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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.26 no.1 Florianópolis  2018  Epub Feb 08, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1806-9584.2018v26n142816 

Artigos temáticos

O armário da sexualidade no mundo esportivo

The Closet in Sports

Wagner Xavier de Camargo1 

1Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, SP, Brasil

Resumo:

Nos últimos anos tem havido certa polêmica sobre sexualidades e práticas sexuais de atletas do mundo profissional do esporte. Mais do que isso, o que tem incomodado a opinião pública é o afloramento da homossexualidade no meio esportivo pelo processo de coming out. A proposta deste artigo é partir de dados etnográficos em competições esportivas LGBT+ (de lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e outros) para observar como enunciações de atletas sobre suas sexualidades colocam em xeque um complexo sistema de controle (e autocontrole) de suas próprias sexualidades e das de outros/as, num marco de referências sobre o segredo do armário. Pensar as (homo)sexualidades nesses cenários importa na medida em que colocam, face a face, os campos de estudo de gênero e sexualidades na intersecção com o universo dos esportes.

Palavras-chave: Esporte LGBT+; (homo)sexualidades; saída do armário; estudos de gênero

Abstract:

Recently there has been some controversy about sexualities and sexual practices of athletes in the professional world of sports. More than that, what has disturbed public opinion is the phenomenon of the homosexuality in sports toward the process of coming out. This article aims to analyze ethnographic data collected in LGBT+ (lesbian, gay, bisexual, transgender, others) sports championships, trying to observe how athletes’ speeches about their sexualities challenge a complex system of control (and self-control) of their own sexualities and of the others’ sexualities, building up a framework of references about the secret of the closet. Thinking over (homo)sexualities in these scenarios matter in sense that it poses, face to face, the fields of study of Gender and Sexuality at the intersection with the world of sports.

Keywords: LGBT+ Sports; (Homo)Sexualities; Coming out; Gender studies

Introdução

Nos últimos anos tem havido certo frenesi acerca de revelações sobre sexualidades e práticas sexuais de atletas no mundo profissional do esporte. Mais do que isso, particularmente, o que tem incomodado a opinião pública é o afloramento da homossexualidade no meio esportivo. O indicativo para essa percepção veio a mim por meio de material de imprensa (principalmente via jornais escritos) a partir das últimas edições dos Jogos Olímpicos, sempre noticiando atletas que tinham “saído do armário” (numa clara referência a terem assumido orientações não-heterossexuais), ou destacando o número de competidoras/es “declaradamente homossexuais” participando nas edições dos Jogos.1

No tocante aos Jogos Olímpicos de Verão do Rio de Janeiro, em 2016, as questões sobre sexualidades de atletas viraram assunto recorrente em reportagens de veículos de comunicação nacionais e internacionais, praticamente durante toda a competição. Jornais com O Globo ou Folha de São Paulo, o espanhol El País, o francês Libération e mesmo o norte-americano The New York Times deram algum destaque a tal assunto a partir das primeiras declarações, das primeiras proposições de casamento e do “clima de aceitação” inspirado pelos jogos cariocas.

Vale demarcar, ante de tudo, que a referência a “sair do armário” ou “do closet” tem estreita relação com o verbo to come out, que significa, genericamente, fazer-se aparecer ou tornar algo público. No entanto, também pode significar to declare oneself openly (declarar-se abertamente) e tal acepção adquire maior peso quando a expressão é pronunciada no tocante à orientação sexual: “declarar-se” gay ou lésbica, por exemplo, passaria de uma questão íntima (privada) para um domínio público e, portanto, alvo de julgamentos morais (Wagner CAMARGO, 2013).

Como ganhou lugar nos discursos contestatórios do movimento homossexual nos anos 1970, o processo de coming out (ou saída do armário) virou bandeira política e é empregado, mesmo em inglês, em todo o Ocidente. Atualmente causa polêmica no esporte por estar diretamente vinculado (particularmente, mas não apenas) com jogadores de futebol, que mantêm relações heterossexuais convencionais, apesar de boatos sobre práticas sexuais fora da heteronormatividade.

De minha parte, tenho acompanhado alguns desses casos em várias modalidades esportivas e fiquei atento, especificamente, ao que se desenrolou entre 2009 e 2012 na Alemanha, quando os meios de comunicação divulgavam entrevistas e opiniões de várias figuras públicas sobre possíveis coming out de jogadores de futebol da seleção alemã. Tamanha era a polêmica que, em meados de 2012, a primeira ministra Angela Merkel pronunciou-se abertamente a favor da saída do armário para tais atletas como “medida simplificadora”, uma vez que “facilitaria o relacionamento de homossexuais com seus técnicos e colegas de equipe”.

No universo futebolístico, dadas as opiniões e posturas machistas em vigor, a situação não é tão simples como se pode imaginar, seja na Alemanha ou em qualquer lugar do mundo. Corny Littman, ex-presidente do Fußball-Club Sankt Pauli (FC St. Pauli), de Hamburgo, e ativista LGBT+, colocou-se veementemente contra o coming out por uma questão de prudência: ao “declarar-se gay”, explicou, “o jogador sofreria ofensas dentro e fora do campo” por meio de seus companheiros e mesmo via torcidas (Sonja PHALNIKAR, 2007). Essa é uma afirmação bastante comum, já referenciada por outros técnicos (inclusive brasileiros) e mesmo reconhecida pelo meio acadêmico (Brian PRONGER, 1990; Pat GRIFFIN, 1988; Eric ANDERSON, 2005; Gareth OWEN, 2006; CAMARGO, 2012).

Especificamente em terras germânicas, a temática se instaurou com força e se espraiou sob múltiplas formas nos veículos de comunicação (TV, jornal e internet). Um dos comentários nessa direção veio de Oliver Bierhoff, manager da seleção alemã à época e ex-jogador de futebol, que chamou de “ataque à família” a dúvida sobre a sexualidade de qualquer um dos onze jogadores do então selecionado nacional (Ronny BLASCHKE, 2012a). Por sua vez, o goleiro do Dortmund, Roman Weidenfeller, disse ironicamente em entrevista, ao não ser convocado pelo técnico Joachim Löw para compor o grupo em 2011, que talvez devesse “cortar os cabelos ou ser mais asseado” para estar entre os jogadores selecionados (BLASCHKE, 2012b), numa clara demonstração de preconceito de gênero, como se ser mais asseado, limpo e perfumado fossem estratégias “femininas” e pudessem “seduzir” o técnico, por assim dizer, a convocá-lo.

Dentre as opiniões controversas, talvez o pronunciamento mais impactante para o mundo esportivo tenha sido o conselho de Joseph Blatter, ex-presidente da FIFA, após o anúncio em cadeia televisiva sobre a escolha da sede da Copa Mundial de Futebol Masculino de 2022, a ser realizada no Catar: “que as atividades sexuais sejam contidas naquele país”, disse ao grupo de jornalistas internacionais. No caso da homossexualidade vale lembrar que no Catar a lei prevê pena de cinco anos de reclusão para o denominado “praticante pederasta” (Rita SIMON & Alison BROOKS, 2009).

Como as tendências globais afetam, invariavelmente, o local, o Brasil também vive em meio a polêmicas semelhantes, relativas à homossexualidade e seus contextos, no futebol e em outros esportes. Em meados de abril de 2011, num jogo entre as equipes Vôlei Futuro e Sada Cruzeiro, em Contagem (MG), a torcida se manifestou agressivamente contra um dos jogadores da equipe visitante, Michael dos Santos, que em sua suposição, seria “homossexual”. Os chamamentos de “bicha”, claramente homofóbicos, provocaram muita polêmica e o caso teve grande repercussão nacional e internacional (Matt ALGREN, 2011). Devido ao incidente, Michael se manifestou a respeito e confirmou seu coming out público (Ricardo SPINA, 2011).

Michael não foi o primeiro voleibolista brasileiro na história da modalidade a declarar-se gay. Em 1999, Luís Cláudio Alves da Silva (o Lilico), concedeu uma entrevista à revista masculina G-Magazine, revelando os detalhes de sua orientação sexual e de sua vida privada (Marcos BRANDÃO, 1999). O jogador foi um dos destaques de um conjunto de atletas dos anos noventa e congregou vários títulos nacionais e internacionais.

Um caso emblemático que se desenrola há anos no país é que envolve Richarlyson Barbosa Felisbino, atualmente jogador do Guarani FC, de Campinas, São Paulo. Tudo começa quando, ainda fazendo parte do elenco do São Paulo FC nos idos de 2005, ele comemora um gol num jogo contra o Palmeiras com a “dança da bundinha”, considerada preconceituosamente “esquisita” por parte da torcida, que passou a considerá-lo “homossexual”. O caso se amplifica na mídia e os torcedores do tricolor iniciam um boicote, recusando-se a gritar seu nome durante as partidas do time. As especulações em torno de sua orientação sexual continuam até que no programa “Debate Bola”, da TV Record, o então vice-presidente do Palmeiras, José Cyrillo Jr., revela suas suspeitas em rede nacional. Em realidade, Cyrillo Jr. equivocou-se e associou Richarlyson à homossexualidade de outro jogador. Tal fato desencadeou um processo judicial por parte do São Paulo, o qual foi encaminhado a julgamento ao juiz Manoel M. Junqueira Filho, da 9ª Vara Criminal da capital paulista, que tempos depois teve sua conduta questionada por emitir opiniões tacanhas e reforçar preconceitos ao enfatizar que “futebol é coisa de macho”.

Tais casos foram os mais visíveis e que causaram mais especulações. Outros, não tão notórios, acabam não tendo destaque e caíram no ostracismo. Foi o caso de Jamerson Michel da Costa, ou “Messi”, atual goleiro do Alecrin Futebol Clube, de Natal, que em 2010 se assumiu “homossexual”. A declaração agitou seu cotidiano, pois inúmeros meios de comunicação o requisitaram para entrevistas e afins, porém Messi disse que o “sucesso” não lhe subiria à cabeça (Mariana KNEIPP, 2010). À exceção da decepção causada à mãe pela declaração proferida, e do gandula do time (que não se conforma com tal “opção”), a vida de “Messi” seguiu na mesma rotina de treinos e coletivos - na época no time de Palmeira, em Goianinha, uma cidade potiguar de 18 mil habitantes.

Profissionais ou amadores, esportistas têm suas vidas privadas devassadas pela opinião pública e pelos meios de comunicação quando alguma suspeita emerge acerca de suas práticas sexuais. A “vontade de saber sobre sexo” constituiu-se como um dispositivo histórico de poder das sociedades Ocidentais, que passaram a exercer controle de indivíduos e grupos por meio de instituições sociais e saberes, médicos, epidemiológicos, midiáticos, e afins (Michel FOUCAULT, 1985).

Diante deste cenário, portanto, a proposta deste artigo é partir de alguns dados de uma etnografia multissituada (George MARCUS, 1995), em diferentes cidades-sedes de eventos esportivos LGBT+, durante aproximadamente cinco anos, para observar como algumas enunciações de atletas sobre suas sexualidades colocam em xeque um complexo sistema de controle (e autocontrole) de suas sexualidades e das de outros/as atletas, num marco de referências sobre o segredo do armário (Eve SEDGWICK, 2007).

Longe de qualquer exercício tautológico, pensar as (homo)sexualidades esportivas nos cenários das competições LGBT+ interessa na medida em que elas colocam, face a face, os campos Estudo de Gênero e Sexualidades na intersecção com o universo dos esportes, algo não apenas inusitado, mas que provoca inquietações.2 Por isso o objetivo deste artigo é procurar articular parte de dados coletados no campo etnográfico com algumas discussões teóricas acerca da construção do segredo da sexualidade no Ocidente.

No mundo das (homo)sexualidades esportivas

Estava na entrada do complexo aquático Copenhagen Aqua Arena. Era a vez da natação e de meu “corpo-a-corpo”. Alguns minutos de observação e noto um rapaz de pele muito branca, de cabelo ruivo e curto, porte ostentoso, quase dois metros de altura, braços e pernas longilíneas, com músculos delineados, que fazia movimentos de aquecimento com os braços, ao lado da piscina, e ouvia atentamente os resultados das provas anunciados no alto falante. Tomei coragem e fui me apresentar. Já sabia por onde começar . (Diário de campo, 31 jul. 2009).

Estava em situação etnográfica de pesquisa na segunda edição do World Outgames, em Copenhague, Dinamarca, um campeonato esportivo mundial voltado a sujeitos LGBT+.3 Dinamarquês, “branco”, 26 anos, triatleta (de corrida, ciclismo e natação), tomava notas e checava tempos que os melhores nadadores marcavam na piscina.4 Apresentei-me, trocamos cumprimentos iniciais e o mote introdutório para nossa conversa foi o preenchimento de um survey, que eu estava aplicando, sistematicamente, em cada esporte como forma de complemento à prática etnográfica.5

Com seu consentimento desconfiado (pois me disse não responder nada que fosse “relativo a gays”), parou no preenchimento da segunda questão, que enfocava a orientação sexual. Dentre todas as categorias disponíveis, não assinalou nenhuma, pois se autodenominava MSM (male sex with male ou homens que fazem sexo com homens) e isso, segundo ele, “nada tinha a ver com as questões relacionadas ao mundo gay e lésbico” . Apesar de participar de uma competição LGBT+ e estar/viver num dos países europeus mais democráticos quanto à explicitação da sexualidade, a ambivalência das explicações desse atleta suscitou-me certa ponderação.6

Não necessariamente os MSM reivindicam para si uma “identidade” e talvez possam ser situados numa zona de intersecção ou de fronteiras entre as pluralidades dos modelos universais hetero, homo e bissexuais. Denominados male-male sex e male-to-male sex na literatura internacional, são geralmente considerados sob viés epidemiológico de “práticas de risco”, por parte de Organizações Não-Governamentais (ONGs) e Secretarias de Saúde de Governos Nacionais. O mesmo ocorre no Brasil, onde são tratados pela sigla HSH (homens que fazem sexo com homens).

Tal grupo pode estar relacionado a um mundo de práticas bissexuais e vinculado a uma masculinidade bissexual. Homens bissexuais estão submetidos a uma violência simbólica via estigma no quadro de comparação com a matriz heterossexual: por sua suposta “ambiguidade” na definição de uma orientação sexual, pelo suposto desregramento de uma vida sexual intensa, ou ainda pela imaginada falta de fidelização a uma relação monogâmica (Fernando SEFFNER, 2004). De qualquer forma, para este autor, a violência a que são submetidos é estrutural (pois se estabelece como naturalizada) e tais sujeitos ainda são vulnerabilizados pelas condutas sexuais relativas ao HIV/AIDS. Apesar de algumas particularidades que aproximam homens bissexuais e MSM, vou desenvolver minha análise pautada na categoria êmica enunciada pelo triatleta.

Como uma instituição segregadora de gêneros, mantenedora do binarismo masculino/feminino a partir da lógica heteronormativa, o esporte agrega, em geral, indivíduos com esse tipo de discurso e de postura, das modalidades individuais às coletivas, onde as divergências no tocante à sexualidade são omitidas e as semelhanças com o padrão heterossexual são exasperadamente buscadas e desejadas.

No mundo social, os HSH se invisibilizam na cena do comportamento sexual adulto, uma vez que procuram fugir do estigma a eles imputado.7 Em geral, envolvidos em práticas sexuais regulares com o mesmo sexo e, paralelamente, com mulheres, dados sobre eles também são escassos e, de acordo com o Monitoring the AIDS Pandemic (MAP, 2005), o acesso a tal população é extremamente complicado, tornando-os um problema de proporções globais (Francisco BASTOS, 2008).

Tal dificuldade, assim, pode ser parcialmente contornada por meio das pesquisas que identificam nível de infecção por HIV/AIDS, problemática frequentemente atrelada a tais sujeitos. No caso do MAP-2005, estimou-se que entre três e cinco por cento da população adulta masculina asiática mantinha alguma conduta sexual com parceiros de mesmo sexo - particularmente o sexo anal desprotegido foi o mais reportado.

Independente das práticas sexuais consideradas “de risco” - e se afastando de concepções epidemiológicas generalizantes - acredito que seja difícil tratar tal população sem ter em conta a inter-relação entre desejos, comportamentos e políticas de identidades sexuais, tanto no esporte quanto na sociedade. Um pesquisador peruano tece duras críticas a um relatório sobre a condição dos MSM na região da América Latina e Caribe no tocante à epidemiologia relativa ao HIV/AIDS e às práticas sexuais desses indivíduos (Carlos CÁCERES, 2002). Uma de suas conclusões, que se assemelha às encontradas pelo relatório MAP da região asiática, é que devido a alguns fatores (como exclusão social da homossexualidade e a autopunição em relação à mesma), é muito difícil caracterizar previsivelmente a população dos MSM.8

Distanciando-me da visada mais “epidemiológica”, interessou-me o que disse o triatleta. Numa longa conversa, ele me expôs suas opiniões sobre o “mundo gay e lésbico” que, naquele momento, o envolvia. E para demarcar sua posição e reforçar sua performatividade de gênero, explicou:

Pesquisador: mas você não transa mais com mulheres, então?

Triatleta: agora não mais. Mas eu transo com mulheres, se precisar. Eu não tenho problemas com isso. Mas eu transo com homens e, como já disse, não sou gay por causa disso. Repito, eu gosto de macheza . E, como te falei, não gosto de quando conheço alguém, não quero que tenha jeitos ‘estranhos’ . Não sou ‘estranho’ como esse povo daqui (Diário de CAMPO, 31 jul 2009).9

É importante destacar que tal performatividade se baseia na reiteração de normas que são anteriores ao agente, e que sendo permanentemente reiteradas, materializam aquilo que nomeiam (Judith BUTLER, 2003). Por isso, tal conceito é desvinculado da ideia voluntarista de representar um papel de gênero, como se fosse um “ato teatralizado”. A performatividade do ato contém a performance do ser. Tais conceitos estão inter-relacionados, mas são distintos.10 Ela ainda afirma que a materialização das normas exige processos identificatórios por meio dos quais as normas são assumidas e tais identificações precedem e viabilizam a formação do sujeito (BUTLER, 2001). Isso acontece com o triatleta e o ideal que é espelhado depende do fato de que aquele próprio espelhamento é sustentado como um ideal.

Experimentar corporal e performaticamente como a masculinidade hegemônica se conforma ao ser o produto de um conjunto de códigos culturais performativos aprendidos e incorporados11 caracterizaria a performance de gênero e isso pode ser reapropriado e posto em prática por qualquer corpo, independentemente de seu sexo anatômico. Identifico isso no discurso e nas posturas do triatleta dinamarquês que, ao mesmo tempo, fogem da homossexualidade procurando se aproximar do ‘ideal de masculinidade’ heterossexual.

O aspecto mencionado da “macheza”, à semelhança do que nos trouxe Perlongher - para quem a idade do cliente homossexual era um tensor no mercado sexual dos michês paulistanos (Néstor PERLONGHER, 2008) - o capital masculino representativo da masculinidade ortodoxa, as representações sociais da masculinidade hegemônica, os níveis testosteronais e a quantidade (visível) de músculos do triatleta funcionavam, similarmente, como tensores libidinais na escolha dos “alvos preferenciais” durante aquela competição esportiva.

Ora, o motivo que o levou a participar da etapa mundial dos jogos LGBT+ era desconhecido. Sua versão era a de que “participava de mais uma fase de treinamento”, o que é plausível - tendo em vista que identifiquei vários atletas do meio mainstream heterossexual participando daquela competição, principalmente em modalidades coletivas - mas não inteligível do ponto de vista técnico, uma vez que, dadas as condições estruturais, muitas vezes não oficiais, dos torneios LGBT+ (como falta de aferição de vento, não existência de piscinas olímpicas, ausência de cronometragem mecânica, quadras de pisos irregulares, etc.), dificilmente o beneficiaria com uma marca (ou recorde) recolhida nestas competições.

Sob viés antropológico e buscando compreender o contexto sociocultural que envolve os MSM, há que se estabelecer a distinção entre práticas homoeróticas e identidades de gênero (Gabriel GUAJARDO, 2002). Isso porque talvez seja possível que não haja conflitos entre elas para muitos MSM, que defendem que suas “identidades heterossexuais” não são ameaçadas pelas “práticas homoeróticas”, que podem “acontecer” em dado momento de suas vidas.

Este seria o “grande paradoxo” no estudo sobre os michês paulistanos de Perlongher (2008). Segundo esse autor: “Num apreciável número de casos, os rapazes que se prostituem não são ou não se consideram homossexuais; e esta recusa da homossexualidade vai ao encontro da demanda dos clientes” (PERLONGHER, 2008, p. 48). Além disso, vale destacar que o autor portenho diz que cabe ler o esquema estudado por ele como uma “rede de sinais”, por onde transitam sujeitos à deriva (não enquanto identidades conscientes), porém dentro da multiplicidade dos fluxos desejantes.

A partir do exposto, gostaria de avançar na problemática endereçada sob a perspectiva dos processos de coming out, não apenas para pensar nas lógicas e estratégias discursivas do estar “dentro” ou estar “fora” do armário, mas porque essa imputação de fronteiras conjunturais fez parte das falas de meus colaboradores na pesquisa.

De dentro e de fora do armário: posicionando e reposicionando fronteiras

Mais cedo ou mais tarde na vida, atletas por mim entrevistados disseram ter passado pelo dilema do “assumir-se” e da dúvida do deixar o “armário da heterossexualidade”. Esta “passagem”, certamente não finalizada para muitos, não foi (e nem estava sendo) fácil.

O coming out pode ser entendido, de modo mais pragmático, tanto como a primeira vez que um/uma suposto/a “heterossexual” faz sexo com outro homem/outra mulher, quanto como o processo que se estende desde a percepção do desejo homo-orientado até a concretização de uma relação de natureza homossexual (Charles SILVERSTEIN e Felice PICANO, 1992). Apesar de identificarem “estágios” deste processo - de fantasias às primeiras experiências homossexuais, dessas à concretização da primeira relação sexual propriamente dita e, finalmente, a “identificação” com uma dada comunidade - os autores mencionados reconhecem que não há uma linearidade estável e nem tal processo está “fechado” completamente.

Nesse sentido, cabe trazer um antropólogo português, que coloca nos seguintes termos: há o “armário”, de um lado e, simetricamente, o “sistema homofóbico”, que se caracterizaria por ser “um sistema de garantia da heterossexualidade normativa e da dicotomia e assimetria de gênero, que funciona através das estruturas do parentesco e das representações do corpo sexuado e suas atividades” (Miguel VALE DE ALMEIDA, 2009, p. 14). A manutenção da dicotomização dos “sistemas” se dá por meio de um processo de subjetivação, que sujeita o indivíduo às categorias da heteronorma, só sendo “superada” quando o ritual performativo dele tiver sido cumprido e a sociedade reconhecer mais um/uma “homossexual” em seu meio.

Uma vez, então, tendo adentrado à “vida gay” por assim dizer, ele passaria a participar do “mercado dos intercâmbios sexuais”, nos termos de Michel Pollak (1987). No entanto, até o desabrochar deste estágio, uma pessoa pode viver durante muitos anos no segredo de sua sexualidade, como destacaram os autores citados anteriormente.

Sedgwick (2007), por sua vez, nos ajuda a pensar a questão da existência e a manutenção do “segredo do armário” de outra forma. Para ela, o armário é um regime de controle de nossa sexualidade e uma “estrutura definidora da opressão gay no século XX” (SEDGWICK, 2007, p. 26). Muito mais do que um fenômeno isolado, o armário tem feito parte da história da sexualidade no Ocidente e, além disso, há uma verdadeira “epistemologia do armário” que “tem sido produtora incansável da cultura e da história do Ocidente como um todo” (SEDGWICK, 2007, p. 23) e esteve ligada à homossexualidade na Europa e na América do Norte, desde fins do século XIX. Apesar de a autora ter argumentado sobre o racismo, as opressões étnicas/culturas ou religiosas, a imagem carregada de significado do armário “ é indicativa da homofobia de uma maneira que não o pode ser para outras opressões” como essas que citou (SEDGWICK, 2007, p. 32).

Pode-se dizer que a própria existência do “armário” (enquanto segredo) carrega a questão da ambivalência em si. Ela demarca isso: “A imagem do assumir-se confronta regularmente a imagem do armário, e sua posição pública sem ambivalência pode ser contraposta como uma certeza epistemológica salvadora contra a privacidade equívoca oferecida pelo armário” (SEDGWICK, 2007, p. 27).

O “viver no armário” é sempre contraposto ao “sair dele” e isso não é, em definitivo, uma questão fechada, hermética. Obviamente, a autora ressalta que os pensadores do século XX não foram ingênuos nem cegos para as danosas contradições dessa metáfora do “dentro” e “fora” do armário da privacidade.12 O que torna problemático, de acordo com sua opinião, é que tais contradições estão enraizadas na cultura europeia e têm topologias mais amplas relacionadas à privacidade na cultura, o que dificultou haver, de fato, uma metáfora alternativa como possibilidade real.

Outro caso que ilustra a condição existencial de sujeitos dentro/fora do armário em competições esportivas é o de um nadador brasileiro, também entrevistado por mim. Cirurgião plástico, bem-sucedido e bem apessoado, “branco” e de olhos azuis, ele reúne todas as características que poderiam enquadrá-lo no grupo de gays dos países ricos do hemisfério norte, os quais participam do circuito internacional de festas e entretenimentos para tal segmento. Além do mais, se insere neste grupo pelo fato de viajar muito, fazendo cruzeiros temáticos (para gays) e participando de pacotes turísticos, numa infinidade de destinos.13

O nadador se desloca costumeiramente do Paraná a São Paulo, nos finais de semana, a fim de participar do circuito da vida noturna gay. Segundo ele, “ ninguém sabe de nada e quando quero, pego um avião e vou para São Paulo. Lá posso sair em locais gays que ninguém me reconhece” (Diário de campo, 04 ago. 2010). Encontramo-nos, pela primeira vez, também em Copenhague.

Incorporando um “médico heterossexual tradicional” em sua cidade natal durante a semana e um “gay descolado e moderno” em finais de semana, ele nos traz à memória um caso estudado na literatura, no qual este deslocamento sazonal é uma forma de driblar o controle da realidade social, dando vazão ao desejo homoerótico (Richard PARKER, 1999).

No entanto, por questões não resolvidas consigo e com o meio social que o cerca se mantém no closet: a família não sabe sobre sua orientação sexual, os colegas de trabalho tampouco e os atletas master (com os quais treina natação), nem sequer imaginam tal possibilidade. O nadador ainda prefere, como diz, “ficar no armário” e vê sua vida pessoal, no Brasil, como um “cárcere privado”. Disse-me em desabafo,

já não aguento mais viver essa vida de personagens. Vivo quatro personagens que não têm relação entre si. Sou um para minha família, outro para os amigos de natação, outro no hospital em que trabalho, e outro na balada gay. Nem sei mais quem eu sou! Às vezes tenho vontade de contar tudo e ser quem eu sou aqui . (Diário de CAMPO, 04 ago. 2010).

Por ter sido (e ainda ser) atleta de natação, a imagem por ele criada é (e sempre foi) importante para mantê-lo longe de especulações sobre sua vida privada. O tanto que tal decisão surtiu efeito a favor (ou contra) sua vida não se pode avaliar. Conforme já foi dito, a opção pelo armário é desestabilizadora, e mais difícil do que sair é permanecer nele, uma vez que a incerteza do permanecer é consumida pelo desconhecimento do que há adiante (SEDGWICK, 2007; GRIFFIN, 1988). Por isso, a saída do armário “pode trazer a revelação de um desconhecimento poderoso como um ato de desconhecer, não como o vácuo ou o vazio que ele finge ser, mas como um espaço epistemológico pesado, ocupado e consequente” (SEDGWICK, 2007, p. 35).

O fato é que a escolha pelo armário - não surpreendentemente - é pragmática. Imaginem-se na vida de um médico bastante reconhecido, com dotes que vão além da beleza e “do berço”, aparentemente legitimado como competente, com clientes provenientes de classes altas (principalmente mulheres), totalmente “livre e desimpedido”, habitando uma cidade de médio porte da Região Sul do Brasil. Fechar-se no armário torna-se a escolha “mais sabia” e a que poupa mais energia para alguém que se reconhece com desejos homoeróticos.

O que os atletas entrevistados por mim não percebem é que o assumir-se não acaba com o armário, mas pode criar outros, senão para si, para outras pessoas que vivem ao redor. Ou, em outros termos, fechar-se no closet pode provocar um movimento contrário de criação de um “armário para dois”, onde dois sujeitos podem viver vidas paralelas às suas heterossexuais.14

Inclinado ao aparente “engavetamento” no armário da sexualidade estava um dos atletas que também encontrei nos primeiros dias de competição em Copenhague: um cubano de 30 anos, “negro” e corredor das provas de velocidade (100, 200, 400 metros, 110 com barreira e revezamentos 4x100 e 4x400 metros). Assim como tantos outros sujeitos de países em desenvolvimento, havia pedido ajuda financeira do programa Outreach para participar e competir no evento. Utilizou-se, para tanto, de sua nacionalidade cubana e da região em que seu país faz parte, uma vez que o Outreach é uma política especial que seleciona sujeitos políticos LGBT+ por porcentagem regional (Américas, Áfricas, regiões pobres da Ásia e da Europa) e por gêneros, a fim de trazê-los para a discussão do evento sobre culturas, políticas e esportes (CATALOG, 2009).

Interpelado por mim no alojamento em que nos encontrávamos, concedeu-me uma entrevista após o jantar. Contou-me que morava na Europa há quase sete anos, ainda competia como atleta federado em torneios da Associação Internacional de Atletismo Amador (IAAF) e levava uma “vida normal”. Revelou-me, também, que “ a competição do Outgames é apenas um treino”, ao que rebati espontaneamente “por que, então, treinar entre gays?”. Ele apenas sorriu, dando indicativos de que minha indagação tinha sido irônica e sem sentido.

Nos dias seguintes às provas do atletismo, o que ele mais gostava de fazer era andar pelo refeitório em que comíamos, portando no pescoço as medalhas conquistadas e as exibindo. Sua hipermasculinidade transbordava os contornos corporais, expandindo-se para gestos, falas, atitudes, roupas e acessórios. Agregava-se a tal figura um charme latino: era elogioso com as “mulheres”, despistava os “homens” e parecia invisibilizar pessoas transgênero. Quanto às medalhas, ele não apenas as portava, mas encenava publicamente o que já fora designado como cool pose, isto é, comportamentos expressivos de um estilo de vida negro (que passa pelo vestuário e gestos), o qual objetiva driblar o peso institucional da discriminação branca (Richard MAJORS, 1990). No entanto, ao mesmo tempo em que o cool pose permite empoderamento, autovalorização, dignidade para atletas negros (ou uma “agência criativa”, em palavras do referido autor), reforça a dominação masculina como um veículo dado.

Evidente que o corredor cubano, utilizava uma estratégia de negar sua potencial “homossexualidade”, desenvolvendo encenações “antigays” (e, aos olhos de alguns, estratégias homofóbicas) em seus discursos e posturas. Vale lembrar que o armário, como bem fundamentado, delineia-se como um aglomerado de regras rigidamente instituídas (embora não necessariamente explicitadas) no espaço público, as quais legitimam a heterossexualidade e relegam a homossexualidade a um espaço privativo (GRIFFIN, 1988; Steven SEIDMAN, 2004; SEDGWICK, 2007; Richard MISKOLCI, 2009; 2013).

Um ponto interessante nesta discussão é que, em geral, atletas negros profissionais tendem a ser mais homofóbicos do que atletas brancos, talvez numa resposta à mesma violência que sofrem sendo discriminados. E, quando a isso se soma a questão da sexualidade, atletas negros gays tendem a apresentar elevados níveis de homofobia e racismo (ANDERSON, 2005).

Portanto, poder-se-ia presumir que se a saída do armário é difícil para atletas “brancos”, para os considerados racializados (negros, mulatos, indígenas, amarelos)15 talvez seja pior devido à dupla discriminação que sofreriam, ou seja, em respeito à origem étnica e à orientação sexual. Além disso, há outros elementos associados à cor que também pesam, como renda, pobreza e mesmo religião. Atletas pobres e racializados vão continuar no closet se dependerem de bolsas esportivas para sobreviverem. Tal explicação funcionaria, por exemplo, tanto para o contexto norte-americano, quanto para o brasileiro. É algo digno de nota que tais atletas apenas deixarão o armário se estiverem vinculados a uma comunidade branca - algo definitivamente importante no contexto estadunidense -, não dependerem de financiamento para os estudos e nem das comunidades étnicas/religiosas para sobreviverem, mantiverem algum capital masculino junto às suas equipes e possuírem suporte institucional de seu(s) técnico(s).16

Mas sempre há exceções: o caso de Justin Fashanu foi emblemático. Negro, de origem nigeriana, além de ter sido considerado o jogador de futebol mais caro da Inglaterra nos anos 198017, anunciou sua saída do armário em plena atividade profissional. Em 1990 foi capa do tabloide The Sun, “assumindo-se homossexual”. Frente a tal anúncio o mundo “macho” do futebol não tomou isso de bom grado e os anos subsequentes foram péssimos em termos de transferências ou contratações (WATSON-SMYTH, 1998). Logo depois de ter sido acusado injustamente por abuso sexual de um garoto de 17 anos, no tempo em que esteve nos EUA, Justin simplesmente não suportou a crise desencadeada por tal fato e, aos 37 anos, suicidou-se por enforcamento.

Na História do segredo, constata-se que o processo de coming out é tanto mais traumático, quanto mais tarde é efetivado, resultando em sequelas irreversíveis, como o suicídio (Gerárd VICENT, 2009). Fashanu passou grande parte de sua existência vivendo no “segredo da sexualidade”, guardado e devidamente enclausurado em seu “armário”. Quando o abriu, porém, talvez não tenha suportado viver fora do ambiente do segredo. Apesar de se saber o modo como se matou, até hoje não se sabe, exatamente o motivo. Curiosamente é que, nesse sentido, do segredo do armário, Fashanu tenha passado a habitar o “segredo do suicídio” (VICENT, 2009).

Polêmicas contemporâneas: considerações sobre a porosidade do armário

Desde que iniciei minha pesquisa em competições esportivas LGBT+, nos idos de 2006, vários casos de coming out de atletas, ainda em exercício no esporte, vieram a público através da mídia brasileira e internacional. O mais famoso deles é o do saltador olímpico Matthew Mitcham, que se revelou para a imprensa australiana, aos 14 anos, e participou como “assumidamente gay” dos Jogos Olímpicos de Verão de Pequim, em 2008 (A CAPA, 2008).

Talvez Mitcham faça parte de uma “nova geração de sujeitos sexualizados” (termos meus) em que ser bissexual, fazer sexo virtual, grupal, ou participar de orgias não seja novidade. Por isso que a “saída” do armário nem se configurou como um problema, pois ela foi mais uma passagem (no sentido transitivo de um ritual) para a sexualidade adulta, de forma consciente, por meio de uma orientação não-heterossexual.18

Se Mitcham chocou globalmente o mundo esportivo por ser atleta olímpico, outros casos tinham já abalado as estruturas desse mesmo universo, em anos recentes. Em 2007, após sua aposentadoria, John Amaechi tornou-se o primeiro jogador profissional da NBA (National Basketball Association) a se declarar gay (Chris Sheridan, 2007). Na Conferência de Direitos Humanos LGBT+ em Copenhague-2009, antecedente à competição esportiva etnografada por mim, Amaechi discursou sobre sua vida de esportista e seu coming out e observou que, apesar de o esporte ter sido um fator de inclusão social para ele, enquanto profissional, em termos pessoais, o mesmo não foi tão “nobre” como ele esperava, pois “ainda é uma instituição perpetradora do preconceito racial e segregadora de gênero” (Diário de CAMPO, 26. Jul. 2009).

Outro “escândalo” nos meios de comunicação esportivos deu-se ainda no início de 2009, quando a imprensa britânica recebeu o comunicado de que Gareth Thomas, um dos jogadores galeses “mais masculinizados” do rúgbi, estava fora do armário. Thomas se tornou o primeiro jogador profissional “abertamente homossexual” desse esporte, ainda na fase ativa (Grahan CLUTTON, 2009).

Essas influências surtiram efeitos sobre outros atletas e, em fevereiro de 2011, o melhor jogador de críquete da Inglaterra, Steven Davies, de então 24 anos, anuncia-se publicamente gay. Na entrevista de imprensa, a menção a Thomas Gareth é explícita, bem como o incentivo a outros coming out no meio esportivo (Steve SKERRY, 2011).

Outros casos polêmicos ainda se seguiram na esfera dos esportes de alto nível. Após cinco anos de tormentas mentais, duas tentativas de suicídio, problemas com doping e aposentadoria precoce, também no início de 2011 o ciclista Graeme Obree decidiu sair do armário não apenas para si - como já havia feito em terapia - mas também para o público (Richard MOORE, 2011). E, em 2014, para a surpresa geral do mundo esportivo, o medalhista australiano Ian Thorpe se assume gay e diz que “nunca aguentou tanta pressão” sobre sua sexualidade como durante os anos em que competia (Colleen RICCI, 2014).

Voltando às minhas considerações, atletas profissionais retardam o anúncio da saída do armário justamente devido às suas carreiras. Enquanto isso, se submetem a situações extremas e desagradáveis (como o autocontrole, tentativas de suicídio, ingestão excessiva de remédios, drogas ou álcool, e mesmo a autoexclusão social). Os casos anunciados de atletas “abertamente homossexuais” (principalmente na época dos Jogos Olímpicos do Rio-2016) ainda são escassos no esporte profissional e, tanto os anúncios das sexualidades esportivas não-heterossexuais quanto os motivos que levaram tais sujeitos a tomarem esses posicionamentos, merecem ser aprofundados.19

Há autores que defendem que casos de coming out no esporte tendem a aumentar consideravelmente nos próximos anos e três fatores poderiam estar associados a tal fato: a) declínio generalizado da homofobia cultural e institucional (seja de modo gradual ou por campanhas de conscientização via meios de comunicação); b) conexões virtuais (internet) como facilitadoras e potencializadoras de encontros reais entre homens que se relacionam afetivo-sexualmente com outros, no armário ou não; e c) legislação que protege sujeitos LGBT+ (ANDERSON, 2005). A única questão é que esse autor, especificamente, faz tais afirmações baseado na realidade estadunidense, que nem é tão homogênea como se possa pensar. E, de outra parte, tais argumentos pouco ou nada valem para o Brasil, por exemplo, com uma realidade amplamente diversa (em termos sociais, políticos, institucionais) e de difícil previsão. Por aqui, do ponto de vista da explicitação de homofobia-bi-transfobia (no esporte ou não) estamos bem longe de um “decréscimo” do fenômeno, bem como a legislação vigente não é tão protetora assim de direitos LGBT+.

De simples função verbal, to come out ganha novos e importantes contornos quando enunciado em público, como para familiares, amigos/as, cônjuges e colegas de trabalho. Sabe-se que nos Estados Unidos o ato de se “declarar gay” é tão significativo que tal ação se torna um ritual, uma vez que há a necessidade de uma encenação entre enunciador e público espectador, o qual, no limite, faz-se presente para atestar a “veracidade” da declaração. Alguns/mas autores/as citam casos de atletas profissionais que, em dado momento de suas vidas, reuniram técnicos, colegas ou mesmo parentes próximos para comunicarem que, enfim, tinham “se assumido” (Nigel JARVIS, 2006; Heidi ENG, 2006; ANDERSON, 2005; PRONGER, 1990).

Isso aconteceu com casos anteriormente mencionados e outros, em anos mais recentes: nos saltos ornamentais, o britânico Tom Daley e o brasileiro Ian Matos, ambos na casa dos vinte anos e que têm tido destaque na modalidade em competições internacionais; na natação, Amini Fonua, neozelandês destaque em Londres-2012, e Ari-Pekka Liukkonen, finlandês que protestou contra a homofobia institucionalizada dos Jogos de Sochi, na Rússia, em 2014; no universo futebolístico, Thomas Hitzlsperger, alemão que tem 52 partidas pela seleção nacional no currículo e que revelou a homossexualidade depois de anunciar a aposentadoria em 2014 (Manuel HECKEL, 2014), e Robbie Rogers, norte-americano jogador do Los Angeles Galaxy. E proveniente do futebol americano, Michael Sam, que tem o mérito de ter sido o primeiro gay a ser contratado pela NFL (National Football League) em 2014; no rúgbi, o britânico Keegan Hirst e norte-americano Brad Thorson; no universo das lutas, o porto-riquenho boxeador Orlando Cruz (‘el fenómeno Cruz’) e o lutador de wrestling (ou luta greco-romana), Darren Young; no basquete, o californiano Jason Collins, primeiro atleta em atividade na NBA a se assumir gay em abril de 2013; e, finalmente, na patinação de velocidade, Blake Skjellerup, que, inclusive, figurou entre as importantes personalidades presentes nos últimos Gay Games, em Cleveland-2014.

Dessa lista, alguns são negros, a maioria jovem (entre vinte e trinta anos), todos homens biológicos20 e muitos ainda possuem carreira esportiva em andamento. Dentre os novos, poucos tiveram que esperar o findar da carreira para anunciarem a “saída do armário” - algo muito comum no passado (ANDERSON, 2005; GRIFFIN, 1988; PRONGER, 1990). Em geral, o coming out está associado à mudança de/na “condição sexual” do sujeito que o anuncia, isto é, da heterossexualidade compulsória (Adrienne RICH, 1999) à homossexualidade em vias de se tornar prevalente. É, talvez, a materialização do devir homossexual (PRONGER, 1990) do desejo até então sufocado por estruturas (internas e externas) heteronormativas (ou, como prefiro chamar, hetero-arquitetadas).

Se, historicamente, a sexualidade foi construída em segredo no Ocidente e a história do segredo permanece no “armário da sexualidade” (SEDGWICK, 2007), o que ocorre no mundo esportivo tanto em relação a falsas namoradas ou “mulheres de fachada” que acompanham atletas, quanto à (homo)sexualidade dos mesmos, também participa de um segredo único, peculiar, guardado a sete chaves. Historicamente, o fato de apresentar uma sexualidade não-heterossexual nunca veio à tona enquanto o esportista estava em exercício, pois isso macularia sua imagem pública, prejudicando sua carreira e, no limite, mancharia a imagem de “honra, virilidade e masculinidade” que o esporte sempre engendrou. E a partir da história também sabemos que muitos atletas só se “declararam gays” depois de suas aposentadorias, ou ainda tiveram seu coming out público depois de mortos ou via biografias não autorizadas. Como disse, talvez os/as poucos/as atletas mais jovens na atualidade, que têm abertamente encarado suas sexualidades dissidentes, possam representar outros paradigmas no futuro.

A sexualidade é um dispositivo histórico de poder que marca as modernas sociedades ocidentais, conforme pressupostos foucaultianos, e é justamente o poder que nos convida a enunciar nossa sexualidade por meio das diversas instituições e saberes, como peça essencial de uma estratégia de controle do indivíduo, característica destas mesmas sociedades. E o esporte é um exímio executor desse controle, tanto por meio de suas prerrogativas de “igualdade de chances” (que institui e legitima o binarismo de gênero), quanto pelos mecanismos de regulação de ingestão de drogas e outras substâncias (autocontrole), que têm por função dizer quais “corpos masculinos” e quais “corpos femininos” podem competir.

De um ponto de vista crítico, o universo esportivo precisaria ser reinventado em relação às temáticas de gênero e sexualidade, e, além disso, tanto o futebol quanto outras modalidades não deveriam ser tomadas como monolítica e essencialmente heteronormativos. Hipóteses especulativas e circunscritas sobre orientações sexuais não levam a lugar algum. Resta-nos, talvez, quebrar os “armários da sexualidade”, livrarmo-nos dos controles, rearticulando o poder que nos envolve e, num impulso, identificarmos nas brechas criadas possibilidades outras de explicação para o mundo que nos produz e que nos abarca.

A problemática da sexualidade no esporte ainda tem vida longa para pesquisadores e pesquisadoras que se aventurarem no campo e desestabilizarem suas visões de mundo essencialmente heterocentradas. Além disso, a questão do “armário” - nada hermética e totalmente ambivalente - é apenas mais uma, numa miríade de outros atraentes temas de investigação que o universo esportivo nos possibilita.

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1Em 2008, nos Jogos chineses, de 10.500 atletas participantes, apenas 10 deles se declararam “homossexuais”, 9 lésbicas e 1 gay (MAJENDIE, 2008). Em Londres-2012, por sua vez, o número subiu para 23, ainda com predomínio feminino (ROMANELLI, 2013). Por sua vez, os Jogos Olímpicos do Rio 2016 somaram, ao final, 53 nomes de atletas “fora do armário”, dentre os quais a maioria ainda é do gênero feminino.

2Vale lembrar que Miriam GROSSI (2010) destaca que “gênero e sexualidade” formam, no Brasil, um único campo de estudos (tanto na antropologia, quanto em outros campos interdisciplinares), e que a sexualidade é um subtema dos estudos de gênero, partilhando, inclusive, referenciais teóricos e pressupostos epistemológicos. Para uma verificação mais sistemática sobre políticas sexuais e produção de conhecimento em ‘gênero e sexualidade’ no país, consultar Regina FACCHINI, Marcelo DANILIAUSKAS e Ana Cláudia PILON (2013).

3Importante dizer que a pesquisa que forneceu dados para este texto teve como proposta compreender como a masculinidade e seus valores (como virilidade, macheza, agressividade, etc.) eram entendidos, reproduzidos, renegociados no esporte por homens biológicos que se autointitulavam “homossexuais”, “bissexuais” ou “gays”. Nesse sentido, em que pese buscar uma compreensão maior acerca do armário da sexualidade no esporte, já reconheço os limites desse artigo em não conseguir refletir sobre (e mesmo diferenciar) as estruturas deste armário para os casos de mulheres biológicas autodesignadas “lésbicas” ou “bissexuais”.

4A maioria dos entrevistados era de cor “branca”, termo enunciado por eles. E mesmo alguns sendo “negros”, “mulatos” ou “asiáticos”, deixei tais autopercepções entre “aspas” porque aí havia um componente autorreferenciativo interessante para pensar a racialização da subjetividade, como pondera Judith BUTLER (1998). Como a autora coloca, a cor da pele adquire uma dimensão que é percebida como orientadora e formadora de hierarquias/posições políticas entre sujeitos e isso aparece a todo tempo durante os eventos esportivos, ora para afirmar a supremacia dos “negros” nas corridas do atletismo, ora para demarcar a “beleza nórdica” de corpos torneados de brancos europeus.

5Duas ressalvas aqui são necessárias: a) a etnografia não necessita(ria) de “complemento”, uma vez que ela é uma forma de concepção do olhar antropológico sobre a realidade que se sustenta per si; b) porém, o survey me veio como uma tentativa de contabilizar a realidade esportiva daqueles/as atletas com vistas a registrar a magnitude do fenômeno em números. O survey foi realizado com n = 110 (tamanho amostral), de uma população de N = 4.505 (total de atletas), o que significa uma amostragem de, aproximadamente, 2,5% da população atleta participante.

6Pensando na “democracia sexual” reinante na Dinamarca e anotando em meu diário suas falas, lembro-me do argumento de Peter FRY no prefácio à primeira edição do Negócio do Michê, de Néstor PERLONGHER (2008, p. 39): ele afirma como é curioso a eficiência das sociedades humanas em “garantir que algo tão polimorfo e perverso como o desejo sexual acabe sendo constituído, na grande maioria dos indivíduos, de tal forma que acabem desejando o que é socialmente desejável”. Isso se aplica às posições discursivas do triatleta dinamarquês, como veremos.

7O tornar-se invisível é uma estratégia adotada por pela maioria dos homens bissexuais, informantes da Rede Bis-Brasil e analisados por SEFFNER (2004), como forma de fugir de preconceitos.

8No entanto, para Fernando POCAHY e Henrique NARDI (2007) o problema seja, talvez, de ordem mais abrangente, localizado no campo das sexualidades e em suas interfaces com a cidadania e a faixa etária.

9Mantive os termos proferidos por ele por entender que poderiam soar dúbios quando traduzidos. A conversa foi em inglês e minhas anotações em português.

10Vale lembrar textualmente o que diz a autora: “a performance do/a drag [queen] brinca com a distinção entre a anatomia do performista e o gênero que está sendo performado. Mas estamos, na verdade, na presença de três dimensões contingentes da corporeidade significante: sexo anatômico, identidade de gênero e performance de gênero” (BUTLER, 2003, p. 196).

11Através do que BUTLER (2003) chamaria de “repetição coercitiva”.

12Não nos esqueçamos de que FOUCAULT (1985) já destacara o cuidadoso encarceramento da sexualidade para dentro de casa a partir do século XVIII e a imposição do casal procriador como modelo e lei, fazendo-se reinar a norma associada à função da reprodução.

13Aqui talvez valha salientar, assim como o fez Adriana PISCITELLI (2007), que “turismo sexual” não diz respeito apenas ao deslocamento global de mulheres e homens heterossexuais (conforme se pensa), e por isso é uma categoria que necessita maior problematização. No desenvolvimento do trabalho doutoral que culminou neste artigo, um ponto (pouco) desenvolvido por mim diz respeito aos circuitos turísticos e rotas escolhidas por homens que se relacionam afetivo-sexualmente com outros. Referências mais completas nesse sentido são: Ricardo SILVA (2013) sobre homoerotismo em viagens de negócios, e Howard HUGHES (2002), acerca do circuito turístico gay para a cidade de Manchester.

14Como na controversa e polêmica história de amor entre dois peões, do meio rural norte-americano, nos anos 1960/70, que foi tópico temático do filme O segredo de Broakback Mountain (2005). Richard MISKOLCI (2006) e Roy GRUNDMANN (2011) desenvolveram análises críticas, que poderiam incrementar este assunto.

15A literatura em inglês trata a diversidade “racial” por “people of colour” ou “men/women of colour”, querendo dizer “não brancos”. Isso faz menção, sobretudo, a um recorte interseccional com classe social – lembrando postulações de Avtar BRAH (2006).

16Apesar do grande número de atletas negros no esporte norte-americano, segundo MAJORS (1990), menos de 6% das bolsas de estudos universitários são a eles destinadas. Conferir também esta discussão endereçada em ANDERSON (2005, p. 130 e seguintes).

17Pois foi o primeiro atleta negro a ser transferido de clube por 1 milhão de libras esterlinas (Kate WATSON-SMYTH, 1998).

18Aqui também pode ser o caso de Alan Gendreau, um jogador de futebol americano, hoje com 26 anos, mas que desde os 16 anos já assumia uma orientação não-heterossexual. E isso nunca foi segredo para a família ou amigos, nem inviabilizou sua carreira de atleta no masculinizante esporte norte-americano.

19Cheguei a afirmar outrora que foram 53 casos declarados num universo de mais de 11 mil atletas presentes nessa edição dos Jogos. Por isso arrisco dizer que a abrangência da diversidade sexual e de gênero nos eventos olímpicos é limitada, uma vez que o esporte de alto nível acomoda-se numa estrutura de domínio heteronormativo, que não suporta corpos e sexualidades dissonantes e, no limite, não permite a efetiva ocupação de seu espaço pelos mesmos.

20Enigmático pensar se a maioria dos atletas LGBT+ nos últimos Jogos Olímpicos Rio-2016 é de lésbicas assumidas (e uma minoria de homens gays), por que os casos de saída do armário mais explorados pela imprensa são os desses homens? E, já adiantando uma autocrítica, por que tratei aqui apenas do coming out deles?

Recebido: 05 de Fevereiro de 2016; Aceito: 15 de Outubro de 2016

wxcamargo@gmail.com

Wagner Xavier de Camargo (wxcamargo@gmail.com) é pós-doutorando em Antropologia Social pela Universidade Federal de São Carlos/UFSCar (2016-2019), doutorou-se em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC (2008-2012). Atua nos campos de Antropologia das Práticas Esportivas e Estudos de Gênero, Corporalidades e Sexualidades. É membro efetivo da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e vice-líder do LELuS (Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e Sociabilidade), na UFSCar. Socio-fundador e pesquisador da Rede Brasil-Alemanha de Internacionalização do Ensino Superior (REBRALINT), criada em 2017

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