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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.27 no.3 Florianópolis  2019  Epub Oct 21, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1806-9584-2019v27n360959 

Resenha

Quem tem medo do feminismo negro? A urgência do debate racial no Brasil

Who’s Afraid of Black Feminism? The Urgency of Racial Argument in Brazil

1Universidade Federal de Santa Catarina, Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, Florianópolis, SC, Brasil. 88.040-900 - ppgich@contato.ufsc.br

RIBEIRO, Djamila. Quem tem medo do feminismo negro?. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. 148 p.p.


O debate sobre o feminismo negro não é apenas sobre identidade, mas um convite a rever e a repensar como algumas identidades são aviltadas. Quando se discute identidades, também está se dizendo que o poder deslegitima algumas em detrimento de outras. É necessária a derrubada do entendimento de que as mulheres negras estão dividindo o pensamento e o movimento feministas, é preciso e urgente que se ressignifique o conceito de humanidade, já que pessoas negras em geral, e mulheres negras especificamente, não são tratadas como humanas. “Uma vez que o conceito de humanidade contempla somente homens brancos, nossa luta é para pensar as bases de um novo marco civilizatório” (Djamila RIBEIRO, 2018, p. 27).

Essas são algumas questões e debates do livro da filósofa Djamila Ribeiro lançado em 2018 pela Companhia das Letras. Nascida em 1980, é mestra em filosofia política pela Unifesp e colunista das revistas Elle e CartaCapital on-line, foi secretária adjunta de Direitos Humanos e Cidadania da cidade de São Paulo. Além disso, coordena a coleção “Feminismos Plurais”, da editora Letramento, pela qual lançou o livro O que é lugar de fala? (2017). A autora nos convida a pensar feminismo negro como projeto democrático em um livro que desde o título lança um questionamento, Quem tem medo do feminismo negro?, que ela responde no decorrer da obra - mas mantenhamos o suspense por enquanto.

O livro inicia com um ensaio autobiográfico intitulado “A máscara do silêncio”, no qual as leitoras podem saber um pouco sobre a infância, adolescência e fase adulta de Djamila, todas marcadas pelo racismo e silenciamento. A ideia de máscara vem do conceito da pesquisadora Grada Kilomba, que faz uma analogia da máscara que pessoas escravizadas eram obrigadas a usar cobrindo a boca. O uso da máscara reforçava o desejo material do projeto colonial de impor silêncio. Silêncio esse que nega os direitos humanos e a possibilidade de existir de pessoas negras. Djamila Ribeiro se propõe a romper a máscara.

Nesse ensaio inicial, narra sua luta e encontro com estudos feministas, que se iniciaram quando trabalhou na Casa de Cultura da Mulher Negra, onde teve contato com outras mulheres negras militantes e iniciou um diálogo com escritoras como bell hooks, Alice Walker, Toni Morrison e Conceição Evaristo.

Essa introdução leva a pensar exatamente no conceito de escrevivência (Conceição EVARISTO, 2008), que aponta para o transbordamento da memória e sua montagem com a história, penetrando nos espaços em branco do texto. Ouvir as vozes apagadas é como reescrever essa mesma história. “Vai ser reconstruído o que se deseja que se erga novamente, e estará fadado à morte o que não se deseja reconstruir. História e memória não são construções inocentes. Ambas podem determinar e cumprir objetivos” (EVARISTO, 2008, p. 9).

Djamila conta sua história e faz com que a leitora entenda como ela chegou e porque chegou aos pensamentos e questionamentos de cada texto que integra o livro. Sua escrita, como ela mesma afirma, é um convite para compreender que diferença não é sinônimo de desigualdade. “Enquanto nós, mulheres negras, seguirmos sendo alvo de constantes ataques, a humanidade toda corre perigo” (RIBEIRO, 2018, p. 27).

Já a segunda parte traz a seleção de 34 artigos da autora publicados no blog da CartaCapital entre 2014 e 2017. Os textos acabam traçando a linha cronológica de pensamento da autora, já que salvo um ou dois que não obedecem uma ordem temporal, revelam transformações no tratamento de temas que se repetem dada a necessidade de retomá-los devido a novos acontecimentos.

Um desses temas é como a mídia trata o racismo, presente nos artigos “O verdadeiro humor dá um soco no fígado de quem oprime”; “Quando opiniões também matam”; “Zero Hora vamos falar de racismo?”; “Nem mulatas do Gois nem dentro de Grazi Massafera, Mulher negra não é fantasia de Carnaval”; e “A mulata globeleza: um manifesto”. “Sendo a sociedade racista, o humor será mais um espaço onde esses discursos são reproduzidos. Não há nada neutro - ao contrário, há uma posição ideológica muito evidente de se continuar perpetuando as opressões” (RIBEIRO, 2018, p. 29). A autora discorre sobre a programação de humor da televisão e os comediantes que usam do argumento da piada para propagar discursos racistas, como o humorista Danilo Gentili “que chamou de macaco um moço que discordou dele” (RIBEIRO, 2018, p. 30).

Djamila, com uma linguagem acessível e direta, escreve sobre o uso do termo opinião por comentaristas de televisão e articulistas de jornal, escudo protetor para propagar preconceito, e da criação de séries e novelas que exploram a sexualidade da mulher negra, transformando seus corpos em um fetiche e chamando-as de mulatas. “Trata-se de uma palavra pejorativa para indicar mestiçagem, impureza, mistura imprópria, que não deveria existir” (RIBEIRO, 2018, p. 99). O debate sobre o olhar e a influência da mídia na construção da imagem negativa da mulher negra também aparece quando a autora comenta os ataques a negras em posição de destaque, como a jornalista brasileira Maju Coutinho e a tenista norte-americana Serena Williams.

O tema da sexualidade e do corpo da mulher negra é explorado por Djamila Ribeiro em “O que a miscigenação tem a ver com a cultura do estupro?” e em “Eduardo Paes e a desumanização da mulher negra”. Nesses artigos a autora mostra que historicamente no Brasil há uma relação direta entre miscigenação e estupro. Djamila relembra que mulheres escravizadas eram forçadas a fazer o mesmo trabalho de homens escravizados, e, diferentemente deles, tinham os corpos violados pelo estupro. “Essa outra construção de feminino contrasta diretamente com aquela que as mulheres brancas lutarão para derrubar: a da mulher frágil, submissa e dependente do homem” (RIBEIRO, 2018, p. 117). Ela ressalta que atualmente as mulheres negras no Brasil ainda são o grupo mais violentado e que mais sofre violência doméstica.

Dentre vários méritos desta obra, vale destacar o fato de Djamila Ribeiro articular pensamentos de intelectuais feministas e negras para lançar questionamentos e rebater falas naturalizadas, como no artigo “Cansado de ouvir sobre machismo e racismo?” e também em “Racismo: Manual para os sem-noção”, no qual propõe argumentos para frases como: “não gostar de se relacionar com negras não tem nada a ver com racismo, ninguém manda no amor”, “vocês veem racismo em tudo”, “vocês precisam criar uma forma de unir as mulheres, e não separar”.

Em “Mulher negra não é fantasia de Carnaval” e em “Repúdio ao Blackface” a filósofa traz o entendimento de que manifestações culturais e a arte em geral não estão descoladas de valores culturais e nem tão pouco são neutras. Ela retoma a história da prática do blackface - o ato de homens brancos pintarem o rosto de preto para se caracterizarem de homens negros escravizados ou livres que se inicia durante a era dos shows dos menestréis (1830-90) - para denunciar: “O humor não está isento da ideologia racista. Isso é engraçado para quem? [...] Não somos fantasias de carnaval - não podemos ser ridicularizadas ou tratadas como meros corpos que sambam e rebolam. Respeitem nossa humanidade” (RIBEIRO, 2018, p. 49-50).

Em “Homens brancos podem protagonizar a luta feminista e antirracista?” trata da noção do lugar de fala, tema esse que ela explora ainda mais no seu primeiro livro O que é lugar de fala? (2017). A ideia central desse artigo é a de que qualquer pessoa pode falar sobre opressões, mas “se pessoas brancas continuarem a falar sobre pessoas negras, não vamos mudar a estrutura de opressão que já confere esses privilégios aos brancos” (RIBEIRO, 2018, p. 82).

Os primeiros trabalhos acadêmicos sobre racismo, por exemplo, foram feitos por pessoas não negras. Djamila Ribeiro explica que isso se dá justamente porque o racismo impede o acesso da população negra aos espaços acadêmicos. Ela usa a mesma lógica para tratar sobre a participação de homens no feminismo: “Se um homem quer se posicionar em relação ao feminismo, não precisa ganhar dinheiro escrevendo sobre isso. Pode conversar com seus conhecidos, repreender um amigo que chama uma mulher de gostosa e explicar que isso é assédio” (RIBEIRO, 2018, p. 83). Nesse sentido, Patricia Hill Collins escreve algo que podemos relacionar com os argumentos de Djamila Ribeiro. Se apenas pessoas brancas falarem de pessoas negras não haverá mudança nesse poder, já que “homens brancos poderosos definem-se como sujeitos, os verdadeiros atores, e classificam as pessoas de cor e as mulheres em termos de sua posição em relação a esse eixo masculino branco” (Patricia Hill COLLINS, 2016, p. 105).

A maternidade também é um tema que aparece nos artigos “Quem se responsabiliza pelo abandono da mãe?” e em “E se sua mãe tivesse te abortado?”, nos quais a autora trata do abandono da mãe pelo Estado e questiona o apedrejamento social quando uma mulher negra, por condições sociais, emocionais e estruturais, acaba abandonando um/a filho/a, ou quando tratam uma mulher que interrompe a gravidez como assassina. Djamila Ribeiro conta o episódio em que a mãe dela confidencia que durante a sua gestação tentou abortá-la, tomando um chá, para mostrar que esse episódio de medo é comum entre as mulheres. É partindo do particular, do que lhe diz respeito pessoalmente, que a autora nos mostra o coletivo.

E nos lança seus pensamentos sobre a história de sua mãe e tantas outras mulheres: “[...] vivemos em um país onde o Estado controla o corpo das mulheres, de modo que elas precisam passar por situações de descaso e desespero” (RIBEIRO, 2018, p. 97) e completa dizendo que se sua mãe ainda fosse viva ela a abraçaria para tentar tirar todo o medo e a angústia que ela sentiu durante a gestação, além da culpa de pensar que tentou abortar a filha. E por fim diria: “Mãe, não há o que perdoar. O Estado sabe muito bem o que faz” (RIBEIRO, 2018, p. 97).

Outro ponto importante em toda a obra de Djamila Ribeiro é sua escolha em usar epistemologicamente e apresentar às leitoras intelectuais negras para elaborar seus argumentos, trazendo obras de referência para a teoria feminista que fogem do contexto ocidental, branco e hegemônico. “Sim, esses discursos trazidos por essas autoras são contra hegemônicos no sentido de que visam desestabilizar a norma, mas igualmente são discursos potentes e bem construídos a partir de outros referenciais e geografias [...]” (RIBEIRO, 2017, p. 90).

Nem sempre a autora nos propõe respostas, mas nos provoca com questões, estratégia que fica explícita ao titular seus livros com perguntas: Quem tem medo do Feminismo Negro? e O que é lugar de fala?. O livro de Djamila Ribeiro é uma contribuição importante para os debates feministas e raciais no Brasil, e um convite para que, urgentemente, mais intelectuais negras sejam lidas no país. Como afirma a muito lida feminista estadunidense bell hooks: “Quando o trabalho intelectual surge de uma preocupação com a mudança social e política radical, quando esse trabalho é dirigido para as necessidades das pessoas, nos põe numa solidariedade e comunidade maiores. Enaltece fundamentalmente a vida” (bell hooks, 2005, p. 478).

Referências

COLLINS, Patricia Hill. “Aprendendo com a outsider within: a significação sociológica do pensamento feminista negro”. Sociedade e Estado, v. 31, n. 1, p. 99-127, 2016. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/se/v31n1/0102-6992-se-31-01-00099.pdf . Acesso em 20/07/2018. [ Links ]

EVARISTO, Conceição. “Escrevivências da afro-brasilidade: história e memória”. Releitura, Belo Horizonte, n. 23, p. 1-17, 2008. [ Links ]

HOOKS, bell. “Intelectuais negras”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 3, n. 2, p. 464-478, ago./dez. 2005. [ Links ]

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Justificando, 2017. [ Links ]

RIBEIRO, Djamila. Quem tem medo do feminismo negro?. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. [ Links ]

Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista: MALCHER, Monique; RIAL, Carmen Silvia. “Quem tem medo do feminismo negro? A urgência do debate racial no Brasil.”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 27, n. 3, e60959, 2019.

Financiamento: O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001

Consentimento de uso de imagem: Não se aplica

Aprovação de comitê de ética em pesquisa: Não se aplica

Received: January 07, 2019; Accepted: June 12, 2019

moniquemalcher@gmail.com

rial@cfh.ufsc.br

Monique Malcher (moniquemalcher@gmail.com) é doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas na Universidade Federal de Santa Catarina na Linha de Gênero e Sexualidade. Mestra em Antropologia pela Universidade Federal do Pará, na linha de pesquisa Gênero e Sexualidade. Graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade da Amazônia (2012). É escritora e tem interesse por pesquisa em feminismo, literatura e sexualidade.

Carmen Rial (rial@cfh.ufsc.br) é jornalista e antropóloga. Tem doutorado em Antropologie et Sociologie pela Université de Paris V (1992) e é professora Titular do Departamento de Antropologia da UFSC (1982), atuando no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (que já coordenou) e no Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas, que coordena. Foi professora visitante na UnB, UFRGS, Universidad de La República e Instituto Universitário de Lisboa. Foi visiting scholar na University of California, Berkeley e na Universidad de Cádiz. Realizou pós-doutorado no Laboratoire dAnthropologie Sociale (Collège de France/CNRS), na École dês Hautes Études en Science Sociale (EHESS), na Univesité de Toulouse e Estágio Sênior no Exterior/CAPES na City University of NY.

Contribuição de autoria:

Monique Malcher de Carvalho - Concepção; coleta de dados; análise de dados; elaboração do manuscrito; redação. Carmen Silvia Rial - Concepção; análise de dados; redação; discussão de resultados.

Conflito de interesses:

Não se aplica

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