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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.24 no.3 Florianópolis Sept./Dec. 2016

https://doi.org/10.1590/1806-9584-2016v24n3p825 

Artigos

Para além do gênero: mulheres e homens em engenharias e licenciaturas

Beyond the Gender: Choice of Women and Men in Engineering or Degree in UTFPR and UFBA

Lindamir Salete Casagrande1 

Ângela Maria Freire de Lima e Souza2 

1Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil

2Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA, Brasil


Resumo:

O objetivo deste artigo é analisar discursos de homens e mulheres estudantes de engenharia e licenciaturas na UTFPR e na UFBA sobre os motivos de suas escolhas pelos cursos que realizam. O estudo faz parte da pesquisa de pós-doutorado que investigou as engenharias e licenciaturas das duas universidades sob a ótica de gênero. A pesquisa foi dividida em duas etapas, uma quantitativa e outra qualitativa, sendo a etapa qualitativa realizada a partir de entrevista virtual. Os resultados apontam para o fato de que muitos são os fatores que interferem nas escolhas de homens e mulheres. Dentre eles, destaca-se a influência familiar e de professores/as, a expectativa de remuneração e, principalmente, a vontade própria. Os diferentes motivos alegados pelos/as estudantes dos cursos analisados não estão relacionados exclusivamente ao gênero. As próprias características dos cursos, não necessariamente associadas a estereótipos de gênero, assumem papel relevante nestas escolhas.

Palavras-chave: Engenharias e licenciaturas; relações de gênero; homens e mulheres; UFBA e UTFPR

Abstract:

The objective of this paper is to analyze the discourses of men and women engineering students and degrees at UTFPR and UFBA about the reasons for choosing their undergraduate programs. The study is part of post-doctoral research which investigated, from a perspective of gender, the choice for studying engineering from two universities. The research was divided into two stages, one quantitative and the other qualitative, and the qualitative step being performed from virtual interview. The results point to the fact that there are many factors that interfere in the choices of men and women for choosing their program. Among them, there is the family and former teachers influence, the expectation of salaries and especially their will. The different reasons given by the students of the analyzed courses are not related exclusively to gender. Undergraduate programs characteristics not necessarily associated with gender stereotypes play significant role in these choices.

Key words: Engineering and Undergraduate; Gender Relations; Men and women; UFBA and UTFPR

Introdução

Entender como se dá a inserção de homens e mulheres nas engenharias e licenciaturas é importante porque, entre outros aspectos, pode contribuir para a elaboração de projetos educacionais e, até mesmo, políticas públicas que garantam a maior liberdade de acesso aos cursos desejados por eles e por elas. Com o intuito de contribuir para este processo é que se realizou esta pesquisa.

Para tal, nos baseamos em estudos (Marilia Gomes de CARVALHO e Lindamir S. CASAGRANDE, 2011; CARVALHO, apud Dilvo RISTOFF et. al., 2008; CASAGRANDE et al., 2004; Maria Rosa LOMBARDI, 2006a e 2006a; Carla Giovana CABRAL, 2005; Ângela Maria Freire de LIMA e SOUZA, 2011, dentre outros) que apontam para o fato de que as mulheres são a minoria dentre os/as matriculados/as nas engenharias brasileiras. Outros estudos (Ana Maria Ribeiro Tanajura JABUR e Alessandra DAVID, 2011; Mary DEL PRIORE, 2005; Jane Soares de ALMEIDA, 2006) indicam que as licenciaturas são mais atraentes às mulheres do que aos homens. Este fato levou as pesquisadoras a buscarem entender o que ocorre com estes cursos na Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR e na Universidade Federal da Bahia - UFBA.

A escolha das duas Universidades se deu devido à vinculação das autoras com as mesmas e ao fato de se encontrarem em regiões brasileiras com formações culturais distintas. A UTFPR,1 localizada no sul do país, está inserida em uma região colonizada predominantemente por descendentes de europeus que trouxeram consigo suas culturas e a UFBA,2 encravada no nordeste brasileiro, encontra-se numa região com forte influência da cultura africana. O questionamento que nos surgiu foi: será que a diferença cultural teria alguma influência nas escolhas profissionais dos/as jovens, já marcadamente afetadas pelo gênero?

Ressaltamos que a expressão "escolha profissional", aqui utilizada, quer significar um processo complexo e, muitas vezes, doloroso, em que se encontram jovens homens e mulheres diante de um futuro incerto e sob intensa pressão social. Frequentemente, a chamada "Orientação Profissional" é o contexto em que se situa a discussão, e também com muita frequência se aborda a temática numa perspectiva psicanalítica. Para Rose Maria de Oliveira Paim (2007, p. 2), por exemplo,

é possível observar que a profissão passa, de alguma forma, a representar o sujeito no campo social. Tanto que é senso comum numa apresentação dizer-se: "Fulano de tal, farmacêutico", "Cicrano de tal, engenheiro", acrescentando ao nome próprio a profissão que, nessa medida, pode ser tomada como um sobrenome, uma filiação, algo que, além do próprio nome, diz do sujeito de quem se fala, situando-o nesse universo social. A profissão lhe complementa o nome, daí merecer ser investigada.

Nesta perspectiva, a profissão é compreendida como uma extensão do próprio sujeito, naquilo que o constitui como indivíduo. Nesse contexto, a escolha se configuraria numa relação entre o perfil psicológico da pessoa e o perfil da profissão. Desta forma, as técnicas de orientação profissional utilizavam ferramentas como testes psicométricos e observações sistemáticas, buscando encontrar, nas pessoas, características mais "adequadas" a esta ou àquela profissão.

Uma outra abordagem seria a sócio-histórica. Nesta perspectiva, fatores como a classe social à qual pertence o indivíduo, por exemplo, pode ser crucial para sua escolha profissional. No nosso entendimento, para além da classe social, haveria uma multideterminação (gênero, geração, raça/etnia), em que diversos fatores intervenientes condicionariam o sujeito a esta escolha, tendo ele maior ou menor liberdade para decidir sobre seu futuro. Para Silvio Duarte Bock, "é necessário um avanço na compreensão da relação indivíduo/sociedade, de forma dialética, e não idealista ou liberal" (2002, p. 67). Quer dizer, a questão da escolha não se resume ao esforço pessoal em aproveitamento das oportunidades e condições disponíveis, não existindo um sujeito isolado, imune ao seu entorno e às condições socialmente dadas.

Para definir os cursos a serem pesquisados, buscamos dois cursos de engenharia, um com predominância masculina (Engenharia Mecânica) e outro que se mostra mais atraente às mulheres (Engenharia Civil), embora elas ainda sejam minoria neste curso. Critério semelhante foi utilizado para a escolha das licenciaturas. Optamos pela Licenciatura em Matemática por ser, pelo menos teoricamente, um curso masculino e Licenciatura em Letras, que apresenta predominância feminina. Outro fator importante a se ressaltar é que as duas instituições oferecem os 4 (quatro) cursos.

Para este estudo, partiu-se do pressuposto de que o gênero é social e culturalmente construído. Representa e estabelece relação de poder entre os sujeitos de cada gênero e, mesmo, entre sujeitos do mesmo gênero (Joan SCOTT, 1995 e Claudia Lima COSTA, 1994). A categoria gênero pode ser entendida "como uma linguagem, uma forma de comunicação e ordenação do mundo, que orienta a conduta das pessoas em suas relações específicas, e que é, muitas vezes, base para preconceitos, discriminação e exclusão social" (Daniel Schroeter SIMIÃO, 2005, p. 13). Este preconceito e discriminação de que fala Simião dificultam a inserção das mulheres em diferentes setores na sociedade brasileira, como também em outros países. Para Jane Felipe e Bianca Salazar Guizzo, gênero está "relacionado fundamentalmente aos significados que são atribuídos ao ser mulher ou ao ser homem em diferentes sociedades e épocas" (2003, p. 121). Aqui se evidencia a construção do gênero, pois os significados são atribuídos e, portanto, mutáveis.

Concordamos com Marta I. González-Garcia e Eulalia Pérez-Sedeño (apud Lucy Woellner dos SANTOS, Elisa Yoshie ICHIKAWA e Doralice de Fátima CARGANO, 2006, p. 46), quando comentam que a suposta falta de habilidade Matemática e espacial "explicaria o escasso número de mulheres nas engenharias e arquitetura, profissões que requerem habilidade para as Matemáticas e as relações espaciais". Entretanto, Lea Velho (apud SANTOS, ICHIKAWA e CARGANO, 2006) argumenta que a socialização diferenciada de meninos e meninas é fundamental para o desenvolvimento das habilidades e, no decorrer deste processo, "as mulheres são ensinadas a procurar ajuda e a ajudar e não a serem autoconfiantes ou a funcionar autônoma e competitivamente como os garotos" (p. xiv). Stefan Selke (2006) afirma que os meninos, ao ingressarem em cursos técnicos, trazem um conhecimento prévio, oriundo da socialização voltada para o manuseio de artefatos tecnológicos. Os/as professores/as, ao introduzir um tema novo durante as aulas, não partem do zero e, com isso, as meninas que tiveram socialização mais voltada para as relações pessoais encontram dificuldade em acompanhar as aulas, e algumas acabam desistindo do curso.

Santos, Ishikawa e Cargano (2006, p. 13) apontam, como causa para a escassa presença feminina nas ciências e tecnologias, "a forma como se ensina ciência e tecnologia na escola, os conteúdos das disciplinas, as atitudes de quem as ensina para as estudantes" e isso tem sido investigado com o intuito de se elaborar políticas que minimizem esta situação. Acredita-se que são inúmeras as razões que levam as mulheres a preferirem outras carreiras e não as vinculadas com ciência e tecnologia. Para se estabelecer um mapa mais detalhado desta situação, há necessidade de investigação, considerando muitas variáveis. É neste contexto que se insere este estudo.

Caracterização do público participante

A pesquisa foi realizada por meio de entrevista virtual.3 Conrado Moreira Mendes (2009) argumenta que, já no ano 2000, Mann e Stewart apontavam

quatro métodos de pesquisa on-line: entrevistas estruturadas, entrevistas não padronizadas, técnicas de observação e coleta de dados pessoais. [...] As entrevistas não padronizadas, por sua vez são menos estruturadas e, no ambiente on-line, podem ser feitas com indivíduos por e mails ou chats, em conversas em tempo real. Dividem-se em semi-estruturadas (que são relativamente formalizadas e se parecem mais com "conversas" entre participantes iguais) e não-estruturadas ou in-depth (que enfatizam as experiências subjetivas do indivíduo) (sic) (MANN e STEWART, apud MENDES, 2009, p. 6).

Assim, enviamos a todos/as os/as estudantes dos quatro cursos pesquisados e dos três campi (2 (dois) da UTFPR e 1 (um) da UFBA) um questionário com um quadro para levantamento dos dados socioeconômicos e 5 (cinco) perguntas abertas.4 Estas perguntas foram propostas de forma inicial, já tendo em mente que, a partir das respostas dos/as participantes, seriam formuladas outras questões que complementariam e aprofundariam a pesquisa. Foram algumas idas e vindas com respostas e novas perguntas.5

Inicialmente, não tínhamos nenhuma questão que abordasse de forma direta a temática de gênero. Esta decisão se deu pelo fato de que poderíamos identificar semelhanças e diferenças nas respostas de homens e mulheres de forma menos tendenciosa se as perguntas fossem genéricas. Isso, de fato, aconteceu. A amostra foi aleatória, uma vez que participaram os/as estudantes que se dispuseram a colaborar.

Os dados apresentados na sequência buscam evidenciar as similaridades e diferenças entre os/as estudantes, as instituições e os cursos pesquisados.

No total, foram 158 estudantes que aderiram à pesquisa, sendo 73 do sexo masculino e 85 do sexo feminino. O campus Curitiba da UTFPR foi o que teve o maior número de respondentes: foram 27 homens e 34 mulheres, totalizando 61 participações divididas entre os 4 cursos pesquisados. A Engenharia Mecânica foi a que forneceu o maior número de respostas (24, sendo 13 homens e 11 mulheres) neste campus. Na UFBA - Salvador e UTFPR campus Pato Branco, o curso que teve maior adesão foi o de Engenharia Civil, com 19 e 16 respostas respectivamente. A adesão feminina foi levemente inferior, quando se analisa os números da pesquisa para este curso, entretanto, ao considerarmos que as mulheres são a minoria dos/as discentes das engenharias, podemos concluir que elas foram significativamente mais aderentes à pesquisa do que os homens.

A análise da presença masculina e feminina nos cursos de Engenharia Mecânica e Civil nas instituições e campi selecionados para esta pesquisa mostra que os homens são a maioria em ambos os cursos e em todos os campi. Na Engenharia Mecânica, tínhamos, na UTFPR campus Curitiba, no final de 2013, apenas 14,9% de mulheres dentre os/as discentes; no campus Pato Branco, da mesma instituição, elas correspondiam a somente 13,7% dos discentes, e, na UFBA, a porcentagem de mulheres neste curso era ainda menor: correspondia a apenas 10% do total de matriculados/as neste curso. No que se refere ao curso de Engenharia Civil, a UTFPR Curitiba apresentava, no mesmo ano, 32,5% de mulheres dentre os/as discentes. Em Pato Branco este número subia para 48,3% e na UFBA caía para 25%. Estes dados se assemelham aos encontrados em outros estudos realizados em nível nacional (LOMBARDI, 2006a, 2006b; CABRAL; Walter Antonio BAZZO, 2005; CARVALHO; CASAGRANDE, 2011).

Ao analisarmos os números relativos aos/às respondentes, observa-se que as mulheres superaram os homens em Engenharia Civil no campus Curitiba (8 mulheres e 7 homens) e Pato Branco (10 mulheres e 6 homens) da UTFPR, sendo que, neste curso, os homens foram predominantes dentre os/as respondentes da UFBA (13 homens e 6 mulheres).

No caso da Engenharia Mecânica, a participação masculina foi superior nos três casos, porém, no campus Curitiba, da UTFPR, houve uma participação expressiva das mulheres. Elas corresponderam a 45,8% dos/as respondentes enquanto perfaziam apenas 14,9% dos/as matriculados/as em 2013. Com base nestes dados, podemos concluir que as futuras engenheiras da UTFPR do campus Curitiba estavam mais dispostas a colaborar com a pesquisa, foram mais aderentes à proposta. Estariam elas desempenhando o papel para o qual foram educadas, o de ajudar, cuidar e proteger? Este é um questionamento que surgiu neste momento da análise dos dados e que, por enquanto, não foi possível responder.

No caso das licenciaturas, observamos que as mulheres foram a maioria dos/as respondentes. A exceção foi o curso de Licenciatura em Matemática, da UFBA, onde encontramos mais homens dentre os/as participantes (7 homens e 6 mulheres). Convém destacar que elas eram a maioria dentre os/as matriculados/as no curso de Licenciatura em Letras em todos os campi aqui estudados (68,6% em Curitiba; 75,9% em Pato Branco e 72,3% em Salvador). Já os homens eram a maioria dentre os/as estudantes de Licenciatura em Matemática da UTFPR campus Curitiba (55,2%) e da UFBA (66,4%), sendo a minoria na UTFPR campus Pato Branco (32,5%). No caso da Licenciatura em Matemática da UTFPR campus Curitiba, embora elas fossem minoria dentre os/as estudantes, representaram 75% dos/as respondentes (3 homens e 9 mulheres). Observamos, ainda, uma menor adesão por parte destes/as estudantes à proposta da pesquisa se comparados com as engenharias. Este fato pode ser explicado devido ao menor número de estudantes matriculados/as nestes cursos - em comparação com as engenharias.

A questão étnico/racial também foi considerada na análise dos dados. No formulário/questionário encaminhado aos/às estudantes, solicitamos que os/as mesmos/as se autodenominassem quanto à sua cor/raça/etnia. Dentre as respostas, encontramos os seguintes termos: "branca", "caucasiana", "negra", "preta", "parda", "morena", "amarela" e "humano". Para fins de análise, agrupamos branca e caucasiana, negra e preta, parda e morena. Os números da pesquisa apontam que a UTFPR apresenta em seu quadro discente uma maioria absoluta de brancos/as. Nas licenciaturas, apenas três estudantes se autodenominaram pardos/as e 2 negros/as. Na UFBA, a predominância nas licenciaturas foi de pardos (5 homens e 6 mulheres) e negros (4 homens e 6 mulheres). Apenas duas estudantes se autodenominaram brancas. Este fato pode ser explicado se levarmos em consideração que a Bahia é o estado brasileiro com maior índice de pretos/as (17,1%) e o segundo colocado quando somamos pretos/as e pardos/as (76,3%) em sua população (IBGE, 2010) e o Paraná tem, em sua história, a predominância de colonizadores de descendência europeia. Os números do IBGE apontam que 70,3% da população paranaense se autodeclarou branca.

Porém, ao lançar o olhar para as engenharias, nos deparamos com um cenário instigante. O quadro discente da UTFPR não se alterou no quesito aqui analisado, ou seja, a UTFPR continua tendo um alunado predominantemente branco. Apenas 2 homens e 3 mulheres se autodeclararam pardos/as. Nenhum/a estudante de engenharia dos dois campi da UTFPR afirmou ser negro/a. Por outro lado, ao analisarmos os dados relativos à UFBA, percebemos uma mudança em relação às licenciaturas. Nos dois cursos de engenharia da UFBA tivemos o seguinte panorama: 8 estudantes (7 homens e 1 mulher) brancos/as; 4 estudantes (3 homens e 1 mulher) negros/as e 16 pardos (11 homens e 5 mulheres). Estes números evidenciam que, nas engenharias, há um branqueamento no corpo discente nesta universidade. Observa-se que a quantidade de negros/as é inferior a de brancos nestes cursos. O branqueamento é ainda maior na engenharia Civil. Neste curso, 6 estudantes (5 homens e 1 mulher) se declararam brancos, enquanto, na Engenharia Mecânica, 2 estudantes fizeram esta mesma afirmação. Nos dois cursos, a predominância foi de pardos (8 em cada curso).

Na pesquisa, foram avaliadas, ainda: (a) a questão do ingresso à universidade (cotista ou não); (b) a situação civil; (c) a questão da maternidade e paternidade; (d) o período do curso no qual os/as participantes estavam matriculados/as e (e) a condição financeira da família. Em todos estes quesitos, a situação encontrada nas duas universidades foi muito semelhante. As diferenças percebidas eram mais marcantes entre os cursos do que entre os gêneros. Estudantes de engenharia eram oriundos/as de famílias com melhor condição financeira do que estudantes de licenciaturas. Poucos/as participantes eram casados/as e tinham filhos/as. A distribuição dos/as participantes se deu pelos diversos períodos do curso, tendo uma leve predominância de estudantes que se encontravam no meio da trajetória universitária.

No que diz respeito aos/às estudantes que tiveram acesso à universidade por meio de cotas, encontramos dados significativos. A UTFPR campus Curitiba foi a que apresentou os maiores índices de participantes cotistas dentre os/as respondentes, de modo especial nas engenharias (Mecânica: homens 71,4% e mulheres 87,4%; Civil: homens 57,1% e mulheres 37,5%). Este fato pode ser justificado quando lembramos que, nesta instituição, são oferecidos cursos técnicos integrados que se enquadram na política de cotas da universidade.6 O índice de aprovação de estudantes dos cursos técnicos da UTFPR nos cursos superiores da instituição é significativo, fato que contribui para o aumento do número de cotistas dentre os/as discentes.

Quando analisamos o total de respondentes, os números apontaram que 44,3% dos/as discentes da UTFPR campus Curitiba, 39,5% da UTFPR campus Pato Branco e 33,3% da UFBA tiveram acesso à universidade por meio da política de cotas, havendo predominância de homens dentre os cotistas de Curitiba (H-48,1% e M-44,1%) e predominância feminina dentre os cotistas de Pato Branco (H-25% e M-48,1%). Em Salvador, encontramos um equilíbrio total (33,3% para ambos os sexos).

No que se refere à faixa etária dos/as participantes, a maioria dos/as estudantes das engenharias pertencia à faixa etária de 19 a 25 anos com raras exceções de estudantes com idade acima deste limite. Na engenharia mecânica, a idade-limite superior das mulheres foi inferior à dos homens, indicando que este curso se apresenta como opção para as mulheres mais jovens. Nas licenciaturas, o limite superior de idade dos/as participantes foi mais alto, sendo que a maioria pertencia à faixa etária de 20 a 31 anos. A idade-limite das mulheres foi superior a dos homens, fato que pode indicar que elas estão retornando ao meio acadêmico depois de um período de distanciamento. A diferença de faixa etária entre as instituições se mostrou irrelevante, pois em pouco divergiu.

Podemos perceber que a participação na pesquisa foi heterogênea. As mulheres, embora sejam a minoria dentre os/as matriculados/as nos cursos pesquisados nas duas universidades, foram a maioria dentre os/as respondentes. A questão racial também se fez evidente. Percebe-se que nos cursos mais valorizados social e financeiramente há a predominância de estudantes brancos/as. Na UTFPR, praticamente não existem negros/as, pelo menos, dentre os/as respondentes desta pesquisa.7 Por outro lado, na UFBA, encontramos uma maior incidência de estudantes negros/as, porém, nesta universidade, percebe-se uma evidente diferença entre os números encontrados nas engenharias e nas licenciaturas.

A condição financeira da família também se fez evidente nos depoimentos dos/as estudantes das duas Universidades. Nas licenciaturas, encontramos estudantes de famílias com renda menor do que encontramos nas engenharias. Este fato mostra que, mesmo sendo universidades públicas, a questão financeira se faz perceber. Resta, aqui, uma série de questionamentos, como: Por que ocorre o branqueamento do curso à medida que ele é mais valorizado? Quais os motivos que levam filhos/as de famílias com menor renda a procurar cursos menos valorizados? E as mulheres, por que tão poucas nas engenharias?

A seguir, apresentaremos a análise dos dados obtidos com base nas respostas da primeira pergunta apresentada no formulário/questionário encaminhado aos/às estudantes, a saber: Quais os motivos/razões que levaram você a escolher este curso?

Motivações para a escolha do curso superior

As motivações dos/as estudantes para a escolha do curso universitário foram buscadas com a primeira pergunta aberta do formulário/questionário. Nela e nas outras 4 questões, não falávamos nada acerca de gênero, embora já havíamos feito a apresentação da pesquisa e das pesquisadoras no início do formulário/questionário. Então, iniciamos perguntando: "Quais os motivos/razões que levaram você a escolher este curso?". De acordo com as repostas, formulamos outras perguntas. Na maioria dos casos, perguntamos se alguém havia influenciado ou interferido na escolha, e, ainda, o que familiares e amigos disseram quando da comunicação da opção. Alguns/as estudantes deram respostas curtas, quase monossilábicas, entretanto, outros/as nos contaram detalhadamente como se deu este processo de tomada de decisão acerca de seu futuro acadêmico e profissional.

A maioria dos/as estudantes afirmou que a escolha dos cursos que seguiriam se deu por livre vontade. Destacaram, como no caso de Agatha, a importância desta escolha ser pessoal. Percebe-se que ela inicia a resposta apontando que o pai foi o grande incentivador para que ela cursasse uma engenharia. Mesmo assim, destaca que a decisão final foi dela. Na maioria dos casos, somente quando questionados/as se alguém os/as havia influenciado, é que aparecem as figuras, predominantemente masculinas.

R: A principal influência que tive em minha família foi a do meu pai, pois este era um dos desejos dele, conversamos diversas vezes até o momento em que aceitei iniciar um curso da área de engenharia. P: Você foi convencida por ele? R: Acredito no poder de decisão através de nossas escolhas, mas sim, meu pai exerceu forte influência nessa escolha, pois quando aceitei cursar engenharia mecânica, eu estava cursando Historia há 1 ano e meio (quando manifestei meu interesse por história ele me disse "Eu não quero que você vá", mas eu insisti e fui) claro meu pai me ajudava, mas sempre falava sobre outras opções na área de exatas até quando aceitei cursar engenharia mecânica (e sim, ele ficou muito feliz quanto aceitei a ideia de trocar de área) (Agatha,8 Mec, PB9).

Poucos estudantes apontaram a influência familiar como decisiva em suas tomadas de decisão. Nas raras vezes em que apareceu a presença de um familiar como fator que contribuiu para a escolha do curso superior, esta pessoa era do sexo masculino (pai, irmão, tio, primo). As mães foram invisibilizadas na fala dos/as estudantes. Cabe, aqui, um questionamento acerca deste silenciamento ou invisibilização das mulheres da família. Por que os/as estudantes não ressaltaram a importância das mulheres da família em suas escolhas? Elas não tiveram importância ou sua influência não foi percebida? No caso de Bruno, ele destaca os tios e primos e, posteriormente, a família. Suspeita-se que a mãe e possíveis irmãs estariam incluídas neste termo "família", porém não há uma citação direta da mãe, irmãs, primas e tias - não há a nominação das mulheres. Usar um termo genérico é funcional, porém invisibiliza a influência feminina na escolha.

Agatha evidencia a importância que o pai teve em sua escolha. Ao afirmar que engenharia era um sonho dele, fica claro que, mesmo demonstrando que fez valer sua decisão, atendeu ao desejo e à insistência do pai. Cabe destacar o fato de o pai incentivar a filha a cursar um curso na área de engenharia. Velho e Elena León (1998) apontam a falta de estímulo da família como um dos fatores que afasta as meninas/mulheres das áreas científicas. Neste caso, o estímulo do pai é que levou Agatha a cursar engenharia. Aparentemente, esta decisão não causou sofrimento a ela.

P: Quais os motivos/razões que levaram você a escolher este curso? R: Mercado de trabalho, aptidão pessoal. P: Teve alguém que te incentivou ou influenciou a escolher este curso? R: Não, na verdade tentaram me influenciar a não fazer. P: Por que te desestimularam? Quem o fez? R: Por ser considerado o estereótipo de curso "masculino", meu pai me desestimulou, e em geral minha família, por não ter ninguém nessa área que pudesse me ajudar, ou aconselhar. Mas quando decidi prestar vestibular para esse curso, tive apoio de todos (Maira, Civ, Sal).

Maira nos traz uma contribuição que demonstra o pouco incentivo dos familiares em sua opção por engenharia. No caso dela, não houve apenas a falta de estímulo, como também o desestímulo. Uma leitura possível do comportamento dos familiares com relação à intenção manifesta por Maira é que eles e elas consideravam o ambiente das engenharias como excessivamente hostil para com as mulheres e, no intuito de "protegê-la", preferiam que ela não se aventurasse por esta seara. Pode-se perceber que consideravam que ela precisaria de ajuda para obter sucesso nessa área e não havia ninguém na família que pudesse fazê-lo. Outro fato que transparece na fala de Maira é que ela é a primeira pessoa da família que escolhe engenharia como profissão. Ela relata que a preocupação familiar desapareceu quando ela resolveu que iria fazer engenharia e se inscreveu no vestibular para esta área. Se não fosse a persistência e determinação de Maira, ela teria seguido os conselhos familiares e teríamos menos uma engenheira. Se, no caso de Agatha, o pai foi decisivo para sua adesão à engenharia, para Maira, a oposição do pai e da família se transformou em obstáculo a ser vencido. Neste e em outros depoimentos fica evidente a presença do fenômeno que Betina Stefanello Lima (2013) denominou de "Labirinto de Cristal", obstáculos quase invisíveis que se apresentam ao longo da vida acadêmica e profissional das mulheres.

P: Quais os motivos/razões que levaram você a escolher este curso? R: Facilidade com exatas, paixão pelas máquinas e influência familiar P: Quem da família te influenciou? R: Tio, e alguns primos (todos engenheiros) a família também apoiava a escolha pela engenharia (Bruno, Mec, PB).

R: Facilidade com área de exatas e expectativa de um futuro bom. P: Teve alguém que te influenciou ou estimulou a ingressar neste curso? R: Meus pais sempre me apoiaram e tive liberdade de escolher o curso que quisesse, mas ninguém me influenciou. Escolhi engenharia por gostar mesmo das matérias relacionadas e porque o curso tem grandes chances de me oferecer um futuro melhor (Fernanda, Civ, Sal).

A escolha do meu curso foi pela fascinação pela Área (Gabriel, Civ, Sal).

A habilidade em exatas e a paixão pelas máquinas também se mostrou um fator relevante para as escolhas pelas engenharias. Bruno evidencia este elemento como importante em sua escolha por engenharia mecânica. Meninas/mulheres também ressaltaram que o desempenho escolar em Matemática e Física foi determinante para a escolha da engenharia, porém a paixão pelas máquinas só surgiu nos depoimentos masculinos. Como a habilidade em exatas foi manifesta tanto por homens quanto por mulheres, o argumento de que as mulheres não teriam esta aptidão se desvanece. Estes depoimentos corroboram o argumento de Gonzáles-García e Pérez-Sedeño (2006) de que a habilidade para as exatas é importante para que os/as jovens optem pelas engenharias.

Gabriel sintetiza como elemento decisivo para sua escolha por engenharia Civil a fascinação pela área. Já Fernanda acrescenta a possibilidade de ter uma boa colocação no mercado de trabalho na frase "possibilidade de um futuro bom" ao gosto pelas exatas. O fato de as habilidades para exatas serem apontadas como um fator importante para a opção pelas engenharias é compreensível quando consideramos que o conteúdo matemático e físico é fundamental para estes cursos. Dificilmente alguém com dificuldades nestes conteúdos conseguiria concluir um curso de engenharia.

A ampla gama de possibilidade de atuação também se mostrou como fator que levou os/as estudantes a buscar engenharias. Isto se evidencia na fala de Danilo. Ele argumenta que fez o curso técnico no IFBA, o que interferiu em sua escolha devido ao conhecimento prévio que tinha sobre o curso. Outro elemento presente na fala de Danilo que vale a pena destacar é a sutileza percebida por ele nos comentários que, muitas vezes, acabam interferindo, mesmo sem ser notados, nas escolhas dos/as jovens.

R: Fiz o curso técnico em informática pelo CEFET-BA (atual IFBA), e isto me influenciou a continuar na área de tecnologia. Por isso escolhi Engenharia Civil, por enxergar nesta Engenharia um grande leque de possibilidades. P: Teve alguém que te influenciou ou estimulou a escolher este curso? R: É difícil responder com segurança, porque às vezes comentários sutis exercem grande influência sem que percebamos. Mas se o foco for "alguém", na figura de uma pessoa em particular, não houve (Danilo, Civ, Sal).

Por outro lado, um fator que surgiu como importante para a opção pelas licenciaturas foi a vontade de ensinar e de ajudar ao próximo. Também podemos perceber a presença e influência de mulheres nas escolhas dos/as estudantes. Participantes das licenciaturas apontam professoras e amigas como pessoas importantes em suas escolhas. Jéssica ressalta, em sua fala, alguma dificuldade em acompanhar o curso de Matemática, destaca a dificuldade do curso, mas manifesta a satisfação que encontrou naquele ambiente. O fato de estar superando as dificuldades e a caminho de realizar seu sonho contribui para a melhora da autoestima, que fica evidente na frase: "sentirei muito orgulho de mim mesma".

R: Bem, a princípio no ensino médio eu me dava muito bem com a disciplina de Matemática, aí uma colega minha falou de fazer na época o vestibular pra Matemática. Eu gostei da ideia e eu fiz o vestibular e ela não, e acabei passando. P: Você está satisfeita com a escolha de curso? R: Sim. Porque eu sempre quis ser Professora, e ser Professora de Matemática me deixa muito satisfeita, depois de tudo o que já passei, de tantos anos, eu não escolheria outro curso. Apesar do curso ser puxado, de eu ter alguns problemas para conseguir acompanhar, eu sei que no final tudo vai dar certo e eu sentirei muito orgulho de mim mesma (Jéssica, Mat, PB).

Amarilis aponta para a questão do preconceito como um fator a mais a ser superado pelas mulheres que adentram o mundo matemático. Ela destaca que optou pela licenciatura em Matemática por acreditar que é possível mudar o "País" por meio da educação. Por considerar a Matemática como uma disciplina que muitos têm dificuldade de entender, decidiu seguir por este caminho. Uma leitura possível para esta afirmação de Amarilis é que ela se sentiu desafiada a fazer a diferença enquanto professora de Matemática. Mostra um lado ideológico na sua fala. Embora ela afirme que os pais sempre a incentivaram a fazer o que quisesse, pode-se perceber que eles não estavam totalmente convictos de que esta seria a melhor escolha. Isso se evidencia na frase "só me disseram para ter certeza de se era isso mesmo que eu queria".

P: Quais os motivos/razões que levaram você a escolher este curso? R: Acreditar que a única ou a melhor forma de melhorar esse país é através da Educação Escolar, e a Matemática por ser a disciplina que os jovens menos gostam ou mais têm dificuldade. P: Teve alguém que influenciou na sua escolha (Familiares, professores/as, amigos/as)? P: Bem pouca influência, em todas minhas escolhas meus pais me apoiaram, só me disseram para ter certeza de se era isso mesmo que eu queria. Mais ainda, ficaram cheios de orgulho, deram uma festa para comemorar a minha entrada na Universidade. Os vizinhos, parentes, ex-professores e amigos ficaram meio chocados com a escolha do meu curso, acho principalmente pelo fato "deu" ser mulher e estar cursando matemática - o que acreditam ser desafio, pelo curso ser difícil e mulher normalmente não se interessar muito por essas coisas. P: Você acredita que isso ocorre com meninos e meninas igualmente? R: Isso é relativo, acho que vai de família para família, existe muito preconceito sim com mulheres, mas acho que esse tabu tá sendo quebrado. P: Como você faz para se manter neste universo preconceituoso e continuar firme em seu curso? R: Só não dar importância, e seguir em frente. Caso tal preconceito persistir, conversar e tentar solucionar (Amarilis, Mat, Sal).

O episódio dos familiares terem dado uma festa para comemorar o acesso de Amarilis à Universidade pode ter sido motivado pelo fato de ela pertencer a uma família com poucos recursos financeiros10 e ter uma filha estudando em uma universidade pública se transformou em motivo de orgulho para estes pais.

Destaca-se, ainda, o estranhamento que amigos/as, ex-professores/as e vizinhos/as manifestaram pela escolha do curso universitário. Ela evidencia que acredita que isso se deva ao fato de o curso ser difícil e despertar pouco interesse em mulheres. Centrando as atenções no termo "curso difícil", podemos inferir que as pessoas consideram que uma mulher não tenha capacidade para adentrar e se manter nesse ambiente masculino e, aparentemente, hostil para elas. Amarilis se mostra consciente do preconceito que existe com relação à capacidade feminina para a área das exatas e se mostrou decidida a enfrentar este preconceito com diálogo.

No depoimento de Alex, evidencia-se que os familiares se mostraram pouco confortáveis com a escolha do curso. O fato de estar estudando em uma instituição que tem tradição na área das exatas, escolher o curso de Licenciatura em Letras causou o estranhamento. Entretanto, após a decisão de Alex, a família acolheu a opção feita por ele e passou a demonstrar orgulho pelo futuro profissional.

P: Quais os motivos/razões que levaram você a escolher este curso? R: Sempre gostei de literatura portuguesa e da língua inglesa, também pretendo ser professor. P: Teve alguém que te influenciou ou estimulou a fazer este curso? R: Apenas os meus professores, aliás, meus pais queriam que eu fizesse um curso voltado às exatas, já que a UTFPR traz muitas opções de engenharias... P: São cursos bastante diferentes do que você escolheu. Como foi a reação deles quando você comunicou a decisão? R: Agora eles me apoiam, quando os amigos do meu pai vão lá em casa ele sempre comenta que eu curso letras e serei professor, sinto que ele tem orgulho... (Alex, Let, PB).

Já Elias também enfrentou o estranhamento quando decidiu voltar à universidade e cursar Matemática, porém este estranhamento se deu por outros motivos. Se, para Amarilis, o fato de o curso ser "difícil para uma mulher" apareceu como motivo para o espanto, no caso de Elias, isso se deu pelo fato de ele já ter uma carreira estável e bem remunerada. A questão difícil de entender foi o que ele iria fazer em um curso que não lhe traria maior ganho financeiro, uma vez que o magistério é reconhecidamente uma carreira com baixos salários. Em ambos os casos, o amor pelo curso prevaleceu.

Não. Pelo contrário, ninguém entendeu por que eu decidi fazer o curso, uma vez que já sou formado em ciências contábeis, tenho um emprego estável (sou servidor público) e uma boa remuneração, considerando a renda média do trabalhador brasileiro. Nem a minha esposa me entendeu, num primeiro momento. Só depois ela me apoiou. Sem o apoio dela, certamente eu não estaria fazendo o curso. Afinal, por mais que eu goste da matemática, não estaria disposto a arruinar meu casamento por causa dela (Elias, Mat, Sal).

Nestes três últimos casos apresentados, percebemos a importância do apoio familiar para que eles e ela conseguissem se manter no caminho que escolheram. Elias afirma, ainda, que sem o apoio da esposa, não teria continuado. Ele destaca um fato importante quando temos um estudante mais velho11 que retorna à universidade. Pela fala dele, percebe-se que seu casamento poderia estar em risco caso sua esposa não concordasse e o apoiasse e que ele privilegiaria o relacionamento familiar em detrimento ao curso universitário.

Daiana nos traz outro elemento que contribuiu para a escolha do curso universitário. O fato de a Universidade ser pública e o curso ser noturno, possibilitando, assim, aos/às estudantes, conciliarem o trabalho com os estudos, embora esta seja uma tarefa árdua. Ela destaca, ainda, a interferência de professores do cursinho. Este é um caso que gera alguma estranheza, pois os cursinhos costumam ter salas lotadas e pouca interação com os/as estudantes. Não ficou evidente se a influência se deu de forma direta, no contato pessoal, ou pelo exemplo.

R: Gosto pela matemática e o fato de ser pública e à noite. P: Teve alguém que te influenciou ou estimulou a escolher este curso? R: Sim, dois professores do cursinho (Daiana, Mat, PB).

Uma contribuição relevante de Josué se deu por ele trazer à tona a importância dos exemplos, dos modelos. Velho e León (1998) argumentam que um dos motivos para a pouca presença feminina nas áreas das exatas é a falta de exemplos, modelos. Josué aponta o fato de ter uma pessoa conhecida bem-sucedida na área como desafiador e estimulante. Pode-se entender que ele está num processo de competição com o amigo quando ele diz "estimula a fazer melhor".

P: Teve alguém que te estimulou a ingressar neste curso? R: Sim, tenho um amigo formado em matemática pela UFBA que admiro muito. P: Você considera relevante ter exemplos bem-sucedidos para nos inspirar na carreira? R: Sim, ajuda muito e nos estimula a fazer melhor (Josué, Mat, Sal).

Nos excertos de entrevistas apresentados a seguir percebemos a evidência da participação de mulheres na escolha do curso de licenciatura em Letras. Lembramos que elas não figuravam dentre as pessoas que influenciaram os/as estudantes de engenharia em suas escolhas, tampouco na licenciatura em Matemática percebemos a presença delas nesse grupo.

Minhas professoras de Português e Inglês me incentivaram a fazer Letras (Amanda, Let, Ctba). P: Quais os motivos/razões que levaram você a escolher este curso? R: Indicação de amigos e familiares, por eu gostar muito da Língua Inglesa. P: Os amigos e familiares que indicaram esta opção eram homens ou mulheres? A questão da remuneração da profissão teve alguma influência? R: Maioria mulheres, acho que 99%. A remuneração não teve influência alguma, pois eu já estava cansado de trabalhar apenas pelo dinheiro, nunca foi algo que me satisfez. Claro que eu considerei e ainda considero o mercado de trabalho e sua remuneração, e claro que preciso de dinheiro, mas não deixo isto ser um fator que influencie uma decisão assim. Prefiro ganhar pouco e ser feliz com a minha carreira do que o inverso (Bernardo, Let, Ctba).

A questão da baixa remuneração esperada na carreira do magistério apareceu como fator relevante, porém não como impeditivo para a escolha destes/as estudantes. Por outro lado, a expectativa por boa remuneração após a conclusão do curso foi considerada como fundamental para alguns/mas estudantes de engenharia, como se evidencia na fala de Eas (Civ, Sal), quando ele afirma que "a possibilidade de ascensão social" foi um dos fatores que o levou a escolher engenharia Civil. A questão financeira também apareceu como um dos elementos que levou Aline, Maria e Linda a fazerem a mesma escolha de Eas. Alguns/mas estudantes de licenciatura apontaram o fato de a carreira ter uma baixa remuneração como algo que causava estranhamento nos/as outros/as quando da comunicação de suas escolhas, mas não como impeditivo para que seguissem nestas carreiras. O gosto pela área se mostrou como o fator mais relevante e frequente nas declarações dos/as estudantes deste curso. A amplitude do mercado de trabalho também se mostrou importante para os/as estudantes de Letras.

P: Quais os motivos/razões que levaram você a escolher este curso? R: Interesse pela área e remuneração financeira (Aline, Civ, Ctba).

R: Interesse pela área, boa colocação no mercado, oportunidades de vagas disponíveis em boas empresas, boa remuneração (Maria, Mec, Ctba).

R: A engenharia mecânica 'é uma das mais abrangentes, o que possibilita trabalhar em diversas áreas e em equipes multidisciplinares. Além disso, a engenharia pode me oferecer uma boa estabilidade financeira e possibilitar o meu sonho de ajudar as pessoas que mais precisam (Linda, Mec, Sal).

Na fala de Julia pode-se perceber que a baixa remuneração prevista para uma professora de Matemática a preocupa, entretanto, ela já traçou a meta de fazer doutorado e, assim, conseguir acessar aos postos de trabalho mais bem remunerados na carreira do magistério. Ou seja, ela prevê a necessidade de continuidade dos estudos universitários e pretende, aparentemente, ingressar no meio acadêmico como professora universitária. A falta de valorização financeira e social dos/as professores/as foi o motivo que levou seus familiares a desestimulá-la a seguir neste caminho, porém, mesmo sem este apoio inicial, ela decidiu seguir adiante e a pensar em estratégias para ter acesso a uma melhor remuneração futura.

R: A princípio não gostaram, pois alegaram ser uma profissão ruim por conta do salário. P: O baixo salário e a falta de valorização da profissão não te preocupam? R: Preocupam sim, por isso penso em fazer logo após a graduação o mestrado e o doutorado, para assim obter um salário legal (Julia, Mat, Sal).

Jéssica destaca, em seu depoimento, a importância de palavras de estímulo vindas dos/as profissionais da educação que cruzam o caminho dos/as mesmos/as em suas trajetórias como estudantes. Evidencia que os/as professores/as podem marcar positivamente a vida de seus/suas discentes, porém, não se pode esquecer que os/as docentes podem, também, provocar marcas negativas em seus/suas alunos/as.

P: Teve alguém que te estimulou ou incentivou na escolha do curso? R: Em minhas decisões sempre tive o apoio de meu companheiro e de minha irmã. Ao escolher Letras, lembrei de todos os professores que passaram por minha vida e em como os de Português/Inglês eram os que mais me motivavam e viam capacidade em mim (Jessica, Let, Sal).

P: Quais os motivos/razões que levaram você a escolher este curso? R: Identidade com o curso, além da Matemática ser uma ferramenta poderosa no entendimento das ciências naturais. P: Teve alguém que contribuiu para a sua escolha? R: Para minha decisão de ser um futuro professor de Matemática diria que meu irmão colaborou um pouco, pois ele é professor dessa área. Mas minhas inspirações foram meus professores da área de humanidades, em especial História. É bom ressaltar que meu objetivo original foi fazer uma graduação em Física (Ribamar, Mat, Sal).

No depoimento de Ribamar encontramos a indicação de como a conjugação do professor com o irmão, bem como o papel que professores/as, mesmo de outras áreas, podem exercer neste momento das vidas dos/as jovens. Aqui, podemos perceber que o exemplo familiar pode ser decisivo nas decisões dos/as jovens que se encontram em um momento crucial de suas vidas. Embora saibamos que as decisões tomadas neste momento não precisam ser definitivas, pairam sobre os/as futuros/as universitários/as uma ansiedade e o desejo de não "errar" na escolha.

Outro fator que surge como importante nas escolhas de homens e mulheres é o processo de socialização que levou alguns/mas jovens a desenvolver a preocupação em contribuir para o desenvolvimento do país, bem como fez com que a criatividade e a curiosidade fossem desenvolvidas nos/as mesmos/as. Estes fatores se apresentaram no depoimento de Luís, Helena e Lisandra.

P: Quais os motivos/razões que levaram você a escolher este curso? R: Minha escolha foi motivada pela grande admiração pela construção civil, além da possibilidade de poder impactar a sociedade positivamente, alavancando o desenvolvimento do país e ajudando quem precisa. P: Teve alguém que te influenciou ou estimulou a seguir esta carreira? R: O que me despertou a admiração pela construção civil foi o LEGO, além do fato de eu sempre me fascinar com grandes obras e gostar de descobrir como as coisas eram feitas. Mas, em minha família alguns primos do meu pai eram envolvidos com a construção civil, no entanto não tive muito contato com eles (Luís, Civ, Ctba).

P: Quais os motivos/razões que levaram você a escolher este curso? R: Os principais motivos que me levaram a escolher o curso foram a afinidade com a área de exatas, principalmente matemática e física, além de que sou muito curiosa sobre como as coisas são feitas, o que me leva a ter muito interesse na construção de prédios, pontes, estradas, etc. P: O que despertou em você esta curiosidade? P: Não sei bem de onde vem isso, mas desde que eu era criança eu gostava de saber o motivo pelos quais as coisas aconteciam, isso não só associado às coisas materiais, mas também como as pessoas pensam, porque certa pessoa agiu de certa forma em dada ocasião, o porquê de uma doença e como ela se manifesta e coisas desse gênero. Acabei canalizando isso pra Engenharia Civil, um curso que vai me mostrar como as coisas são construídas. Mas também gosto muito da área de humanas, principalmente sociologia e filosofia. Ainda pretendo fazer algum curso na área. P: Quais eram seus brinquedos quando criança? R: Tenho um irmão mais velho que eu, sempre brinquei com ele de polícia-ladrão, futebol, entre outras coisas. Mas tinha várias bonecas também e gostava muito de montar quebra-cabeças. P: Teve alguém que te influenciou nesta escolha? R: Talvez pelo meu pai trabalhar com terraplanagem e eu já ter algum contato com construções, isso tenha ajudado a ter mais certeza da minha decisão, mas eu não sinto que tenha havido alguma influência direta para a escolha do meu curso (Helena, Civ, Ctba).

Luís, Helena e Lisandra trazem a curiosidade como fator importante na opção pelas engenharias. Os três destacam que, em suas infâncias, receberam e gostavam de brinquedos (Lego e quebra-cabeça) que estimulam o raciocínio e a concentração. A fala destes três estudantes indica a importância de se fornecer a meninos e meninas brinquedos que estimulem e permitam a curiosidade e a experimentação. Na fala de Helena, percebe-se que ela teve, em sua infância, uma socialização não baseada nos estereótipos de gênero. A ela foi dado o direito de vivenciar brincadeiras que estimulassem a curiosidade, a criatividade, a iniciativa e o raciocínio bem como lhe foram oferecidas bonecas que cultivavam o cuidado, a amorosidade e a paciência. No depoimento de Helena, pode-se perceber que não há a necessidade de se escolher quais brincadeiras meninos e meninas devem desenvolver. Todos/as podem participar de todas as brincadeiras e, assim, se constituir como sujeitos criativos/as e curiosos/as e, ao mesmo tempo, cuidadosos/as e amorosos/as. Este depoimento corrobora o argumento de Velho (2006), no qual ela aponta a socialização diferenciada oferecida a meninas e meninos como importante para o desenvolvimento da curiosidade e do gosto pelas ciências.

Luís traz em seu depoimento a preocupação com a possibilidade de melhorar a vida das pessoas. É uma visão humanizada da engenharia que também aparece na fala de Helena, quando ela diz gostar das carreiras na área de humanas. Estes dois estudantes são exemplos de que estar inserido/a numa área de exatas não significa, necessariamente, se afastar das preocupações e ações voltadas para o social.

No depoimento de Lisandra encontramos muitos fatores que nos dão um panorama de como uma menina/moça/mulher pode, espontânea e naturalmente, escolher uma carreira como a engenharia Mecânica.

P: Quais os motivos/razões que levaram você a escolher este curso? R: Escolhi cursar engenharia mecânica porque, além de gostar da área de exatas, eu sempre tive ânsia e curiosidade para entender como tudo funciona; e sempre gostei de criar/consertar coisas para mim e para as pessoas à minha volta. P: Este é um comportamento esperado nos homens. Por que você acha que desenvolveu este interesse? R: A maior parte da minha educação, eu fui uma criança livre pra pensar. Meus pais poderiam me dizer o que era certo ou errado mas não lembro deles terem comentado com frequência ou terem comentado de fato algo como "isso é de menina, isso é de menino", eu ouvia isso mais em outros ambientes como no colégio ou na casa de um tio. Meu pai era pedreiro e sempre teve muitas ferramentas e equipamentos, eu sempre ficava muito atenta quando tinha a oportunidade de vê-lo construindo ou consertando algo. Minha mãe - dona de casa - ajudava meu pai, ela pintava, rejuntava, tentava consertar as coisas sempre que meu pai não podia, enfim, ela gostava do que fazia e não me recordo dela ter dito alguma vez que o que ela fazia era coisa pra homem fazer. Além disso, nunca levei bronca por brincar com as ferramentas do meu pai (exceto se eu as danificasse), brincava de ser personagens como Tarzan, Power Ranger rosa, Sam (das três espiãs), brincava de boneca, fazia roupa de bonecas, brincava de patins, lia livros infantis, escrevia histórias, brincava de videogame - inclusive ia pra lanhouses e casa de jogos e não levava bronca da minha mãe e nem era proibida de ir em tais lugares só por causa da predominância masculina -, brincava de bicicleta e meus outros brinquedos eu mesmo comprava, como cubo-mágico, bonecas, jogos de raciocínio, é claro que como meus pais não tinham uma condição financeira tão boa, eu não ganhava tantos brinquedos e então eu sempre tive que inventar meus próprios brinquedos. Enfim, não tinha tanto controle comigo e com meus outros irmãos (três mulheres e um homem) do que era pra menino e o que era pra menina. É claro que eu sabia que a sociedade agia numa linha de dividir o que era de homem e o que era de mulher, isso era muito visível em vários ambientes e inclusive na TV; mas pelo fato da minha educação não ter sido tão sexista, de como funcionavam as coisas em casa e de ser livre para fazer algumas escolhas, eu não tive o porquê me restringir de desenvolver esse interesse em querer saber como tudo funcionava ou de cursar um curso da área de exatas, interesses considerados masculinos. P: Teve alguém que te influenciou ou estimulou a fazer este curso? R: Ninguém me influenciou diretamente a fazer engenharia mecânica. Quando eu falei para os meus pais da minha decisão, meus pais não contestaram minha escolha, ficaram felizes por eu querer cursar engenharia mecânica. E isso foi o suficiente para que eu continuasse em meu objetivo e enfrentasse qualquer obstáculo. É claro que teve poucas pessoas (totalidade masculina) que queriam me desestimular dizendo "Engenharia mecânica não é pra você, é pra homem" ou "Você vai fazer o quê em engenharia? Vai para um curso de humanas, mulheres têm mais habilidade nessa parte". Minha resposta para esses rapazes era de indiferença, estava no meu caminho e ninguém me tiraria de lá com frases prontas carregadas de preconceitos (Lisandra, Mec, Sal).

Lisandra faz um resumo dos diversos fatores que foram apontados pelos/as demais pesquisados/as. Ela ressalta a importância de uma socialização que permita a qualquer um, menino ou menina, ser o que desejar. O exemplo doméstico produziu o efeito positivo de torná-la uma pessoa curiosa e criativa. Destaca-se que ela é uma estudante parda e filha de pais que apresentam renda incerta e, aparentemente, escolaridade baixa. A realidade familiar deu a ela forças para que fosse capaz de enfrentar o estranhamento das outras pessoas, maioria homens, sobre sua escolha profissional.

Na fala de Lisandra observa-se que ela é uma pessoa politizada. Ela percebe os estereótipos de gênero que estão presentes no dia a dia. Mostra-se municiada para enfrentá-los e se manter num ambiente no qual os homens são maioria. A inserção neste universo se deu desde criança, quando frequentava espaços com brincadeiras tidas como masculinas. Provavelmente, isso contribuiu para que ela não estranhasse o fato de, no ambiente universitário, encontrar um espaço extremamente masculino e, muitas vezes, hostil às mulheres.

Considerações finais

Com base nos depoimentos aqui apresentados, percebemos que os motivos para as escolhas dos cursos superiores são diversos. O principal é a vontade/decisão própria. A aptidão para as exatas levou muitos/as a optarem por engenharias e licenciatura em Matemática e o gosto em ensinar fez com que outros pendessem para o magistério. Professores/as tiveram papel relevante na decisão de alguns/mas dos/as entrevistados/as. A família também foi importante no processo de escolha. Destaca-se o fato de as mães serem invisibilizadas na fala dos/as estudantes, especialmente das engenharias. Ao relatarem a influência de familiares em suas escolhas, eles são, na maioria das vezes, do sexo masculino. Percebe-se que há um incentivo para que os/as jovens do sexo masculino escolham as engenharias e um estranhamento quando esta opção é por cursos de licenciatura. Outro fator que se mostrou importante foi a esperada remuneração dos/as profissionais formados/as nos cursos pesquisados. A boa remuneração é estimulante para os/as estudantes de engenharias e a má remuneração desestimulante, porém não impeditiva para estudantes das licenciaturas.

Notou-se que os fatores aqui apresentados estiveram presentes nas falas de homens e mulheres. Porém, o estranhamento pelo fato de uma menina/mulher escolher um curso de engenharia se fez notável. Meninas/moças/mulheres estudantes que optaram por engenharia, de modo especial, engenharia Mecânica, afirmaram que muitas pessoas tentaram fazê-las mudar de ideia por acharem que o curso era muito difícil e não apropriado para mulheres. Nestas falas fica implícito, ou, talvez, explícito, o fato de considerarem que elas, por serem mulheres, não dariam conta do curso.

Ao fazer a comparação entre as duas universidades, percebemos que há mais semelhanças do que contrastes no que tange aos motivos alegados pelos/as estudantes para optarem pelas engenharias ou licenciaturas e estes motivos, segundo as falas dos sujeitos da pesquisa, não se diferenciam exclusivamente segundo o gênero; classe social, nível de aspiração profissional e o interesse pessoal pelo curso parecem ser igualmente preponderantes para homens e mulheres no que se refere à escolha do curso, pelo menos na população estudada.

A questão de gênero, mais uma vez, se manifesta quando meninas escolhem os cursos de engenharia, corroborando inúmeros outros estudos que reiteradamente trazem a ideia do preconceito quanto às habilidades cognitivas exigidas para a área das Ciências Exatas e a pretensa dificuldade das mulheres nessas mesmas habilidades. Os dados obtidos neste estudo, porém, não explicam de forma clara a diferença da presença feminina e masculina nos cursos analisados, porém nos oferecem bons indícios que nos permitem fazer algumas deduções. Por exemplo: a socialização diferenciada de meninos e meninas transpareceu em alguns depoimentos, o que nos leva a deduzir que quando as crianças/adolescentes têm liberdade para escolher as brincadeiras e atividades que desejam desenvolver durante seu processo de socialização, é possível que eles/elas façam escolhas que fujam do esperado para cada gênero; as habilidades para as exatas estão presentes em meninas e meninos e interferem em suas escolhas por cursos superiores, de modo especial, pelas engenharias. O estímulo da família é fator importante nas escolhas delas e deles; dentre outras.

As semelhanças se repetem quando comparamos os campi localizados nas capitais (Curitiba e Salvador) com o campus localizado no interior (Pato Branco). Possíveis diferenças entre aspectos culturais das capitais e de uma cidade do interior se mostraram pouco capazes de produzir diferença nos motivos que levam os/as jovens a fazer suas escolhas universitárias.

A continuidade da análise dos dados coletados por meio desta pesquisa poderá nos levar à construção de um panorama mais amplo acerca do acesso e permanência de homens e mulheres no meio universitário. Uma análise sobre as dificuldades de permanência dos/as estudantes nos cursos aqui analisados pode ser encontrada no capítulo "Violência Simbólica de Gênero em duas Universidades Brasileiras", publicado por Casagrande e Lima e Souza (apud WANZINACK e SIGNORELLI, 2015). Lembramos que, aqui, apresentamos os dados referentes a apenas uma das questões apresentadas no questionário utilizado para a coleta dos dados da pesquisa. O volume de dados coletados poderá permitir uma análise mais aprofundada dos motivos que direcionam jovens mulheres e homens para as carreiras ligadas à Ciência e Tecnologia e para a formação docente, dois dos campos mais importantes da atividade profissional, de grande interesse para o nosso país.

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1 A UTFPR, embora tenha uma trajetória curta como universidade, tem mais de 100 anos de existência como instituição de ensino. Fundada em 1909 como Escola de Aprendizes e Artífices, mudou diversas vezes de nome e de nível de ensino. No ano de 1978, passou a se chamar Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná - CEFET-PR e passou a ofertar cursos de engenharia. Nos anos 1990, foi descentralizada com a implementação de campus no interior do Estado e, em 2005, tornou-se a primeira e, até hoje, única, universidade tecnológica do País. Com esta transformação, houve a implementação de cursos de engenharia nos diversos campus do interior do Estado, bem como a ampliação da oferta dos cursos de licenciatura.

2 As origens históricas da Universidade Federal da Bahia remontam a 1808, quando o Príncipe Regente Dom João VI criou a Escola de Cirurgia da Bahia, primeiro curso universitário do Brasil. Ainda no século XIX, surgiram os cursos de Farmácia (1832) e Odontologia (1864), a Academia de Belas Artes (1877), Direito (1891) e Politécnica (1896). Já no século XX, em 1941, foi criada a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, por Isaías Alves. Em 1946, sob o reitorado de Edgard Santos, é fundada a Universidade da Bahia a partir da integração das Faculdades isoladas. Em 1950 foi federalizada, passando a ser efetivamente a Universidade Federal da Bahia, de importância nacional, berço de grandes movimentos culturais nacionais.

3 Este método de coleta de dados apresentou pontos positivos e negativos. Como pontos positivos, destacamos a possibilidade de envolver um número maior de participantes. A entrevista presencial limita este número devido ao deslocamento dos/as participantes e do/a pesquisador/a, bem como o tempo necessário para a realização e a transcrição da mesma. Com este aumento, pode-se ter um panorama mais amplo acerca do objeto estudado. Destaca-se, ainda, que os/as participantes podiam responder de onde estavam e no momento que melhor lhes aprouvesse. Como pontos negativos, apontamos que cerca de 50% dos/as participantes abandonaram a pesquisa após a primeira rodada de perguntas, sem aprofundar a entrevista. Destacamos, ainda, a impossibilidade de se analisar a linguagem corporal dos/as participantes no momento da entrevista. Porém, mesmo com estes percalços, o instrumento se mostrou viável e apresentou dados relevantes para o alcance do objetivo proposto para a pesquisa.

4As perguntas abertas iniciais foram: 1) Quais os motivos/razões que levaram você a escolher este curso? 2) Você pensou em outra/s opção/ões de curso? Se sim, indique qual/is. 3) Você percebe algo que dificulte a permanência sua ou de seus/suas colegas no curso? Se sim, quais. 4) Você percebe algo que facilite a permanência sua ou de seus/suas colegas no curso? Se sim, quais. 5) Como você se vê daqui a dez anos?

5 Em média foram três rodadas de perguntas e respostas aos/às estudantes que se dispuseram a complementar a entrevista.

6Informações sobre o sistema de cotas da UFBA estão disponíveis no site http://www.vestibular.ufba.br/cotas.htm. Informações detalhadas sobre o sistema de cotas na UTFPR podem ser encontradas no site http://www.utfpr.edu.br/doisvizinhos/estrutura-universitaria/assessorias/ascom/noticias/acervo/2012/utfpr-ira-adotar-integralmente-lei-de-cotas-ja-no-proximo-sisu.

7 Não foi possível levantar os dados sobre a questão de cor/raça/etnia do número total de estudantes matriculados/as devido ao fato de que esta indicação não era obrigatória antes da implementação da política de cotas raciais - que se deu na UTFPR somente em 2013.

8Os nomes dos/as participantes são fictícios e foram escolhidos pelos próprios participantes.

9Legenda para as entrevistas: Mec - Engenharia Mecânica; Civ - Engenharia Civil; Mat - Licenciatura em Matemática; Let - Licenciatura em Letras; PB - UTFPR Campus Pato Branco; Ctba - UTFPR Campus Curitiba; Sal - UFBA Salvador; P - pergunta; R - resposta

10 Amarilis declarou que a renda familiar é de 1 a 5 salários mínimos.

11Elias tinha 40 anos no momento da entrevista.

Recebido: 22 de Maio de 2015; Revisado: 01 de Novembro de 2015; Aceito: 12 de Novembro de 2015

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Lindamir Salete Casagrande. Licenciada em Ciências com habilitação em Matemática. Mestra e doutora em Tecnologia pelo PPGTE/ UTFPR. Pós-doutora pelo Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos sobre Mulheres, Gênero e Feminismo - PPGNEIM/UFBA. Pesquisadora do Núcleo de Gênero e Tecnologia - GeTec; professora do Departamento Acadêmico de Matemática da UTFPR e professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia - PPGTE; coordenadora editorial dos Cadernos de Gênero e Tecnologia.

Ângela Maria Freire de Lima e Souza. Bióloga, doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia. É docente e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo-PPGNEIM/UFBA, em que integra a Linha de Pesquisa Gênero, Ciência e Educação, com ênfase em Mulheres na Ciência: aspectos estruturais e epistemológicos e gênero no ensino das Ciências e de Biologia.

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