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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.14 no.3 Florianópolis Sept./Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2006000300007 

PONTO DE VISTA

 

Gênero e ciência: entrevista com Shirley Malcolm

 

 

Carmen Silvia RialI; Miriam Pillar GrossiII; Betina Stefanello LimaIII

IUniversidade Federal de Santa Catarina
IIUniversidade Federal de Santa Catarina
IIIUniversidade de Brasília

 

 

Shirley Mahaley Malcolm participou da mesa de encerramento do 1º Encontro Nacional Gênero e Ciência, promovido pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, em Brasília, em março de 2006. Nessa mesa estavam também presentes a ministra Nilcéa Freyre, Alice Abreu e Miriam Grossi, que atuou como debatedora. Antes de sua fala, Shirley assistiu à concorrida assembléia que deu forma final ao documento elaborado pelos diversos grupos de trabalho desse encontro, com sugestões de diretrizes para a política da Secretaria na área de Ciência e Tecnologia, em meio a uma saudável polêmica registrada pela relatora Sônia Malheiros Miguel, envolvendo, entre outros temas, a inclusão no campo da ciência de grupos minoritários, como o de negras e lésbicas. Após o término da mesa, solicitamos a Shirley que falasse para a REF. Ela pediu alguns minutos para trocar de roupas e ficou de nos encontrar no hall do hotel Academia do Parque, já com as malas prontas para partir para o aeroporto. O bom humor e a forma direta de se expressar marcaram nossa conversa, que começou com um comentário seu sobre o fato de termos, nós e ela, trocado os vestidos por jeans e camisetas pólos. Foi uma entrevista feita às pressas, mas que possibilitou desenvolvermos alguns dos pontos apresentados na sua palestra e conhecermos um pouco mais de sua trajetória acadêmica.

Shirley M. Malcom, mulher e negra, coordena os programas para Educação e Recursos Humanos na American Association for the Advancement of Science (AAAS), que incluem atividades para grupos minoritários, e programas para disseminação pública da ciência e da tecnologia. Shirley participa do Conselho Nacional de Ciência e do Comitê Presidencial de Conselheiros em Ciência e Tecnologia dos Estados Unidos. Integra também a Academia Americana de Artes e de Ciências dos Estados Unidos. Em 2003, ela recebeu a medalha do Bem-Estar Público, a mais alta distinção conferida pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

 

REF: Poderia nos contar um pouco da sua trajetória acadêmica?

SM: Para começar, quero me desculpar por ser monolíngüe. Mas o fato de eu ser monolíngüe realmente reflete minha história educacional limitada no início educada como uma mulher negra nas escolas segregadas de Birmingham, Alabama. Imagino que nós não éramos, necessariamente, vistas como pessoas que iriam se engajar globalmente.

Atualmente, dirijo programas educacionais para a American Association for the Advancement of Science. Sou ecologista, meu doutorado foi em Ecologia pela Pen State, meu mestrado em Zoologia pela UCLA, e meu bacharelado em Zoologia pela Universidade de Washington. Ensinei Biologia no segundo grau e também pesquisei na Faculdade da Universidade da Carolina do Norte. De forma que é um tipo de modelo variado de carreira que abrange toda a academia, mas também com experiência voluntária na questão política no governo.

REF: Como gênero e ciência começam a ser uma questão para você?

SM: Você tem que entender, talvez eu deva explicar, tenho 59 anos e, se você pensar como a ciência era em 1963, vai perceber que havia muito poucas mulheres que estavam realmente escolhendo entrar nos estudos científicos e, quanto mais eu avançava, menos pessoas via, e acho que sempre havia a pergunta: "Onde está todo mundo, onde estão as mulheres, onde estão as afro-americanas?" Como mulher descendente de africanos, eu me perguntava onde todas estavam se escondendo. Também comecei a compreender que eu olhava para meus estudos de maneira muito diferente de muitas pessoas à minha volta e, quando percebi isso, comecei a pensar que talvez fizesse diferença quem fazia ciência. E que as questões de como o gênero interage com a ciência, com o que você escolhe estudar, com as prioridades que se colocam em relação à pesquisa, quais representações e modelos são trazidos de fato para o estudo, eu pensava que essas coisas fariam a diferença; elas me impactaram muito, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Porque, francamente, até que se esteja legitimado e trabalhando no campo... é muito difícil ser levado a sério quando você está tentando dizer coisas que parecem ir contra a visão tradicional de uma área.

REF: Que tipo de pesquisa tem feito?

SM: Minha própria pesquisa foi em Ecologia Comportamental. Eu estava atenta a fatores relacionados ao final do imprinting1 em pássaros. Impriting, sim, imitação, em pássaros, e esta é uma forma muito primária de aprendizado, porque o que se faz é colocar animais muito jovens em contato com adultos que vão cuidar deles. Mas, no processo, eles aprendem as características, conhecem o terreno, aprendem, formam modelos do que tudo aquilo representa para eles. Eu estava olhando para os aspectos de desenvolvimento em torno do aprendizado, e essa pesquisa, além de divertida e interessante, também me ensinou uma lição valiosa sobre o contexto e sobre a importância do contexto no aprendizado. Desde essa época, obviamente, tenho feito muita pesquisa politicamente relevante em meu trabalho, atenta aos padrões de participação das mulheres, tentando entender como as minorias e as mulheres começam a estudar em diferentes áreas e porque não estão em outros campos, tentando entender os modelos dos programas e das instituições que fizeram um conjunto de programas efetivos para trazer as pessoas para esses campos e que fatores seria necessário examinar. Então fiz uma completa mudança de área, essencialmente da Ecologia Comportamental para a Política. Mas uma das coisas que eu sempre disse sobre o valor do PhD é que você aprende a fazer perguntas, você aprende como pensar sobre a explicação possível, a formular hipóteses e a buscá-las sistematicamente, perguntando e respondendo questões. E acho que, até certo ponto, esse tipo de disciplina forçada sobre como fazer perguntas é muito valiosa, porque distancia você do que acredita, do que pensa. Você é principalmente forçada a olhar os números, é forçada a olhar a evidência e os dados sobre qual caminho as coisas estão realmente acontecendo. Isso não significa dizer que a qualidade, e mesmo as questões contextuais, não são importantes; apenas que devem estar postas nesses lugares ditos de informação descritiva e de quantidade.

REF: Na sua conferência, você disse que homens e mulheres olham o mundo diferentemente e por isso produzem diferentes paradigmas. Essa não seria uma posição essencialista? Não seria melhor pensar em termos de contextos do que de uma natureza essencialmente diferente?

SM: Bem, acho que é grandemente o contexto. Vamos ser realistas: nós somos um produto de nossa construção genética, mas somos também uma grande parte de nosso ambiente e essas coisas interagem, e isso significa que as experiências que temos moldam qualquer visão que possamos ter do mundo à nossa volta. Trazemos diferentes modelos, trazemos contextos diferentes, experiências diferentes, e tentamos usar a ciência de maneira que essas coisas não iludam nossas percepções, mas podemos olhar para coisas diferentes dentro do meio ambiente. Como o exemplo que vocês conhecem, eu já contei, sobre homens e mulheres primatologistas: estão olhando para diferentes partes de um grupo, o mesmo grupo de babuínos, mas os homens viram os machos alfa e impuseram a estrutura social que imaginaram sobre esses animais. As mulheres foram e olharam para coisas diferentes e chegaram a conclusões diferentes. A questão é que nós precisamos olhar o mundo das duas maneiras e então, acho que somente então, começamos a perceber que realmente a verdade é a coisa que alcançamos juntos. E que ninguém tem o direito, sozinho, ao que é verdadeiro.

REF: Gostaria que você comentasse algumas estatísticas brasileiras sobre a inserção das mulheres na pesquisa acadêmica, realizadas a partir dos registros do CNPq sobre os diretórios de pesquisa (mostramos os quadros em que as mulheres aparecem como maioria na base da carreira, na iniciação científica, porém permanecem minoritárias no topo, entre os pesquisadores seniores; são maioria nas Humanidades, mas minoria nas áreas Exatas).

SM: Penso no quanto a realidade brasileira é como outras tantas realidades que estou encontrando, que é a das mulheres entrando nas ciências da vida em grandes números; mas não na Física, não na Engenharia. Acho esse padrão tão surpreendente!

REF: Como explicaria esses números em que, do total de bolsas para pesquisadores seniores (PQ), as mulheres detêm apenas 30%, e os outros 70% são dos homens?

SM: Isso não me espanta de forma alguma.

REF: E pior, no topo dessa distribuição, entre os pesquisadores do CNPQ 1A, as mulheres detêm apenas 20% das bolsas.

SM: Sim, nos Estados Unidos, por exemplo, você também vê mulheres ganhando menos em média em suas pesquisas que os homens, e em alguns casos é porque as mulheres estão pedindo menos. Não sei se pensamos que se pedirmos menos temos mais chances de obter o incentivo, mas em outros casos é porque os salários são uma parte do que se pede, e se as mulheres têm salários mais baixos, então elas terão menores números, se estiverem pedindo a mesma porcentagem. A dificuldade é que eu tive que saber investigar isso: "O que elas estão querendo?" Mas vou dizer que há modelos que dizem que, em muitos países, as qualificações de homens e mulheres são vistas diferentemente. Uma pesquisa feita na Suécia verificou os prêmios de prestígio da Swedish Medical Research Council, e os pesquisadores tiveram acesso aos pareceres, em vista da liberdade na Suécia de requisitos de informação para documentos públicos, já que esses [pareceres] eram considerados documentos públicos. O que descobriram principalmente foi que havia um padrão mais alto de exigência para as mulheres, elas tinham que ter duas vezes mais publicações, publicações de mais impacto que os homens, para ter o mesmo tipo de reconhecimento. Então penso que a questão é que, quando você se defronta com esses dados (como os do CNPq), se pergunta: "Qual a razão desses números? É porque estão exigindo mais das mulheres. As mulheres estão de fato pedindo menos dinheiro? Estarão os recursos nas universidades ou institutos de pesquisa onde trabalham sendo distribuídos diferentemente, de forma que as mulheres tenham menos recursos inicialmente?" Por exemplo, nos Estados Unidos, se um/a acadêmico/a entra para a universidade, ganha uma cota, um pacote inicial, isto é, certa quantia em dinheiro da universidade para instalar seu laboratório, comprar equipamento, para poder dar apoio a estudantes de pós-graduação ou pós-doutorado, ou a um técnico ou outras coisas. Em muitos dos casos você encontra as mulheres entrando em posições semelhantes às dos homens e nem mesmo lhes são oferecidos os mesmos pacotes iniciais. Então há uma porção de coisas para se examinar de forma a se descobrir quais são os números, e esse é realmente o poder dos números. Você vê os números e diz: "Há muitas coisas que poderiam explicá-los. E muitas são más, e agora vamos descobrir quais delas estão operando de fato". Porque, até se chegar à raiz do que está acontecendo estruturalmente para causar essas diferenças, você não pode fazer nada sobre isso. Você pode dizer: "Vamos estabelecer uma cota: tal porcentagem irá para este grupo e tal porcentagem irá para aquele grupo", mas agindo assim você não terá feito nada para mudar as circunstâncias estruturais na instituição. Elas podem estar recebendo o dinheiro, mas poderão ter menos recursos para a pesquisa. Então acho que ir a fundo nas barreiras estruturais é muito importante para se começar a compreender alguns dos indicadores finais, buscando-se descobrir a causa disso.

REF: E os programas para melhorar a inclusão das mulheres na ciência, como a National Science Foundation, como o Science Education for Women and Child?

SM: Bem, o interessante é que, durante muitos anos, nós tivemos esses tipos de programas, e agora acho que começamos a pensar que o problema é anterior, que o sistema modela o trabalho para mulheres e meninas. Isto é, não dê apenas um programa especial, porque se pode cortar a verba do programa. Faça o processo regular de educação apoiar meninas assim como meninos e estamos vendo isso agora. Estamos vendo que as meninas têm a possibilidade de entrar em qualquer área das ciências, com exceção da Física, em números proporcionais. Estamos vendo que estão entrando na Matemática no mesmo nível, com alguma diferença ainda nos cursos de Cálculo, mas tudo bem, ainda podem aprender Cálculo na faculdade, e isso não as aborrece mais. Estamos vendo paridade nas notas das mulheres na Biologia. Estamos vendo uma quase paridade nas notas das mulheres na Química, ainda vemos diferenças na Física, nas Ciências da Computação e na Engenharia. Há paridade até nas notas de Matemática em nível de bacharelado. Então, seja lá o que tenhamos feito nos Estados Unidos , seja lá o que estejamos fazendo em termos de mudar as instituições, foi suficiente para conseguir nos levar a esse nível. No entanto, paramos ao tentar alcançar o nível seguinte. Ainda estamos perdendo mulheres no ingresso no doutorado; no doutorado, os números da participação de mulheres nas ciências estão caindo. De maneira que esse é o motivo de sentirmos que devemos estar atentas às questões das promoções; não podemos apenas colocar as mulheres lá dentro, temos que mantê-las dentro e fazer com que subam, e acho que é onde estamos. Eis por que os programas da National Science Foundation estão agora olhando para uma transformação estrutural. Estão focalizando as universidades e as faculdades dentro das universidades e quais os processos e procedimentos para identificar os candidatos para posições acadêmicas, que tipos de rede estão sendo utilizados, que tipos de requisito em termos da composição dos grupos de onde estão vindo os candidatos. Assim estão atingindo o próprio sistema. Durante muitos anos, e vou dizer que foi uma epifania para mim, fui desafiada por alguns de meus colegas europeus que, em meados dos anos 1980 diziam: "Vocês americanos, só querem consertar as mulheres. Vocês têm que consertar o sistema". Comecei a pensar sobre o que tinham dito e percebi a verdade que havia nisso. Estamos tentando possibilitar que as mulheres negociem o sistema como ele é, sem questioná-lo. Acho que cada vez mais somos capazes de dizer que não temos certeza de que o sistema funcione para quem quer que seja. Estamos vendo uma perda de interesse da parte de homens jovens assim como de mulheres jovens em buscar muitos desses campos. Há um interesse por parte de um crescente número de homens jovens em engajar-se com suas famílias. Eles também levantam questões de igualdade no trabalho. Então nesses outros casos temos que entender que o sistema, como ele existe, pode ter funcionado em outra época, sido criado pelos homens, para homens e seus estilos de vida na época, em que podiam conferir muitas das questões familiares a uma dona-de-casa que não trabalhava fora de casa. Agora é uma época diferente, é há um conjunto diferente de circunstâncias: estamos pedindo como mulheres para sermos capazes de atingir nossas metas profissionais também, nós temos talentos, temos habilidades, queremos expressar essas coisas, e isso significa que temos que dividir a casa, a criação dos filhos, temos que dividir também a maneira como consideramos a igualdade em nossa profissão e a vida no trabalho e em casa.

REF: Isso confirma mais ou menos o que você estava dizendo sobre papéis diferentes para homens e mulheres. As mulheres conseguem o PhD mais tarde na vida. Principalmente porque estão...

SM: Estão criando os filhos, estão fazendo todas essas coisas. Acho que esses padrões estão mudando.

REF: E a American Association of Science? Há uma política sobre mulheres e ciência nos Estados Unidos?

SM: A "Triplo A" (AAA) tem sido uma base muito boa para, a partir da qual, levantar essas questões. Participei de programas na "Triplo A", como aquele que enfoca a educação desde o jardim de infância até a pós-graduação, olhando para problemas de carreira e quais forças estão em jogo, que têm a ver com programas sobre grupos representativos, mulheres, minorias, pessoas com deficiências e com programas sobre a compreensão pública de ciência e tecnologia, de forma que é um grande apoio a nossas atividades, mas uma das coisas que têm feito ser tão bom trabalhar a partir dessa base é que estamos numa organização que é representativa da comunidade científica. Não somos um grupo de mulheres, citado por cotas. Somos um grupo de cientistas. Somos uma organização de centenas, milhares de cientistas. E não apenas nos Estados Unidos. Cerca de 30% de nossos membros são da comunidade internacional, então somos amplamente representativas de todas as disciplinas, Engenharia, Ciências Naturais, Matemática, Computação, e somos capazes de utilizar nosso trabalho como uma sociedade profissional interdisciplinar, como uma organização de comunidades sobre a qual estamos falando. É preciso levantar questões sobre o status de grupos diferentes dentro dessas comunidades. Então, a partir dessa base, temos uma boa plataforma. Eu sou uma "Triplo A" há muito tempo. Acho que faz 26 anos, o que é incomum, porque ninguém gosta de ficar em lugar algum por muito tempo. Eu apenas continuo mudando de trabalho. Os tipos de problema que abordamos mudaram ao longo do tempo, mas nós usamos a base da comunidade para dizer o que é bom para a ciência. Como a ciência pode servir à sociedade? Como podemos fazer da ciência e da tecnologia um agente melhor de mudanças? Como podemos ajudar cientistas a comunicar-se com mais eficiência uns com os outros? Dessa forma, nesse contexto nós fazemos esse trabalho em gênero, ciência e tecnologia, porque é uma parte do que significa preocupar-se com a saúde do empreendimento científico e tecnológico.

REF: Uma colega, Margaret Lopes, da Unicamp, me sugeriu que pedisse para você falar sobre a ciência no gênero, invertendo os termos do tema do simpósio, que foi gênero na ciência. E sobre a resistência das mulheres à ciência.

SM: Bem, acho que você me escutou dizer que eu sentia que o movimento de mulheres é um pouco lento para abraçar esta noção de que a ciência e a tecnologia poderiam ter algum poder para ajudar a mudar a vida das mulheres. E que eu nunca consegui entender porque isso acontecia, porque era dessa forma. Mas acho que há, entre algumas mulheres, uma desconfiança na ciência, alguma sensação de que é um sacerdócio, onde as coisas são mágicas etc. Alguém me ouviu dizer, eu me lembrei e anotei: você só pode mudar a direção do barco estando do lado de dentro. E se você quiser mudar algo, se quiser usar a ciência e tecnologia para fazer a diferença de que precisa essencialmente, você precisa ser parte disso. Quero dizer que escuto as pessoas criticando, especialmente muitas das mulheres européias que criticam os insucessos e coisas assim. Sim, em muitos casos há uma história onde a ciência foi de fato mal usada. Mas a natureza da autocorreção também deveria incluir a possibilidade de colocar uma ação corretiva nisso: legislação para sujeitos humanos, tratamento ético de animais, todo tipo de problemas, para começar. E minha sensação é que, quanto mais houver representatividade, quanto mais populações diferentes você tiver, maior a possibilidade de intervenção e, o mais engraçado, não para remediar, mas como parte da conversação inicial.

REF: Essa presença maior dos homens na ciência e na tecnologia tem conseqüências nos resultados das pesquisas?

SM: Quero dar alguns exemplos: um de uma pesquisa básica, pois acho que, às vezes, nossos colegas não acham que uma perspectiva feminista possa realmente afetar a pesquisa básica. Uma área de pesquisa básica em que trabalhei (meu doutorado, como disse, é em Ecologia, sou ecologista comportamental) foi a do comportamento animal. Estudei muito o comportamento animal e havia um trabalho anterior que falava sobre a estrutura social, o agrupamento social dos babuínos, e nesse trabalho são usadas palavras como "solteiro" os grupos tinham machos dominantes, um macho alfa e um solteiro. Esse trabalho a que me refiro foi feito por dois homens e nele se enfatizava que os agrupamentos sociais dos babuínos baseavam-se nesses machos que permitiam às fêmeas ficar por perto. Vários anos depois, mulheres primatologistas fizeram pesquisa de campo com os babuínos e descobriram que a coesão do grupo social se dava em torno das fêmeas e do relacionamento das fêmeas. Os machos chegavam ao grupo e partiam do grupo. As fêmeas permaneciam no grupo. E a memória grupal, a história de onde a água chegou na última enchente, entre outras coisas, estava com as fêmeas. E essa é uma questão de gênero, pois homens e mulheres observaram o mesmo objeto, mas viram algo diferente. E, principalmente, porque partiram de suas próprias experiências e aplicaram ao que estava bem ali. Quero dizer, o comportamento estava bem ali nos dois casos, mas as mulheres olharam para coisas diferentes. Quero também dizer que, certa vez, quando fui fazer uma apresentação no Grupo Criador da Comissão das Nações Unidas, pedindo a extensão do nosso contrato como comitê de aconselhamento sobre gênero, um dos membros disse, basicamente, que existem coisas que as mulheres não conseguem fazer. Ele era médico e a questão que queria abordar era que as mulheres não poderiam trabalhar com ortopedia. Ora, a tecnologia fez com que a ortopedia não seja mais uma questão de força. Hoje existem as brocas de alta velocidade, serras e outras coisas que tornaram mais fácil para as mulheres trabalhar com ortopedia. Outro exemplo é toda a questão dos airbags em carros. Acho que vocês sabem que, quando surgiram, os airbags eram calibrados para a altura e o peso dos homens. Isso significa que eles produziam danos às mulheres e crianças que estavam no lado do passageiro no assento do passageiro bem como a homens menores. Esse é um caso de falha da tecnologia, se considerarmos esse tipo de questão. Ainda outro exemplo é o do desenvolvimento de ferramentas em alguns países escandinavos, onde há um foco maior em Ergonomia e os punhais das ferramentas usadas pelos técnicos são projetados para o tamanho da mão. O que será diferente não apenas no tamanho médio, não apenas para mulheres, mas, em muitos casos, para os homens também. Assim, existem alguns exemplos considerando se há interação tanto do lado do projetista quanto do engenheiro, mas também com a pesquisa básica.

REF: Está é sua primeira visita ao Brasil?

SM: Não, esta é minha quarta viagem ao Brasil. As outras três vezes estive no Rio, no ICSU [International Congress of Science], que nós organizamos. Eu estava na presidência do comitê organizador da pré-conferência, que se preocupava em proporcionar uma ciência prática mais igualitária para crianças pequenas como parte de sua educação primária, e agora a academia brasileira tem isso funcionando em vários desses temas. Mas a idéia fundamental é que podemos dar melhor educação para todas as crianças. Quanto mais cedo as opções para jovens mulheres estiverem abertas, mais podemos convencê-las da possibilidade de prosseguir na ciência como carreira. Porém, se são fechadas desde o início, não há maneira de cativá-las, mesmo mais tarde, se decidem que isso é algo que lhes interessa.

REF: Existem algumas sociólogas como Donna Haraway ou Sandra Harding refletindo sobre essas relações entre gênero e ciência. Você dialoga com os seus trabalhos?

SM: De fato, se você ler um dos relatórios do Women and Science, acho que Sandra Harding o escreveu para a UNESCO, havia um box meu que falava sobre as percepções das mulheres e sobre a idéia "Gênero realmente importa em termos do olhar para a ciência?"

REF: Esta manhã, antes da sua conferência, a senhora pôde ouvir o debate da assembléia final do encontro que elaborou um documento para servir de diretrizes à política da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres no que concerne a gênero e ciência. O que achou do modo como esse tema está sendo tratado aqui no Brasil?

SM: Tenho a impressão de que vocês têm que conversar mais. Acho que, neste momento, há um pouco de rumor entre vocês em termos das comunidades. Gostaria que tivéssemos tido acesso à comunidade de pesquisa de gênero quando começamos o trabalho nos Estados Unidos, por exemplo; nós não tivemos porque eles não estavam interessados nos problemas que levantamos. Em parte foi erro nosso, porque não tínhamos articulado nossas questões como sendo semelhantes aos problemas de mulheres em qualquer parte em que estivessem relacionadas a questões de poder e de distribuição de poder, e ao invés disso colocamos várias outras coisas, de forma que não falamos uma linguagem comum, não vimos onde estavam as conexões. Acho que é uma boa base para você começar a ver como pode construir essa relação.

REF: ... relação entre a área científica e...

SM: [...] relação entre cientistas e pesquisadores de gênero. Há coisas que os pesquisadores de gênero precisam compreender sobre a ciência e a engenharia porque elas são feitas diferentemente, há regras diferentes que se aplicam, há perguntas diferentes que são feitas; e as normas e coisas como essas precisam compreendê-las, e em alguns casos queremos desafiá-las, [mas para isso é preciso que se] compreenda o que já foi feito. Então esta é a questão. Mas, por outro lado, as mulheres que estão basicamente trabalhando na ciência dizem: "Oh, nossas vidas são diferentes, nossa situação é diferente". Bem, isso não é, de fato, necessariamente verdadeiro. O caso é que, toda vez que as mulheres entram em campos onde são uma pequena minoria, seja como pilotos de avião, seja como ministras, e em qualquer momento que tentemos entrar, há essas barreiras. Quero dizer que, dessa forma, há coisas que são diferentes, mas há coisas que são iguais, e dessa forma, se elas puderam olhar além das áreas... As mulheres que entram para a carreira militar, por exemplo, precisam olhar além dessa área, em termos de como esses temas foram impulsionados, mas também olhar além dos países, olhar além das situações e tentar seguir adiante: "Não sigam nosso caminho, tentem suplantar nosso caminho!" E eu quero deixar um exemplo, uma última coisa, um último exemplo. É que agora mesmo, em muitos países em desenvolvimento deste mundo aonde vou, meu Blackberry funciona; eu o ligo e ele funciona. As pessoas não estão mandando telegramas, não estão chamando de telefones fixos; você vai para Uganda, todo o mundo tem um telefone celular. Elas usam a tecnologia celular para passar à frente de toda essa infra-estrutura. Ok, então, o que digo para aqueles que estão em processo de desenvolvimento de uma agenda de pesquisa científica e tecnológica e de ação é: "Use os desacertos e siga em frente!"

Você pode fazer a pergunta correta desde o início. Nós fizemos muitas perguntas erradas de início, então esse seria meu conselho. É preciso olhar para fora, para o resto do mundo, para encontrar os seus colegas. Existem pessoas que estão fazendo o mesmo e se importam com isso. Você deve ter uma ampla rede de relacionamento. Eu não encontrei apenas amigos em todo o mundo; também encontrei uma compreensão profunda das questões que enfrento no meu dia-a-dia, por causa das minhas reações com pessoas em outras partes do mundo. Elas me ensinaram. E posso levar o que aprendi e aplicar naquilo que estamos tentando alcançar. Estamos tentando criar algo que nunca existiu. Que é um mundo justo, igualitário, onde as pessoas possam ser reconhecidas pelos seus talentos e contribuições.

REF: Uma última questão. Nós queríamos voltar a um outro ponto de sua intervenção que é justamente sobre essa dificuldade da inserção de mulheres nos altos cargos das agências de financiamento, nos comitês, etc. Nós gostaríamos que a senhora falasse um pouco mais sobre essa experiência e que tipo de conselho e sugestões daria para as mais jovens no que diz respeito a essas questões, do ponto de vista tanto das políticas públicas quanto de uma perspectiva mais individual. O que é ser a única mulher nessas conferências internacionais? As pessoas que já participaram dessas situações sabem o quanto, de um ponto de vista, é constrangedora essa situação de ser única. Por outro lado, sabem como a presença de corpos de mulheres nesses lugares também provoca mudanças, nem que seja a construção de banheiros femininos em determinados lugares. Aqui no Brasil, até recentemente, em alguns lugares, como o Supremo Tribunal Federal, não havia banheiros femininos...

SM: Quero falar muito honestamente. Primeiro conselho: sempre esteja mais bem preparada do que qualquer outra pessoa. Leia tudo. Tive mais encontros do que vocês podem imaginar em que um homem começava a dizer algo e eu replicava: "Mas na página 37 está escrito algo diferente". E todos abriam na página 37 e isso encerrava a discussão. Sei que é horrível. Por que temos que nos comportar de maneira diferente? Bom, temos, sim. Assim, esteja bem preparada.

Segundo conselho: não deixe ninguém marginalizá-la, fazendo-a falar apenas de gênero. Você precisa poder dar uma opinião sobre o resto do conteúdo de qualquer relatório que esteja sendo discutido, pois, no momento em que for identificada como uma "pessoa de gênero", você perde toda a autoridade como um membro daquele grupo. Em terceiro lugar, não tenha medo de levantar uma questão e, se ela for desconsiderada, levante-a novamente. Mas você também tem que apoiar qualquer mulher que esteja presente, que esteja expondo suas questões. Digo isso lembrando algo que me aconteceu quando eu era uma jovem mulher profissional numa reunião: coloquei uma sugestão que não podia ser desconsiderada e o foi. Um pouco mais tarde, um dos homens fez a mesma sugestão e todos acharam que era uma idéia fabulosa. A outra mulher que estava à mesa disse, e eu cito: "Realmente é uma idéia fabulosa. E essa já era uma idéia fabulosa cinco minutos atrás, quando a Shirley deu essa idéia". Isso calou a todos, pois eles começaram a entender que, quando uma mulher fala, eles não a escutam. Por acaso era uma pessoa muito justa que estava na cabeceira da mesa e o homem fez então um esforço consciente para que isso não se repetisse.

E acho que minha última sugestão é: colete dados. Uma das coisas interessantes sobre os engenheiros cientistas é que eles tendem a se basear em evidências e a focar as pesquisas. Quando algo pode ser demonstrado, não importam quais sejam os preconceitos sobre uma determinada questão, quando se pode demonstrar quais são os fatos, as pessoas tendem a ser muito mais impressionáveis. Assim, essas são as minhas sugestões.

 

Transcrição e tradução: Maria Isabel de Castro Lima

 

 

1Processo no qual jovens animais aprendem a reconhecer e a estabelecer laços com membros de sua espécie (N.T.).

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