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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.24 no.1 Florianópolis Jan./Apr. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1805-9584-2016v24n1p45 

Artigos

Mulheres que amam demais: conjugalidades e narrativas de experiência de sofrimento

Women who Love too Much: Conjugalities and Narratives of Experience of Suffering

Mônica Monteiro Peixoto1 

Maria Luiza Heilborn2 

1Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

2Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Resumo:

O artigo apresenta um estudo antropológico sobre integrantes dos grupos de ajuda mútua "Mulheres que amam demais anônimas", sediados na cidade do Rio de Janeiro. As entrevistadas apresentam um perfil social heterogêneo; autodenominam-se heterossexuais; e se concentram na faixa etária entre 40 e 50 anos. As narrativas assinalaram: dedicação intensa ao relacionamento; necessidade de controle do parceiro; medo da solidão; e sentimento de "baixa autoestima". A interação conjugal é marcada por competição e conflitos acerca da reciprocidade de atenção e cuidados. Essas mulheres parecem reatualizar um modelo de comportamento feminino tradicional, apesar de sua familiaridade com a proposta igualitária de conjugalidade.

Palavras-chave: amor; conjugalidade; grupo de ajuda mútua; gênero

Abstract:

The article presents an anthropological study of members of mutual aid groups "Women who love too much anonymous", based in the city of Rio de Janeiro. The interviewees have a heterogeneous social profile; declared themselves heterosexual; and focus on the age group between 40 and 50 years. The narratives indicated: intense dedication to the relationship; the need to control the partner; fear of loneliness; and sense of "low self-esteem". Marital interaction is characterized by competition and conflict over reciprocal attention and care. These women seem to update a model of traditional female behavior, despite their familiarity with the egalitarian conjugal proposal.

Key Words: Love; Conjugality; Mutual aid group; Gender

Introdução

Este artigo é resultado de um estudo antropológico sobre integrantes dos grupos de ajuda mútua "Mulheres que amam demais anônimas"(1) (MADA), sediados na cidade do Rio de Janeiro. O MADA surge no Brasil,(2) na década de 1990, a partir da leitura de Robin Norwood,(3) autora que constrói a categoria Mada e incentiva a formulação dos grupos. O livro estrutura-se como um manual de autoajuda. Tania Salem(4) analisa que, neste tipo de literatura, como o termo autoajuda sugere, o foco incide sobre o indivíduo. É dele que se exigirá comprometimento e força de vontade no tratamento. Trata-se de um conceito de pessoa fundado no sujeito da consciência, do livre-arbítrio e responsável por si. São essas as qualidades a serem resgatadas na concepção de cura.

O trabalho de Norwood(5) alinha-se com uma leitura das emoções nas sociedades modernas ocidentais, em que estas são atribuídas à singularidade psicológica individual. Os sentimentos teriam origem no foro íntimo de cada ente, influenciados pela sua trajetória de vida particular. A antropologia das emoções, ao questionar essa compreensão que anula o impacto da cultura, postula que os sentimentos são representações de uma dada sociedade e sua expressão está condicionada às regras que regem as interações sociais.(6)

Observa-se, nos relatos das entrevistadas, como a imposição social de um ideal de conjugalidade e o padrão hegemônico de felicidade a dois influenciam a dependência destas mulheres de um amor por elas classificado como "patológico". No entanto, este sentimento atenderia às regras de interações sociais influenciadas por um ideal societário que propugna a parceria estável como normalidade. Se, no passado, o amor estava associado ao sofrimento, na atualidade, tal ligação é inconcebível. O amor foi instituído como índice de felicidade e qualidade de vida, de modo que as relações afetivas que não promovem tais dividendos devem ser descartadas. As Madas rompem com esta expectativa social, ao insistirem em relações que produzem sofrimento. As informantes não descrevem apenas um "relacionamento destrutivo" pontual, pelo contrário, narram trajetórias marcadas pela repetição de um "padrão" afetivo. Em torno dessa forma de amar, organizam suas identidades e modos de estar no mundo. É sobre essa "dependência" que este estudo se detém, a fim de discutir algumas concepções tradicionais de gênero que emergem nos relatos.

Ser Mada

Durante dois meses, a primeira autora acompanhou as reuniões abertas ao público.(7) Contudo, a exigência de anonimato impediu que este rico material etnográfico fosse incorporado à pesquisa. No segundo semestre de 2012, foram entrevistadas 16 mulheres, com idades entre 23 e 60 anos, concentradas na faixa dos 40 aos 50, de perfil social heterogêneo. A composição do grupo indica que "amar demais" independe de nível cultural, intelectual e financeiro. As participantes possuem escolaridade elevada, quando comparada à população brasileira: um terço das entrevistadas possui pós-graduação, englobado pela metade do conjunto que apresenta nível superior completo. Outro terço das depoentes tem ensino médio concluído. A maioria relata atividade profissional ligada à prestação de serviços, e a renda média de R$ 2.740,00 não reflete as profundas diferenças quanto ao nível econômico e inserção de classe. Cerca de metade das participantes possui rendimento superior a cinco salários mínimos mensais,(8) enquanto um terço dispõe de receita inferior ou igual a um salário mínimo. Todas se declararam heterossexuais.

Comportamentos recorrentes referidos como "padrões de madisse" foram descritos para definir a Mada. Dois merecem destaque: ligar constantemente para o parceiro e vasculhar seus pertences, condutas nomeadas como "obsessão" ou "compulsão". A necessidade de controlar o companheiro, associada à falta de autocontrole,(9) aparece como categoria central do "amar demais". Uma atitude denominada de "agradadora" também merece destaque. Ao fazer-se "necessária", a Mada instiga a dependência do parceiro. Assim, essas mulheres parecem promover a dívida por intermédio do excesso de dádiva.

Relatos sobre "viver em função do outro" foram frequentes. A Mada negligencia as demais áreas da vida, principalmente a profissional e a escolar, sentindo-se estagnada pela redução do círculo de amizades e isolamento social do par. Produz-se uma espécie de fusão com o parceiro, na qual a Mada perde sua individualidade. A "baixa autoestima" aparece como pano de fundo de todas as características da Mada. A "carência afetiva" e a recusa à solidão levam à insistência na relação considerada "destrutiva" - o que vai abrir espaço para a violência conjugal - e a sensação de inferioridade faz crer que não seria desejada por outro homem.

É preciso considerar o peso negativo, culturalmente construído, conferido à solidão da mulher jovem e adulta. Esta parece ser incompatível com os ideais de casamento e maternidade historicamente reservados ao gênero feminino. O valor atribuído à vida compartilhada é de tal ordem, que o gosto pela solidão é apresentado como "anorexia social". A maioria das participantes declarou estar inserida em um relacionamento,(10) ainda que não expresse uma denominação definida. Um terço das entrevistadas relatou experiência com parceiro alcoólatra e/ou usuário de drogas, aspecto enfatizado no trabalho de Norwood.(11)

A dinâmica do MADA gira em torno da "terapia de espelhos". Cada participante tem cinco minutos para expor sua vivência afetiva. Há orientação para que os depoimentos sejam verbalizados em primeira pessoa, como forma de reconstrução da identidade e resgate da individualidade. A identificação com a narrativa da "companheira" permite encontrar um ponto de referência e apoio. A Mada não deve oferecer "conselho". Qualquer direcionamento de conduta é repudiado, em virtude da valorização da autonomia de escolha. A garantia do anonimato cumpre o objetivo de criar um ambiente de confiança, onde sentimentos profundos possam ser manifestados.

Cem por cento das participantes apresentaram reserva ao contar à rede de familiares e amigos que frequentam o grupo. Em geral, elegem apenas os mais íntimos, por receio de serem ridicularizadas e classificadas como "malucas". Elas mencionam experiências negativas ao revelar o anonimato, principalmente para o parceiro. Ele utiliza a informação de maneira depreciativa nos conflitos conjugais. A dimensão do anonimato e o receio do estigma advindo do estereótipo negativo atribuído ao "amar demais" produzem um enclausuramento. O grupo é interpretado como um mundo protegido, diferente da vida pública que impõe constrangimentos à expressão emocional. Assim, o MADA aproxima-se da esfera privada, quando é possível ser você mesmo.

As narrativas apontam que o "amar demais" não tem cura, mas conta com tratamento. "Estar em recuperação" compreende um controle dos "padrões", o que requer uma mudança comportamental diária. A "programação" do MADA é composta por doze passos, doze tradições e sete lemas, todos adaptados dos Alcoólicos Anônimos (AA). Enquanto os passos formam a metodologia que orienta a "recuperação" individual, as tradições promovem a unidade do grupo e oferecem mecanismos estruturados de boa convivência. A linguagem sobre o alcoolismo como doença (incurável, progressiva e fatal) fornecida pelo AA produz uma subjetividade marcada pela patologia.(12) A terapêutica ensina como conviver com um mal contido no interior da pessoa, o que permite compreender o perfil participativo das depoentes na "irmandade". O tempo de frequência é elevado, em média quatro anos e meio. A assiduidade nas reuniões é importante para que o método proposto seja reafirmado, e a projeção de metas curtas, sintetizadas na expressão "só por hoje", facilita a adesão.

A partir do momento em que uma mulher se aceita como Mada e ingressa no grupo, ela inicia uma trajetória que progressivamente transformará sua maneira de julgar a si própria e aos outros. Em outros termos, ela adquire um novo referencial de valores, com os quais passa a ressignificar seu passado, presente e futuro - no sentido conferido pelo conceito de "carreira moral" de Erving Goffman(13) - permitindo-a modificar a percepção de suas experiências de conjugalidade.

Conjugalidades tradicionais: reatualizações

Em um clássico artigo de sociologia interacionista, Marriage and the construction of reality: an exercise in the microsociology of marriage, Peter Berger e Hansfried Kellner(14) anali sam o impacto do arranjo conjugal na subjetividade dos parceiros. Apesar de se tratar de uma produção sobre a década de 1950, o artigo permanece atual, ao situar o casamento como um arranjo social que ordena e confere sentido à experiência de vida dos indivíduos. Parte integrante da estrutura social mais ampla, o casamento encerra a cristalização de uma esfera privada da existência, cada vez mais isolada da influência das instituições públicas. O privado aparece como espaço de escolha individual, autonomia, autorrealização e de significativa importância na formação da identidade. Dentre as relações que compõem a esfera privada, a família de tipo conjugal constitui um domínio próprio e ocupa posição central na sociedade contemporânea. Assim, o casal fundado na ideia de escolha recíproca e com base em sentimento de afeto mútuo caracteriza-se pelo progressivo conhecimento dos parceiros, em contraste com um regime anterior, no qual as famílias decidiam pelos indivíduos a escolha do cônjuge.

No casamento, os parceiros devem partilhar das decisões e condutas cotidianas. Dessa forma, a identidade de um encontra-se combinada à do outro. No elenco de "outros significativos",(15) o parceiro se torna o privilegiado, em torno do qual as demais relações são reconfiguradas. Tensões com parentes, amigos antigos ou por convicções religiosas são compreendidas como dados objetivos, externos à relação, e não como subjetivos, fruto desse intenso processo de mudança de identidade.

O movimento feminista, que teve grande impulso nos anos 1970, embaralhou as definições de gênero, tanto no interior da família quanto no contexto social mais amplo. O aumento da proporção de mulheres no mercado de trabalho fortaleceu a posição da mulher na conversa conjugal, mudando seu roteiro. O divórcio, outro dividendo dessa década, levou algumas mulheres, e alguns homens, a realizar atividades até então restritas ao sexo oposto. Por exemplo, mais mulheres criavam seus filhos sozinhas. Os anos 70 também trouxeram maior liberação dos comportamentos sexuais, como a relação sexual antes do casamento. O sexo passou a ser peça importante das conversas conjugais. Norbert Wiley(16) propõe uma releitura do artigo supracitado, analisando o diferente contexto das décadas de 1970/1980. Este autor demonstra como as transformações sofridas pelo modelo da família nuclear acarretaram consequências para a conjugalidade. São dificuldades com essas mudanças que encontramos expressas nos relatos das Madas. Quando a entrevistada declara que "vive em função do outro", ela radicaliza a noção de "outro significativo": o parceiro é o único foco de sua atenção. As tensões da vida a dois são compreendidas como externas à relação, e não como produtos da mesma. Sobre este aspecto, Júlia afirma: "[...] Se você estiver gostando do cara, não adianta eu falar, que você não vai deixar de gostar e vai dizer pra mim que quem está errada sou eu, que todo mundo é culpado, que ele é um incompreendido [...]".

Para as Madas, a nova realidade conjugal não está garantida, pois há uma fragilidade constante, a ser remediada pelo par. A associação com outros casais tem a função de reforçar a visão de mundo por eles compartilhada. Da mesma forma, pessoas que enfraqueçam tal leitura são evitadas. Como exemplo, amigos solteiros, anteriores ao relacionamento, devem ser afastados. A restrição da rede social de amigos relatada pelas depoentes faria parte do processo característico da construção de uma vida a dois. A valoração dessa diminuição de laços como negativa só é possível quando não se vê mais saída para o relacionamento ou, ainda, quando este já teve fim, momento em que as antigas redes sociais são resgatadas.

Um elemento recorrente nas falas das entrevistadas são os problemas de entendimento cotidiano e de conversa. Para uma vida em comum, o par enfrenta o grande desafio de conciliar suas definições individuais da realidade. "Conversar sobre" algo sucessivas vezes possibilita uma definição do assunto. Assim, a conversa conjugal constrói e sustenta um mundo compartilhado. As concepções conjuntas serão continuamente revistas e ajustadas. Entretanto, quando essa comunicação não ocorre a contento, a unidade do casal está comprometida.

Em geral, o casal não se dá conta das transformações identitárias pelas quais passou. Eles acreditam que continuam os mesmos de antes, mas com algumas mudanças emocionais e pragmáticas.(17) As entrevistas realizadas evidenciam uma demarcação temporal, do antes e depois à entrada no grupo MADA. Pressupõe-se que o envolvimento na relação inviabiliza o distanciamento necessário para identificar os sinais do "amar demais". O aprendizado no MADA permitiria avaliar o vínculo com um olhar "de fora".

Um relato permite apreciar as transformações geracionais provocadas pelas mudanças nas atribuições de gênero. A entrevistada nasce em uma família com valores tradicionais, é educada de acordo com uma mentalidade anterior à contracultura. Quando adulta, se depara com novas expectativas de gênero.

[...] meus pais não tiveram sonhos pra mim. Eles não tiveram desejos nem ambições. Sou fruto de uma geração que ficou com um vácuo nesse aspecto, porque pego um restinho de geração de anos 60, que ainda acreditava que o destino de uma mulher era casar e ter filhos. Os meus pais eram muito conservadores [...] Então a minha mãe comprava roupas bonitas, boas escolas, aulas de balé, educações para moças para que a gente arrumasse bons casamentos. Meu pai também, o que ele esperava é que arrumássemos bons maridos e não imaginava que as filhas teriam, e nós viramos uma geração que tivemos que ir à luta (Débora).

A fala de Débora ilumina a realidade das entrevistadas com mais de quarenta anos, que parecem ainda metabolizar as intensas transformações nos atributos de gênero, iniciadas na década de setenta. Para essas mulheres, grande parte do conflito do "amar demais" reside na busca por conciliar um papel tradicional da mulher - dedicada ao marido, aos filhos e à manutenção do lar - com a mulher moderna - autônoma, financeiramente independente, que investe e valoriza a vida profissional.

Segundo as depoentes, a Mada teria uma propensão a se relacionar com homens que possuem vícios. Dessa forma, a escolha do parceiro não é "por acaso"; reflete uma "disfuncionalidade". O discurso psicologizado faz crer que tal eleição seja inconsciente. As entrevistadas parecem reencenar e adotar a imagem da "fechadura-chave"(18) para indicar a complementariedade dos "padrões" na díade, como afirma Laura: "[...] Quando me junto com alguém, essa pessoa é uma peça que fecha meu quebra-cabeça, que encaixa. Então eu ainda estou numa disfuncionalidade que atrai um homem que está disfuncional [...]".

Dois modos operativos se destacam: a mulher detém o controle, ao eleger parceiros que, aparentemente, precisam de ajuda, para que, assim, possa consertá-los. A segunda forma consiste em ser controlada, quando se torna "passiva e submissa", movida pelo "padrão" de "agradadora". Insistir na relação constitui uma característica apresentada por mais de dois terços do conjunto entrevistado. Embora possa perceber o paradoxo de querer alguém que notoriamente não lhe faz bem, a Mada não consegue agir de outra forma. São constantes os pedidos para reatar o relacionamento, apesar da ciência de seu "desgaste". O movimento característico do "ioiô" serve de metáfora para as constantes "idas e vindas" da relação, expressa por um terço das entrevistadas. A Mada acredita que o parceiro possa mudar, mesmo quando ele claramente não se encaixa em seu projeto de vida.

Dados relativos ao tema da atração física devem ser considerados na análise da formação do par. Seis depoentes apresentaram características de obesidade. Reeducação alimentar, remédios (com desagradáveis efeitos colaterais) e cirurgia bariátrica foram os recursos relatados para alcançar o peso ideal.

A constituição corporal fora das expectativas sociais posiciona essas mulheres em desvantagem no mercado amoroso, acarretando consequências negativas para a autoestima, traço basilar do "amar demais". Sentindo-se inferior, a mulher vê suas opções de escolha reduzidas, o que amplia a dificuldade enfrentada pela perda do parceiro. Fatores como o medo da solidão e o peso da idade madura também influem na composição do casal.

Segundo as narrativas, a escolha pelo MADA é ainda uma busca para salvar o relacionamento. Entretanto, a assiduidade no grupo tenderá a mostrar à mulher que a parceria já não vale mais a pena. Maria Luiza Heilborn(19) identifica como "gangorra psicológica" a alternância entre os parceiros, no lugar de mais fraco no relacionamento. O relato de Raquel ilustra o "jogo" característico do "amar demais", no qual ora se está por cima, ora por baixo. É possível identificar na narrativa o momento da inversão da gangorra.

Quando estou muito enlouquecida por ele, se eu falar alguma coisa que ele tenha que repetir de novo, ele não tem muita paciência. Ele fala: 'Meu amor, uma mulher tão inteligente não está entendendo o que estou falando?' Mas se eu estiver na época do desprezo, posso não entender dez vezes, que ele vai explicar de novo sem falar isso (Raquel [grifo nosso]).

De acordo com Raquel, a busca por uma diferença em relação ao parceiro é um aspecto peculiar da "mulher que ama demais", o que pode ser entendido como mecanismo para fixar a assimetria da relação, impedindo a alternância da gangorra.

Análises sociais sobre família e conjugalidade(20) apontam que a união conjugal influi na posição social dos sujeitos. Assim, as relações homogâmicas caracterizam-se pela equidade socioeconômica entre os parceiros. Nas hipogâmicas a mulher detém situação superior ao homem, enquanto nas hipergâmicas ocorre o inverso. Grande parte das informantes relatou relacionamentos nos quais havia uma disparidade financeira e/ou cultural entre o casal: um terço hipogâmico e outro terço hipergâmico. Tal diferença gera conflitos, referentes a hábitos de etiqueta, forma de falar e preferências de gosto. Narrativas sobre a sensação de vergonha do companheiro pontuam os depoimentos. Este tipo de situação requer contínuo gerenciamento. Discordâncias de valores morais e religiosos, além de divergências de objetivos de vida, também foram citadas. A intenção de "reforma do outro"(21) seria um mecanismo de ajuste das diferenças de capital cultural e de gostos no par.

Assim, a inserção social confere enquadre ao sentimento amoroso. Ela constrange as possibilidades de escolha do parceiro. No entanto, devido a uma concepção essencialista do amor, a Mada não restringe suas opções, acreditando que a grandeza desse sentimento é capaz de suplantar qualquer dificuldade.

Me incomoda a maneira como a pessoa às vezes fala assim: 'Sou uma advogada, como é que vou ficar com um porteiro?'. São duas pessoas, tira a roupa, ficam as duas na cama, a única coisa que vai ser diferente é o que elas vão conversar, entendeu? O conversar que é diferente. Você não vai conseguir conversar com um porteiro o que você conversa com alguém da sua faculdade, é diferente, mas ali tem uma pessoa, você gosta de conversar com ela (Raquel).

Raquel considera a igualdade como componente da essência dos humanos, passível de ser corrompida por diferenças financeiras. Assim, para ela, o social é constrangedor dos atributos naturais.

No que diz respeito à dimensão social, o casal moderno caracteriza-se pela relação entre iguais. A compatibilidade de estilos de vida e as interferências de ordem prática, como questões materiais, tornam possível uma vida compartilhada. Mediante a inexistência de uma química perfeita, as perturbações são assumidas como parte do cotidiano do casal.(22)

A análise do material aponta que a Mada procura um contato frequente com o companheiro, sem admitir qualquer esmaecimento do desejo. Todavia, a intensidade produz e é provocada por uma tensão. Configura-se um impasse: a tensão causa sofrimento, porém mantém o caráter intenso da relação ("paixão"), positivado pelas nativas.

Metade das informantes relata certos comportamentos e atitudes que denunciam o grau de engajamento do parceiro na relação, como uma espécie de termômetro. As entrevistadas listaram alguns indícios de que o relacionamento anda mal, tais como: falta de companheirismo nas situações de doença; mudança no tratamento cotidiano; não assumir a relação em público (por exemplo: não andar de mãos dadas);(23) críticas destrutivas; ausência de preocupação e cuidado; indícios de desistência, como não retornar as ligações e sucessivas desculpas para desmarcar encontros; diminuição da atividade sexual; menor participação no casamento; discussões; sensação de distância do parceiro; além de sentimento de abandono. O aprendizado do MADA e a experiência em psicoterapia são consideradas fundamentais para melhor identificação desses sinais, o que possibilita um término mais precoce da relação, antes que cause maior sofrimento.

O incômodo com as manifestações de falta de compromisso no relacionamento indica uma valorização da companhia do parceiro e do tempo despendido em favor da relação como aspectos que configuram a existência como casal. As conversas possibilitam trocas subjetivas e expressão das emoções. Sua redução denota fragilidade no vínculo.(24)

As narrativas das entrevistadas salientaram os aspectos negativos do parceiro e do relacionamento em geral. Este resultado é condizente com a concepção nativa do "amar demais", entendido como "relacionamento destrutivo", cuja principal característica é o sofrimento. Assim, a estratégia de sublinhar os defeitos reforça a inviabilidade do casal.

Segundo Diane Vaughan,(25) quando não se aposta mais na salvação do relacionamento, os defeitos e as falhas do parceiro são enfatizadas, enquanto os aspectos positivos passam a ser minimizados. A história do casal também é reconstruída a partir de eventos negativos, e os bons momentos são esquecidos.

Violência conjugal

Um terço do conjunto entrevistado narrou situações de agressão física. Agressões verbais com xingamentos e apelidos humilhantes também foram relatadas, porém com menor frequência. Nesse subconjunto as mulheres foram alvo de tapas e socos. Há um episódio de ameaça de vida. Contudo, é preciso mencionar que, entre as situações de descontrole, há algumas em que as mulheres são as agressoras. Estes incidentes são motivados pela confirmação ou desconfiança de traição e, posteriormente, geram sentimento de vergonha. Nas ocasiões em que foram as agressoras, as informantes referiram estar "surtadas". No entanto, tal descrição não se apresenta como modo de retirar sua responsabilidade pelo ato cometido, uma vez que a agressão é tida como vexatória.

Bati muitas vezes nele, ele apanhou muito. Uma vez rasguei um casaco dele de couro com a unha, batia na cara dele. Se tivesse delegacia de homem, ele já tinha me denunciado várias vezes. A minha sorte é que ele não é de bater, ele não é agressivo, é até calmo demais (Natália [grifo nosso]).

A interação do casal é constituída por uma sucessão de atos e gestos que seguem um padrão de reações e contrarreações. A agressão surge como o desfecho de uma cena na qual a interação já vinha sendo provocadora de ambos os lados. Por mais que, em alguns casos, a agressão seja mútua, o homem geralmente leva vantagem, por ter maior força física. Natália entende seu comportamento agressivo como resposta à provocação do parceiro, cujo intuito era obter uma demonstração do seu amor.

As participantes agredidas expressam indignação, sentimento que não é suficiente para efetivar uma denúncia do parceiro, embora tenham conhecimento dos seus direitos, sintetizados na Lei Maria da Penha, sancionada em 2006. Foram relatadas algumas estratégias do parceiro para demover a intenção de denúncia, tais como: intensificação de carinho, manifestação de arrependimento e promessas de que este comportamento não se repetirá. Em um primeiro momento, as entrevistadas acreditam no parceiro e optam por preservá-lo. Contudo, a ausência de reação produz um aumento das agressões. Há, portanto, um intervalo de tempo entre o evento e a procura por ajuda. A lei é acionada quando outras redes de apoio, como a família, se mostram insuficientes.

Essa pessoa me bateu muito [...] e me deu um soco, não sei se é por isso que minha catarata agravou. [...] E também não escuto direito desse ouvido. [...] Fui arrasada, cinco horas da manhã eu estava na Delegacia de Mulheres. Quando me perguntaram assim: 'Olha você está fazendo essa queixa aqui e tudo, ele vai ser preso, entendeu? Você vai para perícia e tudo mais e ele vai ser preso, tudo bem?' Eu: 'Não'. É, o fato de amar demais te cega muito [...] (Doralice).

Em pesquisa com mulheres que sofreram violência doméstica observou-se que a busca por ajuda, na maioria dos casos, é tardia. O registro da violência é geralmente realizado após vários episódios. Alguns aspectos dificultam a denúncia do parceiro, como: dependência financeira; presença de filhos; medo de retaliação; vergonha da agressão; e estigma do divórcio. Por outro lado, amparo familiar, resgate da autoestima e confiança na lei, e em seus dispositivos de proteção, são fatores que mobilizam a denúncia.(26)

Estudo de Maria Filomena Gregori(27) aponta como o movimento feminista se ocupou da denúncia às agressões contra a mulher, tendendo a colocá-la no papel de vítima. A autora problematiza esta concepção, ao elucidar as cenas que promovem as agressões. Para entender este processo não bastam convicções ideológicas, é preciso desvendar as tramas da intimidade no par.

Na leitura feminista, a violência conjugal representa o extremo da assimetria entre os gêneros.(28) Quando é a mulher quem comete a agressão, ela estaria em um "ato de resistência", reproduzindo a violência que recebe. Assim, a mulher é considerada como vítima, inclusive quando é a agressora.(29)

A descrição feminista da agressão dá-se de forma padronizada, sem ponderar as nuances das relações violentas, nem as distinções de estrato social, idade, etnia, existência de filhos e atividade profissional da mulher. Há uma tendência à atribuição de comportamentos segundo o gênero. O homem agride e humilha; a mulher sente medo, vergonha e culpa. Desta forma, não são consideradas a linguagem e regras específicas construídas na vida conjugal, que nem sempre respondem à conduta social esperada. A fixação da mulher como vítima ignora o fato de que ela também pode agredir e insultar - o que não significa desconsiderar a assimetria entre gêneros. Por não se ajustar ao entendimento feminista da violência, a agressão entre mulheres; contra crianças; e aquelas que espancam seus parceiros são geralmente omitidas.(30) Em Elisabeth Badinter(31) encontra-se uma importante crítica a esse lugar de vítima, a que parte do movimento feminista teria configurado às mulheres. Segundo a autora, com o objetivo de proteger as mulheres, a vitimização contribui para mantê-las em papel secundário, sem autonomia, em uma relação de disputa com os homens, de forma a omitir a violência praticada por mulheres.

É preciso um olhar para a dinâmica conjugal a partir da agência feminina, ainda que ela possa se apresentar sob a narrativa da queixa.(32) Cristalizar a mulher como vítima e o homem como agressor não dá conta da complexa trama da violência privada. As relações também se constituem por afetos e sexualidade. A partir de uma proposta interpretativa das narrativas de violência, surge a denominação "casais violentos". Todavia, é preciso cuidar para que o enfoque nas relações interpessoais entre homens e mulheres, em suas motivações e subjetividades, não obscureça a demanda por políticas sociais de combate à violência conjugal. Não se pode correr o risco de uma explicação masoquista para a violência contra a mulher, nem, tampouco, se pode desconsiderar a construção cultural de gênero para a compreensão da violência também como uma produção social.(33)

As Madas e a separação

A vida a dois é uma forte expectativa social na sociedade brasileira. Análises sociológicas sobre rupturas conjugais(34) apontam diversos fatores para a manutenção da união, como: medo de magoar o outro; compromisso religioso; aspectos legais do divórcio; crença na possibilidade de consertar os erros; receio de não encontrar outra pessoa melhor que o atual parceiro; elevados custos financeiros de uma separação; e impacto para os filhos e demais membros da família.

O matrimônio ocupa um status tão importante, a tal ponto que as pessoas não aceitam permanecer em uma união que não seja bem-sucedida. O casamento promove um modo privilegiado de estar no mundo, argumento justificado pela maioria dos divorciados que se casam novamente.(35) O aumento do número de separações e divórcios não significa opção pela solidão. Na maioria das vezes, as pessoas separadas procuram novamente a experiência de vida conjugal e os períodos entre as relações são vivenciados com parceiros eventuais. É possível ter uma vida sexual ativa, ainda que não se opte por formar um novo casal, o que indica uma separação entre sexualidade e conjugalidade. Michel Bozon(36) pontua que, na contemporaneidade, as pessoas podem ter experiências sexuais em contextos mais diversificados, que não apenas o do matrimônio.

No conjunto entrevistado fica evidente uma contínua busca por estar em par. Apesar do sofrimento atribuído às relações, as Madas persistem no propósito de encontrar um novo amor, argumento sustentado no fato de que dois terços das informantes encontram-se em um relacionamento. Os períodos intercalados de solidão são compreendidos como necessários para um reequilíbrio emocional.

A separação é uma transição gradual, que não ocorre com o mesmo ritmo para ambos os parceiros. Um começa a se sentir desconfortável no relacionamento; o mundo compartilhado já não o satisfaz.(37) Esta inquietação interna, por ser difícil de aceitar e compreender, não é de imediato compartilhada com o parceiro. Assim, a separação começa com um incômodo silencioso. Há uma vantagem temporal entre quem inicia a separação e o parceiro que ainda não questiona o estar junto. O movimento de disjunção da vida social conjunta, por meio de novas amizades e experiências singulares, se dá em compassos diferentes. Não é um processo contínuo. A separação envolve negociação das falhas de cada um, em prol da união, e diversas tentativas de reconciliação. O processo de ruptura percorre o caminho oposto ao da construção da vida a dois. Os parceiros precisam se redefinir como unidades distintas por eles mesmos e por seus pares. A separação só acontece por completo quando a conjugalidade não mais constituir o principal marcador identitário.

Como Vaughan(38) e Singly(39) assinalam, na separação não ocorre apenas uma repartição dos bens; a rede social do casal também se divide. Este é o momento em que amigos e familiares do par tomam partido de um ou do outro. Nesta partilha afetiva pode-se perder muito mais do que o cônjuge. Um terço das informantes aponta a preservação da família como um bem maior que sua própria dor, pelo qual pretendem "lutar". A manutenção do casamento, portanto, está diretamente associada à importância conferida à família.

Ele tem o problema do alcoolismo e estava numa fase de só trabalho, de festas, [...] até que um dia ele chegou em casa, dia do meu aniversário e me agrediu. Fui para casa da minha mãe e do meu pai. Lógico que me acolheram, mas eles disseram pra mim: 'Volta pra sua casa, porque você tem três filhos pra criar'. E eu, pela minha codependência, tanto emocional e financeira desse marido e pelo amor pelos meus filhos, voltei para minha casa. Então, assim, construí a minha família com muita dor [chora], com muito sofrimento, mas tenho três filhos maravilhosos (Beatriz).

O casamento é parte de um contexto cultural e religioso que ressalta seu caráter indissolúvel e responde a uma expectativa social. A repercussão da separação para os filhos do casal também é um fator considerado pelas entrevistadas. Metade das informantes possui filhos, e eles podem representar um vínculo entre os parceiros, ainda que não seja amoroso.

A concepção de família nuclear - formada por pai, mãe e filhos - está presente nas narrativas, como ideal a ser perseguido. A possível quebra deste paradigma move essas mulheres a defender a relação abalada. Atitudes para afastar amantes; terapia de casal; e estratégias de convencimento, para que o parceiro permaneça na união, foram relatadas. Reconfigurar a concepção de família consiste em relevante passo para aceitação da separação como uma saída possível.

O convívio com o grupo proporcionaria o reconhecimento dos aspectos negativos da relação que, uma vez identificados, podem ser melhorados sem uma separação. Há um discurso recorrente de que o MADA nada induz ou impõe. Todavia, as narrativas sinalizam uma tendência pela separação, depois da entrada na "irmandade". A "programação" do MADA oferece uma lente pela qual a mulher será capaz de discernir os problemas da relação, para os quais estava "cega" até então. Há, portanto, uma alteração da subjetividade por meio dos valores e crenças compartilhadas com o coletivo. Uma vez ciente do grau de "disfuncionalidade" do relacionamento, a Mada se vê forçada a tomar uma atitude. Neste caso, a separação aparece como solução frequente. Quem não consegue dar este passo tem sua "recuperação" questionada pelas demais integrantes. As mulheres que permanecem em relações "destrutivas" são moralmente julgadas. A "negação" dos problemas seria o recurso daquelas que, apesar dos pesares, preferem continuar com os parceiros.

Se o modo de se relacionar da Mada é considerado doentio, um tempo de solidão integra o "processo de cura", até que se possa estabelecer uma relação "saudável". Estar só após a ruptura possibilita uma revisão do relacionamento.(40) A atenção até então direcionada ao outro retorna para si. Atividades e redes de contatos são resgatadas. Gostos individuais, relegados a segundo plano em prol da formação do par, são revisitados.

Considerações finais

As narrativas das "mulheres que amam demais" apresentam um dilema entre dois modelos ideais de conjugalidade: o tradicional, no qual homem e mulher têm atribuições distintas e posições bem determinadas; e o igualitário, no qual certas funções, como o cuidado dos filhos e da casa, devem ser divididas pelo casal. Na faixa etária dos 40 aos 50 anos, mais representativa do conjunto entrevistado, há ênfase na busca por equacionar esses quesitos. São mulheres com um histórico de relacionamentos nos quais construíram família, tiveram filhos e cumpriram as exigências sociais, mas não sem questionar o lugar reservado à mulher no modelo tradicional de esposa, dona de casa e mãe. O incômodo com a atitude recorrente de "agradadora" reflete-se nas narrativas como desconforto frente a uma posição subalterna da mulher, incompatível com os ideais igualitários modernos. Ademais, outras características da Mada, como a autodenominada "baixa autoestima" e perda da identidade na fusão com o parceiro, estão associadas à ideia de fraqueza moral, e descrevem uma mulher desvalorizada e dependente, representação condizente com um papel feminino tradicional.

A "mulher que ama demais" também traz à tona a discussão sobre a concepção de pessoa na modernidade, fruto da ideologia individualista. Neste contexto, espera-se que os indivíduos sejam autônomos, iguais, e que possuam autocontrole (dividendo do processo civilizatório); ao mesmo tempo, devem ser autênticos e cultivar sua realidade subjetiva. Cabe aos indivíduos encontrar um balanço equilibrado entre razão e emoção. A Mada é identificada como quem tem dificuldades de solucionar esta equação. Ela se entrega aos sentimentos e, por uma intensidade emocional, mostra autocontrole insuficiente. Estudos(41) já demonstraram como as mulheres foram associadas às emoções e como o descontrole emocional é tido como perigoso e, simultaneamente, visto como fraqueza, pois explicita uma falha no domínio dos impulsos. As situações de descontrole emocional, descritas como "surtos", produziram forte sentimento de vergonha nas entrevistadas e preocupação com a consequência de atos, o que revela um autocontrole internalizado, descrito por Norbert Elias.(42)

A pesquisa indicou a prevalência do estado de parceria amorosa na trajetória das depoentes, mesmo com relações consideradas "destrutivas". Segundo as entrevistadas, no "amar demais" o par é formado pelo encaixe de "padrões disfuncionais" do homem e da mulher. Características físicas fora dos padrões sociais e a idade madura deixam essas mulheres em desvantagem no mercado amoroso. A dinâmica conjugal no "amar demais" caracteriza-se pela competição: disputa-se um controle da relação, em uma alternância de posições, ilustrada pela imagem da gangorra.

Os relatos evidenciaram episódios de agressão física, nos quais a mulher se considera vítima e, também, agressora, o que denota uma agência feminina. Assim, a leitura feminista na qual a mulher é sempre vítima pode ser objeto de questionamentos. Os conflitos no par surgem a partir da diferença de valores entre os parceiros e de uma redução no empenho em manter a relação. As conversas conjugais funcionam como importante medidor da união. "Fantasiar" a respeito do parceiro aparece como recurso para lidar com a diferença de valores no casal. A figura do "príncipe encantado" é recorrente. Verifica-se que a Mada depende da relação, e não do parceiro. Não interessa quem possa ocupar este lugar, o importante é que alguém esteja ali, solucionando o medo da solidão.

As Madas buscam estar em par. Apesar desta meta, a separação representa o desfecho de um longo processo de deterioração do vínculo. Fatores como preservação da família, existência de filhos e dependência emocional e financeira do parceiro são considerados nesta decisão. As narrativas apontam que, após a entrada no grupo, a separação constitui uma solução frequente. Aquelas que permanecem no relacionamento "destrutivo" têm a "recuperação" questionada.

A análise das entrevistas aponta como o fenômeno das "mulheres que amam demais" se insere em um contexto cultural regido pelo ideário individualista, produtor de uma concepção moderna de pessoa. A antropologia das emoções desconstrói o conceito de que os sentimentos são próprios de uma subjetividade inata, ao demonstrar o quanto estão subordinados às relações sociais em que emergem. A perspectiva relacional de gênero conduz a análise do material, evidenciando as formas como as condições culturais modelam a conjugalidade heterossexual e a construção do "amar demais".

Referências

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1O uso de aspas assinala categorias nativas; nomes fictícios foram atribuídos às depoentes.

2A iniciativa conta com 45 reuniões semanais distribuídas nos seguintes estados: Alagoas, Bahia, Ceará, Goiás, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Distrito Federal. A longevidade e o número de grupos em funcionamento indicam a expressividade do fenômeno social.

32010.

41992.

52010.

6Claudia REZENDE e Maria Claudia COELHO, 2010.

7Os encontros do MADA são reservados apenas às integrantes. Todavia, a última reunião de cada mês é aberta à participação de pessoas externas ao grupo. O projeto de pesquisa: "Mulheres que amam demais: conjugalidades e narrativas de experiência de sofrimento" foi submetido e aprovado pelo comitê de ética em pesquisa do Instituto de Medicina Social - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - de acordo com o parecer número 91.651.

8O valor do salário mínimo no ano de 2012 foi de R$622,00.

9Segundo Norbert Elias (1993; 1994), a capacidade de autocontrole desenvolvida ao longo do processo civilizatório demonstra a adequação da expressão dos afetos aos contextos sociais.

10Das dezesseis informantes, três permanecem casadas.

112010.

12Edemilson CAMPOS, 2010.

131987, p. 112.

141964.

15BERGER e KELLNER, 1964, p. 21.

161994.

17BERGER e KELLNER, 1964.

18NORWOOD, 2010, p. 105.

192004, p. 132.

20Martine SEGALEN, 2006.

21HEILBORN, 2004, p. 148; Marlise MATOS, 2000.

22HEILBORN, 2004; MATOS, 2000.

23Segundo Heilborn (2004) e Matos (2000), na heteroconjugalidade, a face pública reforça a identidade do casal.

24BERGER e KELLNER, 1964; HEILBORN, 2004; MATOS, 2000.

251990.

26Eriza PARENTE, Rosana NASCIMENTO e Luiza VIEIRA, 2009.

271993.

28Heleieth SAFFIOTI, 2004.

291993, p. 123.

30GREGORI, 1993.

312005.

32Bárbara Musumeci SOARES, 2012.

33Lia Zanotta MACHADO e Maria Tereza Bossi de MAGALHÃES, 1999.

34VAUGHAN, 1990; François de SINGLY, 2011.

35HEILBORN, 2004.

362004.

37VAUGHAN, 1990.

381990.

392011.

40HEILBORN, 2004; SINGLY, 2011.

41Fabíola ROHDEN, 2001; Rachel Aisengart MENEZES e Maria Luiza HEILBORN, 2007; REZENDE e COELHO, 2010.

421993; 1994.

Recebido: 14 de Março de 2014; Aceito: 20 de Maio de 2015

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