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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.20 no.1 Florianópolis Jan./Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2012000100014 

ARTIGOS

 

Revendo estereótipos: o papel dos homens no trabalho doméstico

 

Revisiting stereotypes: the male role in household tasks

 

 

Maria Cristina Aranha Bruschini; Arlene Martinez Ricoldi

Fundação Carlos Chagas

 

 


RESUMO

Este artigo apresenta, de forma resumida, os resultados de uma pesquisa sobre a participação masculina no trabalho doméstico, no cotidiano familiar e no cuidado com os filhos pequenos. Os procedimentos adotados em tal pesquisa incluíram etapas de natureza qualitativa e quantitativa. A primeira contou com entrevistas exploratórias, debates com grupos de homens de renda familiar inferior a cinco salários mínimos, pais de filhos com menos de 14 anos, por meio da metodologia de grupos focais. Na parte quantitativa foram utilizados dados secundários sobre a participação masculina nos "afazeres domésticos" e sobre o tempo gasto em tais atividades, obtidos nas bases de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE) de 2006.

Palavras-chave: afazeres domésticos; masculinidade; paternidade; cotidiano familiar; articulação família e trabalho.


ABSTRACT

This article presents the findings which emerged from a research about the male participation in household tasks, in the family daily activities and in infants care. The procedures in this research included both qualitative and quantitative techniques. The first step (qualitative) consisted of exploratory interviews and debates with groups of males receiving a family income below 5 minimum wages that had children of 14 years of age or younger, by means of focus groups. In the second step (quantitative), we studied secondary information about the male participation in the "household tasks" and the time spent in those activities by means of data extracted from the PNAD/IBGE database of 2006.

Key Words: Household Tasks; Masculinity; Paternity; Family Daily Life; Articulation between Work and Family.


 

 

Considerações iniciais: por que esse tema e por que esse título?

Este artigo sintetiza os resultados obtidos em uma pesquisa realizada com o apoio do CNPq que versou sobre o envolvimento de homens no trabalho doméstico, na família e no cuidado com os filhos pequenos. Este estudo, por sua vez, foi suscitado por pesquisa anterior sobre o tema da articulação trabalho e família, realizada também com o apoio do CNPq, com mulheres/trabalhadoras de baixa renda (até cinco salários mínimos (SM) por família), com filhos menores de 14 anos, na qual constatamos, ao comparar dados da PNAD/IBGE de 2002 por sexo, que o percentual de homens que afirmava realizar algum trabalho ou afazer doméstico na semana anterior à pesquisa1 não era desprezível, embora muito inferior ao das mulheres - 45% (eles) ante 90% (elas) - o que representava mais de 30 milhões de homens com respostas afirmativas. Resolvemos então investigar se homens da mesma camada e configuração social da pesquisa com mulheres2 estavam mudando seu comportamento em relação a essa área reprodutiva da vida humana e, se isso fosse verdade, qual seria o seu significado para as famílias, o cuidado com as crianças e, portanto, a relação entre a família e o trabalho, assim como quais seriam as estratégias de articulação adotadas por seus membros e as políticas sociais almejadas. A razão do título adotado no projeto e em seus produtos resulta da percepção de que nós, feministas, sempre tivemos de que, embora as mulheres estejam ingressando em massa no mercado de trabalho, as relações de gênero não estariam sofrendo nenhuma alteração no interior das famílias, razão pela qual as trabalhadoras estariam sendo, cada vez mais, sobrecarregadas com a chamada "dupla jornada". Entretanto, algumas mudanças estão ocorrendo no comportamento masculino, o que teria impacto relevante sobre a articulação entre a família e o trabalho e as possibilidades que as mulheres teriam no mercado de trabalho.

 

O debate sobre masculinidade e paternidade no Brasil

Os estudos sobre homens e masculinidades ganharam força, no Brasil, a partir da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, das Nações Unidas, realizada no Cairo, em 1994, na qual foi enfatizada a necessidade de envolver os homens e os pais nas questões de saúde, sexualidade e reprodução, que até então diziam respeito somente às mulheres. Foi enfatizada também, nessa Conferência, a necessidade de envolvê-los na vida familiar com o objetivo de reequilibrar, em seu interior, as relações de poder, a fim de atingir maior igualdade entre os sexos.3 O feminismo e os estudos de gênero já vinham mostrando, desde muito antes, a necessidade de conquistar maior equilíbrio entre homens e mulheres, tanto na "esfera pública" quanto na "esfera privada", reivindicando que à maior participação das mulheres no mercado de trabalho e nas organizações políticas e sindicais deveria corresponder uma maior participação dos homens na vida privada, através de seu comprometimento não só com a vida sexual e reprodutiva do casal, mas também com a criação dos filhos e com a divisão das atividades domésticas.

 

Metodologia da pesquisa

O levantamento de dados nesta pesquisa seguiu, como na anterior,4 uma combinação de técnicas quantitativas e qualitativas. Na etapa quantitativa,5 foram analisadas respostas de homens e de mulheres às perguntas "cuidava de afazeres domésticos na semana anterior à pesquisa" e "quantas horas gastou por semana nos afazeres domésticos na semana anterior à pesquisa"6 para aqueles/as que responderam "sim" na pergunta anterior, a partir dos questionários das PNADs/IBGE de 2002 e 2006. Neste artigo, no entanto, optamos por apresentar os dados quantitativos relativos somente à PNAD de 2006. As respostas, mantendo o recorte de gênero, foram analisadas segundo variáveis de interesse, como idade, escolaridade, rendimento no trabalho principal, condição na família, condição de ocupação, frequência à creche, média de horas em afazeres domésticos, em ocupações selecionadas e outras.

Na parte qualitativa,7 foram feitas entrevistas exploratórias com pais de crianças pequenas ou mesmo recém-nascidas, indicados segundo a metodologia de "bola de neve", com o intuito de testar o questionário a ser utilizado como roteiro para os grupos focais, cerne da pesquisa, a serem realizados posteriormente. Foram realizados debates com dois grupos de homens de 20 a 45 anos, com filhos pequenos, menores de 14 anos, renda familiar de, no máximo, cinco salários mínimos e escolaridade máxima de ensino médio.

Foi levada em consideração a diversidade racial, tendo sido os grupos formados por brancos, pretos e pardos. A questão racial foi também levada em consideração nos dados quantitativos, a partir das categorias adotadas pelo IBGE: indígena, branco, preto/pardo e amarelo. Esses dados não revelaram diferenças relevantes entre brancos e pretos/pardos, tanto em relação aos percentuais de participação masculina no trabalho doméstico - 51,2% entre os brancos e 51,4% entre os pretos e pardos - quanto no que se refere ao número de horas dedicadas a essas atividades - 9,8 horas entre os brancos e 10,2 horas entre pretos e pardos. A mesma relação foi verificada entre as mulheres - 88% das brancas e 91,6% das negras afirmaram realizar trabalho doméstico -, que gastaram nessas tarefas 24,5 e 25,1 horas, respectivamente.8

Os grupos, realizados em março de 2009, foram compostos de homens casados, separados, solteiros ou viúvos, embora a situação conjugal do participante não tenha sido considerada como característica no momento do recrutamento. Contudo, merece ser destacada a diversidade de arranjos familiares que se apresentou na composição dos grupos, tais como jovens solteiros que se tornaram pais "por acaso", ficaram com a guarda do filho e continuaram morando com a família de origem; casados com filhos; e separados com filhos (nesse caso, alguns dos filhos moravam com a mãe e a família de origem dela, enquanto o pai visitava ou recebia a visita do/s filho/s periodicamente). No caso dos casados, suas esposas ou companheiras necessariamente deveriam ter uma atividade remunerada. Foram realizados dois grupos de 10 participantes, de 20 a 45 anos, um deles composto de empregados no setor formal, com carteira assinada e jornada integral de 8 ou mais horas diárias (Grupo 1); o outro grupo foi composto de homens desempregados e/ou trabalhadores autônomos ou conta própria, inseridos no setor informal da economia, com jornada de trabalho flexível ou parcial (Grupo 2). Os resultados da pesquisa seguiram os tópicos do questionário/roteiro utilizado na pesquisa com as mulheres,9 tanto para as entrevistas quanto para os debates: o conceito de afazeres domésticos; a divisão sexual e etária do trabalho doméstico; o uso do tempo na realização dos afazeres domésticos; estratégias de articulação10 do trabalho com a família e políticas sociais, integrando os resultados da análise quantitativa aos dos debates e das entrevistas e, na medida do possível, fazendo comparações com os resultados da pesquisa anterior, sobre o mesmo tema, realizada com mulheres.

 

Responsabilidades familiares, trabalho doméstico e afazeres domésticos: algumas definições

A noção de responsabilidades familiares de trabalhadores e trabalhadoras, segundo a Convenção 156 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), diz respeito ao cuidado e ao apoio a crianças dependentes e a qualquer membro da família "imediata" que necessite de cuidado ou apoio.

A definição da PNAD/IBGE limita-se ao domicílio e ao arranjo familiar nele contido. Os afazeres domésticos, para a PNAD, incluem

arrumar ou limpar toda ou parte da moradia; cozinhar ou preparar alimentos, passar roupa, lavar roupa ou louça, utilizando ou não aparelhos eletrodomésticos para executar estas tarefas para si ou para outro(s) morador(es); orientar ou dirigir trabalhadores domésticos na execução das tarefas domésticas; cuidar de filhos ou menores moradores.11

A inclusão desse quesito "afazeres domésticos" no questionário de 1992 da PNAD respondeu a demandas de pesquisadoras feministas que apontavam para a invisibilidade dessas tarefas, considerando-as inatividade econômica.12

Mesmo assim, essa definição é relativamente limitada se comparada àquela da OIT que extrapola o domicílio e o arranjo familiar nele contido. Nesta pesquisa, nos detivemos, na parte quantitativa, no trabalho doméstico no domicílio, uma vez que analisamos os dados coletados pela PNAD/IBGE. Na parte qualitativa, porém, esse conceito se amplia, na medida em que inclui diversas atividades relativas às responsabilidades familiares, como, por exemplo, o cuidado de filhos que não residem com os pais que participaram da pesquisa.

Ao analisar 25 casais de classe média baixa, Bruschini,13 entretanto, mostra que as atividades domésticas e familiares incluem inúmeras tarefas que se inter-relacionam e se sobrepõem, sendo várias delas intercambiáveis. Nesse trabalho, a autora detectou cinco blocos de atividades14 que estão incluídos na sua definição de trabalho doméstico.

De certa forma, portanto, trabalho doméstico é aquele conjunto de atividades realizadas para dar conta de parte das responsabilidades familiares que se circunscrevem ao domicílio e ao arranjo familiar nele contido.

Neste artigo, na etapa quantitativa, nos detivemos, apenas, nos quesitos referentes aos afazeres domésticos e ao tempo a eles dedicado, que são os investigados pela PNAD/IBGE, conforme definição anterior.

 

Resultados da pesquisa: a contribuição masculina nos afazeres domésticos

A participação masculina no trabalho doméstico foi uma constante na fala das participantes da nossa pesquisa anterior,15 porém sempre sob a forma da "ajuda". Isto é, a menção frequente da fala das mulheres era de que "ele(s) me ajuda(m)" (no caso do marido, mas também dos filhos do sexo masculino), o que indicava pelo menos duas características desse trabalho doméstico: 1) é uma atribuição feminina (portanto, os homens não o encabeçam, mas tão somente "ajudam" a realizá-lo); e 2) essa forma "periférica" que a "ajuda" masculina assume significa que essas tarefas estão entre o que sobra para ser feito (quando as mulheres não dão conta) ou o que os homens gostam ou preferem fazer.16 Assim, a participação dos homens no trabalho doméstico, quando há mulheres na família disponíveis para executá-lo, consubstancia-se nesse auxílio periférico e não obrigatório. Nessa mesma pesquisa, ocorreram ainda referências a uma "divisão": as participantes que diziam "eu divido" nem sempre queriam mencionar uma divisão equânime de tarefas, mas sim o papel ativo que tinham nessa divisão, isto é, eram elas que definiam quem deveria fazer o quê. Outra característica dessa "divisão" era que frequentemente ela se referia à distribuição entre a participante e os filhos, e, nesse caso, a divisão pendia mais para as meninas. Essa definição de tarefas poderia ou não resultar em divisões mais igualitárias de afazeres domésticos, também segundo a fala das participantes. Houve também, entre as participantes da pesquisa anterior, arranjos relativamente igualitários, nos quais todas as tarefas eram divididas. Esse poderia ser chamado de um "novo modelo", em que não há um ou uma responsável pelas tarefas domésticas, que são feitas conforme a necessidade: "ele me via fazendo e ia fazendo junto" ou "eu chegava em casa e a cozinha já estava arrumada". Porém, esse modelo era minoria entre as participantes dos grupos focais femininos e foi encontrado apenas entre as participantes mais jovens (na faixa de 20 a 35 anos).

Nas últimas décadas, esse cenário de transformações tem encaminhado as discussões sobre os afazeres domésticos em outra direção. A ideia de conciliação, ou articulação, como preferimos, leva em consideração a relação indissociável entre o trabalho remunerado (mais comumente realizado pelos homens e, mais recentemente, também pelas mulheres) e o trabalho reprodutivo desses trabalhadores (que inclui os afazeres domésticos e também o cuidado com os filhos), tradicionalmente realizado pelas mulheres, mas atualmente também com participação masculina. Aspectos como o crescimento de famílias formadas por casais de dupla renda ou duplo ingresso17 e o de famílias monoparentais femininas trouxeram novas questões sobre o problema, a ponto de levar a OIT a abrir uma linha programática denominada Work and Family (Trabalho e Família), tida como parte indissociável da noção de "Trabalho Decente" perseguida pela Organização. Essa discussão sobre responsabilidades familiares, iniciada nos anos 1960 a partir das trabalhadoras (que crescentemente ingressavam no mercado de trabalho) e depois estendida a homens e mulheres que trabalham, resultou na elaboração da Convenção 156, de 1981. Esse documento contém uma definição de "responsabilidades familiares" e sugere diretrizes para o tratamento da questão da conciliação18 entre o trabalho e a família. À época da abertura de assinaturas, o ordenamento jurídico brasileiro anterior à Constituição de 1988 considerava o homem o chefe da família e não previa a igualdade entre homens e mulheres, razão pela qual o Brasil afirmou, à época, que sua legislação interna era incompatível com o conteúdo da Convenção 156.19 Porém, com a promulgação da Constituição de 1988, seguida pela adoção do Novo Código Civil, em 2002, não mais se colocam esses obstáculos, por isso a possibilidade de assinar a Convenção 156 deveria ser novamente debatida.20

 

Conceito de afazeres domésticos dos participantes

Apesar das mudanças apontadas na literatura e pelas mulheres entrevistadas na pesquisa anterior,21 o tema causou espanto entre os participantes dos grupos focais masculinos. A apresentação aos grupos, pela coordenadora da pesquisa, da questão a ser debatida foi recebida com caretas e expressões de espanto, como se os participantes sequer entendessem do que se tratava ou não gostassem do tema. No entanto, passado o espanto inicial, começaram a se manifestar sobre as tarefas que fazem parte, no entender deles, dessa categoria e sobre seu papel nesse quesito.22 O discurso deles, na maioria das vezes, foi fragmentado, evasivo e cheio de lacunas. Nas falas dos participantes, surgiu também a ideia de que o trabalho doméstico é algo que deve ser feito por homens e mulheres, e que "hoje em dia não tem mais diferença". Vejamos a seguir algumas falas:

Primeiro, básico, é a limpeza da residência. Ainda mais quando tem criança pequena, cuidados, quando chamam para ir na escola, reunião, essas coisas, época de férias, essas coisas, procurar estar presente. (A., 25 anos, pardo, separado, op. máquinas, com filhos de 3 e 6a., Grupo 1)

Levar as crianças na escola... (A., 33 anos, branco, casado, coord. atendimento seguros, com filhos de 12 e 9 a., Grupo 1)

Uma palavra que é importante, que cabe dentro do trabalho doméstico, que é primordial, é a higiene, dentro do lar, ter uma casa limpa, agradável, organizada. Acho que não pra nós, que já somos adultos, mas para as crianças, isso é fundamental, importante, a parte de higiene, é bom até para teu filho, porque você já vai condicionando àquele costume diário, de manter tudo limpinho, de saber se cuidar... (M., 37 anos, pardo, divorciado, segurança, com filhos de 10 e 4 a., Grupo 2)

Welzer-Lang, em estudo sobre a concepção de afazeres domésticos, encontrou diferentes concepções entre homens e mulheres em relação à limpeza e à arrumação do espaço doméstico. O autor designou o comportamento masculino de curativo e o das mulheres de preventivo. Isso porque, em razão da pressão do meio e das normas, as mulheres limpam muito, preocupadas que estão em serem reconhecidas como boas esposas e boas mães: "De algum modo, quando a casa delas está suja elas estão sujas".23 Entre os homens, aqueles que foram acostumados a fazer trabalho doméstico e não desarrumar muito o domicílio (enquanto suas irmãs aprendiam a limpá-lo) limpam-no apenas quando percebem que a casa está suja. Não são poucas as falas masculinas a esse respeito:

Sempre fica uma coisinha, ali, embaixo do tapete... Mulher sempre é mais... [...] Tem mais capricho. (J., 33 anos, pardo, casado, mecânico, com filhos de 6, 11 e 13a., Grupo 1)

Eu sou da lei do menor esforço. Procura não bagunçar muito, porque não dá trabalho para arrumar. Se não estiver no lugar, coloca. (S., 41 anos, branco, separado, corretor de imóveis, com filhas de 14 a., Grupo 2)

Outras falas revelam o significado da paternidade como a passagem para a vida adulta, isto é, uma maior responsabilização dos homens a partir de sua emancipação como "pais/casados", pela responsabilidade que esse fato acarreta, em termos morais e econômicos, como apontado por Arilha.24 O depoimento abaixo ilustra como o participante entende essa questão, apesar da pouca idade:

Antigamente, quando era moleque, não fazia nada. Aí [quando tive um filho] fui pagar aluguel, e tive que aprender tudo, fui saber o que é arrumar uma casa, e eu faço. Mais por obrigação, porque eu não quero ficar na casa suja, tem que fazer. (W., 20 anos, pardo, casado, promotor de vendas, com filho de 2 a., Grupo 1)

No caso do cuidado com os filhos, frequentemente mencionado nas falas, sobressai o papel do pai como provedor e como supervisor moral - aquele que corrige atitudes e comportamentos e sempre dá a última palavra na educação do filho - mais do que no papel de cuidar fisicamente do/s filho/s, ou seja, dar banho, alimentar etc.

Ele responde mais à mãe, obedece, mas ao mesmo tempo resmungando, chutando as coisas, agora, quando eu já falo com ele, ele me respeita mais. (A., 25 anos, pardo, separado, op. máquinas, com filhos de 3 e 6a., Grupo 1)

Mas isso é natural, os pais serem mais marrudos, serem mais incisivos, do que as mães. Entendem-se assim. Mas nem sempre é. (E., 38 anos, branco, casado, vendedor, com filhos de 12, 10 e 5 a., Grupo 2)

 

Divisão sexual e etária dos afazeres domésticos

O conceito de divisão sexual do trabalho, desenvolvido por Danièle Kergoat, implica dois princípios básicos: a imputação aos homens do trabalho produtivo e às mulheres do trabalho doméstico (ou reprodutivo); e, em segundo lugar, a atribuição de valores desiguais a esses trabalhos - de um lado, a valorização da produção (masculina) em detrimento da reprodução (feminina), de outro, a maior valorização do trabalho produtivo masculino em comparação ao trabalho produtivo feminino.25

O ingresso acelerado das mulheres no mercado de trabalho, a partir da metade da década de 1970, e as intensas transformações demográficas ocorridas no interior das famílias brasileiras trouxeram como uma de suas consequências a ruptura no tradicional modelo de divisão sexual do trabalho, no qual caberiam aos homens as atividades produtivas e às mulheres as reprodutivas, questões trazidas à tona pelos estudos de gênero. Nesta pesquisa, como na anterior,26 o tema da divisão sexual no trabalho doméstico foi abordado através de perguntas que visavam obter informações sobre "quem faz o que no cotidiano familiar" em relação aos cuidados com a casa, a família e os filhos.27

A análise quantitativa mostrou que, em 2006, 51,4% dos homens declararam cuidar de afazeres domésticos, em contraposição a 90% das mulheres.

Alguns depoimentos mostram que, mais do que apenas "ajudar", os homens muitas vezes assumem parte das tarefas domésticas, conforme sua competência e sua disponibilidade de tempo em relação ao trabalho produtivo que realizam:

Mas, por exemplo, lá em casa, sou casado há dois anos, e lá é tudo muito dividido, mesmo. Se eu for deixar tudo por conta da minha esposa, e organizar só tal coisa, não dá muito certo, também, ela cozinha muito bem, tal, só que ela é mais desorganizada que eu. Então a solução encontrada é dividir tudo, mas tudo mesmo. Às vezes eu estou lavando, ela está secando, ou vice-versa. Eu adoro cozinhar também, cozinho bem, modéstia à parte, então prefiro fazer comida, só que é dividido, um dia ela cozinha, outro dia eu cozinho [...]. (I., 24 anos, preto, casado, desempregado, com filha de 4 a., Grupo 2)

Em casa, ajudo mais à noite [...]. Eu chego 6 horas, e ela não está, e eu tenho que [...]. Às vezes tem cliente, em casa, e tem que fazer, porque ela está ocupada. [...] [fica trabalhando] Até onze horas, às vezes... (J., 33 anos, pardo, casado, mecânico, com filhos de 6, 11 e 13 a., esposa manicure, trabalha no domicílio, Grupo 1)

Em casa eu sou fácil para acordar cedo, e minha esposa não acorda, de jeito nenhum. Minha menina acorda 5 horas pra ir para escola. Eu que acordo, tiro ela, arrumo ela, mando para a escola, e faço café, minha esposa levanta 7 e meia, 8 horas, eu já saí, e quando ela chega, dá banho na menina, e fica pronta, eu que faço a janta, e ela só arruma a casa de final de semana. Durante a semana, eu que tomo conta. (A., 31 anos, branco, casado, montador câmara frigorífica, com filha de 5 a., Grupo 2)

A divisão sexual do trabalho doméstico se reproduz através dos filhos de ambos os sexos. A análise quantitativa revela que na faixa etária de 10 a 14 anos 46% dos meninos declararam cuidar de afazeres domésticos, mas a participação das meninas é muito superior - 78% - em 2006.

Ainda com relação à idade, foram os homens de 30 a 39 anos os que mais declararam realizar afazeres domésticos, 56% (Tabela 1), percentual que declina a partir dessa faixa etária, enquanto o das mulheres só declina após os 60 anos.

 

 

Alguns depoimentos mostram que há certo empenho dos pais em introduzirem mudanças no comportamento dos filhos em relação ao trabalho doméstico:

Sempre foi minha educação, também, e eu tenho exemplo de um vizinho, que não teve essa educação. Pra ele limpar o quarto dele parece um bicho de sete cabeças. Uma coisa que eu faço num simples piscar de olhos, ele tem dificuldade. Então, por isso, eu tiro como exemplo de ensinar o meu filho a ser mais descolado, fazer, não esperar que façam por ele. Porque neste caso, específico, o cara vai fazer uma comida, a mãe fala, não, sai daqui porque você não sabe. Já tira o cara como se fosse um imbecil. Na verdade não é assim. Tem que ensinar fazer... Você consegue... (D., 33 anos, branco, solteiro, decorador de eventos, com filho de 3 a., cuja mãe (do filho) trabalha em grande empresa, com bom salário, Grupo 2)

O depoimento a seguir é outro bom exemplo da divisão sexual do trabalho e, nesse caso, mostra o quanto a participação dos homens nos afazeres domésticos está condicionada à sua jornada de trabalho.

[Contar] Historinha, não dá, porque eu pego 8 horas no serviço, moro na Zona Leste, das 8 às 20, chego 10 horas em casa, trabalho aqui na Zona Oeste. Chego em casa e minha filha está dormindo. Dou um beijinho e mais nada. De manhã, acordo cedo, também, não tem como. Doze horas por dia. [...] Fim de semana, eu faço, ajudo a esposa, olho ela, deixo ela um pouco descansada. Segunda a sexta, só ela, então, sábado e domingo, eu saio com a menina, deixo ela [a mãe] livre, isso é bom, refresca um pouco a cabeça dela, porque é tudo pra ela. Quando eu chego à noite, em casa, eu vejo que está alguma coisa desarrumada, em casa, eu vejo que ela está cansada, porque ela trabalha em casa de família, e deixa a menina com minha cunhada. Então, ela chega, fica com a menina, um pouquinho, mas vai dormir cedo, porque ela já está cansada. Então, se eu vejo que tem alguma coisa, de manhã, ela já vai ver que está arrumado, lavo louça, passo pano no chão, dou uma enxugada no banheiro, e isso é pra ajudar a gente, eu e ela. (S., 38 anos, pardo, casado, segurança, com filhos de 14 e 9 a., Grupo 1)

A renda e, principalmente, a escolaridade têm efeito sobre a participação de homens e mulheres nos afazeres domésticos. Enquanto as mulheres diminuem sua participação à medida que a escolaridade aumenta, com os homens ocorre o inverso. Entre os que têm 12 anos e mais de estudo, 53% dos homens responderam que cuidam de afazeres domésticos, cifra superior à do total masculino, 51,4%. Já entre as mulheres na faixa de 12 anos ou mais de estudo, 83% afirmaram cuidar de afazeres domésticos, cifra inferior à média geral feminina, 90% (Tabela 2).

 

 

Em relação à renda, a participação cresce entre homens e decresce entre mulheres à medida que o rendimento se torna mais elevado (Tabela 3), voltando a cair entre ambos os sexos na faixa mais elevada de rendimento.

 

 

É possível que essa tendência ocorra porque a renda mais elevada permite pagar auxílio externo remunerado, como o de uma diarista, assim como adquirir equipamento doméstico mais sofisticado, que poupa o tempo desse trabalho (por exemplo, microondas, máquinas de secar roupas etc.).

Pesquisas qualitativas mostram que o ingresso financeiro de um e outro cônjuge influencia de forma importante a negociação da divisão do trabalho doméstico.28 Nesta pesquisa, o depoimento a seguir é ilustrativo.

E quando a mãe dele [do filho] está junto, por ela, como falei, ganhar mais, ela acha que eu tenho obrigação de fazer por ela. Sempre que ela está comigo, eu que faço tudo. Ela fica de mera espectadora, mesmo. E a gente briga por isso. Porque não é porque ela tem um ganho maior, que eu sou obrigado a fazer tudo. Vamos dividir. Quando eu ganhar mais, você não vai precisar fazer mais. Por isso, eu ajudo bastante. (D., 33 anos, branco, solteiro, decorador de eventos, com filho de 3 a., cuja mãe (do filho) trabalha em grande empresa, com salário elevado, Grupo 2)

 

O uso do tempo nos afazeres domésticos

As investigações sobre o tempo têm tido papel importante ao desvendar pequenas e fragmentadas atividades que, de outra forma, teriam permanecido invisíveis. Ainda que os estudos de orçamento-tempo sejam limitados em certos aspectos, em determinado momento serviram para completar informações e checar discursos, além de contribuir para a visibilidade do trabalho doméstico. O real assunto dos estudos de orçamento-tempo não é o tempo em si mesmo, mas sim o uso que as pessoas fazem dele.29

No Brasil, estudos que adotaram essa metodologia foram incorporados àqueles sobre o trabalho feminino, nos anos 1970, com o intuito de tornar visível e valorizar a atividade doméstica, assim como outras formas de atividade sem remuneração, desempenhadas, sobretudo, por mulheres.

Alguns estudiosos, como Dedecca,30 chamam a atenção para a importância da questão do tempo e para a escassez de informações no Brasil sobre o tempo gasto em afazeres domésticos até a introdução de quesito sobre esse tema na PNAD/IBGE.31

A diferença de uso do tempo entre os sexos é expressiva em relação ao número de horas semanais de dedicação aos afazeres domésticos (10 horas - eles - e 25 horas - elas -, conforme Tabela 1). Se for considerada a faixa etária dos homens de 30 a 39 anos (em que declararam a maior participação em afazeres domésticos), a dedicação gira, em média, em torno de 10 horas, muito inferior à das mulheres, que é de 27 horas na mesma faixa etária (Tabela 4).

 

 

A participação masculina no trabalho doméstico é mais alta quando os homens estão na condição de "desocupados" em relação à participação daqueles classificados como "ocupados" (62% ante 52,3%, de acordo com a Tabela 5), o que representa uma mudança relevante na atitude masculina se comparada àquela que foi observada em trabalhos anteriores.32

 

 

Os desocupados trabalham quase 4 horas a mais nos afazeres domésticos do que os que estão ocupados. No caso das mulheres, essa diferença é ainda maior. Entre os que trabalham, os dados para 2006 revelam que eles gastam, em média, cerca de 43 horas nas atividades produtivas e 9,3 nas reprodutivas, enquanto com as mulheres na mesma condição ocorre precisamente o contrário: gastam 37,3 horas em atividades produtivas e 19,7 horas nas atividades reprodutivas. Isto é, enquanto as mulheres trabalham no total uma média de 62 horas semanais, os homens totalizam 57 horas (Tabela 6).

 

 

A quantidade de horas dedicada pelos homens ao trabalho doméstico está diretamente relacionada à maior ou menor disponibilidade de tempo, tendo em vista o trabalho produtivo que realizam, como se depreende a partir do depoimento a seguir.

Normalmente, lá em casa, eu que arrumo mais, a comida sempre deixo pra ela fazer, eu sou uma negação na cozinha, como eu chego cedo em casa, eu faço cinco lojas de motos, e posso chegar cedo como posso chegar dez horas da noite, aí, eu chego cedo e deixo tudo arrumado. Porque não tem o que fazer... Aí vou fazendo, arrumando louça, uma cama, até passando pano no chão. (W., 20 anos, pardo, casado, promotor de vendas, com filho de 2 a., Grupo 1).

Note-se que os que têm renda mais baixa trabalham maior número de horas semanais - cerca de 10 - do que os que têm renda mais elevada - 7,7 horas entre os que ganham mais de 10 SM. Entre as mulheres com rendimento até um SM, a dedicação aos afazeres domésticos é de 24,3 horas, enquanto esse número cai significativamente entre as que ganham mais de 10 SM (Tabela 7).

 

 

Essa tendência se repete segundo a escolaridade. Entre os que têm menos de um ano de instrução, os homens dedicam 11,5 horas ao trabalho doméstico em 2006 e as mulheres da mesma faixa dedicam cerca de 29 horas. Entre os mais instruídos (12 anos ou mais), a diferença entre os sexos diminui, pois, enquanto os homens dedicam 9 horas, as mulheres dedicam 19 (Tabela 8).

 

 

Os depoimentos dos participantes dos grupos revelam uma dedicação de 2 a 3 horas diárias aos afazeres domésticos, embora o que sobressai é o seu maior empenho nessas atividades nos finais de semana:

[...] em média 2 ou 3 horas por dia. Senão atrasa... Mas aí, mais é no domingo, que eu fico em casa. Sábado eu trabalho, também. Mas a maioria é no domingo. (J., 33 anos, pardo, casado, mecânico, com filhos de 6, 11 e 13 a., Grupo 1)

Eu trabalho mais bastante, em casa, de sábado. Domingo eu saio, vou jogar bola, mas sábado eu fico praticamente o dia todinho... Sábado, quase o dia todo, acordo às 8 horas, começo a fazer almoço, limpar a casa, a mulher se preocupa mais com roupa... (G., 30 anos, branco, casado, segurança, com filhos de 4 e 2 a., Grupo 1)

Como não deixo acumular, umas duas horas, duas horas e meia... Mas se minhas filhas vêm para a casa, eu danço, porque elas vão embora, e eu tenho que arrumar a casa, varrer, comeram salgadinho, pediram pizza, aí o trabalho, depois que elas vão embora, é maior. (S., 41 anos, branco, separado, corretor de imóveis, com filhas gêmeas de 14 a., Grupo 2)

Ultimamente deixo mais para o final de semana, [...] na época em que eu era casado, aí era o dia todo, pegava os finais de semana, e minha esposa trabalhava de final de semana, e eu sou muito chato com esse negócio de limpeza. Eram muitas horas, mesmo, lavar banheiro, tirar tapete, dar uma geral, na casa, eram muitas horas... Sábado é dia de faxina, arrumar cama, passar roupa... Aquela disfarçada que você dava durante a semana, no final de semana, você ia retirar. [...] Agora, como está mais light, me organizo mais nos finais de semana, e gasto umas 2 horinhas, com meu quarto, às vezes ajudando o resto da casa. (M., 37 anos, pardo, divorciado, segurança, com filhos de 10 e 4 a., Grupo 2)

 

Estratégias de articulação do trabalho com a família e políticas de apoio à conciliação

Os depoimentos colhidos em relação a este tópico mostram que os homens, mais do que as mulheres, procuram manter preservado seu espaço produtivo, principalmente, na comparação entre os dois grupos, quando se trata daqueles que têm uma atividade formal, com jornadas mais determinadas e fixas de trabalho. Bruschini e Ridenti33 constataram igual comportamento entre profissionais autônomos de várias áreas, como arquitetos, marceneiros e outros, que realizavam trabalho por conta própria no domicílio. Os depoimentos colhidos nesta pesquisa são contundentes em relação a essa questão:

Eu trabalho em banco, e é estressante. Trabalho com porta giratória, o dia todo você fica estressado. [...] Chego em casa cansado, com aquilo na cabeça, é psicológico, nego já está aí com o psicológico em você, te deixar nervoso, pra você xingar ele. Se você não estiver com a cabeça certa, acaba fazendo besteira. Já aconteceu em muitos bancos de o vigilante matar o cliente. Na Vila Sonia, mesmo, o cara foi tentar pegar a arma do vigilante, e ele deu um tiro no peito, dele, na hora. Porque é estressante. [...] o trabalho é estressante... [...] o pessoal de casa não tem culpa do que acontece no serviço, e tem que saber dividir serviço e família, tem que ter essa divisão. É complicado você trabalhar 12 horas, chega em casa você toma banho, relaxa, e de manhã acordar, de novo, você ver o filho dormindo, dar um beijinho e mais nada, porque, como? [...] Moro na Vila Formosa, vou para Zona Oeste, Avenida Sumaré. Olha, dois ônibus todo dia, a empresa não paga metrô nem ônibus, nem integração. (S., 38 anos, pardo, casado, segurança, com filhos de 14 e 9 a., Grupo 1)

Se você levar problema da sua casa para o serviço, você não resolve tudo direito. Problema de serviço resolve lá. E de casa resolve quando chegar em casa. É difícil você resolver, então você atrapalha, nem trabalha nem resolve. Depois do serviço resolve o problema. Nem telefone eu atendo durante o serviço. Eu desligo. Todo dia é novidade, todo dia é risco, tem alguém xingando você, o risco é toda hora, 24 horas, você fica pensando, um dia pode acontecer, amanhã pode acontecer, você não confia em ninguém, na porta... É mais fácil levar problema do serviço pra casa do que o contrário... (G., 30 anos, branco, casado, segurança, com filhos de 4 e 2 a., Grupo 1)

Se você misturar a profissão com os problemas de casa, você complica a sua vida. Mas quando chama atenção, o seu chefe, e você leva pra casa, aí complica. Você tem que deixar os serviços lá, e não trazer para casa, e separar os dois... (J., 33 anos, pardo, casado, mecânico, com filhos de 6, 11 e 13 a., esposa manicure, trabalha no domicílio, Grupo 1)

Uma das estratégias de articulação apontadas pelos participantes do Grupo 1, cujas jornadas giram em torno de 8 ou mais horas, é a redução ou, pelo menos, a flexibilização da jornada de trabalho, o que, segundo eles, facilitaria maior dedicação à família e aos filhos, como ilustram os depoimentos a seguir.

Ah, gostaria [de reduzir a jornada de trabalho]. Iria me facilitar bem. É a oportunidade que não tenho, a facilidade que a gente não tem. [...] Deveria abrir, pelo menos pra gente que trabalha até mais tarde, um supletivo, que facilitaria bem pra mim. E se a jornada de trabalho diminuísse, e eu teria mais tempo de ficar com minha filha. (S., 38 anos, pardo, casado, segurança, com filhos de 14 e 9 a., Grupo 1)

Eu entro umas 7 da manhã, e saio às 4 da tarde, chego em casa umas 5 horas, e consigo passar um pouco mais de tempo com meus filhos... Então ainda tenho um pouco de tempo pra ficar... Meu filho chega da escola as seis, e não é tão apertado. Eu saio cedo, meu filho está dormindo, e minha filha acordando para ir para a escola. Quando eu chego, ainda estão acordados, e ainda dá pra passar umas 4, 5 horas... Já passo um momento com eles, e de final de semana, é deles, é sábado e domingo deles. Até para agradar, de quarta-feira... Eu chego em casa à noite cedo... (A., 33 anos, branco, casado, coord. atendimento seguros, com filhos de 12 e 9 a., Grupo 1)

Os depoimentos também mostram que, enquanto suas companheiras cuidam das estratégias mais "cotidianas" de articulação, tais como deixar as crianças com a mãe, a vizinha ou a cunhada, procurar vaga na creche e outras, a preocupação deles volta-se mais para estratégias que se relacionam ao mundo do trabalho, envolvendo as empresas nas quais trabalham, como a flexibilização da jornada de trabalho. Em contraposição ao grupo composto de homens que trabalham com vínculo formal e em tempo integral, alguns depoimentos sobre o mesmo tema, entre os desempregados e autônomos, com horários mais flexíveis, são contundentes em demonstrar maior envolvimento com as responsabilidades familiares, em especial com os filhos:

Se eu pudesse ele [o filho] jamais iria sozinho [para escola]. Quando estou em casa, eu vou com ele. Minhas filhas, atualmente, minha ex-mulher que leva e busca, como ela trabalha como autônoma, está em casa, ela conseguiu conciliar os horários. E este ano melhorou porque as duas estão no mesmo horário, as duas na parte da manhã, e teve um período, ano passado, em que eu trabalhei como motorista da [órgão público], tinha dias que dava para sair mais cedo, e duas, três vezes, por semana, pelo menos, eu ia buscar a mais velha, que estava estudando no período da tarde. Eu sempre que podia estava presente na escola, até mesmo para você ver o ambiente em volta, e ao mesmo tempo o pessoal ver o pai e mãe sempre presentes, ali. Eu acho que é importante, assim, infelizmente a gente gostaria de estar 24 horas por dia com nossos filhos, mas não dá. (M., 37 anos, pardo, divorciado, segurança, com filhos de 10 e 4 a., Grupo 2)

Eu adoro ficar com o H., adoro cuidar dele, eu curto sair com ele pra feira, ir pra feira com ele é muito engraçado, porque as pessoas olham com estranheza e pra mim é super comum, desde quando ele era bem menor, já era assim. Até quando eu estava passando, algumas vezes que eu andei reparando nas placas de fila preferencial, por exemplo, na maior parte fala "Mulheres com crianças no colo...", não são pessoas com crianças, são mulheres com crianças, os homens estão sempre fora disso, só entram quando são idosos. (P., 38 anos, branco, casado, desempregado, professor, com filho de 1 a. e 4 m., entrevista)

Porém, embora muitos homens estejam sensibilizados para maior dedicação à família e aos filhos, as empresas e as políticas parecem não se dar conta dessa transformação em curso:

Sempre tem [problema] com homem, eu acho que mesmo as empresas que são boas, pelo menos eu, particularmente, nas últimas duas que trabalhei, minha esposa teve que fazer um trabalho, e eu falei, "preciso ir na reunião do meu filho, posso chegar, até falei com a professora, vou até a reunião, para ela me explicar, e tal", eu falei, "vou chegar duas horas atrasado". Me falaram, "cadê sua esposa?". - É um absurdo, isso aí. Na [empresa], uma vez, meu filho estava passando mal, e me ligaram, e avisaram, eu cheguei no meu supervisor, e falei, "preciso ir, porque meu filho está passando mal, tenho que ir no hospital. Posso sair?". - "Logo agora? Tem uma fila de vinte, meu!". - "Fabiano, meu filho está passando mal". - "Caramba, lá em casa é assim, também, qualquer coisa que acontece, me chamam". Falei, "meu filho, Fabiano, eu tenho que ir. Falta só uma hora... [...] Às vezes [o bem-estar da família] é mais importante do que dinheiro. [...] Às vezes não está num dia legal, está faltando alguma coisa, às vezes você discutiu, então só uma conversa, você saber que seu superior está preocupado com você, como está a família, está precisando de alguma coisa, vamos ver no que pode te ajudar. [...] Minha família em primeiro lugar". (I., 24 anos, preto, casado, desempregado, com filha de 4 a., Grupo 2)

Eles (os patrões) colocam como se o homem não tem que cuidar dos filhos. (S., 26 anos, preto, separado, músico, com filhos de 6 e 4 a., Grupo 2)

Mas, sinceramente, se eu fosse um empresário, por tudo que eu já passei, acredito eu que o relacionamento familiar é muito importante dentro de uma empresa. E as empresas, elas precisavam olhar mais o lado da mulher. Porque muitas vezes ela não pode trabalhar para ajudar o marido, porque ela não consegue vaga na creche, então ela tem que ficar com o filho [...]. Algumas empresas já têm a própria creche. Mas acho que também falta o governo fazer uma parceria com essas empresas, para facilitar para elas, com projetos, ver o lado social, dar desconto no imposto para empresa que fizer isso... (J. A., 40 anos, pardo, divorciado, desempregado, com filho de 13 a., Grupo 2)

Eu vejo assim, que já está caminhando para essa mudança. Antes, as empresas não tinham departamento de RH, que são os Recursos Humanos, era administrado só como pessoal, parte de pagamento, a parte financeira da empresa, com relação aos funcionários. Hoje a criação dos RHs, estão voltados um pouco pra isso, embora ainda estão fechadas, visando só a empresa, não está visando o pessoal. A empresa [...] valoriza o pessoal, está preocupada com a família, com a saúde, com benefício, para essas pessoas, ela está trabalhando num departamento adequado? O ambiente em que ela está trabalhando é legal? Tem ar-condicionado, não tem ar-condicionado? Será que ela se dá bem com ar-condicionado? Olha, aquela pessoa não é boa para ficar nessa sala, vamos mudar ela de sala, se tem outra sala. Assim, o RH, ele tem que estar mais voltado na atividade que ela foi incluída para fazer, do que ficar pensando simplesmente na empresa. Ela tem que fazer valer a realidade do que é o RH, que é recursos humanos, cuidar dos recursos humanos da empresa. O que é humano? É quem está trabalhando, prestando serviço. São 20 famílias, ali? Não é só receber o dinheiro, só o benefício. Está começando a caminhar. Mas ainda falta muito. (E., 38 anos, branco, casado, vendedor, com filhos de 12, 10 e 5 a., Grupo 2)

São poucas as empresas que se mostram mais sensíveis aos problemas familiares de seus empregados, sejam eles homens ou mulheres. Os depoimentos abaixo revelam algumas empresas exemplares.

[...] já precisou de eu ter que levar [médico], aí eu peço para o [chefe] e ele deixa... aqui eu nunca tive problema. O [chefe] fala "Tudo bem, traz o atestado aí!". Eu nunca tive problema, aí eu vou lá e ajudo a levar, quando ela estava trabalhando e tinha uma vizinha que a gente pagava para olhar as crianças, porque uma ia de manhã para a creche e a outra ia à tarde. (M., gráfico, de empresa privada de porte médio, pardo, casado, com 3 filhas pequenas, entrevista)

Entre as políticas públicas que favorecem a articulação do trabalho produtivo com a família e, principalmente, com os filhos pequenos,34 destaca-se a creche. Segundo dados da PNAD/IBGE de 2006, apenas 15,5% das crianças de 0 a 3 frequentam creche nessa data, das quais 58% em creches públicas. Quarenta e três por cento das crianças de até seis anos de idade frequentam creche ou pré-escola35 na mesma data.36

As creches, segundo vários participantes, são importantes estratégias para as mães que trabalham. Suas opiniões sobre essa instituição são variadas. Alguns mencionam que a creche pública é excelente, não deixando nada a dever às escolinhas particulares; outros são contra o horário integral, por acharem que cansa muito a criança, sem levar em conta a importância desse horário para as mães que trabalham. O terceiro depoimento revela um pai extremamente envolvido com o cotidiano dos filhos pequenos e a sua dificuldade em se relacionar com a creche na qual estava a filha, que ele considera despreparada para conduzir imprevistos relacionados à saúde dela:

A minha filha mais velha e a mais nova, usaram [creche]. Eu tive um probleminha com a primeira creche, que a minha filha mais velha usou [...] mas consegui resolver na base do diálogo, você levava a menina para a creche, aí, chegava, dava onze horas da manhã, e falavam "olha, pai, vem buscar a sua filha, que [ela] não está bem". Porque a menina chorou um pouquinho a mais, teve uma febrezinha, eu fiquei chateado [...] porque não teve um pronto-atendimento. Então, teve uma vez que minha ex-mulher me ligou chorando, ela trabalhava na zona norte. Eu falei, pode deixar, eu vou sair daqui e agora vou resolver. [...] Cheguei na creche, sentei com a diretora... Eu falei, a senhora não leve a mal, mas é o seguinte, vocês ligam quase todo santo dia... Eu trago a menina, ela está bem, não está chorando, não está com dor e não está com febre. Passa duas, três horas, vocês ligam para mim, para minha esposa, pra vir buscar. Não tem um primeiro atendimento? Me desgastei um pouco com isso. Porque ela trabalha na zona norte, eu trabalho na zona sul, os dois não podem ficar largando o trabalho pra vir buscar ela, pra levar no médico. (M., 37 anos, pardo, divorciado, segurança, com filhos de 10 e 4 a., setor informal, Grupo 2)

Se, por um lado, alguns dos participantes percebem as creches como instrumento eficiente de apoio ao cuidado com os filhos pequenos, principalmente se as mães deles trabalham, por outro lado, alguns denotam certo preconceito com relação às mães que fazem uso delas, não trabalham e, na opinião deles, ficam com o tempo "livre". Referem-se também a essa questão quando mencionam políticas como o Centro Educacional Unificado (CEU),37 no qual as crianças permanecem em tempo integral, estudam e têm atividades culturais, de esportes e lazer.

[tem mãe] que encosta a barriga lá, fica deitada, e põe os filhos lá pro CEU. Verdade. É... Minha vizinha fica o dia inteiro sem fazer nada, e o moleque dela está lá. E ele gosta mais de ficar lá do que ficar em casa. [...] Tem tudo. O filho passa 12 horas dentro da escola, e a mãe em casa... (F., 32 anos, pardo, solteiro, motoboy, com filha de 10 a., Grupo 1)

A Constituição de 1988 ampliou os direitos sociais dos trabalhadores de ambos os sexos, como pode ser constatado pela leitura de seu artigo 7º "Dos direitos sociais". Em resposta à demanda de grupos feministas, um dos novos direitos introduzidos foi a licença-paternidade.38

Um projeto inovador, implantado em 2008 em uma empresa privada sem fins lucrativos, ampliou a licença-paternidade de seus funcionários para 30 dias após os cinco dias previstos na lei, porém em regime de meio período. Vejamos algumas opiniões dos participantes dos grupos e de um dos entrevistados sobre essa iniciativa:

Com certeza foi boa (a licença de meio período), porque eu pude me aproximar muito mais de neném, das minhas outras filhas também [...]. Então quando a E. nasceu, que foi a primeira, praticamente eu não tive contato com ela, os primeiros seis, sete meses que é a fase mais gostosa da criança, eu não tive o contato. [...] Eu acho que é suficiente (meio período por um mês). Eu estava analisando e até comentei com um rapaz da gráfica que ele teve filho antes que eu e ele não teve a oportunidade de ter a licença... Porque é assim, [...] que de repente de eles derem um mês direto para pessoa acaba acontecendo o quê? Você vai acabar acordando mais tarde [...] Vai acabar descansando mais do que ajudando a mulher a cuidar da criança e do dia a dia do lar. Então conforme eu chegava lá e era o tempo certinho de eu dar um auxílio para ela, cuidar da casa, dar banho nas crianças. Às vezes chegava e dava até tempo de buscar na creche [...]. (M., gráfico, de empresa privada de porte médio, pardo, casado, com 3 filhas pequenas, entrevista)

[...] 5 dias, mais meio período durante um mês? [...] Adiantava bem. [...] É hora que você precisa. [...] Eu ajudei muito, porque eu saía para trabalhar, de manhã, e ficava lá, antes de ir, chegava à noite, passava, ficava, ficava, ia embora para casa. No outro dia, a mesma coisa. Então, participei bastante. (F., 32 anos, pardo, solteiro, motoboy, com filha de 10 a., Grupo 1)

A mulher fica muito mais debilitada... No caso, eu acredito que precisa muito mais que 5 dias... Aqueles que têm sorte de ter a mãe [ou seja, uma das avós da criança] perto, tudo bem... (A., 25 anos, pardo, separado, op. máquinas, com filhos de 3 e 6a., Grupo 1)

Além da licença-paternidade e do acesso a creches como políticas sociais prioritárias apontadas pelos participantes dos grupos, outros exemplos de apoio à articulação família e trabalho foram apontados por eles. Em primeiro lugar, mencionam iniciativas que procuram preencher o tempo entre o final do horário da escola e a volta dos pais do trabalho:

Ela [a mãe do filho] também leva... Não deixa de ser uma ONG, da Igreja... [...] É de segunda, quarta e sexta... [...] Acho que é das 4 às 6, algo assim. [...] [faz] Esportes, desenho, tem pedagogas, que dão auxílio, é uma fundação. E minha irmã faz parte dessa igreja, e conseguiu, e já ajuda a criança... [...] É, e o horário é livre, você pode pegar a hora que quiser, e fica brincando... (M., 37 anos, pardo, separado, superv. de autoatendimento, com filho de 5 a., Grupo 2)

Outras políticas públicas foram espontaneamente mencionadas pelos participantes quando esse tema foi abordado:

Minha esposa recebe bolsa-família, já ajuda. [...] Leve leite... Recebe leite, porque vem da escola. Governo está dando, não muito, mas ajuda... (S., 38 anos, pardo, casado, segurança, com filhos de 14 e 9 a., Grupo 1)

Ela [a mãe do filho] queria ter corrido atrás, não sabe nem se tem mais ainda, aquele negócio de vai e volta, e onde minha sogra mora, tem direito, as peruas, mas não vi mais... Porque pagar perua escolar é meio crítico... Só pra trazer embora, 100 contos por mês... [...] Só pra trazer, no caso. Levar, eu levo ele. Mas depois, na saída... Tentei até ver... É muito corrido, almoço, levar, e depois almoçar... (A., 25 anos, pardo, separado, op. máquinas, com filhos de 3 e 6a., Grupo 1)

Trabalhei na [empresa], e auxílio-creche era só para mulheres. [...] E auxílio-família,39 era uma coisa impressionante, não sei, mas acho que eram 12 reais... [...] Só que, detalhe, se eu fizesse 15 reais de hora extra, eles cortavam o beneficio... Pra quem compra [marca de leite em pó para recém-nascidos], dá para comprar uma lata. [...] Porque o leite seca rápido, da mulher, não pode amamentar, então é o leite indicado para recém-nascido. Está certo, melhor do que nada, vai, mas você faz uma hora extra, pra ajudar, e eles cortam-auxílio família. (I., 24 anos, preto, casado, desempregado, com filha de 4 a., Grupo 2)

O debate se encerra, neste último tópico, com afirmações enfáticas sobre o reconhecimento da necessidade de que os pais se envolvam no cuidado com as crianças, visando à melhor articulação possível entre o trabalho e a família:

Mas a mudança, para ser geral, na verdade, tem que partir de nós, pais, sermos participativos. Têm pais que se abstêm, não fazem nada. Em casa, não. Quando participamos, somos ativos, minha esposa é ativa. (E., 38 anos, branco, casado, vendedor, com filhos, 12, 10 e 5 a., Grupo 2)

A participação é muito importante. Estar sempre presente, é muito importante. Como ele falou, se o camarada está separado, ou casado, a presença é fundamental, do pai, e da mãe, estar participando da vida do filho, da filha, porque com certeza, o que você está plantando, agora, é o que [vai] refletir lá na frente. Se você ficar ausente, deixar ao deus-dará, amanhã, depois, daqui 15, 20 anos, você não vai poder abrir a boca para poder dizer nada. Porque o filho não vai aceitar. Vai falar, você sempre foi ausente, você nunca veio conversar comigo, saber se eu precisava de alguma coisa. Que você quer, agora? Vai exigir o quê? [...] Tentar ser o mais presente possível, olha, vamos na escola, o que está acontecendo. Às vezes, você mora em prédio, ele não se dá com o amiguinho, o que está acontecendo? E participar. Isso que vai formar o caráter do cidadão. (M., 37 anos, pardo, divorciado, segurança, com filhos de 10 e 4 a., Grupo 1)

 

Considerações finais

Foi constatado, através de outros dados colhidos em nossa pesquisa anterior40 sobre o tema da articulação família e trabalho, com trabalhadoras de baixa renda, mães de filhos pequenos,41 bem como através de dados do IBGE,42 que a participação dos homens nas atividades domésticas, embora fique muito aquém da das mulheres - 45 a 50% eles, 90% elas -, é relevante e deveria ser investigada. Foi o que fizemos nesta pesquisa, por meio de entrevistas e de debates com grupos de 10 participantes, trabalhadores com idades entre 20 e 45 anos, renda familiar inferior a cinco salários mínimos, escolaridade até ensino médio completo, com filhos de idade inferior a 14 anos. Foram discutidas, tanto nas entrevistas quanto nos grupos, questões semelhantes às que foram debatidas na pesquisa anterior, versando sobre os seguintes tópicos: o "conceito" de afazeres domésticos; a divisão sexual e etária dos afazeres domésticos; o uso do tempo nos afazeres domésticos; estratégias de articulação da família com o trabalho; e políticas sociais de apoio a essa articulação. Os resultados obtidos revelam algumas questões ainda desconhecidas na literatura sobre o tema, assim como outras que começam a ser desvendadas. No primeiro caso, merece ser assinalado o espanto demonstrado pelos participantes dos grupos com o tema a ser debatido - trabalho doméstico e cuidado com filhos -, prova irrefutável do quanto, a princípio, se sentem distantes das questões que dizem respeito à esfera privada da família e da reprodução. Contudo, passada a surpresa e iniciado o debate, os homens revelaram preocupação e envolvimento considerável com a limpeza e a higiene da casa e com o cuidado dos filhos. Muitos deles afirmam que dividem tarefas, "vão fazendo" sempre que é necessário e até chamam os filhos para eles aprenderem. Os depoimentos revelam um envolvimento inesperado, como "passar o pano na cozinha", "levar os filhos na creche", "conversar com a diretora da creche". Além disso, vários participantes dos grupos afirmam gastar 2 a 3 horas diárias nas tarefas domésticas, além de pelo menos um dia no final de semana para fazer ou ajudar a companheira a fazer uma faxina no domicílio, reservando o outro dia para o lazer com os amigos ou com a família. Essas afirmações nos levam a crer que, na verdade, os homens participam mais e gastam mais tempo em tarefas domésticas e cuidado com os filhos do que eles mesmos pensavam ao iniciar o debate.43 As estratégias de conciliação do trabalho com a família variam significativamente entre os grupos em virtude dos horários de trabalho, flexíveis ou não, de cada um. No primeiro grupo, a conduta adotada é manter separadas as esferas do trabalho e da família, ao mesmo tempo que os participantes aspiram a jornadas mais flexíveis para dedicar mais tempo aos filhos. No segundo, os depoimentos revelam maior dedicação aos filhos, tendo em vista as jornadas mais flexíveis. Os homens, ao contrário das mulheres pesquisadas anteriormente, preocupam-se primordialmente com estratégias empresariais que visem à conciliação trabalho e família, como a flexibilização, enquanto alguns mencionam que as empresas não estão preparadas para as mudanças que estão ocorrendo nas famílias e nas relações entre os sexos, como, por exemplo, a não autorização para a saída do trabalhador a fim de levar o filho ao médico ou a ausência da referência a "homens com criança de colo" nas filas preferenciais dos bancos e de outras instituições.

Da mesma forma que as mulheres, as creches são vistas pelos homens como uma política social importante para o cuidado das crianças. Porém, essa política continua associada ao trabalho feminino, por mais que alguns deles se envolvam com essa instituição. Outra política enfatizada foi a licença-paternidade, que, segundo eles, deveria ser ampliada.

Nesse sentido, considerando mudanças nas famílias e no relacionamento entre os sexos, é importante que seja repensado, por parte dos gestores públicos, o desenho de políticas sociais, geralmente fundamentado sobre a figura da "mãe trabalhadora", e não voltado para os trabalhadores com responsabilidades familiares, de modo geral. Esse conceito "trabalhadores com responsabilidades familiares" foi desenvolvido pela OIT, na Convenção 156, de 1981, que até hoje não foi assinada pelo Brasil. Essa Convenção trata de políticas relativas à articulação entre o trabalho e a família, levando em consideração trabalhadores e trabalhadoras com responsabilidades familiares. O documento afirma que as responsabilidades familiares dos trabalhadores abrangem não só o cuidado de crianças, mas também de outros membros das famílias que necessitem de cuidado ou apoio. A ideia que perpassa toda a Convenção é de que se deve garantir aos trabalhadores o direito ao trabalho, sem que essas responsabilidades sejam um empecilho ou fonte de discriminação entre homens e mulheres.44

À época, a Convenção 156 não foi assinada pelo Brasil sob o argumento de que a legislação interna do país não era compatível com a plena igualdade entre os sexos. Porém, tendo em vista que a Constituição de 1988 e o Código Civil de 2002 estabelecem a igualdade entre homens e mulheres, cabe encerrar este artigo defendendo enfaticamente a revisão da posição do Estado brasileiro em relação à Convenção 156, incentivando o debate sobre a criação de uma política nacional de articulação entre as responsabilidades familiares e as profissionais.

 

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SZALAI, Alexander. The Use of Time: Daily Activities of Urban and Suburban Populations in Twelve Countries. Paris: The Hague; Mouton & Co., 1972.         [ Links ]

WELZER-LANG, Daniel. "Os homens e o masculino numa perspectiva de relações sociais de sexo". In: SCHPUN, Mônica Raisa (Org.). Masculinidades. São Paulo: Boitempo; Santa Cruz do Sul: Edunisc, 2004. p. 107-128.         [ Links ]

 

 

Recebido em 25 de outubro de 2010 e aceito para publicação em 18 de agosto de 2011

 

 

1 Em resposta à seguinte pergunta incluída a partir da PNAD de 1992: "o sr. ou a sr.a cuidou de afazeres domésticos na semana anterior à pesquisa?".
2 Maria Cristina Aranha BRUSCHINI e Arlene Martinez RICOLDI, 2008.
3 Margareth ARILHA, Sandra UNBEHAUM e Benedito MEDRADO, 2001.
4 BRUSCHINI e RICOLDI, 2008.
5 Todas as tabelas utilizadas nesta etapa foram elaboradas por Cristiano Miglioranza Mercado.
6 As questões sobre afazeres domésticos são a 121 (na semana de [período de referência anterior à pesquisa]... o/a sr./a cuidava dos afazeres domésticos?), implementada a partir de 1992, e a 121a (quantas horas dedicava normalmente por semana aos afazeres domésticos?), implementada somente a partir de 2001. Para mais detalhes sobre sua inclusão da PNAD, ver a pesquisa anterior BRUSCHINI e RICOLDI, 2008.
7 Em razão da reduzida verba da pesquisa, financiada por bolsa de produtividade do CNPq, limitamos a etapa qualitativa à cidade de São Paulo, na qual as pesquisadoras estão estabelecidas, motivo pelo qual também só foi possível realizar dois grupos focais. Isso não significa que não possamos estender esta pesquisa para outras localidades futuramente.
8 Para média de horas semanais gastas em afazeres domésticos segundo raça/cor, ver Tabela 3 em BRUSCHINI e RICOLDI, 2010, p. 56. Ver Tabela 3 dos Textos FCC, v. 31, Série Textos FCC, que está disponível no site <http://www.fcc.org.br/biblioteca/publicacoes/textos_fcc/arquivos/1601/arquivoAnexado.pdf> (BRUSCHINI e RICOLDI, 2010).
9 BRUSCHINI e RICOLDI, 2008.
10 Preferimos o termo "articulação" já que "conciliação" remete muito mais à ideia de apaziguamento de duas esferas conflitivas, no caso, família e trabalho, em lugar da busca de um entrosamento entre ambas. A noção de conciliação, no âmbito internacional, foi construída com ênfase na crescente dupla responsabilidade feminina com o trabalho produtivo e o reprodutivo, mais do que a partir de uma visão global a respeito das responsabilidades familiares de trabalhadores e trabalhadoras, no sentido de articular as demandas do mundo da família e do trabalho (sobre essa questão, consultar Virginie GILSON, 2002; Annie JUNTER-LOISEAU, 1999; e RICOLDI, 2010).
11 INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 1992.
12 BRUSCHINI, 1998.
13 BRUSCHINI, 1990.
14 São eles (a numeração não significa ordenação ou hierarquia): 1) cuidados com a moradia familiar (limpeza, arrumação, cuidado de plantas, limpeza e manutenção de utensílios domésticos etc.); 2) alimentação e higiene pessoal, cozinhar, lavar utensílios, costurar, lavar e passar roupas); 3) prestação de cuidados físicos e psicológicos aos membros da família (cuidado com filhos, idosos ou dependentes); 4) administração da unidade doméstica (administração do patrimônio e das contas do domicílio e aquisição de bens de consumo); e 5) manutenção da rede de parentesco e de amizade (visitas, telefonemas e troca de presentes ou de pequenos favores, reforçando laços de solidariedade) (BRUSCHINI, 1990).
15 BRUSCHINI e RICOLDI, 2008.
16 Como constataram Bruschini (1990) e Bila Sorj (2004) em suas respectivas pesquisas.
17 Janet GORNICK e Marcia MEYERS, 2005.
18 Termo utilizado no texto da Convenção 156.
19 Note-se que as convenções da OIT não permitem ressalvas dos países-membros, que devem aceitar integralmente o seu conteúdo, ainda que a sua implementação seja gradual. Os países só poderiam adotá-las se estives-sem em perfeita consonância com sua legislação interna.
20 Segundo notícia publicada recentemente no jornal O Estado de S. Paulo (Caderno Feminino, 19 a 25 de setembro, p. 4-5), o Brasil deverá ratificar a Convenção 156, para o que vem se empenhando a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM). Para mais informações sobre a Convenção, ver BRUSCHINI e RICOLDI, 2008, especialmente o item 1.4, do Capítulo 1.
21 BRUSCHINI e RICOLDI, 2008.
22 Vale mencionar que, apesar do espanto e da resistência inicial em debater o tema, os participantes pouco a pouco se entusiasmaram com a discussão, a ponto de exceder o tempo previsto para os grupos focais.
23 Daniel WELZER-LANG, 2004, p. 115, grifo do autor.
24 ARILHA, 2001.
25 Danièle KERGOAT e Helena HIRATA, 2003.
26 BRUSCHINI e RICOLDI, 2008.
27 Algumas perguntas que foram feitas nos grupos: "Quem cuida dessas tarefas na casa de vocês? Vocês e suas companheiras dividem? Os filhos participam? Parentes ajudam? Há alguma preferência na execução dessas tarefas? Existem tarefas domésticas que só você faz? Existe alguma tarefa que você não realiza? E por quê?".
28 Michael BITTMAN et al., 2003.
29 Alexander SZALAI, 1972, p. 1.
30 Claudio Salvadori DEDECCA, 2004.
31 Ver nota 5.2.
32 BRUSCHINI, 1990; e Liliana SEGNINI, 2001.
33 BRUSCHINI e Sandra RIDENTI, 1995.
34 O tema foi abordado por meio de perguntas, tais como "A empresa na qual trabalha tem creche ou paga auxílio-creche?", "Recorrem a algum outro tipo de serviço (ONG, igreja, clube de mães)?", "Vocês recebem alguma ajuda do governo, através de programas sociais (bolsa família, leve leite etc.)? Já ouviram falar? Já procuraram se informar a respeito? O que você acha que poderia facilitar a participação dos pais no cuidado com as crianças e a família em geral (empresas, governo etc.)?".
35 Embora, como afirmam Dolores Kappel, Maria Cristina Carvalho e Sonia Kramer (2001, p. 35-36), existam vários critérios para definir as modalidades de educação infantil, as definições contidas no artigo 30 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) são as seguintes: I - creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até zero a três anos de idade; e II - pré-escolas, para as crianças de quatro a seis anos de idade.
36 Para a tabela de frequência à creche ou pré-escola em 2006, ver Tabela 10, de Bruschini e Ricoldi (2010, p. 63).
37 São escolas de educação em regime integral, com equipamentos (piscinas, teatro) e currículos diferenciados (com aulas de música e teatro, por exemplo), implantadas em vários bairros da capital paulista, a partir da gestão da prefeita Marta Suplicy (2001-2004).
38 A licença-paternidade consta do artigo 7º, inciso XIX, da Constituição Federal sem definição de sua extensão. Seu período foi definido no Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), art. 10, § 1º: "Até que a lei venha a disciplinar o disposto no art. 7º, XIX, da Constituição, o prazo da licença-paternidade a que se refere o inciso é de cinco dias".
39 Trata-se, na realidade, do salário-família.
40 BRUSCHINI e RICOLDI, 2008.
41 BRUSCHINI e RICOLDI, 2008 e 2009.
42 Utilizamos, para a pesquisa, CD-ROM com dados da PNAD/IBGE, compilado pela SPM em parceria com o IPEA e a Unifem (Luana PINHEIRO et al., 2008), com dados sobre participação (1996-2007) e tempo dedicado a afazeres domésticos (2001-2006).
43 Uma comprovação de tais afirmações só seria possível com a utilização da metodologia de observação participante, o que não era o objetivo da pesquisa. No entanto, podemos considerar que as falas masculinas representam, pelo menos, uma mudança de comportamento ou, pelo menos, de mentalidade em relação ao tema pesquisado.
44 Para mais informações sobre a Convenção 156 e o desenvolvimento da noção de responsabilidades familiares pela OIT, ver BRUSCHINI e RICOLDI, 2008, p. 29-36, item 1.4.