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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.23 no.3 Florianópolis Sep./Dec. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0104.026X2015v23n3p1023 

Resenhas

Aprendendo com as Diferenças

Amurabi Oliveira1 

1Universidade Federal de Santa Catarina

MISKOLCI, Richard; LEITE JÚNIOR, Jorge. Diferenças na Educação:, outros aprendizados. São Carlos: EdUFSCar: 253p.

Ainda que não seja um tema novo no campo das ciências sociais, o processo de reaproximação dos pesquisadores nessa seara com o campo educacional é algo que vem ganhando fôlego a partir dos anos de 1980 no Brasil1 e expandindo-se significativamente em termos de temáticas abordadas, bem como de aproximações teóricas e metodológicas. Uma das características inegáveis desse processo, especialmente se considerarmos o período mais recente, diz respeito a como a agenda de pesquisa vai sendo modelada em uma íntima relação com as políticas públicas em educação, que, por sua vez, representam os anseios e as disputas de diversos setores da sociedade. Nesse sentido, é inegável o protagonismo que vem a assumir a criação da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI) em 2004, que buscou superar o caráter fragmentário que havia até então das políticas educacionais voltadas para a diversidade cultural, aglutinando uma série de projetos que se encontravam dispersos pelo Ministério da Educação (MEC).2

Tem havido, portanto, um crescente investimento nas políticas voltadas para a diversidade no âmbito educacional, o que tem se substanciado das mais diversas formas.3 Nesse conjunto de ações desenvolvido pela SECADI, destaca-se o curso em nível de pós-graduação lato sensu "Gênero e Diversidade na Escola" (GDE), que vem sendo desenvolvido em uma ampla parceria entre o MEC e universidades públicas Brasil afora, visando ofertar formação continuada para professores que atuam na Educação Básica dentro dessa linha temática. Diferenças na Educação: outros aprendizados é um material que se origina da segunda turma de especialização em GDE ofertada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sendo também o segundo livro que se origina desse curso, tendo em vista que foi publicado anteriormente Marcas da Diferença no Ensino Escolar (2010)que, assim como este, se propunha a desenvolver um material que pudesse chegar aos professores sem perder sua qualidade teórica, o que é uma de suas marcas mais singulares.4

Acredito que a tônica principal dessa coletânea se mantém com relação ao trabalho de 2010, que se pauta da superação da perspectiva da diversidade pela diferença; porém, há inegavelmente avanços, o que se deu em grande medida devido ao processo de amadurecimento dos pesquisadores envolvidos a partir da experiência anterior, como fica bem claro em "Introdução: outros aprendizados", escrito por Richard Miskolci, Jorge Leite Júnior e Thamara Jurado, que indicam a busca pela elaboração de um curso mais dinâmico, bem como a busca por um modelo mais avaliativo. Não à toa, a questão da religião entra como um novo capítulo, que não havia sido explorado no trabalho anterior, tendo em vista que esse elemento surgiu nos espaços de discussão do curso.

Em "Diferenças na Escola", Ana Paula Vencato explora o conceito que é central para os demais capítulos, situando teoricamente de forma geral o grupo que compõe toda a coletânea, ao trazer a diferença como algo constitutivo da sociedade e da escola, esta é apresentada como uma instituição que historicamente tem dificuldades em lidar com a diferença, tendendo a instituir práticas homogeneizantes. A autora caminha para uma defesa do respeito às diferenças, dando um passo do discurso da tolerância, o que é articulado com a questão do Bullying, utilizando dados de uma pesquisa de 2010 que indicam a amplitude da questão, finalizando o capítulo com uma reflexão sobre como lidar com as diferenças. Segundo a autora:

Precisamos repensar conteúdos, práticas, ações, se quisermos produzir uma escola realmente justa, e trocar o silêncio e a ausência confortável dos diálogos pelo desconforto de falar sobre as coisas do cotidiano escolar. É preciso transformar cada comentário jocoso, cada julgamento de valor, cada intervenção agressiva e preconceituosa em uma oportunidade de discutir velhos preconceitos, esteriótipos e exclusão e construir uma nova forma de lidar com o conhecimento, com as histórias de vida de todas as pessoas que transitam pela escola, com seu entorno e a vida social. (p. 53).

Creio que esse mote norteia em grande medida todos os demais capítulos, como o seguinte: "Religiosidades e Educação Pública", de Tiago Duque, cuja tônica principal é a busca pela valorização da diversidade religiosa e a defesa da laicidade. A partir de conceitos centrais na antropologia, o etnocentrismo e o relativismo, ele realiza sua defesa da diversidade religiosa, numa compreensão de que, ainda que o Estado seja laico, as pessoas são religiosas, e que estas também são marcas da diferença que devem ser discutidas em sala de aula. De forma muito acertada, o autor indica que essa questão não deve ser discutida exclusivamente pelos professores de Ensino Religioso, mas por todos os docentes, o que é algo fundamental em minha percepção, uma vez que, segundo algumas pesquisas, como a de Maia,5 os maiores conflitos e discussões envolvendo a questão religiosa surgem em outras aulas. Duque se utiliza ainda dos dados do Censo de 2010 para problematizar nossa diversidade religiosa, direcionando para o encerramento do capítulo no qual ele realiza algumas propostas metodológicas de se pensar tais questões em sala de aula, indicando ao professor tanto a necessidade de ouvir atentamente as opiniões dos alunos, para, a partir daí, formular suas questões, quanto de estudar em maior profundidade a temática da laicidade.

Larissa Pelúcio, em "Desfazendo Gênero", vai desde um resgate histórico sobre o conceito, de forma que o leitor ainda não familiarizado com a discussão possa conhecer seus fundamentos e significado, passando pela introdução dessa questão no âmbito escolar, o que é de fundamental relevância, tendo em vista que, desde a educação infantil, há um claro reforço da estrutura escolar para naturalizar as diferenças de gênero.6 A autora realiza ainda uma articulação necessária, que diz respeito à relação entre gênero e mídia, o que aparentemente poderia ter pouca relação com o universo escolar é trazido como algo visceralmente ligado, e mais que isso, a autora diz apostar "[...] grandemente no trabalho com mídias diversas em sala de aula, pois nos valendo dos diversos produtos culturais temos mais chances de provocar as turmas a também contarem suas histórias com protagonismo e criatividade." (p. 134). Por fim, há o levantamento de questões que se mostram relevantes para a prática pedagógica dos professores, seguido de algumas orientações para a realização de dinâmicas em sala de aula envolvendo a questão de gênero, ao menos três são apresentadas, além de indicações de material audiovisual.

"Escola e Sexualidade: uma visão crítica à normalização", de autoria de Fernanda de Figueiredo Balieiro e Eduardo Name Risk, dialoga diretamente com os capítulos anteriores, especialmente o último, e começa a discussão pela (in)visibilidade da sexualidade no espaço escolar, o que é problematizado a partir da instituição da heterossexualidade dentro das normas implícitas do espaço escolar, o que reforçaria as diversas formas de preconceito e discriminação. Essas questões são discutidas também no nível mais macrossocial, o que é abordado no nível histórico e também na análise de como a heteronormatividade molda as relações sociais. Percebamos que os autores mantêm uma preocupação constante em dialogar em dois níveis, em um mais geral, que considera a questão da sexualidade no âmbito das relações sociais, e noutro que se volta para a escola, compreendendo a relevância desse espaço enquanto um locus de produção e reprodução das normas sociais. Isso é feito em um amplo diálogo com questões que estão postas nas discussões do cotidiano dos alunos, como a "cura gay" e a "marcha das vadias". Seguindo a estrutura mais geral do livro, a última parte se propõe a uma discussão sobre as possibilidades pedagógicas de se discutir essas questões, chama a atenção do leitor o fato de que um dos pontos discutidos é "diferenças, religião e sexualidade", o que aponta para a potencialidade de diálogos entre os capítulos da coletânea.

Paulo Alberto de Santos Vieira e Priscila Martins Medeiros assinam o último capítulo, intitulado "Pela desracialização da experiência: discurso nacional e educação para as relações étnico-raciais", que é situado dentro dos avanços mais gerais que têm ocorrido nos últimos anos, especialmente os institucionais, contextualizando em termos históricos e conceituais a questão das relações étnico-raciais, o que é afunilado para o caso brasileiro, que, devido a uma série de questões, possui características bastante idiossincráticas, tendo sido interpretada de diversas formas pelos intelectuais brasileiros. Por fim, os autores pontuam os marcos legais e os avanços ocorridos na última década, no campo da educação, nas relações étnico-raciais, finalizando o capítulo de forma distinta dos demais, por não indicar propostas pedagógicas; todavia, creio que é relevante indicar que, entre os marcos apontados, há as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-raciais e o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana, para a Educação Quilombola e para a Educação Escolar Indígena na Educação Básica, que possuem elementos nessa direção.

A coletânea avança no debate e consegue construir, ao mesmo tempo, um tipo de produção que serve de material de apoio para os professores que estão atuando na Educação Básica, mas também que pode ser uma referência no âmbito da formação docente, para a qual a diferença ainda é um desafio.7 O acumulo experiências do GDE da UFSCar, que tem se substanciado também no nível na produção acadêmica, aponta para o êxito das políticas públicas em educação voltadas para a discussão sobre a diferença, bem como para a capacidade de tais políticas possibilitar a aproximação entre as ciências sociais e a educação, produzindo um frutífero resultado.

Referências

ABRAMOWICZ, Anete; RODRIGUES, Tatiane Consentino; CRUZ, Ana Cristina. "A diferença e a diversidade na educação". Contemporânea - Revista de Sociologia da UFSCar v. 2, n. 2, p. 85-97, jul./dez. 2011. [ Links ]

MAIA, Bóris. "Matéria de caderno: jocosidade e evitação nas aulas de ensino religioso em uma escola pública". In: GUEDES, Simoni Lahud; CIPINIUK, Tatiana Arnaud (Orgs.). Abordagens Etnográficas sobre Educação: adentrando nos muros da escola. Niterói: Alternativa, 2014. [ Links ]

MISKOLCI, Richard (Org.). Marcas da Diferença no Ensino Escolar São Carlos: EdUFSCar, 2010. [ Links ]

MOEHLECKE, Sabrina. "As políticas de diversidade na educação no governo Lula". Cadernos de Pesquisa, v. 39, n. 137, p. 461-487, maio/ago. 2009. [ Links ]

NEVES, Clarissa E. B. "Estudos Sociológicos sobre Educação no Brasil". In MICELI, Sergio. (Org.). O que ler na ciência social brasileira 1970-2002. São Paulo: Sumaré; Brasília: CAPES, 2002. v. 4, p. 351-437. [ Links ]

OLIVEIRA, Amurabi. A antropologia e a formação de professores. Revista Cocar, v. 8, n. 15, p. 23-30, jan./jun. 2014. [ Links ]

______. "A escola, nós e os outros: diferença e alteridade na realidade escolar". Cadernos Pagu, n. 40, p. 359-368, jan./jun. 2013. [ Links ]

OLIVEIRA, Amurabi; OLIVEIRA, Abraão Felipe Santos. "O que é ser menino e o que é ser menina na Educação Infantil? Um olhar etnográfico". Entrelaçando: Revista Eletrônica de Culturas e Educação, v. 4, n. 9, p. 33-43, jan./abr. 2013. [ Links ]

RODRIGUES, Tatiane Consentino. A ascensão da diversidade nas políticas educacionais contemporâneas. 2011. Tese (Doutorado em Educação) ‒ Universidade Federal de São Carlos, São Carlos,. [ Links ]

1Clarissa E. B. NEVES, 2002.

2Sabrina MOEHLECKE, 2009.

3Anete ABRAMOWICZ; Tatiane Consentino RODRIGUES; e Ana Cristina CRUZ, 2011, 2011.

4Amurabi OLIVEIRA, 2013.

5Bóris MAIA, 2014.

6OLIVEIRA e Abraão OLIVEIRA, 2013.

7OLIVEIRA, 2014.

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