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Revista Estudos Feministas

versão impressa ISSN 0104-026Xversão On-line ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.25 no.1 Florianópolis jan./abr. 2017

https://doi.org/10.1590/1806-9584.2017v25n1p263 

Seção temática gêneros, sexualidades e mídias contemporâneas

Gênero, sexualidades e mídias contemporâneas: do pessoal ao político

Richard Miskolci1 

Larissa Pelúcio2 

1Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, SP, Brasil

2Universidade Estadual Paulista, São Paulo, SP, Brasil


Desde que as mídias começaram a ganhar seu caráter massivo, impactaram as formas como sujeitos pensavam a si mesmos. Alargaram horizontes aspiracionais, divulgando eventos políticos e sociais, aproximando diferentes paisagens, criando comunidades imaginadas (Bendict ANDERSON, 2008), alimentando a imaginação, nos sentidos que Arjun APPADURAI (1999) confere ao termo. Isto é, povoando mentes com imagens que instigavam desejos, provocavam reflexões e alimentavam sonhos de se experimentar outras realidades para além daquelas imediatamente acessíveis.

Dos jornais às revistas ilustradas; do som dos rádios à imagem em movimento do cinema, até a fruição doméstica desses sons e imagens pela televisão, fomos experimentando formas múltiplas de recepção de conteúdos, elaborando-os na vasta teia das mediações culturais das quais nos fala Jesús MARTIN-BARBERO (1997), quando se refere às conexões possíveis entre comunicação e cultura, deslocando o eixo de análise dos meios, produção, gêneros e mensagens, expressando-se através da relação entre cultura, sociedade e mídia.

Com o advento das tecnologias comunicacionais do presente, sobretudo após a criação da chamada web 2.0,1 quando conteúdos passam a ser produzidos em profusão, de forma difusa e menos verticalizada, temos nos deparado com um campo fértil para a expressão de demandas políticas relativas às questões de gênero e sexualidade. Por meio da comunicação em rede produzem-se novas subjetividades, marcadas pela forma como temos nos deixado interpelar por essas comunicações. Temos nos valido dessas ferramentas digitais para negociar reconhecimentos, assim como para nos reconhecermos como sujeitos de direitos e de desejos.

No campo das pesquisas socioantropológicas, o contato mediado permitiu acesso a sujeitos cujos desejos, práticas sexuais e, até mesmo, demandas políticas permaneciam invisíveis ou apenas tangencialmente analisados nas pesquisas sociais. Mas também foi capaz de flagrar um momento de tensões e reconfigurações na cena pública nacional, como a onda de protestos de 2013, os “rolezinhos”, comprovando o acesso da juventude das periferias às mídias, ou na luta de movimentos identitários contemporâneos. Na intensificação dos usos desses recursos comunicacionais cunharam-se novos vocabulários. O fluxo entre on e off-line conectaram demandas por reconhecimento à agenda política nacional, de forma que podemos afirmar que o pessoal nunca foi tão político.

O slogan que marcou a segunda onda feminista vem sendo reescrito. Esse movimento pode ser conferido nos artigos e no ensaio que compõem esta Seção Temática.2 Os textos aqui reunidos apresentam reflexões oriundas de pesquisas que articulam gênero, sexualidade e mídias. As autoras e autores dialogam com os Estudos de Culturais, Queer e Feministas, apresentando-nos profícuo debate sobre cinema, televisão e internet como canais capazes de potencializar discursos culturais dispersos, capturar transformações sociais em curso, oferecer referências, ao mesmo tempo em que podem constituir espaços para expressão de anseios e desejos de segmentos subalternizados.

A Seção Temática abre com o artigo “Consumindo Carmen Miranda: deslocamentos e dissonâncias nas recepções de um ícone da cultura de massas da primeira metade do século XX”, de Fernando Balieiro. Nacionalidade, raça, gênero e sexualidade se enfeixam nas análises do autor, que mostra como a transnacionalização da figura racializada e camp de Carmen Miranda serviu tanto a projetos nacionais regulados por políticas internacionais, assim como criou um modelo estético e comportamental capaz de traduzir aspirações pessoais. As performances fílmicas da “Pequena Notável”, discute Balieiro, foram consumidas pelo público feminino (brasileiro e norte-americano) e o homossexual masculino de seu tempo, alargando aspirações de gênero, imageticamente projetadas no corpo midiatizado da atriz. Figura que também inspirou segmentos gays, no enfrentamento lúdico e ao mesmo tempo político, das regulações e constrangimentos heteronormativos de seu tempo.

As potencialidades políticas da linguagem cinematográfica continuam em tela no texto de Karla Bessa “‘A imagem da coragem que eu não tive’: uma estética da torção em filmes das décadas de 60 e 70.” A autora analisa três produções fílmicas de localidades e filiações estéticas distintas, a fim de relê-las “a partir de um prisma que destaca as facetas de um tipo de cinema que tratou das questões queer sem nomeá-las enquanto tal” (Karla BESSA, 2017, p. ). Essas películas são tomadas como espelhos culturais capazes de refletir criticamente os limites morais, sexuais e de gênero de uma época, provocando com suas (dis)torções estéticas outras óticas sobre corpos historicamente vigiados e regulados. O desejo ganha, na abordagem histórico cultural que Bessa nos oferece, sua dimensão política e contraventora. A arte que não se deixou capturar pela estética mainstream é paradoxalmente obscura e prismática.

Da grande tela do cinema passamos, no artigo seguinte, à televisão. Em “Educação do corpo: o seriado Mulher e a promoção de mensagens médico-educativas”, Heloisa Buarque de Almeida mostra como entretenimento e regulação do corpo feminino são acionados por profissionais da mídia, no intuito de promover ludicamente mensagens consideradas educativas para um público feminino disperso. O seriado Mulher, transmitido pela Rede Globo no final dos anos de 1990, tematiza, segundo a categorização de Almeida, questões relativas à prevenção de doenças sexuais e de saúde da mulher; partos complicados; sexo e prazer; limites e tabus religiosos e sociais que obstaculizam o acesso aos tratamentos médicos, entre outros assuntos. O cenário da clínica, por onde os dramas se desenrolam, é o local do triunfo da linguagem “hospitalocêntrica” e das noções de cuidado e saúde centradas em perspectivas biomédicas e heterossexistas. O merchandising social, analisa a autora, promove mais que a educação para a prevenção: reitera a percepção do corpo feminino como território para o exercício de poderes e saberes específicos, sem os quais sucumbiria à sua própria essência patologizada.

Em “Reconfigurações da Intimidade”, Iara Beleli discute a rearticulação do íntimo de mulheres paulistas entre 30 e 50 anos que buscam parceiros por meios digitais. Historicamente compreendida como entre o público e o privado, a intimidade se modifica no uso dos aplicativos, já que passa a ser performatizada para o outro - e até para si própria - assim como inserida em um imaginário de classe. Além de explorar as maneiras como as plataformas são moldadas por uma vigilância de gênero, a pesquisadora enfatiza a categoria classe como articuladora de diferenças na busca amorosa e sexual do presente. Em sua pesquisa de campo, as usuárias tendem à busca do “igual” ou “similar” compreendidos como esfera de pertencimento econômica e simbólica. A aparente abundância de parceiros nos sites e aplicativos aprofunda uma seleção regida por um olhar treinado na avaliação imagética dos perfis, nos quais suas interlocutoras buscam objetos e símbolos que provem uma afinidade pelo consumo.

Para José van DIJCK é depois do advento da Web 2.0 que a internet se torna “mais social” (p. 4), já que ganha uma interface mais amigável, permitindo aos usuários não apenas acessarem, mas também produzirem e compartilharem conteúdo. Mário Carvalho mostra que é a partir daí que a internet se torna também mais política. Em “Nossa esperança é ciborgue? Subalternidade, reconhecimento e ‘tretas’ na internet”, Carvalho envereda pelo delicado campo das disputas identitárias travadas por meios digitais. O autor discute, valendo-se de aportes do interacionismo simbólico, os limites e potencialidades de produção de solidariedade entre ativistas travestis e transexuais em páginas no Facebook. Carvalho considera a potencialidade dessas redes em espraiar discursos subalternos, dissidentes ou de minorias sociais, como também sua potencialidade para a disseminação viral de discursos de ódio. Ressentimentos e lutas por reconhecimento criam discursos que tendem a provocar conflitos marcados pela reivindicação do lugar legítimo de fala apenas àquelas pessoas que podem ser alocadas no binário do opressor-oprimido. Carvalho avalia que - nas redes - se passa uma apropriação neoliberal dos pressupostos pós-estruturalistas, gerando uma autoritária afirmação do indivíduo e do antagonismo em detrimento do reconhecimento democrático da solidariedade dentro das divergências. As considerações tecidas por Carvalho o conduzem à questão-chave de sua análise: “só podem os subalternos falar?”.

A pergunta provocativa de Carvalho encontra ressonância no ensaio de Amara Rodovalho. Em ensaio que fecha a Seção Temática, o cis é discutido em sua potencialidade política e heurística pela voz trans de Rodovalho. “O Cis pelo Trans” coloca estes termos não como polaridades, mas no campo derridariano da suplementaridade, reivindicando o poder de nomear aquelas pessoas que foram sistemática e historicamente qualificadas em taxinomias médicas, vulgarizadas pelo seu uso abusivo e acusatório, justificando silenciamentos. Reflexão que se insere na longa história das disputas internas aos movimentos hoje conhecidos como LGBT, sobretudo as que envolvem o foco ora no desejo ora no gênero como eixos definidores da luta política comum e/ou das correlações de força entre ativistas. Em certos períodos, o foco foi a despatologização do desejo homossexual e, em outros, as divergências internas e sociais sobre o gênero. A problemática trans atual reatualiza tensões históricas em um momento marcado por novas tecnologias corporais e a disputa por seu acesso com os detentores da expertise médica. Assim, o repertório da patologização versus despatologização, binarismo de gênero ou sua superação, aliança ou conflito com os grupos focados na problemática do desejo é evocado no ensaio.

Em comum, as discussões abarcadas pelos artigos que compõem a Seção Temática trazem à cena o que nossa era procura manter nos bastidores: como a mídia tende a ocultar sua própria fabricação e as relações sociais do presente tendem a ser moldadas por mediações. As autoras e autores aqui reunidas/os tornam visíveis e analisam a produção de representações que alimentam a esfera tensa e disputada de produção de subjetividades (BESSA), quer por meio de objetivos de convencimento como o merchandising social (Holanda), permitindo trânsitos e ressignificações na recepção (BALIEIRO), moldando conflitos políticos online (CARVALHO; RODOVALHO) e, até mesmo, utopias românticas na era das novas tecnologias comunicacionais em rede (BELELI).

Do cinema à televisão e às mídias digitais, passamos a uma exposição cada vez maior aos conteúdos midiáticos, dos quais hoje já participamos não apenas como receptores, mas, também, como produtores individuais e propagadores segmentados. Trata-se de uma história não de superação de uma mídia por outra, antes da rearticulação de suas formas anteriores nas novas, de maneira que refletir sobre as redes online exige retomar reflexões sobre o cinema e a televisão. Articulando reflexões sobre gênero, sexualidade e desejo nas mídias, encontramos elementos para compreender como o pessoal tem se tornado político desde antes da disseminação desse slogan na década de 1960, até o presente. Descendentes da segunda onda feminista, encaramos o desafio de politizar o privado de maneira democrática e solidária em uma era autoritária moldada por conflitos.

Referências

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Traduzido por Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 320 p. [ Links ]

APPADURAI, Arjun. “La globalización y la imaginación en la investigación”. Revista Internacional de Ciencias Sociales, n. 160, 1999. [ Links ]

BESSA, Karla. “'A imagem da coragem que eu não tive': uma estética da torção em filmes das décadas de 60 e 70”. Revista Estudos Feministas, v. 25, n.1, p. 287-309, 2017. [ Links ]

DIJCK, José van. The Culture of connectivity: a critical history of social media. Oxford University Press, 2013. [ Links ]

MARTÍN-BARBERO, J. Dos Meios às Mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: EDUFRJ, 1997. [ Links ]

PRIMO, Alex. “O aspecto relacional das interações na Web 2.0”. E-Compós, Brasília, v. 9, p. 1-21, 2007. [ Links ]

1 A Web 2.0 começa a ser elaborada em 2004. O sistema “foi popularizado pela O’Reilly Media e pela MediaLive International como denominação de uma série de conferências que tiveram início em outubro de 2004” (O’Reilly, 2005 apud Alex PRIMO, 2007, [nota de rodapé 3]). Ainda segundo Alex Primo (2007, p. 21) “A Web 2.0 é a segunda geração de serviços online e caracteriza-se por potencializar as formas de publicação, compartilhamento e organização de informações, além de ampliar os espaços para a interação entre os participantes do processo”

2 Estes textos são derivados de falas apresentadas em mesas-redondas que compuseram o III Seminário Internacional Gênero, Sexualidade e Mídia: do pessoal ao político, realizadas em novembro de 2015 no campus da Universidade Estadual Paulista (UNESP), em Bauru, SP.

ufscar7@gmail.com

larissapelucio@gmail.com

Richard Miskolci (ufscar7@gmail.com). Doutor em Sociologia pela USP (2001), fez parte de seus estudos na Universidade de Chicago e realizou estágios pós-doutorais na Universidade de Michigan e na Universidade da Califórnia. É coordenador de Quereres -Núcleo de Pesquisa em Diferenças, Gênero e Sexualidade (UFSCar) e pesquisador colaborador do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu (UNICAMP/SP). Autor de “O Desejo da Nação: masculinidade e branquitude no Brasil de fins do XIX” (2012) e de “Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças” (2012), coorganizou com Jorge Leite Júnior o livro Diferenças na Educação: outros aprendizados (2014), e com Larissa Pelúcio a obra Discursos fora da Ordem: sexualidades, saberes e direitos (2012). Publicou artigos e resenhas em diversas revistas nacionais e internacionais e coordena a coleção Annablume Queer.

Larissa Pelúcio (larissapelucio@gmail.com). Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pós-doutora pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP). Professora da Universidade Estadual Paulista (UNESP-Bauru) e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP-Marília), é vice líder do Quereres - Núcleo de Pesquida em Diferenças, Gênero e Sexualidade (UFSCar) e pesquisadora colaboradora do Grupo de Estudos de Gênero Pagu (UNICAMP/SP). Autora do livro “Abjeção e Desejo: uma etnografia travesti sobre o modelo preventivo da AIDs” (São Paulo: Annablume, 2009), tem artigos publicados em diversos periódicos acadêmicos, como Cadernos Pagu, Sexualidad, Salud y Sociedad (CLAM), Revista Estudos Feministas.

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