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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.14 no.3 Florianópolis Sept./Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2006000300013 

SEÇÃO DEBATES: TRADUÇÕES DO PÓS-FEMINISMO

 

Pós-feminismo

 

Postfeminism

 

 

Ana Gabriela Macedo

Universidade do Marinho, Portugal

 

 


RESUMO

Partindo do verbete sobre pós-feminismo do Dicionário da Crítica Feminista (organizado por Ana Gabriela Macedo e Ana Luísa Amaral), proponho a discussão do conceito de pós-feminismo não isoladamente, mas antes por aposição a outros termos e conceitos que de algum modo clarificam a natureza complexa do debate em torno deste termo: contra-feminismo, pós-feminismo, contra-dicção, diferença, imagem, ginocrítica, corpo, ciberfeminismo. Defendo que vivemos no contexto de uma variedade de feminismos plurais, e que o seu discurso oposicional e de resistência é ainda, no mundo de hoje, de total pertinência.

Palavras-chave: feminismo; pós-feminismo; contra-feminismo (backlash); contra-dicção; ginocrítica; diferença.


Abstract: Departing from the entry on Postfeminism in the Dicionário da Crítica Feminista (edited by Ana Gabriela Macedo and Ana Luísa Amaral), I discuss the meaning of the concept not in isolation, but in affiliation with other concepts which somehow help to understand the complexity of this debate, e.g., Counter-feminism, Postmodernism, Counter-diction, Difference; Body; Image; Gynocritics, Cyberfeminism. I defend that despite all odds, Feminism still stands as a fundamental "counter-diction," a much needed oppositional discourse in our day and age.

Key Words: Feminism; Postfeminism; Backlash; Counter-diction; Gynocritics; Difference.


 

 

|PÓS-FEMINISMO – Conceito que apresenta variantes na sua definição. Segundo algumas correntes do feminismo, o pós-feminismo encontra-se próximo do discurso do pós-modernismo, na medida em que ambos têm por objectivo desconstruir/desestabilizar o género enquanto categoria fixa e imutável. A génese deste movimento situar-se-á nos finais dos anos 60, em França, entre as teóricas da "diferença" (Julia Kristeva e Hélène Cixous, entre outras), que, tendo por base a teoria psicanalítica, defenderam que a subjectividade masculina e feminina são intrinsecamente distintas, sendo que a natureza do conceito de subjectividade é múltipla e instável (Gamble, 2000: 298).[1] Outras correntes do feminismo, porém, afirmam que esta aproximação do pós-feminismo ao pós-modernismo é problemática. Em vez disso, o pós-feminismo é visto como incorporando um feminismo de "Terceira vaga", que se identificaria mais com uma agenda liberal e individualista do que com objectivos colectivos e políticos, considerando que as principais reivindicações de igualdade entre os sexos foram já satisfeitas e que o feminismo deixou de representar adequadamente as preocupações e anseios das mulheres de hoje. Esta visão de um feminismo em versão "pós", isto é, conservadora e acomodada, tem por sua vez sido identificada com o chamado backlash ideológico do feminismo (a que chamaremos contra-feminismo) e defendido por mulheres como Camille Paglia (1990) ou Christina Hoff Sommers (1994).[2]
O termo pós-feminista tem contudo sido ainda reivindicado numa outra acepção, não complacente com as falácias apressadas do "contra-feminismo" e o seu descartar de muitas das questões fundamentais com que as mulheres se continuam a confrontar diariamente, a nível do público e do privado. Esta corrente, focando privilegiadamente a representação e os media, a produção e a leitura de textos culturais, mostra-se empenhada, por um lado, no reafirmar das batalhas já ganhas pelas mulheres, e por outro, na reinvenção do feminismo enquanto tal, e na necessidade de o fortalecer, exigindo que as mulheres se tornem de novo mais reivindicativas e mais empenhadas nas suas lutas em várias frentes, tal como afirmam, entre outras, Germaine Greer (1999), Teresa de Lauretis, Griselda Pollock, Susan Bordo, Elizabeth Grosz, Judith Butler, Donna Haraway.[3] O conceito de pós-feminismo poderá assim traduzir a existência hoje de uma multiplicidade de feminismos, ou de um feminismo "plural", que reconhece o factor da diferença como uma recusa da hegemonia de um tipo de feminismo sobre outro, sem contudo pretender fazer tabula rasa das batalhas ganhas, nem reificar ou "fetichizar" o próprio conceito de diferença.

[in: MACEDO, Ana Gabriela; AMARAL, Ana Luísa (Orgs.). Dicionário da Crítica Feminista. Porto: Afrontamento, 2005. p. 153-154].

Iniciei o meu breve comentário ao debate em torno do pós-feminismo/ feminismo numa era pós-feminista, que a Revista Estudos Feministas apresenta neste seu número, com o verbete que acima transcrevi, com ligeiros ajustes, do dicionário citado que co-organizei. Nesse verbete apresenta-se uma súmula das diferentes perspectivas com que esse conceito tem sido assumido pelo próprio feminismo, e, ao assim fazê-lo, foi nossa intenção evitar definições redutoras ou demasiado apressadas do mesmo. Por esse motivo, ao oferecermos essa nossa discussão do termo, propusemos, tal como é uso fazer em dicionários, que o próprio termo pós-feminismo fosse visto não por si só, enquanto lexema traduzindo isoladamente uma realidade linguística e social, mas por aposição a outros conceitos próximos que traduzem a própria realidade do feminismo hoje. Entre estes há os seguintes, que aqui apenas enumero: feminismo e pós-modernismo; diferença; diferença sexual; contra-feminismo; contra-dicção; ciberfeminismo; corpo; imagem. Não seria adequado definir aqui em pormenor cada um desses conceitos, e acrescentarei apenas que uma das maiores batalhas do feminismo foi erigir-se no seio do discurso patriarcal como uma contra-dicção em relação à lei homogeneizante e universalizadora masculina, para aí interpelar os limites da verdade universal logocêntrica e suas representações discursivas, revoltando-se contra a lei que reduz as mulheres a um "mutismo ou mimetismo cultural",4 e simultaneamente produzir, aí mesmo, uma contra-dicção que recusa o essencialismo e acolhe o paradoxo e a contradição. Essa batalha não está ganha, daí que não é do passado que falamos quando falamos de feminismo: continuamente espreitam, mascarados das mais diversas e mais apelativas linguagens, os discursos do "contra-feminismo", profun-damente estribados num conservadorismo ideológico e político e num feroz individualismo, habilmente disseminados pelos media, que incansavelmente os sustenta.5

Afirmar assim a existência de um pós-feminismo 'global' sem atender a diferentes 'localizações' espaço-temporais seria no mínimo paradoxal, pois significaria reconhecer a entrada num mundo pós-feminista sem nunca termos 'globalmente' conhecido um mundo feminista. Por outro lado, importa saber avaliar os avanços e recuos do movimento feminista desde a sua Primeira Vaga, que significou a luta das mulheres pelo direito ao voto e à vida política, enquanto um dos ganhos da sua Segunda Vaga, que importa igualmente reconhecer, é o acesso ao conhecimento, à informação, o saber acumulado das mulheres sobre si próprias (a ginocítica de que nos fala Elaine Showalter),6 e o seu papel como agentes na História, na Filosofia, na Literatura, na Ciência, nas Artes, na Política, na Tecnologia, etc. Trata-se, essencialmente, da utilização crítica desse valor oposicional, da capacidade de resistência dessa contra-dicção, que o feminismo tem vindo a conquistar, arduamente, hoje como ontem, no seio das sociedades. Nesse contexto, o reconhecimento da "política da localização", tal como reclamada por Adrienne Rich,7 bem como das "novas cartografias do feminino" em articulação com as políticas identitárias (de Virginia Woolf e Simone de Beauvoir a Susan Bordo, Judith Butler, Susan Stanford Friedman, Donna Haraway,8 entre outras), e o reconhecimento da "outridade do paradigma da mulher",9 bem como da sua alteridade "positivamente outra",10 traduzem a consciência de que o feminismo tem vindo a se constituir como uma "nova fronteira" dentro do mainstream, instituindo-se como uma "consciência nomádica" resistente aos discursos e formações hegemónicas, fundamentada rizomaticamente na transdisciplinaridade, na desterritorialização e no hibridismo.11 Vivemos tempos de feminismos plurais, porém, não ainda (e infelizmente, se bem entendido), de pós-feminismo.

 

Referências bibliográficas

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BRAIDOTTI, Rosi. Nomadic Subjects: Embodiment and Sexual Difference in Contemporary Feminist Theory. New York: Columbia Univ. Press, 1994.         [ Links ]

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1 Sarah GAMBLE, 2000.
2 PAGLIA, 1990; SOMMERS, 1994.
3 GREER, 1999; DE LAURETIS, 1987; POLLOCK, 1988; BORDO, 1993; GROSZ, 1995; BUTLER, 1993; HARAWAY, 1991.
4 Myriam DIÁZ-DIOCARETZ e Iris ZAVALA, 1993, p. 96.
5 Vide Dicionário da Crítica Feminista (MACEDO e AMARAL, 2005, p. 23-24).
6 SHOWALTER, 1981.
7 RICH, 1987.
8 WOOLF, 1988; BEAUVOIR, 1976; BORDO, 1993; BUTLER, 1993; STANFORD FRIEDMAN, 1998; HARAWAY, 1991.
9 Griselda POLLOCK, 1988.
10 Rosi BRAIDOTTI, 1997.
11 BRAIDOTTI, 1994