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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.19 no.2 Florianópolis May/Aug. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2011000200009 

DOSSIÊ GÊNERO E SEXUALIDADE NO ESPAÇO ESCOLAR

 

Apresentação

 

 

Cristiani Bereta da SilvaI; Paula Regina Costa RibeiroII

IUniversidade do Estado de Santa Catarina
IIUniversidade Federal do Rio Grande

 

 

Desde o ano de 2006, temos coordenado o Simpósio Temático Gênero e Sexualidade nos Espaços Escolares, no Seminário Internacional Fazendo Gênero, que visa oportunizar um espaço de discussões e reflexões relativas às questões de gênero e sexualidades nas práticas escolares da Educação Básica, pensadas, aqui, como construções culturais, sociais e políticas. Nesse Simpósio Temático buscamos promover debates sobre como se produzem as identidades e diferenças sexuais e de gênero dos sujeitos envolvidos nas relações escolares, enfatizando-se também suas intersecções com questões de classe, raça e geração.

Assim, vínhamos percebendo a necessidade de discutirmos a escola como espaço de práticas sociais e pedagógicas constituidoras de mecanismos que criam e recriam formas diversas de relações de poder, bem como espaço de debates sobre as implicações das relações de gênero e sexualidades nas práticas de inclusão/exclusão de alunos/as, tanto nos processos de ensino"aprendizagem como nos de acesso às condições de possibilidade a todas as outras formas de promoção social.

O último dossiê da Revista Estudos Feministas que articulou, especificamente, gênero e educação foi publicado em 2001. Nesse sentido, enfrentamos o desafio de organizar novamente um conjunto de trabalhos que busca pensar questões relacionadas tanto às sexualidades quanto ao gênero nas práticas escolares e em outros espaços educativos. O presente Dossiê - Gênero e sexualidade no espaço escolar - se constitui numa oportunidade ímpar de realizarmos interlocuções com estudiosos/as pertencentes a grupos de pesquisas nacionais e internacionais que vêm, ao longo dos anos, se dedicando a pesquisar, divulgar e participar de políticas públicas sobre as temáticas que entrecruzam corpos, gênero e sexualidades.

Os artigos que seguem constituem uma rede de textos que transitam por pesquisas realizadas em diversos espaços educativos e com diferentes sujeitos, e que buscam discutir como corpos, gênero e sexualidades são continuamente produzidos, significados e ressignificados na e pela cultura. Esses diferentes espaços constituem-se em uma dimensão importante dessas produções.

O artigo da historiadora norte-americana June E. Hahner, "Escolas mistas, escolas normais: a coeducação e a feminização do magistério no século XIX" abre o Dossiê. Sua inserção presta uma homenagem aos estudos sobre a Educação que se preocuparam com a história das mulheres articulada às questões de gênero. O artigo explora aspectos históricos sobre o lugar da coeducação no momento em que o magistério primário passou da ocupação majoritariamente masculina, nos meados do século XIX, para a ocupação feminina, no século XX. A educação de meninas e a feminização do magistério, ocorridas ainda no século XIX, são analisadas no fluxo das reformas ocorridas no final do século XIX e só podem ser entendidas a partir da ideia de modernização instaurada no país, na transição para o século XX.

Ainda sobre a profissão docente, mas sob um recorte temporal recente e numa perspectiva das relações de gênero, os autores Ana Paula Costa e Paulo Rennes Marçal Ribeiro, no artigo "Ser professora, ser mulher: um estudo sobre concepções de gênero e sexualidade para um grupo de alunas de Pedagogia", investigam as concepções sobre mulheres, profissão e relações de poder de um grupo de alunas do curso de Pedagogia que já atuam como professoras em escolas. Os discursos sobre relações de gênero e sexualidade dessas alunas encontram respaldo nas diferenças biológicas, o que faz com que essas mulheres admitam características inatas ao sujeito masculino e ao sujeito feminino, como também uma só possibilidade de viver os desejos e as práticas sexuais, ou seja, a heterossexual.

As professoras e pesquisadoras da Faculdade de Educação Física da Unicamp, Helena Altmann, Eliana Ayoub e Silvia Cristina Franco Amaral, assinam o artigo "Gênero na prática docente em Educação Física: 'meninas não gostam de suar, meninos são habilidosos ao jogar'?", que analisa como o gênero perpassa a prática docente em Educação Física, a partir da análise de questionários abertos respondidos por professores/as de Educação Física de escolas públicas da Região Metropolitana de Campinas, São Paulo. Segundo as autoras, as questões de gênero não são consensuais entre os/as docentes; além disso, diferenças de desempenho de meninos e meninas nas práticas corporais aparecem como a principal fonte de conflitos e o aspecto mais considerado durante o planejamento.

Partindo do pressuposto de que meninas ainda no presente são tratadas diferentemente dos meninos em sistemas educacionais, o artigo "Práticas pedagógicas reprodutoras de desigualdades: a sub-representação de meninas entre alunos superdotados", de autoria de Ana Paula Poças Zambelli dos Reis e Candido Alberto Gomes, investiga como as alunas são tratadas no Programa de Atendimento ao Aluno com Altas Habilidades/Superdotação. A pesquisa revelou que a subestimativa dos talentos femininos ocorre na seleção e indicação de discentes pelos professores do ensino regular, antes da entrada das meninas no Programa.

O artigo "Sexualidade na sala de aula: tecendo aprendizagens a partir de um artefato pedagógico", assinado por Benícia Oliveira da Silva e Paula Regina Costa Ribeiro, discute a seção "Sexo" da revista Capricho como um artefato cultural. Como artefato, a Revista constitui-se em uma pedagogia cultural que produz e divulga significados acerca da temática sexualidade, operando não apenas como fonte de informação ou entretenimento, mas também oportunizando a discussão de questões sobre anseios, medos, prazeres, comportamento, gênero, corpo, que vão além das discussões presentes no currículo escolar, como sistemas genitais, métodos anticoncepcionais e doenças sexualmente transmissíveis.

Em outra abordagem sobre jovens e gênero, temos a discussão de Shirlei Rezende Sales e Marlucy Alves Paraíso em "Juventude ciborgue e a transgressão das fronteiras de gênero", que aborda o processo de ciborguização da juventude na interface entre currículo escolar e currículo do Orkut (site de relacionamentos). A pesquisa que subsidia esse artigo investigou a interface entre o currículo de uma escola pública de ensino médio e as comunidades e os perfis dos/as alunos/as dessa escola no Orkut.

Sobre os limites da escola em lidar com os sujeitos que fogem às normas de gênero, temos o artigo "Na escola se aprende que a diferença faz a diferença". A autora, Berenice Bento, apresenta reflexões sobre os limites da escola em lidar com as demandas relativas a sexualidades e gênero, mais especificamente a transexuais e transgêneros.

Ainda sobre o espaço escolar, Fernando Seffner, no artigo "Um bocado de sexo, pouco giz, quase nada de apagador e muitas provas: cenas escolares envolvendo questões de gênero e sexualidade", analisa cenas escolares, as quais permitem observações singulares sobre como a escola e as relações aí estabelecidas são atravessadas por questões de gênero, sexualidade, raça, classe social, pertencimento religioso, moralidades familiares e geração.

Sobre textos e narrativas, temos três artigos instigantes que articulam representações sobre as relações de gênero a outras instâncias sociais e culturais no âmbito da infância. Sylvia Contreras Salinas e Mónica Ramírez Pavelic, no artigo "Análisis de textos literarios infantiles: avanzando en la des-construcción de códigos patriarcales", apresentam análises de textos que venceram o primeiro concurso infantil de literatura com enfoque em gênero, realizado e coordenado pelo Ministério de Educação do Chile, em 2008. Para as autoras, os textos vencedores não fornecem elementos para a desconstrução do sistema patriarcal, observando-se ainda a ausência de outras práticas discursivas, principalmente de referentes que buscam relações mais equitativas e que fazem parte dos esforços realizados não apenas pelo Chile, mas por outros países.

No artigo "Era uma vez uma princesa e um príncipe...: representações de gênero nas narrativas de crianças", Constantina Xavier Filha analisa como as crianças constroem representações de gênero a partir da descrição física e comportamental de princesas e príncipes dos contos de fadas clássicos. No estudo, ela observa que as representações são ligadas ao que socialmente e em termos hegemônicos é considerado o ideal de masculinidade e de feminilidade. Algumas resistências são observadas na produção textual dos meninos. As meninas parecem mais conformadas aos ditames de gênero, considerados como a possibilidade ideal e desejável para a sua constituição identitária.

O texto de Cláudia Maria Ribeiro, intitulado "Crianças, gênero e sexualidade: realidade e fantasia possibilitando problematizações", trabalha com a narrativa fílmica. A partir da seleção de três roteiros de filmes - "A ostra e o vento", "A teta e a lua" e "Inocente malícia" - e numa perspectiva de escrita rizomática, a autora entrecruza diferentes olhares sobre como o adulto vê o desejo da criança e como as crianças podem driblar esses olhares e, conforme coloca a autora, "encharcarem-se" das temáticas de sexualidade e gênero.

Ao finalizarmos a apresentação do Dossiê, esperamos que os artigos possibilitem construções de sentido e compreensões a respeito das temáticas apresentadas e provoquem outras pesquisas e interlocuções a fim de contribuírem para a discussão de questões centrais no estudo da sexualidade, tais como as identidades de gênero, a diversidade sexual, os corpos, as configurações familiares, os sentimentos, os prazeres, os desejos... Agradecemos o convite da Comissão Editorial para organizar o Dossiê e a colaboração da equipe da Revista.

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