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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.22 no.2 Florianópolis May/Aug. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2014000200010 

PONTO DE VISTA

 

Tecelãs da existência

 

Weavers of existence

 

 

Ida Mara Freire

Universidade Federal de Santa Catarina

 

 


RESUMO

Neste ensaio, entrelaço fios de vidas das mulheres negras que estão atadas ao fio da minha vida. Com os fios soltos das canções de Zezé Motta e dos escritos da filósofa Hannah Arendt, teço este texto-existência. Na leitura dos ensaios e poemas de Marlene Nourbese Philip, escritora afro-caribenha, me inspiro não só para resistir às amarras culturais hegemônicas, mas também para transcendê-las, criando possibilidades de escrita que vincule a dinâmica da fala com a dinâmica da ação, compondo um texto que se movimenta ora como dança, através do espaço, ora como uma canção, ritmada pelo tempo, pois criar e dançar uma coreografia é uma forma de fazer história. Como investiga Selma Treviños, trata-se de uma ferramenta para animar o passado ou uma "escrita" acerca de algo que já foi feito, se concordamos que cada corpo carrega sua própria história e individualidade, memória, sentimentos e emoções. Na busca do entendimento desta minha breve existência, danço, escrevo, teço palavras com fios desfiados da flor do útero das minhas ancestrais. Vasculho minhas lembranças e, na memória corporal, decifro a dor, encontro a raiz da violência, observo o medo, destilo a alegria, enfeito a doçura, mergulho na paz e conheço a liberdade.

Palavras-chave: memória corporal; liberdade; existência; mulheres afro-brasileiras


ABSTRACT

In that essay I interweave threads of the black women's lives that are tied to the thread of my life. With the free threads of Zezé Motta's songs and of philosopher Hannah Arendt's writings, I weave this text-existence. In the reading of the essay and poems of Marlene NourbeSe Philip, writer Afro-Caribbean, I am inspired not only to resist the hegemonic cultural ties, but also transcend them, creating possibilities of writing that links the dynamics of the speech with the dynamics of the action, to compose a text that is moved some times as a dance through the space, other times as a song, with its rhythm determinedby time, because creating and dancing a choreography is a form of making history. As investigates Selma Treviños it is a tool to encourage the past, or a "writing" concerning something that was already done, if we agree that each body carries his/her own history and individuality, memory, feelings and emotions. In the search for the understanding of my existence I dance, I write, I weave words with frayed threads of the flower of the womb of my ancestral ones. I search my memories and in the corporeal memory I decipher the pain, I find the root of the violence, I observe the fear, I distil the happiness, I decorate the sweetness, dive in the peace and I know the freedom.

Key Words: Body Memory; Freedom; Existence; African Brazilian Women


 

 

Da flor aos fios do algodão

[Inverno de 2012]
Sentada no sofá, na sala de seu apartamento de um dormitório, iluminada pela luz outonal de uma tarde de domingo, está Felícia, minha mãe, com a linha de algodão cru entrelaçada em seu dedo indicador da mão esquerda e com a agulha de crochê na mão direita, a ligar os pequenos elos. Ela me conta a história da transferência dos ossos do meu irmão Israel. Fala dos restos da blusa azul aderida ao esqueleto e dos fios de cabelo ainda presos ao crânio. Atento para a sua narrativa acerca da vida e da morte. Ela, que deu à luz aquele que está agora vivo só entre os espaços vazios dos ossos emaranhados de linha azul. Percebo... o fio que tece a vida é o mesmo que prende o corpo na teia da morte. Minha mãe reconhece a textura de um fio que está ligado a ela, pois constata que aquele fio é ela, do mesmo modo que aqueles ossos são dela, e são ela também. Ela é a vida que permanece mesmo na morte. Ela vive para ensinar essas lições de pertencimento. Gestação é tecer o ser com o fio da vida, cordão umbilical aparentemente cortado, porém, invisível e eternamente atado. Selar o mistério do existir com a liberdade do voo, sustentado pelo respirar interligado. Interdependente.

Volto o olhar para minha mãe a dialogar sobre os ossos secos do meu irmão. Vejo o seu rosto enigmático e pergunto silenciosamente: "Onde mora a tua dor?" Provavelmente nos ossos, bem profundo de seu ser quase centenário. Quantas camadas de sofrimento, de luta, de luto estão aí revestidas nessa sua pele negra? Sua jovialidade, vontade de viver e independência fazem todos se espantarem quando ela, animada, diz sua idade: "Noventa anos!", que ela comemora duas vezes, 1º de outubro e 5 de novembro, data em que foi registrada.

Felícia Gama de Almeida, nascida em 1º de outubro de 1922, em São José do Rio Preto, no estado de São Paulo, filha de Luiz Gama de Almeida e de Maria Cândido. Aos três meses de idade, minha mãe e sua família vão morar em uma fazenda na região de Jacuí, no estado de Minas Gerais, para trabalharem como lavradores. Em sua infância, acompanhada de outras crianças de sua idade, brincava de boneca e de roda no terreiro. Na juventude, ia para os bailes acompanhada de seus irmãos; animada, dançava ao som dos acordes dos sanfoneiros convidados. Mas a rotina também incluía o trabalho na colheita do café, o cuidado aos animais, a fiação e a tecelagem do algodão. Foi nesse ambiente que minha mãe, Felícia, aprendeu a tecer os fios resistentes da liberdade, ao ouvir as histórias da sua avó tecelã. E desde pequena, ao brincar com a flor do algodão, observava a avó ensinar a irmã Joana, pois "a filha mais velha deveria aprender o ofício e passar para as mais novas", como lembra minha mãe, com um tom de voz um tanto inconformado. No desembaraçar das fibras, no enrolar e corar das meadas e dos novelos, ela atentava para as mãos negras da avó que fiavam na roca com destreza a branca flor do algodão, agora em fio, intercruzado no tear, tornando-se teia, trama que veste o corpo, cobre a cama, acolhe a vida, pois, em meio à malha da linha cruzada no tear, e enquanto cuidava de um machucado na perna de um neto ou trocava a roupa da neta, a avó contava e Felícia ouvia suas histórias sobre a participação de seus tios na Guerra de Canudos e dos dias da avó vividos na senzala. "Ana Cândido de Jesus nasceu livre, em Pouso Alegre, Minas Gerais, mas foi criada na senzala" – diz minha mãe pelo telefone: "... ela era uma escrava livre".

Ao ler alguns trechos da Lei do Ventre Livre e o seu contexto, as palavras contraditórias da minha mãe podem fazer sentido. Essa lei, de n.º 2.040, sancionada em 28 de setembro pela Princesa Imperial Regente Isabel, em nome do Imperador D. Pedro II, e na qual pode-se ler, em seu artigo primeiro: "Os filhos de mulher escrava que nascerem no Império desde a data desta lei serão considerados de condição livre", coloca uma limitação a essa liberdade, em seu primeiro parágrafo, quando prescreve:

Os ditos filhos menores ficarão em poder o sob a autoridade dos senhores de suas mães, os quais terão a obrigação de criá-los e tratá-los até a idade de oito anos completos. Chegando o filho da escrava a esta idade, o senhor da mãe terá opção, ou de receber do Estado a indenização de 600$000, ou de utilizar-se dos serviços do menor até a idade de 21 anos completos. No primeiro caso, o Govêrno receberá o menor e lhe dará destino, em conformidade da presente lei.1

Nesse sentido, a definição de "escrava livre" é assim aplicada, minha tataravó escravizada gestou em seu ventre um ser livre; no entanto, o ambiente em que Madrinh'Ana nasceu, a saber, uma senzala, era um lugar para pessoas escravas.

"É bem possível que nos seja difícil compreender nossa própria história se nascemos em 1771, em Berlim, e essa história já tenha começado dezessete séculos antes, em Jerusalém".2 Se altero essa frase de Arendt, mudando para 1871, em Pouso Alegre, Minas Gerais, e o início dessa história para quatro séculos antes, em algum país do continente africano, mudo também a personagem para minha bisavó Madrinh'Ana. Reflito a indagação de Arendt:

O que é o ser humano sem sua história? Produto da natureza e nada de pessoal. A história da personalidade é mais antiga do que o produto da natureza, inicia-se antes do destino individual e pode proteger ou destruir aquilo que há e permanece em nós da natureza. Quem deseja ajuda e proteção da vasta História, na qual nosso insignificante nascimento rapidamente se perde, deve ser capaz de conhecê-la e compreendê-la.3

Assim, aproximadamente oitenta anos depois, fico a imaginar a minha bisavó a contar e a recontar sua história para as netas, enquanto habilmente tecia em seu tear, lembrando-as que os fios presos da franja bordada da malha não deveriam esquecer que já foram flores livres de algodão ali do campo.

Madrinh'Ana filosofava com tal clareza que enfatizava que era um ser livre, independente do ambiente em que nasceu. Ela se recusava a aclimatar-se no mundo, cujo risco está em

[...] ver nossa vida como o desenvolvimento do 'produto da natureza', a sequência continuada daquilo que sempre fomos. O mundo, nesse caso, torna-se uma escola no sentido mais amplo e as pessoas, educadoras ou corruptoras. É lamentável apenas que, para seu desenvolvimento harmonioso, a natureza humana seja tão dependente da sorte quanto o trigo do bom tempo. Pois, se a vida falhar realmente nas poucas coisas mais importantes que dela são naturalmente esperadas, o desenvolvimento, única continuidade no tempo que a natureza conhece, é interrompido e a dor é avassaladora. E o ser humano, dependente apenas da natureza, é derrotado por sua inexperiência e sua inabilidade de compreender mais do que a si mesmo.

Minha mãe escutou muito as histórias de sua avó e as incorporou bem, ao ponto de hoje eu poder escrevê-las aqui e repetir o provérbio yorubá que diz: "Se posso colocar-me de pé é porque minhas costas estão apoiadas em minhas ancestrais."

 

Das fibras emaranhadas à preparação para fiação

Destarte, neste ensaio entrelaço fios de vidas das mulheres negras que estão atadas ao fio da minha vida. Em conversas com minha mãe Felícia, que minha vida em seu ventre teceu, escuto sua história marcada por sua mãe, minha avó Maria, e pela mãe de sua mãe, minha bisavó Ana. Mas há também os fios soltos: a cantora e atriz Zezé Motta, que com seu canto me encanta, e com seu corpo me instigou a aceitar o meu corpo negro; a filósofa Hannah Arendt, cuja vida e obra têm me ensinado a tecer a experiência do pensamento; e a minha filha, tecida em mim com os fios do mistério, que me faz crer no milagre dos novos começos. Torno-me também tecelã, teço este texto-existência. Na busca do entendimento desta minha breve existência, danço, escrevo, teço palavras com fios desfiados da flor do útero das minhas ancestrais. Linhas multicoloridas gestam minúsculas letras esculpidas em meu ser. Vasculho minhas lembranças e, na memória corporal, decifro a dor, encontro a raiz da violência, observo o medo, destilo a alegria, enfeito a doçura, mergulho na paz e conheço a liberdade. Aprendo, no convívio familiar, nas presenças e nas ausências da minha mãe, a aprimorar os sentidos: ver o invisível e ouvir as vozes do silêncio.

Por um momento pensei que a minha singularidade passasse pela minha voz; mas, em busca de um modelo, encontrei vozes parecidas. Talvez por desconhecimento ou, ao contrário, por um outro tipo de conhecimento, descobri que a distinção é um exercício sutil. Se, no mundo de aparên-cias, às vezes muitos seres desaparecem na multidão, na polifonia mundana o mesmo pode acontecer. A distinção da própria voz se apresenta em graus variados, conforme o grau da escuta de si, de modo que a escuta de si próprio é o primeiro passo no caminho em direção à escuta do outro. Parece-me que quanto mais ouço a mim mesma, mais ouço o outro. Por isso, a percepção de si está sempre vinculada à percepção do outro. E talvez seja por essa razão a dificuldade de descolar o outro de si, chegando ao ponto de dizer e chamar o outro de eu mesmo.

As letras das canções entoadas pela cantora e atriz Zezé Motta assumem, neste texto-existência, texturas de fios musicais, trazendo a sonoridade das entranhas das tecelãs. Zezé Motta, com sua voz, embalou o meu corpo jovem em formação; em seu corpo negro e nu na tela do cinema, vi meu corpo espelhado no dela e comecei a aprender os vocábulos do termo liberdade inscritos em minha memória corporal. Na leitura dos ensaios e poemas de Marlene Nourbese Philip (1997), escritora afro-caribenha, inspiro-me, não só para resistir às amarras culturais hegemônicas, mas também para transcendê-las, criando possibilidades de escrita que vinculem a dinâmica da fala com a dinâmica da ação, compor um texto que se movimenta, ora como dança através do espaço, ora como uma canção ritmada pelo tempo, pois criar e dançar uma coreografia é uma forma de fazer história.

Como investiga Selma Treviños (2008), trata-se de uma ferramenta para animar o passado ou uma "escrita" acerca de algo que já foi feito. Contudo, o que foi esquecido, ao contrário de ser ausência de algo que não está mais lá, pode ser a presença esquecida de algo que já esteve ali. No caso de uma escrita pautada na memória corporal, Treviños sugere que ter uma memória de um movimento fora do corpo não aniquila o movimento em si. Movimento, quando criado por um corpo vivo, tem a vida do criador envolta nisso. No momento em que outro corpo é motivado a encarnar esses movimentos, eles voltam à vida novamente. Nem a repetição desses movimentos pode aniquilar a identidade do corpo da dançarina, principalmente se concordamos que cada corpo carrega sua própria história e individualidade, memória, sentimentos e emoções. Desse modo, toda vez que o mesmo corpo executa um movimento de sua própria criação ou não toda a sua bagagem vem junto.

 

Dos fios de algodão ao tear

"Abre as asas sobre mim
Oh! senhora liberdade
Eu fui condenado
Sem merecimento
Por um sentimento
Por uma paixão
Violenta emoção, pois
Amar foi meu delito
Mas foi um sonho tão bonito
Hoje estou no fim
Senhora liberdade
Abre as asas sobre mim
Não vou passar por inocente
Mas já sofri terrivelmente
Por caridade
Ó liberdade
Abre as asas sobre mim"
Música "Senhora liberdade".
Autores: Wilson Moreira e Nei Lopes.
Intérprete: Zezé Motta

Escuto a voz da minha mãe a dizer que sua mãe era famosa na região, ela trabalhava na colheita de café e recebia por safra mais de 100 Réis, que na época era suficiente para os gastos da família por um ano. Com um dos filhos, ela ia à cidade e comprava mantimentos e tecidos para roupas. Era ela também quem administrava todos os ganhos da família. Além do trabalho na lavoura de café, vó Maria era uma exímia costureira, confeccionava vestido de noiva, enxovais de bebês e ternos masculinos com quatro bolsos, como lembra minha mãe.

Maria Cândido era a filha caçula de Madrinh'Ana, seus irmãos eram José, João – que recebeu o nome do pai por se parecido com ele: loiro de olhos azuis – e Sebastião. Madrinh'Ana veio a falecer com 103 anos, em Pouso Alegre, e nessa longa vida foi parteira das sete filhas e dos quatro filhos da vó Maria: Joana, João, Maria, Bernardo, Geraldo, Felícia, Aparecida, Binha, Zé Benedito, Dita e Tereza. Meus avós maternos, Maria Cândido e Luiz Gama de Almeida, educaram a prole com muito zelo e dedicação; em alguns momentos, esse zelo se mostrou de forma ambígua, trazendo à tona conflitos de interesses, sofrimento e humilhação, a exemplo da história dos casamentos de minha mãe.

Como examina Arendt,4

A História como uma categoria de existência humana é, obviamente, mais antiga que a palavra escrita, mais antiga que Heródoto, mais antiga mesmo que Homero. Não historicamente falando, mas poeticamente, seu início encontra-se, antes, no momento em que Ulisses, na corte do rei dos Feácios, escutou a estória de seus feitos e sofrimentos, a estória de sua vida, agora algo fora dele próprio, um 'objeto' para todos verem e ouvirem. O que fora pura ocorrência tornou-se agora 'História'. [...] a cena de Ulisses é paradigmática, tanto para a História como para a Poesia; a 'reconciliação com a realidade', a catarse, que segundo Aristóteles era a própria essência da tragédia, constituía o objetivo último da História, alcançado através das lágrimas da recordação. O motivo humano mais profundo para a História e a Poesia surge aqui em sua pureza ímpar: visto que ouvinte, ator e sofredor são a mesma pessoa, todos os motivos de pura curiosidade e ânsia e informações novas, que sempre desempenharam, é claro, um amplo papel, tanto na pesquisa histórica como no prazer estético, acham-se, naturalmente, ausentes do próprio Ulisses, que se teria enfastiado mais que comovido se a História não passasse de notícias e a Poesia fosse unicamente entretenimento.

Eis o destino deste texto-existência: entrelaçar gerações como possibilidade de reconciliação.

Felícia tinha 18 anos quando saiu da região de Jacuí, em Minas Gerais, e mudou com seus pais, irmãos e irmãs para o interior do estado de São Paulo para trabalhar como empregada doméstica e cozinheira. Tinha um grupo de amizades e sua rotina envolvia, nesse período, ir à missa e visitar os familiares no sítio: morava na casa dos patrões. E assim, como participava da mesma comunidade religiosa, conheceu a família dos Guimarães.

O senhor Aníbal Teodoro Guimarães era da irmandade do Nosso Senhor dos Passos, e Felícia, juntamente com uma das filhas desse senhor, participava na congregação como Filha de Maria. Nessa convivência, iniciou-se um interesse mútuo do pai e do filho pela mesma jovem. O pai, viúvo, com 52 anos, com nove filhos, atentou para a entusiasmada e bela jovem pela qual seu filho Rodolfo, de 18 anos de idade, estava enamorado. Sentindo-se injustiçado pela balança da vida, por ela ter-lhe dado tantos filhos e filhas e subtraído a saudosa esposa, espelhou-se no filho, viu-se novamente jovem e ocupou o lugar deste. Seu filho, embora com 18 anos, pequeno ali ficou, parado no tempo interno do pai. Esse pai que a experiência de vida e as posses materiais lhe deram audácia suficiente para pedir a mão da jovial Felícia em casamento, não para o seu filho, mas para ele mesmo. Em segredo, meus avós consentiram ao homem viúvo acom-panhar Felícia à missa. Naquele dia, lembra minha mãe, seu patrão falou: "– O seu pai está aí." Ela, surpresa, exclamou: "– Meu pai!?" Não. Não era o seu pai. Na primeira vez, ela conseguiu se desvencilhar e não ir, mas, na segunda vez, lá foi ele feliz com a sua noiva. Sim, foi nesse dia que ele a apresentou para todos na igreja. Ela ainda não acreditando. Mas, três meses antes desse dia, minha avó havia iniciado um plano que trouxe muitos conflitos e dor para minha mãe, que até hoje reverberam nos relacionamentos familiares, como nó na fiação e embaraços nos fios da linha da vida.

Sem que Felícia fosse consultada em relação aos seus desejos, vontades e escolhas, sua mãe organizou a sua festa de casamento, encomendou o vestido de noiva, tudo financiado pelo senhor Aníbal. Quinze dias antes do casamento, sua mãe foi buscá-la no trabalho para os preparativos da cerimônia. Ela ainda não acreditava que iria se casar mesmo com aquele senhor. E, no dia do casamento, numa conversa no quintal com a prima que duvidava que ela iria se casar com "aquele velho", respondeu-lhe a provocação: "– Na hora eu vou dizer que não caso com gosto." Minha avó, ouvindo a história, irritada e com a possibilidade de "passar vergonha," deu-lhe vários tapas, marcando seu rosto tão visivelmente que nem o véu pôde esconder. Durante a festa do casamento, um ex-namorado de Felícia, inconformado, tirou-a para dançar e confidenciou em seus ouvidos sua indignação de ter sido preterido. A cena feriu os olhos do noivo, que avançou em direção ao ex-pretendente com uma faca na mão, que, para tristeza de todos, fez com que a festa acabasse mais cedo.

Passaram-se três meses. Felícia Gama de Almeida Guimarães volta para a casa dos pais acompanhada de seu marido. Ele veio trazê-la, pois, até o momento, embora tivessem compartilhado a mesma cama, nada acontecia em relação ao desejo. Sua mãe, em uma conversa franca, ameaçou-a de retirar-lhe a sua bênção. A ameaça de ser amaldiçoada pela própria mãe foi o suficiente para Felícia retornar para a casa do marido acompanhada por ele. E suas experiências íntimas iniciais foram marcadas pelo desconhecimento do próprio corpo e pelo desencanto. Ignorava por completo como as crianças vinham ao mundo; ao ver a mãe com crises de vômitos durante a gestação, indagava silenciosa: "Será que se nasce pela boca?" Em breve, por experiência própria, ela saberia que a resposta seria não. Em novembro de 1947 nasce seu primeiro filho, Pedro Luiz Guimarães. Ela se viu no meio de uma família com dez filhos. Numa situação distinta, com filhas e filhos com a mesma idade dela e com alguns mais velhos. Havia as crianças que ela ajudava a cuidar e agora também ela tinha o seu próprio bebê. Configurava-se uma frágil trama de relacionamentos que veio a se desmanchar ao romper o fio que a unia. Aníbal, enquanto trabalhava na sua serralheria, contraiu o vírus da meningite e veio a falecer antes que seu filho Pedro completasse três anos de idade. Com a morte de seu protetor, Felícia passou por seu calvário. As filhas mais velhas de Aníbal assumiram a casa no período em que ele estava doente, iniciando uma relação perniciosa com Felícia, que se agravou após a morte do seu marido, levando à sua expulsão da casa, apenas com a roupa do corpo e o filho no colo.

Em vários momentos, ouvi minha mãe relatar esse período de sua vida no qual ela veio a sofrer várias privações, dentre elas, que suas enteadas a deixavam sem comer. Ela, que ainda amamentava o filho, perdeu muitos quilos e alguns dentes. Voltando a trabalhar como cozinheira, seus patrões acolheram a ela e seu bebê. Com o passar do tempo, ela recupera seu bem-estar e sua beleza – comenta que colocou duas coroas de ouro nos dentes. Ao voltar viúva para a casa do pai de seu filho para buscar documentos, gera espanto aos olhos das enteadas. Para minha mãe, contar e recontar a sua história foi uma filosofia que ela aprendeu com sua Madrinh'Ana. Uma filosofia tecida no trabalho doméstico, no cuidado ao outro, na experiência de vida e no sofrimento diante da morte. Dessa filosofia caseira e materna surge uma teia de pensamentos, distinta de Platão e Aristóteles, que, na análise de Arendt,5

[...] haviam descoberto, na atividade do próprio pensamento, uma recôndita capacidade humana para libertar-se de toda a esfera dos assuntos humanos, os quais não deveriam ser levados demasiado a sério por homens (Platão) porque era patentemente absurdo pensar que o homem fosse supremo ser existente (Aristóteles). Enquanto procriação, poderia ser suficiente para a maioria, 'imortalizar' significava para o filósofo coabitar com as coisas que existem para sempre, ali estar presente em um estado de atenção ativa, mas sem nada fazer, sem desempenho de feitos ou realização de obras.

Para uma mulher como minha mãe, a procriação não parece ser suficiente para "imortalizar"; a natalidade, tal como a atividade de pensar, tem a insígnia da liberdade.

E assim, no seu renovado deslumbramento, Felícia encontra o amor. Manoel Antonio Freire conquista o seu cora-ção e a pede à sua mãe em casamento. Pedido recusado. Maria Cândido desfolha sua ambiguidade entre o zelo e a ambição. Do casamento com Aníbal, motivado por suas posses, almejava uma robusta segurança, mas com sua morte se transformou em minguadas, aparentemente permanentes, pensões para Felícia e seu filho. A união matrimonial com Manoel, homem natural de Feira de Santana, estado da Bahia, origem que seus pais subestimavam, colocava em risco a perda de tal herança. No entanto, fortalecida, Felícia resistiu às ameaças e, entre a perda da pensão e a obediência desmedida aos seus familiares, escolheu casar-se com seu novo pretendente sem pompas externas, mas com vertente alegria interna. As consequências foram nefastas; seus pais se apossaram de seu filho Pedro, pois não queriam abrir mão da pensão da criança, uma das garantias financeiras para o sustento da mãe de Felícia, que agora assinava Felícia Gama de Almeida Freire. Para muitos, a emancipação pode parecer resistência à submissão, mas é bem mais que isso. Ao comentar as palavras de Píndaro: "Este é o maior pesar: estar com os pés fora do certo e do belo que se conhece (forçado) pela necessidade?". Arendt6 escreve:

Necessidade que me impede de fazer o que sei e quero pode surgir do mundo, ou de meu próprio corpo, ou de uma insuficiência de talentos, dons e qualidades de que o homem é dotado por nascimento e sobre os quais ele tem tanto poder quanto sobre as demais circunstâncias; todos esses fatores, sem exclusão dos psicológicos, condicionam exteriormente o indivíduo no que diz respeito ao quero e ao sei, isto é, ao próprio ego; o poder que faz face a essas circunstâncias, que liberta, por assim dizer, o querer e o conhecer de sua sujeição à necessidade, é o posso. Somente quando o quero e o posso coincidem, a liberdade se consuma.

O casamento de Felícia com Manoel trouxe uma vida cheia de experiências novas. Admirada com a própria ousadia, recorda às vezes que foi retirar o marido da prisão:

Depois que nós casamos, foram seis anos de casado, nós aprontamos tanto que o Manoel foi duas vezes pra cadeia e depois eu fui presa com ele. Três vezes nós fomos presos. Porque o Manoel bebia, aprontava lá no bar. E eu ia lá tirar ele. Eu estava grávida da Izabel. Cheguei lá e falei para o delegado que prendeu ele, que era o Mário Moretti, que eu também ia morar na cadeia porque eu não podia trabalhar. Aí ele... não... ele respondeu para mim, ele queria brigar comigo: – Eu sou o delegado. Eu respondi: – Pois é, senhor, eu trouxe uma mala. O Ismael, ele tinha um aninho, pois o Ismael era bem baixinho, pequenininho, bem arrumadinho, eu também bem arrumada, fomos embora lá para a cadeia ficamos lá umas três horas, eu com o Ismael, até o delegado tirar o Manoel da cadeia. Depois foi por causa de uma galinha, eu bati numa mulher que estava grávida e ela se machucou, teve que ir para o hospital. Aí eu fui presa, fui presa eu e o Manoel.7 (Felícia Gama de Almeida Freire)

A religiosidade também foi marcante. Ela, de Filha de Maria torna-se vidente, abrindo as sessões espíritas em um centro espírita e depois na sua própria casa, onde Manoel era Pai de Santo. No nascimento do filho Israel Antônio Freire, as atitudes da parteira chamam a sua atenção e, sensibilizada com as orações, converte-se posteriormente ao cristianismo. A relação com Maria Cândido e Luiz Gama, pais de Felícia, era mantida com visitas regulares, com a precisa dose de ambiguidade.

 

Tessituras existenciais

[Verão 2012]

"Bromina é flor da noite
Que nasce depois da tarde
Passa o tempo que passar,
Não esqueço da minha Amada."
Autor desconhecido

Minha mãe recitou esses versos para nós enquanto deslizava a agulha de crochê em mais uma laçada, sentada no sofá. Ao recordar a declaração de amor que meu pai escreveu para ela, lamenta ter perdido a carta datada de 1957 na enchente nos anos 90, em sua casa, em São José dos Campos. Ela se levanta de onde está sentada nessa tarde de verão para pegar a certidão de casamento, e o fio azul engancha em seu botão, arrastando-se pela sala, formando um grande triângulo. Pergunto quantos filhos ao todo ela concebeu e ela começa a enumerar a ordem dos dez: Pedro, Ismael, Izabel, Jacinta – ocorre o primeiro aborto – Israel, Raquel (que veio a falecer com meningite aos 10 meses de idade), Ida – ocorre o segundo aborto –, e nasce Ester em 1968, a temporã.

Comecei a entender o sentido de uma conversa, quando, num dia, ela falando da diferença entre os filhos e as filhas, mostrou a mão esquerda aberta, apontou para cada um dos dedos e falou: "Está vendo cada dedo aqui da minha mão? Nenhum é igual a outro, mas todos pertencem à mão". Dez dedos de suas mãos, dez filhos de seu ventre com insígnia livre. Nas belas palavras de Arendt:8

Não se trata tanto de que o homem possua a liberdade como de equacioná-lo, ou melhor, equacionar sua aparição no mundo, ao surgimento da liberdade no universo; o homem é livre porque ele é um começo e, assim, foi criado depois que o universo passara a existir: [Initium] ut esset, creatus est homom, ante quem nemo fuit. No nascimento de cada homem, esse começo é reafirmado, pois, em cada caso, vem a um mundo já existente alguma coisa nova que continuará a existir depois da morte de cada indivíduo, porque é um começo, o homem pode começar; ser humano e ser livre são uma única e mesma coisa. Deus criou o homem para introduzir no mundo a faculdade de começar: a liberdade.

E aconteceu em 8 de maio de 1961, eu, filha de Felícia Gama de Almeida Freire e Manoel Antonio Freire, nasci em Presidente Prudente, no interior do estado de São Paulo.

Anos atrás, perguntei à minha mãe acerca da atmosfera do meu nascimento, e escrevo em meu diário:

Era sábado, véspera do dia das mães, meu pai perguntou à minha mãe se estava tudo bem. Ele tinha que descarregar um caminhão e queria saber se o bebê chegaria ou não. Tudo transcorreu normalmente naquele dia. Domingo, dias das mães, as crianças foram para a Escola Dominical com meu pai. Minha mãe ficou cuidando da casa e nada parecia interromper sua rotina. Tirava a água do poço para lavar as pocilgas quando a bolsa rompeu. Meu pai, ao retornar e perceber o que acontecera, chamou a vizinha, dona Adelaide, que veio em seguida e fez o exame de toque para saber se estava na hora. Sua mão manchou-se de sangue, estava tudo bem com o bebê, mas ele não havia sinalizado que queria sair dali. Começou o trabalho de parto, isto sim. O nascimento mesmo foi às dezessete horas e quinze minutos. Horário preciso, minha mãe diz que meu pai fazia questão que registrasse na data e no horário, para que não tivéssemos problemas na hora do casamento. A parteira chamou meu pai para ajudar minha mãe a colocar algumas ervas e amarrar as faixas em volta da barriga para não deixar nenhum resíduo. Ela deveria ficar deitada e o bebê seria levado até ela para ser amamentado. Minha mãe me diz que nasci bem tranquila e assim fiquei o tempo todo. Ela também contou que passou tão bem que no quarto dia pós-parto resolveu fazer uma faxina na pocilga e acabou passando mal. Ela acrescenta que nasci de parto normal, que ganhou a máquina de costura e pôde fazer todo o meu enxoval.9

No pano de fundo do meu nascimento, está o desejo de preencher a dor da perda da minha irmã Raquel, que nasceu em 10 de maio de 1959, como consta no registro civil de seu nascimento, de n.º 46.568, que manuseio neste momento com extremo cuidado. Sua precoce morte fez com que minha mãe e meu pai redobrassem seus cuidados para que não viessem a perder outro bebê. Quando eu tinha três anos, minha mãe entrou em crise nervosa e foi internada, ficando ausente por seis meses. Meu pai assumiu sozinho o cuidado da prole. Passados quatro anos do meu nascimento, minha mãe engravida, mas, em virtude dos trabalhos pesa-dos, ela perde outra criança. Marcou assim o meu ser: escuto o jorro do jato de urina na parede do vaso de louça branco, laranja, amarelo claro, água, sangue, secreção. O corpo filtra, transforma, elimina: suor, aroma, odor, olfato. O corpo distingue: exala, inala, respira, transpira, choro, lágrima, água salgada, mar. O corpo afoga a dor: enchente, nascente, maré, crescente. Menstruo: não gesto, gestação invisível, carne líqui-da. Enterro num chumaço de algodão. Absorvo o vermelho carmesim no branco que escorre no vaso de louça. Vida que vai pelo esgoto, arroto, escroto, necrófilo, morto. Aborto.

Eu fico com essa dor
Ou essa dor tem que morrer
A dor que nos ensina
E a vontade de não ter
Sofrer de mais que tudo
Nós precisamos aprender
Eu grito e me solto
Eu preciso aprender
Curo esse rasgo ou ignoro qualquer ser
Sigo enganado ou enganando meu viver
Pois quando estou amando é parecido com sofrer
Eu morro de amores, eu preciso aprender10

As mãos de Felícia são pequenas, suas rugas indicam o trabalho do tempo, os dedos e unhas arredondados. Embora não as toque muito, conheço-as bem. Seu intenso cuidado ao guiar-me pelas ruas e ao dar-me limites também. Suas mãos esfregando as roupas na tábua de madeira de uma velha árvore, pendida do quintal. Suas mãos pequenas erguiam com determinação o ferro de passar roupas à brasa. Também notei suas mãos costurando o enxoval para a nova criança que ali em breve chegaria. Observei essas mãos a manter a casa limpa, a cuidar das filhas e dos filhos, a nutri-los. Presenciei também sua fúria, arremetendo objetos que tinha nas mãos, no chão ou em quem a provocara. À medida que minhas mãos foram crescendo, fui me distanciando das mãos da minha mãe. Aprendi a ler os livros e o tempo marcado no relógio antes de entrar na escola, aos sete anos. Era o centro das atenções ao ler para todos o que via em minha frente. E apreciava a leitura das Escrituras Sagradas. Já acompanhava minha mãe em seu trabalho como revendedora da Christian Gray e da Avon, e também como vendedora de roupa. Durante as primeiras séries do ensino fundamental, fiquei responsável pelas cobranças, e, para garantir alguns trocados a mais, após a escola eu levava o almoço para minha vizinha, que trabalhava como enfermeira em um hospital. Equilibrando-me pelos trilhos, eu ia dançando e cantarolando a música Raindrops Keep Falling on My Head, de Billy Joe Thomas. Trilhos por onde, caminhando sol a pino, acompanhava minha avó Maria em suas visitas aos parentes distantes.

Recebi o meu diploma de quarto ano sem a presença da minha mãe. Nos primeiros meses da quinta série, voltamos a morar em Santos, algo que já havia acontecido antes, pois meu pai era estivador e, conforme a safra, nós morávamos próximos ao porto ou à plantação. Recordo-me de um domingo em que saí de casa para fazer uma caminhada assim que mudamos para Santos, em 1972. No caminho, decidi ir em direção ao mar. Cheguei à praia da Biquinha após umas quatro horas de caminhada, praia que frequentava quando criança. Sentei-me na areia, estava de vestido, não havia levado roupa de banho. Aos poucos fui sentando mais perto da água. Não demorou muito e eu estava a me banhar com roupa e tudo. Voltei assustada para sentar-me na areia, após ser derrubada por uma onda. Esperei o vestido secar e, mexendo na areia, encontrei uma moeda de cinquenta centavos. Era suficiente para pagar a passagem. Silenciosa durante o trajeto do ônibus, eu lia a cidade; cheguei em casa no final da tarde. Fui recebida pelo olhar curioso e preocupado da minha mãe, ao qual respondi com o gesto de quietude daquela que guardava o mar dentro de si. Dois anos se passaram quando, numa tarde, pela última vez, visitei minha avó Maria, que estava internada no Hospital dos Estivadores, cuja conta meu pai, genro que ela inicialmente desdenhou, ajudou a pagar. Comecei a estudar num curso noturno de uma escola pública e a trabalhar durante o dia. Aos "catorze anos incompletos", consegui emitir minha carteira de trabalho. As atividades foram várias: empacotadeira numa fábrica de doce, balconista numa livraria, recepcionista, auxiliar de escritório. Minha adolescência era também preenchida com passeios pela praia, cinema, jogos de xadrez, dança nas matinês e leituras de romances e fotonovelas.

Na juventude comecei a fazer, junto com minha irmã Izabel, o curso pré-vestibular. Chegávamos às onze horas da noite em casa. Encontrávamos, em cima do fogão, a janta pronta que minha mãe preparara. Nesse período, aconteciam reuniões do Movimento Negro em casa, com Henrique Cunha Júnior e meu irmão Ismael Antonio Freire, estudantes universitários em São Carlos. Nos finais de semana em que nos visitava em casa, Ismael chegava vestindo batas e com tranças africanas, cortava nosso cabelo no estilo black-power (poder negro) e me ensinou que black is beautiful (negro é lindo). A reprovação no vestibular para o curso de Farmácia e Bioquímica na USP foi uma grande decepção. Levou-me a avaliar minhas escolhas e uma delas ocorreu no campo espiritual. Faço minha profissão de fé e me torno membro da Igreja Metodista. Completamente envolvida com o Sagrado e, após várias tentativas de estudar numa universidade pública, em 1981 faço inscrição no vestibular, na Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP) para Educação Religiosa e, na segunda opção, para o curso Pedagogia – Habilitação Magistério para Deficientes Mentais. Recordo-me com uma mala pequena na mão e minha mãe percebendo que ali continham mais roupas que o necessário para quatro dias. Foi quando confirmei, resoluta: "Passe ou não no vestibular, eu não volto para casa." A mala já se foi, outras malas maiores ocupam hoje espaço aqui em casa, mas ainda guardo comigo, para nos aquecer nos dias frios, a manta de solteiro que minha mãe me deu naquele dia. Embora atualmente eu raramente ande de mãos dadas com ela, estamos mais próximas a cada dia, pois caminhamos lado a lado. Acompanhei-a e a ajudei a se levantar quando caiu no caminho do hospital em que meu pai estava internado. Observei suas mãos passarem na fronte risonha de meu pai, em um dos dias mais tristes de minha vida. Alguns anos se passaram e testemunhei minha mãe pousar suas vivas e quentes mãos sobre as mãos frias do meu irmão, congelando o seu coração. Comecei a perceber a sabedoria no provérbio do filósofo romano Sêneca, quando ele diz: "Ducunt volentem fata, nolentem trahunt" (As Parcas guiam aquele que quer, aquele que não quer, elas arrastam). Na mitologia grega, as Parcas eram três: Cloto, Láquesis e Átropos; tinham como ocupação tecer o fio do destino humano e, com suas tesouras, cortavam-no quando muito bem entendiam.

À medida que puxo o fio da meada da memória, percebo as mãos tecelãs da minha mãe na minha escolha profissional e formação acadêmica. Na juventude, durante o ensino médio, comecei a participar de seminários promovidos pelo Rotary Club sobre os efeitos da poluição na população da cidade de Cubatão e atentei-me à temática do desenvolvimento de crianças anencefálicas. Como essas crianças sobreviviam? Quem cuidava delas? Tal interesse motivou-me a enveredar para a área da saúde. No entanto, os insucessos no vestibular nesse campo de estudo e o interesse por outros assuntos conduziram-me para o magistério. Hoje, olhando em retrospectiva, percebo que, inconscientemente, a relação materna guiava cada passo no caminho. Assumi o magistério, e a mente indagativa me levava a querer conhecer mais; eu desconhecia a origem e o que doía tão profundamente em mim. Elegi a relação mãe-criança como foco de meus estudos no mestrado e no doutorado. No mestrado, pesquisei as interações das mães adolescentes e seus bebês. Orientava. Perguntava. E no doutorado investiguei a relação de crianças com e sem cegueira; crianças com suas mães e educadoras. Escavava lentamente a memória corporal, tornei-me especialista em dança cênica, realizei dois estágios de pós-doutorado tendo a cegueira como guia. Tateio, na superfície da pele, a resposta à pergunta silenciosa que fiz acerca do lugar da dor em minha mãe, como mencionada no início deste texto. Sim, a resposta está numa camada mais profunda dos dedos das mãos da minha mãe. Está em mim.

Nas tessituras do silêncio, encontro com a lembrança do gesto daquele que se foi. Escrevo sem pensar no sentido do gesto, mas me ocupo do vazio que ele me deixou e me percebo esvaziada. Nesse vazio, olhei para ver o que ela faz enquanto rezo, oro, imploro, escuto. Danço no rastro do gesto tecido pelas ausências. Meus ossos dão forma, apoio, resistência ao que se mantém. Marco os passos, ergo um braço, fecho a mão em punho. A batida da sola do pé, alternada no tempo, provoca o ritmo, descreve a dança. O braço direito levantado acompanha o movimento com as mãos cerradas, dando equilíbrio ao pé que se alterna – uma assimetria que sustenta a mão cerrada em riste, que fala sem palavras acerca do poder. Essa é a minha dança, esse é o meu caminhar oriundo dos recônditos do meu corpo em sintonia com o chão, a terra que piso e com a voz que grito: – Livre! Mas falo isso em todas as línguas, pois meu corpo o diz. E me faço entender no silêncio. Resistência, os ossos como apoio de um gesto, de um movimento, de uma ação. Os ossos que desenham no ar uma ação, revelam união, mas o corpo que dança e a voz que encanta traduzem comunhão. Para quem vê, e por quem sou vista, pode tal ação ter sentidos diferentes, quem poderá dizer? Ao dançar, nem percebi que o bater os pés no chão acalmava meu coração. A terra sofrida removia, e grávida sentia, poderiam flores ali nascer? A luva de fogo do sofrimento me tocava, queimava minha vontade de viver. Eu dançava mais rápido, era o passo mais forte, era o contato com o chão que guardava os ossos já ressequidos de desilusão.

 

O fios da existência

O pôr do sol
Vai renovar brilhar de novo o seu sorriso
E libertar
Da areia preta e do arco-íris cor de sangue
Cor de sangue, cor de sangue, cor de sangue
O beijo meu. Vem com melado decorado cor de rosa
O sonho seu. Vem dos lugares mais distantes, terras dos gigantes
Super-homem, super-mosca, super-carioca, super-eu, super-eu
Deixa tudo em forma, é melhor não ser
Não tem mais perigo, digo já nem sei
Ela está comigo, digo só não sei
O sol não adivinha, baby é magrelinha
O sol não adivinha, baby é magrelinha
No coração do Brasil
Música "Magrelinha". Autoria: Luiz Melodia,
intérprete: Zezé Motta

A vida afetiva caminhava concomitantemente com minha vida profissional, e muitas pessoas riem quando digo que minha educação sexual foi através de livros. Minha mãe e minhas irmãs contribuíram muito com isso. Lembro-me de que, quando alguma jovem na vizinhança engravidava precocemente, eu escutava a minha mãe dizendo: "Filha minha não vai me dar este tipo de desgosto", ou outra de suas máximas: "Eu confio em minhas filhas". Em minha saída de casa para estudar fora, algumas conversas enviesadas começaram a tecer uma rede de intrigas entre nós. Eu ouvia comentários maliciosos quando visitava minha família. Minha mãe dizia que minhas irmãs falavam para ela: "A senhora vai ver o diploma que ela vai trazer para casa". Em outras palavras, eu voltaria para casa grávida, com um bebê. Considerando a rigidez da educação familiar e religiosa que recebi, somada à minha timidez, sempre acompanhada de uma risonha extroversão, achei por bem estudar. Foi no término da graduação que tive meu primeiro namorado. Casei-me após concluir o doutorado. A carreira como prioridade fez com que adiasse a maternidade. Afetos e desafetos levaram ao fim de uma paixão e do casamento. E dancei nos espaços vazios do meu ser.

Destarte, comunicar a morte do meu irmão e acompanhar minha mãe em seu processo de luto foi uma experiência de imenso valor para a minha compreensão da maternidade. Sentia ali os limites do fio da vida que, ao romper, desabrochou a rigidez da dor escondida em meu ser. Descobri com Hannah Arendt que

O fato decisivo que determina o homem como consciente, um ser de lembranças, é o nascimento ou a natalidade, quer dizer, o fato de que nós entramos no mundo por nascimento. O fato decisivo que determina o homem como um ser desejado é a morte ou mortalidade, o fato de que nós deixaremos o mundo através da morte. Medo da morte e insuficiência de vida são as fontes de desejo. Em contraste, gratidão para a vida que tem sido determinada como fonte de recordação é apreciada, até mesmo para uma vida em miséria.11

Dessa fiação, comecei a tecer a existência em liberdade. No meu ventre livre do medo e da dor e, em meio à paz e à esperança, gestei, no processo de adoção, a pequena Hannah, "o sol não adivinha, baby é magrelinha, no coração do Brasil".

No dia em que a conheci no abrigo, havia três folhas com desenhos colados na paredes; no primeiro, havia uma criança com uma família, e estava escrito: "toda criança tem direito a uma família"; no segundo, tinha uma criança numa escola, e estava escrito que toda criança tem direito à educação, e outro continha uma criança sozinha. A pequena apontou para este e disse: "Essa aqui sou eu." Li e estava escrito: "Toda criança tem direito a um nome e a uma nacionalidade". Pensei: "É ela!" Eu tinha escolhido o nome de Hannah, pois queria que a criança fosse inspirada pelo nome. Hannah Arendt foi uma pessoa que sobreviveu a muitas atrocidades, problematizou e filosofou sobre o que viu e amou no mundo. Hannah, nome hebraico, quer dizer Ana. A pequena recebe o nome também de sua tataravó, e renova o clã das tecelãs da existência.

A história poderia acabar por aqui, mas me interesso pelo momento de transfigurar o mundo da ação sob os auspícios da ficção e mostrar que a história continua, pois, se se é livre para pensar e escrever a própria história, então trata-se de um novo começo.

[Outono, 2011]
As mãos da minha avó Maria segurando o cachimbo com seu olhar distante, e as histórias de Madrinh'Ana, que ressoam em meu corpo através do toque das mãos da minha mãe, impermearam minha pele de memória. Diferente da dos ossos, mas de igual valor. A memória da pele negra é imemorial. Eterna. Lembro-me das minhas ancestrais ao observar três mulheres Xhosa sentadas na roda com uma fogueira acessa no meio, elas com rostos pintados de branco, turbantes na cabeça, tecidos vermelhos enrolados no corpo. Sinto que algo maior está acontecendo ali, naquele encontro de curandeiros e curandeiras, um grupo de vinte pessoas, de estranhas somente nós, as convidadas brasileiras: eu e a pequena. África do Sul, Cidade do Cabo. Ali chego para estudar sobre a dança e o perdão. Por um ano vivemos naquele solo sagrado. Caminhando de mãos dadas com minha filha e indagando se o corpo esquece, olhei nos olhos da minha sombra, conversei com a violência que mora em mim, tornei-me conhecida entre os sem-teto, chorei a morte das crianças em Soweto, escutei as vozes do silêncio de diferentes lideranças espirituais; dançarinos e dançarinas de diversos grupos culturais mostraram-me as texturas da reconciliação.

No silêncio, medito no provérbio de autoria atribuída a Salomão: "O Coração alegre é bom remédio, mas o espírito abatido faz secar os ossos." Descubro que os ossos guardam a memória da alegria e da dor. Dor que tendões e articulações conhecem bem. Porque dói. Posso dançar com dor e também com a dor em mim. Dor que não é minha dor. Dor compartilhada. A alegria, sim, depois de saber quem é a dor que habita o corpo. Alegria vem da descoberta despida do manto da dor. A Alegria, memória que traz esperança e traz vida à existência. A dor, o medo e a violência têm algum laço de parentesco. Do mesmo modo que a reconciliação, o amor, a fé, a esperança, a paz e a alegria fazem parte da mesma família de sentimentos. O que faz secar os ossos é a dor, o medo, a violência. O que dá vida ao espírito é o perdão, a reconciliação, a amorosidade, a paz e a alegria.

A escuta da linguagem corporal de minha mãe fez com que eu fosse para a África do Sul em busca de perdão e reconciliação com o mundo, e, com isso, esculpir uma estética do silêncio. Na ciranda da vida, caminho lado a lado com minha filha, de mãos dadas também, tentando dar outros sentidos para o tocar das mãos, novos códigos de amor e liberdade que esta escrita revela. Dedico esta história às mulheres negras tecelãs da minha existência. Enquanto isso, na sala de um apartamento ensolarado pela luz primaveril, escrevo e também observo minha mãe, com uma linha de algodão entrelaçada nos dedos, com a agulha de crochê, ensina a pequena Hannah a fazer correntinhas... Para Ana.

 

Referências

ARENDT, Hannah. Rahel Varnhagen: a vida de uma judia alemã na época do romantismo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.         [ Links ]

______. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2000.         [ Links ]

______. Love and Saint Augustine. Edited Joanna Vechiarelli Scott and Judith Chelius Stark. Chicago & London: The University of Chicago Press, 1996.         [ Links ]

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.         [ Links ]

CAMPBELL, Joseph. Para viver os mitos. São Paulo: Cultrix, 2000.         [ Links ]

PHILIP, Marlene Nourbese. "African roots and continuities: race, space and poetics of moving." In: ______. A genealogy of resistance and other essays. Toronto, Ontario: The Mercury Press, 1997.         [ Links ]

RICOEUR, Paul. "O texto como identidade dinâmica". In: ______. A hermenêutica bíblica. São Paulo: Loyola, 2006; p.116- 129.         [ Links ]

SALOMÃO. "Provérbios". In: Bíblia da mulher. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009, p. 1030.         [ Links ]

TREVIÑOS, Selma. Reconstruction: a conversation between past and present. New York. 2008. Artigo não publicado.         [ Links ]

 

 

[Recebido em junho de 2013 e
aceito para publicação em maio de 2014]

 

 

1 Referências encontradas no site do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Disponível em: <http://jij.tjrs.jus.br/paginas/docs/legislacao/Lei_2040_28set1871.html>.
2 Hannah ARENDT, 1994, p. 15.
3 ARENDT, 1994, p. 16.
4 ARENDT, 2000, p. 74.
5 ARENDT, 2000, p. 76.
6 ARENDT, 2000, p. 208.
7 Entrevista com Felícia Gama de Almeida Freire por telefone em 21 jan. 2013.
8 ARENDT, 2000, p. 216.
9 Registrado em diário pessoal em 26 dez. 2000.
10 Música "Dores de Amores". Autoria: Luiz Melodia, intérprete: Zezé Motta.
11 Tradução livre de: "The decisive fact determining man as a cons-cious, remembering being is birth or natality," that is, the fact that we have entered the world through birth. The decisive fact determining man as a desiring being was death or mortality, the fact we shall leave the world in death. Fear of death and inadequacy of life are the springs of desire. In contrast, gratitude for life having been given at al lis the spring of remembrance, for a life is cherished even in misery." (ARENDT, 1996, p. 51)

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