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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.22 no.2 Florianópolis May/Aug. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2014000200026 

RESENHAS

 

Semelhantes e diferentes: duas experiências de gênero no cinema brasileiro

 

 

Oswaldo Alves Lara Neto

Universidade de São Paulo

 

 

Vestido de Laerte. Produção: Claudia Priscilla e Pedro Marques. São Paulo: Paleo TV, 2012. 1 HDCAM

Olhe para mim de novo. Produção: Claudia Priscilla e Kiko Goifman. São Paulo: Paleo TV, 2011. 1 HDCAM

"Nem toda transexualidade é o caso clássico de
'estou no corpo errado e quero mudar isso'.
Existe uma espécie de transexualidade em outros níveis. Por exemplo, neste, quero
ser reconhecida como mulher".1

 

A exibição conjunta dos filmes: Vestido de Laerte (2012), de Claudia Priscilla e Pedro Marques, e Olhe para mim de novo (2011), de Claudia Priscilla e Kiko Goifman, não é aleatória: ambos ostentam, de forma talvez descon-certante, personagens que trazem a experiência de gênero para o primeiro plano, e muito embora o primeiro seja um curta-metragem e o segundo uma espécie de documentário road movie, o diálogo possível entre os dois não deixa Vestido de Laerte em nenhuma desvantagem.

Talvez Laerte Coutinho já dispense apresen-tações, mesmo quando o assunto não seja a carreira do quadrinista, mas sim a sua experiência como transgênero. Desde que passou a viver publicamente uma identidade feminina, Laerte tem provocado algumas discussões entre pessoas que, comumente, não dedicam muito tempo de suas vidas para refletirem sobre os significados do gênero, do ser travesti, do ser transexual e, diga-se de passagem, mesmo do ser homem e ser mulher.

Para a inquietação dos caretas, Laerte tem a oferecer um discurso muito bem formulado, digamos assim, bastante razoável sobre essas questões. Por exemplo, ao afirmar que a questão do vestuário impõe-se de forma muito mais rígida para os homens, justamente porque as mulheres, há algumas décadas, foram protagonistas de uma "conquista do vestuário", ou seja, elas, ao adotarem peças de roupa e cortes de cabelo (e mesmo formas de conduta exigidas no espaço público, eu acrescentaria) até então tidos como masculinos, conquistaram, ao menos para as mulheres, modos mais plurais para essas expres-sões aparentes do gênero: uma mulher de calça é uma mulher de calça; um homem de saia ainda é visto como um homem vestido de mulher.

Embora o que salte aos olhos, no caso de Laerte, seja a opção pelo feminino, o caminho para o qual Laerte aponta não me parece ser, simplesmente, o do "isso ou aquilo". A graça de Laerte é estar na linha de uma afirmação pouco explorada em nossa sociedade: a de que uma expansão das possibilidades de experienciar o gênero tende a colocar em questão a importância de uma linha divisória tão excludente entre o feminino e o masculino.

Nesse sentido, a outra história, a de Syllvio Luccio: Olhe para mim de novo, reserva diferenças importantes. Syllvio Luccio "nasceu mulher, tornou-se lésbica e agora é homem". Vive essa experiência no contexto de um sertão nordestino que preza muito o valor da virilidade como algo que é central para os homens. A esse aspecto tradicional soma-se a forte presença das igrejas evangélicas nas classes populares, sendo, inclusive, essa a confissão religiosa da filha de Syllvio, que teve antes de se tornar trans e que ofereceu à própria mãe como se estivesse recompensando a filha-mulher que ele não foi.

É verdade que Syllvio politizou-se, tem consciência de sua militância, busca informações e não se furta aos enfrentamentos que as fronteiras de gênero impõem para uma pessoa como ele, mas nenhuma ação acontece fora de seu contexto, e é perceptível que, mesmo questio-nando em parte o tradicionalismo, a experiência de Syllvio está de acordo com esse mesmo tradicionalismo em outros aspectos.

Tudo o que diz respeito àquilo que ele viveu como feminilidade é revestido de grande sofrimento. Não necessariamente porque a coisa narrada seja violenta ou dolorosa em si mesma, mas por carregar aquela percepção do feminino como algo vergonhoso, da ordem do mal, da culpa; tanto que chamam a atenção duas atitudes opostas que Syllvio tem em relação à genitália. Ele conta sobre suas idas ao ginecologista de forma dramática, afirmando que, para qualquer mulher, mostrar a vagina é sempre algo vergonhoso e, para ele, que já faz uso de hormônios masculinos, essa vergonha é ainda maior.

A oposição vem quando Syllvio conta sua relação com a prótese de órgão masculino. Aqui, a vergonha diante do sexo desaparece. Syllvio brinca, coçando a genitália, exibindo-a, oferecendo-a ao toque de colegas curiosos. Não sai de casa sem ela em qualquer ocasião. É motivo de orgulho. Syllvio também ressalta o seu desejo por mulheres como um desejo de posse e a conquista como uma atitude masculina.

Ainda assim, não é simplesmente classifi-cável a experiência de Syllvio. Nela convivem reforços das concepções tradicionais de gênero e questionamentos dessas mesmas concepções, dependendo do que está em jogo. A lógica do ser "isso ou aquilo" convive com a lógica do ser "isso e aquilo".

Os dois filmes expõem que esse terreno das fronteiras ainda é um terreno de luta política; mas, muito menos cerceado pelo tradicionalismo, com uma aceitação melhor resolvida por parte de seus familiares e protegido pelo reconheci-mento prévio de sua carreira e por uma exposi-ção midiática favorável, Laerte pode levar essa política para campos menos dramáticos, mais próximos de uma experiência estética, mas que também almeja o espaço da ampliação de direitos.

 

Notas

1 Laerte Coutinho, 2012.

 

 

ERRATA

Por engano, no volume 22, número 2 de 2014, a resenha de Oswaldo Alves Lara Neto, Semelhantes e diferentes: duas experiências de gênero no cinema brasileiro, foi publicada com o título Masculinidades subversivas nos romances de Manuel Puig, Caio Fernando Abreu e Jaime Bayly.

Pedimos desculpas por isso.

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