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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.15 no.3 Florianópolis Sept./Dec. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2007000300014 

SEÇÃO TEMÁTICA GÊNERO E MIGRAÇÕES CONTEMPORÂNEAS

 

Sexo tropical em um país europeu: migração de brasileiras para a Itália no marco do "turismo sexual" internacional

 

Tropical sex in a European country: Brazilian women's migration to Italy in the frame of international sex tourism

 

 

Adriana Piscitelli

Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, UNICAMP

 

 


RESUMO

Em Fortaleza, uma das cidades vinculadas ao turismo sexual no Nordeste do Brasil, jovens mulheres das camadas baixas deixam o país com ou convidadas por turistas sexuais. Algumas se inserem na indústria do sexo na Europa. Outras, porém, a deixam, casando-se com europeus. Centrando-me em um universo de casais integrados por mulheres do Nordeste do Brasil e italianos, discuto as categorias de diferenciação que adquirem centralidade quando esses relacionamentos, iniciados em um terreno ambíguo da sexualidade, interesse econômico e romance no qual se misturam, são contextualizados na Itália. Analiso as implicações culturais, políticas e econômicas desse tipo de migração, refletindo sobre os significados adquiridos pela sexualidade tropical na migração para esse país do Norte.

Palavras-chave: migração; turismo sexual; mercado do sexo; gênero.


ABSTRACT

In Fortaleza, which is one of the main cities linked to sex tourism in the Northeast of Brazil, young low income women leave the country with or invited by sex tourists. While some indeed engage themselves in the sex industry in Europe, others leave it when marrying European men. Focusing on the universe of integrants of couples integrated women from the Northeast from Brazil and Italian men, this paper addresses the differentiations that acquire centrality when these relationships, formed in an ambiguous terrain where sexuality, economic interest and romance intermingle, are contextualized in Italy. I analyze the cultural, political and economic implications of that migration. The study discusses the relationship between gender and economic negotiations in those couples, reflecting on the meanings acquired by "tropical sexuality" in the migration to that Northern country.

Key Words: Migration; Sex Tourism; Sex Market; Gender.


 

 

Introdução1

Neste texto trato da migração de brasileiras para a Itália, a partir de um contexto de "turismo sexual"2 no Brasil. No país, a relação entre turismo sexual e migração suscita preocupações desde inícios da década de 1990. A partir daquele momento, diversos agentes consideram que brasileiras, atraídas pelas promessas de casamento ou emprego de visitantes internacionais, são forçadas a prostituir-se na Europa. Alguns estudos referendam a idéia de que, em contextos de turismo sexual, intermediários ou agenciadores contatam mulheres brasileiras oferecendo-lhes trabalho na prostituição na Europa.3 Entretanto, como mostro em seguida, as migrações vinculadas ao turismo sexual são heterogêneas e nem sempre têm como efeito a inserção de brasileiras na indústria do sexo.

Esse tipo de circulação começou a chamar minha atenção durante uma pesquisa que realizei entre 1999 e 2002 em Fortaleza, uma das cidades vinculadas ao turismo sexual no Nordeste, sobre a relação entre turismo internacional e sexualidade.4 Durante o transcurso do trabalho de campo, acompanhei os deslocamentos de garotas das camadas baixas e médias-baixas que deixavam o país com (ou convidadas por) turistas à procura de sexo.

Muitas dessas mulheres iam e voltavam. Algumas, após terem se inserido na indústria do sexo em algum país europeu, retornavam ao expirar os três meses de permanência regular permitida aos turistas brasileiros, retomando a rotina de realizar "programas" com estrangeiros em Fortaleza. Outras, depois de um breve período convivendo à maneira de esposas, voltavam decepcionadas com a experiência da vida em comum. O fato de terem sido trocadas por outra namorada e, ocasionalmente, o uso de drogas por parte dos parceiros ou a violência doméstica as conduziam novamente ao Brasil, ao mercado de trabalho voltado para o turismo na cidade, no qual esperavam encontrar outro estrangeiro que viabilizasse a migração para a Europa. Paralelamente, algumas das entrevistadas e várias integrantes do universo mais amplo no qual realizei observação viajaram e permaneceram no exterior, no norte da Itália.

Neste texto considero como "gênero", articulando-se a outras categorias de diferenciação, atravessa esses processos migratórios. Centrando-me em um universo integrado por brasileiras, majoritariamente nordestinas, que migraram para a Itália e por maridos italianos que as conheceram ao visitar Fortaleza com o objetivo de consumir sexo, exploro o significado da alteração de contextos, considerando as implicações culturais, políticas e econômicas desse tipo de migração. No processo migratório, gênero, nacionalidade, classe e noções sobre sexualidade tropical adquirem novos significados, afetando mulheres que, com freqüência, enfrentam limitações e sentem uma certa desilusão. Entretanto, e esse é meu principal argumento, esses relacionamentos adquirem uma particular valorização em função da possibilidade de criação de um espaço para a agência através das fronteiras.

 

O campo

A investigação foi desenvolvida em uma abordagem antropológica. O trabalho de campo teve lugar na Itália, entre maio e julho de 2004, e durante algumas semanas, em 2005 e 2006, em Fortaleza, onde encontrei parte dos casais que entrevistei na Itália. Os dados foram obtidos através de observação, entrevistas em profundidade e do levantamento de diversas fontes. A parte mais relevante do trabalho de campo consistiu em acompanhar o cotidiano das pessoas em seus lares, espaços de trabalho, rotinas nos bairros, aniversários, festas de família e com amigos, encontros em restaurantes e bares, e em viagens de carro entre o centro de Milão, pequenas cidades nas proximidades e no campo, na região da Lombardia.

Realizei entrevistas em profundidade (registradas com gravador) com oito brasileiras que migraram a partir do contexto do turismo sexual em Fortaleza e com quatro brasileiras, casadas com italianos, que migraram a partir de outros contextos (e foram utilizadas como controle), e entrevistas com cinco maridos italianos, registradas imediatamente após a realização. Das mulheres que migraram a partir de Fortaleza, a metade fez parte do meu universo de entrevistadas na pesquisa realizada nessa cidade e as restantes integravam suas redes de relações. Elas encontraram seus parceiros trabalhando nos circuitos de turismo sexual em Fortaleza, embora nem todas oferecessem serviços sexuais. As entrevistas realizadas na Itália tiveram lugar em diversos bairros de Milão e em cidades relativamente próximas: Abbiategrasso, Voghera, Verona.

O trabalho envolveu também visitas a organizações não-governamentais dedicadas ao trabalho de combate a prostituição e tráfico, entrevistas semi-estruturadas com oito pessoas-chave vinculadas a essas instituições e com agentes do Consulado Brasileiro em Milão, entrevistas informais com quatro italianas com algum tipo de conhecimento sobre casais mistos e coleta de fontes secundárias e dados na e através da Universitá degli Studi di Milano.

 

Marcas transnacionais na indústria do sexo e no mercado matrimonial

Nos estudos sobre migração há praticamente um consenso no que se refere à crescente participação feminina nas migrações internacionais,5 mas essa literatura assinala que a feminização desses deslocamentos se intensifica em fluxos específicos. Na Itália, durante a década de 1990, uma migração quase de sexo único chegou de países da Ásia, como Filipinas, e da América Latina: Brasil, Colômbia, República Dominicana, Equador e Peru.6 As mulheres desses países ocuparam, sobretudo, os degraus mais baixos da hierarquia do emprego no setor de serviços: o trabalho doméstico, o cuidado de crianças e idosos e a inserção na indústria do sexo.

Milão e uma diversidade de cidades próximas conformam uma região na qual se estabelece um heterogêneo contingente de brasileiras vinculado de diversas maneiras à indústria do sexo. Na Itália, a década de 1990 é considerada marcante em termos do incremento na circulação de estrangeiras que oferecem serviços sexuais. Segundo os estudos sobre o tema, a partir dessa época, as prostitutas estrangeiras, conjuntamente com dançarinas e esposas encomendadas por correspondência, passaram a inundar a indústria do sexo.7

Considera-se que esse boom de estrangeiras, aumentando e diversificando a oferta, aqueceu o consumo da prostituição por clientes de diversas faixas etárias.8 De acordo com estudos sobre prostituição na Itália, a maior parte dessa atividade é desempenhada por transexuais e mulheres latino-americanas e por mulheres nigerianas, albanesas, russas, ucranianas, romenas e húngaras.9 As brasileiras desempenhariam atividades predominantemente em espaços fechados, considerados impossíveis de quantificar, situados nos níveis intermediários de prostituição.10

Paralelamente, a prática de casar com pessoas estrangeiras é significativa na Itália. Em 2000, os 20.000 casamentos celebrados entre pessoas nascidas na Itália e no exterior representaram 7,1% do total de casamentos.11 De acordo com dados relativos ao censo de 2001, havia na Itália em torno de 200.000 casais mistos e a maioria absoluta (71%) era integrada por homens italianos e mulheres estrangeiras.12 Como a maior parte das concessões de cidadania estão vinculadas a esses matrimônios, o efeito é que as mulheres são mais numerosas entre os novos cidadãos.13

Os estudos sobre casamento como porta de entrada para a migração destacam a quantidade de agências de casamento que, anunciadas na Web e em jornais italianos, oferecem contatos com potenciais esposas russas, de países do Leste Europeu e também do Brasil. Esses trabalhos classificam os casamentos mistos em diferentes categorias, traçando distinções entre os que resultam de relacionamentos sentimentais; os arranjados; os casamentos de conveniência (para driblar regulamentações referidas ao ingresso ou à permanência em um país estrangeiro e ainda por conveniência em termos econômicos); os forçados (envolvendo, às vezes, latino-americanas obrigadas por suas famílias por motivos econômicos); os casamentos vinculados à reunificação familiar e, finalmente, os casamentos de reparação (da honra da mulher ou da família, em casos de gravidezes, violações, relações ilícitas).Considera-se, sobretudo, que os casamentos por conveniência, os forçados e também os de reunificação situam as mulheres em risco de exploração em situações nas quais o casamento conduz ao ingresso forçado na indústria do sexo.14

Os dados estatísticos não possibilitam fazer relações com os tipos de casamento envolvidos, mas proporcionam informações sobre as nacionalidades mais requisitadas para o casamento. De acordo com análises do censo de 2001, esses países são, por ordem de importância, Alemanha, França, Romênia, Polônia, Brasil, Grã-Bretanha, Espanha, Albânia, Cuba e Suíça.15 O lugar do Brasil nessa listagem é significativo, mais ainda quando se considera que brasileiras e cubanas (o segundo país de América Latina em ordem de relevância) são, em termos das residentes regulares, numericamente inferiores a mulheres de outros países dessa região, como Peru, por exemplo.16

 

Trânsitos

As brasileiras que migram a partir dos contextos mais diversos com o objetivo de inserir-se na indústria do sexo na Itália acionam redes integradas por amigas, conhecidas e também procuram, ou são procuradas, por agenciadores ou empresários. Algumas contraem dívidas. O trabalho, de acordo com os "esquemas" nos quais se inserem, pode envolver maior ou menor grau de exploração. Uma cabeleireira de Porto Alegre que atende mulheres e "trans" brasileiras envolvidas no trabalho sexual em Voghera mostra sua percepção da inserção nessa indústria:

Em um night tem que dar dinheiro para a casa, mas, em uma casa de encontro, dependendo, fica tudo para elas... ou só fica a metade... Podem fazer entre 1.500 a 3.000 € euros por semana... Chegam como turistas, com possibilidade de ficar por três meses. Depois ficam clandestinas. Mas na Itália tudo se compra. Apartamento, só vão alugar para alguém que tem os papéis certos. Mas, se o apartamento custa 500 e você paga 1.000 e paga vários meses por antecipado, eles alugam. Assim é que se montam as casas de encontro. Como há multas pela [exploração da] prostituição, essa é uma justificativa para explorar mais as meninas... Muitas vêm do Rio, mas chegam do Nordeste, das regiões mais pobres. Aliás, muitas do Ceará. Está cheio de meninas de Fortaleza...

Os estudos sobre a indústria do sexo observam que as pessoas que nela trabalham raramente são contempladas nos estudos de migração,17 embora desempenhem um importante papel na criação de um espaço social transnacional, em função das redes que criam e da circulação de dinheiro que promovem, também em seus países de origem. Essas reflexões são importantes para pensar nos deslocamentos dessas brasileiras. Mas, ao considerar as migrações a partir de contextos de turismo sexual, é importante lembrar que neles os relacionamentos com visitantes internacionais extrapolam a prostituição.18 Portanto, torna-se necessário prestar atenção a redes diversificadas nas quais se engajam "garotas de programa" e mulheres que desempenham diversas atividades no setor de serviços voltado para o turismo.

As entrevistadas que deixaram Fortaleza acompanhando turistas à procura de sexo compõem um mosaico heterogêneo. Algumas, em um trânsito sazonal entre Milão e Fortaleza, aproveitaram o convite para viajar livres de dívidas, permanecendo na Itália à procura de "programas" com clientes que conheceram no Brasil e retornando ao país com dinheiro. Outras, reiterando o padrão pouco profissional presente nos relacionamentos com estrangeiros em Fortaleza, visitam "namorados" na Itália procurando alguma possibilidade de permanecer no país através deles. Quando não o conseguem, elas regressam levando consigo malas cheias de roupas (algumas de griffe), relógios, perfumes e celulares ultra-sofisticados.

A maior parte das entrevistadas, porém, já conta com residência na Itália. Em Fortaleza, algumas dessas garotas ofereciam serviços sexuais. Narrando seu encontro com o atual marido, uma jovem de Fortaleza de 22 anos, residindo há 15 meses na Itália, comenta:

Eu cobrava e dizia logo: [são] R$ 300... A primeira noite que fiquei com ele... Fomos para um motel... Estava todo mundo junto, tinha piscina. A gente foi fazer uma festinha, beber... No final da história, ficou só eu conversando com ele... E eu fiz ele me pagar [risos]... No outro dia, a mesma história. Vamos todo mundo junto para a praia... Na praia, a gente conversou um pouco mais sério. [Ele disse:] Se você quiser ficar comigo, a gente pode ficar junto... Eu te ajudo, mas... não posso ficar fazendo como um turista normal faz, pagando cada vez.

Outras tinham trabalhos estáveis, com salários relativamente baixos (o mais elevado era de R$ 500,00 mensais), no setor de serviços, e, apesar de manterem relacionamentos com estrangeiros mediados pela procura de benefícios materiais, não faziam "programas".

Nenhuma das entrevistadas que reside na Itália está atualmente envolvida na indústria do sexo. Essas mulheres, com idades entre 22 e 31 anos, originárias das camadas baixas e médias-baixas de diversos estados do Nordeste do Brasil, chegaram à Itália em momentos diferenciados no tempo (entre quinze meses e sete anos). Elas oferecem exemplos de um dos paradoxos envolvendo o turismo sexual. Em alguns casos, ele oferece vias de saída da indústria do sexo, através da migração para os países do Norte e do casamento.

Entre essas jovens, o padrão migratório apresenta traços análogos. Trata-se de garotas que trabalhavam nas regiões turísticas de Fortaleza, estabelecendo sucessivos relacionamentos com estrangeiros, alimentados pelo sonho de viajar. No relato de uma ex-garçonete de 29 anos, originária do interior do Ceará, sobre o início do relacionamento com o atual marido,

Ele se apaixonou por mim em dez dias... Vim para passar um mês e voltar. Eu disse... você quer que eu vá? Pois vou, mas com passagem, com o passaporte que fica na minha mão, para quando eu quiser voltar eu possa voltar, com dinheiro no meu bolso. Ele enviou dinheiro, passagem. Tantos disseram que queriam que viesse e nunca deu certo. Pois essa vez deu!

No contexto no qual elas acharam seus parceiros, dinheiro, sexo e amor entremeiam-se em um terreno ambíguo. Os relacionamentos com os estrangeiros tendem a estar marcados pelo interesse econômico. Mas, tingidos por noções de gênero, etnicidade e cor, podem também envolver romantismo e uma certa idealização, combinada com o desejo de residir fora do Brasil. Esses últimos aspectos diluem-se quando as garotas se decepcionam com esses turistas, o que acontece com freqüência. Mas, quando já não se apaixonam, a maioria investe esforços consideráveis para promover a paixão dos visitantes.

No universo dessas entrevistadas, o processo de migração foi viabilizado pelos namorados italianos que providenciaram as passagens, o dinheiro para o passaporte e as acolheram no país. Os projetos migratórios são fomentados pelo aparente sucesso de outras garotas que, após terem migrado, continuam mantendo estreitos laços com o local de origem. As redes femininas de amigas operam estimulando os sonhos de partir, oferecendo um (relativo) amparo na inserção no novo contexto, e, estendendo-se por várias cidades da Itália e de outros países europeus, proporcionam informações sobre a integração no país e elementos de comparação para avaliar os melhores destinos possíveis.

A produção que analisa a feminização das migrações contemporâneas vê as migrações como parte de uma estratégia familiar.19 No universo contemplado, as garotas, quase todas filhas de famílias numerosas (com seis ou sete irmãos), oferecem recursos para as famílias, às quais enviam dinheiro com regularidade: mensalidades entre € 100 e € 300, destinadas ao pagamento de contas fixas, além de remessas extraordinárias para a compra e/ou reforma de casas, tratamentos médicos, cirurgias, material escolar, enxovais para recém-nascidos. Considerando a baixa renda dessas famílias, esses recursos são significativos. O relato da ex-garçonete permite perceber o alcance desse fluxo:

Meu marido prometeu que enviaria dinheiro para a minha filha todo mês, e não falha, todo dia 15 ele envia R$ 300. Isso é suficiente em Fortaleza. Eu juntei dinheiro durante dois anos, eu e ele... Quando fomos viajar, tinha € 2.800. Levamos € 2.000 para comprar um barraco para minha mãe... Com R$ 6.000 compramos uma casa... Precisou mais R$ 2.000 para fazer a cozinha e o banheiro... É para minha mãe morar, minha filha e minha irmã mais nova que tem a mesma idade da minha filha, 12 anos. Mas pus no nome da minha filha... Então, elas não pagam aluguel. Com esse dinheiro, mais o bolsa-escola, mais o auxílio-gás, elas vivem bem. Minha irmã... está grávida. E me ligou chorando que não tinha nada para o neném. Contei para minha sogra, aí ela juntou € 50, a irmã dela outros € 50, mandei, minha irmã ficou superfeliz porque isso dá mais de R$ 300 no Brasil. Com isso comprou mamadeira, o enxoval todo do neném.

É importante observar, porém, que essas migrações também têm traços de estratégias individuais. O reconhecimento de obrigações econômicas em termos de parentesco tem limites. De acordo com uma ex-"garota de programa" que, no momento da entrevista, estava iniciando seu trabalho como garçonete em um bar em Milão,

Não faço como muitas brasileiras. Tenho uma prima minha que mora em Paris, que manda todo o dinheiro que ela tem para a mãe dela... Eu vivo minha vida e, na medida que eu posso, eu mando... Não porque eu não queira dar de tudo o de bom e o melhor para minha mãe... É porque tenho também um irmão. Tem seis pessoas dentro de casa. Ficar mandando, sustentando seis pessoas, não tem condição... Isso estava falando hoje no telefone... disse para ela que ia fazer uma coisa... como arranjei trabalho, vou... pagar luz, telefone, água, na conta automática do Banco do Brasil.

Embora os padrões de residência no local de origem, em núcleos domésticos que podem agregar duas ou três gerações, consangüíneos e afins, incidam na disseminação dos recursos enviados pelas migrantes, o envio das remessas, quando não deixaram filhos, tende a limitar-se à duração da vida das mães dessas migrantes.

 

Casando na Itália

Os maridos italianos visitaram diversas vezes o Brasil, e alguns inclusive podem ser considerados ex-turistas habitué, pois viajaram a Fortaleza durante vários anos seguidos e mais de uma vez por ano. São majoritariamente jovens, entre 32 e 38 anos, mas um dos casais tem uma diferença de 16 anos e o grupo faz alusões a outros casos nos quais a diferença de idade é de 25, 30 anos. Tendo freqüentado escolas superiores técnicas, todos contam com um nível de escolaridade consideravelmente superior ao das garotas, entre as quais a escolaridade mais elevada é o ensino médio completo.

O nível de renda desses homens é diversificado, entre aproximadamente € 2.000 e € 5.000 mensais. No período em que foi realizada a pesquisa o salário médio para a região da Lombardia era calculado em € 2.483 mensais.20 Eles trabalham em pequenas empresas familiares, em microempresas próprias e no setor de serviços voltado para a informática. Os casais moram em apartamentos de dois quartos em bairros de Milão, (Bonola, Famagosta), localizados na cidade, embora nas últimas paradas do metrô, ou em municípios vizinhos (Corsico, Magnano). Alguns já são proprietários, outros alugam, enquanto se preparam para solicitar um crédito habitacional, e um casal mora na casa da família do marido, em um desses municípios.

Os apartamentos, com móveis novos, inclusive nas amplas varandas cheias de flores, cheiram a limpeza e a um intenso investimento doméstico. As cozinhas estão abarrotadas de eletrodomésticos de novíssima geração, serviços completos de louça e taças para diferentes usos. Enquanto elas mostram tudo com orgulho e ar de vencedoras, inevitavelmente lembro das suas casas em Fortaleza, arejadas, luminosas, mas extremamente simples. Salas com um sofá em mal estado, uma rede. Cozinhas com um refrigerador simples, uma mesinha para comer, um paneleiro em um canto, organizando panelas baratas. No móvel de fórmica da cozinha, uma bandeja plástica cheia de copos de requeijão, cobertos com um paninho e um filtro de água de barro.

A maioria dos casais tem um nível de consumo relativamente elevado. Em um estilo novo rico, no qual o dinheiro é um valor, envolvendo conversas intermináveis em torno de salários, lucros e compras, eles (e elas) exibem orgulhosamente carros e motocicletas zero quilômetro, sofisticados computadores, roupas e comentam repetidas vezes viagens para diferentes partes da Itália, países da Europa e fora dela. Um tema importante são as elevadas diárias pagas em resorts nas Ilhas Maldivas, nos quais passaram a lua de mel ou as férias. E, se essas ilhas se popularizaram entre os italianos, tornando-se um destino almejado pelas classes trabalhadoras, os entrevistados conferem mais valor a essas viagens que às realizadas ao Brasil. Certamente, os estilos de vida desses casais não remetem às camadas altas italianas, nem aos setores mais pobres. Contudo, o que me interessa destacar é que, tendo como referência o modo de vida dessas mulheres em Fortaleza, o upgrade na companhia dos maridos italianos é gritante.

Um dos motivos que conduzem esses homens a escolha de esposas brasileiras é a procura de estilos de feminilidade considerados difíceis de achar entre as italianas, "menos independentes", que incluem a disposição para a maternidade. A paternidade é um projeto importante para esses homens. Na época da realização da pesquisa uma das entrevistadas estava grávida e outras estavam tentando engravidar.21 Essas motivações, explicadas pelos homens entrevistados, são claramente percebidas por mulheres italianas e interpretadas como expressões de "machismo". Nos termos de uma professora universitária de 60 anos,

As jovens italianas se tornaram muito exigentes, em todos os sentidos... A mulher evoluiu demais... e os homens não acompanharam essa evolução. Nesse marco, as mulheres estrangeiras, sobretudo as da América do Sul, resultam atraentes para eles porque os cuidam como mães, sem exigir como as jovens italianas.

Nas percepções dessas mulheres, esses estilos de masculinidade tornam esses homens pouco atraentes para as italianas. Segundo uma funcionária italiana, de 40 anos,

Os homens que casam com esse tipo de mulheres são aqueles que não conseguem conquistar uma italiana. É uma maneira de não ter que se confrontar com as italianas, porque eles são machistas. Não fazem nada em casa, não cuidam das crianças.

De acordo com os relatos desses maridos, vários tiveram uma experiência amorosa limitada antes de passar a freqüentar Fortaleza. E se seus estilos de masculinidade não os tornam desejáveis no mercado matrimonial local é importante considerar, também, que outros fatores podem incidir em uma certa desvalorização. Vários são migrantes internos ou filhos de migrantes internos, de regiões (menos valorizadas que a Lombardia) do Sul da Itália como Puglia e Sardegna. E, em alguns casos, os estilos corporais (baixos, gordos e carecas) estão longe de favorecê-los.

Após a finalização da estadia permitida aos turistas, quase todas as garotas permaneceram durante um período em situação irregular, regularizando-a posteriormente, mediante o casamento. O matrimônio é um almejado mecanismo para a obtenção dos "papéis". É possível comprá-lo.22 Referindo-se às garotas que oferecem serviços sexuais, a cabeleireira de Voghera afirma que

Os casamentos são uma forma de regularização que é utilizada às vezes... É muito cara, de € 5.000 a € 8.000. Quem casa são velhos, aleijados, até drogados, e isso resolve para elas.

No universo contemplado, porém, o casamento representa mais do que a possibilidade de "papéis". Analisando os processos mediante os quais os migrantes procuram obter acesso à cidadania cultural, Aiwa Ong destaca a importância de práticas culturais e crenças nas negociações com critérios relativos à pertença a um território e população nacional. O valor concedido pelas entrevistadas ao casamento mantém vinculações com essas idéias.23 Entre elas, o casamento representa a materialização do sonho da ascensão social que, indo além da mobilidade em termos de classe social, envolve a ilusão da plena inclusão na Europa através da via legitimadora da inserção numa família italiana.

Esse valor torna-se evidente quando uma ex-garçonete, narrando sua festa de casamento, me dá de presente um sininho de cristal com uma fita vermelha e um cartãozinho com a data e os nomes dela e do marido, e mostra as fotografias do evento. Umas 300 imagens de excelente qualidade, entesouradas em um álbum vermelho, a mostram usando um vestido vermelho de veludo, longo, "tomara que caia", que realça a cor morena de sua pele. O penteado, ela explica, "fiz três vezes, tinha um monte de rosinhas, pequeninhas, vermelhas". Ela me chama a atenção para os sapatos de salto fino, também vermelhos, comentando: "São lindos, da mesma cor do vestido, levou um tempo enorme para achá-los". Há fotos do casal, do casal com os pais, com a família dele que veio de diversos lugares da Itália, com as amigas dela e com a única integrante de sua rede de relações que veio do Brasil, com a passagem paga pelo marido: a ex-patroa da casa onde trabalhou como babá quando, saindo do interior, chegou a Fortaleza. Ela mostra com orgulho o anel, que parece ser de diamantes, e conta que o ganhou da sogra no dia anterior ao casamento: "Eu queria tanto um, porque todas as italianas têm. Por que eu não posso ter, igual que as italianas?".

Nas narrativas locais, as brasileiras, assim como as cubanas, aparecem como parceiras privilegiadas para o casamento por italianos que consomem serviços sexuais fora do país. No entanto, entre os agentes que trabalham com prostituição e com migração, esses casamentos são percebidos como perigosas armadilhas.

 

Viva o Brasil!

De acordo com as informações oferecidas por funcionários do Consulado Brasileiro em Milão, em 2004 estimava-se que entre 40.000 e 50.000 brasileiros/as viviam nessa jurisdição, que abrange o Norte da Itália (até Florença). É apenas uma estimativa. O número de cidadãos brasileiros que moram no país é incerto. Parte dessa migração seria irregular e parte estaria integrada por brasileiros que, com ascendência italiana ou pelo fato de terem casado com italianos, obtêm a cidadania desse país e são registrados como italianos nos censos.

Segundo esses funcionários, a partir de 2000 houve um significativo aumento de casamentos entre brasileiras e italianos. Desde então, a instituição registrou semanalmente uma média de sete a dez solicitações de documentos de brasileiras para viabilizar esses casamentos:

São italianos que vão passar as férias no Brasil... Elas vêm com eles... Muitas são do Nordeste, mas há também de outros lugares... Prostitutas, profissionais mesmo, são as que vêm do Rio... Mas os homens são vitelloni do interior. As mulheres em Milão são muito exigentes, pretendem que os homens tenham uma certa condição social. E esses homens que vão para o Brasil... têm uma certa dificuldade para encontrar mulheres aqui... Enquanto no Brasil, eles chegam e em uma hora já estão rodeados de mulheres, às vezes já estão namorando.

O casamento, porém, é considerado um terreno no qual estouram tensões que, lidas como associadas a diferenças culturais, se originam nas desigualdades permeando esses relacionamentos. Os problemas vinculados aos casamentos mistos são discutidos nos estudos sobre o tema realizados na Itália. Trata-se de dificuldades com os parceiros e suas famílias e relacionadas com a condição de migrantes em um novo contexto. E trata-se também de problemas estruturais vinculados ao sistema institucional italiano.24 No que se refere às brasileiras, a diretora da Associazione Donne Brasiliane in Itália considera que a violência (doméstica) envolvendo mulheres casadas com italianos é um dos problemas mais sérios enfrentados por essas migrantes.25 Essa percepção é compartilhada pelos agentes que trabalham no Consulado brasileiro em Milão:

Nesses casamentos mistos têm casos de violência. O maior problema... é quando há filhos... Geralmente, elas querem separar e voltar para o Brasil... O que ocorre aqui é que há muitas brasileiras presas, hipoteticamente, porque elas não querem abandonar os filhos e a justiça não autoriza [que os levem]... Eu tenho umas dezenas de mulheres nessa situação. Já houve no passado algumas que se suicidaram...

A América Latina e, de maneira particular, o Brasil estão adquirindo visibilidade na Itália. Essa tendência é perceptível nos festivais de música latino-americana e no comércio, onde é freqüente encontrar camisetas, tops e biquínis com a bandeira do Brasil. "Viva o Brasil!" era a manchete de uma das principais matérias da Elle italiana de junho de 2004, na qual a música, culinária, moda e criatividade brasileiras eram elogiadas.26 Na região, brasileiros e brasileiras são populares em serviços envolvendo a corporalidade: dançarinos/as, terapeutas exóticos/as (fazendo sambaterapia), personal trainers. A fascinação de italianos "educados" é evidente nas apresentações de música brasileira que tem lugar no Instituto Brasil/Itália. Além disso, em Milão há aproximadamente dez restaurantes brasileiros, que com música e, ocasionalmente, shows de mulatas e "negras malucas", além de serem ponto de encontro de casais transnacionais, atraem a clientela local.

Nesse marco se integra a difusão de um estilo brasileiro vinculado à ousadia das calcinhas e biquínis fio dental27 e aos diversos procedimentos para arredondar e arrebitar bundas femininas. E, na ambigüidade que permeia a construção do estilo nacional vinculado ao Brasil, em um procedimento nada original, as mulheres são construídas como símbolos da essência nacional.28 Esse procedimento é freqüentemente sintetizado na percepção das brasileiras como dotadas de uma exacerbada sexualidade, associada à prostituição. Uma brasileira de 42 anos, proprietária de um restaurante, sintetiza essa ambigüidade, associando as percepções diferenciadas à classe social e ao nível cultural dos italianos:

Eles gostam da alegria brasileira, do jeitinho. Mas essa atração funciona de maneira diferente entre os italianos de uma condição mais elevada e o italiano médio. Para o italiano médio, se é brasileira é puta... Acho ótima sua idéia de entrevistar os maridos de brasileiras, mas você deveria entrevistar as sogras, para você ver o que acham das noras brasileiras.

Essa percepção da brasilidade atinge mulheres de diferentes classes sociais, com diversos graus de escolaridade, particularmente aquelas que trabalham com o corpo, embora suas trajetórias estejam desvinculadas da prostituição e tenham migrado a partir de cidades sem vinculação com o turismo sexual. Contudo, a associação entre versões femininas da brasilidade e prostituição é particularmente intensa quando se trata das mulheres que ingressaram na Itália acompanhando turistas que visitaram o Brasil à procura de sexo. Nesse marco de idéias tem lugar a alternância entre contextos experienciada pelas garotas que migraram a partir dos circuitos de turismo sexual de Fortaleza.

 

Alternando entre contextos

No Brasil, esses casais iniciaram seus relacionamentos em um terreno no qual noções de feminilidade e masculinidade vinculadas à origem nacional, "raça", classe e idade se imbricavam em processos nos quais as mulheres nativas, tornadas exóticas, eram intensamente sexualizadas e os estrangeiros considerados a corporificação dos estilos mais valorizados de masculinidade.29 Nesse contexto, no qual a nacionalidade adquiria central importância, "raça" e gênero agiam como operadores metafóricos do poder. Ambas as categorias eram cruciais nas conceitualizações através das quais homens e mulheres nativos eram inferiorizados e os estrangeiros, privilegiados. No entanto, a extrema sensualidade atribuída a essas garotas não deixava de abrir caminhos que desestabilizavam critérios lineares de desigualdade. Na base da sexualização da qual eram objeto, elas negociavam seu posicionamento nesses relacionamentos. E por meio deles algumas conseguiam atravessar barreiras locais, raciais e de classe que consideravam intransponíveis sem contar com os recursos (materiais e simbólicos) oferecidos pelos visitantes estrangeiros.

Mas como esses repertórios de percepções mútuas adquirem significados diferenciados quando esses relacionamentos se deslocam para a Itália? Como opera nesse contexto e no âmbito das relações de conjugalidade a incorporação do exotismo que, no nível micro das relações pessoais, contribui para que as nordestinas que se relacionam com estrangeiros do Norte, no Brasil, neutralizem parcialmente a desigualdade estrutural desses relacionamentos?

Em Fortaleza, garotas que corporificavam estilos de feminilidade tidos pelos estrangeiros como "tradicionais" (em suas leituras, expressavam doçura e docilidade), mas marcados pela escolha e pela determinação, estabeleciam relacionamentos com italianos percebidos como corpoficando estilos de masculinidade mais igualitários, menos "machistas" que os nativos. Esses homens "com futuro", uma expressão que alude a uma promessa de vida melhor, eram altamente estetizados.

No contexto italiano, os padrões de gênero parecem enrijecer-se. Os esposos são percebidos através de lentes que mostram seus estilos de masculinidade como distantes de serem igualitários. Esses homens, que não dividem tarefas domésticas e estão longe de serem permissivos, revelam aspectos de intenso controle e expectativas "tradicionais" em relação a suas parceiras. O romantismo que, em alguns casos, permeou esses romances no contexto brasileiro tende a diluir-se com essa percepção. Concomitantemente, eles já não são mais vistos como "ricos", à maneira que o foram no Brasil, mas como trabalhadores que batalham duramente e se "estressam" para manter o padrão de consumo. Nesse foco, essas brasileiras, longe de idealizar e estetizar seus maridos como faziam em Fortaleza, estabelecem novas comparações entre eles e outros homens italianos percebidos como mais belos/mais ricos, com mais "futuro".

Na alternância de contextos, essas garotas passam a valorizar estilos "tradicionais" de feminilidade, associados à casa e às atividades domésticas, de uma maneira que não faziam em Fortaleza. E observo que, enquanto os lares italianos crescentemente requerem serviços domésticos de mulheres do "Terceiro Mundo" (sobretudo de mulheres da Ásia e da América do Sul), essas entrevistadas se ocupam da quase totalidade das tarefas domésticas. Nesse universo, a domesticidade e um cuidado corporal inserido em uma hierarquia entre limpeza e sujeira tornam-se a síntese de uma versão mais autêntica da feminilidade. Nos termos de uma ex-"garota de programa" de Fortaleza,

A mulher brasileira, como eu penso, ela é toda diferente. No modo que anda..., que se veste, que fala, que vê a vida... Porque na Europa as mulheres são tudo homem. Seu trabalho, sua independência, sua vida... e perde um pouco a feminilidade... Outra coisa que você vê, a italiana se preocupa muito mais... com o conforto, e não se ela está bem como beleza. É isso que eles procuram nas brasileiras. Aquela coisa de estar em casa, de ser mulher [dona-de-casa], que não tem mais na italiana. As brasileiras gostam... de cuidar da casa, de fazer compras, de ajeitar o cabelo, de fazer a unha.

Essas relações estão longe de ser estabelecidas exclusivamente por garotas que migraram a partir de contextos de turismo sexual. De acordo com uma ex-dançarina, caixa de supermercado em Milão, de 34 anos, casada com um italiano,

Eles sabem que a gente tem mania de limpeza... sabem que a gente está de perna depilada o ano todo... Porque elas só se depilam agora quando estão tirando as meias. Se você vê as italianas daqui para cima são modelos, mas quando chega o verão, que começa a tirar as meias, aí começa, vem fora as unhas, vem fora os pêlos... É falta de higiene... ficam... fedendo... Eles [os italianos] reclamam, [elas] não são cheirosas (risos)...

Nesse contexto, as maneiras de ser mulher das entrevistadas brasileiras incluem a reafirmação de uma corporalidade e de um saber sexual tidos como singulares. O conjunto desses traços supostamente as distingue e situa em um plano superior às italianas, em uma hierarquia estabelecida através da comparação de diversas qualidades: o temperamento, o caráter, a estética. Os aspectos ligados à corporalidade e à sexualidade, considerados expressão do caráter, são particularmente destacados. Essas entrevistadas desvalorizam as mulheres italianas considerando suas cadeiras largas, "bundas planas" e "carnes moles", expressão corporal de uma "frieza" que remete a um espírito calculista e interesseiro.

Porque elas até fazer sexo, elas não gostam. Fazem... porque são interessadas em alguma coisa. A brasileira..., em geral, faz porque gosta, é carinhosa de natureza... Um amigo... liga e disse: "posso te fazer uma pergunta indiscreta? Tu usa fio dental?". Eu digo, "claro que eu uso fio dental...". "Sabe que minha mulher continua usando calçola?" (risos). Para mim a coisa mais sensual é um fio dental... São pequenas coisas...

A corporalidade considerada aspecto distintivo da brasilidade envolve diversos aspectos como forte destaque para os estilos de sexualidade, que envolvem disposição para o sexo e práticas sexuais, alcançando o estatuto de um saber alimentado por uma troca compartilhada de conhecimentos. Quatro mulheres que, no passado, transitavam pela boate considerada centro da prostituição voltada para estrangeiros na Praia de Iracema, na qualidade de garçonetes ou de "garotas de programa", deixaram esse aspecto claro, numa longa (e divertida) conversa que teve lugar no terraço do apartamento de uma delas, mimetizando posições sexuais e trocando opiniões, enquanto os maridos italianos, na sala, um pouco aflitos, assistiam a um jogo de futebol:

Uma vez perguntei a minha irmã o que é que ela fazia que todos os italianos ficavam loucos com ela. E ela contou que ela sempre lavava, mas lavava bem, a perereca, com aquela duchinha, e depois passava um óleo de amêndoas.

Essas idéias não se restringem às mulheres que migraram a partir de contextos de turismo sexual. Noções análogas circulam entre outras migrantes brasileiras. Nos termos de uma ex-dançarina que trabalha ocasionalmente como promoter, casada com um arquiteto italiano,

O que eles gostam de nós? Para mim, é a cama... Meu marido não sabia fazer amor, mas com uma italiana estava bem... Ensinei, sim, que não é daquela maneira, que vai em cima da mulher e faz e depois sai e vai se lavar... Ensinei porque senão eu não estava bem. Eu falei, não te ofendas, mas não é assim, primeiro se beija, beija, beija, brasileiro gosta de beijar... E não é só beijo...

Para as brasileiras que migraram a partir do contexto de turismo sexual em Fortaleza, a sexualidade exótica constituía uma das principais ferramentas de negociação no âmbito das relações com seus parceiros. Entretanto, no contexto italiano e no marco das relações de conjugalidade, a suposta superioridade vinculada a esse estilo de sexualidade se ancora em bases mais frágeis que no Brasil.

 

Ressignificando fronteiras etno-sexuais

Na trama de relações estabelecidas nesse "novo mundo", os maridos italianos estão submetidos a tensões particulares. Paralelamente, as possibilidades de ação das brasileiras casadas com esses ex-turistas sexuais parecem, em termos, mais limitadas que no Brasil. Na interação entre categorias que têm lugar nesse contexto há um novo traçado de fronteiras etno-sexuais, isto é, dos limites caracterizados pela intersecção e interação entre sexualidade e etnicidade.30 Conjuntamente com o enrijecimento das concepções de gênero, a sexualidade constitui um terreno mais restrito em termos de possibilidades de agência. Na Itália e no marco da conjugalidade, ela é tingida de tons ameaçadores, aprisionando os casais.

Os homens que se relacionam com essas brasileiras parecem adquirir um plus de valorização, por sua capacidade de obterem mulheres jovens que corporificam uma intensa sensualidade, dispostas a assumir praticamente a totalidade dos trabalhos domésticos e a engravidar, mesmo em um contexto não necessariamente favorável, longe de suas famílias e sem o apoio de serviços domésticos pagos. Essa valorização parece tingir, também, a autopercepção dessas brasileiras. Nos termos de uma das entrevistadas, referindo-se ao período de namoro,

Se chegava uma brasileira bronzeada, de cabelo encaracolado, de camiseta e minissaia! Os homens ficam babando! ... Às vezes eu ficava assim "Tomara que ele não se zangue!" Mas ele disse que não, "É até melhor pro meu ego!"... Ele imagina assim "Olha eu aí com uma brasileira bonitona, morenaça!" Quer dizer que isso é bom para meu ego e para o ego dele...

No marco da conjugalidade, porém, essa sensualidade assume um valor ambíguo. Os casamentos desses homens evocam o sabor de uma transgressão associada ao duplo movimento de introduzir a extrema paixão carnal na conjugalidade, interrompendo ao mesmo tempo convenções homogâmicas e homocromáticas. Esses aspectos transgressivos se tornam ameaças para a afirmação de seus estilos de masculinidade.

Diversos fantasmas fragilizam a valorização obtida através dos seus relacionamentos com essas brasileiras. Um deles é o da exploração econômica. Todas as entrevistadas relatam como esbanjaram dinheiro no período inicial na Itália. Reiterando aspectos presentes nos relacionamentos com os parceiros italianos quando estavam em Fortaleza, exigiram viagens, jóias, e gastaram de maneira inteiramente descontrolada. Nos termos de uma das entrevistadas, "No começo eu queria comprar tudo o que via, parecia que meu coração ia se romper se não conseguia tudo o que queria". As medidas para conjurar o perigo dessa exploração envolvem estratégias entre as quais se conta um verdadeiro trabalho de educação das esposas brasileiras, controlando gastos, ameaçando retirar os cartões de crédito e ocultando valores de salários e/ou lucros.

Outro dos fantasmas que perseguem esses maridos italianos é a infidelidade. À alegria, abertura e disponibilidade sexual associada a essas mulheres, soma-se outro traço atribuído à brasilidade: uma certa disposição para o engano. O entrelaçamento entre esses aspectos alimenta ciúmes e uma preocupação que, tornando-se em alguns casos obsessão, dá lugar a verdadeiras perseguições. O efeito é um sistema de policiamento no qual participam maridos, famílias e amigos, envolvendo o controle das atividades, a mobilidade das esposas brasileiras e a circulação de informação sobre elas. Os relacionamentos internos aos casais, entre casais e entre eles e suas famílias estão envolvidos em malha de relatos cheios de ocultações e acusações. Nesse controle participam, às vezes, as próprias brasileiras, em procedimentos que mostram os esforços por marcar distinções entre elas, traçadas de acordo com diversos parâmetros: graus de fidelidade, inserção, no passado, no mundo da prostituição e tipos de sentimentos em relação aos maridos, valorizando o "respeito" e o "amor" e condenando o "interesse".

O controle envolve inclusive as relações laborais. Nenhuma dessas brasileiras estudou italiano em escolas de línguas, um aspecto que limitou por um bom tempo as oportunidades de emprego. Todas elas acabaram desempenhando atividades remuneradas fora de casa, mas exclusivamente em pequenas empresas ou estabelecimentos de parentes ou amigos dos maridos (supermercados, bares). Nessas ocupações, que oferecem uma oportunidade de emprego difícil de obter para migrantes estrangeiras com baixa qualificação, mas nas quais são vigiadas, os salários são relativamente baixos (entre € 400 e € 500 nos empregos part-time e € 1.200 nos full time), impossibilitando a obtenção de autonomia em termos econômicos.

O sistema de controle envolve também a sociabilidade. Nenhuma dessas entrevistadas tem amigas italianas, pois, segundo elas, as mulheres italianas mostram desconfiança e desdém em relação a elas. E o contato com outras brasileiras é restrito, reduzido basicamente a encontros de casais transnacionais durante o final de semana. A presença de irmãs ou primas em casa é banida quando elas não se envolvem rapidamente em relacionamentos "sérios" com italianos. Esses procedimentos dificultam a criação de redes amplas e densas de brasileiras. Ao mesmo tempo, as almejadas viagens ao Brasil tendem a restringir-se a travessias nas quais são acompanhadas pelos esposos. Comentando as dificuldades, associadas à desconfiança, para obterem permissão para viajarem sós a Fortaleza, duas amigas explicam:

Já disseram para meu marido, como é que ele me deixava ir para Fortaleza na frente. Eu... queria ir antes, ver minha filha, sentir como é que ela estava. E ele concordou. Aí, um desses italianos que nos conhecem de antes encheu a cabeça dele.

Não se dão conta que a vida da gente mudou, agora é diferente. Sim, brincamos, éramos do babado, mas agora é outra coisa. Por isso, também, é que é complicado estar com brasileiras. E tem essa idéia, de que brasileira é putana.

O controle envolve ainda aspectos centrais na definição da identidade dessas mulheres, como o temperamento, e sua expressão na corporalidade. Uma ex-garçonete que, em uma dupla tentativa para apagar o passado e aproximar-se da obtenção da cidadania cultural, engordou dez quilos nos dois anos que passou na Itália, cortou os cabelos encaracolados quase na cintura e passou a usar óculos sintetizou a percepção da desigualdade inerente a esse controle. Em uma explosão de raiva, que presenciei, depois de uma festa de família na qual ela se sentiu mal tratada e após a qual o marido puxou com força sua orelha e o cabelo, disse, gritando:

Não calo a boca, não. Vocês querem me mudar inteira. Querem que mude a maneira de vestir, a maneira de falar, tudo, mas meu caráter eu não mudo! Aquela mulher não podia me tratar como se fosse empregada dela. Você disse que precisava mudar minha roupa... Eu aceitei que tenho que estar vestida como uma senhora... Aprendi a cozinhar, sou brasileira e cozinho melhor que elas... Mudei o modo de falar, parei de dizer palavrão... . Todo mundo quer que eu mude e ninguém muda nada!!!

Nessa alternância de contextos, a desigualdade estrutural das nacionalidades em jogo se torna ainda mais aguda. Na Itália, em um marco no qual a violência simbólica é uma freqüente presença no cotidiano desses casais, os maridos apagam as diferenças de classe existentes no Brasil. Essas mulheres, embora integrando as camadas baixas e médias-baixas de Fortaleza, estavam longe de serem miseráveis. Eles percebiam esse aspecto, mas no contexto italiano essas distinções desaparecem: o Brasil, como um todo, é considerado miserável.

O racismo, um aspecto que essas mulheres desejavam apagar de suas vidas, reaparece de uma maneira ainda mais monolítica que no Brasil. Em Fortaleza, essas "morenas" eram sexualizadas e racializadas pelos habitantes locais, sobretudo, quando acompanhavam turistas estrangeiros. Na Itália, elas experienciam o racismo num cotidiano no qual a cor expressa permanentemente o fato de serem "extra-comunitárias". Os lugares de trabalho constituem para elas um dos principais espaços de vulnerabilidade,31 nos quais estão expostas a esse racismo, sujeitas a hostilidades por parte de italianos que não as consideram merecedoras de pertencer à esfera produtiva local32 ou nacional. Longe de contribuir na sua inserção nesse novo contexto, a cor "morena" que atraía turistas em Fortaleza suscita na Itália tensões e agressões verbais.

Nesse marco, para as brasileiras inseridas na conjugalidade, a abertura de espaços de agência depende de um delicado e difícil jogo entre a recriação de apenas alguns traços culturais, tais como a alegria, e, ao mesmo tempo, em um cotidiano no qual, segundo elas, o sexo é relegado a prática de final de semana, a relativa dissolução dos traços associados à sexualidade "tropical". Paralelamente, elas procuram construir esses espaços manipulando aspectos afetivos e amorosos.

As dimensões afetivas são aspectos relevantes nas interações desses casais. Para esses homens, romance e amor/paixão foram razões fundamentais para promover as migrações de suas parceiras brasileiras. Eles declararam estarem intensamente apaixonados por suas esposas brasileiras. A maior parte das mulheres, porém, não parecia compartilhar esses sentimentos. Uma jovem que, antes de encontrar seu marido italiano, teve um relacionamento passional com um turista sexual holandês (que acabou deixando-a para casar com uma holandesa explicando que, embora ela fosse "muito boa de cama", o matrimônio é um assunto inteiramente diferente) descreveu assim seus sentimentos pelo marido italiano:

Não estou apaixonada por ele... No primeiro mês não... fizemos sexo porque eu tinha nojo dele. E disse a ele que não gostava dele e que voltaria ao Brasil. Ele chorava e me pedia que esperasse. Mas ele foi muito paciente e com essa paciência acabou me conquistando.

Mais tarde, o envolvimento sentimental alimentou os esforços desses maridos para sustentar esses relacionamentos.

As dimensões afetivas também são importantes nas experiências das entrevistadas, cuja habilidade para seduzir esses turistas, provocando suas paixões, foi uma poderosa ferramenta. Os sentimentos são importantes entre as poucas mulheres para as quais o romance foi uma motivação para enfrentar os riscos envolvidos na migração e também para as que desejavam uma vida melhor, mas não estavam apaixonadas por seus parceiros quando deixaram o Brasil. Entre essas últimas, porém, o estilo de emoção presente no contexto italiano é diferente. Não se trata de amor sensual, atravessado pela paixão, nem tampouco de puro "interesse". O que está em jogo é uma emoção que codificam como "respeito". Evocando padrões tidos como tradicionais de relacionamento entre esposos, os aspectos positivos dessa emoção são alimentados por gratidão e reconhecimento pelas oportunidades concedidas. Ao mesmo tempo, esse tipo de sentimento lhes outorga um certo distanciamento e um certo grau de controle sobre os maridos apaixonados.

 

Ascensão social em espaços transnacionais

Assim como o turismo sexual em Fortaleza, essa modalidade de migração remete às desigualdades estruturais, permeadas por gênero, entre as nacionalidades em jogo. A estratégia de deixar o Brasil não exime as entrevistadas de um posicionamento inferior, apesar das diferenças, em suas novas vidas no exterior. Contudo, essas migrações possibilitam que elas escapem das malhas de desigualdade no plano local, em Fortaleza, e esse é um ponto valorizado por essas mulheres.

Os estudos sobre relações de trabalho chamam a atenção para os efeitos da mundialização, que torna os empregos mais precários e vulneráveis, inclusive na Europa: os empregos são instáveis, mal pagos, desvalorizados, sem possibilidades de promoção e com direitos sociais limitados ou inexistentes, características que afetam particularmente as mulheres e as/aos migrantes.33 Nesse marco, latino-americanas e, entre elas, brasileiras34 que pertencem às camadas médias, nos locais de origem, tendo, inclusive, diplomas universitários, acabam se sujeitando a empregos desvalorizados em países do Norte. No processo migratório, essas migrantes pertencem a duas categorias sociais diferentes de acordo com sua inserção no país de origem e no país de destino.

As entrevistadas que migraram a partir do contexto de turismo sexual em Fortaleza, localizadas nas camadas baixas de uma das regiões mais pobres do país, partiram de posições sociais inferiores às que têm na Itália. Além de precários e mal pagos, seus trabalhos no Brasil eram, muitas vezes, altamente estigmatizados. Para elas, os empregos aos quais têm acesso na Itália são objetivamente "melhores", em termos da relação entre salário e energia investida e condições de trabalho. Elas também pertencem a duas categorias sociais diferentes de acordo com sua inserção no local de origem e de destino. Em suas percepções, levando em conta o padrão de vida obtido na nova vida, na Itália, estão em um patamar superior. Esse é um ponto central na permanente comparação que estabelecem entre Brasil e Itália. Nos termos de uma das entrevistadas,

Sim, eu mudei. Quando a pessoa muda de país, muda também. Perdi a minha cor, desbotei, engordei. Mas aprendi a ter mais educação... Sinto falta do sol, do calor, da praia... das amigas... Mas eu penso na vida que eu tinha, trabalhando de noite, dormindo de dia, indo para a cama com um ou com outro, às vezes por umas cervejas, para que pagasse o jantar... Então, é uma vida boa.

Sarah Mahler e Patrícia Pessar sustentam a necessidade de analisar a feminização da migração mostrando como gênero, longe de ser uma variável, é central na organização da migração, operando simultaneamente em escalas múltiplas. De acordo com as autoras, uma noção de geografias de poder marcadas por gênero contribui para analisar a agência social, considerando o posicionamento social dentro das múltiplas hierarquias de poder que operam dentro e através de diversos territórios.35 Essas idéias possibilitam situar as migrações das entrevistadas brasileiras que partiram do contexto de turismo sexual em Fortaleza em uma perspectiva transnacional e, portanto, são importantes para compreender o segundo aspecto, talvez o principal, vinculado à valorização de seus casamentos e ao desejo e até inveja que eles suscitam no âmbito do qual elas saíram.

Antes de continuar, porém, é necessário explicitar o significado que estou dando ao termo "transnacional". Essa expressão é utilizada de diversas maneiras nos estudos sobre migração. Alejandro Portes et al., em uma das acepções mais difundidas, restringe a noção de transnacionalismo às ocupações e atividades, regulares ao longo do tempo, que requerem contatos sociais através das fronteiras nacionais, categorizados como iniciativas econômicas, políticas ou socioculturais.36 Mas outras conceitualizações alargam o alcance do termo. George Fouron e Nina Glick Shiller pensam o campo social transnacional como constituído por redes que, estendendo-se através das fronteiras, incorporam seus integrantes em atividades cotidianas de reprodução social em diversos lugares. Essas pessoas fazem parte das teias da vida cotidiana no local de origem e, simultaneamente, parte da força de trabalho, relações de vizinhança, etc. em outros contextos.37 Essa última acepção abre vias para pensar como as ações cotidianas de um leque mais amplo de migrantes têm lugar dentro das estruturas de poder através das quais gênero e identidade nacional se constroem mutuamente, em mais de um Estado nacional.

As entrevistadas viajam apenas uma vez por ano, ou a cada dois anos, ao Brasil. Alternadamente, recebem algum membro da família residente em Fortaleza (irmão, mãe, filha) por períodos de alguns meses. Contudo, a interferência na vida cotidiana em Fortaleza é regular. Acompanham o cotidiano familiar e tomam decisões relativas à vida de parentes e agregados, ancoradas na força adquirida mediante seus casamentos com os ex-turistas italianos. No relato da ex-garçonete que comprou uma casa para a mãe, a filha e a irmã morarem juntas,

Minha mãe arranjou um homem, mais jovem que ela. Eu fiz ela pôr o homem para fora da casa. Eu é que comprei a casa!!!... Eu disse a ela, um dia ele vai acordar, vai olhar para a senhora, que já é velha, e vai olhar para a minha irmã ou para a minha filha, que são novinhas, e vai acontecer o quê? Quem é que ele vai querer?

No permanente contraste entre espaços traçado pelas entrevistadas, a percepção que elas têm dos seus casamentos está vinculada, sobretudo, ao lugar conquistado através deles no Brasil. Esse lugar é construído através de diversas ações mediadas pelo poder econômico e tingidas pelo prestígio conferido por morar na Europa, casadas com italianos. Uma delas é a compra de propriedades, com o objetivo de utilizá-las nas férias e com o eventual fim de criar microempresas no Brasil. Outra dessas ações é a ajuda que concedem às famílias ou, às vezes, negam com um certo sabor de vingança. Nos termos de uma das garotas, "Não vejo meu pai há uns três anos. Minha irmã me pediu R$ 350 para fazer a aposentadoria dele. Mas eu disse que não, ele dizia que eu ia virar puta!".

 

Conclusão

As migrações vinculadas ao turismo sexual são heterogêneas e nem sempre têm como efeito a inserção de brasileiras na indústria do sexo no exterior. A modalidade contemplada neste texto oferece o exemplo de um dos paradoxos envolvendo o turismo sexual, quando ele oferece vias de saída da indústria do sexo, através da migração para os países do Norte e do casamento.

Trata-se de um tipo de deslocamento que, marcado pelo processo de feminização, recria, em escala mundial, desigualdades permeadas por gênero. No novo contexto, as entrevistadas estão sujeitas a um enrijecimento dos padrões de gênero em um meio que elas próprias recriam na ilusão de adquirir qualidades para acederem à inclusão cultural. Nesse meio, no qual sentem com maior força o lugar inferior concedido ao Brasil e são objeto de um racismo ainda mais intenso que o experienciado em Fortaleza, a sensualidade tropical adquire um valor ambíguo e ameaçador que dá lugar à desconfiança e ao controle exercido sobre elas. A criação de espaços de agência exige a recriação de apenas alguns traços vinculados à brasilidade, enquanto outros devem ser neutralizados, com efeitos na corporalidade. Contudo, esses casamentos são valorizados na medida em que permitem o acesso a estilos de vida com níveis de consumo e conforto inatingíveis para elas no Brasil, possibilitando, ao mesmo tempo, que ocupem um diferente posicionamento social e político na terra natal. A valorização dos relacionamentos com esses esposos está vinculada, sobretudo, à percepção do lugar social que eles viabilizam no espaço transnacional.

 

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Recebido em agosto de 2006 e aceito para publicação em fevereiro de 2007

 

 

Notas

1 Este texto está baseado em uma pesquisa viabilizada pela Guggenheim Foundation e vinculada ao projeto temático Fapesp "Gênero e Corporalidades". Agradeço a Luisa Leonini e Paulo o crucial apoio intelectual e logístico na Universidade de Milão, e a Mônica Schpun, Giovanna Campani, Daniela Danna, Helena, Mara, Suor Claudia Biondi, Sônia, Nadia, Célia Cruz, Magrão e os funcionários do Consulado do Brasil em Milão o apoio, material bibliográfico e contatos disponibilizados. Sou grata também a Marco Aurélio Garcia pelo apoio, a Kamala Kempadoo, Mariza Corrêa e Ana Fonseca e ao/à parecerista anônimo/a da Revista Estudos Feministas pelas sugestões, cujos comentários contribuíram para aprofundar o texto.
2 O termo "turismo sexual", que foi amplamente utilizado na produção acadêmica, tem sido questionado, uma vez que seu conteúdo não está claramente delimitado. Pesquisas realizadas em diversas partes do mundo problematizaram as primeiras formulações sobre essa problemática, mostrando que não pode ser reduzida à prostituição e que não envolve apenas homens heterossexuais dos países do Norte procurando consumir sexo em países do Sul. Estudos realizados nos últimos anos mostram que há viajantes que se integram no turismo doméstico, deslocando-se à procura de sexo, e que essas viagens envolvem também mulheres, hetero e homossexuais. A falta de clareza no conteúdo do termo está conduzindo os acadêmicos a abandoná-lo. Contudo, a expressão "turismo sexual" já foi incorporada no debate público. Tornou-se uma categoria nativa, amplamente utilizada por organizações governamentais e não governamentais e pela mídia. Esses são os motivos pelos quais utilizo o termo entre aspas.
3 Piscitelli, 2007 e no prelo.
4 Piscitelli, 2004.
5 Floya ANTHIAS e Gabriela LAZARIDIS, 2000, p. 2; e Anne PHIZACKLEA, 2003, p. 24.
6 Marina Orsini-Jones e Francesca Gattullo, 2000, p. 126; INSTITUTO NAZIONALE DI STATISTICA, 2004, p. 35-36; Jacqueline Andall, 2003; Anthias, 2000, p. 15; e Heather MERRILL, 2004, p. 196.
7 Giovanna CAMPANI, 1998.
8 Luisa LEONINI, 1999 e 2004.
9 Maurizio Ambrosini, 2002, p. 76.
10 Campani, 1998, p. 251.
11 DAPHNE PROGRAM, 2005, p. 7.
12 De acordo com pesquisas sobre migração na Lombardia, apenas 8,3% dos homens da América Latina que residem na região têm uma partner italiana, enquanto 32,4% das mulheres da América Latina têm um partner italiano (Osservatorio Regionale per l'integrazione e la multietnicitá, 2003, p. 134).
13 ISTITUTO NACIONALE DI STATISTICA, 2006, p. 2.
14 DAPHNE PROGRAM, 2005, p. 18-20 e p. 21-25.
15 ISTITUTO NAZIONALE DI STATISTICA, 2005, p. 5.
16 Entre as migrantes regulares em 2003, as mulheres brasileiras totalizavam pouco mais de 15.000 (as cubanas, provavelmente por ser numericamente menos significativas, não aparecem no registro) enquanto as peruanas somavam mais de 20.000, mas essas últimas não aparecem na lista de nacionalidades mais relevantes entre as mulheres que participam de casamentos mistos (ISTITUTO NAZIONALE DI STATISTICA, 2004, p. 92).
17 Laura Agustín, 2006, p. 29.
18 Piscitelli, 2004.
19 Anthias, 2000, p. 24.
20 FORUM EUROPA, 2004.
21 Vale registrar que os índices de fertilidade das italianas estão entre os mais baixos da Europa: em 2000, era de 1,21, enquanto na França e no Reino Unido era de 1,71 (Daniela DEL BOCA, 2003, p. 1).
22 Pesquisas desenvolvidas na Comunidade Européia mostram a importância concedida à utilização dos casamentos como porta para a migração (Daphne PROGRAM, 2003).
23 ONG, 1996, p. 738.
24 DAPHNE PROGRAM, 2005, p. 28-31.
25 A Associação, fundada em 1996, em Roma, tem o objetivo de diminuir a vulnerabilidade das migrantes, oferecendo apoio, assistência legal e psicológica às brasileiras e seus filhos (Sylvia ZINGAROPOLI, 2004).
26 "Viva o Brasil", Elle, Itália, jun. 2004.
27 "Per lê Piú Audaci, lê stilo brasiliano", Corriere della Será, Vivi Milano, 11 jun. 2004.
28 ANDALL, 2003, p. 3.
29 PISCITELLI, 2004.
30 Joane NAGEL, 2003, p. 10.
31 MERRILL, 2004, p. 194.
32 ONG, 1996, p. 739.
33 Helena HIRATA, 2006.
34 Susana MAIA, no prelo.
35 MAHLER e PESSAR, 2001.
36 Alejandro PORTES, Luís E. GUARNIZO e Patricia LANDOLT, 1999, p. 219.