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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.17 no.3 Florianópolis Sept./Dec. 2009

https://doi.org/10.1590/S0104-026X2009000300003 

ARTIGOS

 

Masculinidades transgressivas em práticas de barebacking

 

Transgressive Masculinities in Barebacking Practices

 

 

Luís Augusto Vasconcelos da Silva

Universidade Federal do Vale do São Francisco

 

 


RESUMO

Este artigo discute a dinâmica homoerótica e os signos de masculinidade que caracterizam ou marcam os encontros de barebacking. Essa discussão é decorrente de uma etnografia on-line, no contexto brasileiro, entre os anos de 2004 a 2007, considerando as novas possibilidades da internet, de trocas de experiências e encontros eróticos, como é o caso das comunidades do Orkut. Distintas modalidades de barebacking (e barebackers) parecem coexistir atualmente, demonstrando que múltiplos aspectos e situações estão implicados no sexo desprotegido. Uma dessas modalidades diz respeito à sua forma mais extensiva e de maior contato, ou seja, às formas mais extremas ou transgressivas em busca de prazer. Entretanto, todos os praticantes parecem ter em comum um discurso sobre o prazer mais livre e intenso no sexo sem camisinha, ainda que, para alguns, esse prazer esteja estreitamente vinculado a uma experiência mais excessiva ou transgressiva, inclusive por desafiar o vírus, a doença e os limites da própria vida.

Palavras-chave: barebacking; risco; prazer; homoerotismo; masculinidades.


ABSTRACT

This article discusses the homoerotic dynamics and the signs of masculinity that characterize barebacking dates. This discussion is originated from on-line ethnography in the Brazilian context, from 2004 to 2007, considering the experiences and erotic dates exchange the internet makes possible, as it is the case of Orkut communities. Different modalities of barebacking (and barebackers) seem to coexist now, demonstrating that multiple aspects and situations are implicated during unprotected sex. One of these modalities is a form of more extensive and larger contact, in other words, the most extreme or transgressive forms in search of pleasure. However, all the barebackers interviewed seemed to have in common the same discourse about having more free and intense pleasure during unprotected sex, even though, for some of them, this pleasure was intimately linked to a more excessive and transgressive experience, as it challenges the virus, the disease, and the limits of their own life.

Key Words: Barebacking; Risk; Pleasure; Homoerotism; Masculinities.


 

 

Primeiras considerações: o lugar do barebacking

Muitos dos desafios contemporâneos parecem apostar nos ganhos sensoriais dos encontros perigosos e do atravessamento das fronteiras que estabelecem uma determinada organização ou ordem social. Essa fronteira simbólica que demarca comportamentos e organiza os prazeres produz ao mesmo tempo medo e fascinação, mostrando-se, portanto, de forma ambivalente, tênue e instável, na medida em que o prazer e o risco entram em contato e, muitas vezes, se misturam. Existem, entretanto, diferentes aspectos ou dimensões culturais mais amplas, do nosso tempo, que devem ser considerados quando analisamos esses novos contextos de fascinação pelo desafio ou apostas nos ganhos sensoriais dos encontros perigosos. Como enfatiza Williams,1 ser excessivo/transgressivo implica romper ou atravessar fronteiras postas pela cultura e história. Nessa perspectiva, a transgressão é mobilizada pelo que é definido, percebido ou sentido como limite.

Essa relação entre limite (perigo) e transgressão parece ser fundamental para compreender as novas práticas e sentidos do risco no contexto atual da epidemia de HIV/ AIDS. É o caso, por exemplo, do barebacking, geralmente definido como o engajamento consciente e deliberado em práticas de sexo anal desprotegido, conhecendo-se os riscos envolvidos.2 O termo "barebacking", que significa, literalmente, cavalgar ou montar sem cela, passou a ser usado no contexto da comunidade gay norte-americana, em meados da década de 1990, de forma analógica para designar o sexo sem preservativo.3 Para alguns autores, representa uma estratégia de resistência a um discurso normativo da saúde em relação ao sexo seguro.4 Assim, o engajamento em comportamentos de risco (não saudáveis) passa a ser problematizado como uma forma simbólica de independência psicológica e resistência, uma forma de rebelião e transgressão dos valores sociais dominantes.5

Atualmente, a prática do barebacking parece extrapolar as nuances de sua versão mais popular conhecida como bug chasing, quando um homem HIV negativo procura deliberadamente um homem HIV positivo para ser infectado.6 Essa forma de interação não se apresenta de modo padronizado, já que muitos barebackers aparecem como indiferentes ao status sorológico de seus possíveis parceiros7 ou buscam parceiros soroconcordantes.8 Por conseguinte, diferentes aspectos parecem estar envolvidos no barebacking para justificar ou motivar a emergência dessa prática. É o caso, por exemplo, quando os barebackers fazem referência aos benefícios e prazeres obtidos no sexo desprotegido, principalmente no que concerne à maior estimulação física e ao sentimento de estar emocionalmente mais próximo ou conectado com o parceiro.9

Vale ressaltar que inúmeras experiências desafiam discursos e padrões de comportamentos referentes ao sexo seguro. Essas experiências sugerem novas perspectivas de investigação, na medida em que 'driblam' ou mesmo contradizem as estratégias de prevenção vigentes. Nas palavras de Castiel, "multiplicam-se situações em que viceja o 'semsentido' ou, quando muito, perspectivas de significados frágeis e transitórios".10 As múltiplas situações vividas por sujeitos de cultura põem em jogo alguns dos conceitos utilizados nas práticas biomédicas e políticas de saúde, como as noções de cuidado, proteção/segurança, perigo/risco. Os encontros marcados pela internet, incluindo a 'apologia' ao não uso do preservativo em sites diversos, a interação sexual em locais públicos com a iminência do flagrante, o surgimento dos dark rooms,11 são algumas dessas diversas situações.

Faz-se salutar, portanto, compreender os novos discursos e sentidos que emergem sobre o risco, por exemplo, como risco-aventura, uma imponderabilidade que marca as experiências cotidianas e sua gestão no espaço privado,12 bem como discutir as práticas que os sustentam e parecem mobilizar formas plurais de resistência, quer sejam de forma "espontânea", "selvagem" ou "planejada".13 Essa concepção positiva do risco refere-se a algumas iniciativas que se mostram ousadas diante de um futuro incerto ou problemático.14

Nessa direção, busco apresentar alguns tópicos ou dimensões analíticas do barebacking, mais precisamente em torno da dinâmica homoerótica e dos signos de masculinidade que marcam os encontros bare. Essa discussão é decorrente de uma etnografia on-line sobre a relação entre risco e prazer nas práticas de barebacking, no contexto brasileiro, entre os anos de 2004 e 2007,15 considerando as novas possibilidades da internet, de trocas de experiências e encontros eróticos.

 

Algumas considerações metodológicas

Em 2006, após uma pesquisa de reconhecimento do campo, no Orkut,16 utilizando suas ferramentas de busca, encontrei algumas comunidades que discutiam as práticas do barebacking, bem como os aspectos positivos em relação ao não uso da camisinha. É importante esclarecer que a maioria dessas comunidades girava apenas em torno do sexo sem camisinha ou da preferência por gozar dentro, muitas vezes destacando os aspectos negativos do preservativo. Na maioria delas, portanto, não havia nenhuma referência direta, na sua descrição, ao termo "barebacking". Para minha surpresa, cheguei a encontrar no Orkut algo em torno de quarenta comunidades mais genéricas que valorizavam positivamente o sexo sem camisinha. Em contrapartida, foram identificadas, registradas na minha página pessoal e acompanhadas sete comunidades diretamente vinculadas ao tema do barebacking, uma delas posicionando-se contra o mesmo.17

No decorrer da minha trajetória de pesquisa on-line, também acompanhei um grupo de discussão sobre o barebacking no Yahoo!Grupos, bem como fóruns oriundos de um site de pesquisa do ISC/UFBA para homens que fazem sexo com homens (HSH), denominado de Projeto Convida.18 A partir dessa minha inserção nas comunidades e grupos de discussão on-line, houve também a solicitação (e participação) de barebackers, usuários do Orkut, para uma entrevista aberta on-line, utilizando o recurso do MSN Messenger existente para a conversa em tempo real.

Entre os usuários da internet que me cadastraram no MSN, estabeleceram contato e conversaram comigo, busquei delimitar a pesquisa em torno de trinta homens,19 de diferentes idades e regiões do país. Desses contatos, 23 disseram praticar barebacking, incluindo aqueles que fizeram restrições ao conceito, considerando algumas divergências entre o que conheciam do barebacking e o que eles queriam com a prática. Em relação aos demais, destaca-se: um dos contatos frisou que faz sexo sem camisinha de vez em quando, mas não sabia se isso o tornava realmente um barebacker; outros dois disseram não ser praticantes do barebacking, mas já terem feito ou esporadicamente faziam sexo sem camisinha; em contrapartida, quatro deles apenas se identificaram como curiosos ou terem vontade de praticar barebacking.

Para organizar melhor a distribuição dos fragmentos e leitura dos textos produzidos, tentei adaptá-los a um formato de escrita (narrativa) mais híbrido, trazendo, sempre que possível, os estilos de linguagem dos meus interlocutores e da mídia em que foram gerados. Alguns dos fragmentos de discurso on-line, como continuação de uma resposta, foram postos no mesmo parágrafo, com o objetivo de tornar a leitura mais fluida. É possível que alguns dos recursos ou signos utilizados para complementar ou construir enunciados, como imagens e símbolos disponíveis no próprio MSN, tenham se perdido no momento de transferi-los e salvá-los como documento do Word.20

É importante esclarecer que todos os meus interlocutores do MSN foram chamados pelo codinome de Moscarda, uma referência direta à personagem de Luigi Pirandello, do livro Um, Nenhum e Cem Mil,21 através do qual busquei focalizar algumas das perspectivas e facetas identitárias de possíveis barebackers no cenário brasileiro. No que concerne à 'identificação' desses Moscarda, ela ocorreu na forma de um endereço eletrônico (e-mail) fictício, trazendo apenas sua respectiva idade e região do país de onde teclava, por exemplo, Moscarda29@hotmail.com, RJ, sempre com o objetivo de preservar o anonimato dos meus interlocutores. No decorrer deste artigo, muitas das construções narrativas, estilos e usos de linguagem desses Moscarda estarão destacados em itálico.

Finalmente, chamo atenção que não há garantia de uma imagem verdadeira na internet, ainda que essas imagens sejam mediadas por referências socioculturais. Nessa perspectiva, as inscrições sobre a dinâmica homoerótica deve se pautar por critérios de verossimilhança, mais do que por um critério de 'verdade'. Na mesma direção de Rios,22 acredito que os fatos ficcionais são potencialmente reais, na medida em que produzem efeitos, repercussões ou múltiplas respostas em seus ouvintes ou leitores. Para além de qualquer pretensão representacionalista, talvez seja mais proveitoso admitir que as nossas 'descrições' têm um efeito sobre o mundo, enfim, também produzem coisas ou versões da realidade.23

 

O prazer do contato total no sexo entre homens

Quando comecei a acompanhar algumas das comunidades ou grupos de discussão on-line, havia uma infinidade de questionamentos que surgiam a cada leitura de texto, mensagem e participação em um fórum virtual. Sem dúvida, um dos aspectos mais conflitantes diz respeito à própria definição de barebacking, que, de modo geral, girava em torno da ideia de sexo sem camisinha, na maioria das vezes desvinculado do tipo de parceria (fixo ou ocasional). É importante esclarecer que essa prática sexual desprotegida (entre homens) esteve ligada à penetração anal (ativo ou passivo), dando-se ênfase, principalmente, ao contato direto com o esperma. Nessa perspectiva, nos discursos sobre o barebacking, a referência ao sexo anal desprotegido parece ser o ponto de partida para a análise, ainda que nem sempre exista clareza quanto à distinção entre sexo desprotegido de forma intencional (premeditado) e casual ou acidental.24

É preciso ressaltar que não estou me referindo, necessariamente, a um tipo de reflexão, decisão ou intenção (racional) de abandonar 'definitivamente' o preservativo, inclusive porque existem aqueles barebackers que alternam entre momentos de uso e não uso. Não se pode negligenciar, portanto, o fato de que muitas decisões são tomadas à flor da pele, ou seja, no calor das interações sexuais, quando as pessoas parecem perder o autocontrole.

Distintas modalidades de barebacking (e barebackers) parecem, então, coexistir atualmente, demonstrando que múltiplos aspectos e situações estão implicados no sexo desprotegido.25 Uma dessas modalidades diz respeito à sua forma mais extensiva e de maior contato, ou seja, às formas mais extremas ou transgressivas em busca de prazer, quando praticamente não existem restrições ao sexo desprotegido, havendo uma exposição intensiva e extensiva (mais frequente) ao risco de infecção. Nesse grupo, estará em foco uma situação excessiva no contato com o outro (de valorização do esperma) e de contato com o risco.

Através da potencialidade transgressiva da internet,26 pude visualizar essa expansão (explosão) de um discurso que, aparentemente, segue na contramão da saúde. Em vários fóruns de discussão on-line, independentemente de estarem vinculados ao tema do barebacking, a camisinha aparece relacionada a uma dimensão mais artificial do sexo, mais fria, de perda de prazer e sensibilidade, principalmente quando impede o contato com a parte mais íntima, essencial, ou preciosa do homem - seu sêmen ou esperma. Utilizo a qualidade de frio para designar tanto uma sensação de artificialidade, da existência de uma borracha27 ou plástico que impede o contato natural, o calor e a pulsação da pele (pênis) no sexo de verdade, quanto a impossibilidade de sentir o leite quente do homem.

Nessa perspectiva, o pênis carrega um excedente simbólico, podendo tanto instrumentalizar o prazer quanto carregar ou transmitir a essência do homem - sua força, seu ser, sua vida (e sua morte). Vale lembrar que esse aspecto, da vida e da morte, associado à perda do líquido seminal esteve presente entre os gregos antigos,28 com o desenvolvimento de uma reflexão moral sobre o excesso e a passividade no uso dos prazeres. Para os gregos, o sêmen carregava parte essencial da existência do próprio homem, capaz de transmitir a vida ou o próprio ser. A quantidade ou intensidade de liberação do esperma podia levar, portanto, à morte do homem, pelo enfraquecimento de sua energia ou força, inclusive impedi-lo de imortalizar-se via descendência ou na geração de coisas boas e belas.

Obviamente, existe toda uma problematização biomédica contemporânea sobre os males ou prejuízos que o sêmen pode, de fato, provocar, principalmente na forma das infecções sexualmente transmissíveis, como é o caso do HIV. Por outro lado, essa discussão adquire importância antropológica, na medida em que a ideia de perigo dos 'fluidos sexuais', com sua carga simbólica, expressa também a distribuição desigual do perigo entre corpos masculinos e femininos, refletindo uma determinada ordem ou hierarquia social.29 Essa distribuição diferenciada mostra o medo diante da perda de controle do corpo. Nessa perspectiva, os fluidos corporais aparecem como anárquicos,30 na medida em que rompem fronteiras (dentro-fora, natureza-cultura, self-corpo). Não é à toa que o corpo feminino é tido na nossa cultura ocidental como mais perigoso do que o corpo masculino, já que se apresenta como mais permeável, aberto, fluido, úmido, incontrolável, em oposição às 'qualidades' do corpo masculino, controlado, contido, fechado, duro e seco.31 Conforme destaca Lupton,32 a ideia de perda de controle dos homens sobre seu corpo está associada a emoções de ódio, repugnância, humilhação e horror.33 Não devemos esquecer que esses sentimentos se dirigem também a homens que fazem sexo com homens, considerados potencialmente mais promíscuos, instáveis, desregrados, descontrolados e perigosos do que outros homens heterossexuais.

É importante esclarecer que a troca de fluidos corporais, principalmente sob a forma de esperma (porra ou leite), tem sido uma das marcas dos discursos e práticas do barebacking.34 Essa marca (excessiva) parece expor uma maneira de transgredir os limites impostos aos corpos, na medida em que o contato com o esperma pode significar maior risco de transmissão do HIV. Em vários outros relatos homoeróticos, o contato com a porra ou leite (sêmen ou esperma) do homem, nas ações de "beber", "tomar", "engolir", "chupar", "sugar", "mamar", "sentir", "levar", "jogar", "jorrar", "meter", "encher", "rechear", "brotar", "vazar", "fuder", "escorrer", "derramar", "espirrar", "deixar", "esporrar" ou "gozar dentro", aparece como importante para a autorrealização sexual. Por outro lado, em algumas circunstâncias, as práticas parecem exceder esse contato pela forma como ocorre e pela quantidade do líquido que é expelido, quando diferentes parceiros gozam dentro do ânus de um mesmo homem, havendo encontro, mistura e abundância de esperma, ou mesmo no ato de beber, tomar ou chupar o sêmen que sai do ânus do parceiro. Vale ressaltar que existe todo um investimento erótico que não se limita à porra ou leite quente do homem, mas também a outros fluidos corporais, como a própria urina. Essa discussão é altamente importante para mostrar a forma como os fluidos corporais masculinos estão (re)investidos e (re)valorizados eroticamente no sexo sem camisinha:

PODER MAMAR EM UM CARALHO E SENTIR O GOSTO DE SEU LEITINHO, ENGOLIR TUDO. E É CLARO LEVAR PORRA NO CU É A MELHOR SENSAÇÃO DO MUNDO (Participante do fórum "Algumas Boas Razões para não Usar Camisinha")

Adoro não vou ser hipócrita em dizer que sempre faço sexo seguro como tem muitos que dizem,sexo seguro é com qualquer um, independente se é parceiro fixo de longa data ou não, o perigo é o mesmo... eu adoro fuder um rabo cheio de porra, fico louco ao perceber que o cara já tá recheado, uma vez comi um moleque de 17 anos num banheiro de um terminal daqui de Curitiba que já tinha sido fodido por 07 sem camisinhas, o cu dele escorria porra e meu pau dançava dentro daquele mar de porra, gozei e ele ficou lá, passou um tempo voltei lá e ele ainda estava la'e já tinha dado pra outros caras e estava mais cheio de porra, não resisti e fudi ele de novo, o cara não tava nem aí, dava pra qualquer um, do pivete cheirador de cola aos velhos tarados que entrava lá... (Participante do fórum do ORKUT Adoro).

Cara... ontem fui num puteiro e levei porra no cu de uns 5 ou 6 caras. Um deles quase me rasgou qdo socou a rola. Muito grossa. O último deu uma mijada dentro do meu cu. Delirei de tesão (Participante do fórum do ORKUT VC DEIXA QUALQUER UM GOZAR DENTRO DO SEU CUZINHO).

No decorrer das minhas interações on-line, pude constatar também que o contato com o sêmen, mesmo para quem engole ou recebe o esperma, não torna o homem, necessariamente, menos masculino ou o feminiliza. Ainda que muitos homens (machos ou másculos) não queiram interagir sexualmente com outros homens considerados afetados, afeminados, bichas ou viados, e estejam orientados por imagens corporais específicas, principalmente pelo tamanho do pênis, isso não significa que organizem suas práticas e desejos sexuais de forma rígida, em torno da dicotomia atividade-passividade, masculinidade-feminilidade. Como também aponta o estudo de Braz,35 ser passivo ou dominado (e possuído) não afeta, necessariamente, a masculinidade dos parceiros envolvidos nos encontros e trocas sexuais.36 Nesses novos arranjos interativos, as posições eróticas apresentam-se mais flexíveis, transgressivas e versáteis, no que diz respeito a ser ativo ou passivo, receber ou dar a porra (ou mijo):

Sou masculo pacas mas se tem uma coisa que eu gosto é de deixar um macho me possuir e me lavar com seu leite quente (Participante do fórum do ORKUT Gozar Dentro).

[...] A porra eu gosto porque sinto que perteço ao cara....sabe sou super masculo dono total da minha vida.. enfim as vezes nen eu mesmo me aguento de tanto bater o pau na mesa...ae quando parto pro sexo... tem esta outra ponta... que é me sentir... sendo fudido.. e sendo deliciosamente usado por outro cara... (Moscarda32@hotmail.com, SP).

É interessante enfatizar que grande parte dos meus interlocutores do MSN, praticantes do barebacking, destacou o prazer produzido no contato com o esperma, ainda que alguns tenham destacado o contato pele a pele como suficiente para justificar o sexo sem camisinha. Aqui, o sêmen ou esperma aparece também como signo importante da masculinidade. Como sugerem alguns relatos, existe uma sensação de que a própria macheza é intensificada pela quantidade (e qualidade) da gozada de outro macho. No barebacking, portanto, através da valorização do esperma (circulação e troca), existe um sentido de intercâmbio (e compartilhamento) da masculinidade, o que faz intensificar o prazer, principalmente por ser altamente transgressivo, quando homens (machos) sentem-se intimamente ligados, buscando dar e receber (excessivamente) o esperma. Essa discussão sobre a masculinidade também pode ser encontrada no texto de Ridge,37 tratando dos significados e dinâmica do barebacking entre jovens gays de Melbourne, quando um dos seus informantes diz que receber o esperma significa incrementar sua própria masculinidade. Halkitis, Parsons e Wilton38 também destacam a ideia de que o barebacking afirma a masculinidade, além de produzir os sentimentos de intimidade, maior contato entre os parceiros, incluindo a percepção de um sexo mais "quente".

Dessa forma, conforme descrito em diferentes narrativas, nem sempre é possível fixar os significados do sexo entre homens (e da própria masculinidade) em torno da polaridade ativo-passivo. O próprio poder (masculino) também não está, necessariamente, fixado, na medida em que homens "passivos", em circunstâncias diversas, podem se sentir mais poderosos, por exemplo, quando conduzem ou direcionam a relação sexual, permitem a retirada da camisinha, oferecem prazer ao parceiro, ou mesmo quando se sentem trazendo parte do parceiro para dentro de si.39 Em um relato do ORKUT, pude, também, encontrar a ideia de produção (e acúmulo) do poder masculino implicado no recebimento do esperma, principalmente quando é originário de diferentes parceiros:

Eu já uma vez numa nas pedras de uma praia no guarujá, eu deu pra um cara e ele gozou dentro, nao deu dois minutos e ja tava dando pra outro, nisso chegou um terceiro e me comeu tambem, bom no final foram sei gozadas dentro do meu cu sem camisinha, eu me senti o cara mais poderoso do mundo, o cu cheio de porra. Faço por que gosto, e acho que tem muito hipocrita achando que é a ultima bolacha do pacote, ams [mas] ele se esquece que a ultima bolacha ta senpre esfarelada (Participante do fórum do ORKUT Bareback - eu já).

Essa ressalva é importante, porque, em alguns discursos, esse poder (masculinidade) parece ser exclusivamente exercido por quem é o ativo da relação ou quem penetra. Não se deve esquecer que, para alguns homens, existe uma satisfação maior por ser o macho de um homem, como se tivesse maior poder ou domínio sobre o outro. Por exemplo, um dos Moscarda que tinha dúvida se praticava barebacking (porque ele não sentia nenhum prazer por desafiar as doenças) dizia gostar do lance de gozar dentro do cara e possuir, ou seja, sentir-se o macho dele. Dizia ser ativo (95% das vezes) e não gostava de se relacionar com homens afeminados (só curto meter sem se o cara for bem machinho). Explicava, também, que gostava de transar sem camisinha, mas só de vez em quando, nas situações de muito tesão, de desafio do momento:

Acho que rola mais ou menos como a mulher... pra mulher, o homem é o macho dela. O cara goza na buceta, engravida, ela é a fêmea do cara. No caso de dois homens, quando tá com o tesão, rola isso tb. Já vi carinhas pedirem pra mim... Me faz um filho! Cara! Isso dá um tesão FDP!

[...] O cara marcou comigo aqui perto da minha casa e quando eu encontrei ele, a namorada do cara acabou encontrando a gente! Aí me deu mais tesão ainda. Ele deu um jeito de despachar a garota, dizendo que era um amigo da faculdaDE, e eu trouxe ele aqui pra casa e meti sem pena nele (meu pau já tava todo melado de tesão. Foi como o lance do desafio q te contei... Deu mais tesão de eu imaginar...porra... eu tô metendo num cara que mete numa buceta... então eu vou fazer ele sentir como é bom ser uma mulher e sentir um cara metendo no cú dele, gozando dfentro.,.. assim como ele faz com a namorada, entebdeu [entendeu]? (Moscarda34@hotmail.com, RJ).

Talvez exista aqui uma mistura de valores e significados diversos. Ainda que esse Moscarda queira colocar o parceiro (bem machinho) na mesma posição de uma mulher, no sentido de ser penetrado, parece, também, sentir-se fascinado ou provocado por saber (imaginar) que está metendo num cara que mete numa buceta. Uma imagem que o remete ao desafio de deixar sua marca, mostrar seu poder, como se fosse também uma questão de honra: mesmo sabendo que talvez vc não encontre mais a pessoa pela frente, mas vc pensa: eu tenho que comer esse cú, eu preciso gozar dentro desse cara pra ele nunca se esquecer disso... hehehe (Moscarda34@hotmail.com, RJ). Esse aspecto parece encontrar ressonância na discussão de Bourdieu40 sobre um tipo de capital simbólico que os homens trocam, acumulam e reproduzem na forma de virilidade, como princípio de conservação e aumento da honra.

Outro relato de um dos Moscarda (Moscarda37@hotmail.com, SP) dá destaque à sensação produzida no ato de receber o esperma. Para ele, existe uma autorrealização por (poder) fazer o macho sentir prazer. Seu próprio prazer está implicado (ou mobilizado) na expressão de gozo do parceiro. Mais do que a euforia da penetração, existe uma euforia (ou celebração) produzida pelo recebimento do esperma, pela sensação (e imagem) de 'continuidade' do parceiro dentro de si:

Sentir a rola direto dentro eh muito excitante, mas tem uma coisa depois de um tempo sendo penetrado, a euforia de ser penetrado passa ai fico pensando no gozo no cara e se não acontece em breve eu paro..... mas se de repente ele goza, a coisa que mais lembro eh da porra que ele deixou e independe do tamanho da rola... acho que eh op resultado de um intenso prazer, e no meu caso qdo estou sendo penetrado e sinto a porra dentro de mim....... sintome realizado por poder fazer o macho sentir prazer e "expressar " gozando, ai a porra tem um gostinho tão agradavel.... eu não chego a ejacular e não me importo com, em grande parte das vezes, mas tenho uma excitação em saber que o parceiro gozou (Moscarda32@hotmail.com, SP).

Nessa direção, conforme destaca um dos meus interlocutores (Moscarda32@hotmail.com, RJ), o barebacking não é simplesmente transar sem camisinha: em sua grande maioria, os barebackers são fascinados por, desculpe a expressão, porra. No barebacking, entram em jogo desejos, fetiches, fantasias (não é só o sexo em si). Esse meu interlocutor explicava que os barebackers gostam de beber porra, gozar dentro do cara e fazer o cara expelir a porra pelo "cu", e chupar em seguida. Moscarda não sabia explicar o que havia de tão especial no esperma, apenas que exerce um fascínio sobre todos (inclusive sobre ele mesmo). Ele tentava traduzir esse fascínio através do seguinte lema: "NENHUMA GOTA DEVE SER DESPERDIÇADA". Segundo ele, os que gostam de transar sem camisinha sentem tesão no "pele a pele", o barebacker vai além disso, existe todo um tesão na porra, e tb no mijo. E completava: num sexo bare, ou numa festa bare, existe a "ADORAÇÃO PELA PORRA". Outro barebacker (Moscarda18@hotmail.com, SP) explicava que a sensação obtida no contato com o esperma talvez fosse a mesma quando comia chocolate, ou seja, prazer, contentamento, a sensação de que se sente "o gosto perfeito".41 Nessa perspectiva, apenas o contato com a pele seria indiferente, ou seja, tem que estar lambuzado de algo escorregadio. Para ele, a penetração sem gozar dentro não tinha graça, a não ser que o esperma seja engolido:

A sensação de gozar dentro de alguém e gozarem dentro de vc (pra mim) é maravilhosa, não tem nada a ver com contato de pele, e sim o esperma no final... talvez a mesma coisa que eu sinto comendo chocolate (Moscarda18@hotmail.com, SP).

Outro interlocutor (Moscarda23@hotmail.com, SP) enfatizava que não há prazer sem esse contato com o esperma (é por isso que fazemos sem). Para ele, sentir a porra é o êxtase da transa - isso é o que faz a gente transar

sem, um quer sentir o outro. Nessa direção, também havia, sempre, uma novidade a cada novo encontro: a novidade é que vc conhece sempre pessoas legais e pode manter relação com elas livremente, o que é difícil por aí. De forma similar, outro Moscarda dizia gostar de sentir a porra (esperma), como se estivesse com parte do cara dentro dele (Moscarda32@hotmail.com, SP). Essa ideia de êxtase através do compartilhamento (e mistura) do esperma (e das pessoas) me remete à ideia de prazer extático discutido por Conveney e Bunton.42 É um tipo de prazer (ritualístico) que se produz através da liberação e comunhão entre os participantes. Vale ressaltar que a experiência sensorial, como é o caso do tesão, muitas vezes aparece também como difícil de descrever ou traduzir em palavras, principalmente porque diz respeito às diferentes maneiras (pessoais) de sentir prazer, mas possível de ser vivida (coletivamente) no contato íntimo com o outro:

O tesao dobra quando um cara diz que está gozando dentro ou eu estou gozando dentro, é algo muito diferente... no meu caso gosto de sentir quando o cara jorra dentro, é tão bom ainda mais se for mais de um, agora descrever é meio dificil porque sexo é tesao e cada um sente mais prazer em determinadas coisas, os barebackers sao assim [...] estes dias sai com um cara e na hora da transa eu queria logo que ele gozasse porque estava com muita vontade em minha cabeça fico pensando"vai goza eu quero sentir voce dentro de mim"... pra mim isto se chama tesao mais nada (Moscarda23@ hotmail.com, SP).

Outro Moscarda (Moscarda29@hotmail.com, RJ) dizia buscar prazer sem limite no barebacking; prazer este que nunca vinha sozinho, sempre acompanhado de outras coisas: fistar,43 mijar, dominar. Em relação à sua preferência por sentir o contato da pele ou gozar dentro, ainda que fosse difícil separar as duas coisas, dizia preferir a sensação de meter sem borracha à de gozar dentro. De qualquer forma, no decorrer do ato sexual, esses dois aspectos pareciam se misturar, sempre havendo o contato do esperma com o ânus: prefiro gozar na porta, comecar na porta e ir lambuzando e entrando, uma delicia. Para ele, o barebacking também é um sexo onde a gozada é valorizada, e não deve ser desperdiçada, é uma estética também, sendo algo bastante masculino:

É algo bem masculino (hetero-masculino), o sexo hetero é sem camisinha, pelo menos num dado momento, sabe-se disso, até por conta da reprodução, tanto q existem piadinhas tipo "te engravidei", entre os bbkers [barebackers] (Moscarda29@hotmail.com, RJ).

Quando esse Moscarda falava sobre essa valorização ou estética do gozo (esperma) como algo bem masculino (hetero-masculino), entre homens, referindo-se à ideia de reprodução ou gravidez mediante o sêmen, trazia também uma dimensão erótica muito presente em outros discursos, que é a possibilidade de transgredir uma moralidade imposta através da prática do barebacking. Essa ideia de transgressão girava, inclusive, em torno da posição ativopassivo, quando os homens podem ser versáteis: sou versátil, aliás, o q é muito comum entre bares, raro ver alguém só ativo, embora existam os depósitos, aqueles q são só passivos, e q na orgia são cercados por vários ativos leitadores (Moscarda29@hotmail.com RJ).

Além de um prazer sensorial implicado no barebacking, falava-se também de um prazer intelectual (Moscarda29@ hotmail.com, RJ). Esse prazer intelectual estava ligado a um espírito hedonista ou pacto realizado entre homens, um estar junto em nome do prazer, quando todos compartilham, deliberadamente, uma mesma experiência arriscada. Enfim, é intelectual na medida em que se sabe que as pessoas estão se permitindo (arriscando) juntas, é meio que um pacto de garotos. Esse meu interlocutor remetia o barebacking à imagem do bacanal (LITERALMENTE), da orgia, gangbang (sexo com muita gente).44 Para ele, diferentemente do que quase sempre ocorre nas saunas e dark rooms, tudo é mais à vista e mais drástico nos encontros previamente estipulados para o barebacking: NUDEZ TOTAL, LUZ DIRETA, SEM INTERVALOS COMERCIAIS...RS. Nessa perspectiva, Moscarda falava de um sacrifício coletivo45 em nome do prazer. Essa entrega coletiva em nome do prazer, onde todos podiam ficar com todos sem distinção, é que produzia prazer (tesão):

CHEGRA [chegar] NUM LOCAL E VER Q TEM MUITOS HOMENS, ALGUNS COM QUEM VC HJAMSI (jamais) FICARIA, MAS Q SAO PUTOS COMO VC E DISPOSTOS A TUDO POR PRAZER, E ISTO É Q TE DA TESAO (Moscarda29@hotmail.com, RJ).

Vale ressaltar que, em alguns encontros (festas) de barebacking, a relação entre machos parece ser mais requisitada e valorizada, quando a figura do afeminado perde em valor ou preferência, portanto sendo menos requisitado. Por exemplo, um dos Moscarda (Moscarda23@ hotmail.com, SP) dizia sentir atração por caras mais masculinos (que não são afeminados, tipo chamados de bichinhas): gosto de homens com jeito de homens, mesmo que sejam gays mas que saibam disfarçar bem. Segundo ele, a maioria dos frequentadores das festas de barebacking pensa o mesmo, não curtem afeminados. Ainda que não fossem proibidos de participar dos encontros, eram menos requisitados. Dizia também que os homens mais bonitos eram mais requisitados. No entanto, fazia questão de pontuar que todos acabam transando com todos e tudo termina com bastante gozo.

Moscarda (Moscarda23@hotmail.com, SP) ressaltava que as festas bare são organizadas, geralmente, através da internet (a gente pega o msn um do outro pela net e faz uma festa geralmente é isso).46 Ele havia participado de dois encontros. Seu último aconteceu dias antes da nossa conversa, na casa de um amigo, com a participação de oito homens (e rolou tudo, sem preservativo todos). Explicava que esse tipo de encontro tem de ser em um local discreto, onde não chame muita atenção: porque pessoas não entendem uma reunião de muitos homens, daí fazemos as coisas bem feitas.47 A cada novo encontro, existem alguns que já se conhecem, mas também aparecem pessoas novas, daí sempre vem mais e mais gente. Na última festa, conhecia apenas dois homens, os seis outros eram novatos (nem deu tempo de transar com os conhecidos).

Outro Moscarda (Moscarda29@hotmail.com, RJ) dizia não haver limite para o número de participantes das festas de barebacking. Entretanto, esclarecia que a quantidade de pessoas era mais controlada nos apartamentos privados do que nas saunas e clubes, que é mais aberto. De acordo com o dono da festa, pode-se selecionar ou escolher os participantes por aparência, tamanho do pau, ser bom de cama, enfim, só convidados, quando já se sabe mais ou menos quem vai estar presente. Em relação à idade dos participantes, frisava que, em geral, é gente com mais de 30 anos; mas ressaltava: se bem q tem uns garotos bem novinhos q já vi na net.

No que concerne à importância da aparência dos participantes nos encontros ou festas bare, principalmente em relação à imagem da AIDS materializada no corpo, fazendo uma referência direta à imagem passada do "gay aidético" - magro demais, frágil, debilitado - este mesmo Moscarda (Moscarda29@hotmail.com, RJ) esclarecia que essa aparência afasta mais do que ser soropositivo em si. Pontuava que quem faz bare tá se lixando pra saber se o cara é positivo ou não, e mais, ninguém pensa em se infectar na hora da foda. O que todos querem saber é se o cara é gostoso ou bom de cama (tanto que se o cara é gostoso e todo mundo sabe que ele é, todo mundo vai querer fuder com ele). E completava: até porque, se o cara estiver debilitado e ter uma pica imensa, ele com certeza vai leitar muito. Nessa perspectiva, o que parece ser valorizado no barebacking é a imagem ou performance masculina: se o cara se mostra afim de fuder, virilidade, tamanho do saco, modo de se falar, etc (Moscarda29@hotmail.com, RJ).

Em contrapartida, outro Moscarda (Moscarda32@hotmail.com, SP) admitia não ter bula ou manuscrito estabelecido para seus encontros sexuais. Assim, é preciso enfatizar que nem todos os meus interlocutores, praticantes do barebacking, diziam participar (ou gostar) de surubas ou festas bare: meu negócio é olho no olho... detesto este sexo performático, sexo pra mim é troca de um monte d coisas (Moscarda32@hotmail.com, SP). Esse Moscarda também encarava a internet apenas como fantasia: até conhecia caras pela net, mas na hora das vias de fato não rolava. Dizia-se visceral, procurando seguir apenas seu instinto, preservar ao máximo seu lado bicho:

Gosto de ser primitivo quando o assunto é gente..é o meu lado bicho que fala... tem que bater nun monte d lugar.. no sexo no coração no cheiro ...sei lá não determino.. nun tenho performace pronta ne [nem] modelo d gente estabelecido na minah [minha] cabeça;.. esta parte quem comanda... é meu sexo e o meu coração... (Moscarda32@hotmail.com, SP).

Portanto, ainda que o barebacking apareça também relacionado ao uso da internet, na medida em que muitos dos encontros são organizados e conhecidos de forma online, não significa que esse fenômeno seja, simplesmente, um produto da rede de interação on-line ou ocorra apenas através da mesma, mesmo porque as pessoas continuam frequentando os bares, boates, saunas, cinemas e outros lugares de encontro de parceiros potenciais para o sexo desprotegido;48 havendo, assim, uma diversidade de espaços e abordagens de encontros de barebacking, através também de amigos e conhecidos.49

Seria uma visão estreita, simplista e mesmo incongruente pensar a internet apenas como propiciadora da epidemia de HIV/AIDS, ou fixá-la como contexto de práticas de risco. Em se tratando das relações entre internet, cultura e risco, talvez seja mais pertinente discutir a reciprocidade e os múltiplos efeitos dessas interações. Conforme enfatizam Miller e Slater,50 há um relacionamento complexo e imbricado entre mundos on-line e off-line. São vários usos e interesses envolvidos entre os distintos atores, podendo ocorrer mútuas (e múltiplas) transformações (da tecnologia, dos próprios usuários e de suas culturas). Dessa forma, a internet não pode nada mais fazer do que amplificar práticas já existentes que são ainda tabus nos espaços tradicionais de encontros face a face.51

 

Algumas considerações sobre o prazer do risco

No decorrer das múltiplas interações sexuais desprotegidas, pode ocorrer um desdobramento de motivos para a realização do barebacking. Em outros relatos, a relação entre prazer e risco mostra-se de forma mais direta ou explícita. Acompanhando esse deslocamento de ações (e atores), é possível traçar uma trajetória que liga o prazer ao perigo, ainda que esse trajeto apareça, muitas vezes, de forma confusa, incerta ou desordenada. O tesão ou emoção vivida através do medo, da aventura, da possibilidade de contrair alguma doença, da experiência de entrega, maior intimidade ou contato com o parceiro sexual, muitas vezes desconhecido, o incômodo da camisinha, o contato com o esperma são aspectos importantes que se deslocam nas práticas do barebacking:

Dá mais tesao.. . O medo, a pele na pele, a camisinha machuca, é tudo é muito tesao. Faço ativo e passivo. Que delicia . Sem contar sentir a porra escorrendo... (Participant e do fórum O que te leva à praticar bare back).

Creio que somente os que praticam conseguem compreender seu real significado que seria a mistura de: pele com pele x prazer incomensurável x risco excitante que se corre ! o risco é um fator estremamente excitante, é como ao adeptos ao Sexo em locais públicos, o maior prazer está na possibilidade de serem encontrados (Moscarda27@hotmail.com, SP).

Evidentemente, existe todo um discurso normativo sobre o sexo seguro, mas também um sentimento de instabilidade, fugacidade, desconfiança e incerteza no amanhã muito presente na cultura contemporânea. Há, portanto, dois aspectos aqui implicados: o limite imposto à troca de fluidos e contato íntimo com o outro, pelo perigo que o ato pode representar, ao mesmo tempo que o sexo sem borracha mobiliza a curiosidade, a imaginação e o sentimento de liberdade, maior contato ou intimidade entre as pessoas. Portanto, trata-se de um tipo de prazer ou gosto especial que a transgressão dos limites dos corpos parece produzir em tempos aparentemente frios, normativos e superficiais. Por exemplo, para um dos meus interlocutores, o sexo sem camisinha fazia aumentar seu prazer. Esse Moscarda dizia gostar de porra, sabia dos riscos, mas a coisa com camisinha não era completa. Por outro lado, sentia-se também subversivo, indo na contramão da norma, da paranoia do risco de vida criada em torno do sexo, como se fosse a coisa mais subversiva do século 21:

Porque quando vc faz isto vc esta indo na contar mão (contramão) de algo que foi estabelecido como controle.. social.., veja bem numa epoca.. de sociedade vigiada. Por completo... como esta que vivemos.. fazer isto... é não acreditar na paranóia criada em relação ao sexo, sexo era prazer, ae virou risco de vida a partir do meio dos anos 80 (Moscarda32@hotmail.com, SP).

No decorrer dessa trajetória arriscada, portanto, podese produzir também uma satisfação ou realização pessoal por superar seus próprios limites ou parecer mais forte, resistente, em relação ao HIV, ao discurso da AIDS e à própria morte. Nessa perspectiva, um dos Moscarda (Moscarda27@hotmail.com, SP) tratou de enfatizar o prazer que se tem em correr risco,52 principalmente diante de desconhecidos. Seus encontros de barebacking ocorriam muitas vezes em locais apropriados para rolar sexo, como cinemas pornô, saunas, etc. Para ele, o barebacking não era simplesmente transar sem camisinha, mas transar sem camisinha e sentindo o tesão do perigo aflorar sobre sua pele sem ao menos conhecer sobre a vida de seu parceiro. Dessa forma, o risco seria o tempero essencial do barebacking:

Só existe o bare por conta do risco principalmente quando se transa com desconhecidos ou em locais totalmente escuro, nos quais (voce) não tem condições de reconhecer seu parceiro (Moscarda27@hotmail.com, SP).

Para esse Moscarda, o que tornava o barebacking uma situação especial era exatamente poder contornar o medo de morrer, ser superior a este medo. Ele explicava que seu interesse "neste risco" talvez fosse provar que era mais forte que ele e que sua vida era muito boa quando se tinha emoções de medo. Em contrapartida, optar pelo risco era uma forma de (querer) ser livre no uso de seu prazer: prazer sem questionamentos, sexo livre. Nesse sentido, a camisinha seria mais ou menos como a cela de uma prisão.

Nos diversos encontros sexuais sem camisinha, existe também um investimento erótico que ocorre em torno das interações com homens anônimos, estranhos ou desconhecidos. Em vários contextos interativos, a imagem do desconhecido, do imediato e irracional, de uma sensação de instinto animal que domina a ação ou racionalidade humana, parece produzir um estado de excitação, sentimentos de curiosidade, medo e fascinação; portanto, emoções intensas que surgem de um movimento (irresistível) em direção ao perigo ou desconhecido. Por outro lado, é importante enfatizar que existe também uma atração ou excitação do momento provocada pelos atores que compõem as cenas sexuais, principalmente quando o homem é considerado gostoso (excesso de homem), interessante, bonito, malhado, irresistível, ou simplesmente possuindo um pênis valorizado (grande e grosso), ou uma bunda tesuda; momento este considerado difícil e complicado para o exercício do autocontrole:

Eu já passei por situação semelhante num dark room. Tinha um cara gostoso lá, com as calças arriadas, e com as mãos na parede dando pra quem quiser. Depois que o cara gozava ele continuava lá. Eu não saía de perto, passava a mão nos músculos dele e estava bastante excitado. Meti o dedo no cu dele, estava bem meladinho, meti sem dó e gozei muito. Nessas horas parece que surge um instinto animal dentro da gente e acaba acontecendo. Pra dizer a verdade, depois disso fiquei meio com a consciência pesada. Mas foi uma gozada fenomenal (Participante do fórum do ORKUT Apenas Penetração Bare).

Há um aspecto importante sobre as interações sexuais com desconhecidos que vale a pena discutir. Para um dos Moscarda praticante do barebacking (Moscarda37@hotmail.com, SP) que costumava frequentar saunas, tudo acontece no escuro (dark room), já que no claro ninguém tem coragem. A oportunidade e o tesão faziam com que ele procurasse parceiros sexuais nos dark rooms. Naquele momento, vc tem o que alguém procura. Assim, dizia selecionar apenas a rola (se tiver dura e com vontade de meter). Segundo ele, o anonimato era o motivo pelo qual o dark room fazia tanto sucesso: nunguem [ninguém] precisa ser morqalista [moralista] dentro do dark room.... vc faz o que tem vontade de fazer, sem ter alguem que o reprove por. Reconhecia, então, haver um tesão no anonimato, já que podia ser receptivo53 e avançar, ser desejado, independentemente de padrões de beleza:

[...] sentir que tem alguem penetrando em vc, não importa a cor, se eh gordo ou não, feio ou bonito, nada d importa, a unica parte que importa eh a rola e como o cara faz [...] eu sou bem inseguro comigo, tenho minha neuras, na maioria dos dias me sinto rejeitado, então o dark room pra mim eh um lugar onde a rejeição eh muito pouca, a maioria ali não procura por príncipes.... vc não precisa ser perfeito, eh sua atitude que vale... vc poder se "servir" e ser "servido" por varios ao mesmo tempo, e não ter de se preocupar se seu cabelo ta arrumado, se alguem não gostou da cor dos seus olhos, ou da sua pele [...]. meu pensamento ali eh, não sou de ninguem e sim pra todos... sinto que estou sendo desejado... me deixo levar... (Moscarda37@hotmail.com, SP).

Não se deve esquecer que, em muitas dessas situações, o medo parece caminhar lado a lado com o prazer. Por exemplo, esse mesmo Moscarda que costumava ir a saunas (Moscarda37@hotmail.com, SP) tinha medo de pegar alguma doença, mas se ficasse pensando no risco na hora da transa perdia o tesão. Como em outras experiências arriscadas ou de limite, é preciso não ser paralisado pelo medo.54Nesse sentido, outro Moscarda, que dizia não mais sentir prazer no risco (Moscarda18@ hotmail.com, SP),55 e mesmo assim continuava a fazer sexo sem camisinha pelo prazer do contato com o esperma, fez referência ao bungeejump, 56 colocando, de certa forma, a existência do medo como elemento importante do prazer, na medida em que possibilitava que a experiência de risco produzisse sentido ou efeito:

Eu AMO pular de bunguee-jump, oq é aquilo? a sensação de que aquele pode ser seu último minuto vivo. eu não pularia de bunguee se eu não tivesse medo da corda arrebentar, mas 90% das vezes eu nem penso nisso (Moscarda18@hotmail.com, SP).

 

Considerações finais

Finalmente, gostaria de focalizar um enunciado oriundo de uma mensagem on-line: tudo vale a pena quando a lama não é pequena.57 Para qualquer desavisado, o enunciado em questão seria uma leitura estranha de um verso famoso da literatura portuguesa.58

No lugar da alma, utiliza-se a palavra lama, que na língua portuguesa significa mistura de terra e água. É preciso, de antemão, esclarecer que essa frase foi escrita por um membro de um grupo do YAHOO para a discussão e realização de encontros de barebacking, momento este anterior à minha participação nas comunidades do ORKUT. A apropriação livre de um verso famoso de Fernando Pessoa apontou uma direção importante que poderia seguir para compreender melhor alguns dos interesses e sensações produzidas no barebacking. Não poderia esquecer que o verso original de Fernando Pessoa gira em torno das aventuras marítimas portuguesas. Lágrimas, perdas, mortes e dores foram necessárias para o enobrecimento de um povo. O perigo (do mar) aparece no poema como rota necessária para se chegar a algo superior, incluindo a conquista de novas terras, riquezas e sonhos.

Entretanto, para além dos perigos incontroláveis da natureza, os riscos contemporâneos mostram outras trilhas que devem ser seguidas. Não estamos mais, simplesmente, diante de situações em que a nobreza e a honra de um povo estão em jogo, tampouco diante de ritos sociais de pertencimento ao grupo. Diante das incertezas e fragilidades do mundo contemporâneo, colocar-se em risco aparece como uma forma importante de afrontamento do mundo (e da morte) para dar um novo sabor e sentido à própria vida. É o que argumenta Le Breton59 quando fala sobre a paixão do risco em tempos de vazio, perda de referência de sentidos e valores da cultura contemporânea. Nestes novos contextos, o próprio indivíduo passa a buscar um sentido para a sua vida desafiando, deliberadamente, os riscos. É uma maneira, portanto, de fabricar sentido através do afrontamento real ou simbólico da morte.

De modo geral, as diferentes motivações para o barebacking constituem uma região fronteiriça de tensão entre o prazer do contato sensorial e o risco de infecção. Nessa perspectiva, todos os praticantes parecem ter em comum um discurso sobre o prazer mais livre e intenso no sexo sem camisinha, ainda que, para alguns, esse prazer esteja estreitamente vinculado a uma experiência mais excessiva ou transgressiva, inclusive por desafiar o vírus, a doença e os limites da própria vida. Dessa forma, busco não estabelecer uma simples oposição entre prazer do risco versus prazer do contato total, mas pensar essas dimensões analíticas como processos que acontecem na fronteira. Gostaria, portanto, de ressaltar que a ideia de prazer do risco não significa, necessariamente, movimento intencional (consciente) em direção ao adoecimento ou contaminação pelo HIV. Estou reconhecendo que esse prazer está intimamente vinculado à ideia de transgressão (ou violação) de fronteiras, que incluem a separação dos corpos. Essa possibilidade de transgredir ou atravessar esses limites mobiliza diferentes sentimentos e emoções, entre eles, medo, ansiedade, preocupação e culpa. Conforme destaca Lupton,60 essa é uma atividade arriscada (e ambígua) porque coloca em questão as fronteiras conceituais já aceitas ou estabelecidas.

Nessa direção, podemos seguir uma perspectiva analítica que concebe as práticas eróticas intimamente ligadas ao risco ou perigo, principalmente quando o erotismo é visto como uma maneira de colocar em xeque a ordem e regularidade da vida ou a descontinuidade dos seres.61 Se o erotismo é a aprovação da vida até na morte, é interessante problematizar o sexo desprotegido, mesmo quando ocorre de forma deliberada, como uma maneira de afirmar a própria vida, de senti-la mais de perto, sentir-se contagiado ou encantado novamente, compartilhá-la com outros, enfim, restabelecer uma existência precária, ainda que de modo muito frágil e provisório.

Vale a pena, então, retomar a palavra lama supracitada. O sentido da palavra lama produz desdobramentos interessantes que remetem a valores e práticas sociais. Estou me referindo àquelas situações cotidianas em que ocorre a mistura, a brincadeira, a bagunça,a sacanagem,62 vagabundagem, a sujeira, a desordem ou transgressão de hábitos e costumes, do que é permitido ou aceitável, do bom gosto e boas maneiras, enfim, uma situação em que o grotesco toma forma e lugar, no sentido bakhtiniano de rebaixamento ou transferência de tudo que é elevado, espiritual, ideal e abstrato, ao plano material e corporal, o da terra e dos corpos, em sua unidade indissolúvel.63 Essa transferência pode significar um perigo para a ideia de estabilidade e conformidade social. A prática sexual desprotegida, principalmente em algumas situações mais específicas (e extremadas), apresenta-se como uma dessas formas grotescas e excessivas no uso do corpo, no momento atual em que é produzida uma infinidade de discursos sobre a boa forma, o corpo saudável e o sexo seguro. Em vários momentos, estar na lama ou em uma situação de perigo, ambiguidade, contradição e ruptura com os bons modos e organização (fechamento) dos corpos significará satisfação pessoal e suplemento do prazer, ainda que nem sempre isentos de conflitos morais:

Por mais que a gente queira se cuidar, qdo o tesão (e o pau) é grande, difícil de segurar! É muito bom sentir o pau gozar leite quente dentro do cú ou na boca. Adoro chupar um leite bem quente e engolir. Adoro dar o cú sem camisinha (bareback) além de fuder muito no mesmo dia pois adoro quantidade e qualidade. Qdo é um cara que não me agrada, não rola, mas se for interessante, deixo fazer o que quiser comigo. A vida é curta e acho que devo aproveitar com intensidade. Se vc souber de alguém que queira me dar um leitinho pode me escrever. Adoro ficar na madrugada na porta de casa, peladão e mostrar a bunda pra os caras que passam, seja a pé ou de moto. Sempre consigo tomar um leite na boca ou no cú. As vezes chegos a conseguir tres em uma só noite. Adoro estar com o cú cheio de porra e sentir o pau de outro cara metendo mais porra onde outro já havia gozado, depois ir pra o banheiro ou sair peladão na calçada de casa e deixar sair do rabo aquele monte de leite quente. O máximo!!! (Participante do fórum do Projeto Convida "Sem Usar Camisinha").

Conforme destacado acima, a consciência do risco nem sempre repercutirá ou encontrará uma resposta (racional) correspondente no campo das interações sexuais. As situações em que o tesão parece falar mais alto, principalmente diante de um outro que se apresenta de forma sedutora ou interessante,64 em que o pênis aparece à mostra, estendido para o outro, de forma avantajada, em que o corpo apresenta-se violentamente aberto e provocante, quando o abjeto,65 na forma do sêmen (porra ou leite masculino), é (re)valorizado positivamente, sugerem que a ação de ultrapassar, invadir, perturbar ou desestruturar as fronteiras, morais e sociais, incluindo os limites que separam e distinguem os corpos (e identidades), é um elemento do prazer importante que estará presente em muitos dos encontros e práticas sexuais desprotegidas.

Estamos diante de um tempo em que é possível focalizar múltiplas possibilidades de vivências do 'eu', posições identitárias mais flexíveis, corpos transgressivos, mistura e confusão dos papéis (sexuais e de gênero), assim como novas formas de criação de prazeres. Todas essas mudanças põem em xeque alguns modelos tradicionais sobre a moral sexual, sobre o modelo de self racional e a própria racionalidade implicada no discurso da saúde. No momento atual, torna-se importante, então, reconhecer que o modo como as pessoas respondem às regras sociais também é mediado pelas experiências sensuais ou sensoriais vividas no corpo.66

Como destacam Lévy e Vidal,67 as teorias médicosexológicas, ao colocarem a sexualidade e a morte em lados opostos, parecem querer domar o processo erótico que é a busca de excesso e de prazer intenso, ultrapassando a individualidade e o sentimento de perda. Dessa forma, torna-se importante discutir os efeitos produzidos quando discursos e práticas buscam regular ou deslocar o prazer para longe do perigo e dos excessos.

 

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WILLIAMS, Simon J. "Bodily Dys-Order, Excess and the Transgression of Corporeal Boundaries." Body & Society, v. 4, n. 2, 1998. p. 59-82.         [ Links ]

 

 

[Recebido em julho de 2008 e aceito para publicação em março de 2009]

 

 

1 Simon WILLIAMS, 1998.
2 Troy SUAREZ e Jeffrey MILLER, 2001.
3 Alain LéOBON e Louis-Robert FRIGAULT, 2005.
4 Michele CROSSLEY, 2002; Eric ROFES, 2002.
5 CROSSLEY, 2002 e 2004.
6 DeAnn GAUTHIER e Craig J. FORSYTH, 1999.
7 Richard TEWKSBURY, 2003.
8 Gordon MANSERGH et al., 2002; Perry HALKITIS, Jeffrey PARSONS e Leo WILTON, 2003.
9 MANSERGH et al., 2002.
10 Luis David CASTIEL, 2003, p. 82.
11 Pode ser traduzido por "quarto escuro": espaço reservado de uma "boite gay", com pouca ou nenhuma luminosidade, onde os frequentadores podem interagir sexualmente com um ou mais parceiros.
12 Mary Jane SPINK, 2001 e 2003.
13 Michel FOUCAULT, 2001a, p. 91.
14 Anthony GIDDENS, 2000, p. 142.
15 Luís Augusto SILVA, 2008. Mais especificamente, este trabalho é decorrente de uma tese de doutorado, defendida em abril de 2008, no Instituto de Saúde Coletiva (UFBA), sob a orientação do Prof. Dr. Jorge Iriart. Parte deste trabalho foi desenvolvida durante meu estágio de doutorando no exterior, na UQAM (Canadá), financiado pela CAPES, sob a orientação do Prof. Dr. Joseph Lévy. O projeto de tese foi aprovado pelo Comitê de ética em Pesquisa. Registro CEP: 02507/CEP-ISC.
16 Filiado ao Google, o ORKUT (www.orkut.com) tem se destacado no cenário brasileiro como uma rede social importante, permitindo pôr em relação os amigos de amigos, ou simplesmente criar novas amizades e manter relacionamentos; propiciando a circulação e discussão de temas diversos. Lançado em 2004, o Orkut atualmente é muito difundido entre os usuários brasileiros. De acordo com Cleber MORAES e Diego ROCHA, 2005, em 2005, havia já 71,8% de brasileiros de uma comunidade de 6,2 milhões de pessoas.
17 Praticamente, todas as comunidades criadas em torno do bare-backing estavam descritas na categoria de Gays, Lésbicas e Bi (categoria do próprio Orkut). Já em relação às comunidades organizadas apenas em torno do sexo sem camisinha, vale ressaltar que muitas delas eram descritas na categoria de Romances e Relacionamentos, de Atividades, de Esportes e Lazer, de Pessoas, Outros, etc. (categorias estas também padronizadas e utilizadas pelo Orkut).
18 No Yahoo!Grupos do Brasil, apenas encontrei uma comunidade de barebacking, que já não se encontra disponível na rede. Esta minha participação ocorreu entre os meses de junho de 2005 a julho de 2006, momento em que não conseguia mais localizar o grupo no endereço correspon dente. Em relação ao Projeto Convida, do Instituto de Saúde Coletiva (UFBA), sob a coordenação geral da Prof. Dr.ª Inês Dourado, e com a minha participação como coordenador das atividades de campo (off-line e on-line), gostaria de destacar que este projeto de pesquisa foi o ponto de partida para algumas das minhas reflexões sobre o barebacking. Em parceria com uma agência de pesquisa francesa em AIDS (ANRS), o Projeto Convida buscou produzir conhecimento sobre aspectos da sexualidade, modos de vida, práticas de risco e de prevenção de HIV entre a população HSH, leitora de revistas gays, usuária de sites gays da internet e frequentadora de espaços GLBT, em Salvador, BA, formando uma base de comparação com estudos similares na França e Holanda. O Projeto Convida também desenvolveu seu próprio site na internet, produzindo seções de entretenimento, por exemplo, com fóruns de discussão on-line, de pesquisa e informação. O site ficou disponível entre junho de 2003 e dezembro de 2005.
19 Houve mais contatos, mas alguns ficaram off-line no decorrer da interação, inviabilizando a análise de parte do material disponível.
20 No processo de organização e análise dos textos produzidos, foi utilizado o programa QSR Nvivo. Trata-se, basicamente, de um software específico usado para o tratamento e armazenamento de dados qualitativos (formatação, categorização, comparação e organização dos segmentos de textos), referente aos documentos de pesquisa, por exemplo, entrevistas abertas e produções discursivas dos fóruns on-line. Utilizando essa ferramenta, foi possível armazenar os textos produzidos, as conversas do MSN, mensagens e respostas dos fóruns de discussão, bem como desenvolver e 'incorporar' categorias teóricas e derivativas (a partir da linguagem concreta dos informantes) durante o processo de leitura dos textos.
21 Em Um, Nenhum e Cem Mil, de Luigi Pirandello, o protagonista
22 Luís Felipe RIOS, 2003.
23 Jonathan POTTER, 1997.
24 É importante ressaltar que al-guns praticantes do barebacking procuraram diferenciar o contexto ou situação em que ocorre o sexo desprotegido, com o objetivo de delimitar melhor o conceito de barebacking (e o barebacker). Algumas dessas dimensões analíticas dizem respeito à intencionalidade do ato, à extensão em que ocorre a prática sexual desprotegida ou mesmo à polaridade prazer do risco X prazer do contato total entre os parceiros. No que concerne a este último aspecto, alguns homens buscam dissociar sua prática ou perspectiva de barebacking da ideia corrente de prazer que se tem em correr risco (SILVA, 2008).
25 A partir das próprias definições e explicações sobre o barebacking que encontrei nos fóruns de discussão on-line e entre os meus contatos no MSN, organizei a prática do barebacking em torno de três grandes modalidades: 1) mais extensivo e de maior contato; 2) em torno da soroconversão; 3) parcial ou com redução de riscos (SILVA, 2008). Como não é o escopo deste trabalho, as duas últimas modalidades não serão discutidas neste momento.
26 André LEMOS, 2004; Joseph LÉVY, Catherine GARNIER e Christine THOER-FABRE, 2006. Vitangelo Moscarda, encontra-se em situação inusitada ao descobrir-se não ser aquele que até então acreditava ser. Por intermédio de outro, sua esposa, percebe que seu nariz pende para a direita. A partir de então, mergulhado em dúvidas e questionamentos sobre sua própria identidade, busca conhecer o estranho que não é senão ele mesmo. Durante a trajetória de rápidas transformações, o protagonista convive com a incerteza sobre si mesmo, um drama que se tensiona com a descoberta "dos cem mil Moscardas" não só para os outros, mas também para ele próprio.
27 Principalmente nos relatos sobre o barebacking, é muito comum a referência à borracha no lugar da camisinha.
28 FOUCAULT, 2001b.
29 Mary DOUGLAS, 1991.
30 Deborah LUPTON, 1998.
31 Elisabeth GROSZ, 1994.
32 LUPTON, 1998.
33 Segundo Elizabeth GROSZ, 1994, p. 193-194, os fluidos corporais comprovam a permeabilidade do corpo, sua dependência necessária com o externo, a divisão perigosa entre o que está dentro e fora, sua tendência a se desmoronar no lado de fora, o que implica a própria morte. Nessa direção, os fluidos corporais afrontam a aspiração do sujeito à autonomia e autoidentidade, atestam certa sujeira ou repulsa irredutível, um horror do desconhecido ou do inespecífico que penetra, esconde, prolonga, e ao mesmo tempo vaza do corpo ou vem a público, um testemunho da fraude ou impossibilidade do puro e apropriado.
34 Ver também o estudo de LéOBON e FRIGAULT, 2005, para o contexto canadense e francês.
35 Camilo BRAZ, 2007.
36 Vale assinalar que algumas leituras e autores importantes da atualidade tentam pôr em xeque a rigidez dos esquemas binários, feminino-masculino, heterossexual-homossexual, bem como a naturalização e inevitabilidade do próprio sexo (Judith BUTLER, 2003). Destaco, aqui, a importância da teoria queer quando contesta a heteronormatividade, enfatiza a performance, fluidez e dinâmica das categorias identitárias (Joshua GAMSON e Dawne MOON, 2004), bem como a transgressão, ambiguidade e atravessamento de fronteiras (Guacira Lopes LOURO, 2001). Para Steven SEIDMAN, 1994, por exemplo, a teoria queer muda o debate de uma preocupação exclusiva com a homossexualidade para o foco na heterossexulidade como um princípio de organização social e político, bem como da política de interesse de uma minoria para a política de conhecimento e da diferença. O que é central na teoria queer é desafiar a crença em um sujeito ou identidade homossexual percebido como estável e unificado (SEIDMAN, 1994). A teoria queer deseja, enfim, desafiar o próprio "regime" da sexualidade, ou seja, o conhecimento que constrói o self como sexual e que assume a heterossexualidade e a homossexualidade como categorias que mostram a verdade dos "selfs sexuais", uma linguagem que forma o que nós conhecemos como corpos, desejos, sexualidades e identidades (SEIDMAN, 1994, p. 174).
37 Damien RIDGE, 2004.
38 HALKITIS, PARSONS e WILTON, 2003.
39 RIDGE, 2004.
40 Pierre BOURDIEU, 1999.
41 Ele também não sabia traduzir o que era esse gosto perfeito, apenas dizia que, se comparar ao chocolate, msm [mesmo] sem palavras esclarecedoras, fica fácil pra muita gente entender (Moscarda18@hotmail.com, SP).
42 John CONVENEY e Robin BUNTON, 2003.
43 Prática sexual que utiliza a mão (punho fechado) para a penetração anal.
44 Sem meias palavras, Moscarda enfatizava que, nesses encontros, o sexo ocorre até parar de ter um cu cheio de porra (Moscarda29@hotmail.com, RJ).
45 A ideia de sacrifício implicada na prática do barebacking ocorria exatamente por saber que não iria ter nenhum namorado firme, por abdicar de um relacionamento estável, de um romance, no momento em que escolhia a putaria para fazer parte de sua vida.
46 Vale ressaltar que esses encontros podem agregar homens de diferentes espaços geográficos, quando alguns deles saem de suas respectivas cidades para a participação de uma festa bare, o que implica, portanto, considerar as condições socioeconômicas 'privilegiadas' de alguns de seus participantes. Por exemplo, um dos meus interlocutores, que morava no estado do Amapá, ressaltou a existência de homens conhecidos na região, de maior poder aquisitivo, e de outros que vinham de fora do país para participar desses encontros em sua cidade: tem uma sala da uol q todos na cidade mar-cam... sempre tinha algm c [com] xacara distante do centro q [que] marcava na net... entaum [então] tipo eu marcava dez da manha e as oito da noite rolava.... a maioria tinha mais d [de] 40 anos... eles nunk [nunca] deixavam ir c menos d dezoito... tinha q mostrar rg [RG] e td! [tudo].... tem politico, empresario, fazendeiro,... ja veio ate caras da guiana francesa (Moscarda26@hotmail.com, AP). Entre todos os Moscarda que conversaram comigo, este (Moscarda26@ hotmail.com, AP) foi um dos três que se diziam HIV positivo. Em nenhum outro momento deste artigo, trouxe exemplos ou narrativas dos Moscarda positivos.
47 Moscarda lembrava que os homens heteros, casados, que também aparecem às vezes, tinham de tomar mais cuidado ainda, porque podem ser seguidos pelas esposas.
48 HALKITIS, PARSONS e WILTON, 2003.
49 MANSERGH et al., 2002.
50 Daniel MILLER e Don SLATER, 2004.
51 Joseph LéVY et al., 2005.
52 Esse Moscarda foi o único que sustentou ou enfatizou, durante toda a conversa, a importância do risco para a realização do barebacking. Em outras narrativas, o risco aparece misturado (diluído) com outros elementos, principalmente o contato com o esperma ou prazer sensorial produzido através do barebacking.
53 A ideia, aqui, não é de ser passivo, ainda que este Moscarda prefira receber o esperma. Neste caso, receptivo refere-se ao sentido de estar aberto ao outro, ser acolhedor ou disposto para o sexo.
54 Stephen LYNG, 1990.
55 Esse Moscarda já se sentiu um bug chaser, ou seja, queria contrair o vírus HIV. é interessante destacar que isso não aconteceu. Moscarda dizia não mais querer se infectar, ou mesmo morrer. Ele agora só pensava em sentir prazer.
56 Tipo de esporte radical que consiste em saltar de grandes altitudes amarrado/a pelos pés a uma corda elástica.
57 Eis a mensagem completa: Cara eu acho que tudo vale a pena quandoa lama não é pequena. Eu acho uma hipocresia de quem diz que não fiz ou aquilo. Me mostra quem nunca fez um banheirão e eu te mostro um mentiroso. O perigo trz prazer e muito prazer. Me diz se vc conhece alguém que nunca transou sem camisinha? Isso tudo é hipocresia e tentativa de formular uma imagem de certinho. Eu tenho um amigo que frequenta a [estabelecimento Y] e falou que um carinha queria transar com ele sem camisinha. Ele só não falou se fez. Mas, isso é engraçado. Muita gente faz e diz que jamais faria e isso é muito normal (Participante do grupo barebackingbrasil@yahoogrupos).
58 Mar Português (Fernando Pessoa, in Mensagem) Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pen a Se a alma não é pequena Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.
59 David LE BRETON, 2000.
60 LUPTON, 1999.
61 Bataille enfatiza a dinâmica interdição-transgressão como fundamental para entender a experiência erótica. Para ele, somos seres descontínuos que têm nostalgia de uma continuidade perdida. O erótico implica um sentimento de continuidade profunda. Como Bataille explica, no erotismo está em questão a substituição do isolamento do ser. Implica um sentimento de violação e excesso. Portanto, o erotismo é o campo da violação/violência. A vida descontínua não está condenada a desaparecer. Bataille é categórico ao afirmar que essa descontinuidade é posta apenas em questão, devendo ser perturbada e incomodada ao máximo: "o que está em jogo no erotismo é sempre uma dissolução das for-mas constituídas. Repito: dessas formas da vida social, regular, que fundam a ordem descontínua das individualidades definidas que somos" (Georges BATAILLE, 2004, 31).
62 A palavra "sacanagem", tipicamente brasileira, pode ser usada com conotações variadas, de forma negativa ou positiva, significando desde a trapaça ou injustiça, passando pelas brincadeiras entre amigos e conhecidos, até sua conotação erótica para designar um conjunto amplo de atos e práticas sexuais tidas como proibidas, inapropriadas, perigosas, incomuns, marginais, ou seja, que esteja associado à desobediência a regras de decoro (Richard PARKER, 1991, p. 159).
63 Mikhail BAKHTIN, 1970, p. 29.
64 Em relação a esse aspecto do corpo sedutor ou interessante, existe todo um discurso da boa forma que tanto pode provocar rupturas e produzir espaços de resistência, quanto direcionar as interações sexuais segundo uma determinada convenção estética.
65 Do latim abjectu, que significa imundo, desprezível, vil, baixo, ignóbil. Utilizo o conceito de abjeto (abjeção) a partir das leituras de Mary DOUGLAS, 1991, e Julia KRISTEVA, 1982, para discutir as fronteiras que separam os corpos e identidades. Como explica Elizabeth GROSZ, 1994, p.192, Julia Kristeva utiliza as noções de pureza e perigo de Mary DOUGLAS, 1991, para criar uma 'teoria' da abjeção, que busca, basicamente, questionar as condições sob as quais o corpo apropriado e limpo (social) emerge e os custos de sua emergência, bem como as funções que essa demarcação do corpo (apropriado e limpo) têm para a transmissão e produção de tipos específicos de corpos. Nada é em si mesmo sujo ou perigoso (DOUGLAS, 1991), em outras palavras, imundo, desprezível ou abjeto, já que essas ideias dizem respeito ao que não está no seu lugar apropriado, que incomoda ou confunde a ordem (GROSZ, 1994). Como KRISTEVA, 1982, p. 4, explica, não é a falta de clareza ou saúde que causa a abjeção, mas o que perturba a identidade, o sistema, a ordem, é o que não respeita fronteiras, posições e regras, enfim, diz respeito ao que está no entre (in-between), ao que é ambíguo ou misturado.
66 Chris SHILLING e Philip MELLOR, 1996.
67 Joseph LéVY e Jonathan VIDAL, 1996.

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