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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.13 no.2 Florianópolis May/Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2005000200022 

RESENHAS

 

Rita de Cássia: gênero e história na santa do impossível

 

 

Raquel dos Santos Sousa Lima

Universidade Federal de Viçosa

 

 

Rita, a santa do impossível.

ARIAS, Juan.
Tradução de Olga Savary.

Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. 168 p.

Estruturada em 21 capítulos, Rita, a santa do impossível é uma das mais recentes publicações da Editora Objetiva e faz parte do lançamento da coleção Os Santos, "que busca contar a vida dos santos a partir de uma perspectiva humana". O autor, Juan Arias, é jornalista e, segundo as informações do livro, foi correspondente do jornal El País no Vaticano, durante 14 anos, o que lhe teria permitido fazer a cobertura de alguns trabalhos do Concílio Vaticano II, bem como acompanhar várias viagens do Papa João Paulo II. Atualmente ele é correspondente daquele jornal no Brasil e tem outros livros sobre temas religiosos, alguns deles também publicados pela Objetiva.

Arias afirma que, instigado pela editora a reescrever a biografia de um santo, optou por Rita de Cássia (1381–1447), pois "desde sempre" essa santa teria chamado sua atenção e despertado sua simpatia. Adverte, na primeira frase, que "escrever a vida de um santo é sempre um desafio [...], pois qualquer intento de chegar até as camadas mais existenciais e humanas do personagem pode parecer profanação" (p. 7).

Aceitando o desafio, Arias inicialmente elabora uma crítica sobre a maioria das biografias da Santa, as quais chama de apologéticas e devocionais, argumentando que elas não seriam embasadas em "investigações históricas sérias" sobre a vida e o contexto no qual Rita viveu. Afirma que não pretende negar o que a tradição inventou sobre ela de mito e lenda, mas que também não pode fugir à sua missão jornalística de inclinar-se "mais sobre os fatos, porém com fundamento histórico". Assim, paradoxalmente, deixa claro que sua obra, "retrato entre literário e histórico", tenta "traçar um retrato como um pintor que, sem poder conhecer todos os detalhes daquilo que pinta, escolhe, sem dúvida, aqueles tons e aqueles traços que lhe parecem mais naturais" (p. 10).

O autor esclarece que recorreu "especialmente" a duas obras que, segundo ele, por terem um aparato crítico, abrem possibilidades para a revisão das biografias já escritas sobre Rita: L'Ordine Agostiniano a Cascia: Nuovi dati storici sulla vita di santa Rita e di altri ilustri agostiniani Ricerca storica su fonti ignoti, inedite e sottoutilizzate, de Vittorio Giorgetti, Omero Sabatini e Sabatino Di Lodovico,1 e Rita de Cássia, a santa dos casos impossíveis, do jornalista Franco Cuomo.2 Ao longo do livro fica clara a recorrência que ele faz a esta última obra, a qual cita algumas vezes.

No que se refere ao seu propósito de investigar seriamente a História, é lamentável que Arias tenha se reportado tantas vezes ao contexto em que Rita viveu apresentando apenas dois autores e duas obras como referências bibliográficas para o período. Mais lastimável ainda é o fato de ele afirmar, em dois momentos do livro, que Rita "viveu entre o século XIV e XV, na chamada Alta Idade Média" (p. 18 e p. 67). Nesse sentido, é pertinente lembrar que a historiografia, em geral, considera o período que vai do século V ao XV como Idade Média, sendo que esta, por sua vez, é apresentada em duas grandes fases, a Alta Idade Média (séculos V ao X-XI) e a Baixa Idade Média (séculos XI ao XV). Percebem-se também outros equívocos de temporalidade histórica em trechos nos quais o autor atribui ora mais, ora menos tempo entre um evento e outro, como em: "desde a grande festa da beatificação de Rita [...] até o triunfo final de sua canonização, ato solene e infalível do papa, passaram-se outros 372 anos" (p. 135). Considerando-se que a beatificação ocorreu no ano de 1628, e a canonização em 1900, passaram-se 272 e não 372 anos entre esses dois fatos. Mas o problema, nesse caso, parece ser uma questão de operação matemática.

Mais especificamente no que diz respeito à História, destaca-se a abordagem que Arias faz sobre a situação das mulheres no período medieval:

a mulher nem devia aprender a ler e a escrever. Isso era assunto para os homens já que a mulher, com raras exceções, não podia perder tempo em algo que não fossem as tarefas de casa e a ajuda ao marido. [...] Eram os homens que tinham vida própria e história. A mulher era só a sombra dele (p. 68).

O autor acaba reproduzindo uma análise da história das mulheres que por vezes esteve presente na historiografia e que tomava os discursos normativos referentes a elas como se eles representassem a realidade histórica vivida efetivamente por elas. A implicação dessa abordagem na obra de Arias é que, ao leitor, pode ficar a idéia de que as mulheres, de fato, não 'tinham história', ou que sempre foram vítimas na história, uma vez que suas vidas giravam em torno das dos homens. Desnecessário aqui aprofundar essa questão, mas vale lembrar a revisão dessa historiografia, sobretudo a partir das contribuições de autores como Michel Foucault (que enfatiza a existência de micropoderes que atravessam todo o corpo social), Michel de Certeau (que discute a ocorrência de contra-poderes, através de estratégias e táticas), Pierre Bourdieu (que lança a questão da dominação simbólica) e Roger Chartier (que trabalha com a idéia de que o leitor se apropria da leitura de diferentes formas).

No percurso do texto, o autor atribui a Rita certas 'características femininas', que dão a entender que ele reproduz alguns estereótipos de gênero, como em: "há no rosto e no olhar um quê de mulher consciente da força da sedução feminina" (p. 24). É interessante também o fato de ele afirmar que Rita tivera uma existência "normal", já que ela teria vivido todas as fases que são atribuídas socialmente à vida de uma mulher – fora noiva, casada, mãe e viúva. O autor argumenta que "Rita quis ser mãe" (p. 77), já que, logo após o casamento, nasceram seus dois filhos. Para ele, Rita "exerceu sua sexualidade e desfrutou das delícias da maternidade, dando à luz dois filhos e criando-os". Em seu discurso percebe-se como a questão da natureza feminina é apropriada e reproduzida como sendo a 'norma' para todas as mulheres. Nesse sentido, é Pierre Bourdieu quem nos ajuda a compreender como as características biológicas femininas (como a capacidade de gerar filhos) são mostradas enquanto essência da feminilidade e justificam as construções sociais dos papéis de gênero, como, por exemplo, aquelas que afirmam que todas as mulheres devem ser mães. Assim, essa ordem é fixada em uma relação de causalidade circular: o princípio de visão social constrói a diferença anatômica; depois, essa diferença socialmente construída torna-se o fundamento e a justificação da aparência natural de uma visão social que a fundamenta.

Ainda no que tange à maternidade de Rita, o autor afirma que "é difícil imaginar que uma santa como Rita, que tinha que ser uma mãe exemplar e amorosa, tivesse a coragem de pedir a Deus a morte de seus filhos" (p. 83) e também que "é difícil conceber-se que o coração de uma mãe alimente um ardente desejo de ver seus filhos mortos" (p. 83). Esses trechos sugerem que o autor incorpora aquilo que Elizabeth Badinter chamou de "mito do amor materno", ou seja, a construção social da idéia de que toda mãe tem, naturalmente, um amor incondicional pelos seus filhos. Isso parece claro no pensamento de Arias, que não concorda com a possibilidade de Rita ter pensado e desejado ver seus filhos mortos.

Na busca do 'rosto humano de Rita', o autor tenta romper com alguns 'chavões' do discurso religioso, porém acaba recorrendo a uma idealização da Santa, quase repetindo a linguagem devocional:

Rita não foi uma mulher qualquer, ainda que tivesse vivido a vida normal de quase todas as mulheres de seu tempo. Foi, sem dúvida, do pouco que conhecemos, uma mulher excepcional, capaz de grandes gestos, por exemplo, no campo do perdão e da entrega a seus semelhantes [...] foi uma dessas mulheres fortes e ao mesmo tempo prudentes, das quais a Bíblia fala com elogio (p. 11).

Além disso, também atribui características e qualidades a Rita sem, no entanto, informar as fontes às quais recorreu para fazê-lo: "nunca foi uma santa triste ou angustiada", "foi sempre simpática", "com ela as pessoas se sentiam melhores, mais em paz, com menos ganas de vinganças e guerras", "assim aparece nas pinturas e retratos que chegaram até nós" e "sem dúvida os pais de Rita eram gente boa, religiosa". Esses trechos nos indicam que Arias assume uma parcialidade em relação ao discurso católico. Apesar de ter afirmado que não desconsideraria o que a tradição inventou sobre Rita, penso que o autor se compromete, uma vez que, ao mesmo tempo, pretende embasar-se em documentação "séria".

Arias também questiona a versão religiosa de que Rita teria sofrido muito com o marido, afirmando que "pode ser que isto tenha sido verdade, porém também pode ser que ambos tivessem vivido felizes e apaixonados um pelo outro" (p. 68) e, ainda, "calcula-se que viveram em paz e felizes cerca de 18 anos e provavelmente continuariam assim se não houvesse chegado a tragédia da morte violenta do marido" (p. 88). O autor tenta desconstruir a idéia de que o marido tinha sido violento, mas não consegue construir outra argumentação e lança 'evidências' como em:

não sabemos se Rita foi alguma vez espancada pelo marido, ou se ele batia muito nos filhos, porém é evidente que ela, com sua grande capacidade de perdão, deveria agir como uma espécie de amortecedora (p. 82).

Normalidade, entrega e perdão. Com essas palavras, o autor acaba reproduzindo um discurso muito parecido com aquele que a Igreja Católica dirige às devotas da Santa. Ele afirma que

aquela imagem da jovem Rita, que da janela da casa viu, horrorizada, o assassinato sangrento de seu marido, é algo tremendamente atual. É a imagem de centenas e milhares de mulheres, mães e esposas que, nas favelas e até fora delas, têm de enfrentar a tragédia de ver assassinados seus esposos ou filhos (p. 91).

Esse trecho lembra a mensagem que o Papa João Paulo II dirigiu aos devotos da Santa, no centenário de sua canonização, em 2000, quando proferiu as seguintes palavras:

Rita teve uma existência capaz de responder ao sofrimento e aos espinhos com o perdão e o dom total de si, [...] perita no sofrer, aprendeu a entender os sofrimentos do coração humano e tornou-se assim advogada dos pobres e dos desesperados, [teve] a missão de unidade e de fidelidade que é própria da família, também nos momentos de crise e dificuldade.3

Uma das diferenças entre a obra de Arias e o discurso católico talvez seja o fato de aquela instituição, a partir do relato da vida de Santa Rita, chamar as mulheres a imitarem seu exemplo. A questão central é que, tanto para Arias como para a Igreja, as principais características da Santa foram: resignação, obediência, perseverança e espírito de abnegação ou perdão. Nesse sentido, vale atentar para o fato de que por trás desse discurso, na grande maioria das vezes produzidos por homens, há toda uma carga de preconceitos, idéias e valores que terminam por colocar as mulheres em uma posição subordinada na hierarquia sexual. E essas idéias, preconceitos e valores chegam a elas, sejam devotas ou não. Saber como elas vão se apropriar desse discurso é outra história.

A proposta do autor, a princípio, parece atraente. E pode ser, dependendo do leitor e de seu compromisso, conhecimento e interesse. Talvez até possam parecer curiosas algumas passagens do texto nas quais Arias narra a sua experiência como acompanhante do Papa João Paulo II em várias viagens ou, ainda, outros relatos em que fala da intercessão da Santa em sua vida particular. No entanto, considerando que na publicação em questão o autor demonstra sua 'preocupação histórica', mesmo que ele reconheça as dificuldades para se empreender esse trabalho, faz-se não só pertinente, mas necessário, que a crítica seja elaborada. Finalmente, é preciso ressaltar que essa crítica parte de um ponto de vista de quem efetivamente se preocupa com "investigações históricas sérias", sobretudo no que tange a questões teórico-metodológicas e àquelas referentes à história de Santa Rita, objeto particular de pesquisa de quem escreve essa resenha.

 

Notas

1 GIORGETTI, SABATINI e DI LODOVICO, 2000.
2 CUOMO, 2000.
3 JOÃO PAULO II, 2003.

 

Referências bibliográficas

CUOMO, Franco. Rita de Cássia, a santa dos casos impossíveis. São Paulo: Paulinas, 2000.

GIORGETTI, Vittorio; SABATINI, Omero; DI LODOVICO, Sabatino. L'Ordine Agostiniano a Cascia: Nuovi dati storici sulla vita di santa Rita e di altri ilustri agostiniani Ricerca storica su fonti ignoti, inedite e sottoutilizzate. Perúgia: Quattroemme, 2000.

JOÃO PAULO II. Discurso do Santo Padre durante o encontro com os peregrinos e devotos de Santa Rita e com os Cavaleiros do Trabalho. 20 maio 2000. Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/2000/apr-jun/documents/hf_jp. Acesso em: 5 jul. 2003.