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Revista Estudos Feministas

versão impressa ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. v.14 n.3 Florianópolis set./dez. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2006000300002 

ARTIGOS

 

Teorias feministas e representações sociais: desafios dos conhecimentos situados para a psicologia social

 

Feminist Theories and Social Representations: challenges of the situated knowledges for social psychology

 

 

João Manuel de OliveiraI; Lígia AmâncioII

ICentro de Investigação e de Intervenção Social
IIInstituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa

 

 


RESUMO

Este artigo visa analisar o contributo das teorias feministas para as epistemologias e práticas metodológicas das ciências sociais, nomeadamente da psicologia social. Partindo da apresentação das propostas feministas da Terceira Vaga para as ciências e da epistemologia dialógica das representações sociais, discutimos as possibilidades de uma conceptualização assente nos conhecimentos situados para o desenvolvimento de saberes científicos emancipatórios. Assim, analisaremos o modo como os conhecimentos situados e os desafios que colocam podem engendrar uma mudança nas práticas científicas da psicologia social e das ciências sociais.

Palavras-chave: teorias feministas; representações sociais; conhecimentos situados; psicologia social; epistemologias.


ABSTRACT

This paper aims at analysing the contribution of feminist theories for the epistemology and methodological practices of the social sciences, namely of social psychology. Departing from the presentation of Third Wave feminist proposals and from the dialogical epistemology of social representations, we discuss the possibilities for a conceptualisation based on situated knowledges, for the development of emancipatory scientific knowledges. Hence, we will debate the way how situated knowledges and the challenges they pose can change scientific praxis in social psychology and in social sciences.

Key Words: Feminist Theories; Social Representations; Situated Knowledges; Social Psychology; Epistemologies.


 

 

A crítica feminista à ciência na Terceira Vaga do Feminismo

Uma das principais preocupações do feminismo de Terceira Vaga tem sido a crítica feminista à ciência e os estudos feministas da ciência.1 Animadas por um espírito crítico e reflexivo, essas críticas emergem a partir dos anos 19702 e estendem-se a quase todas as disciplinas do conhecimento científico. Logo no pós-guerra, Simone de Beauvoir3 empreende uma série de críticas aos pressupostos androcêntricos quer da filosofia, quer da ciência e da sua persistência em apresentar uma visão do mundo centrada na qualidade referencial do masculino e da alteridade do feminino.

A evidência de que a maioria dos cientistas são homens,4 a denúncia do androcentrismo5 na produção científica6 e a preocupação em construir modelos de ciência politicamente implicados7 são alguns dos pressupostos da crítica feminista à ciência. Igualmente, a transição do modelo das cientistas 'excepcionais e excluídas', até a emergência do movimento das mulheres, para passarem a ser uma 'minoria tolerada', a partir dos anos 1970, apesar das permanências nessa mudança,8 contribuiu para a emergência dessa reflexão feminista sobre a ciência.

Deve-se a Sandra Harding9 uma primeira tipologia dos modelos de crítica feminista à ciência, estruturando esse campo de estudos. Dessa forma, para o empirismo feminista, o cerne de preocupação é a discriminação e sub-representação das mulheres na ciência. A manutenção das metodologias positivistas permite apresentar evidências inquestionáveis dessa sub-representação, mantendo assim intocados os valores da neutralidade e da objectividade. Ou seja, consiste em fazer ciência mantendo os valores dominantes da cultura científica tradicional. Portanto, a solução para essa sub-representatividade consiste nas medidas de acção afirmativa e também em medidas de atracção de jovens licenciadas para a investigação, em uma tentativa de aumentar a representação das mulheres nas disciplinas. Os principais questionamentos que têm sido colocados a essa linha de orientação são essencialmente a manutenção das crenças positivistas fora do escrutínio da crítica feminista, a operacionalização dessa proposta, bem como o seu carácter a-político, uma vez que continua a funcionar dentro do paradigma da ciência normal10 sem analisar as teorias e métodos imbuídos de androcentrismo. Nas palavras de Harding, o empirismo feminista implica que

o sexismo e o androcentrismo poderiam ser eliminados dos resultados da investigação, se os cientistas simplesmente seguissem de forma mais rigorosa e cuidadosa os métodos existentes e as normas de pesquisa.11

Já no caso das teorias do standpoint,12 herdeiras directas do feminismo radical,13 as mulheres cientistas são consideradas oprimidas pela comunidade científica, também ela patriarcal. Antes de serem cientistas, partem de um determinado posicionamento na hierarquia social (etnicidade, sexo, classe, orientação sexual, nacionalidade, etc.). Esse posicionamento é, pois, lido de forma a ser integrado na investigação propriamente dita. Assim, as mulheres seriam as cientistas ideais para estudarem as mulheres, evidenciando um privilégio epistémico que adviria da sua própria condição feminina. O conhecimento é assumidamente parcial, contextualizado14 e experiencial. A ideia da experiência feminina e da necessidade de dar voz às mulheres15 é, pois, uma das maneiras de combater essa opressão patriarcal instalada na ciência. O desenvolvimento de teorias e métodos radicalmente diferentes dos convencionais-positivistas, assentes nos posicionamentos e nos percursos das mulheres, enfatiza a utilização das biografias, como forma de traduzir a experiência feminina e o modo único como olham o mundo. Das principais críticas a essas epistemologias, sobressaem o essencialismo e o consequente diferencialismo que preconizam, por estarem assentes num privilégio epistémico derivado da condição feminina, ou seja, da pertença ao grupo das mulheres.16

O pós-modernismo feminista é uma corrente de pensamento que se localiza na Terceira Vaga do feminismo e que vai buscar ao movimento pós-modernista e pós-estruturalista as suas principais influências.17 Rejeitando as propostas essencialistas e diferencialistas das teorias do standpoint e a abordagem a-política do empirismo feminista, essa linha crítica centra-se na construção genderizada do projecto da ciência moderna. Esse projecto político-ideológico serviu e serve a uma série de interesses e contribuiu para a eclosão e exclusão de determinados grupos, nomeadamente o grupo das mulheres. A própria ideia do grupo das mulheres enquanto categoria ontológica é posta em causa, dado que essa grande categoria ilude as divisões intracategoriais. Nas palavras de Donna Haraway,

Com o reconhecimento, tão arduamente conquistado, da sua constituição histórica e social, o género, a raça e a classe não podem constituir a base para a crença na unidade 'essencial'. Não existe nada no facto de ser 'fêmea' que vincule naturalmente as mulheres. Não existe sequer o estado de 'ser' fêmea, uma categoria em si mesma altamente complexa, construída em contestados discursos científico-sexuais e outras práticas sociais.18

É, pois, partindo desse pressuposto, dessa miríade de realidades que se escondem atrás da homogeneização categorial, que eclodiram os feminismos mais localizados, como sejam o feminismo negro,19 o feminismo lésbico,20 entre outros, e mesmo feminismos que cruzam essas várias categorias, problematizando género, 'raça' e orientação sexual.21 São também esses feminismos que contribuem para a problematização que o(s) feminismo(s) pós-moderno(s) vêm a fazer dessa categoria, que passa a ser entendida como uma construção social e ideológica, inserida nas grandes narrativas de legitimação.22 A definição de género desenvolvida por Haraway também é elucidativa no quadro dessa questão da emergência de feminismos localizados:

O gênero é uma relação, não uma categoria pré-formada de seres ou algo que alguém possa ter na sua posse [...]. O gênero é a relação entre categorias de homens e de mulheres, constituídas de forma variada e diferenciada por nação, geração, classe, linhagem, cor e muito mais.23

Essa relação entre feminismo e pós-modernismo é tensa, como evidencia Conceição Nogueira,24 recorrendo às controvérsias entre adeptas e contestatárias dessa relação, pois o carácter relativista do pós-modernismo e a sua crítica às metanarrativas de legitimação podem inclusivamente pôr em causa o próprio movimento, dado que desconstrói o seu sujeito histórico: a mulher. Contudo, o feminismo pode também contribuir para balizar o relativismo, instaurando no centro do debate uma preocupação política partilhada pelas feministas: a desconstrução da grande narrativa do homem branco, moderno e ocidental.25

Há assim uma preocupação em estabelecer uma agenda desconstrucionista,26 politicamente orientada, e enfatizar o papel da linguagem na construção do género e do androcentrismo.

A integração dos conceitos foucaultianos de poder, encarado como um poder difuso, construído nas interacções e no discurso,27 e de resistência permite ainda proceder à arqueologia da construção social do género e vê-lo como um discurso, uma performance incorporada de actos repetidos.28 O género é, pois, entendido como uma ordem social,29 que antecede o sexo e que fornece uma grelha de leitura e de performance para o próprio sexo.30

O papel da linguagem e do discurso na construção e difusão dessa ordem de género é estruturante e as investigações centram-se em métodos como a análise do discurso,31 que integram uma dimensão política, analisando o modo como género e poder são reconstruídos e reproduzidos na linguagem.

É partindo desse enquadramento na teoria feminista pós-moderna que Haraway32 desenvolve a sua crítica às epistemologias tradicionais da ciência. Recorrendo, para além da reflexão epistemológica feminista, às perspectivas construcionistas dos estudos sociais da ciência e tecnologia,33 Haraway evidencia que os cânones tradicionais do método científico e da objectividade não são uma descrição adequada do modo como a ciência é feita. A exclusão das relações/redes de poder do conhecimento científico34 faz parte da retórica da ciência e das suas narrativas de legitimação enquanto saber/poder e forma de poder disciplinar.35 A objectividade é, pois, uma dessas estratégias discursivas e visa, por seu turno, estabelecer as verdades e os factos científicos.

Dessa forma, essas reivindicações de verdade de que se reveste a objectividade podem ser desconstruídas, evidenciando quer a sua contingência histórica, quer a sua consequente contestabilidade. Mas essa desconstrução, precisamente por ser balizada pela implicação política feminista, deve evitar, por um lado, cair no universalismo e por outro no relativismo. "O relativismo é um modo de estar em sítio nenhum, enquanto se declara estar igualmente em toda a parte".36 Tanto a totalização universalista como a negação de responsabilidade relativista impedem quer o escrutínio, quer a responsabilização pela construção do conhecimento. Assentes na lógica de uma visão deslocalizada, ambas as perspectivas obscurecem os pontos da rede onde o conhecimento é produzido. Tanto as visões infinitas como a visão simultânea de todos os pontos de vista são ilusórias.

Os conhecimentos situados são a proposta epistemológica de localização e de consideração da contextualidade do conhecimento, no quadro da sua produção. Ou seja, implica partir do princípio de que os conhecimentos têm um ponto de partida e de produção. E que se integrem na análise as condições de produção do conhecimento, os seus pressupostos, o locus da sua produção, em vez de se optar por aquilo que a autora chama "truque divino" (God trick), que obscurece o carácter localizado do conhecimento e o apresenta simultaneamente como um resultado final e como uma lei universal (seguindo os pressupostos positivistas), sem ser possível descortinar o processo nem a sua localização no mundo.

Os conhecimentos situados correspondem a uma incorporação dos saberes, partindo da opção pela responsabilidade na produção dos saberes e pela sua localização sócio-histórica. Assim, a objectividade na produção feminista assenta-se na parcialidade, no olhar contextualizado, em vez dos falsos universalismos da ciência positiva, indissociavelmente inscrita na metanarrativa patriarcal e moderna, em busca de verdades para a sua autolegitimação. A própria constituição de um sujeito que conhece não é unificada, como pretendiam as filosofias assentes na estrita separação entre sujeito e objecto. As subjectividades são múltiplas, localizadas e construídas, de modo que o próprio sujeito que conhece é parcial, ligando-se aos outros, por via da inter-subjectividade. Desse modo, não é a identidade37 que estrutura a posição de quem investiga, mas sim a afinidade parcial. Em outras palavras, a própria objectividade reside na contextualização do conhecimento. Essa perspectiva demonstra a irracionalidade inerente à ciência positiva omnisciente e às crenças no dogma de uma objectividade que reside no método, que se comporta como religião, que utiliza truques divinos como a fetichização do método, para eliminar a localização e posição do conhecimento.

 

Teoria das Representações Sociais

Em uma obra sobre a história da psicologia social,38 Robert Farr distinguiu duas formas específicas da disciplina: 1) as formas psicológicas, que se tornaram dominantes nos Estados Unidos e estão vinculadas aos valores do cepticismo e do individualismo; e 2) as formas sociológicas, baseadas na importância fundamental do outro e conseqüentemente do social para definir (e representar) o indivíduo.

O paradigma cartesiano foi bastante influente na forma psicológica da disciplina, permitindo aquilo a que Carl Grauman39 chamou de individualização do social e dessocialização do indivíduo. A obra filosófica de Descartes opõe mente e corpo,40 sujeito e objecto, ego e outro.

Essas oposições podem ser encontradas quer na psicologia comportamentalista, quer na cognição social, que têm assim por base o mesmo paradigma, embora dissimulado em duas diferentes abordagens filosóficas: empirismo e racionalismo, como é bem demonstrado por Ivana Marková.41

Utilizando como unidade de análise o indíviduo, o percepiente (perceiver), o sujeito, essas abordagens da psicologia social falham na conceptualização do outro e da sua importância para a própria definição da identidade pessoal.42

Mikhail Bakhtin43 propõe uma nova epistemologia para as ciências sociais e humanas, que podemos contrapor a essas propostas clássicas da psicologia social. Primeiro procede a uma distinção entre explicação (erklären) e compreensão (verstehen). A explicação só é possível num enquadramento em que se possa estabelecer a separação entre sujeito e objecto, o que acontece apenas quando o objecto é desprovido de voz (voiceless) ou discurso, como preferiria a psicologia discursiva. Contudo, os seres humanos não são desprovidos de voz, nem o é o seu pensamento. Consequentemente, o acto de conhecer inclui um diálogo entre dois ou mais sujeitos.

A proposta de Bakhtin tem implicações directas para as ciências sociais, que devem assumir uma compreensão activa desse diálogo, e em vez de uma análise que oponha sujeito e objecto, à boa maneira positivista e monológica, a cognição deve passar a ser encarada de forma dialógica, analisando as cognições em interacção, com diferentes racionalidades e intencionalidades em jogo. Assim, a epistemologia dialógica implica invalidar a distinção sujeito-objecto e as homologias self-sujeito e outro-objecto. Em vez disso, atribui ao outro o estatuto epistémico de outro sujeito.

Um exemplo dessa epistemologia dialógica na psicologia social é a Teoria das Representações Sociais. Moscovici44 raciocina de modo semelhante quando concebe o chamado triângulo semiótico. Para o autor, a relação de conhecimento que importa estudar na psicologia social implica sempre a existência de um outro (o social) que condiciona o acto de conhecimento de um objecto. Estamos, pois, perante um projecto de análise da co-construção do conhecimento, rejeitando as análises cartesianas do conhecimento individual como a verdadeira racionalidade, classificando o conhecimento colectivo como irracional, relacionado com crenças e preconceitos e sujeito a enviesamentos. Podemos, assim, classificar essa proposta de Moscovici45 como uma epistemologia dialógica.

Assim, a Teoria das Representações Sociais assenta-se em uma concepção do conhecimento como um processo de construção colectiva, em espaços de inter-subjectividade,46 rejeitando as metáforas emergentes das divisões ontológicas entre sujeito e objecto, assentes em epistemologias monológicas, excessivamente imbuídas de concepções individualistas do conhecimento, como é bem demonstrado por Farr.47 Sandra Jovchelovitch48 critica justamente as abordagens cognitivistas, pela sua inépcia em lidar com os processos de construção colectiva de significados e por considerarem que os sujeitos, que não se recordam e não percepcionam 'correctamente' (ou seja, de acordo com o que o investigador esperava como resposta correcta), incorrem em erros/enviesamentos (bias). Essas abordagens cognitivistas não levam em conta a actividade simbólica, isto é, a actividade de produção de significado. Também Moscovici49 fez a crítica quer às posições do comportamentalismo, quer às posições do cognitivismo, por via da constatação do mecanicismo dessas perspectivas e sugerindo a metáfora da machine à répondre e da machine à inférer para descrever a representação do ser humano nessas perspectivas.

Simultaneamente, esse projecto de reposicionamento da produção e reprodução do conhecimento como um processo generalizado e socialmente partilhado coloca uma questão de fundo, que a nosso ver é fundamental: a emancipação da psicologia social como disciplina autónoma das lógicas individualistas da psicologia e das lógicas estruturais da sociologia clássica. Ao reclamar a produção colectiva de conhecimento como objecto da psicologia social, Moscovici50 atribui um objecto (a sociedade pensante) à disciplina, obrigando-a, em última instância, a adoptar o papel de Janus das ciências sociais,51 articulando níveis de análise em uma tentativa de encetar uma antropologia da cultura moderna.52

A re-utilização do conceito de polifasia cognitiva53 permite enfatizar a relação de interdependência entre representações sociais e contextos:

De um modo geral, podemos estimar que a coexistência dinâmica – interferência ou especialização – de modalidades distintas de conhecimento, que estabelece relações definidas entre o ser humano e o seu meio, determina um estado de polifasia cognitiva.54

Esse conceito55 foi criado por Moscovici56 para dar conta da coexistência de diferentes racionalidades, presentes no mesmo indivíduo ou grupo. O uso particular de uma ou outra racionalidade dependeria do contexto e da intenção.57 A polifasia cognitiva evidencia um grande potencial para esse projecto de estudo do conhecimento socialmente partilhado: para além da busca da harmonia, da consistência, da consonância cognitivas, a expressão das representações assume um carácter contextual e estratégico, dotando os seres humanos de agencialidade, ainda que dentro do quadro de uma estrutura social de conhecimento partilhado, que é usada de forma simultaneamente reflexiva e prática.

Mais recentemente, Serge Moscovici e Georges Vignaux58 adicionaram um novo conceito à teoria, baseado nos trabalhos de Gerald Holton59 sobre ideias-chave que regulam a produção de novos conceitos dentro da comunidade científica, os "themata". Alargando o âmbito desse conceito, Moscovici afirma que "os themata são pedaços de conhecimentos, partilhados pelas pessoas, sobre os quais falam, de forma explícita ou implícita, e que tomam como garantidos".60 Esse conceito traduz mais uma ligação das representações à linguagem. Os "themata" são ideias centrais a partir das quais criamos representações, por via de um passado histórico, que constantemente re-emerge nas transformações das representações sociais.61 Esse diálogo com o passado permite introduzir uma dimensão histórica nos estudos das representações sociais, alargando os seus objectos e contextualizando-os na história.62 Por exemplo, João Manuel de Oliveira63 mostra como a Igreja Católica utiliza o thema da vida para ancorar o feto, opondo-lhe o thema da morte para ancorar o aborto e, dessa forma, legitimar com essas idéias-base de vida versus morte o seu discurso em relação ao aborto.

A integração da linguagem, patente quer na preocupação com os "themata", quer na análise das modalidades ou géneros comunicativos,64 não é descurada, por via da relação entre representações e comunicação.

A explicitação e apresentação desse quadro teórico permite-nos apresentar uma definição consensual do conceito de representações sociais desenvolvida por Denise Jodelet: "Uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, com um objectivo prático e que concorre para a construção de uma realidade comum a um colectivo".65

Essa definição ilustra bem as potencialidades da teoria, que estuda o senso comum, olhando para a forma como essas representações têm uma finalidade prática e são usadas para construir uma realidade, em indivíduos que pensam no seio de sociedades pensantes.

Consideramos, como esperamos ter demonstrado, que a Teoria das Representações Sociais pode ser lida à luz das seguintes características-chave:

1) contextualidade da produção do conhecimento;66

2) dialogismo e co-construção como base das cognições;67

3) importância da dimensão histórica na produção do conhecimento.68

No plano epistemológico, esses pressupostos permitem à Teoria das Representações Sociais:

a) rejeitar o indíviduo como unidade de análise básica da psicologia social, sendo este substituído pela relação ego-alter-objecto;69

b) optar por formas sociológicas da psicologia social;70

c) enfatizar a dimensão simbólica da produção de significados;71

d) contextualizar o conhecimento na história.72

 

Os desafios dos conhecimentos situados

A ênfase no carácter situado do conhecimento, no quadro da Teoria das Representações Sociais, parece ir ao encontro da proposta de Donna Haraway,73 clarificada no conceito de conhecimentos situados, nomeadamente nesse entendimento do conhecimento como um projecto partilhado e colectivo, criado nos contextos e na dinâmica histórica dos símbolos.

Contudo, essas propostas implicam alterações no próprio projecto do conhecimento científico, tal como vêm sendo apresentadas nas suas acepções mais positivistas. Encarando a contextualidade na produção de qualquer conhecimento, é evidente que não é possível continuar a aceitar a clivagem entre conhecimento científico e outras formas de conhecimento. A ciência faz parte da dinâmica dos saberes e é feita por actores sociais, em contextos e instituições, como tem sido demonstrado nos estudos sociais da ciência.74 Logo, e como nota Haraway,75 a ciência é também localizada e situada, como também mostra Moscovici76 na sua crítica à psicologia comportamentalista e cognitivista. O conhecimento científico não pode, pois, assumir-se como um conhecimento fora do mundo, universalmente válido e assente em leis gerais, por fazer um esforço evidente de se deslocalizar e universalizar, quando é, tal como todos os outros, um conhecimento situado. Aceitar o carácter situado do conhecimento implica, pois, rejeitar a proposta de Moscovici e Hewstone77 de uma oposição fundamental entre o conhecimento reificado e o conhecimento consensual. O conhecimento científico apresenta diferentes formas de legitimação do conhecimento do senso comum. Contudo, deve ser admitido como igualmente verdadeiro o modo como sistemas de crenças e de juízos de valor interferem no pensamento científico, como tem sido amplamente demonstrado pela teoria feminista.78 Boaventura de Sousa Santos afirma: "Os pressupostos metafísicos, os sistemas de crenças, os juízos de valor, não estão antes nem depois da explicação científica da natureza ou da sociedade. São parte integrante dessa mesma explicação".79

A constatação da falência da ciência assente no modelo da razão indolente,80 que oculta e rejeita os modelos alternativos e as diferentes formas de pensar, fora da ciência moderna e ocidental, permite, pois, reivindicar um novo modo de produzir e pensar a ciência, não consonante com esse modelo do desperdício da experiência social.81

Sandra Harding82 desenvolveu três propostas para a ciência, elaboradas a partir da sua crítica às noções tradicionais da objectividade e que se posicionam contra esse modelo da razão indolente. Primeiro, o sujeito do conhecimento (quer o indivíduo, quer a(s) sua(s) comunidade(s), quer os seus pressupostos ocultos) deve ser colocado no mesmo plano do objecto do conhecimento e questionado como tal, promovendo, pois, uma ciência reflexiva. Uma segunda proposta diz respeito à dimensão política das ciências, dando voz aos que foram silenciados pela ciência mainstream e optando pela implicação política da ciência e pela rejeição da neutralidade aparente. A terceira proposta, intimamente ligada à segunda, diz respeito à clara opção pela ligação entre ciência e democracia, no sentido da promoção dos direitos humanos de todas e de todos.

É, pois, a partir dessas epistemologias críticas de uma ciência consonante com uma racionalidade indolente, que propomos, como modos de pensar uma epistemologia para uma psicologia social das representações sociais assente nos conhecimentos situados, as seguintes práticas e pressupostos (que ilustraremos com alguns exemplos de pesquisa, de várias tradições disciplinares):

a) Implicação política, em vez de falsos neutros. Os estudos de Anne Fausto-Sterling83 sobre os modos como a ciência, nomeadamente a biologia, construiu mitos de género permitiram evidenciar como o paradigma positivista centrou-se em uma visão androcêntrica dos mecanismos biológicos, usando quer os homens, quer os machos de espécies animais como modelos para pensar humanos e animais. A desocultação desses pressupostos é feita por via de uma tomada de consciência feminista, e por isso politicamente implicada, que permite tornar evidente essa construção do masculino como referente universal, remetendo a sexuação apenas para as mulheres.84

b) Contextualidade e localização, em vez de falsos universalismos. O estudo de Miguel Vale de Almeida85 sobre a construção social da masculinidade em uma aldeia do Alentejo, em Portugal, analisa o modo como um regime de género é construído localmente, por via da reprodução social dos comportamentos, emoções e saberes, assumindo expressões contextuais específicas. A ilustração desse regime local de gênero, integrada por sua vez em uma ordem de género mais geral, mostra a necessidade de descodificar, simultaneamente, expressões locais e contextuais do género e a ordem hegemónica em que esses regimes se inscrevem.

c) Reflexividade e pluralidade metodológica, em vez de fetichismos metodológicos assentes nas doxas quantitativas da psicologia social mainstream. A crítica ao positivismo que vem sendo desenvolvida nas correntes mais discursivas da psicologia social, nomeadamente por via da análise do discurso, mostra possibilidades de fuga ao endoutrinamento imposto pela formação das/dos investigadoras/es, muito centrada nas metodologias quantitativas. Contudo, e do nosso ponto de vista, o problema não reside nos métodos de investigação, mas sim nos usos que são feitos dessas metodologias. Não é pelo facto de serem quantitativos que esses métodos são inadequados ou desaconselhados. O problema é epistemológico, já foi diagnosticado por Karl Popper86 e está relacionado com a operacionalização da psicologia, que mais depressa centra-se na idolatria do método do que na integração do método como parte de um processo mais vasto e mais abrangente de produção de saber e conhecimento. Assim, torna-se evidente a necessidade de recorrer a métodos qualitativos de forma mais sistemática e, sobretudo, de reflectir sobre a articulação entre o método, a teoria e o problema da investigação.

d) Clarificação crítica de pressupostos, que orientam a produção do saber, em vez da aceitação de agendas e objectivos ocultos. As perspectivas críticas introduzidas na psicologia social, na sequência da substituição passiva do comportamentalismo pelo cognitivismo, sem questionar as práticas e os pressupostos comuns a ambos, como são o uso quase exclusivo do método experimental e a centralidade da construção individual de sentido,87 tornaram evidente a necessidade de reflectir sobre os pressupostos que guiam as pesquisas. Assim, a necessidade de clarificação das agendas, em vez de serem mantidas ocultas, passou a integrar a dimensão de reflexão da própria pesquisa. Os estudos de género não são excepção nesse esforço e torna-se clara a importância de explicitar claramente que estes estudos não se centram apenas na produção de conhecimento, mas também na vontade expressa de promover processos de mudança social nas relações sociais de género. A própria ancoragem nas epistemologias feministas evidencia desde logo essa necessidade de clarificação, também ela ligada à importância da implicação política, como nos mostram Neves e Nogueira88 na sua análise das metodologias feministas na psicologia social, que evidenciam o carácter ideológico da ciência e o modo como ciência e ideologia podem cruzar-se na perspectiva da mudança social.

e) Integrar o poder enquanto objecto de análise, em vez de o legitimar na produção científica. Os estudos de Conceição Nogueira89 sobre as mulheres em posições contraditórias reflectem as contradições dos próprios discursos dessas mulheres em posições de elevado poder e estatuto. Essa autora analisou os discursos das mulheres em posições de chefia e distingue dois tipos de discurso: o discurso essencialista/individualista e o discurso colectivista/resistência. O primeiro caracteriza-se pela negação da discriminação sexual na trajectória de mobilidade ascendente, pela assunção da distintividade em relação às outras mulheres e aos homens e por uma legitimação meritocrática do sucesso profissional, misturando nesse espaço de individualização um discurso que acentua as dificuldades que se impõem a um indivíduo mulher e os obstáculos que resultam do papel feminino. Já o discurso colectivista/resistência evidencia uma perspectiva diferente: nesse caso as mulheres assumem a forte discriminação sexual de que foram e são alvo, vêem-se como membros de um grupo dominado e realçam as dificuldades que encontram para atingir uma posição de topo, sem que esse discurso afecte a avaliação das suas capacidades e a sua auto-estima. No que toca às estratégias de mudança social, este último discurso critica a ideologia dominante e refere a mudança social como muito importante. O discurso essencialista/individualista reproduz a ideologia dominante e o modelo tradicional feminino, configurando uma identidade 'super-mulher'. Essa perspectiva não permite a mudança, a não ser num quadro (individualista) de mobilidade social. Essas estratégias discursivas, particularmente o discurso essencialista/individualista, parecem revelar o esforço de adequação identitária à dupla pressão exercida na situação de elite discriminada: as mulheres diferenciam-se dos homens por serem mulheres e das outras mulheres pela posição social que ocupam, e aderem aos valores 'universais' para iludirem uma condição colectiva que não deixa de estar presente.90 Esses diferentes usos e legitimações de um poder que advém da posição, e que simultaneamente contradiz a posição em que, supostamente, as mulheres deveriam ocupar na esfera do trabalho, foram integrados e analisados como objecto de estudo.

f) A multiplicidade de vozes no conhecimento científico, em vez da monológica oposição sujeito/objecto. A ruptura introduzida pelo texto programático de Donna Haraway,91 o Manifesto Ciborgue, ilustra a importância da heteroglossia para a construção de saberes e reflexões feministas. A heteroglossia é outro conceito que devemos a Bakhtin92 e que se ancora na dimensão co-construída na linguagem. A heteroglossia está ligada ao modo como os discursos sociais são constituídos por uma multiplicidade de outros discursos, ligados a grupos e a relações de poder. O sonho irónico de Haraway, o ciborgue no mundo pós-género, fala-nos dessas várias vozes, emanadas de pontos diferentes, a construírem não um discurso igual, mas uma poderosa e infiel heteroglossia. Esse programa de pesquisa, centrado nessa multiplicidade de discursos, vem sendo posto em prática em estudos de análise do discurso, escutando as vozes do/as participantes e mostrando o modo como esses discursos se diferenciam, ao mesmo tempo que se analisam os pontos de contacto entre as várias vozes. Os estudos de António Marques93 sobre as culturas profissionais e as masculinidades evidenciam esse jogo entre variabilidade e consenso, entre vozes que por vezes são uníssonas e outras vezes, contraditórias.

Sem esses pressupostos, presentes na produção do conhecimento científico, a proposta dos conhecimentos situados ficaria muito limitada, do ponto de vista das suas potencialidades para a pesquisa psicossociológica. As representações sociais parecem ser uma das epistemologias que poderão ir ao encontro desse desafio que os conhecimentos situados permitem propor. Mas para tal é necessária uma explicitação mais clara do seu lugar no seio da psicologia social. Com este texto, permitimo-nos, pois, criar um lugar de diálogo entre essas duas abordagens, mas simultaneamente de crítica interna à disciplina, para lhe propor uma opção pelos saberes emancipatórios, como de resto a Teoria das Representações Sociais já tinha feito, com a centralidade que atribuiu à reabilitação dos saberes do senso comum. Com a polinização da teoria pelas alternativas que a crítica feminista à ciência propõe e a sua aplicação aos saberes psicossociológicos, cremos poder contribuir para este esforço de construir uma ciência mais inclusiva, mais implicada, mas também mais consciente.

 

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Recebido em outubro de 2005 e aceito para publicação em junho de 2006

 

 

1 Conceição Nogueira, 2001 a.
2 Evelyn Keller, 1996.
3 Beauvoir, 1949.
4 Keller, 1996.
5 "Refere-se às práticas que baseiam teoria e prática na experiência dos homens, mascaradas de experiências 'humanas' e que contam como fontes de conhecimento 'generalizadas' e inquestionáveis" (Lorraine CODE, 2000, p. 20, tradução nossa).
6 Helen Longino e Ruth Doell, 1996.
7 Keller, 1996.
8 Amâncio, 2005.
9 Harding, 1986 e 2004.
10 Thomas Kuhn, 1962.
11 Harding, 1996, p. 237, tradução nossa.
12 Optamos por não traduzir o conceito, à semelhança de NOGUEIRA, 2001a. Uma tradução aproximada poderia ser "teorias do posicionamento" ou do "ponto de vista", como fazem Sofia NEVES e Conceição NOGUEIRA, 2005.
13 Kate Millet, 1969; e Shulamith Firestone, 1969.
14 Como veremos, a contextualidade do conhecimento é uma das heranças das teorias do standpoint, que é utilizada por Donna HARAWAY, 1991b, para o seu conceito de conhecimentos situados (situated knowledges) e por HARDING, 1996, para a concepção da objetividade forte (strong objectivity).
15 Carol Gilligan, 1997, para um exemplo dessa abordagem das Women's Voices.
16 Nogueira, 2001 a.
17 Nogueira, 2001 a; Oliveira e Amâncio, 2004.
18 Haraway, 1991a, p. 232, tradução nossa.
19 Bell hooks, 1981.
20 Adrienne Rich, 1980.
21 Audre Lorde, 1984, e Gloria Anzaldúa, 1987.
22 Jean-François Lyotard, 1989.
23 Haraway, 1998, p. 28, tradução nossa.
24 Nogueira, 2001 a.
25 Haraway, 1991a.
26 Jacques Derrida, 1966.
27 Michel Foucault, 1975.
28 Judith Butler, 1990.
29 Robert Connell, 2002.
30 Miguel Vale de Almeida, 2004. Veja-se a esse propósito a pertinente discussão que o autor faz do entendimento do gênero como performance em Judith Butler.
31 Neves e Nogueira, 2005; Nogueira, 2001 a e 2001b; Oliveira, 2002; Oliveira e Amâncio, 2004; e Sue Wilkinson, 2001.
32 Haraway, 1991b.
33 Karin Knorr-Cetina, 1981; e Bruno Latour e Steve Woolgar, 1988.
34 Haraway, 1991a, já tinha integrado a ciência na ideia de regime de tecnociência, sem excluir, portanto, nem a dimensão tecnológica, nem as relações entre a tecnociência e a política no sentido lato e o carácter de constituição de um regime de verdade assente na lógica científica (ver também Haraway, 1998).
35 Foucault, 1975.
36 Haraway, 1991b, p. 256, tradução nossa.
37 Nem mesmo a da essencializada Mulher do Terceiro Mundo, que tem um particular privilégio no seu autoconhecimento, em algumas posturas das teorias do standpoint mais essencialistas.
38 Farr, 1996.
39 Grauman, 1986.
40 Dualismo muito criticado nos estudos sobre o corpo como constatam Thomas Csordas, 1989; e Vale de Almeida, 1996.
41 Marková, 1982.
42 Serge Moscovici, 1984.
43 Bakhtin, 1981.
44 Moscovici, 1984.
45 Moscovici, 1984.
46 Sandra Jovchelovitch, 2001.
47 Farr, 1996.
48 Jovchelovitch, 2001.
49 Moscovici, 1972.
50 Moscovici, 1989.
51 Retomando a métafora feliz de Jean-Claude Deschamps, 1989.
52 Moscovici, 1989, p. 34.
53 Jovchelovitch, 2002 e 2004.
54 Moscovici, 1976, p. 286, tradução nossa.
55 Como demonstramSandra Jovchelovitch e Marie-Claude Gervais, 1999.
56 Moscovici, 1976.
57 Jovchelovitch, 2002.
58 Moscovici e Vignaux, 1994.
59 Holton, 1988.
60 Moscovici. 2001, p. 31, tradução nossa.
61 Paula Castro e Isabel Gomes, 2005.
62 Amâncio, 2003.
63 Oliveira, 2002.
64 Marková, 2000.
65 Jodelet, 1989, p. 36, tradução nossa.
66 Jovchelovitch, 2001.
67 Marková, 2000.
68 Amâncio, 2003.
69 Moscovici, 1984.
70 Farr, 1996.
71 Jodelet, 1989; e Amâncio, 2003.
72 Amâncio, 2003.
73 Haraway, 1991b.
74 Jorge Jesuíno, 1995; Knorr-Cetina, 1981; e Latour e Woolgar, 1988.
75 Haraway, 1991b.
76 Moscovici, 1972.
77 Moscovici e Milles Hewstone, 1984.
78 Veja-se, por exemplo, Anne Fausto-Sterling, 1985 e 2000; e HARAWAY, 1989.
79 Santos, 1988, p.52.
80 Santos, 2003.
81 Santos, 2000.
82 Harding, 1996.
83 Fausto-Sterling, 1985.
84 A esse propósito, veja-se também Amâncio e Oliveira, 2006.
85 vale de almeida, 1995.
86 Popper, 1962.
87 Castro, 2002.
88 Neves e Nogueira, 2005.
89 Nogueira, 1996.
90 AMÂNCIO, 1995.
91 Haraway, 1991a.
92 Bakhtin, 1981.
93 Marques, 2005.