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Texto & Contexto - Enfermagem

Print version ISSN 0104-0707

Texto contexto - enferm. vol.14 no.4 Florianópolis Oct./Dec. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-07072005000400006 

ARTIGO ORIGINAL
PESQUISA

 

Enfermeiras católicas em busca de melhores posições no campo da educação e da prática em enfermagem nos anos 40 e 50 no brasil, no século XX

 

Catholic nurses in search for superior station in the area of education and nursing practice in the 40's and 50's in brazil of the 20th

 

Las enfermeras católicas en la búsqueda del mejores posiciones en el campo de la educación y de la prática de enfermería en los años 40 y 50 en el brasil, en el siglo XX

 

Tatiana de Oliveira GomesI; Bruna Rocha da SilvaII; Suely de Souza BaptistaIII; Antonio José de Almeida FilhoIV

I Enfermeira graduada pela Escola de Enfermagem Anna Nery, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EEAN/UFRJ). Enfermeira residente em Enfermagem Neonatal do Instituto Fernandes Figueira. Membro do Núcleo de Pesquisa de História da Enfermagem Brasileira (Nuphebras)
IIGraduanda do 5º período da EEAN/UFRJ. Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Membro do Nuphebras
IIIDoutora em História da Enfermagem. Professora Visitante do Departamento de Enfermagem Fundamental (DEF), da EEAN/UFRJ. Membro do Nuphebras. Pesquisadora 1B do CNPq
IVDoutor em História da Enfermagem pela EEAN/UFRJ. Professor Assistente do DEF da EEANUFRJ. Membro do Nuphebras

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Estudo histórico-social que tem como objeto as lutas das enfermeiras católicas por melhores posições no campo da educação e da prática da enfermagem no Brasil. Recorte temporal: 1944-1956. Objetivos: descrever as circunstâncias que levaram as enfermeiras católicas a se organizarem politicamente; analisar a criação da União Católica das Enfermeiras do Brasil como estratégia de luta das enfermeiras católicas e; comentar a importância da União para o realinhamento do campo da educação e da prática da enfermagem no Brasil. Fontes primárias: documentos escritos e depoimento oral. Fontes secundárias: livros, artigos, teses e dissertações que abordam a temática. A União foi criada com a finalidade de congregar em uma só associação de classe, enfermeiras religiosas e católicas laicas. Assim contribuiu para o fortalecimento da enfermagem católica no campo da educação e da prática, instituindo um novo modelo de enfermagem na sociedade brasileira.

Palavras-chave: Enfermagem. História da enfermagem. Escolas de enfermagem.


ABSTRACT

This historical social study relates the fight of catholic nurses for superior stations in the area of education and nursing practice in Brazil. Its specific objectives were to describe the circumstances that made the catholic nurses organize themselves politically; to analyze the creation of the Union of Catholic Nurses of Brazil as it organizes the fight of the catholic; and to comment on the importance of the Union for the area of education and nursing practice. Primary sources were written documents and verbal deposition. Secondary sources were books, articles, theses and dissertations that were similar in thematic tone. The Union was created with the finality of congregating both religious nurses as well as catholic laymen in a single association of class, and has contributed a great deal to the fortification of catholic nursing within the area of education and nursing practice. Also, it contributed towards the increase in the number of catholic nursing schools in the 1940's and 1950's, and thus the inculcation of religious habits in the catholic nurses, instituting a new model of catholic nursing.

Keywords: Nursing. Nursing research. School's nursing.


RESUMEN

Estudio de cuño históricosocial, tiene como objeto: las luchas de las enfermeras católicas por mejores posiciones en el campo de la educación y de la práctica de enfermería en el Brasil. Tuvo como objetivos; describir las circunstancias que llevaron a las enfermeras católicas a organizarse políticamente; analizar la creación de la Unión Católica de las Enfermeras del Brasil como una estrategia de lucha de las enfermeras católicas y, comentar la importancia de la Unión para el realineamiento del campo de la educación y de la práctica de la enfermería en el Brasil. Fuentes primarias; los documentos escritos y testimonios orales. Se utilizaron como fuentes secundaras; libros, artículos, disertaciones y tesis que tratan sobre el tema. La Unión fue creada con la finalidad de congregar en una única asociación de clase, enfermeras-religiosas y enfermeras católicas laicas. Así contribuyó para asegurar el fortalecimiento de la enfermería de carácter católico en el campo de la educación y de la práctica, lo que instituyó un nuevo modelo de enfermería en la sociedad brasileña.

Palabras clave: Enfermería. Historia de la enfermería. Escuelas de enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

Até à Proclamação da República, "a Igreja Católica, instituição incorporada ao Estado, era responsável pela administração e pelos cuidados aos doentes, na maioria dos hospitais brasileiros, com destaque para as Santas Casas de Misericórdia. Após o final do regime monárquico, e com o apoio do movimento positivista, a classe médica assumiu os cargos de direção nas instituições hospitalares e a responsabilidade, por exemplo, pela admissão e alta dos pacientes; desta forma a Igreja perdeu espaço no campo da saúde".1:41-7;2:6

A partir de então, "a Igreja passou por diversas reformas internas, como a criação de novas dioceses, recrutamento e importação de novos membros, com a finalidade de reverter a decadência das últimas décadas. Esse movimento ficou conhecido como a Igreja da Neocristandade. Vale ressaltar que este modelo atingiu seu apogeu durante o governo de Getúlio Vargas (1930-1945) o qual estava embasado numa forte aliança entre o Estado e a Igreja Católica".1:41-7

Nesse período, "o número de escolas de enfermagem de cunho religioso aumentou, e entre elas foi criada a Escola de Enfermeiras do Hospital São Paulo. Mais tarde, em 1944, sob a liderança de Madre Domeneuc, ex-alunas desta Escola se reuniram e fundaram a UREB. Em 1948, com o intuito de fortalecer o movimento religioso no âmbito da enfermagem, a UREB fundou a UCEB, a qual congregava enfermeiras católicas laicas e religiosas".2:12-3;3:417-9

O presente estudo tem como objeto as lutas das enfermeiras católicas por melhores posições no campo da educação e da prática da enfermagem no Brasil. O recorte temporal compreende o período de 1944 a 1956. O marco inicial corresponde à criação da União das Religiosas Enfermeiras do Brasil (UREB), e o terminal à extinção da União Católica de Enfermeiras do Brasil (UCEB).

Para dar conta do objeto proposto, traçamos os seguintes objetivos: descrever as circunstâncias que levaram as enfermeiras católicas a se organizarem politicamente; analisar a criação da UCEB como estratégia de luta das enfermeiras católicas e; comentar a importância da UCEB para o realinhamento do campo da educação e da prática da enfermagem no Brasil.

Para tanto, tornou-se indispensável compreender o contexto histórico, político e social no qual se insere a presente pesquisa.

Este estudo, de cunho histórico-social, tem como fontes primárias: documentos escritos que integram o Acervo do Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN) como: atas das diretoras da EEAN, estatuto da UCEB, ofícios expedidos e o depoimento oral da enfermeira Cecília Pecego Coelho, e ofícios localizados no Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz - Fiocruz. Além disso, foram utilizados documentos fotográficos cedidos por Cecília Pecego Coelho, os quais foram empregados com caráter ilustrativo, para o melhor entendimento do leitor acerca do assunto em questão, sem receberem, portanto, análise documental. Tem como fontes secundárias: artigos, livros, teses e dissertações que abordam o contexto sócio-político do Brasil com destaque para a trajetória da Igreja Católica e da enfermagem, no período estudado. A literatura consultada encontra-se na Biblioteca Setorial de Pós-graduação da EEAN e no Banco de Textos do Núcleo de Pesquisa de História da Enfermagem Brasileira (Nuphebras). Vale ressaltar que a análise crítica dos documentos foi realizada face ao contexto no qual os mesmos foram produzidos e com base no conceito de habitus secundário, o qual é fruto da inserção das pessoas nos espaços sociais, sendo conseqüência de sua observação e ação em dada condição social, traduzindo as características intrínsecas e relacionais de uma posição em um estilo de vida único, em um conjunto único de escolhas de bens e de práticas.4:22-3

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE O PERÍODO EM ESTUDO

"A situação fragilizada da Igreja Católica, em meados do século XIX, caracterizava-se, sobretudo, devido ao reduzido número de padres e freiras em suas funções, além de seminários deficientes em quantidade e qualidade. Isso a levou a voltar-se para reformas internas, com o propósito tanto de melhorar sua posição social, como de se libertar da relação de dominação do Estado".1:41-2;5:80

Como a Igreja tentava manter sua hegemonia, as irmãs de caridade eram um instrumento necessário para disseminar na sociedade da época a ideologia do cuidado feminino, religioso-caritativo, aos fracos e incapacitados. O médico, até então, era "subordinado às religiosas, que decidiam inclusive a admissão e a alta dos doentes, demonstrando a hegemonia da Igreja Católica".2:6

A proclamação da República, em 1889, de inspiração positivista, trouxe idéias anticlericais do projeto de liderança da corporação médica, que tratava de construir um novo discurso, não só laico e civil, mas racionalista e cientificista, indo de encontro ao modelo de assistência à saúde até então vigente. Com isto, "a Igreja perdeu espaço na prestação de cuidados aos enfermos e na administração hospitalar".6:37

Em 1916, a Igreja Católica deu início ao modelo da neocristandade, o qual foi criado em nosso país sob o argumento do então arcebispo de Recife e Olinda, Dom Sebastião Leme que, entre outras questões, destacou a fragilidade da Igreja institucional, "as deficiências das práticas religiosas populares, a falta de padres, o estado precário da educação religiosa, a ausência de intelectuais católicos, a limitada influência política da Igreja e sua depauperada situação financeira".1:41

Contudo, somente na década de 20, é que o modelo da neocristandade ganha força e passa a favorecer a imagem da Igreja perante os políticos, os quais começam a entendê-la como um meio importante para "aumentar sua legitimidade" junto ao povo.1:42-47;5:77

A enfermagem também se empenhou no sentido de ampliar as bases de sustentação dos ideais católicos. Para isto, temos como exemplo o movimento que resultou do encontro de enfermeiras católicas de diversos países, no ano de 1928, em Basiléia, Suíça, com a finalidade de criar uma associação mundial de enfermeiras católicas, qual seja: o Comitê Internacional Católico de Enfermeiras e Assistentes Médico-Sociais (CICIAMS). Tal Comitê tinha como objetivos: "estimular, em todos os países, a criação e o desenvolvimento de associações profissionais católicas a fim de assegurar apoio moral e espiritual às enfermeiras e assistentes médico-sociais católicas, bem como seu aperfeiçoamento técnico".3:416;7:381

Anteriormente à criação do CICIAMS, aos doze dias do mês de agosto de 1926, foi fundada a primeira entidade representativa das enfermeiras, a qual recebeu o nome de Associação Nacional de Enfermeiras Diplomadas (ANED)*. Esta "foi criada por iniciativa de ex-alunas e professoras da Escola Anna Nery (EAN) com o intuito de adicionarem a seus diplomas uma credencial de membro da referida associação".3:33-58

No período da Era Vargas, a aliança entre a Igreja e o Estado se torna mais evidente e o modelo da neocristandade atinge seu apogeu. Tal fato pode ser reforçado, sobretudo pela afinidade política, ou seja, "a Igreja se enquadrava aos lemas do governo de Getúlio Vargas, quais sejam: nacionalismo, patriotismo e anticomunismo".1:43-7

Com o decreto 20.109/31 que reconheceu a EAN como "escola oficial padrão", o qual afirmava que só seriam reconhecidos como enfermeiros os portadores de diploma fornecido ou revalidado pela EAN, "a Igreja procurou amparo legal para as religiosas que trabalhavam nos hospitais. Para isso, foi fundamental a aproximação de Laís Netto dos Reys, diplomada da turma pioneira da EAN em 1925, com a Igreja Católica. Laís dirigiu e organizou a primeira escola a formar religiosas no Brasil, a Escola de Enfermagem Carlos Chagas. Tal fato tornou-se extremamente importante, para defender o espaço da Igreja no campo da enfermagem". 2:12-3; 8:15-6; 9:46

Por outro lado, o decreto nº 22.257, de 26 de dezembro de 1932, assinado por Vargas, possibilitou, às religiosas, direitos iguais aos das enfermeiras diplomadas, desde que comprovassem seis ou mais anos de prática em enfermagem. Contudo, "esse direito era restrito ao âmbito hospitalar".6:37

Ainda nesta época, a Liga Eleitoral Católica, formada no período da neocristandade, a qual tinha participação direta na decisão do voto dos católicos, teve suas reivindicações incorporadas à Constituição de 1934. Entre elas estavam "o apoio financeiro do Estado à Igreja e a exigência da educação religiosa durante o período escolar".1:48

Vale ressaltar que mesmo após a extinção da Constituição de 1934, em novembro de 1937, com a implantação do Estado Novo (1937-1945), "a relação entre a Igreja e o estado fortaleceu-se mais ainda".5:84; 10:369

Durante os governos de Vargas, houve um grande investimento na área da educação, visto que este presidente percebia o ensino como um instrumento necessário para a formação de mão de obra qualificada, bem como um meio eficaz de difundir sua ideologia governamental. Tal estratégia teve repercussões no campo da educação em enfermagem, tanto que entre 1930 e 1945 foram criadas treze novas escolas. "Na década de 30, foram criadas 5 escolas de enfermagem no Brasil: 2 em Goiás; 1 em Minas Gerais; 1 no Rio de Janeiro e 1 em São Paulo; totalizando 3 na região sudeste. Dessas escolas 2 eram católicas; 2 evangélicas e 1 estadual".2:12-3

Durante o Estado Novo, foram criadas dez escolas de enfermagem, sendo seis católicas, três estaduais e 1 municipal. "A distribuição geográfica destas escolas demonstra a predominância da região Sudeste sobre as demais: Sudeste - 6, Nordeste - 2, Centro-Oeste - 1 e Norte 1".2:9-15 É fato também que até 1945 a região Sul não contava com escolas de enfermagem.

Cabe considerar que, no ano de 1944, a ABED "apresentava o reduzido número de 60 associadas quites".8:163 Este fato demonstra que tal associação já "não vinha despertando o interesse das enfermeiras",3:33 visto que esse quantitativo representava "4,2% do número total de 1405 enfermeiras diplomadas à época na cidade do Rio de Janeiro".11:4

E assim, "durante a década de 40, foram organizados dois movimentos associativos, quais sejam: a União das Religiosas Enfermeiras do Brasil (UREB) e a União Católica de Enfermeiras do Brasil (UCEB)".12:doc. 01

Como vimos anteriormente, a UREB, que foi criada no ano de 1944, por ex-alunas da Escola de Enfermeiras do Hospital São Paulo, "tinha como finalidade reunir as enfermeiras-religiosas em um grupo distinto".3:417 "Depois de organizada e com o estatuto pronto, esta associação visando seu fortalecimento, filiou-se ao CICIAMS".3:417, 8:163

Em 1948, com o objetivo de se aproximar das enfermeiras católicas leigas e com o propósito de existir em âmbito nacional, sob o lema "Ubi caritas, Ubi Christus" ("Onde está a caridade, aí está Cristo"), a UREB fundou a UCEB.3:419

A UCEB: sua atuação e contribuição no campo da educação e da prática da enfermagem

Aos quatro dias do mês de abril de 1948, a UREB fundou a UCEB, sob a benção apostólica de sua Eminência o Cardeal D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, arcebispo de São Paulo, e na presença de sua Excelência D. Antônio Maria Alves Siqueira, Bispo Auxiliar de São Paulo. A UCEB visava estabelecer entre os seus membros uma união fraterna em Cristo, favorecendo-lhes uma vida profissional eficiente e em espírito apostólico. Com o intuito de obter maior aproximação e entendimento entre as religiosas-enfermeiras e as enfermeiras católicas leigas, cabia à essa organização "desenvolver, proteger e encorajar a vida espiritual, profissional, cultural e social das enfermeiras católicas".12:doc.15, doc.21;3:419

Parte integrante da União Mundial de Enfermeiras Católicas, a UCEB foi, portanto, uma organização nacional de enfermeiras católicas, diplomadas por Escolas oficiais e registradas na Divisão do Ensino Superior do Ministério da Educação e Saúde.12:doc.06

Durante o II Congresso Nacional de Enfermagem realizado no ano de 1948, a "UCEB elegeu sua primeira diretoria, que ficou assim constituída: Celina Viegas -presidente; Cecília Pecego Coelho - vice-presidente; Aurea Marques da Silva - 1ª secretária; Flora Mesentier - 2ª secretária e Cecília Sete Torres - tesoureira. Nessa mesma oportunidade, a então diretora da EAN, Laís Netto dos Reys, foi eleita, por aclamação, presidente de honra da UCEB".3:419-20; 12:doc.21

Fundada com a meta de se "difundir por toda a parte", a UCEB pretendia organizar-se com aproximadamente cinco enfermeiras católicas em secções diocesanas, visando a "promoção dos ideais cristãos, tanto na vida privada quanto na profissional".12:doc.06 É interessante ressaltar que a enfermeira, de acordo com o instrumento de apostolado da UCEB, era considerada como figura terna, caridosa, que deveria fazer além dos procedimentos técnicos pelo paciente, isto é amá-los e compreendê-los.

Através de suas secções diocesanas, a UCEB pretendia a "recristianização da sociedade, no setor de enfermagem". 12:doc.06 Intitulava como responsabilidade da enfermeira católica: manter a unidade das enfermeiras católicas na sua profissão; preservar a prática dos ideais cristãos; habilidade para saber e responder algumas questões de princípios cristãos e, retidão na vida pública, e desta forma, poderia exercer influência profunda a fim de difundir os princípios católicos.

Assim, a UCEB constituía-se em uma congregação que visava uma cooperação entre seus membros, "pregando e praticando boa vontade e compreensão" fazendo com que as enfermeiras católicas exercessem suas atividades profissionais embasadas à luz da doutrina da Igreja.12:doc.06

No dia 1º de maio de 1950, dois anos após a sua criação, a UCEB lançou seu primeiro boletim, determinado como órgão de divulgação oficial desta associação. Este, inicialmente seria trimestral, e "objetivava publicar notícias das atividades dos diversos núcleos, bibliografia de formação cristã e profissional, pequenas notas de liturgia e pensamento".12:doc.21

De maneira geral, o primeiro boletim "apresentou a União, seus objetivos, a finalidade do impresso, bem como os membros da diretoria e a presidente de honra, eleitas durante o II Congresso Nacional de Enfermagem, como referido anteriormente".12:doc.21

O segundo boletim, datado de 28 de novembro de 1950, tratou do "IV Congresso do CICIAMS, realizado em Roma, entre os dias 5 e 9 de setembro, com a participação das enfermeiras católicas brasileiras, entre elas: Cecília Pecego Coelho, presidente da UCEB à época".12:doc. 11

 

 

No ano seguinte, a UCEB lançou seu terceiro boletim, o qual reforçava a importância da associação, além dos valores vinculados à profissão. Sendo assim, consta do mesmo que "a UCEB congregando todas as enfermeiras que realmente desejam viver sua religião permitirá: união, aperfeiçoamento profissional e intensificação de sua formação cristã" (12: doc.14). Em 9 de setembro de 1951, "a Assembléia Geral da Seção de São Paulo da UCEB aprovou o ante-projeto de um código de ética para enfermeiras".3:420; 12: doc.14 Ainda em 1951, "a presidente da UCEB, Cecília Pecego Coelho, encaminhou-o à diretoria da ABED".12:doc.12

O conteúdo desse ante-projeto constou do terceiro boletim da UCEB e, entre outros pontos, elucidava como deveria ser "a relação da enfermeira com o doente, com o médico, com as colegas, bem como as normas que deveriam ser cumpridas na postura de cidadã".12:doc.14

O quarto boletim, publicado em 1952, ressaltava o "contexto da fundação da UCEB, sobretudo seus objetivos e metas a partir do discurso do Papa Pio XI proferido às Enfermeiras Católicas no II Congresso do CICIAMS, realizado em Roma, no ano de 1935. Além disso, continha informações referentes à seção São Paulo, e orações ao doente católico".12:doc.06

Até 1952, quatro boletins, distribuídos gratuitamente foram publicados, todos com a expressão "Ubi Caritas, Ibi Christus" evidente na folha principal.12:doc.21 Podemos inferir que a publicação destes boletins foi de grande valia para difundir as propostas da UCEB, bem como suas realizações.

 

 

Cabe ressaltar que, de acordo com seus boletins de divulgação, a UCEB formou secções no Distrito Federal, São Paulo, Minas Gerais e Juiz de Fora ao longo dos seus anos de atividades.

A expressiva atuação das enfermeiras católicas alcançou a ABED. "Após a criação da UCEB, as enfermeiras a ela filiadas assumiram diversos cargos na ABED, tais como; o conselho fiscal e a vice-presidência. Em 1950, D. Waleska Paixão, católica fervorosa, à época diretora da EAN, assumiu a presidência da ABED até o ano de 1952, sendo sucedida por outra enfermeira católica D. Glete de Alcântara, a qual permaneceu no cargo até 1954".3:46-55

Um ponto que vale destacar é o de que "a UCEB colaborou decisivamente para o aumento do número de Escolas de Enfermagem, de cunho católico, durante a década de 40, visto que anteriormente à sua criação, havia 19 escolas de enfermagem, sendo que 10 eram de cunho religioso. Contudo, temos que considerar também que, no período de 1944 a 1948, a UREB já expandia seus princípios, influenciando, portanto, o aumento do número de escolas católicas, se comparado aos das décadas anteriores. Vale destacar que, no período de 1948 a 1956 (período de existência da UCEB), mais 17 escolas de enfermagem foram criadas, sendo 13 vinculadas à Igreja Católica, o que representa um número deveras expressivo".2:10-5 Este incremento do número de escolas vinculadas à congregações católicas possibilitou um aumento expressivo da inserção do número de religiosas, diplomadas enfermeiras, no campo da enfermagem.13:71-2

Então, com este significativo aumento no número de escolas de enfermagem, a UCEB conseguiu atingir seus objetivos primordiais: difundir os preceitos católicos, bem como inculcar o habitus religioso nas futuras enfermeiras. O fato é que a inserção no mercado de trabalho de um grande contingente de enfermeiras formadas sob os preceitos católicos, determinou o realinhamento do campo da educação e da prática da enfermagem no Brasil.

"No dia 8 de dezembro de 1956, a UCEB foi extinta, pois seus membros concluíram que a profissão não necessitava de uma associação eminentemente católica, visto que não existia no Brasil uma associação anticatólica". 3:421 Outro fator importante a ser mencionado foi a dificuldade em conciliar o trabalho nas duas associações (UREB e UCEB) de maneira eficaz e efetiva, além do entendimento de que a atuação das enfermeiras católicas junto à ABED, ao invés de isoladamente, poderia ser mais eficiente.

Quanto ao término das atividades da UCEB, cabe destacar um trecho da entrevista de Cecília Pecego Coelho: terminou porque éramos poucas e entendíamos que tinha que ser uma coisa só (...) ter duas associações de classe ABED e UCEB - era muito difícil (...) Na minha opinião, a questão financeira foi o que mais forçou a união da UCEB com a ABED (...).14

Durante o período de sua existência, "a UCEB procurou, orientada pelo pensamento cristão, unir as enfermeiras católicas, seja através da elaboração dos boletins, diversas peregrinações e reuniões pelo Brasil".12:doc.10,doc.19,doc.31 A união destas enfermeiras católicas permaneceu mesmo após a fusão da UCEB com a atual ABEn. O grupo continuou unido e se reunia sempre dentro da ABED quando havia a necessidade de se brigar e tomar resoluções necessárias.14

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No final do século XIX, a Igreja Católica encontrava-se em uma situação fragilizada, em virtude, sobretudo, do reduzido número de padres e freiras em suas funções, bem como seminários deficientes em quantidade e qualidade. Além disso, a classe médica conseguiu se instituir na direção de hospitais e no cuidado de pacientes, cargos até então assumidos pelas irmãs de caridade.

Em 1916, a Igreja inicia o modelo da neocristandade, passando por mudanças internas e, a partir do final da década de 20 tal modelo adquiriu força.

Durante o Governo Vargas, houve um grande investimento na área da educação, havendo um aumento do número de escolas de enfermagem católicas. A participação de Laís Netto dos Reys, ex-aluna da turma pioneira da EAN, foi importante para a criação destas escolas, elevando o número de enfermeiras religiosas diplomadas.

Neste contexto, durante a década de 40, foram organizados dois movimentos associativos: A UREB, criada em 1944, com a finalidade de reunir as religiosas-enfermeiras e a UCEB, criada em 1948, cujo propósito maior era o de aproximar enfermeiras católicas laicas das enfermeiras-religiosas. As enfermeiras que integravam a UCEB deveriam apresentar um perfil considerado adequado: terna, caridosa e ser capaz de amar e compreender os doentes.

A UCEB contava com um órgão de divulgação oficial, com publicação trimestral, cujo lema era Ubi caritas, Ibi Christus.

É fato que a UCEB colaborou para o aumento do número de escolas de enfermagem de cunho católico, e mesmo após sua dissolução, em 1956, continuou a influenciar a criação de novas escolas católicas. Desta forma conseguiu atingir seus objetivos, instituindo no campo da educação formal de enfermagem, um novo modelo acadêmico-profissional baseado no habitus religioso.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Tatiana de Oliveira Gomes
Av. Nova York, 30, casa 01/201
21041-040 Bonsucesso, Rio de Janeiro, RJ
E-mail: tati.oliveiragomes@ig.com.br

Recebido em: 11 de maio de 2005
Aprovação final: 31 de outubro de 2005

 

 

* 12 de agosto de 1926: Associação Nacional de Enfermeiras Diplomadas (Aned); 1 de junho de 1929: Associação Nacional de Enfermeiras Diplomadas Brasileiras (Anedb); 7 de agosto de 1944: Associação Brasileira de Enfermeiras Diplomadas (Abed); 21 de agosto de 1954: Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn)