SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.20 issue2EDITORIALLife stories of HIV+ women activists: changes and permanency author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.20 no.2 Florianópolis May/Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2012000200002 

ARTIGOS

 

Entre vapores & vídeos pornôs: dissidências homo/eróticas na trama discursiva do envelhecimento masculino

 

Through steams & porno videos: homo/erotic dissident threads in the discoursive tapestry of aging men

 

 

Fernando Altair Pocahy

Universidade de Fortaleza

 

 


RESUMO

Este artigo analisa formas de regulação do gênero e da sexualidade em sua articulação com os discursos normativos acionados na produção discursiva do envelhecimento. Buscando problematizar os jogos de verdade que cercam as experimentações de homens idosos em práticas homo/eróticas, tratou-se neste estudo (resultado de uma tese de doutorado em Educação) de compreender como algo em torno de uma forma que o corpo toma é fabricado e descrito como verdade, produzindo sua materialidade (discursiva) 'abjeta'.

Palavras-chave: corpo; envelhecimento; gênero; homoerotismo; performatividade.


ABSTRACT

This article analyzes forms of regulation of gender and sexuality in their relationship with the normative discourses triggered by the discursive production of the 'aging'. Seeking the games of truth that surround the experience of elderly men with homo erotic practices, this study (the result of a doctoral thesis in Education) tried to understand how the modern discursive practices can build and materialize the aging body as "abject".

Key words: Body; Age; Gender; Homoeroticism; Performativity.


 

 

"Prazer/Fruição: terminologicamente isso ainda vacila, tropeço, confundo-me. De toda maneira, haverá sempre uma margem de indecisão: a distinção não será origem de classificações seguras, o paradigma rangerá, o sentido será precário, revogável, o discurso será incompleto."
(BARTHES, 2006, p. 8.)

Sob o sol torrente de um dia qualquer de verão em Porto Alegre, ao abrigo de paredes sombrias e em leve breu, a Cidade se reinventa. No interior dos cômodos do sobrado antigo de dois pisos, fincado entre as veias 'sujas' da metrópole, um corpo pesado se move com parcimônia de gestos, conduzindo-se com dificuldades pelo cubículo estreito, quente e vaporoso de uma sauna. Ele procura alguma pista onde se agarrar. A mão lançada no vácuo do nevoeiro encontra apenas paredes escorregadias e imagens resumidas de corpos ao longe. Ao lado, outro corpo anônimo, grande e farto, recostado à parede nua e suada, deixa escorregar as mãos entre o ventre e a virilha, acompanhando atentamente a entrada de outro velho senhor. Movimento de mãos em vaivém. Um terceiro homem, sentado sobre a bancada de azulejos, toalha sobre os ombros, apóia os cotovelos sobre os joelhos, permanecendo cabisbaixo e impassível. Eis um arranjo rápido acomodando quatro pessoas em uma minúscula sauna a vapor. Estou ao lado. Sou o quarto corpo. O menor de todos. Talvez o mais moço, mas tão largo e volumoso quanto todos os outros. Estou úmido e escorregadio. Ajeitam-se pelo espaço reduzido. Desacomodam-se. Alargam-se. E de repente tudo é apenas um amontoado vivo, polvo humano. Um engajamento ligeiro e sem hesitações é protocolado. Som de respiração ofegante. Nada além de sussurros. Ali, adiante, apenas alguns gemidos. Momentos de silêncio e calmaria. Alguns risos. Pequenos ruídos novamente. E, de novo, nada além do som do chinelo que descola do pé, tombando sobre o piso; ou o barulho de uma espalmada pesada nas coxas roliças. Outra pausa sem combinação. E num instante rápido de descanso e carícias e afagos e abraços, faz-se recomeçar o vaivém. Uma boca se acopla à parte inferior de outro corpo, enquanto mãos trêmulas deslizam sobre a pele molhada, percorrendo com intensidade o volume de uma barriga em raros pêlos; e outra mão que se firma a segurar a cabeça do companheiro por entre as pernas, por vezes com firmeza e força, por vezes acariciando-a docemente com as pontas dos dedos por entre os cacheados cabelos prateados. Já não se percebe mais o que é de um e o que é corpo de outro. Ouve-se outro suspiro. Permaneço quieto no canto próximo à porta. Sinto faltar-me o ar. E não é pelo vapor excessivo, tampouco pelo claustro. É apenas a vertigem, unicamente a zonzeira do erótico. Novamente outros tantos gemidos irrompem o silêncio. Uma mão me alcança. Eu deslizo. A mão torna a me buscar, e eu me deixo levar por alguns instantes. Aproximo-me sem me misturar, sem dar-me conta de que já estou dentro e de que não há do que escapar. Não existe o fora. Eu recuo. Eu cedo. Eu me guardo no canto novamente. Olhar, ali, não é de todo sempre ser mal-aventurado. Pelo contrário. Estar lá é fazer parte de uma cena 'pornográfica', como coadjuvante ou figurante. Os corpos se agitam. O emaranhado pelo momento é feito em silêncio. E, logo, já não o é mais. A respiração é sôfrega. - Vai, vai, isso, vai. Assim. Movimentos de mãos cercam partes de um corpo menor e mais agitado. A boca procura mais. Alimentam-se vorazmente. Os sons que ecoam dos corpos parecem mais fortes. Urros. Movimentos agitados de mãos, bocas, línguas, dedos, braços. E eis que algo afrouxa, e o corpo único se estira como elástico, e faz-se da unidade apenas um polvo humano de grandes braços e longas e gordas e cansadas pernas. Em movimentos lentos e suados desfaz-se a volumosa instalação viva. Como alcatéia saciada, todos seguem em uma sorte de fuga, na direção das águas mornas dos chuveiros elétricos de pouca força. O barulho das duchas se mistura a uma conversa sobre o ranger das portas e o piso escorregadio, e nenhum comentário sobre o acontecido. A trilha do instante é apenas a água caindo e gemidos longínquos de um filme pornô hétero. De um minúsculo pedacinho de sabão escorre tímida e parca espuma pelos corpos montanhosos. Uma mão trêmula, mas descansada, recupera a esfarrapada toalha distante. O enxugar-se é lento. Ali demora-se mais um pouco. A toalha mal cobre tanto corpo e o pano velho parece engolir, em suas fibras magras, o último suspiro de um acontecimento homoerótico. E apenas o rastro das havaianas gastas fica entre o salão de banho e o acesso aos labirintos escuros. No vasto plano escutam-se solitárias as últimas gotas que caem do chuveiro, que mal fecha, e o geme-geme do filme que ninguém fica para assistir. Cercados por paredes divisórias de compensado, nas cabines em portas abertas e convidativas, alguns dos personagens desta cena vaporosa deitam-se sobre os colchonetes azuis escuros de um sintético barato, para repousar sobre lastros de sarrafos ruidosos (e pouco estáveis). E tudo vai se afrouxando mais, adormecendo, restando apenas o suspiro moroso de gozo e a memória do deleite de uma pequena pausa em plena tarde semanal: um encontro de companheiros desconhecidos que se aprazem em cumplicidades ligeiras. Estou ao largo. Não me deito. Fico quietinho, guardando em silêncio o cochilo dos senhores. E penso: pode ser que a norma tenha descansado um pouco da sua alucinada vontade de dizer algo ou produzir uma verdade sobre o ocorrido; provavelmente um pouco desidratada pelo ritmo de uma longa jornada de permanência querendo 'pegar' algum corpo entre corredores, pequenas salas escuras, escadarias, vapores e filmes pornográficos. Da fruição de corpos e vontades, a norma apenas consegue por ora gemer baixinho neste claustro úmido de puro e "sujo" tesão.1

 

Entre sussurros e gemidos, os cochilos de uma norma. Arranjos introdutórios

O prelúdio acima recupera algumas das já dormidas imagens que frequentaram meu trabalho de campo através de uma permanência silenciosa, mas bastante participativa, em uma sauna e videolocadora pornô,2 em dias variados e uma vez por semana, durante as tardes, entre os anos de 2007 e 2010, na cidade de Porto Alegre. Entre as linhas do texto de memórias de campo, há ainda aquelas que permanecem quietas, aquelas que não se prestam ou não se emprestaram para o trabalho neste instante. Mas há outras que estão aqui mais fortes e intensas para arriscar dizer algo de uma experimentação (homo)erótica que considero vertiginosa em suas possibilidades de encontros entre homens que estariam 'fora do mercado do sexo': 'velhos', 'gordos', 'deficientes' e outros ditos 'feios em geral'. O que apresento aqui são tessituras sonâmbulas que me deixaram construir algumas pistas sobre enunciados performativos que fazem da velhice e da homossexualidade uma monstruosidade. E, tanto quanto a ficção que produz a abjeção, o que passo a fazer a partir de agora é fabricar uma cartografia sobre um dentre os movimentos (desobedientes) no que poderíamos considerar uma sorte de dissidência (homo)erótica. É, pois, uma ficção sobre e desde uma experimentação política do corpo e dos prazeres sexuais ditos 'minoritários'.3 Arrisco dizer que se trata aqui de um texto combativo. E a problematização busca furar o bloqueio dos discursos que fazem da velhice na homossexualidade um lugar sem saída.

Procuro/rei alguma forma de alargar os sentidos e alguma margem de liberdade para deitarmos outramente o pensamento sobre o corpo e os prazeres sexuais, através da dilatação da experiência da pesquisa sobre erotismo, no sentido proposto por Roland Barthes, na medida em que "todo texto sobre o prazer será sempre apenas dilatório; será uma introdução que nunca se escreverá".4

Através de uma cartografia da "vida social do corpo", conforme Judith Butler,5 a pesquisa de doutorado6 que deu origem a este artigo foi delineada a partir de dois esquemas de análise, permitindo uma forma de compreensão sobre como é produzida a objetificação da produção discursiva da abjeção, no mesmo instante em que pude analisar como resistências a essa reificação performativa foram/são de alguma forma agenciadas. O primeiro esquema de contestação analisado refere-se às experimentações da sexualidade de homens idosos em um estabelecimento denominado sauna e videolocadora pornô - e é acerca dele que me debruçarei aqui. O segundo plano de análise, por outro lado, abordou as sociabilidades produzidas em torno de homens idosos e 'garotos de programa' (profissionais do sexo) em um bar, ao estilo cabaret. O que liga essas duas entradas é que elas se constituem como contrapontos - ou esquemas de problematização - que permitiram uma abordagem sobre as disputas presentes nas tramas discursivas da hétero e da homonormatividade, segundo Lisa Duggan7 e Guacira Lopes Louro,8 como importantes dispositivos na produção e/ou na manutenção da 'velhice' como abjeção.

Seguindo as provocações de Teresa de Lauretis9 em relação aos arranjos teóricos queer, proponho-me/propus-me à construção de "outro horizonte discursivo", acompanhando movimentos que nos permitem viver/pensar a sexualidade do ponto de vista de uma erótica, e não de uma 'ciência sexual', isto é, erotismo como descolamento e desarranjo das significações que são ficcionadas através do "dispositivo da sexualidade", conforme Michel Foucault.10 Dessa forma, a partir de cartografias do corpo eróticas, arrisco um olhar na perspectiva de "um movimento de desconstrução dos silêncios da história e de nossas próprias construções discursivas".11 E, ao recorrer à escrita-ficção como artifício na recomposição das cenas de campo e tessitura do texto de análise, acredito estar operando em um registro semiótico aproximado àquilo que Foucault12 denominou como a indução política diante de efeitos de verdades - onde se fabrica qualquer coisa que ainda não existe: "'ficcionamos' uma história a partir de uma realidade política que a torna verdadeira, 'ficcionamos' uma política que ainda não existe a partir de uma verdade histórica".

 

Derivas epistemológicas, rastros metodológicos

Eu me arrisco/arrisquei nessa problematização ao imiscuir-me nos prazeres e nos perigos da ficção que este texto carrega, assumindo que os resultados desse desafio passaram também pela cartografia de meu corpo. Minha superfície corporal está presente nos encontros narrados e fabricados aqui, operados desde uma experimentação político-epistemológica de um texto outro e a partir de uma erótica outra. Logo, o corpo do pesquisador como experiência é escrito/vivido a partir dessa perspectiva como um complexo de significações, efeitos, atitudes, disposições, associações e percepções que resultam da interação semiótica entre si e o mundo exterior.13 Deliberadamente, a subjetividade do pesquisador, este com aquele status que poderia indicar certo 'distanciamento', 'neutralidade', 'olhar distinto', foi posta em relativização (ou com certa margem de liberdade em relação aos ditos protocolos rígidos de pesquisa). Eu me ofereci como um corpo interessado e 'perguntador' através de uma cartografia iniciada a partir do meu próprio corpo. Eu fui, em alguma medida, parte da produção erótica sobre a qual intentava produzir alguma reflexão. O corpo - meu corpo - não teve como escapar da cena, pois ele desviava o olhar dos participantes, interrogava, atraía, afastava, agregava e fazia nada também. Eu estava ali apenas como mais um. Participei observando. Engendrei-me nas cenas íntimas e nas tramas de corpos de diferentes formas e em distintas performances de gênero - inclusive entre aquelas que não seriam talvez nem masculinas, nem femininas, tampouco o plural de um binarismo (outras masculinidades, feminilidades), isto é, cenas em que a sexualidade não pode ser pensada/vivida atada aos cânones de gênero. Também estive (auto)suspenso em minhas próprias convicções sobre meus desejos, sobre minhas preferências sexuais, e de alguma forma borrei meu texto erótico ou amplifiquei-o, com meu corpo em evidência. Ofereci-me, por assim dizer, a uma 'invasão' consentida e deixei-me ser tocado e levado por mãos desconhecidas, que passaram aos poucos a tornar-se menos estrangeiras. E pactuei comigo, com o campo e com as pessoas que faziam dessa realidade uma cena para a pesquisa sem qualquer protocolo acadêmico formal (embora fosse uma bestialidade oferecer um termo de consentimento num corredor de uma sauna, não omiti, em momento algum, em certas oportunidades, o fato de que ali eu tinha interesses acadêmicos). Acredito mesmo que estive pactuando assim com um radical entendimento sobre o dispositivo da sexualidade. De certo modo, pode-se dizer que suspendi o valor e a importância ao que se imagina ser um ato sexual ou práticas sociais envolvendo o exercício ativo/passivo da pesquisa acadêmica com sexualidade. E pesei os valores e as medidas: o 'sexo' não teve assim importância para além de uma experimentação cultural, como qualquer outra em nossas sociedades contemporâneas - sejam elas musicais, fílmicas, teatrais, comunitárias, militantes etc.

Nesse aspecto, acredito, a ideia de ética que cerca essa experimentação epistemológica encosta-se às proposições de Michel Foucault:14 como um exercício de alargamento das condições de liberdade. As cenas descritas aqui são ficções de campo, fabricações de conversas, com alguma intencionalidade acadêmica, certamente, e esclarecidas sempre que possível e necessário. Pois ao que eu estava fazendo lá quase todos os interlocutores também tiveram acesso - não somente ao meu corpo exposto, mas ao meu corpo 'perguntador' e experimentador. Essa postura colaborou para que o trabalho realizado não fosse aquele de uma taxonomia dos agentes das práticas ou mesmo um inventário das práticas 'agenciadas', e tampouco fosse aquele da objetificação dos sujeitos envolvidos na cena da pesquisa. Mas foi, por certo, um esforço voltado em problematizar o campo de possibilidades das práticas e da produção discursiva de identidades: as continuidades e as descontinuidades dos discursos que produzem esses corpos e as significações da sexualidade - como se materializam os discursos. Como aponta Daniel Werzer-Lang,15 bastaria pesquisar em lugares de consumo sexual para que nos déssemos conta da ineficácia das classificações. Isso parece ser a evidência mais sensata deste estudo.

Acredito que na pesquisa com e sobre intimidade erótica, a sexualidade e o corpo do pesquisador devem ser pensados a partir de uma experimentação epistemológica (sempre política) no encontro de sua subjetividade com outras subjetividades, nos jogos do prazer que se permite experimentar sem pânicos morais e na sua capacidade de estabelecer uma margem de liberdade em relação aos códigos e às normas que cercam a experiência da sexualidade como regime de poder-saber. Se o outro ('sujeito pesquisado') sabe que está sendo sujeito de uma investigação, isso não garante a sua liberdade e autonomia diante do pesquisador e das instituições. O outro teve, (quase) o tempo todo, liberdade de recusar-me e, ao mesmo tempo, invadir-me. Logo, o que me interessou foi o que o encontro entre meu corpo como sujeito partícipe da cena poderia conduzir para a menor margem de objetificação do sujeito à minha frente. A posição tomada foi aquela de uma aproximação à experiência da sexualidade como um terreno aberto a múltiplas significações. Para Michel Foucault, nesses lugares como clubes e saunas de sexo (ele tratava de dizer algo sobre os clubes sadomasoquistas e as saunas que frequentou nos Estados Unidos), temos a sorte de fabricar, durante o tempo que quisermos, os prazeres que desejamos.16 E eu penso mesmo que essa cena de prazeres nômades da sauna e videolocadora arrisca borrar, em suores e gemidos, em sua arquitetura precária, seus pornôs quase épicos em versão cassete (VHS), em suas 'instalações', as marcas indeléveis de uma inteligibilidade para o humano; e, ainda mais, oferece possibilidades para se pensar o que uma pesquisa sobre sexualidade ainda tem como desafios moralidades normativas e preconceitos - em que o pesquisador 'disciplinarizado'/disciplinado corre o risco de ser explodido também, caso 'finja' pôr a mão no(s) calor(es).

Dessa forma, a descrição e o entendimento sobre esses locais como a sauna analisada podem ser compreendidos como uma fratura virtual que abre um espaço de liberdade - e como espaço de liberdade concreta. Isso quer dizer um espaço de transformação possível17 em relação às formas ontológico-normativas de se conceber e localizar o corpo. Por esse motivo, reforço a posição de que não precisei de um 'álibi' para frequentar os lugares de sociabilidade erótica presentes na tese que deu origem a este texto. Especialmente a sauna e videolocadora passou a ser apenas mais uma entre as possibilidades no meu lastro de experimentações e um dos cenários nos quais tenho me dado a oportunidade de produzir meu lazer ou reflexões e intervenções institucionais (pelo meu envolvimento com a organização não governamental nuances - grupo pela livre expressão sexual). Estou tratando de uma análise discursivo-desconstrucionista sobre a scientia sexualis, sobretudo, ao apostar que a cena em análise diz respeito a um performativo que, no mesmo instante que se produz na trama discursiva do "sexo rei",18 nos permite pensar em alguma possibilidade de reinvenção erótica que negocia com os regimes da heterossexualidade compulsória e da hétero e homonormatividade. Ou seja, uma cena orgiástica que se (des)organiza em um conjunto de signos e representações agenciados na intensificação dos prazeres sexuais - como uma sorte de 'excesso' para o imaginado, como a medida do possível para a sexualidade; algo que se produz como um instante, o "interesse do presente", a "festa dionisíaca", "o desejo de estar junto", conforme Michel Maffesoli,19 isto é, se diz e se faz algo com um sujeito na sua capacidade de viver a experiência política da sexualidade. Nesse lapso temporal da deriva da orgia, parece ocorrer uma recusa ao inventário moderno das taxonomias sexuais. No entanto, em outros momentos, podemos tropeçar nos escombros discursivos de uma norma. Afinal, a possibilidade de uma norma se (re)produzir e reinventar encontra-se sempre presente, mais ou menos 'aparente'.

Algumas experimentações vivenciadas na sauna/vídeo podem, de certa forma, estourar os significados da maquinaria biopolítica,20 sobretudo no instante em que essas movimentações/performances se fazem a partir de uma sorte de 'dessexualização' do prazer (o que se poderia pensar como o performativo). No instante em que sequestram semanticamente o erótico das tramas do dispositivo da sexualidade, pode-se pensar naquilo que David Halperin21 denomina como um reencontro entre o sujeito moderno da sexualidade e a alteridade do corpo, isto é, o corpo e o erotismo encontram-se em uma experiência de menor força normativa, à revelia das prescrições forjadas através do dispositivo da sexualidade. Portanto, acredito que a experimentação da deriva de uma jornada na sauna permite aos sujeitos ali presentes algum 'abandono de si' e uma boa possibilidade de encontrar-se 'sozinho', suspenso pelo silêncio de algumas polifonias morais. Nesse instante, acredito, encontra-se a possibilidade de questionar os valores de "honestidad, rectitud, coherencia y fidelidad que habían caracterizado la tradición moderna", como nos aponta Beatriz Preciado.22

De certa forma, o que trato de apresentar são as performances de um corpo marcado como desprezível e impossível que se apresenta em fuga - como se a sexualidade mesma fosse sacaneada, sequestrada, roubada, traficada em seus significados culturais, políticos e sociais, numa produção marginal de sentidos eróticos que de alguma forma parece estar corroendo e desgastando uma norma. Encontram-se boas possibilidades de trincar o dispositivo da sexualidade pelo seu jogo de instantes e microacontecimentos relacionais, provisórios e fugazes:

Na antessala uma pequena TV exibe um filme pornô cujos atores não teriam menos que 70 anos, ou mais, ou menos, como dizer? Um corpo conecta-se a outro tão mais velho em hirto pênis preso a um atilho que lhe prende a circulação sangüínea, dando indícios de que o truque aumenta a duração da ereção, garantindo prazer por mais tempo. Sentado à frente da TV está um homem bem parecido fisicamente com os atores do filme, cabelos brancos, uma leve barriga saliente, pele leitosa. No dedo da mão esquerda guarda uma grande 'aliança de homem casado' (Diário de campo, agosto de 2007).

Nesse movimento, a experiência de abandono, fuga, exílio e de certa renúncia do 'mundo exterior' foi o que mais me instigou e interessou como forma de pensar se alguma resistência (no sentido de que ela obriga sob seus efeitos que as relações de poder se modifiquem ou alguma reinvenção de si) é possível. O que sustenta essa ideia é que o jogo é rápido, é fugaz, é imprevisível. Ele tonteia a norma, dá um 'baile' nas prescrições, não se presta prontamente ao trabalho de fixação e de medida. Provavelmente porque seja também um espaço protegido das instituições prescritoras das normas de gênero, sexualidade e idade. Esse jogo relacional é tão efêmero que as normas não encontram possibilidades de exercício prontas, fáceis. O corpo nessa deriva forja a si mesmo, engana a si (a suposta identidade que portamos) no jogo de uma trama de contradições e de ressignificações: se o dispositivo da sexualidade regula discursivamente o corpo e os prazeres, ao mesmo tempo ele deixa escapar algo de suas medidas e do seu teatro. Uma nova cena é instaurada. O teatro do julgado grotesco, aquele do abominável, do precário e do desprezível, exibe a sua beleza e uma sedução que enfraquecem a ficção normativa.

 

As muitas densidades de um corpo: a velhice como performativo

Ensaiando alguma intimidade com problemas que se desmancham no jogo das 'aparências' (pós)-modernas, este estudo buscou possibilidades de imaginar/viver uma erótica na cama discursiva do 'envelhecimento'. Procurei compreender o corpo idoso desde a perspectiva de uma materialidade que encarna e desencarna e torna a encarnar os discursos que evidenciam o trabalho incansável, inacabável e ficcional das normas. Este trabalho de pesquisa foi tecido como um lençol de memórias de experimentações 'desobedientes' de uma sexualidade e de um corpo 'dissidente'.23 O corpo do idoso que protagoniza/zou este estudo contesta seu destino através de performances desempenhadas com (algum) prazer, com (alguma) invenção, com (algum) tesão, com (alguma) graça e com (algum) desafio de si. E, com alguma intenção, produzindo uma sorte de movimento de ascese para uma vida criativa.24 Realizei alguns alinhavos analíticos a partir de narrativas inusitadas, situacionais e efêmeras de um 'corpo' dito 'menor' em uma cena dissidente. E, seguindo as pistas que desenhavam uma imagem aproximada para um idoso, a partir de um terreno escorregadio em uma sauna, pude acompanhar uma imagem provisória desse idoso ocupando um lugar possível na cidade, que em seus movimentos de erotismo 'deforma' as representações 'normais' para o dito corpo 'desejável'. Isso significa afirmar que este estudo foi também uma cartografia de uma (homo)erotiCidade. Com ele se pode acompanhar o desenho de uma cena de erotismo que vai se definindo no instante da sua própria experimentação, do seu traçado político. Não se trata de um mapa. Nada está/esteve definido. As paisagens existenciais e eróticas foram e continuam se (re)desenhando. O que se acompanha aqui é apenas um instante de algo produzindo um esboço da experiência política da corporal/idade.

No rastro das linhas do pensamento de Michel Foucault e de Judith Butler (entre outras teóricas feministas lésbicas e/ou queer), procurei compreender como as normas instituem um regime de gênero e de (homo)sexualidade, a partir da idade e das representações sobre o envelhecimento. E, embora não traga nenhuma novidade dizer que as normas governam os discursos, cabe recapitular que elas produzem e regulam o sujeito do discurso, fazendo a vida (corporal) dos indivíduos,25 habitando os corpos (no caso do protagonista desta pesquisa, a materialidade discursiva que apresenta/representa o corpo 'idoso'/o corpo 'velho'). Meu interesse deitou-se com essas ideias e procurou, desde um trabalho de campo na perspectiva de uma participação-observante, conforme Rommel Mendes-Leite,26 e em ponto de vista discursivo-desconstrucionista,27 ensaiar alguma intimidade com movimentos eróticos que pudessem indicar formas de contestação ou resistência à norma. Minha provisória certeza guia é/foi de que as experimentações das sexualidades ditas 'minoritárias',28 indóceis, dissidentes ou desobedientes podem evidenciar algo dos jogos discursivos que encarnam o corpo, entre as continuidades e as descontinuidades habilitantes do gênero e da sexualidade, demonstrando o seu caráter ficcional/fabricado.

A partir desse arranjo, pondero que as práticas sexuais e eróticas podem, de alguma forma, perturbar o gênero29 desde o interior de sua produção discursiva, desestabilizando os instituídos que 'evidenciam' as 'identidades' 'gênero-sexualizadas'. De alguma forma, as práticas sexuais produzem desarranjos nas representações. Mas acredito que elas dizem pouco ou quase nada sobre os sujeitos em si mesmos. E considero que os sujeitos presentes neste estudo são interlocutores de uma cena e de um instante que se rasga: a moral que cerca o corpo generificado e os prazeres sexuais.

Embora eu não tenha encontrado potencialidades contundentes na desestabilização do gênero, mesmo diante das desobedientes formas de experimentação da sexualidade que tive a oportunidade de acompanhar, as imagens das 'fechações' de terreno (as performances dos sujeitos, a 'perform/ação' de um discurso) ofereceram-me possibilidades de abrir a reflexão sobre o teatro da heterossexualidade compulsória e os pocket shows cotidianos das hétero e homonormas (o que considero aqui como performatividades, ou seja, as normas hétero e homo, se constituem como enunciados performativos).

Além disso, considerando a 'velhice' como dispositivo importante no jogo das 'aparências' e nas formas de performativizar o gênero, persegui, então, a questão e/ou problemática sobre uma erótica no envelhecimento, isto é, como determinados sujeitos, a partir de determinadas condições de possibilidade, produzem perfurações nas representações que os produzem/exibem/projetam como vidas "abjetas".30 Dessas perfurações ou rasgos discursivos, materializados em práticas, acolhi a ideia de que não podemos pensar em identidades sexuais ou identidades de gênero fora de uma norma, uma vez que elas são em si mesmas a marca indelével de um dispositivo. Mas, por outra parte, perguntei-me se não se poderia dizer que não se instauram, à revelia de qualquer pragmática ou programa político, movimentos de contestação e de ruptura nos jogos da abjeção. Dessa forma, ponderando as possibilidades e os limites da pesquisa, arrisco dizer que uma das formas possíveis de contestação à norma que estabelecem a heterossexualidade como referente de inteligibilidade 'incontestável' é feita em micromovimentos. Os sujeitos dizem algo sobre si em gestos, em narrativas e na organização, autoestetização e 'cenarização' dos espaços onde se inserem, articulando (performando) representações produzidas em jogos performativos.

Portanto, cabe dizer que, se somos um tipo de efeito de discursos produzidos em jogos de saber-poder, não significa que estamos negando a evidência do que nos faz seres vivos - vísceras, membros, pele, órgãos dos sentidos etc. É justamente a ideia de 'natureza irredutível' que faz do corpo uma superfície contundente no engendramento de terminados jogos de verdade,31 como aqueles jogos da produção do regime discursivo que instituem a sexualidade como um mecanismo de poder - "ao mesmo tempo um mecanismo de saber, de saber dos indivíduos, saber sobre os indivíduos, mas também saber dos indivíduos sobre eles mesmos e quanto a eles mesmos".32 Produzimo-nos como sujeitos reconhecidos socialmente não unicamente pela materialidade visível de nossos corpos, mas pelo traçado discursivo (enunciados discursivos) que ficcionam o corpo como matéria de inteligibilidades. Logo, se eu interrogo os sistemas/regimes de verdade, eu me interrogo sobre a minha própria "constituição e ontologia",33 isto é, sobre meu próprio status ontológico. Como aponta Foucault,34

Se o poder atinge o corpo, não é porque ele foi interiorizado inicialmente na consciência das pessoas. Existe uma rede de biopoder, somato-poder, que é em si mesma uma rede a partir da qual nasce a sexualidade como fenômeno histórico e cultural, no interior do qual, às vezes, nos reconhecemos e nos perdemos.

Nesse sentido, cabe perguntar-se: deitado sobre as ruínas do projeto moderno, o que deve o corpo à sua idade? O que pode um corpo com a sua idade? O que pesa e o que conta para um corpo a idade que leva? Quantas idades podem ter um corpo e quanto ganha e quanto perde um corpo com a idade que leva? Pode um corpo existir sem a sua idade? Uma idade pode ser a mesma de uma geração à outra? E o que define, por sua vez, os limites de uma geração? O que o corpo deve aos regimes políticos na gestão da vida (generificada)? E qual seria mesmo o corpo re/clamado pelo movimento feminista ou LGBT e queer, quando se proclama a fortes vozes "meu corpo me pertence", de que corpo se trata? Como sugere Rosemarie Lagrave:35 que vozes reivindicativas se escutam quando o corpo oferece os primeiros sinais de "decrepitude" e de "partida"? Afinal, de que corpo se fala e qual corpo se reivindica nas políticas de identidade? Que corpo e que práticas importam para as lutas LGBT?

O corpo pode performar sua ficção como fabricação discursiva que vem no rastro do projeto político da modernidade, especialmente na produção performativa que faz um arranjo particular entre oposições, descontinuidades e continuidades na trama velhice, gênero e homossexualidade. Compreendo a 'velhice' como efeito de performatividades nas tramas discursivas da "heterossexualidade obrigatória", como podemos ver em Adrienne Riche36 e em Monique Wittig,37 bem como da hétero e da homonormatividade - normas essas que podem ser denominadas de diferentes formas entre autoras e autores que discutem regimes discursivos do gênero e da (homo)sexualidade.38 Esse foi um dos desafios conceituais e políticos importantes deste trabalho, ou seja, como as pessoas negociam e arranjam suas vidas diante dos discursos que as fazem 'ser'/dizer o que pensam ser.

A idade que levamos é a forma também de dar inteligibilidade ao que pode ser considerado como uma vida possível, socialmente regulada por engajamentos políticos institucionais e arranjos culturais. Dessa forma, estamos diante de um agenciamento discursivo que não faz outra coisa além de tentar situar o sujeito de forma reconhecível e como um sujeito que possa ser "citado" - que produz experimentações de si desde "citacionalidades" - como sujeito possível ou pensável. Assim, ao aproximar-me da ideia de movimentos de citação e de recitação performativas, que tornam inteligível um corpo/sujeito, não pude deixar de pensar nos sentidos para a vida que um corpo é capaz de encarnar e por isso interessei-me em compreender como o corpo oferece-se a (e/ou como ele desestabiliza) esses processos, como o envelhecimento. E, ao encontro das ideias de Rosemarie Lagrave,39 considero 'a velhice' como um lugar de contestação privilegiado das normas do gênero e da sexualidade, o que pode significar entender o 'envelhecimento' como uma possibilidade de um momento de 'revolta' (não de revolução) e de 'subversão', e não unicamente um momento de assistência ou de resignação. Lagrave propõe que "questionar uma ordem das idades é uma maneira de reencantamento, no sentido de que interrogamos, sob novos riscos, as evidências tributadas à velhice, realocando os recursos cognitivos e políticos inusitados cruzando os efeitos recíprocos entre a ordem dos gêneros e das idades",40 por isso compreendo a idade como uma categoria política, histórica e contingente, assim como o gênero, a classe social, a sexualidade ou a 'raça'. Mas não de forma isolada, pois o marcador etário e geracional dificilmente pode ser pensado sem essas intersecções. O que significa dizer que a idade organiza a vida, ao conferir status de 'humanidade', em diferentes formas e condições político-culturais no mesmo instante em que gênero e sexualidade tornam-se visíveis e possíveis nessa trama discursiva (ao fixar as possibilidades para cada idade da vida). Essa é uma das tramas presentes no projeto moderno. E, de fato, essa constatação não traz nenhuma novidade. No entanto, pareceu-me estratégico pensar como a idade cria condições de inteligibilidade para o que construímos em nossas sociedades ocidentais (pós)modernas como humano e como gênero e sexualidade se articulam nesse projeto (bio)político.

Organizei, portanto, uma reflexão sobre o campo de possibilidades aberto em uma das margens do "grande continente cinza" moderno, conforme aponta David Le Breton41 ao indicar como é representada a sexualidade na 'velhice'. Um continente traçado no projeto moderno em que "a velhice desliza lentamente para fora do campo simbólico, ela se afasta dos valores da modernidade: a juventude, a sedução, a vitalidade, o trabalho, a performance de desempenho, a rapidez".42 O interesse neste estudo foi também o de problematizar como o corpo performativizado como 'improdutivo', 'precário', 'bizarro', 'monstruoso' e 'desqualificado' - ou alguns dos nomes que se podem dar aqui ao abjeto - é contestado (ressignificado) ou mantido no seio das ditas 'subculturas homossexuais' ou LGBT (ou aparentemente referendadas como tais). Ensaiei uma aproximação entre algumas das linhas que se articulam na malha moderna da gestão da vida e do governo dos vivos.43

Não temos aqui um encontro de queixas ou de ressentimento, mas um (re)encontro que pretendeu buscar possibilidades de contestação para pensar o que estamos fazendo de nós mesmos; um encontro com o que deixa escapar e fruir, com o desfrute, com a presença de certa forma desinteressada que brinca com os fantasmas da 'homossexualidade' e da 'velhice'. A questão não foi a de saber o que o sujeito é, o que alguém é, mas de acompanhar o devir - no que podemos ter a sorte de nos tornarmos (esta proposição foucaultiana é aportada por Judith Butler).44 Ensaiei escrever sobre momentos, situações e arranjos estéticos que não procuram a coerência do discurso politicamente correto, mas a deriva, os devaneios, os delírios, as invenções, as encrencas, os nós vividos por alguns sujeitos diante das disputas inusitadas que uma norma pode produzir para definir um corpo e gerir uma vida. A análise proposta apontou para contrapontos que podem distender as representações do 'homossexual' e do idoso - 'o idoso homossexual' - como aquelas que os apresentam como figuras emblemáticas de uma vida triste, vitimizante, precária e pronta à tutela e à assistência. A partir de alguns dos contextos sagrados como 'exílios' para homens idosos que estabelecem práticas homoeróticas ou simplesmente práticas sexuais entre homens (no jogo do gênero que oferece uma possibilidade de prática sexual sem fixar uma identidade), encontrei possibilidades de problematizações dessas significações. Esses achados, essas 'pistas', me permitiram pensar que as representações produzidas no núcleo duro das sub/culturas homossexuais - essas que muitas vezes percebem esse corpo como desprezível - encontram possibilidades de deslocamento e chegam a tensionar os discursos sobre a coerência do corpo, do gênero e das formas de produção do prazer nas tramas da homossexualidade como regime discursivo (esta frequentemente atormentada com a ideia de juventude).

Segundo Julio Simões,45 "se por um lado as identidades gestadas dentro da 'cultura gay' podem ser vistas como aprendizado e desenvolvimento de estilos de vida corporais, [...] por outro elas também só fazem reforçar os contrastes entre a juventude resplandecente e a velhice sombria". Assim, pouco restaria aos "idosos homossexuais" que não o niilismo e o recolhimento. Esse argumento pode ser acoplado às ideias de Valèrie Daoust,46 quando afirma que nossas sociedades contemporâneas são obcecadas pela juventude. Ela aponta ainda que a lógica discursiva que define a juventude está ligada a uma concepção de sexualidade que não faz unicamente referência à beleza, mas à atividade sexual e à possibilidade desse 'corpo novo'.

Outro argumento, nessa produção discursiva sobre o corpo dito 'gay', pode ser compreendido, em parte, pela ideia de uma representação de um corpo jovem que parece se arrastar no jogo das políticas de identidade, recusando-se a envelhecer. Segundo Didier Eribon,47

O culto da juventude parece ser um dos traços mais constantes da cultura gay (sem dúvida isso é menos verdadeiro na cultura lésbica). [...] De fato, em relação aos discursos e às imagens hostis descrevendo a homossexualidade como um agente de decadência e de destruição da sociedade são historicamente opostos aos contradiscursos e às contraimagens que buscaram legitimar o amor entre homens em momento da beleza dos jovens. O que seguidamente nos dá a impressão ao ler revistas gays que somente os jovens belos podem ser homossexuais.

Diante dessa agonística do envelhecimento, procurei, então, pelo idoso que 'surpreende', o idoso que, sacudido pelos discursos que definem o envelhecimento como categoria de pertencimento, se agita e ousa dizer/recusar seu nome (e talvez sua idade) em uma situação pouco 'aconselhável' - vivendo a sexualidade na zona. Embalado por esse encontro, perguntei-me constantemente: não poderíamos pensar as práticas em torno do sexo entre homens e do homo/erotismo como uma forma de contestar todo esse desinvestimento em relação ao idoso?

 

Dissidências homo/eróticas e o corpo como heterotopia

A destreza de viver nas fronteiras pode bem ser o que nos aplaca diante da cena dita 'suja' e 'devassa' que experimentam certos idosos. E, se essas cenas 'aterrorizam' ou 'escandalizam', não seria por estarmos encarnados do 'amor branco e juvenil'? De costas para uma norma, cabe ressaltar, essa cena da sauna/vídeo é apenas uma abertura temporal em que as pessoas encontram algum prazer negociando com as mentiras 'brancas' que muitos são obrigados a recitar para a suposta inteligibilidade do gênero e da sexualidade e para as idades da vida nessa fabricação discursiva do humano moderno. Eis uma brecha no bloqueio da ficção política do corpo performada em prazeres.

"Meu corpo é o contrário de uma utopia [...] ele é o lugar absoluto, o pequeno fragmento de espaço com o qual em um sentido estrito eu faço corpo". Essa frase de Michel Foucault,48 presente em uma radioconferência de 1966, esfola a pele e faz sentir o corpo. O texto Le corps utopique inquieta. Uma utopia é um lugar fora de todos os lugares. É uma promessa. É onde também podemos pensar em um corpo incorporal. Ele afirma:

a utopia é um lugar fora de todos os lugares [...] é um lugar onde eu teria um corpo sem corpo, um corpo que seria belo, límpido, transparente, luminoso, veloz, colossal em sua potência, infinito em sua duração, suspenso, invisível, protegido, infinitamente transfigurado [...] utopia de um corpo incorporal.49

O corpo pleno, veloz, dinâmico é ainda o corpo da utopia biopolítica do projeto moderno, um corpo que não chega a ser alcançado. É um corpo 'planejado', desenhado, calculado, medido, ficcionado. O corpo é uma ficção política, forjada, tecida em dispositivos de gênero, sexualidade, idade, tamanho, forma, peso, 'raça'... Mas outro corpo seria possível? Chego a acreditar que sim. Talvez aquele corpo presente na cena da forclusão da erótica moderna, no interior de uma cena que tomava modos de uma resistência e contestação, dando outro corpo ao corpo. A experiência das afecções corporais em tocar outro corpo semelhante ao seu, tocar outro corpo absolutamente distinto do seu, ser tocado em pele, imiscuir-se em uma cena de pedaços de corpos erotizados, de corpos-escombros das significações de utilidade e 'beleza', corpos que performam as cenas que fazem com que tenhamos a ideia de que somos um corpo (como o romance, a conjugalidade), isso tudo me dá alguma certeza de que ali, diferentemente do corpo espetacular e apresentável na erótica moderna, um corpo se fazia outro em si mesmo. Não é o corpo utópico. Tampouco ali se estava em uma utopia. Era talvez o corpo como unicamente um topos - como uma superfície sem fundo de experimentação e de produção de outros significados para si e para o que entendemos como a vida do corpo em prazeres e paixões.

Naqueles corpos tantas outras possibilidades de fazer corpo se exerciam, desfazendo a medida de inteligibilidade que faz da velhice e da homossexualidade uma abjeção. O corpo não estava em outro lugar, mas o corpo era "um espaço outro" (heterotopia), como me faz pensar Foucault.50 Ele era mesmo a condição de viver o si no corpo entre peles e entre outros corpos. Talvez se tratasse do corpo sendo devolvido ao corpo51 por alguns instantes.

O corpo, eu arrisco dizer, pode ser uma heterotopia. Uma heterotopia de si. Em suas superfícies, formas, sentidos e prazeres, o corpo faz dele um lugar outro, tomado em um instante de orgia ou instante de uma cena de exceção. Como afirma Foucault,52 talvez seja por isso que (alguns dentre nós, eu diria) gostemos tanto de fazer sexo: "porque no sexo o corpo é aqui". Não se estaria então ali na sauna/vídeo de alguma forma praticando o roubo do corpo e devolvendo o corpo ao corpo? Meus interlocutores pareceram encontrar um instante possível diante do escárnio moderno dos prazeres. Mesmo que logo ali, no instante seguinte, uma nova norma (n)os interpelasse.

Em tantos outros lugares, tantas outras heterotopias corporais, heterotopias de erotismo e heterotopias de prazer, "pornotopias",53 seguem silenciosas em suas formas contestatórias. Dentro e fora do armário. Dentro-fora. Fora-dentro. Não há lugar escondido, quiçá esconderijos: pequenos mundos onde brincando de esconder (re)inventamo-nos e (re)tomamos corpo.

Existiriam outros cenários de erotismo e prazer para os homens que estão nessa cena - nessa zona de experimentação?

Meu corpo é como a Cidade do Sol, ele não tem lugar, mas é de onde saem e irradiam todos os lugares possíveis, reais ou utópicos.54

 

Referências

BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 2006.         [ Links ]

BOURCIER, Marie-Hélène. Sexopolitiques: Queer Zones 2. Paris: La Fabrique Éditions, 2005.         [ Links ]

BUTLER, Judith. "Corpos que pensam: sobre os limites discursivos do 'sexo'". In: LOURO, Guacira Lopes (Org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p. 7-34.         [ Links ]

______. Le pouvoir des mots: politique du performatif. Paris: Éditions Amsterdam, 2004a.         [ Links ]

______. "Faire et défaire le genre". In: CONFERENCE DE JUDITH BUTLER DONNEE LE 25 MAI A L'UNIVERSITE DE PARIS X, 2004b, Nanterre. Disponível em: <http://multitudes.samizdat.net/Faire-et-defaire-le-genre>. Acesso em: 16 maio 2010.         [ Links ]

______. Trouble dans le genre: pour un féminisme de la subversion. Paris: La Découvert, 2005a.         [ Links ]

______. Humain, inhumain: le travail critique des normes. Entretiens. Paris: Éditions Amsterdam, 2005b.         [ Links ]

______. Le récit de soi. Paris: Editions PUF, 2005c.         [ Links ]

______. Cuerpos que importan: sobre los limites materiales y discursivos del sexo. Buenos Aires/Barcelona/México: Paidós, 2005d.         [ Links ]

______. Défaire le genre. Paris: Éditions Amsterdam, 2006.         [ Links ]

DAOUST, Valèrie. De la sexualité en démocratie: l'individu libre es ses espaces identitaires. Paris: PUF, 2005.         [ Links ]

DESPENTES, Virginie. Teoria King Kong. Santa Cruz de Tenerife: Editorial Melusina, 2007.         [ Links ]

DUGGAN, Lisa. The Twilight of Equality?: Neoliberalism, Cultural Politics, and the Attack On Democracy. Boston: Beacon Press, 2003.         [ Links ]

ERIBON, Didier. Réflexions sur la question gay. Paris: Fayard, 1999.         [ Links ]

______. "Entrée 'Âge'". In: ERIBON, Didier et al. (Org.). Dictionnaire des cultures gays et lesbiennes. Paris: Larousse, 2003.         [ Links ]

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1997.         [ Links ]

______. "Les rapports de pouvoir passent à l'intérieur des corps". In: ______. Dits et écrits II, 1976-1988. Paris: Gallimard, 2001a. p. 228-236.         [ Links ]

______. "Sexualité et pouvoir". In: ______. Dits et écrits II, 1976-1988. Paris: Gallimard, 2001b. p. 552-570.         [ Links ]

______. "Espace, savoir et pouvoir". In: ______. Dits et écrits II, 1976-1988. Paris: Gallimard, 2001c. p. 1089-1104.         [ Links ]

______. "Structuralisme et postructuralisme". In: ______. Dits et écrits II, 1976-1988. Paris: Gallimard, 2001d. p. 1250-1276.         [ Links ]

______. "Foucault". In: ______. Dits et écrits II, 1976-1988. Paris: Gallimard, 2001e. p. 1450-1454.         [ Links ]

______. "Le souci de la vérité". In: ______. Dits et écrits II, 1976-1988. Paris: Gallimard, 2001f. p. 1487-1497.         [ Links ]

______. "Michel Foucault, une interview: sexe, pouvoir et la politique de l'indentité". In: ______. Dits et écrits II, 1976-1988. Paris: Gallimard, 2001g. p. 1554-1565.         [ Links ]

______. "L'éthique du souci de soi comme pratique de la liberté". In: ______. Dits et écrits II, 1976-1988. Paris: Gallimard, 2001h. p. 1527-1548.         [ Links ]

______. Defender la sociedad. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica de Argentina, 2006.         [ Links ]

______. Le corps utopique: les hétérotopies. Paris: Nouvelles Éditions Lignes, 2009.         [ Links ]

HALPERIN, David. Saint Foucault. Paris: EPEL, 2000.         [ Links ]

HOCQUENGHEM, Guy. A contestação homossexual. São Paulo: Brasiliense, 1980.         [ Links ]

LAGRAVE, Rosemarie. "Ré-enchanter la vieillesse". Mouvements, Paris: La Découvert, n. 59, p. 113-122, juil./sept. 2009.         [ Links ]

LAURETIS, Teresa de. Théorie queer et cultures populaires: de Foucault à Cronemberg. Paris: La Dispute, 2006.         [ Links ]

LE BRETON, David. Anthropologie du corps et modernité. Paris: PUF, 2008.         [ Links ]

LOURO, Guacira Lopes. "Pedagogias da sexualidade". In: ______. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p. 7-34.         [ Links ]

______. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.         [ Links ]

______. "Heteronormatividade e homofobia". In: JUNQUEIRA, Rogério Diniz (Org.). Diversidade sexual na Educação: problematizações sobre a homofobia nas escolas. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, Unesco, 2009. p. 85-94.         [ Links ]

MAFFESOLI, Michel. L'ombre de Dionysos: contribution à une sociologie de l'orgie. Paris: CNRS Editions, 2010.         [ Links ]

MENDES-LEITE, Rommel. "Participation observante". Le Journal du Sida, Paris: Arcat Sida, n. 43/44, p. 7, oct./nov. 1992.         [ Links ]

______. "Sens et contexte dans les recherches sur les (homo) sexualités et le sida: réflexions sur le sexe anal". In: BROQUA, Christophe et al. Homosexualités au temps du sida: tensions sociales et identitaires. Paris: ANRS et CRIPS, 2003. (Collection Sciences Sociales et Sida). p. 199-220.         [ Links ]

MENDES-LEITE, Rommel; BUSSCHER, Pierre-Olivier. "Un Bouleversement Scientifique? Les Sciences Humaines et Sociales face à l'épidémie du sida". Sociétés, Revue de Sciences Humaines et Sociales, n. 42, p. 351-356, 1994.         [ Links ]

MENDES-LEITE, Rommel; PROTH, Bruno; BUSSCHER, Pierre-Olivier. "Civiliser la sexualité: des lieux de sexualité anonyme aux back-rooms". In: ______. Chroniques socio-anthropologiques au temps du sida: trois essais sur les (homo)sexualités masculines. Paris: l'Harmattan, 2000.         [ Links ]

PRECIADO, Beatriz. Pornotopía: arquictetura y sexualidade en "Playboy" durante la guerra fría. Barcelona: Anagrama, 2009.         [ Links ]

RICH, Adrienne. Sangre, pan y poesia, prosa escogida 1979 -1985. Barcelona: Icaria Antrasyt, Mujeres, Voces y Propuestas, 2001.         [ Links ]

RUBIN, Gayle. "L'économie politique du sexe: transactions sur les femmes et systèmes de sexe/genre". Cahier d'Études Feministes, Paris, n. 7, p. 4-75, 1998.         [ Links ]

SEDGWICK, Eve Kosofsky. Epistémologie du placard. Paris: Amsterdam, 2008.         [ Links ]

SIMÕES, Julio de Assis. "Homossexualidade masculina e curso da vida: pensando idades e identidades sexuais". In: CARRARA, Sérgio et al. (Org.). Sexualidade e saberes: convenções e fronteiras. Rio de Janeiro: Garamond, 2004. p. 415-447.         [ Links ]

WERZER-LANG, Daniel. "L'homophobie: la face cache du masculin". In: WERZER-LANG, Daniel; DORAIS, Michel et al. (Org.). La peur de l'autre en soi: du sexisme à l'homophobie. Montréal: VLB éditeur, 1994. p. 13-92.         [ Links ]

______. "A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia". Revistas Estudos Feministas, v. 2, p. 460-481, 2001.         [ Links ]

WITTIG, Monique. La Pensée straight. Paris: Balland, 2001.         [ Links ]

 

 

[Recebido em 9 de maio de 2011 e aceito para publicação em 14 de outubro de 2011]

 

 

1 Nota de campo. Como forma de destacar e 'estetizar' o texto de campo, os registros estarão sempre em itálico, integrados em recuo normal. Em relação às citações dos interlocutores, essas estarão sempre incorporadas de forma destacada.
2 A proposta de Virginie Despentes (escritora e codiretora do filme Baisemoi) 'resolve' um pouco das tensões em torno das moralidades que cercam a pornografia. A partir de uma perspectiva queer e pós-feminista sobre o pornográ-fico (post-porno), a autora argumenta: "El porno, fácilmente denunciado por su capacidad de perturbar la relación que la gente tiene com el sexo, es em realidad un ansiolítico. Por eso lo atacamos com virulencias. Es importante que la sexualidad nos dé miedo" (Virginie DESPENTES, 2007, p. 78). Segundo Despentes, pede-se demasiadamente de uma película pornô ao imaginar que ela seja uma imagem do real, como se as atrizes e os atores em cena estivessem submetidos a uma ordem de exploração, objetificação e assujeitamento 'concretos', isto é, por que deveríamos pedir ao filme pornô que dissesse 'a verdade' sobre o 'real', quando já teríamos esse entendimento sobre outros campos no cinema? A questão é que não se trata de saber se isto ou aquilo é real, mas pensar que através do cinema teríamos condições de um alargamento das condições de possibilidade para a compreen-são do que denominamos real; ou daquilo que construímos como verdades e das condições para que certa produção fílmica seja possível - considerando-se as relações que definem os limites de uma relação de trabalho digna. De outra parte, o filme pornô exerce e faz funcionar pedagogias de gênero e sexualidade (Guacira Lopes LOURO, 2000) que oferecem aos seus/suas consumidores/as a possibilidade de um aprendizado para uma homo/erótica, bem como também pode funcionar como uma medida normativa e objetificante para as práticas sexuais, considerando-se que muitas películas se encontram indexadas a regimes normativos em torno da sexualidade. A crítica pós-pornô oferece, nesse sentido, elementos para uma análise ampliada acerca dos enunciados performativos que se produzem e se encontram associados nas diversas formas de pensar/fazer pornografia ou cinema erótico.
3 Embora eu considere importante e fundamental elemento para a compreensão das experimentações da sexualidade contemporâneas sua relação com as doenças sexualmente transmissíveis, especialmente com o HIV/aids, este trabalho não tomou como foco de análise a relação com esse processo saúde-doença nos jogos de verdade que instituem o objeto de estudo. No entanto, cabe ressaltar, as doenças sexualmente transmissíveis ou a Aids não foram questões negligenciadas na tese que originou este artigo. Elas apenas não ocupam status de centralidade e evidência maiores, sobretudo porque não se instituíram como elementos balizadores das experiências aqui analisadas nem se mostraram de forma expressiva desde as narrativas trazidas para o texto da tese. A presença da preocupação com o HIV/aids encontra-se particularmente evidenciada na relação institucional das políticas de prevenção estatais (via ONGs) presentes nos espaços analisados; logo, esses atravessamentos devem ser considerados na perspectiva de pedagogias da saúde. Portanto, não se constituem como elementos organizadores inexoráveis para a problemática das representações de corpo abjeto e erotismo, que são as entradas de problematização deste estudo.
4 Roland BARTHES, 2006, p. 25.
5 Judith BUTLER, 2004a, p. 238.
6 Tese realizada no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), junto ao Grupo de Estudos em Educação e Relações de Gênero (Geerge). O trabalho foi orientado pela prof.a Dr.a Guacira Lopes Louro, a quem expresso meus agradecimentos.
7 Lisa DUGGAN, 2003.
8 LOURO, 2009.
9 Teresa de LAURETIS, 2006, p. 111.
10 Michel FOUCAULT, 1997.
11 LAURETIS, 2006, p. 122.
12 FOUCAULT, 2001a, p. 236.
13 LAURETIS, 2006, p. 111.
14 FOUCAULT, 2001h.
15 Daniel WERZER-LANG, 2001.
16 FOUCAULT citado por David HALPERIN, 2000, p. 107.
17 FOUCAULT, 2001d.
18 FOUCAULT, 1997.
19 Michel MAFFESOLI, 2010.
20 FOUCAULT, 2006.
21 HALPERIN, 2000.
22 Beatriz PRECIADO, 2009, p. 19.
23 HALPERIN, 2000.
24 FOUCAULT, 2001f e 2001g.
25 BUTLER, 2004a.
26 Rommel MENDES-LEITE, 1992; MENDES-LEITE e Pierre-Olivier BUSSCHER, 1994; e MENDES-LEITE, Bruno PROTH e BUSSCHER, 2000.
27 Particularmente considero nesta perspectiva os trabalhos de Eve Segdweck, Judith Butler, Gayle Rubin, Teresa de Lauretis, Guacira Lopes Louro, Marie-Hélène Bourcier e Beatriz Preciado.
28 LOURO, 2004.
29 LOURO, 2004.
30 BUTLER, 2000, 2004a, 2005a e 2005d.
31 O conceito de "jogos de verda-de" diz respeito em Foucault (2001e) à relação que os sujeitos podem estabelecer consigo mesmos, através de certo número de técnicas e regras - os jogos de verdade - que os constituem como um sueito (inteligível/reco-nhecível). Uma problematização sobre os jogos de verdade corres-ponderia, portanto, e nos termos de Foucault, a uma forma de compreensão sobre as condições às quais 'os sujeitos' estão submeti-dos, isto é, qual estatuto se assume, qual posição se pode/deve ocupar, no real ou no imaginário, para tornar-se 'sujeito' legítimo detal ou qual (re)conhecimento.
32 FOUCAULT, 2001b, p. 566.
33 BUTLER, 2006.
34 FOUCAULT, 2001a, p. 231.
35 Rosemarie LAGRAVE, 2009.
36 Adrienne RICHE, 2001.
37 Monique WITTIG, 2001.
38 Marie-Hélène BOURCIER, 2005; BUTLER, 2006; DUGGAN, 2003; Didier ERIBON, 1999; Guy HOCQUENGHEM, 1980; LAURETIS, 2006; LOURO, 2004; Beatriz PRECIADO, 2009; Gayle RUBIN, 1998; e Eve Kosofsky SEDGWICK, 2008.
39 LAGRAVE, 2009.
40 LAGRAVE, 2009, p. 113.
41 David LE BRETON, 2008.
42 LE BRETON, 2008, p. 210.
43 FOUCAULT, 2006.
44 BUTLER, 2005c, p. 31.
45 Julio de Assis SIMÕES, 2004, p. 419.
46 Valèrie DAOUST, 2005, p. 22.
47 ERIBON, 2003, p. 22.
48 FOUCAULT, 2009, p. 10.
49 FOUCAULT, 2009, p. 10.
50 FOUCAULT, 2009.
51 LE BRETON, 2008.
52 FOUCAULT, 2009.
53 PRECIADO, 2009.
54 FOUCAULT, 2009, p. 18.