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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.20 no.1 Florianópolis Jan./Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2012000100019 

RESENHAS

 

Corpos que escapam

 

 

Elias Ferreira Veras

Universidade Federal de Santa Catarina

 

 

Abjeção e desejo: uma etnografia travesti sobre o modelo preventivo de aids.

PELÚCIO, Larissa.

São Paulo: Annablume-Fapesp, 2009.

Comecemos pelo começo do livro. Não pela "apresentação". Nem pelo começo que antecede o próprio texto ou se confunde com ele: a trajetória acadêmica da pesquisadora. Mas pelo começo que se apresenta antes de qualquer outra coisa aos/às leitores/as: a capa. A capa do livro Abjeção e desejo: uma etnografia travesti sobre o modelo preventivo de aids,1 de Larissa Pelúcio, publicado em 2009, objeto desta resenha, traz em destaque a imagem de uma travesti, de corpo escultural, blusa levantada, seios desnudos (quase) expostos e um sorriso que parece traduzir a ambiguidade de uma existência marcada pela abjeção e pelo desejo. A travesti se chama Verônica Rios.

Ao contrário de outras obras que analisam o "universo travesti"2 no Brasil e optam por uma capa mais "comportada", mais ambígua ou que invisibiliza o sujeito travesti, a capa do livro de Larissa Pelúcio não se limita apenas a informar o título e o subtítulo da sua pesquisa. A pesquisadora parece, desde o começo, querer provocar os/as leitores/as. Assim como fizeram algumas peças criadas por travestis na campanha governamental "Tenho direito de ser quem eu sou",3 o livro da pesquisadora, começando pela capa, parece convidar os/as leitores/as a olharem, a olharem de novo e verem além do preconceito. Verônica Rios sorri um sorriso de Monalisa que parece afirmar: "Tenho direito de ser quem eu sou".

Todavia, não exageremos nas aproximações entre o trabalho de Larissa Pelúcio e os discursos das campanhas preventivas oficiais, pois o objetivo de sua pesquisa é justamente analisar de modo crítico o modelo oficial preventivo para DST/aids direcionado para as travestis que se prostituem em São Paulo e como esse discurso é (re)significado pelas próprias travestis. Quais os limites, os avanços e os desafios enfrentados pelas campanhas preventivas? E ainda, como observa Berenice Bento no prefácio da obra, Larissa Pelúcio "quer conhecer o outro lado da moeda, aquele invisibilizado nas políticas e discursos oficiais: quem são os consumidores de sexo vendido pelas travestis? Como se relacionam com as travestis? São adeptos aos métodos oficiais de prevenção à DST/aids?" (p. 18).

Larissa Pelúcio é doutora em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Segundo sua página pessoal no site4 do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em que atua como pesquisadora colaboradora, suas pesquisas abordam temas como sexualidade, saúde, corporalidade, travestis e gênero. Atualmente é professora de Antropologia na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (campus Bauru, Departamento de Ciências Humanas, Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação).

O livro Abjeção e desejo é resultado da sua tese defendida em 1997, na UFSCar. Nas primeiras páginas do livro a autora revela que a perspectiva teórica inicial, que sugeria um "olhar quase epidemiológico da relação entre travestis e aids" (p. 26), foi se transformando com a "experiência etnográfica". Desse modo, questões ligadas à sexualidade e às relações de gênero, ausentes no início da pesquisa, passaram a assumir lugar central na sua interpretação. Também assumem destaque na obra da autora as reflexões do filósofo francês Michel Foucault, principalmente o conceito de "dispositivo", e da filósofa americana Judith Butler, de quem Pelúcio toma emprestado o conceito de "abjeção", que dá título ao livro.

Durante o trabalho de campo, a pesquisadora conviveu com múltiplos sujeitos (técnicas de saúde, travestis, agentes de prevenção, travestis que se prostituem, michês - homens que se prostituem -, T-Lovers - homens que gostam de ter sexo com travesti), transitou por diferentes lugares e vivenciou diferentes momentos de sociabilidade (agência pública de saúde, espaços noturnos do mercado do sexo, pensões das cafetinas, Dia T - encontro semanal realizado pelos T-Lovers em algumas cidades do país -, boates e festividades). Seu livro apresenta um rico mosaico, multifacetado e nem sempre harmonioso, das relações estabelecidas nesses territórios.

Larissa Pelúcio nos mostra que o alvo preferencial das políticas preventivas ainda tem sido os "desviantes", sejam eles/elas travestis, gays, prostitutas ou usuários de droga. Como afirma a autora, "em todos os casos, o que se quer regular são as práticas sexuais que escapam à proposta do sexo monogâmico, procriativo, heterossexual, não comercial, autorizado" (p. 34). Entretanto, os corpos escapam às tentativas de classificação, de controle e de sujeição.

Ao mesmo tempo que reconhece o esforço dos/das profissionais da saúde em acompanhar os novos paradigmas das políticas públicas de prevenção, alicerçadas em conceitos como "protagonismo político", "educação entre pares" e "prevenção dialogada", a autora reconhece, inspirada pelas reflexões de Michel Foucault e pela apropriação que Néstor Perlongher faz do conceito foucaultiano de "dispositivo", que essas políticas atuam como dispositivos de poder.

Na obra não se encontra nem elogio ao modelo preventivo para DST/aids, adotado pela agência pública DST/aids Cidade de São Paulo, nem crítica que desconsidere as transformações e os avanços das ações preventivas nesse campo, mas um olhar problematizador para as políticas de prevenção e as (re)significações dessas políticas pelas travestis.

Como lembra a pesquisadora, as travestis não são um problema de saúde pública, mas, via aids, acabam sendo tratadas como tal. O que o discurso preventivo parece não considerar, continua a autora, é que o problema das travestis é o estigma - e não a aids. Assim, as medidas de prevenção dirigidas a elas não se efetivam porque o entorno em que elas vivem permanece o mesmo. O que as coloca em permanente risco não é uma doença que pode levar até 10 anos para se manifestar, mas a dor do estigma que as expulsa de casa, fecha a porta da escola e, consequentemente, limita as possibilidades no mercado de trabalho, conclui Larissa Pelúcio (p. 132).

Quanto à apresentação do universo dos clientes das travestis, mesmo que a autora tenha trazido para o centro de sua discussão o universo dos T-Lovers, "admiradores das travestis", elegendo-os como "referentes quando se pensa na questão do apagamento da clientela" - abordagem que certamente diferencia o seu trabalho de outros estudos sobre o "universo trans" -, outros clientes, menos "organizados", e suas práticas sexuais e afetivas continuam na clandestinidade.

Assim, a abjeção não marcaria apenas a existência das travestis, mas também a dos/das seus/suas clientes. Não apenas as travestis teriam sua (a)normalidade certificada pelo sistema binário dos gêneros (masculino e feminino) que sustenta a heteronormatividade compulsória, mas os próprios clientes, que, mesmo afirmando reiteradamente a sua heterossexualidade, desejada ou desconstruída muitas vezes pelas próprias travestis, também estariam marcados pelo estigma e pela abjeção.

O trabalho de Larissa Pelúcio apresenta, contribuindo com suas próprias novidades, certo repertório temático também presente em outros estudos brasileiros sobre as travestis:5 o mundo da prostituição, as modificações corporais, as relações de gênero, as políticas de prevenção, a relação com os clientes e "maridos" etc. Insere-se, desse modo, ao lado de estudos antropológicos que nos últimos anos têm se preocupado em pesquisar as experiências das travestis brasileiras.

Esses trabalhos demonstram o pioneirismo das Ciências Sociais nas discussões de temas como as homossexualidades, as travestilidades, obrigando-nos a fazer uma incômoda pergunta: por que os/as historiadores/as têm se dedicado tão timidamente às questões sobre as homos-sexualidades e, principalmente, sobre as travestilidades? Qualquer familiaridade com a pergunta feita nos anos 1980 por Maria Odila Leite da Silva - "O que tornava difícil a história das mulheres eram a ausência de fontes ou a invisibilidade ideológica dessas?" -, lembrada por Joana Maria Pedro,6 não é mera coincidência.

 

Notas

1 Opto por usar a sigla "aids" em minúsculo em respeito ao modo como a autora a escreve em seu texto. Larissa Pelúcio (Richard MISKOLCI e Larissa PELÚCIO, 2009, p. 127) lembra que "o uso em minúsculas se deve [também] a uma perspectiva crítica em relação ao pânico sexual criado em torno da aids".

2 Larissa Pelúcio toma de empréstimo o conceito "universo trans" de Marcos Benedetti. De acordo com esses/as pesquisadores/as, essa expressão categoriza, "num conjunto identificável, os espaços de convívio das travestis, onde são tecidas as relações sociais que compõem o meio em que vivem, bem como o seu sistema material e moral" (p. 33).

3 Campanha governamental de promoção dos direitos humanos e de prevenção à aids, lançada em 2010, cujo material de sensibilização e de divulgação (cartazes, vídeos, folders, toques de celular) foi criado pelas próprias travestis. Nos cartazes estampados com fotos de travestis, sobressaem os dizeres: "Olhe, olhe de novo, e veja além do preconceito". Disponível no site <http://www.aids.gov.br/travestis>.

4 UNICAMP, 2011.

5 Principalmente, Marcos Renato BENEDETTI, 2005; Don KULICK, 2008; Hélio SILVA, 1993; e Alexandre Fleming VALE, 2005.

6 Joana Maria PEDRO, 2005.

 

Referências

BENEDETTI, Marcos Renato. Toda feita: o corpo e o gênero das travestis. Rio de Janeiro: Garamond Universitária, 2005.         [ Links ]

BRASIL. Ministério da Saúde. Campanha: Sou travesti. Tenho direito de ser quem eu sou. 2010. Disponível em: <http://www.aids.gov.br/travestis>. Acesso em: 7 ago. 2011.         [ Links ]

BUTLER, Judith. Cuerpos que importan: sobre los límites materiales y discursivos del "sexo". Buenos Aires, Barcelona, México: Paidós, 2002.         [ Links ]

FOUCAULT, Michel. A história da sexualidade 1: a vontade de saber. 11. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1993.         [ Links ]

KULICK, Don. Travesti: prostituição, sexo, gênero e cultura no Brasil. Tradução de César Gordon. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2008.         [ Links ]

MISKOLCI, Richard; PELÚCIO, Larissa. "A prevenção do desvio: o dispositivo da aids e a repatologização das sexualidades dissidentes". In: ______. Sexualidad, Salud y Sociedad - Revista Latinoamericana, Rio de Janeiro: CLAM-UERJ, n. 1, p. 25-157, 2009.         [ Links ]

PEDRO, Joana Maria. "Traduzindo o debate: o uso da categoria gênero na pesquisa histórica". História, São Paulo: Unesp, v. 24, n. 1, p. 77-98, 2005.         [ Links ]

PERLONGHER, Néstor. O negócio do michê: prostituição viril em São Paulo. São Paulo: Brasiliense, 1987.         [ Links ]

SILVA, Hélio. Travesti: a invenção do feminino. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993.         [ Links ]

UNICAMP. Larissa Pelúcio. Disponível em: <http://www.pagu.unicamp.br/node/17>. Acesso em: 7 ago. 2011.         [ Links ]

VALE, Alexandre Fleming. O vôo da beleza: travestilidade e devir minoritário. Tese (Doutorado em Sociologia) - Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2005.         [ Links ]