SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.20 issue1Sexo e anarquia: uma combinação explosivaA voz de Natalia Ginzburg author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.20 no.1 Florianópolis Jan./Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2012000100023 

RESENHAS

 

De raça, sexo e nação: uma epistemologia feminista em perspectiva histórico-política1

 

 

Marta Magda Antunes Machado

Universidade Federal de Santa Catarina

 

 

La matrice de la race: généalogie sexuelle et coloniale de la nation française.

DORLIN, Elsa.

Paris: Éditions La Découverte, 2009. 308 p.

Como compreender a matriz da raça pelas relações entre a história do sexo (e da sexualidade) e a história da política? Da série Gênero e sexualidade organizada por Éric Fassin, e publicado inicialmente em 2006, o livro da feminista e filósofa Elsa Dorlin - reeditado como Le livre de poche em 2009 - se inscreve no conjunto de trabalhos cuja tradição crítica, sobretudo a partir dos anos 1980, ganhou relevo com as transformações e os aprofundamentos do conceito de cultura e suas implicações para a produção do conhecimento nas Ciências Humanas. Nesse sentido, trata-se de uma obra de fôlego que se situa no campo da história e da filosofia das ciências. A autora faz parte das novas gerações de pensadores/as franceses/as que discutem problemas de gênero, sexo e sexualidade articulando-os com as lógicas sociais, percebendo-os em seu cruzamento com questões econômicas, religiosas, étnicas e/ou raciais etc. Especialmente entre os anos 1990 e 2000, as perspectivas abertas pelos estudos feministas nesse campo do conhecimento seguiam sendo exploradas mediante temas como política, violência, identidade, dentre outros. Com os novos impulsos do pensamento feminista e filosófico francês, esta obra se apresenta como uma história da construção da nação francesa moderna e da produção científica (ciência médica) e política das diferenças sexuais e dos corpos sexuados e racializados. Prefaciado pela historiadora norte-americana Joan Wallace Scott, o estudo de Dorlin constitui um esforço singular no sentido de entender "como o gênero constrói a política e a política constrói o gênero" (p. 6).

Na introdução, a autora enuncia o tom de sua obra: "Este livro trabalha fundamentalmente os sistemas categoriais históricos do sexismo e do racismo, antes que as representações, ele trata de categorias do pensamento, de esquemas de inteligibilidade, da racionalidade própria à dominação". Assim, ela procura dar continuidade a uma "epistemologia da dominação", avançando em duas direções: na primeira, fazendo a genealogia das acepções modernas do "sexo" e da "raça" - como significantes para dada cultura - e mostrando seu recíproco engendramento de um ponto de vista histórico; na segunda, concentrando-se nas racionalidades dominantes e, particularmente, em suas crises, as quais atestariam a sua historicidade. De fato, inspirada em Foucault, Dorlin aponta para a complexidade das relações de saber/poder na França dos séculos XVII e XVIII, partindo do conceito de temperamento como o que funda, na "natureza", a diferença hierárquica entre homens e mulheres; por outro lado, a autora compreende igualmente os discursos da época que atacam o referido conceito, como acontece com as filosofias da "igualdade dos sexos" (século XVII), tentando perceber as estratégias discursivas e políticas, e suas contradições, mediante as quais as ideias (sobre mulheres, homens, sexo, raça e nação) se movem, vacilam e se transformam. Desse modo, a autora oferece uma história política das ciências, sugerindo uma desnaturalização das relações sociais de dominação.

A primeira parte do livro coloca o/a leitor/a diante das "doenças das mulheres", são as concepções de natureza ligadas à saúde e à doença que potencializam as diferenças entre homens e mulheres. O corpo feminino é naturalmente predisposto a doenças, contrastando com o corpo masculino, cujo atributo é a saúde. Os matizes das "categorias mutantes" pelas quais se observa a hierarquização dos sexos remontam à ciência médica da Antiguidade até o século XVII e assinalam os interesses políticos - e seus contrastes e resistências - na "natureza" (temperamento) inferior das mulheres. A segunda parte do livro mostra como as mudanças categoriais correspondem estrategicamente ao "engendramento da nação", o século XVIII valoriza o corpo "da mãe" (o da procriação), sendo esse corpo, daí em diante, definido pela saúde. Ora, assim pensado, o corpo feminino remeteria, então, ao corpo da nação francesa, e, nesse caso, a noção de raça seria gerada nas "entranhas" maternas - a matriz da raça! -, matéria para jogos políticos nacionais e transnacionais. Finalmente, a terceira e última parte do livro desvela "a fábrica da raça", a feitura de ideias e práticas de poder no encontro da nação com os "outros" (colônias, escravos e/ou indígenas, mulheres) em dimensão local e global, por assim dizer. Pelas complicadas teias de saberes/poderes entre nação e colônias, entre corpos racializados e sexualizados, entre políticas médicas e coloniais (e nacionais), uma história moderna da nação francesa se inscreve na contramão das genealogias racistas, apontando para o potencial das mutações categoriais presentes ao título da obra como pistas teóricas e políticas para uma compreensão feminista da desigualdade entre mulheres e homens, e suas resistências. Em todo caso, numa perspectiva militante.

Talvez seja oportuno sublinhar também o caráter metodológico pelo qual Elsa Dorlin desafia as linhas diretrizes das historiografias "dominantes", articulando "relações de poder" e "crise das racionalidades", imbricando saberes/poderes e política com as questões de sexo (sexualidade) e raça, para pensá-las segundo uma epistemologia feminista e política da nação francesa, como tem sido enfatizado aqui. Nesse sentido, a originalidade do seu texto é bem-vinda hoje. Por outro lado, a complexidade sugerida por Dorlin quanto à aproximação dos sistemas categoriais do sexismo e do racismo parece sofrer de uma "categorização epistemológica" no interior da própria obra, que reserva ao assunto da "raça" especialmente a última parte do livro. O tema do sexismo parece marcar certa precedência teórica no corpo argumentativo da obra (e que depõe contra o seu título), algo que se pode supor já na introdução. Quem sabe, aqui, a antropologia não teria o que dizer? Tomar "categorias nativas" em sua dimensão política, como bem faz a autora, não implicaria pensar a política dos conceitos numa perspectiva etno-histórica, por exemplo, e refletir sobre qual é a "matriz" do pensamento dito ocidental? Esse é apenas um sinal de que a excelente obra não fecha, antes, abre muitas e interessantes possibilidades de estudo e pesquisa.

 

Notas

1 Uma versão modificada desta resenha encontra-se em Revue d'Anthropologie des Connaissances, Suíça.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License