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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.14 no.2 Florianópolis May/Sept. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2006000200021 

RESENHAS

 

Encontros de gênero, família e trabalho no Brasil atual: múltiplas dimensões de pesquisa

 

 

Rita de C. Flores Muller

Universidade Federal de Santa Catarina

 

 

Gênero, família e trabalho no Brasil.
ARAÚJO, Clara; SCALON, Celi (Orgs.).
Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005. 304 p.

Clara Araújo e Celi Scalon são as organizadoras do livro Gênero, família e trabalho no Brasil, uma coletânea dos trabalhos realizados no âmbito da pesquisa "Gênero, trabalho e família", financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). Clara Araújo é doutora em sociologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduacão em Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Celi Scalon é doutora em sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro, onde é professora.

De caráter pioneiro, a pesquisa integra-se a um programa internacional comparativo entre vários países, o International Social Survey Programme (ISSP), e consta de um survey nacional de atitude e opinião referente às relações de gênero na esfera da família e do trabalho. Dando voz a homens e mulheres de todo o Brasil, o estudo amplia o conhecimento de questões fundamentais da sociologia contemporânea, no que se refere às significativas mudanças ocorridas no século XX, na situação das mulheres e da família.

O livro está estruturado em nove capítulos, em que especialistas de diferentes instituições diversificam os olhares e multiplicam as dimensões de análise dos dados. São eles: Bila Sorj, Carlos Antônio Ribeiro, Clarice Peixoto, Felícia Picanço, Marlise Matos, Paola Cappellin, Rosana Heringer, Zuleica Oliveira e Dayse Miranda.

Uma visão panorâmica dos temas abordados na pesquisa é o que o leitor encontra logo no primeiro capítulo, de autoria das coordenadoras Clara Araújo e Celi Scalon. Esse capítulo está dividido em cinco partes. Na primeira, há a apresentação do perfil socioeconômico e demográfico, bem como as características dos arranjos familiares dos entrevistados. A segunda parte dedica-se às percepções sobre papéis sexuais, conciliação entre vida doméstica e trabalho, o lugar da mulher nessa conciliação, conjugalidade e satisfação pessoal e familiar. As "práticas" dos entrevistados – o que dizem fazer em relação a tarefas domésticas, cuidados com os filhos, tomadas de decisões e atividades de fim de semana – é a abordagem da terceira parte do capítulo. A quarta parte estabelece relações entre as percepções, valores e práticas relatadas pelos indivíduos da pesquisa, utilizando-se de análises multivariadas e de um modelo estatístico. Na quinta e última, as autoras analisam, brevemente, as percepções dos indivíduos sobre satisfação pessoal com o trabalho e com a família. Indicam ainda, a partir das relações de gênero, os principais traços do Brasil de hoje, no tangente à conciliação de família e trabalho pago.

No segundo capítulo, "Percepções sobre esferas separadas de gênero", Bila Sorj identifica tendências na percepção das desigualdades relativas à divisão sexual do trabalho, elegendo variáveis relacionadas aos papéis tradicionalmente atribuídos a homens e mulheres. O declínio da família nuclear, a ascensão das famílias monoparentais femininas, o aumento das taxas de separação e divórcio, a queda da fecundidade e o maior nível de escolaridade das mulheres aliam-se à atuação do movimento feminista na redefinição das identidades de gênero diante das desigualdades.

Ao elencar as mudanças, a autora nos convida a pensar em que sentido os valores tradicionalmente estabelecidos em relação à família e aos papéis de gênero estariam tendendo à igualdade nos campos da família e do trabalho. Bila Sorj aponta vetores fundamentais à aquisição de um sistema igualitário de gênero, vetores estes correlacionados à participação no mercado de trabalho, aos níveis mais elevados de instrução e ao pertencimento a gerações mais jovens.

Marlise Mattos, no terceiro capítulo, "A democracia não deveria parar na porta de casa: a criação dos índices de tradicionalismo e de destradicionalizacão de gênero no Brasil", cria um índice baseado nos dados do survey com o objetivo de avaliar como homens e mulheres relacionam trabalho doméstico e trabalho fora de casa. A limitação metodológica na utilização do instrumento de pesquisa adotado foi problematizado pela autora, inclusive no que se refere às suas análises. A começar pelo fim, Marlise Mattos lança inquietas e convidativas questões concernentes ao vazio, ao gap deixado pelos movimentos feministas no Brasil, no que ela discute como sendo o processo de destradicionalizacão. Se, de um lado, ativistas da causa conquistam direitos nas esferas de saúde, sociais e partidárias, de outro, permanecem alheias aos mais íntimos padrões e papéis culturais de gênero.

"A provisão da família: redefinição ou manutenção dos papéis?" é a questão de Zuleica Lopes Cavalcanti de Oliveira no quarto capítulo do livro, em que analisa a provisão familiar, considerando a dissociação entre o papel de "chefe de família" e a função de provedor, em quatro níveis analíticos. O primeiro examina essa relação considerando, separadamente, a contribuição desse chefe, da mulher cônjuge e dos filhos de ambos os sexos. O segundo foca a análise na contrastante categoria mulher cônjuge, a saber: as donas-de-casa em tempo integral e as trabalhadoras assalariadas em tempo integral. Já o terceiro nível contempla, particularmente, as categorias do homem e da mulher de referência, termo que substituiu o de "chefe de família" no estabelecimento do princípio de igualdade entre os cônjuges, introduzido pela Constituição Federal de 1988, e reafirmado pelo novo Código Civil, em vigor desde 2003. E, por fim, o quarto nível analisa as percepções sobre a renda ideal, segundo cada categoria familiar distinta.

Indicando haver um tipo de dominação de gênero que difere daquela exercida pela sociedade patriarcal, a autora aponta uma nova configuração das desigualdades, calcadas no plano simbólico. O que permanece é a associação do feminino ao espaço privado da família, apesar da crescente participação das mulheres cônjuges no espaço público. Esse descompasso entre as práticas e os valores dificulta a identificação de novas identidades sociais, tanto para homens como para mulheres. Enquanto o papel da mulher cônjuge permanece subordinado à assimetria dos papéis familiares, o papel de chefe de família dilui-se na invisibilidade social.

Felícia Silva Picanço é a autora do quinto capítulo. Em "Amélia e a mulher de verdade: representações dos papéis da mulher e do homem em relação ao trabalho e à vida familiar", ela analisa os impactos da entrada da mulher no mercado de trabalho e de sua participação no orçamento familiar. A isso relacionam-se as representações dos papéis masculino e feminino na esfera doméstica e profissional. O capítulo divide-se em duas seções. Na primeira, há o mapeamento da adesão de homens e mulheres a dois modelos: o modelo da mulher dedicada à casa e aos filhos e do homem provedor; e o modelo da mulher partícipe da atividade produtiva fora de casa e do homem partícipe da atividade doméstica. A segunda seção mapeia a adesão desses grupos a opiniões que expressam percepções do impacto do trabalho da mulher na vida familiar.

"Classe e gênero no Brasil contemporâneo: mobilidade social, casamento e divisão do trabalho doméstico" é o título do sexto capítulo, de Carlos Antônio Costa Ribeiro. Pautado em dois objetivos, o autor define algumas formas de interação ou não-interação entre classe e gênero em casais heterossexuais na sociedade brasileira contemporânea. Contribuir para o entendimento da desigualdade de gênero e classe, bem como discutir os mecanismos mais gerais de estratificação social são esses objetivos. Ambos centram-se em três temas relevantes para essa reflexão, articulados a classes sociais: mobilidade, casamento e divisão doméstica do trabalho.

A variável cor/raça presente no survey é o que as autoras Rosana Heringer e Dayse Miranda abordam no capítulo sete, "As cores da desigualdade de gênero no Brasil". À luz da questão racial brasileira, são analisadas as diferenças entre as percepções de homens e mulheres sobre os papéis de gênero, no âmbito familiar e no mercado de trabalho. As diferenças intra-raciais (entre homens e mulheres negras) e inter-raciais (entre mulheres negras e brancas) foram levadas em consideração. Testes estatísticos foram realizados, a partir das respostas concernentes às percepções dos entrevistados, para formular a hipótese de que o componente cor está intimamente relacionado às variáveis demográficas, econômicas e de níveis de escolaridade.

No oitavo capítulo, "Solidariedade familiar intergeracional", Clarice Ehlers Peixoto analisa a solidariedade, esta dimensão material e afetiva que constitui a base das relações familiares. Com os dados presentes no survey e em pesquisas nacionais e internacionais sobre o tema, a autora centra-se na participação dos avôs e das avós na vida familiar e no cuidado com as crianças: com quem ficam, quem as leva à escola e quem as leva ao médico. No universo de avôs e avós com mais de 50 anos, provenientes de famílias das camadas populares, de aposentados e de donas-de-casa, a solidariedade estabelece circuitos de reciprocidade e complexifica os vínculos sociais. Clarice Peixoto infere, ainda, sobre o vínculo privilegiado entre mães-avós e filhas-mães como uma tendência constitutiva da identidade feminina.

O nono e último capítulo do livro, de Paola Cappellin, "Conciliar vida familiar e trabalho em tempo de crise do emprego: territórios e fronteiras entre público e privado", possibilita revisitar os significados do comprometimento familiar e profissional, no que diz respeito às atitudes e às representações do valor atribuído ao trabalho e à responsabilidade familiar. Os territórios e as fronteiras são aqui representados pelas capitais, médios e pequenos centros urbanos, espalhados por todo o Brasil. Partindo do pressuposto de que o grande centro urbano é o território mais fértil, acolhedor e permeável às inovações nas relações de gênero, a autora provoca o diálogo entre realidades diversificadas pelas formas de sociabilidade, pelo peso e complexidade dos constrangimentos que circunscrevem o cotidiano e pela densidade da maturidade individual.

Gênero, família e trabalho no Brasil consolida-se como uma obra atual, mais que oportuna, relevante. Por ser um estudo internacional, possibilitará enriquecedoras comparações entre o Brasil e outros países. Por se tratar de um survey nacional, contou com um conjunto representativo de respostas não só de mulheres, mas também de homens. Por reunir especialistas que abordam o tema em múltiplas dimensões, a coletânea constitui-se como um campo investigativo da sociologia da família. Um campo fértil na elaboração de novas perguntas e futuras investigações qualitativas e quantitativas.

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