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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.14 no.1 Florianópolis Jan./Apr. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2006000100021 

RESENHAS

 

Não basta ser um bom médico: é preciso ser piedoso e católico...

 

 

Patrícia de Freitas

Universidade Federal de Santa Catarina

 

 

A imagem social do médico de senhoras no século XX.
MARQUES, Rita de Cássia.
Belo Horizonte: Coopmed, 2005. 178 p

A tese ora publicada é resultado de um trabalho de doutorado em História, orientado pela professora doutora Rachel Soihet e defendido em 2003 na Universidade Federal Fluminense. Em seu livro, Rita de Cássia evidencia como o processo de institucionalização da medicina no Brasil não pode ser estudado de modo linear. Segundo ela, os trabalhos de Roberto Machado e de Jurandir F. Costa, que destacam a medicalização da sociedade, vêm sofrendo críticas de novos pesquisadores que têm abordado problemas regionais e específicos sobre esse processo.1 Foi o caso dessa autora, que investigou o início da assistência médica à saúde da mulher na cidade de Belo Horizonte, entre 1907 e 1939. Segundo Rita de Cássia, o processo de substituição do atendimento doméstico pelo atendimento médico no cuidado das mulheres foi uma ação demorada.2 A presença de médicos habilitados, como no caso do ginecologista Hugo F. Werneck, que atuou na cidade de Belo Horizonte, não foi suficiente. A população resistiu aos novos cuidados, especialmente à figura masculina.

No primeiro capítulo, Rita de Cássia trabalhou com três fatores que, segundo ela, se entrelaçaram no decorrer da pesquisa: as crenças religiosas, particularmente católicas; os saberes relacionados ao tratamento e cura de doenças existentes nos séculos XVIII e XIX; e a situação das mulheres na família e na sociedade nesse mesmo período. O século XIX foi testemunha de uma transformação ocorrida no universo feminino religioso. Enquanto os homens se afastavam da fé católica, as mulheres foram adotadas por uma nova tutora, a Igreja. A burguesia européia, atenta à afirmação feminina ocorrida durante a Revolução Francesa, se empenhou procurando confiná-las no lar ou no Estudos Feministas, Florianópolis, 14(1): 305-323, janeiro-abril/2006 claustro. As mulheres, por suas 'qualidades' advindas do modelo da Virgem Maria, transformaram-se em modelo ideal: guardiãs da maternidade e do catolicismo. A valorização da maternidade inaugurou um momento distinto nas relações sociais definidas pela medicina e pela religião. O poder até então inabalável do pai foi estremecido pela valorização da família e da mulher.

Ao pesquisar nos arquivos dos ginecologistas Francisco Furquim Werneck e Hugo Furquim Werneck, a Rita de Cássia mostra que o acesso ao corpo das mulheres estava protegido por normas de pudor e decência implantadas pela ordem burguesa no século XIX. Ao estudar as chamadas "informações" ou "cartas de consulta" enviadas por pais e esposos, assim como a presença dos mesmos nas consultas, a historiadora nos apresenta a atuação dos homens num universo por muito tempo dominado pelas mulheres.

Rita de Cássia evidencia-nos que a moralidade e a estrutura patriarcal interferiam no relacionamento médicopaciente. O médico, por muito tempo, foi considerado uma figura estranha, possuidor de um saber que ainda não tinha total credibilidade. Seus serviços, na maioria das vezes, só eram solicitados quando todos os outros recursos já haviam sido utilizados.

Na segunda parte do texto, a pesquisadora mostra-nos como o processo de medicalização na cidade de Belo Horizonte (inaugurada em 1897) possui recortes bastante particulares. A chegada progressiva de médicos e a criação de hospitais na capital de Minas Gerais não foram suficientes para afastar a atuação de parteiras, curadores, farmacêuticos, assim como da religião, entre outros. No final do século XIX alguns grandes centros já haviam, de certa forma, sistematizado o atendimento médico. Em Belo Horizonte, pelo menos vinte anos depois, esse espaço ainda era partilhado por outros profissionais.

Entre os médicos que se estabeleceram em consultórios e clinicavam na Santa Casa se destacou Hugo Werneck, que em 1908 assumiu o posto de diretor clínico do hospital e o modernizou. Ginecologista atualizado, sempre buscava novidades e equipamentos nos grandes centros, particularmente na Alemanha. Em seus primeiros anos de clínica não se restringiu a sua área. Antes de dedicar-se à ginecologia era necessário conquistar a confiança do paciente, visto que "além da criação de hospitais era preciso investir na mudança de comportamento da população e na própria relação do médico com o paciente" (p. 58).

O fato é que Werneck destacou-se na sua empreitada, notabilizando-se como médico e administrador de hospital reconhecido em todo o país. A atuação de médicos como Werneck, segundo Rita de Cássia, era fundamental para o crescimento e o prestígio da classe. Os investimentos na área da assistência da mulher faziam parte dos objetivos do primeiro ginecologista da cidade de Belo Horizonte. Para tanto, o médico usou de muita parcimônia, pela resistência não somente das mulheres em serem atendidas por homens, como também da Igreja.

Até a primeira metade do século XX, ao contrário de outras cidades, em especial do Rio de Janeiro, foi possível constatar o predomínio de parteiras práticas e não diplomadas atuando nos espaços médicos. Um dos fatores que contribuíram para o descrédito das parteiras foi a promoção da higiene encampada pelo Estado nas primeiras décadas do século XX. O discurso da higiene contribuiu para a medicalização do parto, que passou a ser difundido como um ritual complicado e que não cabia no ambiente doméstico. A proliferação dos preceitos de higiene levou as mulheres para dentro da maternidade, e os médicos, com sagacidade, levaram consigo as parteiras, que acabaram desempenhando um papel secundário no parto. De protagonistas passaram a ajudantes, e desse modo seu espaço foi diminuindo, até serem substituídas pelos médicos. "A entrada das parteiras foi uma excelente tática dos médicos para incorporar de vez o atendimento aos partos no seu próprio território" (p. 74).

Rita de Cássia, nessa parte do texto, nos expõe as dificuldades de um ginecólogo de formação, as barreiras que enfrentou para desempenhar sua prática nas primeiras décadas do século XX. Ao mesmo tempo, ele procurou criar condições para ampliar o atendimento à saúde da mulher. Para tanto, combateu o moralismo de uma sociedade que não via com bons olhos o fato de uma mulher ser assistida longe do seu lar. A despeito do moralismo, Werneck conseguiu conquistar o coração dos 'bons católicos'. Ele, que de certa forma mostrava-se contrário ao neomalthusianismo e à eugenia, os fez perceber a importância da proteção da maternidade e da necessidade de se construir uma nação, o que necessariamente dependia do crescimento da natalidade.

Foi assim que Werneck conseguiu importante auxílio das 'damas de caridade' que incentivaram e se empenharam na construção da maternidade. Outro fator que contribuiu para a aceitação da maternidade foi a criação, em 1911, da Faculdade de Medicina. Seria mais um campo de atuação dos médicos, particularmente na hospitalização das mulheres. No entanto, Rita de Cássia mostra-nos que tudo isso não foi suficiente para efetivar o processo de institucionalização da medicina. A técnica, os medicamentos, a chegada dos profissionais e a criação de instituições não seduziam de imediato o paciente ou, mais precisamente, a população. Foi necessário respeitar as crenças daquela sociedade, adquirir sua confiança, conquistá-la.

No terceiro capítulo, Rita de Cássia nos diz como a forma de relacionar-se com os médicos passou por outros viesses. Era necessário firmar uma relação de confiança com a paciente, percebendo os elementos nos quais a população tinha confiança e devoção.

Dessa forma, a historiadora evidencia o modo como o corpo das mulheres era protegido por normas de decoro pregadas pela moral cristã e reforçadas pela burguesia. De um lado estavam o pai e o marido, que determinavam o que era certo e o que era errado, e do outro o médico, um estranho no seio familiar.

Através da leitura do arquivo pessoal de Werneck, a historiadora mostra que muitos de seus procedimentos não eram ginecológicos, ou seja, o médico não atendia apenas mulheres.

Outro tema trabalhado por Rita de Cássia foi a eugenia combatida por médicos como Werneck. Aos poucos ela foi incorporada pela comunidade católica e por esses mesmos médicos. A Igreja, que pregava a indissolubilidade do casamento nas décadas de 1920 e 1930, passou a propagar cuidados que o precederiam. O padre, assim como o médico, assume o papel de disseminar esse discurso. Foi a chamada "eugenia católica", "[...] que levava em conta a dignidade humana e considerava o valor espiritual da vida de acordo com as leis divinas" (p. 108).

Além de evidenciar a influência da Igreja Católica, que se uniu ao poder do Estado na segunda década do século XX, a autora atenta para a criação de várias instituições católicas, compostas, inclusive, por acadêmicos e médicos que pregavam, sobretudo, a moralidade, tendo nas mulheres um dos seus principais alvos. As associações de médicos católicos crescem, tanto em Minas Gerais como em todo o país.

No último capítulo, Rita de Cássia nos relata que após o falecimento de Werneck muita coisa se modificou, mas essas mudanças, especialmente na condição feminina, já estavam ocorrendo há mais tempo. O trabalho fora de casa, uma das características dos tempos modernos, continuou sendo mal visto, ou seja, a vigilância da sociedade para com as mulheres persistia. No transcorrer dos capítulos a autora deu ênfase ao trabalho das mulheres no interior das instituições de saúde na cidade de Belo Horizonte, particularmente das irmãs de caridade alemãs. O trabalho das mulheres menos favorecidas era considerado problemático; as mulheres da elite faziam filantropia, sempre bem vista pela sociedade. O fato é que o trabalho voluntário realizado pelas mulheres foi uma forma abençoada de sair do mundo doméstico para o mundo da rua.

A tumultuada sucessão de Werneck na cátedra de ginecologia em 1936 evidenciou o modo como a medicina havia conquistado o respaldo da população. O atendimento na Santa Casa, até então integrado à Faculdade de Medicina, foi modificado a partir de 1936 quando um novo professor assume a cátedra. O desejado substituto de Werneck, Lucas Machado, apoiado pelo mestre e pela militância católica, após sua reprovação no concurso ficou na Santa Casa que, solidária, fechou suas portas ao novo mestre, Clóvis Salgado, que, por sua vez, ficou confinado à Faculdade de Medicina. Segundo Rita de Cássia, a sucessão de Werneck teria inaugurado um novo período, seria um divisor de águas no atendimento à saúde da mulher em Belo Horizonte.

Salgado chegou num período distinto, mas nem por isso menos complicado. Sobressaiu-se no estímulo à pesquisa e introduziu o planejamento familiar. O exame clínico será ampliado, indo além da esfera genital. Embasado nos conhecimentos de sua época, ele introduzirá no diagnóstico as causas psíquicas que estariam relacionadas às patologias. A década de 1930 também testemunhou novos tempos no relacionamento médicopaciente, quando as mulheres passam a opinar sobre o seu próprio corpo. Apesar das diferenças, Clóvis Salgado não se afastou de algumas táticas utilizadas por Werneck, como a utilização em seus serviços de irmãs de caridade.

Ao finalizar, Rita de Cássia mostra que, para uma proposição científica ser vitoriosa, é preciso que os cientistas façam alianças e superem as controvérsias. Considerar a institucionalização da medicina um simples fruto do discurso médico é pouco. Werneck foi um médico piedoso, era católico, mas, no jogo de interesses em que estava envolvido, era preciso ir além da militância.

O trabalho de Rita de Cássia ilustra uma série de pesquisas que estão sendo desenvolvidas no Brasil sobre medicina e gênero. Além de demonstrar a importância desses estudos, tais pesquisas representam uma importante contribuição para o debate de temas relacionados, particularmente, à assistência à saúde da mulher e, ainda, para a discussão em torno da medicalização das experiências femininas.

 

Notas

1 MARQUES, 2003, p. 51.

2 MARQUES, 2003, p. 52.

 

Referência bibliográfica

MARQUES, Rita de Cássia. "É preciso ser piedoso": a imagem social do médico de senhoras. Belo Horizonte 1907-1939. 2003. Tese (Doutorado em História) Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense, Niterói.