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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.14 no.3 Florianópolis Sept./Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2006000300019 

RESENHAS

 

De falas soltas e fragmentos... tecendo histórias de mulheres em Joinville no século XIX

 

 

Giovana Ilka Jacinto Salvaro

Universidade Federal de Santa Catarina

 

 

Tensões, trabalhos e sociabilidades: histórias de mulheres em Joinville no século XIX.
SILVA, Janine Gomes da.
Joinville, SC: Ed. UNIVILLE, 2004. 225 p.

Histórias de mulheres, relações de gênero, as práticas de memória, as mulheres e as relações de gênero na construção de uma cidade essas são questões que se colocam ao longo do livro de Janine Gomes da Silva intitulado Tensões, trabalhos e sociabilidades: histórias de mulheres em Joinville no século XIX.

Inicialmente, esse livro foi escrito como dissertação de mestrado, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em dezembro de 1997. A autora é doutora em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), professora do Departamento de História da Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE) e historiadora do Arquivo Histórico de Joinville.

Em meio a interlocuções com as historiografias locais e, especialmente, em aspectos da invisibilidade feminina que estas operam, Janine escreve histórias de mulheres em Joinville1 no século XIX.2 Ressalta outros fios condutores, tais como a formação da cidade e as tensões entre luso-brasileiros e imigrantes, que foram se (re)desenhando ao longo do estudo. Nas palavras da autora, "de uma primeira intenção, que era a da questão da visibilidade feminina – por si só importante por trazer à tona um tema pouco problematizado na historia oral –, somaram-se outros fios condutores" (p. 13).

Os imigrantes, nesse caso, alemães, em maior número, colonizaram Joinville a partir de 1851. Como pano de fundo do estudo, em relação à formação da cidade, Janine destaca as vivências, os trabalhos, os divertimentos, as poesias, as sociabilidades femininas... O interesse da autora, ao estudar o cotidiano de Joinville desde sua fundação, em 1851, até o final do século XIX, anuncia-se como expectativa de conhecer o "ainda não dito" sobre a história da cidade: o que, posteriormente, traduz-se, em vez de o "ainda não dito", como "falas soltas e fragmentos sobre as mulheres". É interessante observar que as informações, como um conjunto de falas soltas e fragmentos, obscurecem a visibilidade de possíveis relações que se estabeleciam entre os sujeitos e que não se restringiam às relações sociais imediatas.

Portanto, com o propósito de tecer histórias, a autora se coloca a tarefa de articular diferentes fontes, tais como jornais da época, fotografias, diários de poesias, jornais de casamentos, obras sobre a história de Joinville, reminiscências de imigrantes descendentes, entre outras. Vozes do passado são, pelo trabalho da historiadora, entrecruzadas no presente. De modo semelhante, em termos da diversidade, procede em relação à análise, utilizando-se de estudos que tratam da história das mulheres, das relações de gênero, da memória, do cotidiano, das sociabilidades, da historiografia local, da imigração, por meio de autores/as como Joan Scott, Michelle Perrot, Michel de Certeau, Maria Odila Leite da Silva Dias, Joana Maria Pedro, Giralda Seyferth, Marionilde Dias Brepohl de Magalhães, Philippe Ariès, Eric Hobsbawm, Carlos Ficker, Carlos Gomes de Oliveira, Apolinário Ternes, Elly Herkenhoff, Marina Maluf, Ecléa Bosi, Miriam Moreira Leite, entre outros/as. Há que se considerar, no presente estudo, os olhares e diálogos datados que atravessam os registros na escrita dessas histórias.

O livro divide-se em três capítulos. No primeiro, "Na tessitura de uma história – mulheres de Joinville e tensões entre brasileiros e imigrantes", a autora ressalta vivências cotidianas e faz referência ao mito fundador, presente nos registros da época e que diz respeito aos primeiros imigrantes europeus. Pontua que os discursos anunciavam "harmonia", "progresso", "ordem" e "trabalho", com base nos imigrantes alemães, enquanto colonizadores, em detrimento de outros imigrantes e dos próprios brasileiros, de modo a não interpretar as diferenças. Incluem-se aí disputas e desqualificações entre os grupos étnicos.

Há uma espécie de mito fundador que valoriza os registros da época, acerca dos primeiros imigrantes e seu pioneirismo, contando e recontando a história a partir de 1851. Dentro dessa perspectiva, tal história inicia-se em 1851, quando chegaram a Joinville os primeiros imigrantes europeus. Alguns anos antes, algumas pessoas já haviam visitado a cidade para verificar o território e, posteriormente, para fazer demarcações, mas foi em 9/03/1851 que os primeiros imigrantes, vindos com a barca de Colon até o Porto de São Francisco, chegaram à Colônia Dona Francisca (p. 22).

Nesse sentido, as mulheres eram incluídas quando se falava genericamente dos imigrantes, dos pioneiros e dos homens, o que, de acordo com a autora, não parece contemplar suas participações na construção da cidade. Presume, também, que, por pressão de uma nova elite que estava se constituindo, integrada por imigrantes e por famílias brasileiras envolvidas com o comércio da erva-mate, alguns periódicos analisados anunciavam "as condutas da mulher ideal". Questiona, contudo, se as joinvilenses correspondiam a essas mulheres idealizadas, apontando para possibilidades de distanciamento entre a imagem construída e a realidade da cidade. Entre outras formas de desenhar comportamentos, em casa ou na escola, encontravam-se, ainda, conteúdos educativos que se diferenciavam de acordo com os gêneros e sugeriam a divisão dos espaços público e privado, os quais, respectivamente, destinavam-se aos homens e às mulheres.

"Professoras, comerciantes, cozinheiras... – o trabalho das mulheres na construção de Joinville" compreende o título do segundo capítulo. Neste, a autora identifica o trabalho e suas vinculações às noções de progresso e de pioneirismo dos imigrantes, o que não contemplava "a grande massa de pessoas que também trabalhou" (p. 77). Inclui a valorização da história do trabalho urbano em comparação ao trabalho rural, e conclui que o progresso da cidade não poderia ser apenas atribuído aos empresários e comerciantes, pois a maior parte dos seus habitantes estava na área rural.

A autora argumenta que o trabalho como foco da construção da cidade constituía a vida cotidiana dos homens e mulheres joinvilenses. Isso, no entanto, ao ser registrado pela historiografia local, assumiu aspectos que privilegiaram os homens. Porém, como justifica, não se pode considerar que a "história contemple o cotidiano masculino, mas o fato de os trabalhos empreendidos pelos 'pioneiros' para desbravar a região e construir a cidade darem a tônica à referida historiografia faz dos homens sujeitos dessa história" (p. 65). Sobre esse enredo, a autora se dedica a uma análise para além do espaço doméstico, articulando a discussão com base na divisão sexual do trabalho e sua historicidade.

De acordo com as fontes pesquisadas pela autora, as mulheres apareciam como esposas, mães, donas-de-casa, cozinheiras, comerciantes, professoras, parteiras, costureiras, operárias; transgrediam regras e ousavam circular nos espaços da casa e da rua. Com isso, a autora sublinha questões que indicam contradições em torno da permanência de discursos sobre a inferioridade dos trabalhos femininos e sua marca enquanto complemento ao orçamento doméstico.

No terceiro e último capítulo, a autora apresenta "As sociabilidades" e seus desdobramentos temáticos, organizados a partir de informações que se impuseram à análise, isto é, o "cotidiano joinvilense do século XIX foi 'surgindo', mostrando suas redes de cumplicidade e seus conflitos" (p. 105). Trata-se do capítulo mais longo do livro, em que a autora opera, de forma minuciosa, as informações que versam sobre práticas de sociabilidades de mulheres e homens em Joinville, no século XIX, reveladoras de experiências cotidianas e de demarcadores étnicos. Nesse capítulo, circulam registros que permitem adentrar os espaços público e privado, especialmente, os entrelaçamentos que os compõem e que possibilitam indagar acerca da tênue divisão que se coloca, simbolicamente desenhada em determinados tempos e lugares. Perseguindo pistas, a autora dispõe dos registros de poesias, de bailes, de corais, de peças de teatro como fontes para a escrita dessas histórias de sociabilidades, que convergem no (re)encontro de tradições, no estabelecimento e cultivo de novas redes de amizade na "nova terra".

Assim, diante do texto cuidadoso e articulado, apresentado pela autora, no conjunto dos desdobramentos temáticos do terceiro capítulo, os dois últimos parecem destoar, na medida em que entram em cena informações que remontam a discussões que poderiam ser agregadas aos capítulos anteriores. É claro que isso não compromete a trama; apenas indica que, talvez, algo faça sentido em outro lugar.

O que se pode, por fim, destacar, é que um dos méritos do livro de Janine reside na articulação de diferentes fontes na tarefa de tecer histórias. A autora não encerra discussões em torno das temáticas propostas; ao contrário, contribui para indicar a pertinência, por assim dizer, de estudos que possam (re)atualizar indagações acerca das relações que produzem o apagamento das mulheres nas diferentes histórias consideradas oficiais. Sobre os interesses que estão em jogo, sobre o que se autoriza lembrar. Com certeza, Tensões, trabalhos e sociabilidades: histórias de mulheres em Joinville no século XIX é um livro significativo para os estudos sobre as histórias das mulheres e sobre as relações de gênero.

 

Notas

1 "Joinville está localizada na região nordeste do Estado de Santa Catarina. A partir de 1851, com a instalação da Colônia Dona Francisca, vieram para essa região imigrantes suíços, noruegueses e principalmente alemães. Joinville era a sede administrativa da colônia, que compreendia também parte das atuais cidades de Garuva, Schroeder, Guaramirim, Campo Alegre e São Bento do Sul" (p. 13).

2 O livro localiza-se no contexto de estudos sobre a história das mulheres; dentre outros, pode-se citar: Georges DUBY e Michelle PERROT, 1990; Mary DEL PRIORE, 1997; Antonio MORGA, 2001. Cabe ressaltar que Janine Gomes da Silva publicou, no livro organizado por Antonio Morga em 2001, um artigo intitulado "Lugares do recôndito, espaços de sociabilidade: histórias das mulheres imigrantes de Joinville". Destaca-se ainda que esse livro foi resenhado por Maria de Fátima Salum na Revista Estudos Feminista, v. 9, n. 2, p. 626-630, 2001.

 

Referências bibliográficas

DEL PRIORE, Mary (Org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto/UNESP, 1997.

DUBY, Georges; PERROT, Michelle (Orgs.). História das mulheres no Ocidente. Porto: Edições Afrontamento; São Paulo: EBRADIL, 1990. 5 v.

MORGA, Antonio (Org.). História das mulheres em Santa Catarina. Florianópolis: Letras Contemporâneas; Chapecó: Argos, 2001.