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Texto & Contexto - Enfermagem

versão impressa ISSN 0104-0707versão On-line ISSN 1980-265X

Texto contexto - enferm. v.14 n.spe Florianópolis  2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-07072005000500005 

ARTIGO ORIGINAL
PESQUISA

 

A identificação da violência doméstica e da negligência por pais de camada média e popular

 

Domestic violence and negligence identification by middle and popular classes parents

 

La identificación de la violencia doméstica y de la negligencia por los padres del condición social media y popular

 

 

Vanessa DelfinoI; Zélia Maria Mendes Biasoli-AlvesII; Mírian Botelho SagimIII; Fabiola Perri VenturiniIII

IDoutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP)
IIProfessora Titular do Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP
IIIDoutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP

Endereço

 

 


RESUMO

Os objetivos desta pesquisa consistiram em analisar as concepções de pais, de diferentes camadas sociais, sobre violência doméstica contra a criança, os tipos de agressões que relatam, a definição que dão para esses comportamentos e seu nível de detecção da violência em seu meio. Para cumprir tais objetivos foi elaborado um roteiro estruturado de entrevista que tomou por base um trabalho de investigação das práticas de cuidado e educação de filhos, ficando o roteiro composto de 15 questões. Participaram 48 pais, 24 de camada média e 24 de camada popular. Os resultados indicam que tanto pais de camada média quanto popular têm conhecimento da violência doméstica contra a criança, mas ao mesmo tempo, há diferenças na forma de um e outro perceberem a violência. Esses dados indicam a necessidade de mais pesquisa sobre essa temática.

Palavras-chave: Violência doméstica. Negligência. Família.


ABSTRACT

The objectives of this research consisted in the analysis of parents, from different social classes, conceptions about domestic violence against children, the types of aggression reported, the definition given to these behaviors and the violence detection level in their environment that they present. To accomplish these objectives it was elaborated one structured interview guide, based in another work research about chidrearing practices, composed of 15 questions. 48 parents participated and they were divided in two groups: 24 of middle class and 24 of popular class. The results indicate that both groups of parents know about domestic violence, unless some differences were observed between them. These results indicate the need of more researches about this subject.

Keywords: Domestic violence. Negligence. Family.


RESUMEN

Los objetivos de esta pesquisa consistió en analizar las concepciones de padres, de diferentes estatus sociales, sobre la violencia domestica contra los ninõs, los tipos de agresiones que relatan, la definición que dan para estos comportamientos y el nivel de detección de la violencia en su medio. Para cumplir tales objetivos fue elaborado un itinerário através de uma entrevista estruturada que tomo por base un trabajo de investigación sobre las prácticas de la educación de los hijos, siendo esta compuesta de 15 preguntas. Participaran 48 padres de família, 24 del clase media y 24 del estrato social popular. Los resultados indican que tanto los padres del nível social medio cuanto del popular tienen conocimiento de la violência domestica contra los ninõs, pero al mismo tiempo, existe una diferencia en la forma de uno y de outro de percibir la violencia. Estos datos indican la necesidad de más investigaciones sobre el tema.

Palabras clave: Violencia domestica. Negligencia. Familia.


 

 

INTRODUÇÃO

Para estudar o que ocorre no ambiente familiar é importante que se parta de uma definição das perspectivas sob as quais se focaliza o tema Família. De um lado, existem as concepções que são baseadas na sua estrutura, que afirmam ser ela "um grupo social composto de indivíduos diferenciados por sexo e por idade, que se relacionam cotidianamente, gerando uma complexa e dinâmica trama de emoções".1:77 De outro, há estudos que priorizam vê-la segundo suas funções, considerando-a como elemento básico da sociedade, além de ser o ambiente natural para o crescimento e bem estar de seus membros; nesse caso, há um foco particular nas crianças, que devem receber a proteção e a assistência necessárias para se desenvolverem plenamente, o que significa que ela é, então, considerada como o primeiro ambiente socializador, responsável pelo cuidado e sobrevivência da geração mais nova, bem como pela transmissão de valores, estabelecendo os relacionamentos e as condições para a formação da personalidade da criança, e de sua visão de mundo.2 E, mais recentemente, a Família passou a ser considerada como o ambiente da efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à educação, ficando atribuído aos adultos a tarefa de zelar pelo seu cumprimento.

O que se pode dizer é que uma abordagem mais completa deve levar em conta todos esses aspectos, com atenção particular a que ela se constitui no ambiente prioritário de socialização durante a infância e que cabe aos pais a responsabilidade pelo respeito aos seus direitos.

Adotada esta perspectiva, pode-se perguntar se ela é sempre e totalmente cumprida, porque têm sido verificadas diferenças grandes entre o que se apresenta como ideal e o que a realidade mostra, uma vez que situações em que as funções atribuídas à família não se efetivam e as tarefas afeitas aos adultos não chegam a acontecer ou são modificadas e até invertidas, vem sendo observadas e registradas com bastante freqüência, como os casos de violência doméstica de pais contra os filhos, que transformam um ambiente que deveria ser da maior segurança em um lugar desprovido de qualquer forma de respeito e proteção.

A constatação desta inversão em momentos históricos e culturais diversos, bem como em diferentes estratos sociais acabou por gerar uma nova área de investigação, que tem sim evidenciado que existem maneiras muito diversificadas de os adultos lidarem com as crianças e considerarem o que seria uma prática de educação inadequada e mesmo o que caracterizaria um ato de violência contra a criança. É-se, então, levado à conclusão de que o que hoje se chama de violência de pais contra os filhos não era antes visto desta forma; ainda que seja uma constante, seja de cultura para cultura, ou ao longo do tempo, bem como dentre as diferentes camadas sociais,3,4 que os responsáveis pela educação da criança tentem cumprir suas atribuições, conforme mostram os estudos na área de História das Mentalidades.

Trata-se de um fenômeno presente desde sempre na raça humana, de forma diferente, tanto assim que existem muitos exemplos de sociedades em que as crianças eram, inclusive, sacrificadas: em Esparta, as portadoras de defeitos físicos tinham sua morte decretada; em Roma, os varões portadores de deficiências físicas e mentais eram executados, meninas eram, em certas circunstâncias abandonadas,5 em Cartago, segundo evidências arqueológicas, eram freqüentes os sacrifícios de crianças aos Deuses.6

Do período da Idade Média tem-se pouca informação sobre a maneira de lidar com a criança, sendo evidenciado pela literatura que o Renascimento é que colocará em discussão a condição da infância, como também a da mulher, do escravo, do doente. Posteriormente, já na sociedade burguesa, o processo de escolarização trará a implantação dos castigos, bem como uma separação maior entre o mundo da criança e o dos adultos.

"A família e a escola retiraram juntas a criança da sociedade dos adultos. A solicitude da família, da Igreja e dos administradores privou a liberdade que ela gozava entre os adultos. Infligiu-se o chicote, a prisão, em suma, as correções reservadas aos condenados das condições mais baixas".3:277-8

A revisão da literatura mostra que o primeiro estudo científico sobre a violência contra a criança foi realizado na França, em 1860, pelo Prof. Ambroise Tardieu, quepublicou um trabalho feito com crianças espancadas que chegavam ao hospital, em que havia grandes discordâncias entre as explicações fornecidas pelos agressores e as características das lesões.5 Mas, neste período, a França era governada por Napoleão III de forma autoritária, e a sociedade tinha na preservação da família e no poder paterno normas incontestáveis; portanto, o trabalho de Tardieu não teve repercussão nos meios intelectuais da época e não houve seguidores da sua pesquisa.

Nos Estados Unidos, a violência doméstica contra crianças veio ao conhecimento do público, também no século XIX, através do caso da menina Mary Ellen, de 8 anos, severamente maltratada, o que levou à fundação da Sociedade de Prevenção da Crueldade contra Crianças. O século XX foi preconizado como o século da infância e, de fato, viu-se surgir uma preocupação voltada para a criança e seus direitos, trazendo para a cena o problema da violência.

Em 1962, Silverman e Kempe publicam artigo importante, descrevendo a Síndrome da Criança Espancada, evidenciando para a comunidade o problema da lesão infligida; este trabalho atinge primeiro a classe médica, que tenta assumir a hegemonia da questão, mas com a gravidade e expansão do fenômeno, a partir dos anos 70, a violência doméstica passa a ser estudada por profissionais de várias áreas, mantendo-se a atenção sobre ela e uma divulgação ampla.

No Brasil, sabe-se através de estudos históricos que os índios não usavam os castigos físicos como forma de disciplinar os filhos. Já em 1591 um jesuíta escreveu: "nenhum gênero de castigo tem para os filhos; nem há pai nem mãe que em toda a vida castigue nem toque em filho, tanto os trazem nos olhos. Em pequenos são obedientíssimos a seus pais e mães, e todos muito amáveis e aprazíveis; têm muitos jogos a seu modo, que fazem com muito mais festa e alegria que os meninos portugueses".6:76-7

Portanto, a aplicação de castigos físicos às crianças brasileiras foi introduzida pelos padres da Companhia de Jesus, na era colonial, que afirmavam serem eles importantes para a vida futura, reservando aos que faltavam à escola jesuítica as palmatórias e o tronco. Os índios, por sua vez, se indignavam com tais atitudes, que não praticavam, e seus filhos abandonavam a escola, tentando fugir de um modo de educação jamais visto e não aceito.

O tempo passou, mas os castigos ficaram cada vez mais usados; eles visavam ensinar às crianças que a obediência era a única forma de escapar da punição,7 e até o século XIX não houve mudanças; as práticas corretivas eram aceitas como a forma certa de disciplinar, e chega-se às primeiras décadas do século XX com os pais castigando severamente seus filhos, para que fossem obedientes e bem comportados.

Idéias novas irão aparecer entre a década de 20 e o final da de 40, algumas diretamente influenciadas por macro variáveis do social como as duas grandes guerras, outras pelo avanço do conhecimento em áreas como a Medicina, a Psicologia do Desenvolvimento e, por volta dos anos 50, começaram a ser estimuladas formas mais brandas de disciplina, diminuindo a ênfase na punição, porque o objetivo agora era preservar a infância como um tempo especial, visando a felicidade, a alegria da criança, além de querê-la bem educada.7, 8

A segunda metade do século XX trará uma exacerbação, como conseqüência da procura constante pela orientação fundada no conhecimento científico e a fala dos especialistas, de que é necessário dar liberdade às crianças, permitir que elas realizem suas vontades, cuidar para que tenham um desenvolvimento pleno. Com base em pesquisa realizada com famílias de camadas médias, tem-se que as práticas de educação da criança nas últimas décadas do século XX passam a priorizar a permissividade e a comunicação, sendo "o deixar ser e fazer" visto como o ideal; as orientações são no sentido de que os pais tomem decisões ouvindo a criança de modo a fortalecer sua autonomia e independência, lidem com o comportamento inadequado usando de explicações, dizendo o porquê do certo e do errado, busquem um padrão de controle familiar orientado para a pessoa, levem em consideração os sentimentos, experiências e motivações da criança.9

Porém, há que assinalar que essas mudanças de valores não atingem ao mesmo tempo a todas as camadas sociais e, sobretudo que, numa hierarquia de preocupações, primeiro vem a sobrevivência e não a educação; há, portanto, uma diversidade muito grande na maneira de lidar com a criança no final do século XX e início do XXI e muito do que hoje é considerado como violência já fez e ainda pode fazer parte do modo visto como correto ou desejável de os filhos serem educados; tanto é assim, que a análise das queixas e de estudos clínicos evidencia que as punições físicas e verbais não deixaram de ser usadas, prevalecendo ainda uma educação baseada no princípio de que se corrige o errado batendo e castigando, numa concepção distante da que enfatiza a necessidade de promover o certo através da explicação.10

Entretanto, em um grande número de situações, a ação do adulto ultrapassa a idéia de correção e adquire o contorno do que se chama de violência, com abuso do poder disciplinador dos pais e ações que chegam a ser cruéis. Esta constatação está de acordo com o que dizem alguns autores: "a violência doméstica contra crianças implica [...] transgressão do poder de proteção do adulto e [...] coisificação da infância, isto é, negação do direito que elas têm de serem tratadas como sujeitos e pessoas em condição peculiar de desenvolvimento".5:14

Alguns autores têm buscado identificar os tipos de violência doméstica contra a criança que são encontrados; os dados mostram que: 1) primeiro aparece a Física, entendida como o emprego da força, de forma não acidental, por pai, mãe ou responsável, podendo causar ferimentos; 2) depois vem a Sexual, configurada como ato ou jogo sexual numa relação hetero ou homo, entre um ou mais adultos e a criança, tendo por finalidade estimulá-la sexualmente ou utilizá-la para sua satisfação; 3) segue-se a Negligência, definida como ato ou omissão no prover as necessidades físicas e emocionais da criança, como a falha dos pais no alimentar, vestir adequadamente seus filhos, mesmo tendo condições para tal; 4) e a Psicológica, que ocorre quando o adulto deprecia a criança, bloqueia seus esforços de auto-aceitação, causando-lhe sofrimento emocional.6

Entretanto, como já se comentou, em diversas épocas da história "o bater", "o negligenciar", "o abandonar", "o disciplinar rigidamente" foram os padrões aceitos pela sociedade. Analisar, pois, o que hoje é denominado de violência de pais contra os filhos implica em discutir uma série de aspectos. Iniciando pelo levantamento do que a literatura traz como causa desse comportamento, aparecem desde baixa tolerância à frustração e ao estresse até problemas psicológicos, uso de álcool e drogas.11 Também, há estudos evidenciando que uma proporção elevada de pais que maltratam seus filhos foram eles próprios agredidos em sua infância, no seio da família, o que pode levá-los a não perceber sua forma de ação como sendo uma violência, e sim como a única maneira de educar.

Neste sentido, mostrou-se importante investigar como os pais, responsáveis diretos pelo cuidado e desenvolvimento das crianças, encaram estas questões no seu dia a dia. Este estudo visou, pois, verificar primeiro como os pais dizem lidar com o comportamento inadequado do filho, segundo, o que eles sentem quando o punem fisicamente, terceiro, qual a percepção que eles têm da violência doméstica contra a criança, quais os tipos de comportamento agressivo que já viram e, por fim, se este fenômeno é igualmente conhecido em duas camadas sociais.

 

MÉTODO

Para cumprir os objetivos desse estudo usou-se como estratégia de coleta de dados uma entrevista estruturada, cujo roteiro tomou por base um trabalho de investigação das práticas de cuidado e educação de filhos, na faixa etária dos 3 aos 8 anos, ficando o instrumento composto por 15 questões*, algumas abertas e outras fechadas.12

Participantes

Seis escolas da cidade de Ribeirão Preto (SP) foram selecionadas, sendo três privadas e, portanto, freqüentadas por crianças de camada média e três públicas, situadas em bairros de periferia, com alunos de camada popular, obtendo-se dois grupos, cada um com 24 pais de alunos de 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental, numa distribuição de dois por série, somando um total de 48 participantes.

A idade dos pais de camada média é de 37,5 anos e dos de camada popular, 35,4 anos, indicando, pela pequena diferença entre os dois grupos, que os pais de camada média são ligeiramente mais velhos. Quanto à escolaridade dos participantes, os dados estão na Tabela 1.

 

 

Os dados indicam uma diferença grande no nível de escolaridade dos pais de crianças de escolas de camada média e popular; os primeiros têm nível universitário completo e incompleto (cerca de 75 %), seguindo-se o ensino médio (cerca de 17%); os segundos concentram-se no ensino fundamental incompleto (cerca de 71%) e não há quem tenha ensino superior, mesmo que só iniciado. Portanto, pais de crianças que freqüentam escolas privadas têm um grau mais elevado de escolaridade, quer em termos do número de anos de freqüência à escola, quer no que diz respeito aos certificados obtidos, sendo significativa a diferença entre os dois grupos.

Procedimento

O procedimento implicou primeiramente em apresentar o projeto à direção de cada Escola e depois solicitar sua anuência para entrar em contato com os pais; obtida essa concordância, os possíveis participantes foram procurados e solicitado a eles que, em concordando, assinassem o Termo de Consentimento Esclarecido. A seguir foram agendados o dia, o horário e o local de sua preferência para a sessão de entrevista, que, com seu consentimento, foi gravada. Uma parte das entrevistas foi realizada na própria Escola, em sala designada pela Diretoria para tal, parte na residência dos pais, seguindo-se sua escolha e tiveram, em média, duração de 30 minutos.

 

RESULTADOS

Os dados desta pesquisa foram analisados segundo o sistema Quantitativo e o Quantitativo-Interpretativo e tomou-se por base um conjunto de perguntas, diretamente ligadas aos objetivos.13 No primeiro, as respostas foram computadas tal como apresentadas, contando-se freqüência e calculando a seguir as porcentagens. No segundo, houve três momentos: 1) o estabelecimento de sistemas de categorias, a partir do significado atribuído a cada resposta; 2) sua categorização; 3) contagem de freqüência de aparecimento de cada uma e cálculo de porcentagem.13

O que você faz quando seu filho desobedece?

Foram identificadas e definidas oito categorias de respostas: 1- Conversar/explicar; 2- Castigar; 3- Gritar; 4- Bater; 5- Conversar e bater; 6- Conversar e castigar; 7- Castigar e bater; 8- Gritar e bater.

Os resultados a esta questão encontram-se na Tabela 2.

 

 

Com relação à punição mais severa (bater) seu aparecimento é limitado (4,2% nas respostas dos pais de camada média e zero nas de camada popular), mas ele vem associado com outras práticas como conversar e castigar. Por outro lado, dos entrevistados, 25% dos de camada média e 37,5% dos de camada popular responderam que conversar e dar explicações à criança constituem-se na melhor e única maneira de conter sua desobediência; interessante observar que há certa predominância deste tipo de resposta entre os pais de camada popular, e que a de 31,2%, é relativamente elevada, sobretudo quando se considera que o comportamento inadequado já ocorreu.

Por outro lado, 50% dos pais de camada média dizem usar mais de um tipo de prática, como conversar e bater ou conversar e castigar (primeiro conversam e se os filhos continuam a desobedecer batem ou dão castigo) e só 30% dos de camada popular fazem o mesmo.

Analisando o castigo, quando utilizado sozinho, ele aparece em 8,3% das respostas dos pais de camada média e em 29,2% dos de camada popular; ou seja, tirar o que os filhos gostam de fazer é um modo de puni-los.

Esses resultados indicam claramente diferenças entre os dois grupos com relação à maneira que dizem agir frente ao comportamento inadequado da criança.

O que sentem quando punem os filhos?

Foram identificadas e definidas 3 classes de resposta: 1- nenhum sentimento; 2- sentimento negativo; 3- resposta incongruente.

Os resultados a esta questão encontram-se na Tabela 3.

 

 

Contrariamente aos dados da questão anterior, nesta há uma grande semelhança nas respostas dos pais dos dois grupos; um total de 20,8% dos de camada média e 25% de camada popular dizem não sentir nada quando punem os filhos; falam que é necessário corrigi-los e que não ficam mal ao chamar a atenção da criança, mas, a grande maioria (66,7% de camada média e 62,5% da popular) dizem sentir-se mal quando punem seus filhos. Chama também a atenção o fato de que, mesmo não apreciando, os pais continuem a fazer uso de punição.

O que entendem por violência doméstica contra a criança?

Foram identificadas e definidas seis classes de resposta: 1) definição de violência doméstica; que agrupou as respostas que trouxeram uma conceituação de violência doméstica e que se aproximaram de uma caracterização adequada, além de darem exemplos; 2) emissão juízo de valor; que agrupou as respostas que em os pais se limitaram a qualificar, e de forma negativa, a violência doméstica; 3) emissão de exemplos, que agrupou as respostas em que os pais definiram através de exemplos de situações observadas e/ou vivenciadas; 4) qualificação da violência como forma de educar que extrapola; ficaram nessa classe as respostas em que os pais focalizaram a maneira de educar a criança utilizando punição física, mas de forma extremada; 5) avaliação negativa dos pais que fazem uso de violência doméstica contra a criança; essa classe agrupou as respostas em que havia, como ponto central um julgamento negativo dos adultos que praticam a violência contra a criança; 6) resposta incongruente; foram colocadas nessa classe as respostas que não correspondiam diretamente à questão feita. Ao final acrescentou-se uma classe referente seja às respostas em branco ou à afirmação dos pais de que não sabiam o que era violência doméstica.

Os resultados encontrados acham-se na Tabela 4.

 

 

Os dados mostram primeiramente que existe uma divisão de respostas nas várias categorias, sobretudo para os pais de camada popular e que há diferenças claras entre os dois grupos na foram de conceituar a violência doméstica. Assim verificou-se que a maioria dos pais de camada média propõe uma definição correta do que vem a ser a violência doméstica contra a criança, enquanto que a maioria dos de camada popular responde emitindo um juízo de valor, expressando seus sentimentos de repulsa com relação ao problema da violência doméstica e estes também apresentam uma porcentagem um pouco maior de respostas incongruentes. E enquanto há certo número de pais de camada média que fazem uso de exemplos para expor a sua visão do que vem a ser a violência doméstica, os de camada popular acentuam a idéia de que se trata de uma forma de educar em que a punição física é excessiva; e enquanto estes dizem que às vezes é necessário punir fisicamente para disciplinar a criança, os primeiros em nenhum momento afirmam isto; e, complementando é maior o número destes que fazem um julgamento negativo dos pais que usam de violência para educar.

Quais os tipos de violência doméstica contra a criança que conhecem?

As respostas a essa pergunta foram divididas em quatro tipos, incluindo-se mais uma classe de respostas, em que os pais afirmaram ignorar do que se trata ou não responderam: 1) violência física: identificada como bater de machucar, espancar, deixar marcas na criança; 2) violência psicológica: definida por marcas internas, que ficam para sempre, e que acontecem através da palavra, incluindo xingar, gritar, ameaçar; 3) violência sexual: que seria o estupro, o abuso sexual; 4) negligência: Que implicaria em descaso, não cuidando desde a alimentação da criança, até de prevenir que seja vítima de abuso e de violência física.

Os resultados encontrados acham-se Tabela 5.

 

 

Dos 24 pais de alunos de escolas particulares foram obtidas 48 respostas e dos 24 de crianças de escolas públicas 39 respostas. Para o primeiro grupo predomina a categoria da violência física, seguida da psicológica, enquanto que para os de camada popular as maiores porcentagens aparecem tanto para violência física quanto para a sexual.

O que entendem por negligência?

As repostas foram agrupadas em duas classes e mais uma terceira referente à fala dos pais de que não sabiam dizer do que se tratava: 1) definição: quando houve uma conceituação correta do que era entendido como negligência; 2) resposta incongruente: quando o que os pais disseram não condizia com a pergunta formulada.

Os resultados encontram-se na Tabela 6.

 

 

Pelo que se pode observar, houve grande diferença nas respostas dadas pelos dois grupos de pais, sendo que a maioria dos de camada média definem (83%), ao passo que os de camada popular afirmam não saber do que se trata (58,3%).

O senhor (a) detecta violência doméstica no seu meio?

Os resultados obtidos acham-se na Tabela 7.

 

 

Os pais de alunos de escolas de camada média dividem suas respostas de forma eqüitativa entre o sim e o não (exatamente 50,0%), e os de camada popular há uma porcentagem ligeiramente maior dos que dizem não ter conhecimento de que isto tenha ocorrido (58,3%).

Dados complementares a esta questão são: 1) nos casos relatados de violência doméstica contra a criança pelos pais dos dois grupos (pais de média e popular), a mãe apareceu na maioria das vezes como a pessoa que pratica a violência contra o filho; 2) a violência física foi o tipo mais citado de agressão de que tiveram conhecimento, para os entrevistados dos dois grupos.

 

DISCUSSÃO

Os resultados desta pesquisa evidenciam semelhanças e diferenças entre as respostas dos pais das duas camadas sociais. Eles se aproximam no dizer que procuram fazer uso de explicações frente ao comportamento inadequado da criança e que as punições mais severas são pouco utilizadas como forma de educar, contudo diferem quanto à percepção da violência doméstica contra a criança.

Há tipos de violência que são mais conhecidos e outros menos; a física e a psicológica (mesmo esta sendo difícil de detectar) estão mais presentes nas respostas dos entrevistados de camada média, enquanto que a física e a sexual são mais freqüentes nos de camada popular, que tendem a focar suas opiniões em uma violência mais visível; também a negligência é desconhecida por grande número deles, o que chama atenção, porque este é um problema que muitos especialistas atribuem aos pais de classes economicamente desprivilegiadas. Isto leva a que se afirme ser importante que existam estudos capazes de esclarecer as diferenças entre a família que falha em termos de alimentar, vestir adequadamente seus filhos por falta de condições para tal e a que, mesmo dispondo de condições, não o faz e, então pode ser dita negligente.

Também se põe em questão do se, quando e onde a problemática da violência doméstica e da negligência deve ser trazida para discussões amplas dentro da sociedade, de tal modo a poder avaliar o prejuízo que a manutenção do silêncio sobre os maus-tratos no ambiente doméstico acarreta ao desenvolvimento na infância. E, sem dúvida que se necessita aprofundar o conhecimento sobre esse tema, na sua diversidade de enfoques, de forma a abrir perspectivas para projetos de intervenção, que visem desde prevenir o aparecimento desse tipo de problema até a remediar situações já existentes, com a finalidade de melhorar a qualidade de vida das pessoas envolvidas.

 

REFERÊNCIAS

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12 Biasoli-Alves ZMM. Trabalhar com relato oral quando a prioridade é recompor uma história do cotidiano. Temas em Psicologia. 1995; 5 (3): 43-57.         [ Links ]

13 Biasoli-Alves ZMM. A pesquisa em psicologia: análise de métodos e estratégias na construção de um conhecimento que se pretende científico. In: Romanelli G, Biasoli-Alves ZMM, organizadores. Diálogos Metodológicos sobre Prática de Pesquisa. Ribeirão Preto: Legis Summa; 1998. p. 135-57.         [ Links ](Footnotes)

 

 

Endereço:
Vanessa Delfino
R. Manoel Achê, 697, Ap. 01
14020-590 Jardim Irajá, Ribeirão Preto, SP.
E-mail: vanedel@usp.br

Recebido em: 30 de setembro de 2005
Aprovação final: 10 de novembro de 2005

 

 

* Neste artigo apenas as questões que se relacionam diretamente aos objetivos da pesquisa serão apresentadas, pois é inviável mostrar todas as outras perguntas e suas respectivas análises.
Antes de iniciar o contato com as Escolas o projeto passou pelo Comitê de Ética do Departamento de Psicologia e Educação da FFCLRP USP, tendo sido aprovado.

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