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Revista Estudos Feministas

versión impresa ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. v.16 n.1 Florianópolis ene./abr. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2008000100021 

ARTIGOS TEMÁTICOS

 

O feminismo desconstruindo e re-construindo o conhecimento

 

Feminism deconstructing and reconstructing knowledge

 

 

Eleonora Menicucci de Oliveira

Universidade Federal de São Paulo

 

 


RESUMO

Neste artigo, relaciono sinteticamente alguns exemplos de situações enfrentadas pelas mulheres que observei durante a realização de pesquisa na área da saúde para enfatizar a necessidade do diálogo do conhecimento e das práticas de saúde com o feminismo. Em seguida, abordo alguns aspectos do diálogo da epistemologia com o feminismo, destacando a posição de Gaston Bachelard, de um lado, e de Dorothy Smith, Alison Jaggar, Susan Bordo, Gayle Rubin e Teresita de Barbieri, do outro. Por último sintetizo aquilo que considero como as grandes rupturas epistemológicas promovidas pelo feminismo, referindo-me à linguagem e ao trabalho.

Palavras-chave: feminismo; pesquisas; divisão sexual; ruptura epistemológica; saúde; trabalho.


ABSTRACT

In this paper I briefly describe some examples of observations I made, while involved in a health care research project, of situations faced by women. The purpose of the exercise was to emphasize the need for an interaction(dialogue)between knowledge, health care practice and feminism. I also discuss some aspects of the interaction(dialogue) between epistemology and feminism in the light of the work of Bachelard as opposed to the views of Dorothy Smith, Alison Jaggar, Susan Bordo, Gayle Rubin and Teresita de Barbieri. Lastly, I attempt a synthesis of what I consider to be the major epistemological ruptures promoted by feminism concerning mainly language and work.

Key Words: Feminism; Research; Sex-Based Division; Epistemological Rupture; Health; Work.


 

 

Discutir o impacto do feminismo nas pesquisas no campo das Ciências Sociais, além de ser um desafio enorme, resgata a relação desse movimento com o conhecimento científico, dando-lhe os créditos devidos.1

De que lugar penso essa relação? Do lugar de pesquisadora e ativista que busca situar-se dentro de um movimento intelectual e político no campo de um dos mais importantes movimentos sociais do século XX que é o feminismo.

A relação entre o feminismo e a construção do conhecimento situa-se na concepção de que o método é o exercício reflexivo de apreensão de uma dada realidade ou a expressão da relação sujeito/objeto expressa na maneira como o/a pesquisador/a enquadra a realidade e nela se enquadra. Nessa linha de pensamento, as pesquisadoras feministas trouxeram para as Ciências Humanas a dimensão do cotidiano, isto é, as diferentes experiências das mulheres, com suas histórias de vida marcadas pelos lugares no(s) mundos(s) do trabalho e pela vida sexual e reprodutiva.

Nesse diálogo crítico que as pesquisadoras feministas vêm travando no campo das Ciências Humanas, considero útil e apropriado trazer uma citação de uma teórica feminista italiana da contemporaneidade para iluminar essa reflexão: Laura Terragni diz que a crítica feminista contra a sociologia "[...] deu-se pelo fato que esta operou através de categorias de pensamento masculinas, usadas de modo acrítico, excluindo da própria perspectiva de análise a experiência social das mulheres ou, no caso, observando-a através de 'lentes' culturalmente distorcidas".2

O feminismo como um campo de estudo que trafega indubitavelmente entre o cotidiano macro e micro das mulheres resgata a arte de dialogar para operar no processo de construção e desconstrução do conhecimento. Para tanto, utilizo como referência a noção de Pierre Bourdieu sobre o campo como algo que "[...] é em certo sentido, uma estenografia conceptual de um modo de construção do objeto que vai comandar "ou orientar" todas as opções práticas da pesquisa",3 que funciona como um sinal sempre em vermelho apontando para a não fixidez do objeto, pois esse nunca está sozinho nem fixo, está num conjunto de relações. Para o autor, o real não é real enquanto não estiver relacionado com as incertezas históricas, sociais, políticas, de gênero e raça. Os fenômenos se configuram como realidades para os/as pesquisadores/as a partir do momento em que se tornam problematizados. É o caso dos estudos feministas e de gênero, que problematizam o caráter aparentemente assexuado das relações sociais, mostrando as assimetrias de poder, seja no plano macro, seja no micro, entendendo que os seus próprios objetos são construídos através de práticas sociais e sexuais, transformando-se assim em sujeitos/objetos e não mais apenas em objetos de pesquisa.

Parto de considerar que a arte de dialogar tem sido o caminho da construção do conhecimento através da experiência do ser humano e da atividade concreta. É um movimento de circularidade do pensamento dialético que resulta da própria dinâmica dos fenômenos históricos. Na lógica dialética o conhecimento não se satisfaz com a constatação do real, trabalha com os conflitos pois parte do suposto de que o sujeito está constantemente num processo relacional de incertezas e de novas imprevisibilidades.

Nas últimas décadas está ocorrendo uma enorme mudança na pesquisa social no que se refere, simultaneamente, à teoria e à prática.4 Trata-se de uma mudança que toca, quanto à epistemologia e à metodologia, mas de forma direta as técnicas de pesquisa, principalmente quando as pesquisas têm como objeto a vida sexual e reprodutiva das mulheres, a violência de gênero e todo o campo de conhecimento dos direitos reprodutivos e sexuais. São mudanças que se expressam nas atitudes das pesquisadoras, exigindo que se estabeleça uma relação de confiabilidade e respeito. Não há dúvida de que assistimos a um interesse crescente e a um debate amplo sobre a contribuição dos estudos feministas para as Ciências Sociais, mas eu diria que esse debate ultrapassa as Ciências Sociais, tendo um impacto sobre outros campos de conhecimento, como, por exemplo, as Ciências da Saúde e Biológicas.5

Levando em conta esses supostos teóricos, em primeiro lugar, discuto sinteticamente alguns exemplos de situações enfrentadas pelas mulheres que observei durante a realização de pesquisa na área da saúde para enfatizar a necessidade do diálogo do conhecimento e das práticas de saúde com o feminismo. Em seguida, abordo alguns aspectos do diálogo da epistemologia com o feminismo, destacando a posição de Gaston Bachelard, de um lado, e de Dorothy Smith, Alison Jaggar, Susan Bordo, Gayle Rubin e Teresita de Barbieri, do outro. Por último sintetizo aquilo que considero como as grandes rupturas epistemológicas promovidas pelo feminismo, referindo-me à linguagem e ao trabalho.

 

A experiência de pesquisas com o enfoque feminista

A experiência com as pesquisas na área da saúde integral da mulher tem sido valiosa para tornar visível a necessidade de diálogo entre o feminismo e as Ciências Sociais quando aponta para a importância da abordagem interdisciplinar.

No âmbito dos estudos que venho desenvolvendo na área da saúde integral da mulher, três situações que registrei podem ajudar na compreensão dessa necessidade.

A primeira situação foi observada durante a pesquisa sobre o atendimento ao aborto na cidade de São Paulo que realizo atualmente, objetivando entender a complexidade dos fatores objetivos e subjetivos que interferem na construção da mentalidade e das atitudes tanto das/dos profissionais quanto das mulheres que recorrem ao aborto. Essa situação ilustra a Via Crúcis que as mulheres têm de percorrer quando decidem pela interrupção de uma gravidez indesejada em um determinado momento de suas vidas, conforme evidencia o seguinte depoimento:

[...] fui para o hospital era umas 5 horas. Aí ela falou deita ali que eu vou examinar você. Mas assim bem grossa, tipo aí eu já fiquei com medo. Aí ela falou, você não causou esse aborto não né, eu vou saber se você causou. Aí ela pegou me enfiou um bico de pato enorme dentro de mim e ficou me futucando com uma tesoura [...]. Ela falou, às 6 da manhã eu vou marcar um Ultra-som pra você. Aí eu falei assim mas quando eu vou ser atendida Dr.a, porque eu to sentindo muita dor, eu tô sangrando [...]. Olha eu não sei quando você vai ser atendida filha você vai ter que esperar [...] eu tava com tanta dor que dava vontade de voar na pessoa [...] eu tinha que ser bem tratada em um hospital público, eu fiquei tão traumatizada, que eu fiquei com medo de ir no médico. Eu fui para casa e falei pra minha amiga, seja o que Deus quiser, se tiver que morrer eu vou morrer em casa. E não fui no médico.6

Esta pesquisa se fundamenta numa abordagem interdisciplinar de gênero, focalizando a situação das usuárias que recorrem aos hospitais do SUS para interromperem a gravidez. Do ponto de vista operacional, os seus resultados visam contribuir para a melhoria da assistência, a qual, conforme mostra o depoimento acima, continua precária e violenta. Do ponto de vista teórico, a análise dos resultados se baseia também nas contribuições de Hannah Arendt, pois parto de entender que, ao decidir pelo aborto, elas assumem o agir político em suas vidas, rompem a muralha da solidão e do preconceito (no caso, de gênero) para chegarem aos hospitais públicos, lutando para tornarem-se sujeitos de direitos.

O fato de o aborto no Brasil ser proibido por lei coloca as mulheres numa permanente e insuportável situação de violência física, psicológica e emocional. O primeiro campo da pesquisa, no Hospital Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, tem explicitado diferentes formas de agressão e violência às quais as mulheres são submetidas.7 Por isso mesmo buscamos em Jurandir Costa8 subsídios teóricos para interpretarmos que a violência ocorre quando as mulheres se sentem violentadas ou mesmo violadas em seus direitos reprodutivos. O autor afirma que "[...] quando o sujeito violentado percebe (ou o observador externo à situação) no sujeito violentador o desejo de destruição (desejo de morte, desejo de fazer sofrer) é que a ação agressiva ganha o significado de ação violenta [...]".9

A segunda situação que observei foi durante uma pesquisa que avaliou os serviços de atendimento às mulheres que sofreram violência sexual; essa pesquisa foi realizada em três hospitais públicos do Sistema Único de Saúde – SUS na cidade de São Paulo durante os anos de 1998 a 200410 e reforça a necessidade de diálogo com o feminismo, diz respeito às cicatrizes "que ficam nas mulheres".11

Na maioria das vezes as mulheres vítimas de violência sexual apresentam problemas que não se reduzem às conseqüências imediatas dos atos violentos vivenciados, mas apresentam interfaces que precisam contar com o aporte interdisciplinar e transdisciplinar, como as cicatrizes deixadas na vida sexual, afetiva, social e profissional.12 As feridas podem ser curadas dependendo do cuidado e de quem cuida, entretanto as cicatrizes são as marcas visíveis e invisíveis da agressão e do não cuidado, pois somente cuida do outro aquele que cuida de si.13 A violência sexual acontece entre conhecidos e desconhecidos com mulheres adultas, adolescentes e crianças. A violência sexual contra as crianças acontece principalmente dentro da casa e é perpetrada pelos pais, padrastos, irmãos ou por algum parente; contra adolescentes e mulheres, acontece entre conhecidos e desconhecidos.

Do nosso trabalho no atendimento a essas mulheres retiramos algumas narrativas consideradas como exemplares da tragédia humana por que passaram aquelas mulheres: as cicatrizes no corpo físico " muitas mulheres não chegam com marcas físicas no corpo, embora seja uma constante a narrativa de que se sintam sujas e imundas por dentro e por fora, fazendo-as tomar vários banhos com sabão e até com água sanitária. O sentimento de que nunca irão se limpar, de que nunca serão limpas, pode ser pensando em uma articulação com o significado simbólico dessa sujeira, o que as faz desejar uma troca de corpo. Muitas não querem relembrar a experiência e, quando ficam grávidas, querem o mais rápido possível fazer o aborto para retirar a "sujeira" que está dentro delas, como dizem em entrevista: "[...] esta sujeira não sai nem com soda cáustica, precisa de ser retirada com instrumento [...]". Sobre as cicatrizes na sexualidade afirmam que "nunca mais, quero relações sexuais [...]". Se o ato da violência sexual acontece diretamente no lócus real e simbólico do prazer no corpo é preciso um processo longo e carinhoso para que as mulheres comecem a pensar que esse prazer não foi destruído em suas vidas; as cicatrizes no corpo afetivo – toda a sua vida afetiva com as amizades, a família, o/a namorado/a, ou o/a parceiro/a fica muito comprometida. São sentimentos de vergonha, de culpa e de medo que tomam lugar na vida dessas mulheres. Aqui também o processo é muito longo para a elaboração da experiência; as cicatrizes no corpo social – acredito que uma das maiores cicatrizes sociais é a desvinculação de si como sujeito de direitos. Existe a pessoa, mas não a mulher como sujeito de si mesma. Ela apresenta uma enorme dificuldade de ultrapassar a experiência e readquirir autoconfiança para novas relações interpessoais; as cicatrizes no corpo trabalhador – o corpo que trabalha para sobreviver não consegue mais retornar ao trabalho, ele está acuado e mais uma vez com medo e vergonha de enfrentar as colegas do trabalho e o chefe. A vergonha de solicitar dispensa para o tratamento, o medo de passar pelo mesmo caminho, trajeto, de pegar o mesmo ônibus, metrô etc.; as cicatrizes no corpo da saúde mental – aprendemos ao longo do acompanhamento das mulheres que a experiência traumática não é possível ser processada no momento em que a mulher se encontra em estado de choque. Por isto, ela pode passar por algumas diferentes elaborações sobre o estupro vivido: a) elaboração psicótica, quando ela enlouquece; b) elaboração melancólica, quando entra num processo de melancolia e tristeza com sintomas graves em sua vida (não come, só dorme, não sai de casa, não conversa e na maioria das vezes não consegue chorar); c) elaboração através de sintomas neuróticos fóbicos obsessivos; d) elaboração através de supressão da experiência; e e) elaboração através de quadros de dependência psicológica e/ou de substâncias lícitas e ilícitas.

A sociabilidade dessas mulheres está comprometida em toda a sua complexidade, no entanto, ao buscarem tratamento, ao confiarem nos profissionais, estão reconfigurando as relações de alteridade, sobretudo pela segurança que passam a ter no processo de escuta. É muito forte o sentimento que elas demonstram quando são escutadas e respeitadas, momento em que se dá a construção de novas subjetividades femininas e de uma vontade saudável de vingança.

Uma das entrevistadas afirma: "durante a noite eu acordo várias vezes, eu tinha que tomar calmante para dormir, parecia que alguém estava me vigiando".14

Se historicamente o diálogo sobre o aborto como um direito reprodutivo foi reprimido, o feminismo, sobretudo nas pesquisas voltadas para a área da saúde integral da mulher, tem mostrado que as mulheres, ao decidirem pela interrupção de uma gravidez indesejada, rompem com os dispositivos estratégicos de controle sobre o corpo e a sexualidade, provocando paralelamente uma desconstrução da linguagem patriarcal que informa os discursos sobre os direitos reprodutivos, mesmo que fiquem expostas às violências institucionais, que contribuem para aumentar o seu sofrimento.

A terceira situação possibilita trazer à luz a influência que o trabalho remunerado das mulheres tem sobre o seu equilíbrio psíquico e o curso da transformação do sofrimento psicofísico em elevação da auto-estima, com destaque para o impacto da reestruturação produtiva nas condições de vida e saúde das trabalhadoras. Como afirmou Helena Hirata quando trouxe o exemplo das novas tecnologias de produção,

[...] se, na maior parte das vezes, as mulheres são ausentes enquanto atores sociais nas diferentes disciplinas das ciências humanas, até mesmo 'invisíveis', conforme a expressão utilizada em um grande número de pesquisas, elas o são também quando se trata de abordar o tema 'tecnologia' e divisão do trabalho.15

Algumas pesquisas que desenvolvo na área de trabalho mulher e saúde16 mostraram que as desigualdades de gênero somam-se às demais diferenças sociais explicando os diferentes lugares de poder que ocupam no mundo do trabalho as mulheres e os homens e que devem ser identificadas para compreender como o trabalho repercute diferentemente na saúde do homem e da mulher. Na pesquisa que realizei na Fábrica Ford de automóveis em São Bernardo, Estado de São Paulo,17 observei que as trabalhadoras que têm restrição médica exercem funções mais leves e têm estabilidade no emprego, mas sofrem preconceito por parte dos colegas de trabalho e dos supervisores:

Já sofri muita (discriminação), a gente adquiriu um rótulo que eu acho que a gente não apaga nunca mais. Você pode ser a melhor que você nunca vai ser a melhor. Você pode trabalhar redondo que você nunca tá fazendo o perfeito; Já ouvi coisas assim: – Ah, não quer trabalhar. É vagabunda, é não sei o quê, é preguiçosa [...] – Então é um rótulo que não apaga nunca mais. Eu já sofri muito com isso, muito mesmo.18

As trabalhadoras que não têm restrição médica (RM) são mais solicitadas, realizam serviços mais pesados, enquanto aquelas que têm restrições médicas não podem fazer rodízio nessas funções, logo, as demais sentem-se lesadas. Isso gera um rompimento da solidariedade entre o/as trabalhadores/as, pois, como já foi dito, o adoecimento é tido como responsabilidade do/a próprio/a trabalhador/a.

Em muitas das entrevistas ficou evidente a real necessidade daquele emprego para a manutenção da renda familiar, pois muitas das trabalhadoras são chefes de família. Uma delas constata: "Se eu perder o emprego, complica a situação lá em casa".19 Aquelas que não são chefes de família contribuem também de forma significativa para a renda domiciliar.

Para esses estudos, a opção em utilizar a afirmação de Jürgen Habermas "[...] a unidade do conhecimento com o interesse verifica-se na dialética que reconstrua o elemento reprimido a partir dos traços históricos do diálogo reprimido"20 reforça a opção feminista pela epistemologia que inclui a categoria gênero como mediação entre a prática e a teoria científica, evidenciando o interesse do ecimento instituído em silenciar as relações de poder entre os sexos, numa alusão à proibição dos diálogos entre os sexos. Para o feminismo, isto implica na desocultação dos silêncios impostos aos diferentes sujeitos e atores sociais, na dimensão processual do conhecimento, em que o sujeito é construído e não o ponto fixo de partida e na rua de mão dupla.

A opção metodológica feminista que privilegia o cotidiano e a subjetividade está ancorada nas abordagens teóricas que reforçam a necessidade da reflexão hermenêutica crítica como uma estratégia analítica para transformar a ciência de um objeto estranho, distante de nossa vida, em algo familiar e próximo, com capacidade de nos comunicar suas falências e limites. Assim, os estudos feministas já citados no início deste artigo, ancorados na prática política, têm mostrado que o conhecimento é falível e a verdade é sempre aproximada e provisória, provocando uma das mais importantes crises de paradigmas do século XXI quando colocam no âmbito do conhecimento que as múltiplas inteligibilidades do real são impulsionadas por práticas sociais externas. Os estudos de gênero ilustram essa posição, pois foram gerados no campo da rebelião contra a subordinação das mulheres, rebelião que teve sua marca inicial nos anos 70 com a disseminação das práticas feministas,21 aproximando-se das várias correntes teórico-metodológicas: marxistas, estruturalistas, pós-estruturalistas.22

Ao aproximarmos nossos estudos dessas duas correntes teórico-metodológicas – marxista e pós-estruturalistas –, concordamos que as crises dos paradigmas ou da desdogmatização da ciência têm exigido uma hermenêutica crítica da epistemologia e uma desconstrução do discurso binário e universalizante da ciência positivista através da crítica às abordagens cartesianas. O discurso científico só será socialmente compreensível se, diante dele, adotarmos uma atitude hermenêutica que possibilita interpretações plausíveis e não absolutas tanto nas ciências naturais como nas Ciências Sociais, nestas últimas, os objetos/sujeitos de estudo falam, pensam e sentem, como aponta a epistemologia feminista ao explicitar o caráter social da ciência, a relatividade dos sistemas de verdade e a politização do discurso.23

Gaston Bachelard24 acentua a discussão entre a lógica cartesiana e a não cartesiana partindo dos debates travados no âmbito das Ciências Exatas e da geometria euclidiana e chegando às teses não-euclidianas do indeterminismo da ciência. Discute e evidencia a complexidade dos fenômenos colocando em dúvida a certeza das "paralelas geométricas" e apontando a evidência necessária das incertezas no caminho metodológico. Para o autor, esse caminho do novo espírito científico só se torna possível com a lógica dialética que põe os fenômenos em relações profundas e complexas.

Ao relerem Bachelard, os estudos feministas não só dialogam com o autor, mas rompem para além das Ciências Sociais com a lógica cartesiana de interpretação dos fenômenos e, mais, introduzem a dimensão do cotidiano e da subjetividade na lógica dialética e apontam para a especificidade das Ciências Sociais em relação ao objeto de estudo; em conseqüência, sua repercussão metodológica está dada pela dupla dimensão da hermenêutica crítica, ou seja, por ser o objeto/sujeito das Ciências Sociais o ser humano, com cara, corpo, sexo, práticas sociais, raça/etnia, sujeitos socialmente competentes que interpretam o mundo que os rodeia para melhor atuarem e intervirem nele e sobre ele. Estudos como os de Patrizia Romito25 e Eleonora Oliveira26, ao dialogarem com Bachelard,27 expressam que os atores políticos interagem socialmente em consonância com a reflexividade do conhecimento contextualizado de suas ações. Por isso mesmo Farganis afirma que a pesquisadora feminista,

cônscia da relação dialética entre teoria e prática, deseja não só analisar temas relativos à ciência, mas também como se pode atuar como cientista e, ao mesmo tempo, honrar seu compromisso com o feminismo, que, compreendido amplamente, procura eliminar a opressão e a dominação sobre as mulheres.28

Se toda definição conceitual é relacional, a base dessa definição reside em uma hierarquia de poder que se estabelece em todos os níveis das diferentes relações sociais, de gênero e de raça, existentes no tecido social, na esfera política, jurídica, da família, do trabalho e nas relações domésticas, no âmbito subjetivo que constitui a esfera privada, com repercussões nas diferentes dimensões da esfera pública.

Essa postura crítica em relação aos preconceitos do conhecimento cartesiano agrega-se à crítica elaborada por Dorothy Smith quando defende "a importância do reconhecimento de que ambos, o observador e o observado, têm biografias sociais específicas, que cada um é uma pessoa concreta, encarnada num corpo e ocupando um momento no tempo e, e que, cada um tem seus valores".29

A análise da divisão sexual pelos estudos feministas como categoria sociológica desvendou não só as diferentes repercussões dessa divisão no corpo das mulheres e dos homens, tanto na esfera privada quanto na esfera pública, como os diferentes lugares que ocupam na sociedade e, mais, que o(s) mundo(s) do trabalho tem/têm dois sexos.

Pode-se dizer que houve uma incorporação das questões feministas em diferentes campos da produção do conhecimento científico, de fora para dentro, como, por exemplo, no campo marxista ao reler a obra de Engels e Marx, que deslocam o foco único de análise nas relações econômicas e sociais de produção e no campo das ciências naturais, quando desbiologizam e desnaturalizam os fenômenos.30 O feminismo informa o conceito de gênero, mas se deve precisar que esses são conceitos diferentes, operam em campos que não são necessariamente os mesmos. Por exemplo, para algumas correntes,31 o feminismo é uma prática social, refere-se à ação das mulheres organizadas, enquanto o gênero é a categoria de análise útil para explicar as relações de poder hierárquicas entre os sexos. Ambos os conceitos foram aos poucos sendo incorporados pelo pensamento feminista das diferentes autoras citadas neste artigo, no entanto, ainda sofrem sérias dificuldades e restrições nas Ciências Sociais.

Uma das mais importantes contribuições do feminismo às Ciências Sociais, mais precisamente às pesquisas, foi sem dúvida a construção de categorias de análise como o cotidiano, a vivência e a emoção: o cotidiano para pensar o lócus onde acontecem as relações pessoais, afetivas, de trabalho, de lazer e tantas outras; a vivência para pensar as diferentes experiências ao longo da vida das mulheres e dos homens que marcam o corpo e a sexualidade; a emoção como categoria negligenciada e obscurecida pelo positivismo, o que me faz concordar com Alison Jaggar quando afirma: "[...] acredito que reconhecer certos aspectos negligenciados da emoção torna possível uma consideração mais acurada e ideologicamente menos tendenciosa de como o conhecimento é e de como deveria ser construído".32

Nas pesquisas feministas as emoções são consideradas não como reações involuntárias e individuais a situações, mas percebidas pelos próprios sujeitos da pesquisa. São interpretadas como construções sociais e não apenas como fator que opera no âmbito do biológico. O exemplo citado da pesquisa sobre o atendimento ao aborto inclui a emoção como elemento estruturante do conhecimento científico, pois nas suas trajetórias em busca do acesso aos direitos reprodutivos as mulheres se engajam ativamente, permitindo que sejam construídos novos projetos de sociedade.33

Na busca para consolidar os estudos feministas como um campo de conhecimento em formação nas Ciências Sociais, expandiu-se o conceito de gênero como categoria que não corresponde ao sexo anatômico e fisiológico conforme o ponto de vista das Ciências Biológicas. Segundo Joan Scott, o gênero é o sexo socialmente construído, trata-se de "uma forma primordial de significar as relações de poder, ou melhor é um campo no seio do qual ou por meio do qual o poder é articulado".34 E é bom registrar que ao falar em sexo o diferencio de sexualidade, pois esta incorpora as relações entre sexo, gênero e subjetividade. Um dos importantes desdobramentos da definição de Scott é o de que ela nos informa que as mudanças nas relações sociais correspondem sempre às mudanças nas representações de poder e a sua direção não segue sempre um sentido único, percorre atalhos da vida cotidiana, permitindo uma aproximação relacional dos fenômenos estudados.

A abordagem teórica sobre gênero de Teresita de Barbieri também no campo das Ciências Sociais define as relações de gênero como

[...] os conjuntos de práticas, símbolos, representações, normas e valores sociais que as sociedades elaboram a partir da diferença sexual anatômica " fisiológica e que dão sentido à satisfação dos impulsos sexuais, à reprodução da espécie humana e, em geral, ao relacionamento entre as pessoas. Em termos durkheimianos, são as tramas das relações sociais que determinam as relações dos seres humanos enquanto pessoas sexuadas.35

Concordamos com Barbieri quando ela sexualiza as relações entre as pessoas reforçando outra importante ruptura epistemológica provocada pelo feminismo, que nos anos 90 consolidou o conceito de direitos sexuais.

Gayle Rubin diz que gênero é um conceito de maior generalidade e compreensão " já que deixa aberta a possibilidade de existirem formas distintas de relação entre mulheres e homens, entre feminino e masculino, dominação masculina, dominação feminina ou relações igualitárias: "deixa também aberta a possibilidade de distinguir formas diversas em períodos históricos diferentes e, com utopia, permite pensar a liberação das mulheres a partir de formas distintas de organização social".36 E aponta para a mobilidade estratégica do conceito de gênero. Essas são apenas três das várias abordagens teóricas feministas sobre o conhecimento que representam desdobramentos importantes nas pesquisas em Ciências Sociais.

Das rupturas epistemológicas de que se fala na filosofia, esta é talvez a mais importante dos últimos vinte anos nas Ciências Sociais. Trata-se pois do reconhecimento de uma dimensão da desigualdade social, que é a divisão sexual, até então não trabalhada, subsumida na dimensão econômica, seja nas teorias das classes sociais, seja nas teorias da estratificação social.

Esta crítica à ciência dominante e positivista chamada por Alison Jaggar e Susan Bordo de ciência ocidental questiona a concepção tradicional de que existe algo chamado natureza objetiva correspondente a alguma realidade claramente discernível que a mente humana pode compreender através do processo bastante simples e direto conhecido como razão.37

É importante destacar que as pesquisadoras feministas em sua maioria não propugnam que as mulheres podem, tanto quanto os homens, raciocinar e fazer ciência, mas que praticarão a ciência de modo diverso, com uma metodologia diferente que permite observar e compreender com intencionalidade os fenômenos em sua diversidade e complexidade e, assim, incluir as emoções até agora proscritas do conhecimento científico em categorias explicativas de análise.

Assim, reconhecer o fenômeno social é muito mais profundo que conhecê-lo, é dizer que as paralelas euclidianas não são tão paralelas como afirmava o determinismo, pensando dialeticamente sobre as incertezas das certezas. E foi nessa brecha que o feminismo mostrou que todo fenômeno social é sexualizado.

Inspirada em Bachelard,38 penso numa abordagem teórica para analisar os impactos do feminismo nas pesquisas sociológicas em três níveis: primeiro para romper com os prejuízos comuns que devem ser reconstruídos, reconhecidos, evidenciados e explicitados; segundo, a partir do processo de investigação qualitativa que constrói o objeto colado ao sujeito; e o terceiro refere-se à fase da verificação, ou seja, está implícita aqui a necessidade de vigiar o processo epistemológico para controlá-lo.

Por fim, no caminho da releitura de Bachelard39 e à luz do feminismo recupero do autor três estratégias para romper e desconstruir o conhecimento no âmbito interno das epistemologias já instituídas.

A primeira é a linguagem comum de cada dia. Sabemos que pode haver uma ruptura nessa linguagem, e nós pesquisadoras e ativistas feministas sabemos muito bem disso porque descobrimos a partir dos anos 70, quando se diziam que homens universalizavam os sujeitos homens e mulheres.40 Neste momento, as feministas descobriram a importância da linguagem como fundamental para romper com a marca do patriarcado na divisão sexual do mundo. Foi assim que a abordagem que trata da divisão sexual permitiu romper com as categorias tradicionais das Ciências Humanas, e, segundo Hirata,

com uma das concepções marxistas da clivagem, extremamente simplista, entre esfera produtiva (produção de valor) e a esfera reprodutiva (produção de valores de uso não-mercantis) para partir para elaboração de novos conceitos que, por um lado, ultrapassem a universalidade aparente das categorias, muitas vezes baseadas em um modelo masculino e, por outro, quebrem a compartimentação rígida das disciplinas que caracteriza as ciências humanas hoje.41

São diversos os exemplos do que significou essa ruptura, aparentemente, enraizada no senso comum e utilizada pelo conhecimento científico. Vou-me ater àqueles que estão mais próximos dos meus objetos de pesquisa.

Há necessidade de se nomear a violência doméstica e sexual contra as mulheres como atos constituintes e estruturantes da relação hierárquica de poder entre os sexos, que operam como estratégias disciplinares de controle sobre o corpo e a mente das mulheres no âmbito do sistema patriarcal.42 Na violência doméstica, como parte do contrato social do casamento, e na violência sexual, aquela que acontece tanto dentro do confinamento dos espaços domésticos como nos espaços públicos da rua, a mulher encontra-se sem nenhum poder de reação, seja na esfera da subjetividade, seja na esfera da objetividade.

Outro exemplo é o fato de as mulheres ocuparem profissões nos mundos do trabalho vistas no âmbito da qualidade e da vocação como extensão das atividades que desenvolvem no mundo doméstico e não como utilidade social qualificável e valorizada.

Alguns estudos mostram que as tarefas domésticas, embora repetitivas, rápidas, precisas e solitárias, são fundamentalmente imprevisíveis e repletas de variâncias.43 Qualquer coisa que surge no âmbito da casa exige um replanejamento imediato das prioridades, como doença de filhos, maridos, ausência da empregada doméstica, ou seja lá o que for, altera a ordem de prioridades. No entanto, isso não altera a sua capacitação para funções que exigem essas habilidades, ao contrário, especializam-nas para discriminá-las no mundo do trabalho.

No âmbito da saúde, a eterna persistência em patologizar e medicalizar as queixas das mulheres, principalmente aquelas que dizem respeito à vida reprodutiva e sexual, sendo a gravidez, a homossexualidade e a ausência de libido evidências maiores.

As feministas descobriram que, para viver neste mundo, teriam que renomear as coisas, como, por exemplo, as situações anteriores. Fomos aprendendo nesses últimos vinte anos a renomear as "coisas" para torná-las visíveis porque não o eram e definindo como inaceitável aquilo que estava posto como aceitável.

A segunda estratégia diz respeito ao trabalho ao desmistificar o decantado prejuízo econômico atribuído à oferta de trabalho às mulheres no mundo do capital, pois essas potencialmente podem engravidar e as empresas são obrigadas a pagar os direitos trabalhistas, porém este argumento é falacioso, uma vez que os salários das mulheres são mais baixos e sua ascensão na carreira e aos cargos de chefia são dificultados.

A terceira estratégia diz respeito às doenças do(s) mundo(s) do trabalho, em que em sua grande maioria os especialistas da área da saúde e trabalho ou medicina ocupacional44 não contemplam a esfera do sofrimento e do desgaste mental dominado, em que as estatísticas não apontam e nem tampouco são interpretadas.45 Quando se introduz na pesquisa a categoria das relações de gênero como explicativa dos diferentes lugares que ocupam mulheres e homens na organização social da produção e nas condições de trabalho,46 desconstrói-se a noção universalizante e medicalizadora tanto do trabalhador como do sujeito masculino universal como a noção de psicopatologia do trabalho elaborada por Christophe Dejours47 a partir da sexualização da construção e da produção social dos significados simbólicos do medo, da perda, do perigo, do sofrimento e da depressão, univerzalizando os trabalhadores em sujeitos masculinos.

As estratégias dos estudos feministas é colocar em discussão a interpretação naturalista e psicologizante como algo utilizado de forma espontânea para tentar compreender os comportamentos de outras pessoas. Nestes casos, é possível trazer alguns estudos desenvolvidos por nós para iluminar essa afirmação, por exemplo, quando as mulheres apresentam queixas de cansaço, a interpretação dominante tem sido a de que têm problemas psicológicos e desequilíbrio hormonal. O exemplo mais forte é o das Lesões por Esforços Repetidos, as conhecidas LERs.48

No caso do aborto, que no Brasil é considerado legal apenas em casos de risco de vida para a gestante e em gravidez decorrente de estupro, as mulheres que desejam interromper a gestação por outros motivos são submetidas aos riscos de um aborto inseguro que pode levar a complicações, como infecções, hemorragias e seqüelas (como infertilidade e até morte). Diante da constatação de que essas mortes e esses danos à saúde das mulheres são evitáveis, uma importante questão precisa ser considerada: o atendimento respeitoso e digno às mulheres nos hospitais públicos.

Com essas reflexões procurei contribuir para esclarecer como se dão as rupturas epistemológicas, necessárias para compreender os fenômenos sociais com o olhar das relações de poder entre os gêneros na sociedade, tanto na esfera privada como na esfera pública. Foucaultianamente49 falando, essas rupturas são mediadas pelo corpo e pela sexualidade, lócus de poder infinitesimal nas relações micro e macro social. Elas não provêm do interior do mundo científico, como apontou Gaston Bachelard,50 mas decorrem dos impactos das ações sociais.

 

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Recebido em maio de 2006 e aceito para publicação em outubro de 2007

 

 

1 Texto apresentado na mesa-redonda "A contribuição do pensamento feminista às pesquisas sociológicas contemporâneas", no Encontro Nacional da Sociedade Brasileira de Sociologia – SBS, em Belo Horizonte, de 31 maio a 3 junho de 2005.
2 Terry KANDALL, 1988, citada por Laura TERRAGNI, 2005, p. 144.
3 Pierre BOURDIEU, 1983, p. 21.
4 Alberto MELUCCI, 2005, p. 25.
5 COMISSÃO GULBENKIAN, 1996.
6 Eleonora OLIVEIRA et al., no prelo. Fragmento da fala de uma entrevista.
7 Como mencionado neste texto, a pesquisa em curso realiza-se em três hospitais públicos do SUS na cidade de São Paulo: Hospital Arthur Ribeiro de Saboya, Hospital Vila Nova Maternidade Vila Nova Cachoeirinha e Hospital Universitário São Paulo. Todos os três hospitais são 100% SUS e referência para a saúde integral da mulher.
8 Jurandir COSTA, 2003, p. 30.?
9 COSTA, 2003, p. 30.
10 OLIVEIRA et al., 2005.
11 Jurandir COSTA, 2003, p. 41.
12 OLIVEIRA et al., 2005.
13 FOUCAULT, 2004.
14 OLIVEIRA et al., 2005, p. 378.
15 HIRATA, 2002, p. 197.
16 Ângela ARAÚJO e Eleonora OLIVEIRA, 2006.
17 ARAÚJO e OLIVEIRA, 2006.
18 Trabalhadora da Ford, portadora de LER.
19 Trabalhadora da Ford.
20 Jürgen HABERMAS, 1975, p. 300.
21 HIRATA, 2002; OLIVEIRA, 1997; e Joan SCOTT, 1990.
22 Carmen ELEJABEITIA, 1987; e Michelle PERROT, 2005.
23 Sondra FARGANIS, 1997, p. 226.
24 BACHELARD, 1985.
25 ROMITO, 1997.
26 OLIVEIRA, 1997.
27 OLIVEIRA, 1997.
28 FARGANIS, 1997, p. 229.
29 Citada por FARGANIS, 1997, p. 230.
30 HIRATA; 2002; OLIVEIRA, 1998; e Tereza de LAURETIS, 1989.
31 OLIVEIRA, 1998.
32 JAGGAR, 1997, p. 160.
33 JAGGAR, 1997, p. 160.
34 SCOTT, 1990.
35 BARBIERI, 1993, p. 16.
36 RUBIN, 1993, p. 3.
37 FARGANIS, 1997, p. 227.
38 BACHELARD, 1985.
39 BACHELARD, 1985.
40 ROMITO, 1990.
41 HIRATA, 2002, p. 134.
42 Carole PATERMAN, 1993.
43 Aracky RODRIGUES, 1992.
44 Carlos Mynaio GOMES e Francisco LACAZ, 2005.
45 Cristhofer DEJOURS, 1988.
46 Jussara BRITO, 2005; Margarida BARRETO, 2003; e Eleonora OLIVEIRA, 1998.
47 DEJOURS, 1988, p. 9-19.
48 OLIVEIRA e BARRETO, 1997.
49 FOUCAULT, 1977, p. 9-49, p. 56-58, p. 67-75.
50 BACHELARD, 1985.