristina Ferreira-Pinto Bailey

Texas State University – San Marcos

 

 

O Künstlerroman de autoria feminina: a poética da artista em Atwood, Tyler, Piñon e Valenzuela.

CAMPELLO, Eliane T. A.

Rio Grande: Editora da FURG, 2003.294 p.

O Künstlerroman, ou "romance do/a artista", é um importante gênero romanesco que surge na literatura ocidental no século XVIII. Sua origem remonta ao famoso livro de Goethe Wilhelm Meisters Lehrjahre ou O aprendizado de Wilhelm Meister (1795–1796), obra que originou também o gênero do Bildungsroman, o qual significa "romance de aprendizado" ou "romance de desenvolvimento". Tal aprendizado refere-se ao processo de formação psicológica, espiritual e social da personagem central da obra, geralmente narrado a partir de sua infância até o início da idade madura, quando a personagem se encontraria "formada", tendo terminado seu aprendizado de vida. O Künstlerroman, enquanto "romance do/a artista", retrata a formação de uma personagem que desempenha atividades artísticas – como escritor, ator, músico, etc. – e esta seria a diferença fundamental entre o Künstlerroman e o Bildungsroman.

Na verdade, um grande número dos principais críticos e teóricos do Künstlerroman consideram-no uma variação ou subgênero do Bildungsroman, sendo o processo do desenvolvimento ou formação do/a protagonista o elemento mais característico do gênero. Assim, exemplos famosos de Bildungsroman seriam, além do Wilhelm Meister, David Copperfield (1850), de Charles Dickens, The Magic Mountain (1924), de Thomas Mann, e Menino de engenho (1932) e Doidinho (1933), de José Lins do Rego. A Portrait of the Artist as a Young Man (1916), de James Joyce, é tido como o exemplo mais importante de Bildungsroman do período moderno, narrando os anos da infância, escola e adolescência do protagonista. Entretanto, porque o protagonista é escritor e porque o romance enfoca outros eventos mais tardios marcantes na formação da sensibilidade artística do protagonista, A Portrait of the Artist é mais especificamente caracterizado como Künstlerroman.

Apesar da importância tanto do Bildungsroman como do Künstlerroman na literatura ocidental, o gênero não tem sido estudado de maneira sistemática no Brasil, e o livro de Eliane Campello O Künstlerroman de autoria feminina responde a essa omissão dos estudos teóricos sobre o gênero narrativo no Brasil. O estudo de Campello é exaustivo, minucioso e importante por várias razões de caráter crítico e didático. A primeira delas é justamente o fato de que Campello consegue elucidar objetiva e claramente os elementos que definem o Künstlerroman e o distinguem do Bildungsroman.

Através de uma avaliação inteligente e questionadora da bibliografia crítica sobre os dois gêneros romanescos, a autora rejeita toda definição que subordina o Künstlerroman ao Bildungsroman, argumentando em favor de uma classificação que privilegia a tematização da arte e do/a artista como elemento fundamental para definir o Künstlerroman. A definição mais ampla defendida por Campello permite a inclusão de um número maior de obras cujo eixo narrativo encontra-se justamente na relação entre arte e vida. Diz ela: "no Künstlerroman, a personagem-artista expressa, no universo da arte, o encontro e/ou o choque entre a atemporalidade da arte e a historicidade da experiência mundana" (p. 27-28). Essa definição leva em conta as discussões críticas mais recentes levadas a cabo no campo da teoria literária e destaca a questão da função da arte e do artista em seu contexto social. Esse aspecto, como vemos mais adiante no capítulo dedicado a Nélida Piñon e Luiza Valenzuela, revela-se particularmente importante em obras latino-americanas do período contemporâneo, quando a intromissão da História na história pessoal do sujeito torna-se mais óbvia e mais urgente.

Para Campello, portanto, Künstlerroman, ou "romance do/a artista", é um gênero autônomo que, entretanto, compartilha com o Bildungsroman certas características. Além disso, esses dois gêneros romanescos têm também alguns aspectos em comum com a autobiografia, o romance de confissão e o romance memorialista, embora estes apresentem uma perspectiva narrativa de primeira pessoa e suas origens sejam anteriores às do Bildungsroman e do Künstlerroman. De qualquer modo, todos esses gêneros narrativos têm sido sistematicamente estudados através dos séculos por críticos e teóricos que estabeleceram uma série de parâmetros para defini-los. Tal como ocorre com esses outros gêneros narrativos mencionados, os parâmetros definidores do Künstlerroman partem de um paradigma androcêntrico, ou seja, a partir de narrativas cujos protagonistas são homens. O resultado é que um grande número de Künstlerromane com protgonistas mulheres não são considerados como tal pela crítica, ou são julgados como "falhos," por não se enquadrarem perfeitamente dentro dos parâmetros androcêntricos estabelecidos.

Somente a partir de finais da década de 1970, com o advento da crítica literaria feminista, esse paradigma masculino começa a ser questionado, de modo que as especificidades do Künstlerroman feminino sejam corretamente consideradas e estudadas. Aqui reside, pois, o que considero a maior contribuição da obra de Campello para o estudo do Künstlerroman. A autora examina primeiramente os elementos definidores do Künstlerroman androcêntrico, a partir do levantamento exaustivo da bibliografia crítica que veio a estabelecer o paradigma masculino como único e exclusivo. A seguir, ela discute obras teóricas que enfocam o Künstlerroman a partir de uma ótica literária feminista, ótica essa, segundo Campello, que conduziu "à ampliação de considerações que dão conta da inserção do gênero (gender) na literatura enquanto elemento determinante da produção e da recepção de ficções de autoria feminina" (p. 17). A crítica feminista, mais do que analisar obras de autoria feminina ou cujas protagonistas são mulheres, aponta a deficiência dos modelos androcêntricos para a análise inclusiva do Künstlerroman – assim como do Bildungsroman, da autobiografia e de outros gêneros narrativos tradicionalmente vistos como masculinos – e desenvolve novos parâmetros críticos e linhas de análise para o estudo da narrativa.

Campello discute obras teóricas e críticas de Viriginia Woolf, Simone de Beauvoir, Hélène Cixous, Luce Irigaray, Julia Kristeva, Teresa de Lauretis e Annis Pratt, entre outras feministas cujos trabalhos tiveram grande influência para o desenvolvimento da crítica literária feminista contemporânea. Desse modo, o livro de Campello é um instrumento fundamental não só para o estudo do Künstlerroman como também para os estudos literários feministas no Brasil. Sua discussão inteligente e aprofundada do trabalho dessas pensadoras feministas permite à autora elaborar seu próprio modelo crítico para a análise dos quatro romances que compõem a parte principal do seu livro. São eles: Lady Oracle (1985), da canadense Margaret Atwood, Earthly Possessions (1977), da norte-americana Anne Tyler, A doce canção de Caetana (1997), de Nélida Piñon, e Novela negra con argentinos (1991), da argentina Luiza Valenzuela.

Outro aspecto importante de O Künstlerroman de autoria feminina é o estudo de cinco novelistas européias dos século XVIII e XIX que Campello considera precursoras do Künstlerroman. Duas dessas obras, The Excursion (1777), de Frances Moore Brooke, e Julia (1790), de Helen Maria Williams, são na verdade anteriores ao Wilhelm Meister de Goethe. O fato de o romance de Goethe, publicado quase 20 anos depois do de Brooke, ser tido como o paradigma do gênero sublinha o privilégio do modelo androcêntrico sobre obras com protagonistas mulheres. Assim, Campello resgata do esquecimento cinco "romances de artistas" mulheres (os outros três romances são Corinne ou l'Italie (1807), de Madame de Staël, Consuelo (1842), de Georges Sand, e The Half Sisters (1848), de Geraldine Jewsbury), estabelecendo ao mesmo tempo uma tradição feminina do Künstlerroman.

A escolha dos romances de Atwood, Tyler, Piñon e Valenzuela, quatro escritoras das mais importantes nas Américas hoje, confere a O Künstlerroman de autoria feminina um caráter comparativista inter-americano, oferecendo assim uma importante contribuição teórica e hermenêutica a esse ramo da literatura comparada. Além disso, as quatro obras refletem bem a pluralidade de vozes das mulheres americanas no século XX. Os dois longos capítulos sobre Atwood e Tyler e sobre Piñon e Valenzuela obedecem a um mesmo esquema de organização, qual seja, uma introdução à obra de cada autora através de um "Panorama temático," seguida de uma análise minuciosa do romance em questão como exemplo de Künstlerroman. Essa organização possibilita a identificação de estratégias narrativas e preocupações temáticas comuns às quatro obras, apesar das diferenças dos contextos sociais, culturais e políticos em que se inserem as autoras e a produção e recepção de suas obras. Segundo Campello, é justamente a "tecnologia do gênero" (gender) que determina essas coincidências temáticas e narrativas em quatro obras tão distintas.

As conclusões às quais chega Campello sobre Lady Oracle, Earthly Possessions, A doce canção de Caetana e Novela negra con argentinos, através de uma análise feita a partir das relações entre ideologia, gênero literário e sistema de gêneros (gender), corroboram as premissas teóricas que a autora estabelece no princípio de seu estudo, inclusive a de que o Künstlerroman apresenta uma natureza "dual" (p. 32) que pode abarcar tanto o aspecto do aprendizado e formação do sujeito contidos no Bildungsroman, como a ênfase no período adulto e de atuação artística da protagonista. Desse modo, Campello tece um novo paradigma para o Künstlerroman, um paradigma inclusivo e rico em possibilidades hermenêuticas, em que as vozes das artistas ressoam em inumeráveis níveis de significação e atuação.