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Revista Estudos Feministas

versão impressa ISSN 0104-026Xversão On-line ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.24 no.3 Florianópolis set./dez. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1806-9584-2016v24n3p679 

Artigos

Uma questão de gênero: ofensas de leitores à Dilma Rousseff no Facebook da Folha

A gender problem: offenses from readers against Dilma Rousseff on Folha de S. Paulo Facebook

Pâmela Caroline Stocker¹ 

Silvana Copetti Dalmaso² 

¹Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil

²Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil

Resumo:

A proposta deste artigo é mapear os comentários ofensivos de leitores direcionados à presidenta Dilma Rousseff e analisar os sentidos relacionados ao preconceito de gênero em duas publicações da página do jornal Folha de S. Paulo no Facebook. As postagens, realizadas no dia 16 de março de 2015, são relativas à primeira declaração oficial da presidenta após os protestos pró-impeachment do dia 15 de março. Por meio da Análise do Discurso e ancorando-se nos estudos feministas pós-estruturalistas, foram mapeados 1.158 comentários de leitores. Verificou-se que 56% dos comentários constituem-se de ofensas que contêm preconceito de gênero. A análise destes textos levou a seis núcleos de sentido, cinco deles estritamente ligados a questões de gênero: Gaslighting e Manplaining; Misticismo e Religiosidade; Ódio e Misoginia; Machismo e Sexismo; e Bropriating.

Palavras-chave: Jornalismo; Facebook; Preconceito; Gênero; Análise de Discurso

Abstract:

The purpose of this paper is to map the offensive comments of readers directed to President Dilma Rousseff and analyze the senses related to gender bias in two publications of Folha de S. Paulo newspaper on Facebook. The posts were made on March 16th, 2015 and refer to the first official statement from the president after the pro-impeachment protests on March 15th. Through Discourse Analysis and feminist post-structuralist studies, 1,158 reader's comments were mapped. It was found that 56% of these comments showed sexist offenses. The analysis of these texts resulted in six sense cores, five of them closely related to gender issues: Gaslighting and Manplaining; Mysticism and Religiosity; Hate and Misogyny; Chauvinism and Sexism; and Bropriating.

Keywords: Journalism; Facebook; Prejudice; Gender; Discourse analysis

Introdução

O dia 15 de março de 2015 ficou marcado no Brasil por protestos que reuniram milhares de pessoas em todas as capitais do país1. Entre as variadas reivindicações dos manifestantes, predominavam o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e o fim da corrupção. A temática pautou os principais veículos de comunicação e teve expressiva repercussão nos sites de redes sociais. No dia seguinte ao ato, a presidenta fez seu primeiro pronunciamento a respeito dos protestos. A página do jornal Folha de S. Paulo no Facebook2 publicou duas notícias referentes à entrevista de Dilma que provocaram significativa interação dos leitores no espaço de comentários da rede social. Somadas, as duas postagens receberam 6.677 comentários.

Os modos de desqualificar ou criticar o trabalho de uma mulher que ocupa posição de poder, neste caso a presidência da República, retratam uma face permeada por construções histórias e culturais relativas ao gênero. Marcia Veiga da Silva (2014) relembra que é através da linguagem que se instituem significados aos gêneros e que se demarcam os lugares de cada um na sociedade. As adjetivações diferenciadas atribuídas aos sujeitos femininos e masculinos não servem apenas para transmitir e expressar relações de poder, mas também ajudam em sua produção e instituição (Guacira Lopes LOURO, 1999).

Nessa direção, Joan Scott afirma que o uso do termo gênero é importante "como uma maneira de referir-se à organização social da relação entre os sexos" (Joan SCOTT, 1995, p. 72) e o conceitua a partir de duas proposições centrais, o qual pode ser tanto um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos, quanto uma forma primária de dar significado às relações de poder. Assim, o estudo do gênero como categoria de análise propicia uma reflexão "sobre os modos como as convenções sociais sobre o masculino e o feminino são produzidas, associadas a distintas formas de relações de poder e os modos como estas convenções produzem hierarquias e desigualdades" (Marcia VEIGA DA SILVA, 2014, p. 480).

Considerando a linguagem caminho profícuo para compreender como o masculino e o feminino são dotados de sentidos e como seus reflexos cristalizam e reiteram determinadas relações de poder e saber na sociedade, este artigo propõe-se a analisar os comentários das postagens das notícias intituladas "Após protestos, Dilma diz estar disposta a 'dialogar com todos, com humildade'"3 e "'A corrupção é uma senhora idosa', diz Dilma após os protestos"4, divulgadas no dia 16 de março de 2015 na página da Folha de S. Paulo no Facebook. O objetivo deste estudo é identificar e mapear os núcleos de sentido presentes nos 1.158 comentários de caráter ofensivo dirigidos à presidenta e analisar aqueles estritamente ligados a questões de gênero. O mapeamento e a análise serão realizados por meio da Análise do Discurso, especialmente a partir do conceito de paráfrase (Eni ORLANDI, 2007), ancorando-se nos estudos feministas pós-estruturalistas que consideram gênero como categoria de análise (SCOTT, 1995).

Metodologia e Análise

Com base nos pressupostos da Análise de Discurso de linha francesa (AD), a questão central da análise é perceber como o texto significa: "na análise de discurso procura-se compreender a língua fazendo sentido, enquanto trabalho simbólico, parte do trabalho social geral, constitutivo do homem e da sua história" (ORLANDI, 2007, p. 15). Cabe ao analista buscar as regularidades na linguagem e relacioná-las à exterioridade, tendo em vista que o discurso é "opaco, não transparente, pleno de possibilidades de interpretação" (Marcia BENETTI, 2007, p. 108).

Nesse prisma, a língua, a cultura, a ideologia e o imaginário, em sua complexidade, além de processos sociais e históricos, influenciam e afetam os sujeitos, e consequentemente os seus discursos e seu processo de leitura: "Os sentidos não estão presos ao texto nem emanam do sujeito que lê, ao contrário, eles resultam de um processo de inter-ação texto/leitor" (Bethania MARIANI, 1999, p. 106). Segundo a autora, a discussão é complexificada ao considerar-se que o sujeito-leitor também é constituído por processos sociais e históricos que não são totalmente visíveis para ele. Estas nuances, de caráter social e individual que envolvem os sujeitos, também devem ser pensadas quando se analisa os discursos por eles produzidos.

O primeiro mapeamento dos 6.677 comentários relativos às publicações (figuras 1 e 2) do jornal Folha de S. Paulo no Facebook eliminou manifestações de caráter publicitário, compartilhamento de links/vídeos e comentários com escrita ilegível ou superficial (apenas um emoticon, uma hashtag ou uma risada, por exemplo). Essa primeira triagem resultou numa mostra de 1.158 comentários, que constituem o corpus consolidado da pesquisa. Destes, foram selecionados para a análise apenas aqueles que continham ofensas e xingamentos direcionados à presidenta, o que resultou em uma mostra de 645 comentários.

Figura 1: captura de tela da publicação da Folha de S. Paulo no Facebook: Após protestos, Dilma diz estar disposta a "dialogar com todos, com humildade". 

Figura 2: captura de tela da publicação da Folha de S. Paulo no Facebook: "A corrupção é uma senhora idosa", diz Dilma após os protestos. 

A etapa inicial da análise desses comentários consistiu em mapear os sentidos nucleares no movimento de identificação das formações discursivas, ou seja, a região de sentidos que é circunscrita por um limite interpretativo. A partir disso, observaram-se os processos parafrásticos que, segundo Orlandi (2007, p. 36), "são aqueles pelos quais em todo dizer há sempre algo que se mantém, isto é, o dizível, a memória". Todo discurso se constrói na tensão entre o retorno ao mesmo e a busca do diferente. Assim, identificar o que se repete nos comentários dos leitores significa observar o retorno aos mesmos espaços do dizer por meio de diferentes formulações: "Regida pelo processo parafrástico, a produtividade mantém o homem num retorno constante ao mesmo espaço dizível: produz a variedade do mesmo" (ORLANDI, 2007, p. 37).

Por meio da identificação dos sentidos mais prevalentes e do mapeamento das paráfrases (significados que se repetem), foram encontrados seis núcleos de sentido (gráfico 1): Desqualificações Profissionais (44%); Machismo e Sexismo (16%); Gaslighting e Mansplaining (12%); Bropriating (12%); Misticismo e Religiosidade (8%); e Ódio e Misoginia (8%).

Gráfico 1: Núcleos de sentido do corpus consolidado (1.158 comentários que contêm ofensas direcionadas à presidenta Dilma Rousseff). 

Os 513 comentários que apresentaram desqualificações e ofensas de caráter profissional formaram o núcleo mais numeroso da mostra, representando 44% dos comentários coletados. As sequências discursivas (SDs) apresentaram núcleos de sentido ligados a ideias de senilidade (197 recorrências), corrupção (75), arrogância (48), cara de pau (48) e incompetência (26), entre outras. Chamam atenção também as ofensas relativas à incapacidade intelectual, como "anta" (150) ou "presidAnta" (28), e ainda ofensas diversas como "mentirosa" (69), "terrorista" (26) e "bandida" (27); lembrando que alguns comentários expressam mais de uma das palavras na mesma publicação. Como esses tipos de ofensas poderiam ser também direcionados a um homem, esse núcleo não será analisado neste artigo, visto que serão privilegiados os demais núcleos de sentido estritamente ligados a questões de gênero.

Constituintes de mais da metade do corpus consolidado (56%), esses comentários ofensivos que evocam preconceitos de gênero foram organizados em cinco núcleos de sentido. Cada núcleo de sentido foi sistematizado e identificado de acordo com o processo parafrástico do discurso, ou seja, por meio do agrupamento e interpretação dos comentários de leitores a partir das estruturas linguísticas que se mantêm e se repetem.

Machismo e sexismo

Representando 16% da mostra, esse núcleo de sentido agrupou 182 comentários5 de leitores que reiteraram significados ligados à cultura machista e sexista. Manifestações que relacionam a mulher a papéis tipicamente associados ao feminino, como o cuidado com o ambiente doméstico (lavar a louça, limpar a casa) ou a preocupação com a beleza (plásticas, perda de peso) e xingamentos como "vaca" (56), "safada" (31) e "vagabunda" ou "vagaba" (23) dividem espaço com diferentes menções relativas ao falo, como "rola" e "rabo" (22), conforme explicitam os seguintes exemplos de sequências discursivas (SDs):

[SD06] Parece que ela esticou o rosto. Fez plástica?

[SD07] CALA ESSA BOCA IMUNDA SUA VAGABUNDA!

[SD51] ninguem quer dialogar com a Sra. vai lavar uma boa pia de louças va!!

[SD01] Enfia a sua humildade no C*

[SD42] Dialoga com a minha rola, Dilma!

Segundo Victória Sau (2004), o termo machismo é utilizado primordialmente no âmbito coloquial e popular. Seu sentido estaria relacionado a um conjunto de leis, normas, atitudes e traços socioculturais do homem cuja finalidade, explícita ou implícita, é produzir, reproduzir e manter a submissão da mulher. A própria menção falocêntrica das SDs 01 e 42, por exemplo, pode ser interpretada simbolicamente como demarcação da diferença por meio de uma virilidade abstrata, que posiciona o masculino e o feminino assimetricamente.

Importa sublinhar que, ao contrário do sexismo, o machismo é inconsciente; isto é, o machista atua como tal sem necessariamente ser capaz de explicar ou dar conta da razão interna de seus atos, já que unicamente se limita a reproduzir e a pôr em prática o sexismo da sua cultura.

Gaslighting e Mansplaining

Esse núcleo de sentido contabilizou 138 comentários, ou seja, 12% da mostra. Gaslighting é o termo utilizado para se referir à violência emocional por meio de manipulação psicológica, que leva a mulher e todos ao seu redor acharem que ela enlouqueceu ou que é incapaz. "É uma forma de fazer a mulher duvidar de seu senso de realidade, de suas próprias memórias, percepção, raciocínio e sanidade" (THINK OLGA, 2015, online)6. Os comentários de leitores trouxeram estes sentidos à tona, como se pode verificar nos exemplos de SDs a seguir, que reiteram sentidos de insanidade e incapacidade de compreensão direcionados à presidenta Dilma Rousseff:

[SD05] Alguém conseguiu entender o que ela tentou dizer no seu pronunciamento? Não falou coisa com coisa. E ainda riu da nossa cara.

[SD17] É piada dessa vermelha demente. Renuncia Dilma.

[SD23] Essa louca esta institucionalizando à corrupção em nosso país

[SD30] como pode essa senhora náo tem mas condiçóes alguma pra administrar esse imenso país serar q ela é táo idiota assim cara ela estar totalmente perdida ela náo tem humildade pra conduzir esse país ela tar totalmente disorientada sem noçáo fala bobagens de mais...

[SD32] Não acredito em nada que saia da boca dessa VACALOUCA

Por sua vez, o termo Mansplaining é uma junção de man (homem) e explaining (explicar). Consiste em uma fala didática direcionada à mulher, como se ela não fosse capaz de compreender ou executar determinada tarefa, justamente por ser mulher. Comentários que apresentaram essa reiteração de sentidos (paráfrase) também foram recorrentes, como se pode verificar a seguir:

[SD04] será que essa mulher ainda nao nos entendeu??? nimguem quer asunto com ela nao. queremos intervençao militar já

[SD09] depois de um evento impactante...a senhora presidenta me vem com uma frase tão débil ....sinceramente esperava um pouco mais...

[SD11] Na próxima manifestação temos que desenhar o que queremos pq ela ainda não entendeu o #foradilma

[SD24] pelo jeito não mudará nada, a ficha dela ainda não caiu, q nós não à queremos mais, fora Dilma....

[SD26] É surda ou se faz de surda, essa Dilma ladra, a dissimulada, da voz da rua, não entendeu nada. VAZA!

A verdadeira intenção do mansplaining é desmerecer o conhecimento de uma mulher, desqualificando seus argumentos. Foram identificados sentidos ligados a "entender/ aprender" (49) e "explicar/desenhar" (9), que desclassificam a fala de Dilma Rousseff, procurando fornecer informações e explicações para corrigi-la. O mansplaining vale-se de tirar a confiança, autoridade e o respeito da mulher sobre o que está falando, além de tratá-la como inferior e menos capaz intelectualmente.

Bropriating

Este núcleo de sentido agrupa 141 comentários de leitores, o que representa 12% da mostra analisada. O mandato e a atuação da presidenta Dilma são associados ao ex-presidente Lula (128), sendo ela denominada "marionete", "fantoche" e "boneca de ventríloquo" (13). O termo bropriating é uma junção de bro (abreviação de brother, irmão, mano) e appropriating (apropriação) e se refere a situações em que um homem se apropria da ideia de uma mulher ou leva o crédito por ela (THINK OLGA, 2015, online). A expressão advém da metáfora da sala de reuniões, local onde muitas vezes a mulher não é ouvida quando expõe suas ideias, mas tem o seu raciocínio cooptado por algum homem que assume a palavra, repete exatamente o que ela disse, e é aplaudido por isso. No caso dos comentários aqui classificados, percebe-se o apagamento da presidenta Dilma como protagonista do seu governo, tendo suas decisões, ações, erros e acertos atribuídos a um "mentor" homem que a estaria manipulando, já que não teria "cacife" para tomar as próprias decisões.

[SD01] Sra. Coração Valente não confunda humildade com "cara de pau"... E pessoal não a chamem de ditadora.. Ela não tem cacife pra isso coitada.. Não tá consegindo nem ser marionete do Lulladrao...

[SD07] Humildade NUNCA foi a tônica dos discursos da presidANTA Boneca de Ventríloquo nem de seu antecessor e mentor, o Nove Dedos Molusco da Silva. Fora PT. Fora PeTralhas malditos!!!

[SD08] Tem que pegar o mentor de tudo: LULA! !! Esse q precisa ser pego. Devagar chega lá

[SD09] Fantoche do Lula, não tem o que falar, fique quieta

[SD12] ela falou um verdade mas a corrupção foi institucionalizada pelo mestre lula e pela sua discípula

Como os papéis de gênero e as características comumente associadas às mulheres são de delicadeza, suavidade e gentileza, posicionamentos enfáticos ou assertivos são vistos e interpretados como masculinos na sociedade. O bropriating ajuda a explicar, por exemplo, porque existem poucas mulheres ocupando posições de liderança em diversas áreas.

Misticismo e religiosidade

Composto por 8% da mostra, contabilizando 93 recorrências, esse núcleo de sentido agrupou comentários cujo discurso está relacionado ao misticismo e à religiosidade. Palavras como "capeta", "diabo", "demônio" e "satanás" (35), "inferno" (22), "bruxa" (16) e "cobra" (11) foram identificadas remetendo à mesma matriz de sentido (paráfrase). Cabe sublinhar que essas figuras míticas estão historicamente correlacionadas. De acordo com Paola Zordan (2005), tanto a história como a imaginação popular mitificaram as mulheres como "bruxas". As bruxas foram torturadas e queimadas para sinalizar os perigos de práticas e saberes à margem da Igreja e de outras instituições dominantes na Idade Moderna. Conforme a autora, o manual de inquisidores do século XIV, o Malleus Maleficarum, descreve os poderes da bruxa, sua aliança com o demônio e sua ameaça para o cristianismo:

Fêmea inebriante ou velha decrépita, a figura da bruxa exprime alguns conceitos que o pensamento ocidental legou ao que se entende por feminino. Trata-se de uma imagem construída por diferentes discursos, um romântico, propagado ao longo do século XIX, e outro eclesiástico, expresso nos enunciados seculares da cristandade contra arcaicas práticas pagãs (ZORDAN, 2005, p. 131).

Os comentários reunidos neste núcleo de sentido trazem menções a bruxas e também a palavras que remetem à religiosidade, como exposto nos seguintes exemplos de SDs:

[SD04] bruxa macumbeira

[SD043] #foradilmaligna para essa bruxa malvada do centro-oeste dialogar significa "eu falo e TODOS VOCÊS SÓ escutam, seus vermes"

[SD05] Dialogue com o demônio, amaldiçoada!

[SD015] Pronto, quero que ela dialogue com satanás no inferno!

[SD021] Enviada do diabo!!!

Zordan explica que a figura da bruxa ensina certo modo de enxergar a mulher, principalmente quando esta expressa poder. Ao fazer uma análise da farta literatura sobre o assunto, a autora mostra que a caracterização da bruxa, que vigorou durante a Inquisição e que ressoa até os dias de hoje, constitui-se como um dos elementos mais perversos produzidos na sociedade patriarcal do Ocidente, já que expurga todos os males atribuídos ao feminino: desde o pecado original, até a desobediência da "primeira mulher", pintada como colaboradora de Satã e personificação do demônio (ZORDAN, 2005).

Ódio e Misoginia

Esse núcleo de sentido reuniu 91 comentários de leitores e representa 8% da mostra. Foram agrupados aqui os comentários de teor violento, que mencionam agressões físicas (22) e morte (54), além de comentários misóginos (de desprezo ou repulsa ao gênero feminino e às características a ele associadas) (40). A extrema violência inclui desde menções ao câncer da presidenta, dizendo que voltará a se manifestar, até armas de fogo, murros, chicotadas, estupro e morte. Foram agrupados aqui também os comentários que expressam nojo e repulsa pela figura de Dilma.

[SD07] VONTADE DE DAR UM MURRO NA CARA DESTA INDECENTE.

[SD09] sai daí nojenta,vc vai ser empalada ! XÔ ! XAU !

[SD13] e vc entao ne sua DEGRASSADA tenho nojo de mulher

[SD16] Chega a dar nojo, qualquer coisa que venha desta mulher, hipócrita, mentirosa, dissimulada com o todos os outros da sua laia!

[SD20] Só tomando chicotadas, para aprender

O discurso do ódio, conforme Rosane Leal da Silva et al (2011), se estrutura em duas frentes: na discriminação, ou seja, na manifestação segregacionista baseada na ideia de que o autor do discurso é superior à pessoa atingida ou alvo do ódio; e na externalidade, na publicização do ódio com a finalidade de incitar e conquistar adeptos. Esse ódio, que já está presente na sociedade, ganha visibilidade e ressonância nos sites de redes sociais, o que amplia sua força e reprodutibilidade (Raquel RECUERO, 2014, online). O fato de os comentários se concretizarem no espaço virtual, sem a dimensão face a face da interação, também pode implicar uma aceleração da hostilidade em determinadas situações, pois o leitor, ao se sentir distante dos demais participantes da conversação e da própria presidenta, que é o foco principal da notícia, não receia em expor o que pensa. "Por isso, a conversação em rede é um espaço frutuoso para a emergência de discussões inflamadas, discursos agressivos e ofensivos e, mesmo, pela propagação da violência" (RECUERO, 2013, p. 62).

Considerações finais

A partir da identificação e sistematização dos núcleos de sentido dos 1.158 comentários do corpus, realizadas por meio da Análise de Discurso, verificou-se que 56% do material analisado remete ao preconceito de gênero. Os cinco núcleos de sentido observados nos comentários da mostra evidenciaram que as ofensas e agressões se deram por meio de ridicularização, deboche e ironias no caso do Gaslighting e Mainsplaining; na ligação entre a mulher e personagens que simbolizam o mal, a rebeldia e o poder no Misticismo e na Religião; na violência dos xingamentos e expressões de repulsa e ojeriza que denotam a Misoginia e o Ódio; nas ofensas sexistas, sectárias e discriminatórias do Machismo e Sexismo; e nas ideias de submissão, apagamento e inferioridade da mulher que caracterizam os sentidos do Bropriating. Estes cinco núcleos de sentido revelam as diferentes formações culturais que mobilizam os discursos dos leitores e mostram como o preconceito e o machismo ainda são latentes na sociedade e se concretizam de forma explícita no espaço jornalístico.

Cabe aqui também destacar a responsabilidade do jornalismo com as reações e desdobramentos gerados pela notícia publicada, ainda que no ambiente da rede social. O espaço destinado para os comentários de leitores no Facebook, apesar de amplamente utilizado, não recebe nenhuma atenção ou monitoramento por parte da Folha. Mais do que isso, a grande recorrência de comentários que expressaram preconceito de gênero de forma violenta e desrespeitosa não apenas à presidenta, mas a todas as mulheres, denotam a urgência de se discutir e problematizar a desigualdade de gênero em nossa sociedade, principalmente no campo da comunicação.

Referências

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1Segundo o Datafolha, o maior ato ocorreu na Avenida Paulista, em São Paulo, que reuniu mais de 210 mil pessoas. Essa foi a maior aglomeração política medida pelo instituto desde o Diretas-Já, no dia 16 de abril de 1984, que reuniu 400 mil pessoas. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/03/1603271-paulista-reune-maior-ato-politico-desde-as-diretas-ja-diz-datafolha.shtml. Acesso em 02/07/2015.

2A Folha de São Paulo soma mais de 5 milhões de curtidas em sua página oficial no Facebook e, segundo o Instituto Verificador de Circulação (IVC), é o maior jornal em circulação no Brasil, seguida pelo O Globo, Super Notícia e Estadão.

3Disponível em: https://www.facebook.com/folhadesp/posts/1034190459956290. Acesso em 02/07/2015.

4Disponível em: https://www.facebook.com/folhadesp/posts/1034131459962190. Acesso em 02/07/2015.

5Os comentários de leitores foram coletados e transcritos na íntegra, preservando eventuais erros de ortografia, concordância, digitação ou pontuação. Os grifos em negrito são das autoras.

6Segundo o Think Olga (disponível no endereço http://thinkolga.com) - projeto feminista criado em abril de 2013 cujo objetivo é empoderar mulheres por meio da informação -, o termo gaslighting surgiu por causa de um filme de mesmo nome, de 1944, em que um homem descobre que pode tomar a fortuna de sua mulher se ela for internada como doente mental. Por isso, ele desenvolve uma série de artimanhas - como piscar a luz de casa, por exemplo - para que ela acredite que enlouqueceu.

Recebido: 26 de Fevereiro de 2016; Aceito: 15 de Maio de 2016

pamelastocker@gmail.com

silvana.dalmaso@gmail.com

*

Pâmela Caroline Stocker é jornalista e mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS. Doutoranda na linha de jornalismo e processos editoriais no PPGCOM/UFRGS, estuda os discursos sobre gênero e sexualidades presentes no jornalismo e nos comentários de leitores dos principais jornais do país. Atua no Grupo Gemis - Gênero, mídia e sexualidade, que promove oficinas e palestras voltadas às temáticas de gênero e LGBT.

**

Silvana Copetti Dalmaso é jornalista e licenciada em Letras pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e mestre em Comunicação Midiática pela UFSM. Doutoranda na linha de jornalismo e processos editoriais do PPGCOM/UFRGS, pesquisa o discurso do jornalismo e dos leitores praticado no ambiente dos sites de redes sociais, especialmente no Facebook.

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