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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.17 no.2 Florianópolis May/Aug. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2009000200005 

ARTIGOS

 

Gênero, geração e classe: uma discussão sobre as mulheres das camadas médias e populares do Rio de Janeiro

 

Gender, generation and social class: a debate about women in middle and popular layers in Rio de Janeiro

 

 

Maria das Dores Campos Machado; Myriam Lins de Barros

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

 


RESUMO

Este artigo apresenta a comparação dos dados de duas pesquisas realizadas com o objetivo de verificar as continuidades e descontinuidades nas representações de gênero em diferentes gerações de famílias das camadas médias e populares do estado do Rio de Janeiro: das avós, das mães e das suas filhas. Privilegiamos aqui as percepções do lugar social da mulher no contexto das transformações em curso na sociedade brasileira. Considerando o crescimento da participação feminina no mercado de trabalho e o aumento no nível de escolaridade das mulheres, interessa-nos, particularmente, conhecer as representações e as práticas das integrantes dessas três gerações em torno da família, da religião e da profissionalização feminina.

Palavras-chave: mulheres; gênero; geração; mudança social.


ABSTRACT

This article presents a comparison of data from two researches which aim at verifying the continuities and discontinuities in the gender representations in different generations of middle and popular-layer families in Rio de Janeiro State: that of grandmothers, of mothers and their daughters. Here we privileged the perceptions of the woman's social place in the context of the transformations in course in Brazilian society. Taking into account the growth of female participation in the labor market as well as the heightening of the women's schooling level, we are particularly interested in getting to know the representations and the practices of the members of these three generations abound family, religion and female professionalization.

Key Words: Women; Gender; Generations; Social Change.


 

 

Introdução

A literatura socioantropológica demonstra que a modernidade favoreceu a emergência de sujeitos individuais e que este é um processo marcado por contínuas tensões entre a autonomia das pessoas e a pertença familiar.1 Esta crescente valorização do sujeito que tem domínio sobre si mesmo e que toma suas próprias decisões pode ser interpretada como um sinal de crise da instituição familiar, e este é um tipo de reflexão encontrado muito frequentemente na mídia e nos círculos religiosos. As ciências sociais, contudo, inclinam-se a interpretar tal processo como expresão de duas tendências que se desenvolveram nos últimos séculos no Ocidente e que estão estreitamente relacionadas: a de autonomização dos filhos e a da dissolução do modelo patriarcal de organização das relações familiares.2

Em termos geracionais, existe um consenso de que o aumento dos níveis de escolaridade implica a extensão temporal da dependência econômica dos filhos, mas em contrapartida permite uma maior autonomia cultural dos jovens. Da mesma forma, a migração desses atores sociais, seja com fins educacionais, seja com o objetivo de conseguir melhores condições de trabalho, amplia o grau de liberdade e autonomia diante dos pais. No que se refere às relações de gênero, percebe-se que a crescente participação feminina no mercado de trabalho e a ampliação do nível de instrução favorecem a autonomia e a independência das mulheres diante dos homens e, consequentemente, uma revisão no sistema de autoridade dos grupos domésticos.

Pesquisas recentes na sociedade brasileira3 corroboram essas tendências, revelando transformações nas percepções do lugar da mulher no mundo do trabalho e na esfera privada e associando tais transformações com o grau de escolaridade e o engajamento das mulheres no mercado de trabalho. Em outras palavras, é no segmento das mulheres economicamente ativas e com maior nível de instrução que as representações de gênero tradicionais tendem a ser mais questionadas e onde existe a maior probabilidade de revisões nas identidades femininas.

Por outro lado, esses mesmos estudos demonstram o crescimento acentuado da participação das mulheres pobres na população economicamente ativa. Esse é um fenômeno novo, uma vez que nas décadas anteriores tal segmento apresentava taxas de representação significativamente inferiores às das mulheres dos estratos médios e altos da sociedade brasileira. Com baixos níveis de escolaridade e poucos recursos para o cuidado dos filhos, essas mulheres enfrentam dificuldades no exercício profissional com uma forte tendência de inserção nos ramos de atividades de baixo reconhecimento social.4 Da mesma forma, reconhece-se que tais características - escolaridade reduzida e dificuldades no acompanhamento da prole - comprometem a mobilidade entre os mundos sociais e dificultam as trocas simbólicas com as outras camadas da sociedade. Essa diferenciação das experiências certamente tem implicações no processo de construção de identidade dos segmentos femininos pobres.

Enquanto as análises sociológicas apontam para transformações relativas ao lugar da mulher de diferentes segmentos sociais nos mundos público e privado, verifica-se na antropologia brasileira contemporânea uma revisão do paradigma holista que orientou os estudos das camadas trabalhadoras até meados dos anos 90 e que enfatiza a visão hierárquica do mundo e da família nesses segmentos.5 Percebe-se assim, nas publicações mais recentes,6 um esforço em retificar a tese da resistência das camadas populares à ideologia individualista em função da expansão das tendências contemporâneas de "institucionalização, mercantilização, racionalização, igualitarização e liberalização do espaço público"7 na sociedade brasileira. Sem abandonar a premissa da preeminência da visão holista nos grupos populares, mas tentando resgatar as comunicações, alianças ou trânsitos entre as classes que produzem os campos de significados comuns,8 os autores tentam discutir como a "cosmologia moderna" se articula com as características tradicionais desses segmentos sociais.9 De forma sintética, trata-se de examinar as possíveis combinações do ideário individualista com os preceitos relacionais e hierárquicos que estruturam a subjetividade dos trabalhadores.

Para além das nuances identificadas nas análises, constata-se um consenso em torno da ideia de que os homens seriam bem mais suscetíveis às forças modernizantes do que as mulheres dos setores populares que expressam ainda hoje uma subjetividade marcada pelos valores relacionais e hierárquicos. Nessa perspectiva, a constituição do masculino expressaria uma forte ambiguidade, articulando a tendência de reforço da individualidade com os princípios hierárquicos de estruturação e construção das subjetividades. Avançando nesse debate, Tania Salem propõe a distinção entre os processos de individuação e de individualização, "sugerindo reservar ao último termo, e apenas a ele, o indelével compromisso com a ideologia individualista".10 Na visão dessa antropóloga, enquanto os homens se mostram "mais individuados do vínculo conjugal e da família", as mulheres se revelam apegadas aos vínculos, combinando o atributo relacional com a hierarquia.11 Ou seja, enquanto o ethos feminino segue o desenho da cultura hierárquica, reafirmando o valor-família e sendo fortemente associado à moral relacional, o ethos masculino nas camadas populares reúne hierarquia e individuação.

Por mais que se valorize o esforço de revisão do paradigma holista e de regaste das redes simbólicas de comunicação entre as classes sociais, deve-se questionar a ideia de que as mulheres das camadas populares sejam infensas às tendências de individualização e ao ideário do individualismo de uma forma mais ampla. Assim como a dimensão relacional se faz presente na constituição do ethos feminino entre as mulheres das camadas médias, argumentamos que valores da ideologia moderna se fazem presentes no processo de construção da identidade feminina dos grupos populares. Compartilhamos da tese de que não existe "um único individualismo", mas individualismos, e que se faz necessário o exame da "emergência de situações em que o indivíduo enquanto sujeito moral se destaca e onde o ethos individualista possa existir mesmo subordinado a uma ordem holista dominante".12

Não pretendemos com isso negar as especificidades das identidades de gênero e o caráter assimétrico das relações de gênero em nossa sociedade. Da mesma forma, não estamos desconsiderando o enquadramento das classes sociais nas biografias dos sujeitos sociais, sejam eles homens ou mulheres. O que realmente nos importa no momento é argumentar que a mobilidade educacional, a maior participação no mercado de trabalho e a crescente adesão aos grupos religiosos da confissão evangélica constituem fatores que propiciam experiências de individualização das mulheres das camadas populares em relação a alguns dos vínculos tradicionais, ainda que o valor-família siga muito importante nesses estratos. Ao mesmo tempo, procuramos mostrar que as experiências das mulheres dos segmentos médios com nível educacional elevado, renda própria e atribuição de valores altamente individualizantes à leitura de suas trajetórias apontam para a presença de valores relacionais, sobretudo, no que se refere à família, à maternidade e aos projetos de conjugalidade.

A partir de comparações entre os valores e as percepções dos segmentos femininos das camadas médias e populares, o que se pretende neste artigo é analisar o contexto sociocultural das mudanças relativas ao lugar da mulher na vida pública e privada e indicar os processos de construção de uma subjetividade mais ou menos autônoma a partir da perspectiva geracional.

A questão das gerações está, intrinsecamente, imbricada com a problemática das mudanças sociais e neste artigo essa interrelação é examinada na dimensão da experiência de vida e de seu sentido, construído pelas mulheres em seus diferentes contextos de relações sociais. Há, portanto, duas dimensões explícitas orientando nossa análise comparativa, a geracional e a de classe social, e uma terceira que perpassa o texto como um todo, que é a de gênero. E o nosso objetivo é perceber nos segmentos estudados a presença mais acentuada entre as gerações femininas do efeito de geração,13 ou seja, mudanças significativas de uma geração para outra, capazes de construir uma narrativa de distinção geracional.

Os dados para a análise baseiam-se nos resultados de entrevistas semiestruturadas e de história de vida de três gerações de uma mesma família em universos de mulheres de camadas populares e médias do Rio de Janeiro. Deve-se esclarecer, ainda, que tais universos foram recortados a partir da definição da geração intermediária de cada grupo de três mulheres. Assim, para as camadas médias, as entrevistadas com vínculos familiares foram escolhidas a partir das mulheres da faixa etária de 50 a 60 anos, com curso superior completo, em atividades profissionais ou aposentadas. A ideia básica para definir essa geração é a de que as integrantes dessa faixa etária nos segmentos médios das grandes cidades brasileiras experimentaram um conjunto de mudanças sociais redefinindo o lugar da mulher nos domínios público e privado. Relações de gênero foram reestruturadas com a entrada crescente das mulheres no mercado de trabalho, com o controle de natalidade, com as transformações na esfera da sexualidade e com o aumento do divórcio. Essas mudanças vieram acompanhadas de transformações na família. Sexualidade, conjugalidade e parentalidade passam a configurar domínios autônomos de relações sociais específicas. Nesse universo foram realizadas entrevistas de história de vida com 24 mulheres das três gerações.

No universo de famílias de camadas populares a montagem da rede de informantes também se deu a partir da geração intermediária, ainda que a faixa etária em que se encontravam as mulheres, 40 a 55 anos, não coincidisse com a dos segmentos médios. Adotou-se como critério secundário na seleção das representantes dessa geração a pertença religiosa aos grupos católicos (10) e evangélicos (10) com o objetivo de circunscrever a amostra no universo cristão e verificar os impactos da rápida e intensa difusão das igrejas evangélicas nas famílias dos segmentos populares. Foram entrevistadas sessenta mulheres de vinte famílias residentes na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

A investigação dos segmentos médios não adotou o critério do vínculo religioso na escolha das entrevistadas, uma vez que existe um consenso de que o maior trânsito dos indivíduos entre as instituições e o contato com uma gama variada de ideologias acabam por relativizar as pertenças às esferas sociais como a religião e a família.14 Há, entretanto, que se considerar o caráter complexo e contraditório na tendência de enfraquecimento dos vínculos familiares e religiosos nesses segmentos. Em estudos anteriores sobre relações familiares em camadas médias, a família é analisada como um valor social a ser transmitido como um legado às gerações mais jovens,15 e quanto à religiosidade há estudos que mostram a expansão de movimentos carismáticos em setores urbanos, representando uma contratendência ao processo de laicização das camadas médias.16Outra perspectiva de análise examina a própria ideologia individualista predominante na sociedade moderna como "uma forma paradoxal de religiosidade".17 Assim, como se poderá constatar na segunda seção deste artigo, a dimensão religiosa apareceu nos depoimentos das mulheres de camadas médias, mesmo que de forma não institucionalizada, permitindo comparações interessantes com os grupos populares.

 

I. A família: lugar das mulheres e das gerações

Os estudos feministas indicam que a análise das biografias individuais das mulheres deve levar em conta não só o ciclo de vida das mesmas, mas também as características das organizações familiares das quais são membros.18 Ou seja, as transições nas biografias femininas são fundamentalmente marcadas pelas mudanças no ciclo familiar que redefinem as posições dos sujeitos que integram o grupo doméstico. Por sua vez, as transformações histórico-contextuais mais amplas põem os limites dentro dos quais as biografias femininas e as etapas das estruturas familiares se desenvolvem. Nessa perspectiva, a vida adulta das mulheres seria ainda hoje fortemente condicionada pela união matrimonial, pela maternidade e pelo papel de dona de casa.

Se tradicionalmente todo o processo de socialização das meninas esteve orientado para a incorporação desse complexo de papéis sociais - esposa, mãe, dona de casa -, as igrejas encontram-se entre as instituições que historicamente mais contribuíram para a produção e reprodução da identidade de gênero que associa o feminino à domesticidade e à maternidade. Ainda que a importância das igrejas venha se reduzindo ao longo das décadas em decorrência da pluralização do mundo social ou do surgimento e fortalecimento de outras instituições culturais, ficará evidente nesse artigo que a capacidade de influência das comunidades confessionais sobre as mulheres varia também segundo os estratos sociais e se mostra muito mais efetiva nas camadas populares. Nesse sentido, é que se propõe analisar as mudanças intergeracionais nas percepções femininas sempre a partir da inserção das famílias na estrutura social.

Da mesma forma, pretende-se incorporar uma série de dados que indica a composição das famílias e o espaço feminino na reprodução social do grupo doméstico. Entende-se que o tamanho da prole, as uniões, as separações, os recasamentos, a viuvez, o grau de escolaridade, a participação ou não no orçamento doméstico, assim como o grau de parentesco e o número de pessoas com quem coabitam as mulheres, são dados fundamentais na explicação do processo de construção de identidade feminina em cada geração dos dois universos sociais.

Nas camadas populares, a idade média das entrevistadas na condição de avós é de 71 anos e mais da metade se declara negra. O nível de instrução é bem baixo, uma vez que seis são analfabetas e dentre as que conseguiram ingressar na escola apenas uma conseguiu concluir o ensino fundamental. Seguindo as tendências demográficas, a maioria é viúva, cinco são as casadas e apenas duas se disseram separadas. E embora grande parte das mulheres dessa geração tenha entre dois e quatro filhos, seis possuem acima de dez filhos. A família mais numerosa é composta por dezesseis descendentes diretos, segue o padrão matrifocal e é também a que tem mais pessoas vivendo em uma mesma unidade doméstica: doze integrantes de três gerações diferentes. Cinco mulheres declaram que vivem sozinhas em suas casas, mas constatou-se em dois casos a partilha do lote ou de parte do sobrado com a rede de parentesco na ocasião das entrevistas, de modo que os arranjos familiares se aproximam do modelo de família extensa descrito na literatura especializada.

A maioria das mulheres desenvolveu atividades remuneradas em algum momento da vida, mas apenas um grupo muito restrito conta com os benefícios da aposentadoria atualmente. A dinâmica do ciclo familiar exige que quatro entrevistadas com mais de 65 anos continuem trabalhando fora para complementar o orçamento doméstico e ajudar os filhos no sustento de suas proles. Entre aquelas que deixaram o mercado de trabalho, mas que ainda dividem a responsabilidade de prover a "casa", a pensão dos companheiros falecidos foi indicada como uma importante fonte de recurso do grupo familiar. Contudo, poucas são as mulheres que atualmente não contribuem financeiramente para a sobrevivência da família. Isso explica o fato de as entrevistadas enfatizarem o desemprego e os problemas econômicos em suas avaliações sobre as dificuldades enfrentadas pelas famílias brasileiras nos dias de hoje.19 As outras dificuldades mais mencionadas foram, por ordem de importância: a falta de conversa ou diálogo, os problemas conjugais e a violência doméstica, que apareceu em um quarto dos relatos das idosas.

O caso mais ilustrativo da participação das idosas no sustento dos descendentes é o de Tina,20 mãe de sete filhos, separada e atualmente com 69 anos, que, além de ceder o lote em torno de sua pequena moradia para a construção dos barracos de seus descendentes diretos, trabalha como diarista para ajudar na criação dos netos e da bisneta. Gastando em média quatro horas no trânsito para chegar às casas onde passa roupa três vezes por semana, Tina diz que é "feliz" e que precisa do trabalho "até para ter um pouco de sossego" e não se "angustiar demais com os problemas dos filhos".21

Ainda que a participação dessas mulheres seja importante para a manutenção econômica do grupo doméstico, verificaram-se uma concepção bastante hierárquica do sistema de distribuição de autoridade na família e uma visão de que cabe aos homens a responsabilidade pelo sustento da casa, enquanto o cuidado dos filhos e os afazeres domésticos são deveres femininos. Nesse sentido, metade das entrevistadas afirmou que, se no passado a condição financeira do parceiro lhes tivesse permitido, teriam se dedicado exclusivamente às tarefas da casa. As demais declararam que se ressentem de não terem se profissionalizado e ou que teriam sido mais felizes se tivessem compatibilizado as atividades domésticas com um trabalho remunerado. A única entrevistada dessa geração a expressar insatisfação com a falta de colaboração do ex-parceiro nos afazeres domésticos foi Vanilda, uma faxineira separada de 79 anos, que fez a seguinte declaração:

O meu marido nunca me ajudou, ele sempre me explorou. Eu era igual uma escrava para ele. Tinha que lavar, fazer tudo e parar o que eu estava fazendo para colocar comida para ele. Eu tinha que ficar do lado dele até ele dizer "pode ir". Ele foi muito ruim comigo, eu era escrava dele...

Com discursos bem diferentes do apresentado acima, três idosas justificaram a violência conjugal, nos casos das mulheres "safadas" ou "das que dão motivos" aos seus companheiros ou maridos. O descuido das obrigações domésticas, "a cara feia", a traição e o "bater perna na rua" foram alguns dos motivos mencionados e servem para ilustrar a percepção assimétrica das potencialidades e dos papéis de gênero dessa configuração.

Nas camadas médias, todas as mulheres são brancas, apresentam uma idade média de 78 anos e têm entre dois e quatro filhos. No que diz respeito à escolaridade, apenas uma finalizou o ensino superior - Belas Artes -, três iniciaram cursos universitários, sendo duas somente após o casamento, porém não concluíram - Biblioteconomia, Museologia e Direito. Outras três concluíram cursos técnicos, duas em Contabilidade e uma o curso normal. Duas mulheres entrevistadas completaram o ensino fundamental. A experiência profissional também marca a distinção entre essas mulheres: três delas trabalharam antes do casamento e deixaram o trabalho para assumirem tarefas domésticas; duas entraram no mercado de trabalho após o casamento e em condições específicas, de viuvez e abandono pelo marido. Para estas, o trabalho colocou-se como uma imposição para responder às necessidades materiais com as quais deveriam arcar sozinhas. Para a maioria, entretanto, a inserção no mercado de trabalho não era uma expectativa socialmente colocada às mulheres, sendo o trabalho aceito apenas no sentido de complementação do orçamento doméstico - caso de duas mulheres que costuravam para a família e "para fora".

Encontramos, ao lado da visão que procura compreender essas situações vividas como próprias de sua geração, um tom crítico à dependência financeira e ao limite da autonomia feminina que tiveram de enfrentar. A capacidade de percepção desses constrangimentos é construída ao longo da vida em suas diferentes esferas, mas, sobretudo, nas relações com os filhos e netos. Acompanhado as mudanças sociais e de mentalidade em relação ao lugar da mulher na sociedade, a educação das filhas estava fortemente dirigida para a escolarização superior e para a profissionalização.

Diferentemente do que acontece no grupo feminino das camadas populares, as aposentadorias e pensões garantem uma vida mais ou menos tranquila para as entrevistadas dos segmentos médios, sobretudo para as casadas e viúvas de militares oficiais. Nesse sentido, verificou-se que algumas entrevistadas ainda hoje ajudam os filhos e netos e lhes possibilitam viagens e estudos. Para duas entrevistadas - Lindalva, 83 anos, e Antônia, 69 anos -, entretanto, são as filhas que lhes dão parcial ou totalmente o suporte financeiro. Essas transações, ajudas e cuidados em diferentes direções têm um caráter afetivo e de obrigação moral em função dos laços familiares, redefinindo para esse segmento social o sentido de necessidade material e afetiva.

As mulheres dessa geração moram, as duas casadas com seus maridos, as viúvas sozinhas, uma delas, Lindalva, com uma irmã, e Anália, 73 anos, com um dos netos de 27 anos a quem ajuda financeiramente. As filhas entrevistadas as visitam frequentemente para saber se "tudo está bem", mesmo que por um breve instante. Esses cuidados com a mãe e os pais velhos são muitas vezes divididos, sobretudo com as irmãs. As tarefas domésticas cotidianas são realizadas por empregadas domésticas e faxineiras diaristas. A presença das domésticas e das babás é, em alguns casos, fundamental para a explicação das relações familiares e dos vínculos afetivos entre as entrevistadas e essas figuras femininas. Há empregadas que são consideradas da família e passam de mãe para filha, e dessa forma algumas mulheres da segunda geração contam com experiências semelhantes às mães em relação à vida doméstica com a presença de empregadas que lhes possibilitam trabalhar fora quando têm filhos pequenos.

A separação não é comum nesse segmento etário, embora tenhamos três casos e em um deles a entrevistada se separou duas vezes. De qualquer forma, essas situações podem ser descritas como faz Bruna, 58 anos, ao comparar-se com a mãe: "Nós separamos, elas eram abandonadas". A separação era uma marca estigmatizante para a mulher de modo geral, algumas falam que não podiam se relacionar com mulheres separadas e Lindalva, que se separou duas vezes, relata situações constrangedoras de as pessoas atravessarem a rua para não falar com ela.

Na geração intermediária do segmento das camadas populares, a idade média é de 47 anos e seis meses. A maioria é casada ou vive em união estável, duas são separadas e duas se declaram solteiras. Mas o número de entrevistadas que já tiveram mais de uma relação conjugal é o dobro daquele encontrado na primeira geração. Marta, 39 anos, encontra-se na sua terceira relação conjugal, Margarida e Solange, que têm 43 e 48 anos, vivem com o segundo parceiro e Elza, 52 anos, separou-se duas vezes. As outras dezesseis entrevistadas desse segmento só tiveram um parceiro. Nesse segmento geracional foi identificada a única relação conjugal interracial da amostra, a de Teresa, uma mulher branca de 46 anos que teve três filhos com o parceiro que é negro.

Expressando uma tendência de melhora no nível educacional em relação à geração de suas mães, sete das informantes desse subconjunto concluíram o ensino médio, oito têm o ensino fundamental e as demais, embora tenham cursado parte desse ciclo da educação básica, tiveram de abandonar os estudos antes de integralizar o curso. Seis são donas de casa e uma está aposentada, mas a grande maioria encontra-se inserida no mercado de trabalho e, embora atuando num nicho de atividades desvalorizadas pela sociedade, afirmou que, mesmo se não precisasse complementar o orçamento doméstico, gostaria de continuar a conciliar o emprego com os afazeres domésticos. Isso já expressa uma descontinuidade em relação à geração de suas mães que valorizavam a permanência das mulheres no espaço doméstico.

O argumento mais mencionado pelas mulheres com a visão positiva da inserção feminina no mundo trabalho é o de ter uma independência financeira diante do marido ou demais parentes, de modo que, mais do que complementar o orçamento doméstico, as entrevistadas dessa geração querem ter autonomia para comprar roupas, sapatos, cosméticos para uso próprio ou de algum familiar sem ter de discutir esses gastos com os parceiros ou parentes. Essa valorização do poder de compra das mulheres não parece alterar, entretanto, a visão tradicional de que cabe aos homens o sustento da família. Como veremos mais adiante, só na terceira geração das mulheres das camadas populares identificamos um conjunto significativo de entrevistadas com uma percepção mais equânime dos papéis de gênero.

Outro contraste importante entre as duas gerações de mulheres refere-se ao tamanho da prole, com o número máximo de filhos caindo de dezesseis para quatro. E, mais, só foi identificado um registro com essa quantidade de descendentes diretos. Duas mulheres dessa configuração declararam ter tido apenas um filho, seis tiveram três e oito tiveram dois filhos. Contudo, não houve registro de entrevistadas vivendo sozinhas, uma vez que as viúvas e separadas moram com os/as filhos/as e outros parentes. Essa é uma questão importante, uma vez que o tamanho e a composição da família, juntamente com o estado civil e a idade dos descendentes, são indicadores da responsabilidade doméstica das mulheres e determinam o campo de possibilidades para a elaboração e a realização dos projetos educacionais e profissionais individuais. Não se pode esquecer que nos meios populares o trabalho doméstico é inevitável.22

Já nos segmentos médios, as mulheres dessa geração intermediária apresentam uma idade média de 50 anos e têm de um a três filhos. Assim como as dos grupos populares, elas viveram experiências de estudo, de trabalho e de relações conjugais bem distintas de suas mães. Embora as opções profissionais as coloquem majoritariamente no campo das profissões femininas, entrar para a universidade, trabalhar e ter uma carreira profissional faz parte de um projeto de vida e de construção de uma subjetividade pautada por ideais de autonomia e de independência econômica. A trajetória de vida é percebida como um processo de lutas e de enfrentamentos que começa na juventude com a contestação da educação dos pais, continua com os conflitos e separações conjugais, com a busca de uma satisfação profissional e uma constante preocupação financeira. Para essas mulheres, de uma maneira geral, a autonomia em suas decisões e opções é acompanhada da independência financeira. Trabalhar era um imperativo não só porque se torna um valor no projeto de autonomização, mas porque é, de fato, uma necessidade nesse segmento de mulheres. Há, entretanto, ao longo da vida, e até hoje, a busca por um equilíbrio entre a satisfação pessoal e a carreira profissional.

Apesar de o casamento ter sido o momento em que saem da casa dos pais e os filhos nascerem nos primeiros anos de vida conjugal, as separações marcam suas vidas em vários sentidos: afetivos, financeiros, sociais. Das sete entrevistadas, seis já se separaram alguma vez e duas estão casadas novamente. A comparação com o projeto de casamento das mães mostra que essa geração apresenta, diferentemente da geração mais velha, uma mescla de ideais de relações conjugais: ao mesmo tempo que teve a expectativa de um amor romântico em algum momento de suas trajetórias, vive hoje, destruído o modelo do amor-romântico, o projeto do modelo de amor-construção23 no qual cabe ao casal construir constantemente a relação a dois e o respeito à individualidade. Nesse sentido, a falta de diálogo, o "mutismo completo" durante anos foi apresentado como um dos motivos para a separação do primeiro marido. As separações vieram, também, marcar em suas vidas a dissociação entre sexualidade e casamento e, assim, garantir alguns pontos ao projeto de autonomia e de possibilidade aos fluxos entre os mundos sociais e de aumento relativo da importância dos amigos em suas redes sociais.

Essas mulheres acompanham um movimento de transformações de valores e de práticas presente nesses segmentos sociais urbanos que têm as mulheres como protagonistas importantes. Há um trânsito entre mundos sociais que é inaugurado por essa geração de mulheres em tais segmentos sociais: família, trabalho, amizade, sexualidade são domínios da vida que ganham importâncias relativas ao longo da trajetória de vida, trazendo, hoje, para as entrevistadas tensões constantes para ajustar as necessidades com os cuidados com os pais, o apoio financeiro dos filhos adultos e seus próprios projetos de vida no campo profissional, afetivo e sexual. Esse quadro geracional remete àquele estudado por Vaitsman24 quando discute as mudanças da família nuclear de camadas médias, apontando a flexibilização da configuração familiar em função de transformações sociais mais amplas que definem atitudes pós-modernas caracterizadas pela multiplicidade de interpretações da realidade e de práticas sociais.

Na terceira configuração geracional de camadas populares, a idade média é de 23 anos. A maioria é solteira, três são casadas e duas são separadas, mas uma delas declarou viver há dois anos com um novo companheiro. Mônica foi a que se casou mais cedo, 16 anos, e atualmente com 24 anos já tem dois filhos. Mas ela não é a única mãe dessa configuração; outras quatro jovens já entraram no ciclo reprodutivo, o que significa um quinto das entrevistadas dessa geração. Esse é um dado importante, uma vez que a maternidade, como já assinalado, tende a reduzir as possibilidades de qualificação e de inserção das mulheres na esfera pública. Andréa, uma jovem casada de 24 anos que tem uma filha de um ano e concilia os afazeres domésticos e o cuidado da criança com a venda de bijuterias em casa, afirma, por exemplo, que "se pudesse escolher preferiria sair para trabalhar fora. Se Deus quiser, assim que ela estiver maiorzinha eu vou voltar a trabalhar fora". Mônica, que parou de estudar no ensino médio e só conseguiu emprego de balconista numa loja depois de "muita batalha", também valoriza o vínculo com o mercado de trabalho, argumentando que "deveria ter uma lei para poder obrigar os maridos a ajudar na casa e no cuidado das crianças, porque eles só ajudam em último caso, quando vê que não tem outro jeito".

Das vinte jovens entrevistadas, oito se declararam estudantes, sete têm ocupações nos setores de serviços, duas no setor fabril e uma é professora do ensino fundamental. Duas estão desempregadas e uma terceira abandonou, pelo menos temporariamente, a escola por causa da maternidade. Embora a maioria tenha declarado ter o ensino médio completo, cinco estão cursando o ensino superior e uma já concluiu a universidade, confirmando a tendência de aumento nos anos de escolaridade de uma geração para outra das mulheres das camadas populares que integram a pesquisa. Os cursos identificados revelam, entretanto, a inserção dessas jovens em carreiras profissionais pouco valorizadas na sociedade e historicamente associadas ao gênero feminino: Serviço Social, Pedagogia e Enfermagem. Nesse sentido, a descontinuidade em relação à escolarização das gerações passadas não impede a permanência das assimetrias de gênero que circunscrevem as mulheres em áreas de atuação mais facilmente associadas ao cuidado do outro. Só para exemplificar, Clara, a jovem de 21 anos que está cursando Enfermagem, é filha de uma "esteticista" que trabalha como funcionária em uma clínica de beleza feminina e sua avó trabalha até hoje como empregada doméstica.

De qualquer maneira, o investimento na educação parece não ser um projeto só individual, mas sim do grupo familiar como um todo. De um modo geral, as mães demonstram preocupação com a educação formal e o desenvolvimento profissional das filhas, identificando em tais processos as oportunidades de as mesmas ascenderem socialmente e também conquistarem alguma independência financeira diante dos homens. Muitas vezes esse projeto implica o engajamento da jovem no mercado de trabalho, pois o grupo doméstico não tem como assegurar a continuidade de seus estudos. É o caso de Lia, 22 anos, que, para cursar a Escola de Serviço Social, precisa trabalhar como agente administrativo em hospital público, pois a aposentadoria de sua mãe e o salário de seu irmão no quartel são insuficientes para o sustento da família.

O aumento do nível de escolaridade e a crescente circulação das jovens nas diferentes esferas sociais favorecem mudanças nas percepções dos papéis de gênero, com as entrevistadas da terceira geração mostrando-se preocupadas em conseguir o respeito dos homens através da afirmação no mercado de trabalho e da participação no orçamento doméstico. Diva, 22 anos, que concluiu o segundo grau e trabalha como operadora num supermercado, declarou, por exemplo, que o principal problema da família hoje é o machismo, pois "ainda tem muito homem que não aceita que a mulher trabalhe. Eles acham que a mulher tem que ficar em casa cuidando dos filhos".

Para além dessa isonomia de responsabilidades e direitos em relação aos homens, algumas jovens mencionaram a satisfação pessoal e o prazer de desenvolver uma atividade ocupacional como justificativa para a permanência no mercado de trabalho durante a fase reprodutiva do núcleo familiar. É o caso de Mônica, que, embora ache difícil e cansativo conciliar as tarefas domésticas com o trabalho de balconista, não admite a possibilidade de se dedicar integralmente à família, pois, além da carteira assinada que lhe garante uma pequena independência do marido, seu emprego lhe dá a satisfação de "conhecer e conversar com as pessoas". Dessa forma, transitar entre mundos sociais distintos, além de um valor, é uma possibilidade de abertura para outras interpretações da realidade.

Resumidamente, assim como as potencialidades femininas não estão circunscritas no universo doméstico, as fontes de autorrealização das jovens também não se restringem mais às atividades de dona de casa, esposa e mãe. Ainda que a margem de possibilidades dessas jovens seja bem menor do que a das camadas médias, percebe-se que alguns valores do ideário individualista já se fazem presentes nos segmentos femininos de camadas populares.

As jovens dos setores médios têm uma idade média 29 anos e, assim como as entrevistadas dos grupos populares, apresentam características mais próximas às das mulheres das gerações intermediárias - suas mães - do que estas últimas em relação às idosas. Pode-se dizer que nas camadas médias há para aquelas duas gerações - intermediária e jovem - um mesmo tensionamento entre as representações de si baseadas em ideias de escolha, opção, prazer, autonomia e liberdade com matiz psicologizante e as que evocam um indivíduo relacional em que a categoria de obrigação e família como um valor se destaca. Podemos afirmar que as duas gerações têm muito claramente a ideia de si como indivíduos autônomos e, enquanto tal, explicam seus movimentos de aproximação e afastamento ao longo da vida e hoje em relação a ideias políticas, religião, redes sociais e família.

A mesma tônica individualista marca a vida profissional dessas duas gerações e, nesse aspecto, têm diferentes formas de enfrentamento. A geração intermediária fez a escolha da carreira profissional ao entrar para a universidade. As mulheres que estão aposentadas seguiram a escolha inicial até a aposentadoria, e as que ainda estão trabalhando dividem-se entre as que tiveram uma única carreira profissional e as que percorreram outros caminhos profissionais, mas para os quais se sentem plenamente preparadas. A inserção na vida profissional iniciou-se cedo, algumas ainda como estagiárias durante o curso de graduação. Apenas uma delas inicia o curso superior depois do casamento e do nascimento dos filhos, mas entra para o mercado de trabalho como docente logo que conclui o curso normal de formação de professores.

A vida profissional das jovens revela um dilema para os princípios da geração intermediária que estão pautados nas ideias de escolha individual, de cuidado de si, do prazer. São esses os princípios que marcaram as bases da educação das filhas. Esse dilema aparece na busca incessante de uma carreira que satisfaça projetos individuais que pretendem associar princípios de prazer com uma garantia de independência financeira. Essa combinação é pouco encontrada pelas jovens. Uma única jovem mulher, a mais velha do grupo, casada pela segunda vez e com dois filhos, um do primeiro casamento, tem independência financeira, com uma inserção mais segura no mercado de trabalho. Para as jovens, entrar no mercado de trabalho e garantir a independência financeira é algo que vem sendo adiado. A possibilidade de contar com as mães e/ou com os pais é um dado desse universo de pesquisa. Essa realidade da dependência financeira é também definidora da configuração das residências.25

Uma das questões que aparecem nas entrevistas das mulheres da geração intermediária é a dinâmica da unidade residencial. Há uma flexibilidade presente nas unidades residenciais que não se refere ao ciclo de desenvolvimento do grupo doméstico - o nascimento dos filhos e sua posterior saída para a constituição de novas unidades residenciais. Essa flexibilidade está relacionada a eventos que fazem parte das experiências de vida dessa geração de mulheres: separações conjugais, novos casamentos com a entrada do novo companheiro na residência, saída dos filhos, jovens e jovens adultos para estudar ou tentar a vida profissional fora do país ou da cidade durante um ano ou mais e sua volta muitas vezes não previstas ou desejadas, a retirada, mais do que a saída de filhas, após conflitos insolúveis entre mãe e filha.

A dinâmica da unidade residencial passa a ser um ponto distintivo da geração intermediária diante das próprias mães e filhas. Em relação às mães, a primeira geração, as mulheres mostram uma reversibilidade constante na organização doméstica: ora estão com as filhas, ora não. Os motivos para a saída e entrada dos filhos, para a primeira geração, não eram os mesmos vividos pelos jovens de hoje. Saía-se de casa para casar e voltava-se, às vezes, após a separação e por um tempo. Ou ainda, como para uma das entrevistadas, para o apoio familiar depois do nascimento de um filho doente. Além disso, a saída, ou a primeira saída, ocorria mais cedo, o que aponta para um casamento também mais cedo. Nesse caso, a comparação é com as próprias filhas que casarão mais tarde ou não casam e que saem de casa para voltar em algum momento em que o projeto de vida fracasse.

Quando as jovens saem de casa das mães após conflitos continuados com as mesmas, algumas vezes ocasionados pelo novo casamento, coloca-se uma outra questão: as jovens acabam sendo acolhidas na casa das avós ou dos pais. Estes já constituíram outras famílias, indo a jovem coabitar com o pai, a madrasta e seus filhos e seus meio-irmãos.

Sob o ponto de vista das jovens, elas circulam entre residências em um circuito familiar. A família se expande e se ramifica em várias residências. Há assim uma negociação constante nessas entradas e saídas da qual participam vários elementos das relações familiares das jovens. O discurso mais psicologizado explicativo dessa tendência em circular entre residências não deixa de ter também uma razão prática: com esse movimento haverá menos atritos e mais apoios.26

A reorganização das esferas de sociabilidade e a presença mais constante da grande família no cotidiano vão ser vividas pela geração intermediária e pela mais jovem dentro da combinação tensa entre valores que enfatizam uma subjetividade psicologizada e os referenciais de valores relacionais que definem as relações na família moderna.27

 

II. Mobilidade religiosa nas camadas populares e o fenômeno da bricolage nos segmentos médios

A análise das diferentes configurações que compõem o universo de pesquisa nas camadas populares indica mudanças nas afiliações religiosas na maioria das famílias pesquisadas com um crescente trânsito em direção às denominações evangélicas. Essa circulação de mulheres por grupos religiosos pode ser verificada nas três gerações, embora se observe uma tendência maior de que sejam as entrevistadas da segunda e da terceira gerações as que mais transitem pelas igrejas evangélicas.

No que se refere à socialização religiosa, a maior parcela das entrevistadas tinha pais católicos. Fora desse segmento religioso, identificou-se uma filha de espíritas, outra, cuja mãe era ligada à Assembleia de Deus, e uma terceira que associou o vínculo paterno com a maçonaria como marcante para a sua formação religiosa. Entretanto, verificou-se uma migração considerável nessa configuração, uma vez que apenas a metade permaneceu na religião dos pais: nove informantes se dizem evangélicas e uma declarou que, embora seus pais fossem católicos, tornou-se espírita na vida adulta e, posteriormente, participou de um grupo batista por alguns anos, denominação em que chegou a ser batizada. Esse parece ter sido um vínculo temporário, uma vez que Tina alega falta de tempo para ir aos cultos evangélicos e por isso prefere se apresentar como espírita.

É importante destacar que, seguindo tendências identificadas em outras pesquisas, a maioria das entrevistadas que trocou de identidade religiosa o fez nas últimas duas décadas,28 como foi o caso de Irene, que, depois de viúva, foi para a Igreja Universal, denominação que frequenta há quinze anos. Mãe de um pastor e avó de um obreiro dessa igreja, essa entrevistada declarou que vai ao templo praticamente todo dia e que, quando pode, vai de manhã, de tarde e de noite. Entretanto, nem todos os seus dezesseis filhos são filiados à sua denominação. Recentemente, alguns migraram para a Assembleia de Deus.

Deve-se registrar ainda que apenas uma entrevistada dessa geração declarou estar completamente afastada de uma denominação religiosa, no seu caso a católica, porque vive um processo de depressão e não tem "ânimo nem para ir à igreja". De qualquer maneira, a relação das católicas com a rotina da comunidade religiosa local revelou-se mais débil do que a das evangélicas e só foi identificada uma idosa do primeiro grupo que, além de frequentar as missas, atua nas atividades contínuas da sua paróquia: Eleonor, 72 anos, que, visando à arrecadação de dinheiro para a Igreja, faz guloseimas e as vende na cantina do templo.

Como definimos a priori que a construção da rede de informantes partiria da identificação e entrevista de dez católicas e dez evangélicas que não só tivessem filhas acima de 17 anos, mas que também suas mães fossem vivas e morassem no Estado, as variáveis que nos interessam aqui são três: a religião das mães, a denominação a que pertencem na atualidade e o tempo da conversão religiosa. Das mulheres dessa geração intermediária, dez declararam que suas mães eram católicas, oito afirmaram que eram evangélicas e uma apontou o espiritismo como a religião materna. A maioria migrou para a denominação atual na última década, percebendo, contudo, que o trânsito se dá do universo católico e espírita em direção ao leque das comunidades evangélicas.

Ivone, uma entrevistada de 52 anos, que era espírita antes de aderir à Igreja Assembleia de Deus, diz que no seu caso a carência afetiva foi o que a motivou a mudar de grupo confessional. Segundo suas palavras,

Foi a separação do meu esposo, né? Eu ficava em casa meio depressiva e aí preferi ir para a Igreja. Tinha os testemunhos de outras pessoas que estavam na mesma situação, que tinha que ir para a Igreja e que Jesus ia te abençoar... Aí eu fui, fiquei na Igreja esse tempo todo [oito anos] e criei meus filhos para a Igreja também, entendeu? E levei o barco para frente...

A relação entre a conversão feminina ao pentecostalismo e os problemas conjugais já foi analisada por uma das autoras29 e de forma resumida poderíamos dizer que expressa um esforço mais amplo, embora difuso, das mulheres para reestruturar as relações familiares e as suas próprias vidas. No caso dessa entrevistada, a migração para o grupo evangélico ajudou não só no resgate da auto-estima e no desenvolvimento de uma rede de sociabilidade, como também na implementação do projeto de estudo de um dos três filhos: Lilia, que conseguiu entrar na universidade. Ou seja, a adesão da mãe e dos filhos a um grupo com forte controle sobre a conduta dos jovens acabou fazendo com que Lilia adiasse os envolvimentos afetivos, se engajasse bem cedo no mercado de trabalho e se concentrasse nos estudos, como já foi salientado algumas páginas atrás. Entretanto, é preciso cautela, pois as pesquisas sobre o crescimento atual do pentecostalismo têm demonstrado que esse fenômeno expressa uma tendência de mudança na instituição familiar com o fortalecimento do modelo plurirreligioso,30 de modo que se faz necessário verificar com cuidado a pertença religiosa da terceira geração.

Metade das entrevistadas cujas mães eram evangélicas declarou participar da mesma tradição religiosa, duas informaram que estão "afastadas" de suas igrejas no momento atual, uma se declarou sem religião e duas se identificaram como católicas. O interessante é que, nos dois casos em que as filhas de evangélicas se declararam católicas, o trânsito materno ocorreu na última década, ou seja, quando as entrevistadas já se encontravam numa fase em que existe maior resistência à participação em grupos religiosos - a adolescência e início da juventude - e que, portanto, não existe muita motivação para os custos de uma mudança de grupo religioso.

Entre as socializadas por mães católicas, verificou-se a permanência de seis jovens nesse universo, a migração de três para o campo evangélico e uma terceira para as religiões espíritas. Quando se compara a mobilidade religiosa desse subconjunto com aquela identificada entre as jovens socializadas por mães evangélicas, percebe-se que não existem diferenças significativas na capacidade das famílias das duas tradições religiosas em reproduzir os seus valores e crenças, ainda que o número das católicas que se dizem "afastadas" dos templos seja ligeiramente superior ao das evangélicas.

O exame da frequência aos cultos indica que a maioria das entrevistadas das três gerações participa regularmente das atividades religiosas, variando a presença nos templos entre uma e sete vezes por semana. Entretanto, enquanto o maior número de registros da resposta "raramente" ocorreu entre as católicas, a frequência nas celebrações religiosas mostrou-se maior entre as evangélicas. Com seis visitas semanais aos templos foram identificadas fiéis da Assembleia de Deus e da Universal, chamando a atenção o fato de pelo menos uma fiel da primeira denominação pertencer à terceira geração, onde a participação tende a ser menos frequente ou uma vez a cada oito dias.

De modo geral, as mulheres recorrem à religião nos momentos de sofrimento ou "aflição", palavra empregada para caracterizar as adversidades enfrentadas no dia a dia pelas famílias e pelas próprias entrevistadas. E sem dúvida alguma os problemas que mais afligem as famílias brasileiras hoje são, segundo essas mulheres, os de ordem econômica ou financeira: desemprego, pobreza e fome foram os mais mencionados pelas entrevistadas. Maura, 63 anos e fiel da Assembleia de Deus, afirma que recorre à religião sempre:

Em toda preocupação da minha vida, em todo desespero, em tudo eu só procuro a Deus. Se eu não correr aos pés dele, clamar a ele, é como diz a história. Vocês não entendem porque vocês não são evangélicos. Quando tem um causo muito difícil, é só jejum e oração. É como diz na Bíblia: é jejum e joelho no chão. É você ajoelhar, clamar a Deus com fé e entregar a ele aquele problema, aquele causo que tá acontecendo com você. Você entrega na mão de Deus pra Deus reagir. Porque só ele pode resolver aquilo por nós; nós não somos nada. Agora, se a gente confia em Deus...

Nesse sentido, a religião é vista como uma dimensão muito importante na vida familiar, reorientando condutas e reduzindo os embates entre parceiros e as distintas gerações. Segundo Lia, de 49 anos, a sua ida para a Igreja Evangélica foi "superimportante" porque "parei de beber, parei de fumar, parei de falar palavrão. Mudei com as pessoas e tudo isso para mim foi ótimo, foi ótimo".

Nas camadas médias todas as mulheres da geração intermediária tiveram uma educação religiosa católica como suas mães. A maioria das entrevistadas da primeira e da segunda geração estudou em escolas católicas tradicionais do Rio de Janeiro dirigidas por irmandades de freiras e que só permitiam a entrada de meninas. Para as mulheres mais velhas, a infância e a adolescência são compreendidas como um período de educação rígida e sem escolhas possíveis, salvo para uma entrevistada que, comparando-se às pessoas de sua geração, observa que o pai, profissional liberal, e a mãe, dona de casa, teriam tido ideias mais liberais na educação dos filhos, não relacionando a educação católica a maior controle. Esta mesma entrevistada, com a morte de um dos filhos, faz um trânsito religioso do catolicismo para o espiritismo kardecista, levando com ela uma das filhas. O catolicismo é efetivamente praticado por três entrevistadas que comparecem às missas dominicais, às festas religiosas, participam de um círculo bíblico, e uma delas é acompanhada pelo marido, igualmente um católico praticante.

A socialização religiosa da geração intermediária foi revista ao longo da vida, sobretudo nos anos 70, quando o conjunto de valores referidos à família, casamento, religião foi colocado em questão, e para parte das entrevistadas esse movimento é acompanhado por adesões a ideais políticos de esquerda nas lutas contra a ditadura. A irreligiosidade que parece predominar naquele momento de vida é negociada com a família de origem em alguns momentos. O casamento e o batizado dos filhos ou de parte deles (uma das mães não batiza um dos três filhos) na Igreja Católica revelam mais uma busca por conciliações com uma tradição familiar do que uma opção propriamente religiosa. Uma entrevistada fala de suas trajetórias religiosas:

Dos meus filhos, tenho um que não é batizado, que é esse que nasceu numa fase hippie... Eu fiquei muito tempo afastada da religião e hoje me considero uma pessoa religiosa, mas eu não comungo e não me confesso faz sessenta anos!!!

Mais adiante a entrevistada, falando da filha, apresenta de forma exacerbada o que Duarte31 trata como a gestão da vida privada e do subjetivismo presente nas atitudes religiosas: "Eu acho que cada religião atende a um determinado tipo de pessoa, no fundo é um suporte. E eu acho que tem essas autonomias".

Vemos assim uma negociação constante relativamente à religião e, sem dúvida, a família, enquanto um valor, está englobando as revisões individuais das adesões religiosas. Não casar de véu e vestido branco comprido foi uma das formas com que uma das mulheres diz ter explicitado que estava realizando a cerimônia religiosa apenas para não confrontar diretamente a família e, ao mesmo tempo, poder afirmar sua forma de negociar a situação.

As jovens, por sua vez, foram já plenamente socializadas em um ambiente fluido de uma religiosidade não amparada institucionalmente, embora tenham sido batizadas na Igreja Católica. Algumas, hoje, criticam a ausência de uma orientação mais francamente religiosa em sua educação e outras reafirmam as mesmas atitudes das mães. Combinam, como estas, uma adesão a princípios católicos ou cristãos mais genéricos, uma busca de uma religiosidade em momentos de aflição e uma valorização das opções individuais nesse campo.

Nesse sentido, o recurso à religião parece, à primeira vista, não diferir da busca das religiões em momentos de sofrimento, como foi encontrado no universo de mulheres de camadas populares. Mas neste caso, o das mulheres de camadas médias, a religiosidade, mais do que a religião institucionalizada, está combinada com outros recursos característicos da configuração de valores individualistas que podem ser acionados nesses momentos e que significam uma busca de sentido para si mesmas e de autoconhecimento realizado em processos reflexivos constantes, definindo uma religiosidade laica, como já tratamos anteriormente, seguindo Duarte.32 Encontramos, assim: as terapias de linhas psicanalíticas, os cuidados com o corpo, a intensidade de procura da completude em relações de amizade, namoro e conjugalidade, e ainda as viagens que, além de serem momentos de lazer, são vistas como oportunidades para novas experiências de vida e de autorrealização tanto no sentido de aquisição de conhecimento cultural como de aprofundamento de uma interioridade.

 

Considerações finais

Este artigo compara as experiências de vida e as percepções de mulheres de camadas sociais distintas do estado do Rio de Janeiro. Os dados apresentados ilustram bem a tensão entre valores individualistas e os de ordem relacional, tanto nas camadas médias como nas camadas populares da sociedade fluminense. Sugerem também que os valores do individualismo encontrados nos segmentos populares não se confundem com aqueles identificados nas camadas médias e mais francamente voltados para uma subjetividade psicologizada, mas configuram um entendimento de si baseado nas possibilidades atuais referidas aos campos profissional e religioso. As condições e situações de classe vão determinar, em parte, as possibilidades de acessos a bens materiais e simbólicos e a proeminência diferenciada de visões de mundo mais ou menos individualistas ou relacionais. As próprias condições de geração e de gênero são construídas em campos sociais específicos que marcam diferentemente as relações das mulheres de gerações e de camadas sociais distintas com a família, com o trabalho e com a religião.

Não se trata de eliminar de nossas considerações as margens de negociação presentes para as mulheres entrevistadas nos dois segmentos de classe. Muito pelo contrário, a preocupação em trabalhar comparativamente classe, gênero e geração foi exatamente para enfatizar as possibilidades de mudanças do lugar da mulher e a complexidade de nossa sociedade que não nos permite auferir um valor positivo ou negativo às mudanças.

Nesse sentido, vemos que as aquisições em termos de autonomia e independência financeira das mulheres das camadas médias da geração intermediária corresponderam a um momento de suas trajetórias de confluência de valores individualistas e possibilidades de acesso à escolarização superior e à profissionalização. Ou seja, um momento de abertura para o questionamento das assimetrias de gênero e para as transformações na família. Embora o legado transmitido às filhas seja no sentido de valorização do projeto de autonomização e independência, ele não tem se efetuado na prática em função da dependência financeira em que se encontram. As jovens de camadas médias adiam a passagem à vida adulta plena e encontram, também, condições sociais não muito favoráveis à realização do projeto de vida independente.

Observou-se, por outro lado, uma tendência de valorização crescente da profissionalização feminina entre as três gerações estudadas nos segmentos populares, e essa tendência parece mais relacionada ao aumento do nível de escolaridade das mulheres jovens em relação às suas mães do que à religião propriamente dita. Não se trata de descartar a influência da dimensão religiosa, mas de colocá-la como uma variável que pode intervir indiretamente estimulando os sujeitos sociais para o estudo e para o trabalho. É o caso dos grupos pentecostais que vêm pregando a prosperidade individual nesses setores sociais e fornecendo uma base ideológica para as mulheres que parecem cada vez mais interessadas em estender suas áreas de atuação para além do universo familiar.

De qualquer maneira, vale destacar que a religião se faz muito mais presente nos relatos femininos das camadas populares do que nos depoimentos dos segmentos médios. Enquanto nos primeiros a pertença religiosa parece ainda jogar um papel importante na estruturação das experiências, marcando as formas de sociabilidade e as estratégias femininas de ascensão social, no caso das mulheres dos estratos médios o vínculo com as instituições mostram-se muito débeis, com as entrevistadas revelando um tipo de religiosidade bastante difuso. Dito de outra maneira, as formas de religiosidade são englobadas por um ethos privado mais abrangente, com a possibilidade ou não de adesões aos credos e aos dogmas religiosos, em especial para as gerações intermediárias e a das jovens.

 

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[Recebido em fevereiro de 2008 e aceito para publicação em setembro de 2008]

 

 

1 As autoras agradecem ao CNPq e à Faperj pelo financiamento e pelas bolsas concedidos aos projetos "Mudança social, geração e classe: um estudo comparativo de mulheres", "Religião, política e identidade feminina: a transmissão intergeracional de valores nas camadas populares do Rio de Janeiro" e "Relações intergeracionais e de gênero em famílias de camadas médias urbanas".
2 Goran THERBORN, 2006; Elizabeth JELIN, 1996 e 1998; François de SINGLY, 2007, entre outros.
3 Ver Clara ARAÚJO e Celi SCALON, 2005; e Gustavo VENTURI, Marisol RECAMÁN e Suely OLIVEIRA, 2004.
4 Ver VENTURI, RECAMÁN e OLIVEIRA, 2004.
5 Destacamos s trabalhos de Luiz Fernando DUARTE, 1987; Maria Luiza HEILBORN, 1984; e Cynthia SARTI, 1996.
6 Ver DUARTE, 2005; Maria Luiza HEILBORN e Patrícia GOUVEIA, 1999; Ondina LEAL e Adriane BOFF, 1996; e Tania SALEM, 2006.
7 Conforme DUARTE, 2005.
8 Gilberto VELHO, 2004.
9 DUARTE, 2005.
10 SALEM, 2006, p. 5.
11 SALEM, 2006, p. 15.
12 VELHO, 2004, p. 50.
13 Claudine ATTIAS-DONFUT, 2004.
14 Ver Maria das Dores MACHADO, 1996 e 2004; Silvia Regina FERNANDES, 2006; e Jeni VAITSMAN, 1994, entre outros.
15 Myriam Lins de BARROS, 1987.
16 MACHADO, 1996.
17 DUARTE, 2005, p. 140.
18 Elizabeth JELIN e Maria Del Carmen FEIJOÓ, 1980.
19 Ana Maria Goldani analisa a feminização da velhice no Brasil e os contratos intergeracionais e de gênero e enfatiza a importância de se reconhecer o "aporte fundamental das mulheres para o orçamento da família hoje, e o que representam os custos das tarefas domésticas dessas mulheres no cuidado dos mem-bros da família em geral e dos idosos e crianças em particular" (GOLDANI, 1999, p. 110).
20 Todos os nomes são fictícios.
21 Como sugere a literatura, o entrecruzamento dos diferentes ciclos de vida dos núcleos familiares que compartilham do quintal produz atritos difíceis de serem administrados. Ver Simoni GUEDES, 1998.
22 JELIN e FEIJOÓ, 1980.
23 TORRES, 2000.
24 VAITSMAN, 1994.
25 Situação semelhante é trabalhada por Elaine BRANDÃO, 2004, em texto baseado em pesquisa sobre gravidez na adolescência em camadas médias do Rio de Janeiro. A autora trata da conquista da autonomia dos jovens pais e mães e de sua permanência na condição de dependentes em relação aos pais.
26 A utilização do termo "circulação" é uma referência explícita à discussão de Claudia FONSECA, 1995, sobre circulação de crianças.
27 SINGLY, 2007.
28 Ver FERNANDES, 2006, p.13-14 e p. 62.
29 MACHADO, 1996 e 2005.
30 Márcia Teresa COUTO, 2002.
31 DUARTE, 2005.
32 DUARTE, 2005.