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Texto & Contexto - Enfermagem

versão impressa ISSN 0104-0707versão On-line ISSN 1980-265X

Texto contexto - enferm. v.17 n.1 Florianópolis jan./mar. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-07072008000100001 

EDITORIAL

 

Tecnologia: definições e reflexões para a prática em saúde e enfermagem

 

 

A temática desta edição que trata de "Tecnologias, Modelos e Processos em Saúde e Enfermagem" nos impulsiona a refletir sobre as influências da tecnologia sobre o desenvolvimento da humanidade neste século. Longe de esgotarmos o assunto, busca-se neste contexto, entender que a tecnologia é importante para a saúde porque tem implicações para interpretar a história, a prática contemporânea e o futuro das profissões e, sobretudo porque influencia as ações, as concepções e os arranjos sociais.

Dentre as suas diversas concepções, a tecnologia incorpora o desejo de influenciar o mundo em torno de nós. De forma tradicional a tecnologia se manifesta como objetos e recursos antigos e atuais que têm a finalidade de aumentar e melhorar o tratamento e o cuidado por meio da prática em saúde. Também se manifesta na forma de conhecimentos e habilidades em saúde associadas com o uso e a aplicação dos recursos e objetos que os profissionais mantêm e acessam sob uma base diária e progressiva. E, numa perspectiva atual, a tecnologia tem se manifestado de modo crescente dentro de um sistema tecnológico nos quais os governos, as organizações e as pessoas são integradas a um objetivo de maximizar a eficiência e a racionalidade. Entende-se, desta forma, que é um erro supor que a inovação tecnológica tem apenas um efeito unilateral.

A tecnologia revela a maneira como as pessoas lidam com a natureza e cria as condições de intercurso com as quais nos relacionamos uns com os outros. As novas tecnologias, presentes nos momentos da vida das pessoas alteram a estrutura de seus interesses, ou seja, as coisas sobre as quais se pensa; alteram o caráter dos símbolos, isto é, as coisas com que pensamos e alteram, porque não dizer, a natureza da comunidade, ou seja, a arena na qual os pensamentos se desenvolvem. Portanto, é também um erro definir a tecnologia apenas como instrumentos e técnicas ou associá-la a compreensão de superioridade, especialização e profissionalismo.

A tecnologia tem três camadas de significado: a de objetos físicos tais como instrumentos, maquinário, matéria; a de uma forma de conhecimento, na qual significa que é concebido para um objeto através de nosso conhecimento de como usá-lo, repará-lo, projetá-lo e produzi-lo e, ainda, formando parte de um conjunto complexo de atividades humanas. Deve ser compreendida como a criação de um fenômeno, pois transcende a simples definição de maquinário. Diante deste cenário complexo é preciso refletir: Como a enfermagem tem se posicionado? Que caminhos poderiam ser construtivos para a saúde, no sentido de aproveitar as oportunidades que ora se apresentam e interagir, produzir e gerenciar tecnologias aplicadas ao campo de atuação profissional?

Não há dúvidas, que este rápido crescimento que denominamos "tecnociência" permanecerá exigindo que os profissionais estejam cada vez mais preparados para dirigir e acompanhar o uso e o desenvolvimento das tecnologias de modo a promover a convergência entre o desenvolvimento humano e tecnológico na tentativa de se alcançar uma competência social saudável e solidária.

Desde a década de 40, experencia-se uma rápida expansão de conhecimentos e habilidades e, na forma de tecnologias se expressam nas mais variadas áreas de atuação em saúde: na educação, no cuidado, na pesquisa e no gerenciamento como resultado direto do desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Esta expansão motivou a evolução de serviços, comunidades, unidades e pessoas especializadas dentro de ambientes que são referência na atenção aos clientes, mudando os valores, a política, a economia e as relações humanas. Assim, a prática em enfermagem continua a ser revolucionada pelo impacto da tecnologia. Temos trabalhado com inovações que nos desafiam a pensar em novos e diferentes modos de praticar a ciência da enfermagem. Estes avanços tecnológicos têm nos inspirado permanentemente a refletir sobre o que a enfermagem FOI, É e SERÁ.

Ao se refletir sobre o impacto da tecnologia na prática de enfermagem precisaremos compreender que é crucial um equilíbrio entre a tecnologia e a presença verdadeira da(o) enfermeira(o) para assegurar o papel da enfermagem no sistema de cuidado em saúde. Ou seja, o que determina se uma tecnologia desumaniza ou despersonaliza ou objetifica o cuidado de enfermagem não é a tecnologia por si só, mas principalmente como as tecnologias operam nos contextos das pessoas; quais são os significados a elas atribuídos; como um indivíduo ou um grupo cultural define o que é humano; e o que o potencial da técnica enfatiza, a ordem racional ou a eficiência. Assim como a tecnologia, o cuidado humano é uma realidade construída socialmente. O poder que qualquer tecnologia exerce deriva de como ela atua em uma dada situação e de sua significância.

A tecnologia não é então um paradigma de cuidado oposto ao toque humano, mas, sobretudo, um agente e um objeto deste toque. A tecnologia por si só pode ser um fator que humaniza, mesmo nas arenas mais tecnologicamente intensas de cuidado em saúde. As dualidades da tecnologia como produto e significado; matéria e significado; produto e processo, repousam não em sua oposição necessária à humanização, mas, especialmente, em suas recursividades, isto é, na sua existência como ambas, força material objetiva e como uma realidade dinâmica e construída socialmente.

 

Prof.ª Dr.ª Cleusa Rios Martins
– Professora Aposentada do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Docente do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PEN) da UFSC. Líder do Grupo de Pesquisa em Tecnologias, Informações e Informática em Saúde e Enfermagem (GIATE) do PEN/UFSC –

Prof.ª Dr.ª Grace Teresinha Marcon Dal Sasso
– Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Docente do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PEN) da UFSC. Vice-líder do Grupo de Pesquisa em Tecnologias, Informações e Informática em Saúde e Enfermagem (GIATE) do PEN/UFSC –

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