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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.15 no.3 Florianópolis Sept./Dec. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2007000300002 

ARTIGOS

 

O amor (e a mulher): uma conversa (im)possível entre Clarice Lispector e Sartre

 

The love (and the woman): a (im)possible conversation between Clarice Lispector and Sartre

 

 

Valeska Zanello

Universidade de Brasília

 

 


RESUMO

Com o presente trabalho visamos fazer uma análise do conto "O amor", de Clarice Lispector, a partir das seguintes categorias apontadas por Sartre em O ser e o nada: olhar-ser olhado, instrumentalidade (funcionalidade) e amor. Partimos da experiência elaborada por Clarice em seu texto, na qual Ana, dona de casa atarefada e 'empenhada' em servir aos familiares ("pura funcionalidade"), se depara, numa de suas idas e vindas à cidade, com um cego mascando chicletes. Ora, um cego é um olho que não olha, é um olho sem função. É essa vivência que abre a Ana a dimensão do amor, num sentido muito específico (que aponta para as relações de gênero), e do qual a descrição fenomenológica de Sartre parece não dar conta.

Palavras-chave: amor; mulher; Clarice Lispector; Sartre.


ABSTRACT

The present work analyses Clarice Lispector's story "The Love", starting from the following categories pointed by Sartre in Being and the Anything: to see and to be seen, functionality and love. Starting from the experience elaborated by Clarice in her text, in which Ana – a housewife, always busy serving her family ("pure functionality") – , in one of her goings and comings to and from the city, comes across a blind man chewing a chewing gum. But a blind man has an eye that doesn't see, it is an eye without function. It is this experience that opens to Ana the dimension of love, in a very specific sense (which points out to the gender relationships), and for which the phenomenological Sartre's description seems to us somewhat limited.

Key Words: Love; Woman; Clarice Lispector; Sartre.


 

 

Em "O Amor",1 Clarice Lispector nos relata a história de Ana, uma dona de casa atarefada em cumprir seus deveres de mãe e esposa, completamente 'sugada' em seu mundinho previsível e cotidiano. Podemos dizer que ela é muito mais dependente de sua servidão do que talvez os próprios beneficiados. Em algumas horas do dia, Ana pressente o 'perigo' se aproximar: uma espécie de lacuna, de falta, um vazio. E é essa 'rachadura' que Clarice Lispector vai explorar. Numas dessas horas, à tarde, depois de fazer suas compras, ao retornar para casa, Ana toma um bonde e, contemplando a paisagem, avista um cego mascando chicletes. Aparentemente uma cena banal, mas no quadro daquele momento toma uma dimensão até então imprevisível para ela: Ana é invadida por uma piedade absolutamente profunda, espantosa, que beira o nojo.

Completamente tomada por essa experiência, a personagem nem percebe a partida do bonde, deixando cair a caixa de ovos que havia comprado – acontecimento que sai do previsto, dos trilhos repetitivos de seu cotidiano, de sua medíocre vidinha do dia-a-dia. A personagem permanece nesse estado por um bom tempo, olhando as coisas e as pessoas de uma maneira um tanto 'estranha'. É nesse espanto que Clarice mostra ou aponta a vivência de Ana quanto à sua escolha (sua vida como mera possibilidade, como 'escolhida'), e a angústia desconstrutora, mas também possibilitadora de novas escolhas (o que não ocorre: a personagem oblitera seus abismos... não suportando a vertigem).

Ao retornar para casa, vemos Ana se esforçar por mergulhar novamente em seu cotidiano: através da 'culpa' que sente ao rever seu filho. "É pelas crianças!" (E não é esta a justificativa de tantas mulheres?). Ela tenta espremer a vastidão do que vivenciou na estreiteza de sua cozinha, quartos, limpeza e relações domésticas – totalmente conhecidas, previsíveis e esgotadas. E é o próprio marido que a reconduz a seu mundinho tamponado, morno, sem frestas.

Duas questões emergem como essenciais para o presente ensaio: por que Clarice denominou este conto de "O amor"? E por que logo um cego é, no conto, o objeto de transição, cortante, interpelador (interpela-dor) da retirada da personagem de sua funcionalidade de dona de casa para seu estado de torpor?

Comecemos pela segunda pergunta. Sartre, em O ser e o nada,2 sublinha, de maneira enfática, a importância do olhar do outro no congelamento de traços do ser-para-si como um em-si. Isto é, coisificando o para-si que se sente e se vê em face do outro como objeto. Ora, Sartre também nos diz que podemos colocar/captar o outro em sua pura funcionalidade: a indiferença. Ele nos diz:

Trata-se pois de uma cegueira com relação aos outros [...]. Quase não lhes dou atenção; ajo como se estivesse sozinho no mundo; toco de leve pessoas como toco de leve paredes; evito-as como evito obstáculos; sua liberdade-objeto não passa para mim de seu coeficiente de adversidade; sequer imagino que possam me olhar [...]. Essas pessoas são funções: o bilheteiro nada mais é que a função de coletar ingressos; o garçom nada mais é que a função de servir fregueses.3

E por que não continuar? A mãe pode vir a ser identificada com a função de cuidar das crianças, de sua alimentação, de seus horários e estudos, etc.; a esposa, com a função de preparar a comida, afagar o esposo e satisfazê-lo sexualmente; etc. Parece que a personagem descrita por Clarice enquadra-se nesse congelamento do olhar dos outros: ela é transparente, pura funcionalidade, que garante o bom andamento da casa e da família.

Vejamos bem: ela é congelada na cegueira dos outros, enquanto puro instrumento. Mas há algo que no conto aponta também para os 'benefícios' dessa posição: almofada para a angústia de sua própria liberdade e de suas escolhas. A personagem não entra em conflito, como poderia nos fazer pensar uma leitura sartreana, com o olhar do outro, mas antes se nutre desse olhar, identificando-se com o que nele se reflete como dela mesma. Isto é, a própria personagem coisifica, ou reduz o outro, à sua própria funcionalidade de olhar. É assim que ela precisa ser vista. Isto não lhe acontece: isto é escolha. "Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. [...] Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se."4 Assim, manter o outro na sua funcionalidade do olhar não é conflito, é homeostase, não passiva, calma, neutra, mas tensa. Trata-se não de um "ou/ou" tão característico de um modo reducionista de pensar, mas de um "e", complexo, e que resulta num sistema 'vivo', processual. Diferentemente dos textos que indicam uma dupla possibilidade à personagem feminina – "ou refletir a imagem masculina, metonímia e metáfora de uma ideologia opressora, ou perder-se no vazio da loucura e da marginalização"5 – acreditamos que o conto de Clarice "indica novas possibilidades para o imaginário cultural, implantando novas questões num imaginário que se torna reativado em novas direções".6

Sartre ainda pensa a subjetividade na relação sujeito-objeto, em um esquema no qual "ora eu conquisto, ora o outro me conquista". Trata-se de 'vencer' e não de conviver. A pergunta agora é: o que do outro me constitui e o que no outro eu constituo? Se durante a década de 70 a crítica literária da obra de Lispector seguiu os passos de Benedito Nunes, no que tange à tendência existencialista e universalizante,7 trata-se aqui de pensar o que o conto de Clarice pode, por seu turno, desconstruir da própria concepção satreana (a nosso ver, binária-patriarcal) acerca do que venha a ser o amor e, ainda nesse sentido, o que o conto sobre o amor nos abre como possibilidades de reflexão acerca da 'mulher', pois "ao desestabilizar os estereótipos de gender e as formas de articulação do poder, instalados pelo patriarcado, Lispector também desmantela as bases dos essencialismos".8

Para Sartre, o ápice da consciência da liberdade se dá exatamente à beira do pressentimento de estar sendo coisificado pelo outro (quando me sinto prestes a perdê-la). Mas, no caso de Ana, personagem do conto de Clarice Lispector, não se dá o mesmo, pois a redução da personagem à pura funcionalidade, como vimos, não lhe representa angústia, mas antes alívio:

No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. [...] Assim ela o quisera e escolhera. Sua preocupação reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia, sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto – ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar os objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles.9

Ela precisa ser útil, funcional.10 E Clarice descreve a escolha de vida da personagem como uma grande aceitação que dava ao seu rosto um ar de mulher.

Num de seus passeios, a fim de manter-se na funcionalidade da família (fazer compras, etc.), Ana depara-se com o inesperado e o adormecido. Aqui entra um aspecto interessantíssimo do conto e que nos faz colocar em xeque as próprias idéias de Sartre: o aparecimento do cego, ela vê o cego.

Ora, tudo ia se encaminhando 'bem' na vida diária dessa personagem, na sua ida às compras, na sua previsibilidade, até que do bonde ela avista um cego mascando chicletes. O que há de tão estranho nisso?, podemos nos perguntar. Uma resposta contundente se evidencia: o cego é um olho que não olha. A funcionalidade do olho é o olhar, mas no cego o olho é coisa. Aqui se evidencia a redução, por parte da personagem, do outro à sua funcionalidade do olhar. O olho do cego é, assim, um espelho às avessas: um buraco negro, no qual a personagem se sente sugada até a alma, em puro estado de ódio, torpor, piedade e nojo. "Era um cego [...]. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê [...], como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio."11

Abre-se o fundamento (que antes era a manutenção daquilo a que o olhar do outro a reduzia e alimentava: pura funcionalidade), surgindo a possibilidade de a personagem deparar-se com a sua própria falta de fundamento: sua liberdade. Vertigem... Suas escolhas passam a ser ressentidas como meras possibilidades. Em outras palavras, o ápice da consciência da liberdade, nesse caso, se dá justamente quando o olhar do outro some, quando não há mais sustento ou amparo: tudo se esboroa. Perdida nesse buraco, Ana não percebe a partida do bonde e deixa que os ovos caiam de sua bolsa e se quebrem, alguns, no chão:

O mal estava feito [...]. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. [...] Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite – tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso.12

A personagem sente-se então 'dessituada' no seu mundinho, perdendo os hábitos, lugares, horários e "mundanidade" de seu modo repetitivo de viver, caindo numa "bondade extremamente dolorosa". A ênfase se faz, então, no olho que não olha, no olho sem função, despedaçando a funcionalidade do mundo de Ana. Acreditamos que o cego não é, na verdade, apenas "o mediador de uma incompatibilidade latente com o mundo que jaz no ânimo de Ana",13 mas que a escolha da própria cegueira como abertura de mundo da personagem aponta para a nomeação de importantes questões relacionadas ao gênero.

Em primeiro lugar, faz-se necessário sublinhar o fato de ser a personagem principal uma mulher, escravizada (pelo outro, mas também por si mesma) ao olhar do outro. Essa relação entre a mulher e o olhar/ser olhada é um tema bastante discutido, comentado e revisitado pela psicanálise.14 A questão então é: será gratuita, no conto, esta escolha? Por que Clarice nos diz que sua grande 'aceitação' transformava seu rosto em rosto de 'mulher'? E, finalmente, por que o conto se intitula "O amor"?

Sartre, em O ser e o nada, situa a experiência do amor na primeira atitude para com o outro, juntamente com a linguagem e o masoquismo. Ele nos nos diz que "o amor é um empreendimento, ou seja, um conjunto orgânico de projetos rumo a minhas possibilidades próprias".15 No entanto, o amor é conflito, pois nos coloca em relação direta com a liberdade do outro: daí ter saído de Sartre a afirmação, hoje em dia quase um slogan, de que "o inferno são os outros". Mas esse inferno não se estabelece definitivamente no conto clariceano. Ocorre, ao contrário, como já afirmamos, uma ausência de luta, de conflito (pelo menos na relação marido – mulher), firmando-se um apaziguamento via a homeostase funcionalidade do olhar/funcionalidade do ser olhada. É o cego, enquanto ausência de olhar, que abre à personagem possibilidades outras que não a funcionalidade. É ele que lhe abre a porta, antes evitada, do conflito. Após 'ultrapassá-la', Ana se dirige ao Jardim Botânico, em estado de torpor, espanto, e admiração em face da crueza da vida: "A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos. [...] As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia".16 Algo acontece à personagem que nela trespassa vida, pulsão, força, crueza pulsátil: "A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu".17

Ana permanece nesse estado por um bom tempo. É importante ressaltar que Clarice denomina "amor" exatamente esse estado de 'abertura'. Mas, enquanto mulher, e funcionalidade mãe, Ana se lembra de seus filhos, é fim de tarde e eles chegarão em casa... Culpa. Morte. A personagem corre então para casa e "por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver".18

Seu filho corre ao seu encontro. Ana abraça-o com força, com espanto, protegendo-se trêmula, porque "a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado – amava com nojo":

Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal – o cego ou o belo Jardim Botânico? – agarrava-se a ele a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares ricos e pobres que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera.19

O olhar não é mais materno (ruptura também da homeostase dessa função), mas de uma falta, 'abertura'. O filho a estranha: a "chave", como nos diz Sartre acerca da funcionalidade do outro, não entra, não é eficaz. "Cadê minha mãe?", pergunta o menino, chama-a. "Partindo-se disso, será possível utilizá-las como for melhor aos meus interesses, caso conheça suas 'chaves' e essas 'palavras-chave' aptas a desencadear seus mecanismos",20 ou seja, o retorno de Ana à sua função materna.

Acreditamos que a descrição fenomenológica que Sartre faz da experiência do amor não dá conta da especificidade dessa experiência de amor que Clarice descreve e que não se inscreve na relação com o outro, na intersubjetividade (apesar de ter sido com o outro 'cego' que ela se abriu, se possibilitou). Através da ausência da funcionalidade do olhar do outro é que Ana se depara com a vastidão, agora incabível nesse mundinho reduzido da limpeza, do fogão, da cozinha, do marido e dos filhos:

De que tinha vergonha? Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade: seu coração enchera-se com a pior vontade de viver.21

A homeostase funcional é rompida: invade-lhe um fluxo de vida intenso: possibilidades... Com medo da intensidade do fluxo de vida pelo qual é invadida (a experiência de amor, para Clarice Lispector), Ana dirige-se para a cozinha, a fim de ajudar a empregada a preparar o jantar. Continua invadida por essa corrente, que lhe faz estranhar pequenos, mas intensos sinais de vida que se lhe avizinham: aranhas, moscas, besouros, etc. Chegam o marido, os irmãos e suas mulheres. E "apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom".22 Ana tenta a todo custo retomar seu lugarzinho anterior... Eles conversam à mesa, riem, distraem-se. "E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu."23

Quando as visitas vão embora, Ana se sente ainda tocada pela experiência vital e brutal pela qual passou: "O que o cego desencadeou caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças".24 Escuta então um estouro na cozinha: grita assustada. Nada demais aconteceu, apenas um pequeno acidente, normal, com o marido que derramara café. Diz a ele que deseja que nada lhe aconteça. Ele, é importante frisar, é ele que a reconduz ao seu mundinho:

É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver. Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.25

O desfecho da história de Ana se dá pelo olhar-se no espelho. Mas o que é um espelho? "É o único material inventado que é natural. Quem olha um espelho, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade consiste em ele ser vazio [...] esse alguém percebeu o seu mistério de coisa."26 Ana não vê o vazio – contemplado e aberto pelo olho do cego – mas sua própria imagem, reintroduzida na banalidade de seu cotidiano: "O olhar no espelho já assinala o desdobramento do sujeito, que se vê como um outro, objetivo e impessoal".27

Percebemos assim que o amor, nesse conto, se abre para a personagem não na relação com o marido, nem com o filho, mas no inesperado evento do cego. É talvez na possibilidade fecunda de não ser olhada, pelo menos de uma determinada maneira (enquanto funcionalidade seja para a casa, a família ou para a beleza; homeostase na qual e a qual a mulher se mantém e mantém), que sobre espaço para a vastidão do mundo que não cabe na redução, na aceitação ativa, que Clarice denomina de destino de mulher e que, sem sombra de dúvidas, poderíamos relacionar ao que Sartre denomina de má-fé. É na falta de fundamento, e de sustento, que sua escolha, enquanto escolha pessoal, se lhe aparece dolorosamente como mera possibilidade. O que fazer com essa experiência aponta para destinos possíveis, dos quais Ana escolhe, novamente, a funcionalidade. Destino de mulher? É talvez uma pergunta, e uma crítica, que Clarice tenha apontado indiretamente, sutilmente. E que outros destinos de mulher são possíveis? É possível um destino de mulher sem má-fé? Ou será que um destino de mulher sem má-fé será fatalmente tachado como masculino em nossa sociedade? São questões que, a partir do conto, se abriram...

Fazemos nossas as palavras de Cixous:28 "Lá, mais à frente, onde o filósofo perde o fôlego ela (Lispector) continua, mais longe ainda, mais longe do que todo saber [...]. Ela não sabe nada. Não leu os filósofos. Contudo, tem-se às vezes a impressão de ouvi-los murmurar em suas florestas. Ela descobre tudo".

 

Referências bibliográficas

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Recebido em maio de 2006 e aceito para publicação em fevereiro de 2007

 

 

1 LISPECTOR, 1974, p. 21-31.
2 SARTRE, 1997.
3 SARTRE, 1997, p. 474.
4 LISPECTOR, 1974, p. 21.
5 Ruth BRANDÃO, 2004, p. 56.
6 Lucia HELENA, 1997, p. 28.
7 HELENA, 1997, p. 38.
8 HELENA, 1997, p. 106.
9 LISPECTOR, 1974, p. 22.
10 Discordamos aqui, portanto, de Berta Waldman, para quem Ana parece ser uma mulher tranqüila e em paz consigo mesma. Ver Berta WALDMAN, 1992.
11 LISPECTOR, 1974, p. 23.
12 LISPECTOR, 1974, p. 24-25.
13 Benedito NUNES, 1995, p. 85.
14 Ver, entre outros, Luce IRIGARAY, 1977; Lucien ISAREL, 1995; Juan NASIO, 1991; Sigmund FREUD, 1974.
15 SARTRE, 1997, p. 457.
16 LISPECTOR, 1974, p. 27.
17 LISPECTOR, 1974, p. 28.
18 LISPECTOR, 1974, p. 28.
19 LISPECTOR, 1974, p. 29. Grifos nossos.
20 SARTRE, 1997, p. 474.
21 LISPECTOR, 1974, p. 29.
22 LISPECTOR, 1974, p. 31.
23 LISPECTOR, 1974, p. 31.
24 LISPECTOR, 1974, p. 31.
25 LISPECTOR, 1974, p. 31.
26 LISPECTOR, 1973, p. 94.
27 NUNES, 1995, p. 107.
28 Hélène CIXOUS, 1999, p. 115.