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Revista Estudos Feministas

versão impressa ISSN 0104-026Xversão On-line ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. v.14 n.2 Florianópolis maio/set. 2006

https://doi.org/10.1590/S0104-026X2006000200020 

RESENHAS

 

O segredo de Brokeback Mountain ou o amor que ainda não diz seu nome

 

 

Richard Miskolci

Universidade Federal de São Carlos, SP

 

 

Brokeback Mountain.
LEE, Ang (Diretor).
EUA: Focus Features, 2005. 1 DVD (134 min.).

Quando, em fins do século XIX, Lord Alfred Douglas afirmou, em seu poema "Dois Amores", "Eu sou o Amor que não ousa dizer seu nome" não apenas trouxe ao discurso as relações entre homens, mas o fez no registro do elo amoroso. Assim, tomou como referência a definição de São Paulo sobre a sodomia como o pecado que não devia ser nomeado e a reverteu da esfera das práticas sexuais para a dos sentimentos. Feito similar pode ser creditado ao filme de Ang Lee, cujo roteiro adapta e refina o belo conto de Annie Prouxl, originalmente publicado em 1997.

Ennis Del Mar e Jack Twist são dois jovens pobres que se conhecem ao procurar emprego como pastores de ovelhas durante o verão de 1963 em Wyoming, Estado rural e conservador do Oeste americano. Não são, portanto, cowboys, assim como o filme não é um western, pois a história se passa na segunda metade do século XX. Trata-se de um drama que se insere no recente interesse de Hollywood por personagens que encarnam os losers da sociedade americana.

O trabalho duro, a alimentação ruim e a solidão na montanha aproximam o introvertido Ennis do mais expansivo Jack, até que, após uma noite de embriaguez, fazem sexo. No dia seguinte, Ennis afirma que aquilo terminava ali. Jack observa: "Isto não interessa a mais ninguém além de nós". Ennis diz que "ain't no queer", ou seja, não era nenhum anormal ou bicha. O outro também diz que não. Na mesma noite, Ennis procura Jack na cabana, pede desculpas e, dessa vez, eles fazem amor. Assim, passam do encontro físico para o amoroso e iniciam a relação que marcará suas vidas.

O slogan "O amor é uma força da natureza" soma-se à crua primeira cena de sexo (reproduzida do conto) de forma a essencializar o amor entre os jovens. É como se longe da civilização aflorassem sentimentos mais naturais e, portanto, mais puros. Tais associações fazem parte do vocabulário imagético ocidental ao menos desde Rousseau, mas mal encobrem o fato de que, distantes de tudo e de todos, as normas sociais são suspensas e isso é o que permite o envolvimento amoroso dos rapazes.

O idílio na montanha é ameaçado com a descoberta de sua relação pelo contratante que os observa pelo binóculo. Assim, o isolamento e a distância deles no acampamento se revelam ao expectador uma ilusão de proteção sem a qual talvez não tivessem se envolvido. A ordem para que desmontem o acampamento e tragam o rebanho de volta para a planície um mês antes do combinado é mal recebida por Ennis, cujo mau humor o leva a iniciar uma briga em que ambos saem feridos e com as camisas manchadas de sangue.

Os amigos retornam para a planície. Aparentemente, aquela relação terminaria em meio às sanções sociais. Isso parece corroborado quando, após a contagem das ovelhas, os amigos se despedem sem trocar nem um aperto de mão. Pelo retrovisor de sua caminhonete velha, Jack observa Ennis seguindo pela estrada. O que não vê é a dor que se apodera do caminhante, uma verdadeira reação de corpo e alma que o leva a procurar um canto na estrada pensando que vai vomitar, mas termina por chorar escondido e esmurra a parede diante do sofrimento da separação.

Não é uma experiência comum a todas as pessoas constatar que seus sentimentos mesclam o desejo amoroso com o medo de ser rejeitado e perseguido. Um amor que não pode ser declarado e tem como lugar o segredo é vivenciado como contradição diante da sociedade. É assim que o filme retoma o tema do amor proibido presente em melodramas, mas o enriquece por confrontar os sentimentos dos protagonistas não com restrições circunstanciais, mas com toda a ordem social que os rejeita.

Ennis casa-se com Alma, tem duas filhas e sobrevive em trabalhos brutos. A pobreza e a conformidade aos padrões sociais marcam Ennis de maneira tal que é difícil dissociar sua condição econômica desfavorecida da vida restrita a que se conforma. Jack é mais ambicioso e em um rodeio conhece uma moça texana rica, filha de um comerciante de equipamentos agrícolas, com a qual se casa e tem um filho.

Quatro anos depois da despedida, Jack envia um cartão a Ennis perguntando se poderia visitá-lo. Ele responde: "Pode apostar que sim". A cena do reencontro é uma das mais dramáticas do filme, pois os dois não conseguem se conter e trocam beijos do lado de fora da casa enquanto Alma os vê pela vidraça. A beleza da paixão incontida se mescla ao susto da esposa ao descobrir o segredo do marido.

Pela segunda vez, o amor dos dois se converte em um segredo aberto1 e, dessa forma, o filme leva o expectador a temer pelo futuro dos dois apaixonados que estão mais expostos e vulneráveis do que imaginam. Além disso, nos vemos no dilema entre a cumplicidade com os amantes e a simpatia pela esposa traída. A obrigação social de se relacionar com pessoas do sexo oposto, a heterossexualidade compulsória, enreda todos em suas teias, inclusive as companheiras.2

Logo depois do reencontro, Jack propõe que abandonem suas vidas de casados e construam outra juntos em um rancho isolado. Ennis relata que na infância sabia de um casal de homens que, apesar de sérios e trabalhadores, eram motivo de piada em sua comunidade. Um dia, seu pai o levou para o ver o cadáver de um deles, o qual fora assassinado e jogado no canal de irrigação. Segundo Ennis, provavelmente seu pai fizera o serviço. Assim, pondera que dois homens não podem viver juntos e só lhes resta se conformarem a encontros esporádicos na montanha.

Contraditoriamente unidos por meio de uma separação e pelo distanciamento da sociedade, vivem, ao mesmo tempo, seu amor e seu segredo. A obrigação social da invisibilidade se expressa nos silêncios que perpassam a história e a enriquecem, pois são justamente os silêncios que caracterizam relações entre indivíduos estigmatizados. Nenhum dos protagonistas diz eu te amo. O que não pode ser dito é convertido em uma troca de olhares a partir de um código de iniciados. A comunicação por olhares converte o amor do julgamento moral no da cumplicidade estratégica entre os subalternizados. O que os une, assim, é tão particular aos dois quanto socialmente moldado.

Alma separa-se de Ennis e ele se apega ao trabalho duro para cumprir as obrigações com as filhas. Ensaia um romance com uma garçonete, mas se decide pela solidão. Jack, mais passional e financeiramente estável, progressivamente não se conforma com os encontros esporádicos e se envolve com um vizinho. No último encontro dos dois, Jack desfere a frase "Quem me dera saber como te deixar", diante da qual Ennis desmorona e revela que por causa do que sente pelo outro não tinha mais nada, talvez nem mesmo forças para continuar a suportar aquela situação.

Diante de um cartão que retorna com o carimbo "falecido", Ennis liga para a esposa de Jack. O relato de Lureen sobre a morte do marido em um suposto acidente com um pneu estourado é seguido por imagens de um espancamento, o que contradiz sua versão e mostra ao expectador que ele foi assassinado. O último desejo dele era o de que suas cinzas fossem espalhadas na montanha Brokeback e por isso ela enviara parte das cinzas para a família, em Lighting Flats, por achar que lá ficava o local.

Ennis segue até o rancho decadente em que vivem os pais de Jack. John Twist é um patriarca decadente cuja fala descreve o fracasso do filho. Nessa cena, descobre-se que Jack nunca escondera Ennis dos seus, mas por fim tentara mudar para ali com o vizinho texano, decisão que precipitou sua morte.

A comunicação não-verbal entre os personagens alcança seu ápice na troca de olhares entre Ennis e a mãe de Jack. Ela o convida para ir sozinho ao quarto do filho delegando a ele a intimidade e confiando-lhe um último segredo. No quarto austero e pobre, Ennis sente curiosidade pelo armário aberto e ao entrar nele percebe que, no fundo, em uma parte escondida, há um cabide com as camisas sujas de sangue pela briga no último dia de acampamento daquele verão de 1963. Em meio à penumbra e no aperto do armário ele as abraça como se nelas pudesse ainda sentir o amigo. As camisas guardadas revelam a Ennis que Jack também o amara desde o início e sofrera ao se despedirem vinte anos antes.

De volta à sala, Ennis se aproxima da mãe de Jack com as camisas em suas mãos. Eles trocam mais um olhar cordato e ela o ajuda a guardá-las em um saco de papel enquanto escutam John Twist sentenciar que as cinzas do filho serão enterradas no jazigo familiar. A mãe o mira nos olhos e pede para que ele venha visitá-los novamente. É como se fizessem um acordo para cumprir o último desejo de Jack.

Historicamente, as mulheres tornaram-se mais sensíveis a sinais não-verbais, aprenderam a identificar melhor uma emoção não representada verbalmente e decifrar o que está implícito em um diálogo. Gays, ao contrário, por serem homens que foram criados para a heterossexualidade, costumam compreender melhor o ponto de vista dos dominantes do que o seu.3 Nessa cena, Ennis passa por uma inflexão que não existe no conto. Ele terá que usar do mesmo tipo de astúcia da mãe de Jack para subverter o sistema do segredo aberto que moldou sua vida e matou seu amado.

A cena final também não existe no conto e evidencia a visão política dos roteiristas Diana Ossana e Larry McMurtry com relação às polêmicas contra o casamento gay. A filha de Ennis vai visitá-lo em seu trailer. Está com 19 anos, a mesma idade que ele tinha quando conheceu Jack. Alma Jr. vem noticiar-lhe seu casamento e pedir que ele vá à cerimônia. Ele titubeia porque tinha um rebanho para cuidar, mas aceita o convite. Quando a filha se vai, percebe que ela esqueceu seu suéter. Assim, o dobra e ao abrir o armário para guardá-lo vemos que mantém penduradas na porta as camisas velhas e um postal da montanha Brokeback. É como se mirasse o amor perdido e cujas cinzas nem lhe pertencem – a prova de amor mantida em segredo. Com o olhar turvo diz: "Jack, eu prometo" e fecha o armário. A câmera se fixa na imagem da porta fechada, bem ao lado da janela, enquanto a bela música de Gustavo Santaolalla se eleva.

A história que já era conhecida nos bastidores de Hollywood como o melhor roteiro impossível de se produzir demorou sete anos a se materializar em um filme de orçamento baixo e que, tudo indicava, seria relegado a um circuito alternativo. Ao contrário do esperado, a obra tornou-se sucesso de público e de crítica. Nos Estados Unidos, sua repercussão foi beneficiada pelo conhecimento geral de que a história se passa na região em que um rapaz gay, Martthew Shepard, foi brutalmente assassinado em 1998. Também é o local de origem de George W. Bush, presidente eleito em meio à controvérsia de acrescentar uma emenda à constituição proibindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

No Brasil, a recepção se dá quando o casamento gay alcança certa relevância na mídia, mas o decisivo parece ser o fato de que em nossa sociedade é forte a invisibilização de amores como o de Ennis e Jack. O armário continua a existir e o segredo ainda é regra para a imensa maioria das pessoas que amam outras do mesmo sexo, em especial as que vivem em cidades pequenas e médias. Nesse sentido, o filme tem maior alcance por deslocar a problemática de uma classe média cosmopolita, daqueles que podem ser mais apropriadamente chamados de gays, para pessoas menos favorecidas e mais expostas às sanções morais e à violência.

Brokeback Mountain mostra como vivemos em uma sociedade estruturada no jogo do visível e do invisível, do dito e do silenciado, do plenamente vivido e do que é mantido em segredo. A mesma ilusão de invisibilidade que permite que o amor entre Jack e Ennis se realize na montanha os aprisiona na condição do segredo aberto. Nele, a rejeição da relação é dupla: pelos parceiros amorosos que a concebem como questão privada e pelos que sabem e convertem-se em algozes. O contratante expressa sua repulsa por Jack quando ele retorna em busca de emprego; Alma, a esposa traída, revela seu nojo pela relação do marido em uma conversa enquanto a esposa de Jack termina como a provável mandante de seu assassinato. Todos, sem exceção, são enredados no mesmo mecanismo social que constitui a experiência de vida dos protagonistas.4

A estrutura do segredo aberto e o fim de Jack expõem o caráter elusivo da escolha entre viver escondido ou sair do armário. Aqueles que vivem seu amor de forma clandestina estão expostos ao perigo e quanto mais o segredo é aberto mais rigor e violência emergem para a manutenção das normas sociais. Quem sai do armário coloca outros dentro dele. Alma, sem poder viver mais o conflito do segredo do marido, pede o divórcio, mas a esposa de Jack vê-se jogada contra a ordem social pela decisão do marido de a deixar e reage de forma assassina.

A obrigação social da invisibilidade mantém atual o amor impossível expresso na metáfora clássica do viver no armário. Os roteiristas enfatizam essa experiência nas cenas finais ao focarem as camisas sujas de sangue, símbolo dos conflitos da relação. De um armário ao outro, o amor é mantido em segredo por vinte anos, o que o filme dramatiza de forma a politizar o privado e fazer da história de amor de Ennis Del Mar e Jack Twist um épico em que um casal marginalizado revela-se heróico até no fracasso. Enquanto no final do conto permanece o conformismo de que se deve agüentar o que não tem jeito, na versão escrita pelos roteiristas Ennis fica entre o segredo no armário e a promessa de não aceitar as coisas como elas ainda são.

 

Notas

1 Cf. Eve SEDGWICK, 1993, p. 53.

2 Sobre heteronormatividade consulte Joan SCOTT, 1998, e SEDGWICK, 1993.

3 Pierre BOURDIEU, 1999, p.42-43.

4 Cf. SCOTT, 1998.

 

Referências bibliográficas

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

SCOTT, Joan W. "A invisibilidade da experiência". Projeto História, São Paulo, n. 16, p. 297-325, fev. 1998.

SEDGWICK, Eve K. "The Epistemology of the Closet." In: ABELOVE, Henry; BARALE, Michèle Aina, and HALPERIN, David (eds.). The Lesbian and Gay Studies Reader. London/New York: Routledge, 1993. p. 45-61.

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