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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.27 no.3 Florianópolis  2019  Epub Oct 21, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1806-9584-2019v27n360793 

Resenhas

Uma escrita biográfica apaixonada

An Impassioned Biographical Writing

João Lenon Siqueira Pereira1 
http://orcid.org/0000-0002-6284-4976

1Universidade do Estado de Santa Catarina, Programa de Pós-Graduação em História, Florianópolis, SC, Brasil. 88.035-001 - sec.ppgh.udesc@gmail.com

GREEN, James Naylor. Revolucionário e gay: a vida extraordinária de Herbert Daniel. Trad. de Marília Sette Câmara, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.


O livro Revolucionário e Gay: A vida extraordinária de Herbert Daniel escrito pelo historiador brasilianista James Naylor Green, professor de História Latino-Americana na Brown University e ativista de causas políticas e LGBT, foi lançado no Brasil em 2018 pela editora Civilização Brasileira e contou com a tradução de Marília Sette Câmara. A edição inclui prefácio assinado por Jean Wyllys, jornalista, escritor, ativista LGBT e ex-deputado federal do Rio de Janeiro pelo PSOL. A apresentação da orelha do livro ficou a cargo da ex-presidenta da República Dilma Rousseff, amiga e companheira na trajetória política de Herbert Daniel. No volume, Green narra os percursos de Herbert Daniel, contemplando aspectos muito particulares de sua vida profissional, amorosa e militante. Herbert Daniel foi uma das grandes lideranças políticas nas décadas de 1960 e 1970 no Brasil, lutou contra a ditadura civil-militar, participou de atos de guerrilha, expropriações a bancos, sequestros, viveu na clandestinidade, foi exilado do país nos chamados “anos de chumbo” e obteve reconhecimento global pelo combate à discriminação contra pessoas que vivem com HIV. Homossexual, teve que esconder sua sexualidade, inclusive dentro das organizações de esquerda das quais participava, pois, apesar de esses grupos se autointitularem revolucionários, eram extremamente conservadores e pregavam uma masculinidade que amedrontava qualquer manifestação de comportamento que não fosse a heterossexual. Interpretando essa realidade, a do preconceito vivenciado por Herbert Daniel, articulando elementos de sua atuação como militante e dialogando com o momento político que o Brasil atravessava na época, Green escreve uma biografia bastante rica e conecta no decorrer na narrativa desejos políticos, situações de medo e de solidão, paixões secretas e muita luta.

Como suporte para a elaboração do livro, o historiador fez uso de entrevistas, documentos oficiais do Estado, fotografias, fontes jornalísticas, bem como os próprios escritos de Daniel, entre outros materiais. É importante destacar que as memórias de Daniel, escritas durante o exílio1, são retomadas em todo o texto realizando os diálogos necessários para legitimar as considerações do biógrafo. E, durante toda a leitura, é possível perceber o quanto o historiador se encantou pelo biografado, atribuindo a ele um perfil heroico, contribuindo para que os leitores e as leitoras também se encantem por esse sujeito “extraordinário” que foi Herbert Daniel. Se, na “Introdução”, Green sinaliza que Daniel foi praticamente esquecido pelos/as brasileiros/as, sua dedicação ao escrever uma biografia do sociólogo e jornalista brasileiro exigiu um grande esforço, pois nunca antes havia escrito nada do gênero. Porém, a escrita biográfica se faz necessária, mesmo que “parcial e incompleta” (James GREEN, 2018, p. 23).

Os capítulos são organizados de modo que descrevem momentos particulares da vida do biografado seguindo uma estrutura narrativa tradicional com recortes temporais datados em anos. Por esse motivo, para esta resenha, seleciono alguns capítulos que delineiam o percurso e recursos metodológicos escolhidos para a elaboração do livro.

Em “Ousar lutar, ousar vencer (1992)”, o primeiro capítulo, Green escreve sobre a morte de Herbert Daniel. Com base em entrevista realizada com a mãe do militante e ativista, Dona Geny, detalha os últimos cuidados que a família teve que dispensar a ele e o quão doloroso foi sua partida.

O capítulo seguinte, intitulado “Ele adorava ler (1946-1964)”, traz aspectos de Herbert em sua infância e adolescência, mostrando suas relações familiares, escolares e o seu gosto pela leitura. Conforme seu irmão Hamilton, ele era muito preguiçoso e odiava caminhar. Indaga-se Green: “Como é possível que Herbert, que odiava caminhar, tenha conseguido suportar o treinamento de guerrilha no difícil terreno montanhoso em uma floresta tropical na década de 1970?” (James GREEN, 2018, p. 31). Essa decisão foi incitada pela convicção de que essa era a única forma de lutar naquele momento.

Green dialoga com a vida de Herbert e o comportamento cultural da época, buscando compreender como ele encontrava formas de vivenciar sua homossexualidade sem que viesse à tona publicamente. Suas práticas sexuais eram acobertadas pela noite, onde “a obscuridade era um desafio, mas oferecia muitas possibilidades.” (GREEN, 2018, p. 39).

Com o capítulo “Faculdade de Medicina (1965-1967)”, James Green situa a importância que a universidade e os debates estudantis tiveram na formação política de Herbert. Foi nessa época que ele teve o primeiro contato com integrantes da organização de esquerda POLOP (Política Operária) através do Centro de Estudos de Medicina. “Em suas memórias, contou que, após devorar o Manifesto Comunista, passou a considerar-se marxista e desejou colocar em prática suas teorias recém descobertas.” (GREEN, 2018, p. 53).

Já em “Clandestino (1969)”, a narrativa se dedica ao ingresso de Herbert na clandestinidade, como sugere o título da seção, e retoma, em primeira pessoa, as considerações feitas pelo então jovem revolucionário em seu livro Passagem para o próximo sonho (1982) sobre o ano de 1969 e sua primeira ação armada. Segundo Herbert Daniel (1982, p. 16 apud GREEN, 2018, p. 96) foi “com todo entusiasmo e um pouco de ignorância.” Nesse capítulo, o autor também descreve a construção do codinome “Daniel” que passou a acompanhá-lo por toda a vida e pontua: “Embora sua família ainda se refira a ele como Bete, e seus amigos de Belo Horizonte como Herbert, os que viveram com ele na clandestinidade, e sobreviveram, ainda se lembram dele como Daniel.” (GREEN, 2018, p. 103). A partir desse momento, Green refere-se ao biografado pelo nome adotado na clandestinidade: Daniel.

Ainda em “Clandestino (1969)”, Green mostra, ao contar sobre as ações armadas das quais o jovem participou, o despreparo que, por vezes, assolava os grupos revolucionários, visto que em muitas dessas ações perderam companheiros para sempre.

Nesse sentido, a seção seguinte, “Para o campo (1969)”, diz respeito à ida de Daniel ao campo de treinamento de guerrilha no Vale do Ribeira. Ele se sentia “honrado” por ser uma entre as 18 pessoas escolhidas pelo reconhecido líder Carlos Lamarca, integrante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) para participar da formação. Nesse capítulo, Green faz um levantamento histórico de como se organizavam os grupos em treinamento de guerrilha e o quanto era difícil para jovens da classe média se habituarem aos acasos desconhecidos das matas e se prepararem contra as investidas policiais no meio rural.

No tocante à atuação de Daniel como guerrilheiro, o capítulo denominado “40+70 = 110 (1970 - 1971)” é bastante significativo, pois nele James Green escreve sobre a participação de Daniel nos sequestros realizados a embaixadores estrangeiros (alemão e suíço) fazendo um jogo entre o título do capítulo e o número de militantes libertados nas negociações com o governo. O autor retoma a entrevista realizada com Alfredo Sirkis para quem Daniel havia afirmado que após o sequestro bem-sucedido sentiu-se “alto, forte e lindo.” (GREEN, 2018, p. 159).

Retomando os escritos de Daniel sobre o exílio, a biografia dedica muitas páginas sobre os anos que precisou viver longe do Brasil. Permanecer no país não era mais possível devido à perseguição política que sofria. Daniel e Cláudio, seu companheiro, embarcaram para Paris, onde puderam encontrar antigos conhecidos e outros exilados políticos. Após a “Revolução dos Cravos” de 1974, Portugal tornou-se um lugar atraente para os sonhadores socialistas, e foi lá que Cláudio e Daniel resolveram morar enquanto aguardavam um “perdão” político do Estado brasileiro. É, então, no exílio que passa a experimentar e viver seu relacionamento com Cláudio. Em carta de 1975 e destinada a uma amiga no Brasil, escreve: “Durante os últimos três anos vivemos juntos e constituímos uma amizade que foi minha forma de renascer. [...] Há exatamente quinze dias as coisas mudaram. [...] Não que tenhamos mudado as bases mesmas da nossa relação. Só que ASSUMIMOS.” (DANIEL, 1975 apud GREEN, 2018, p. 211). Além das questões relativas ao relacionamento - de fato - assumido, Green escreve sobre a vida profissional de Daniel no exterior, mencionando seu emprego como escritor em uma revista “tradicional feminina”. Foi em Portugal que ele teria tido contato com outras ideias revolucionárias como o feminismo, por exemplo, antes de retornar a Paris em 1976. Além disso, Green estabelece ainda algumas referências sobre as obras escritas por Daniel. Analisa-as e recorre a trechos do livro Passagem para o próximo sonho (1982), em que Daniel faz críticas ao “gueto” homossexual a partir de um viés marxista.

“De volta ao Rio (1981 - 1982)” é o capítulo em que Green historiciza a abertura política no Brasil e as mudanças ocorridas no cenário nacional a partir da Lei da Anistia de 1979. Apontando as dificuldades que Daniel enfrentou para conseguir a legalidade do retorno, o autor escreve sobre os trâmites necessários que precisaram ser enfrentados. Matérias de jornais denunciavam a existência do “último exilado” no intuito de publicizar o drama vivido por Daniel. Ao escrever uma carta à mãe parabenizando-a pelo aniversário de cinquenta anos, Daniel desabafa: “A solidão me transtorna, e eu tento conservar o maior sangue frio. Paciência porque eu sou paciente. Não é assim que eles vão me fazer quebrar. Resisto, embora me sinta completamente privado de amigos e companheiros.” (DANIEL, 1981 apud GREEN, 2018, p. 251). Depois de uma intensa campanha nacional e internacional, Daniel desembarcou no Brasil em 09 de outubro de 1981 onde encontrou outras formas de luta, diferentes daquelas das décadas anteriores, mas igualmente responsáveis e necessárias.

A partir da efervescência dos partidos políticos no início da década de 1970, Green escreve ainda sobre a participação de Daniel na esteira democrática, quando criou, por exemplo, o slogan político “Qualquer maneira de amor vale a pena”, além de escrever sobre as necessidades de organização para além da luta de classes.

Os dois últimos capítulos que encerram o volume - “A política do prazer (1986 - 1988)” e “40 segundos (1989 - 1992)” - são dedicados aos últimos anos de vida de Daniel. Nesse período, candidatou-se a deputado estadual pela coligação PT-PV e, em sua campanha política, defendeu diferentes pautas, desde os direitos dos homossexuais a questões ligadas ao meio ambiente. Realizou um intenso trabalho mobilizando setores que poderiam acreditar em sua plataforma, porém não obteve os votos necessários para assumir o cargo.

Em 1989, Daniel foi diagnosticado com AIDS. Apesar de seu histórico de luta em defesa das pessoas soropositivas e das suas críticas à falta de políticas públicas e à maneira como os meios de comunicação abordavam a doença - sempre associando-a à homossexualidade -, Daniel se viu desesperado, mas encontrou forças para reagir frente ao quadro que estava colocado. Foi a público falar sobre a doença e sobre a necessidade de romper com os preconceitos que o vírus HIV fez emergir naquele momento. Ao Jornal do Brasil escreveu o artigo “Notícias de outro mundo”, no qual destacou:

De um momento para outro o simples fato de dizer ‘Eu estou vivo’ tornou-se um ato político. Afirmar a minha qualidade de cidadão perfeitamente vivo é uma ação de desobediência civil. Por isso repito constantemente, desde que soube que estava com aids, que sou vivo e cidadão. Não tenho nenhuma deficiência que me imuniza contra os direitos civis. Apesar de farta propaganda em contrário. (DANIEL, 1989, p. 4-5 apud GREEN, 2018, p. 311).

James Green encerra o livro junto com a vida de Daniel fazendo ecoar o primeiro capítulo da narrativa: “Em 29 de março de 1992, num domingo à tarde, Herbert Eustáquio de Carvalho, conhecido como Herbert Daniel, faleceu, tendo Cláudio Mesquita, seu parceiro dedicado e amoroso, ao seu lado.” (GREEN, 2018, p. 329).

Revolucionário e gay: a vida extraordinária de Herbert Daniel traz abordagens importantes para a compreensão do que foi a ditadura civil-militar no Brasil e como se organizaram as diferentes resistências. Ao contar a trajetória de Herbert Daniel, James Green concilia memória e história, fazendo os intercruzamentos possíveis entre uma e outra, trazendo para o debate temáticas como a luta armada, o exílio, as questões de gênero, de sexualidade, a luta contra a discriminação a pessoas com HIV/AIDS, sem deixar escapar ao texto a sutileza dos sonhos, dos desejos, dos recomeços e do amor.

Referências

CARVALHO, Herbert Eustáquio de. Passagem para o próximo sonho: um possível romance autocrítico. Rio de Janeiro: Codecri, 1982. [ Links ]

GREEN, James Naylor. Revolucionário e gay: a vida extraordinária de Herbert Daniel. Trad. de Marília Sette Câmara. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. [ Links ]

1Green busca no livro Passagem para o próximo sonho: um possível romance autocrítico, de autoria de Herbert Daniel e publicado no Brasil em 1982, sustentações para compor grande parte da biografia.

Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista: PEREIRA, João Lenon Siqueira. “Uma escrita biográfica apaixonada”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 27, n. 3, e60793, 2019.

Financiamento: Não se aplica

Consentimento de uso de imagem: Não se aplica

Aprovação de comitê de ética em pesquisa: Não se aplica

Received: December 20, 2018; Revised: February 12, 2019; Accepted: May 26, 2019

lenonpereira2503@hotmail.com

João Lenon Siqueira Pereira (lenonpereira2503@hotmail.com) é mestrando em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina e pesquisa Ditadura Militar, Relações de Gênero e Impressos. Possui graduação em História pela mesma instituição, quando foi bolsista PIVIC (2016) e pesquisou relações entre história e literatura. Em 2017 foi bolsista PIBID História da UDESC. Atualmente, é professor substituto na Rede Municipal de educação de Florianópolis e ministra aulas nos anos finais do ensino fundamental.

Contribuição de autoria:

Não se aplica

Conflito de interesses:

Não se aplica

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