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Texto & Contexto - Enfermagem

Print version ISSN 0104-0707On-line version ISSN 1980-265X

Texto contexto - enferm. vol.17 no.4 Florianópolis Oct./Dec. 2008

https://doi.org/10.1590/S0104-07072008000400002 

ARTIGO ORIGINAL
PESQUISA

 

Foucault e sua utilização como referencial na produção científica em enfermagem1

 

Foucault and its utilization as scientific production in nursing research

 

Foucault y su utilización como marco teórico referencial en los estudios en enfermería

 

 

Roberta CostaI; Sabrina da Silva de SouzaI; Flávia Regina de Souza RamosII; Maria Itayra PadilhaIII

IDoutoranda em Enfermagem do PEN/UFSC. Enfermeira do Hospital Universitário da UFSC. Santa Catarina, Brasil
IIDoutora em Enfermagem. Professor Adjunto da UFSC. Pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Orientadora do estudo. Santa Catarina, Brasil
IIIDoutora em Enfermagem. Professor Associado do Departamento de Enfermagem da UFSC. Pesquisadora do CNPq. Santa Catarina, Brasil

Endereço

 

 


RESUMO

O trabalho teve como objetivo evidenciar a incorporação do referencial foucaultiano na produção científica do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina. É um estudo qualitativo que utiliza a pesquisa documental. A fonte de pesquisa foi o Banco de Teses e Dissertações do programa. Foram identificados 13 estudos que utilizaram Michel Foucault. A análise dos estudos foi feita em duas etapas: classificação dos trabalhos em relação aos objetos de investigação e organização do material a partir dos dados dos estudos, dando lugar às categorias: Por que Michel Foucault?; A questão do poder nos estudos da enfermagem e, Arqueologia e genealogia nos estudos foucaultianos. Este referencial aponta um novo olhar para os diversos campos de pesquisa em enfermagem.

Palavras-chave: Enfermagem. Poder (psicologia). Pesquisa. Conhecimento.


ABSTRACT

The study aimed to evidence the incorporation of the Foucaultian framework in the scientific production of the Graduate Program in Nursing of the Federal University of Santa Catarina. It is a qualitative study using documentary research. The research source was the program's database of Theses and Dissertations. We identified 13 studies that used Michel Foucault. The analysis of the studies was made in two stages: classifying the works in relation to the objects of inquiry, and organizing the material from the data in the studies, giving place to the categories: Why Michel Foucault?; The question of power in nursing studies, and Archeology and genealogy in foucaultian studies. This referential view points a new to look towards diverse fields of research in nursing.

Keywords: Nursing. Power (psychology). Research. Knowledge. 


RESUMEN

El objetivo del presente estudio fue analizar la utilización del marco teórico de Foucault en la producción del científica del Programa de Posgrado en Enfermería de la Universidad Federal de Santa Catarina. Es un estudio cualitativo que utiliza la investigación documental. La fuente de investigación fue el banco de Tesis y de Disertaciones del programa. Se identificaron 13 estudios que utilizaron a Michel Foucault como marco teórico referencial. El análisis de los estudios se realizó en dos etapas: la clasificación de las obras en relación con los objetos de investigación, y su organización surgiendo las siguientes categorías temáticas: ¿Por qué Michel Foucault?; La cuestión del poder en los estudios de enfermería y, Arqueología y genealogía en los estudios foucaultianos. El uso del marco teórico de Foucault señala una nueva mirada con respecto a la investigación en el campo de la enfermería.

Palabras clave: Enfermería. Poder (psicología). Investigación. Conocimiento.


 

 

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Michel Foucault foi um pensador que colocou como tarefa do pensamento fazer a arqueologia do tempo presente e, com isso, nos intimou a fazer do presente o nosso problema, a sermos capazes de nos tornarmos diferentes de nós mesmos e a fazermos um diagnóstico do que estamos fazendo com nosso tempo.

Em seus textos, Foucault aciona toda uma gama de conceitos e noções que remetem a uma compreensão crítica das relações de poder e das práticas discursivas e não-discursivas que as sustentam, possibilitando pensar a história e as sociedades em termos de relações, tensões, conflitos que, enfim e também, levam a constituição e ao desmanchamento de dadas configurações ou desenhos espaciais. A inscrição de seu pensamento no campo das relações entre uma dada historicidade e a emergência de certas formas de pensamento busca enfatizar a dimensão temporal presente em seus textos e a negligenciar esta dimensão espacial.1

As idéias de Michel Foucault são bastante convincentes, persuasivas e produtivas, pois criam um marco conceitual novo e poderoso que nos ajuda a compreender problemas vivenciados pelas sociedades contemporâneas ocidentais, permitindo dar outras respostas para antigas perguntas, ou melhor, fazer novas perguntas para encontrar outros significados e produzir novos sentidos.2 Nesta direção, o referencial teórico-metodológico foucaultiano tem sido adotado por diferentes áreas de conhecimento, tais como a psicologia, a psiquiatria, a criminologia, a sexologia, as ciências políticas, a lingüística, as ciências humanas e as ciências da saúde. Este trabalho buscou evidenciar de que forma a enfermagem, especificamente, vem adotando este referencial para produção do seu saber.

A Enfermagem, enquanto campo de saber e de prática em diferentes contextos políticos e históricos, apresenta grandes diversidades na forma como se organiza, procurando construir para si instrumentais teóricos e técnicos. Desta forma, a consolidação da profissão no cenário internacional é modificada por inúmeras condições, entre as quais a possibilidade de sustentar-se no meio acadêmico-científico como capaz de emitir discursos coerentes sobre si, sobre sua posição na sociedade e no empreendimento coletivo da ciência.3

Neste estudo, o interesse se volta para o reconhecimento da contribuição de Michel Foucault na produção de conhecimento da enfermagem. Nesta direção, o trabalho pretende evidenciar a incorporação do referencial foucaultiano na produção científica do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (PEN/UFSC).

Os Programas de Pós-Graduação em Enfermagem têm contribuído para formação de recursos humanos qualificados e para o desenvolvimento científico-tecnológico na área da saúde. Em Santa Catarina, o PEN/UFSC foi criado em 1976, com a implantação do Curso de Mestrado. Em 1992, foi criado o Curso de Doutorado em Enfermagem e a primeira turma iniciou em março de 1993. Este Programa tem como foco o cuidado no processo de viver humano e titula profissionais de saúde na área de concentração: Filosofia, Saúde e Sociedade. No que diz respeito a sua amplitude, o Programa tem uma forte inserção regional, ao mesmo tempo em que se destaca no cenário nacional e internacional.4

Com relação ao uso do referencial foucaultiano pela enfermagem, percebemos que existem poucos estudos no âmbito internacional que tratam desse objeto. Destacamos um estudo que procurou analisar publicações internacionais que articularam Foucault e enfermagem, ou seja, nos usos que as enfermeiras fazem do Foucault quando discutem enfermagem.5 Os autores sinalizam a escassez de artigos encontrados (27 no total), destacando o forte papel das pesquisadoras australianas nesta produção, mas também do Reino Unido, Brasil e América do Norte (EUA e Canadá). Da Alemanha foi encontrado um artigo, mas nenhum de países como França e Espanha. Estes estudos foram publicados entre 1987 e 1998 em Português, Inglês e Alemão. Os conceitos mais freqüentemente utilizados são poder/conhecimento, a vigilância, o discurso, disciplina, resistência, corpos dóceis, olhar clínico, e panóptipo.

Outro estudo encontrado revela a carência de pesquisas que adotam o referencial foucaultiano na enfermagem e a saúde, sinalizando que a contribuição foucaultiana se destaca a partir dos anos 90, quando novas linhas de investigação trazem aportes das ciências humanas e sociais e abordagens metodológicas qualitativas, privilegiando objetos voltados para a "compreensão de si", a enfermagem como trabalho/profissão e o enfermeiro como sujeito, em aspectos históricos, sociológicos e culturais.3 As temáticas mais evidenciadas nos estudos foucaultianos são relativas ao poder (poder disciplinar, biopoder, poder pastoral) ao cuidado de si e a governabilidade.

Encontramos ainda, um estudo que explora as implicações das análises filosóficas de Michel Foucault para a compreensão de enfermagem prática, apontando que o poder permite moldar o conhecimento e, assim, limitar e ditar a qualidade da relação enfermeiro-paciente.6 Nesta mesma direção, gostaríamos de salientar que uma leitura foucaultiana da enfermagem contribui para a difusão dos regimes de verdade, na qual os enfermeiros são percebidos como profissionais que exercem o poder sobre a vida em sociedade, possibilitando o avanço para uma formação mais crítica e interdisciplinar.5

O trabalho de Foucault nos permite apreciar, a partir de uma nova perspectiva, diferentes facetas da prática de enfermagem. Os conceitos foucaultianos têm implicações profundas para ajudar a diversificar as formas em que concebemos enfermagem como uma disciplina e como uma prática.5

Sendo assim, como objetivo geral deste estudo pretendeu-se identificar e analisar a produção bibliográfica relativa ao uso deste referencial no PEN/UFSC, no período de 1978 a dezembro de 2006.

 

METODOLOGIA

É um estudo qualitativo que utiliza a pesquisa documental como método para analisar a produção científica com referencial foucaultiano do PEN/UFSC. A fonte de pesquisa foi o Banco de Teses e Dissertações do PEN/UFSC. Inicialmente a busca se deu por consulta dirigida aos resumos dos trabalhos cujo título evidenciasse qualquer possibilidade de relação com os temas foucaultianos, ou seja, a escolha era a de que no título ou resumo aparecesse o termo Foucault e/ou os conceitos propostos por este autor como poder, dispositivo, panóptico entre outros. Assim, dos 549 resumos consultados entre os trabalhos de dissertações (428), e teses (121), no período de 1978 a 2006, foram identificados apenas 13 estudos que utilizaram Michel Foucault como referencial teórico principal ou complementar ou ainda como referencial metodológico.

Após a obtenção dos trabalhos na íntegra os mesmo foram organizados em função do ano de publicação, conforme o tipo de produção (dissertação ou tese) e em relação aos temas e objetos de investigação. Concluída a fase de classificação dos estudos iniciou-se o processo de análise dos estudos quanto aos motivos que justificam a adoção do referencial teórico de Michel Foucault pelos estudantes de pós-graduação para embasar suas pesquisas. Essa parte da pesquisa exigiu um tratamento de natureza qualitativa, com leitura exaustiva dos trabalhos. Nesta etapa da análise, o material foi organizado a partir de dados evidentes nos estudos (elementos componentes), agrupados por semelhanças, dando lugar às categorias temáticas amplas: Por que Michel Foucault?; A questão do poder nos estudos da enfermagem e Arqueologia e genealogia nos estudos foucaultianos.

 

DISCUSSÃO DOS DADOS

Ao lançarmos a luz sob a produção da enfermagem no PEN/UFSC, percebemos que ainda são poucos os trabalhos desenvolvidos que utilizam Michel Foucault como aporte teórico e/ou metodológico, sendo que menos de 2% do total de trabalhos publicados pelo Programa utiliza este autor. Observamos ainda, que o marco inicial dos estudos que utilizaram o referencial foucaultiano foi a publicação em 1997 da tese de doutorado da Lunardi7, intitulada "Do poder Pastoral ao cuidado de si: a governabilidade na enfermagem", e que o referencial de Michel Foucault passou a ser mais utilizado nos anos seguintes, conforme observamos no quadro a seguir.

 

Quadro 1

 

Gostaríamos de destacar ainda que, de acordo com o tipo de produção, foram identificadas nove teses e quatro dissertações. Em nossa opinião este fato deve-se a um dos objetivos do curso de Doutorado do PEN/UFSC que é ampliar a base filosófica, científica, política e metodológica para o desenvolvimento do conhecimento em saúde, em compromisso com uma prática social transformadora, política e tecnicamente voltada para a melhoria da qualidade de vida, de modo que os profissionais conseguem conhecer e aprofundar melhor o conhecimento em diferentes autores. Outro aspecto a ser ressaltado é de que o referencial teórico de Michel Foucault não é específico para a enfermagem, o que demanda um domínio teórico filosófico diferenciado e, além disso, a proposta do Curso de Mestrado de articular teoria e prática nas suas dissertações causa algumas inquietações quando se utiliza um referencial teórico de outras áreas, como a Filosofia ou a História.

Por que Michel Foucault?

Nesta categoria elencamos as justificativas apontadas pelos estudantes de pós-graduação que argumentam a escolha por Michel Foucault, como teórico que deu sustentação para o desenvolvimento de seus estudos. Cada autor aponta mais de uma razão para eleger o referencial foucaultiano.

São múltiplas as razões. A escolha pelo referencial foucaultiano se deve ao permanente convite e estímulo que o autor faz para olhar o que se dá em torno de nós; no nosso cotidiano de forma diferente; aquilo que parece natural; rotineiro; talvez banal; pequeno; desinteressante; quem sabe, obscuro; tal como as práticas do dia-a-dia; os pequenos gestos; atitudes; escritos e falas de autores até desconhecidos; vistos como detalhes; aparentemente sem importância; na tentativa de identificar os problemas específicos; originais embutidos nestas práticas; pois são estes que constroem e sustentam a nossa própria existência.2,7-8

O referencial foucaultiano, nos subvenciona para poder construir uma história do presente, este referencial permite lançar um olhar crítico, não sendo o único, claro, que possibilita uma re-problematização dos dispositivos presentes no cotidiano.9 "Quanto ao motivo que me impulsionou foi muito simples. Para alguns, espero, esse motivo poderá ser suficiente por ele mesmo. É a curiosidade - em todo caso, a única espécie de curiosidade que vale a pena ser praticada com um pouco de obstinação: não aquela que procura assimilar o que convém conhecer, mas a que permite separar-se de si mesmo. De que valeria a obstinação do saber se ela assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida em que a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar e refletir".10:13

Foucault nos apresenta uma visão de poder como em fenômeno relacional, que ocorre no exercício da convivência humana, em todos os momentos e em todos os espaços da vida social cotidiana, onde os indivíduos vivem, onde está o seu discurso e a sua prática de vida. Pelo seu entendimento de poder que possibilitou e possibilita uma maior compreensão das relações e dos diferentes jogos e lutas nos quais estamos, continuamente, imersos.7,11-14

Assumir Michel Foucault como teórico central, se justifica por encontrar em sua leitura, a complexidade sobre a microfísica do poder necessária a análise dos jogos de verdade e os dispositivos disciplinares do poder.15 O pensamento de Foucault possibilita a reflexão sobre a questão da relação poder-saber e sobre a disciplina dentro das instituições.16

Outro motivo da escolha deste referencial, diretamente relacionado às questões do poder e da produção de saber, diz respeito à própria trajetória intelectual de Foucault, ou seja, sua forma de problematizar as questões do poder e da produção de saber ao propor uma tarefa filosófica e análise crítica do mundo em que vivemos e das diferentes ciências que compõem as "verdades" sobre a sociedade, sobre os homens e sobre si mesmos.2,7,17-18

A questão do poder nos estudos da enfermagem

O poder constitui um dos assuntos que permeou, de forma bastante intensa, a obra de Foucault, e que, de uma forma ou de outra, está presente nos estudos que utilizam o referencial foucaultiano. O objetivo do estudo de Michel Foucault não foi analisar o fenômeno do poder, nem analisar o fundamento de tal análise, mas sim criar uma história dos diferentes modos pelos quais, em nossa cultura, os seres humanos tornam-se sujeitos. Assim, não é o poder, mas sim o sujeito seu tema geral de estudo.11,19

Os estudos de Michel Foucault que discutem as questões de poder se direcionam principalmente nas obras "Vigiar e Punir", nas quais ele introduz a genealogia do poder,20 enfocando a tecnologia disciplinar dentro de uma rede histórica mais ampla do "biopoder", e "Microfísica do Poder" uma coletânea de textos que esquadrinha os espaços de poder institucionais,21 complementando as discussões do livro anterior. Estas obras propiciam a aproximação necessária entre a prática de enfermagem, seus mecanismos disciplinares e a compreensão de Foucault sobre as relações de poder, especialmente da concepção de poder em rede e micropoder. Queremos admitir, com Foucault, que esse poder "se exerce mais do que se possui",20:29 e isto não é privilégio da classe dominante, mas do efeito de conjunto de suas posições estratégicas - efeito manifestado e até mesmo conduzido pela posição dos que são dominados, desde que explorem as condições favoráveis das situações.22

Foucault estabelece que as relações de poder não se passam, fundamentalmente, nem no nível do direito, nem no da violência; tampouco são basicamente contratuais ou unicamente repressivas. Pela visão tradicional, o poder é facilmente definido como algo que diz não, que impõe limites e que castiga. Ao contrário disto, "o poder é algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só circulam mas estão sempre em posição de exercer este poder e de sofrer sua ação; nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão".21:183

Foucault aponta que enquanto o sujeito é colocado em relações de produção e de significação é igualmente colocado em relações de poder muito complexas. O poder para Foucault funciona como um conceito que tenta compreender como as práticas sociais operam, sem cair numa teoria tradicional da história. Para Foucault não existe uma teoria geral do poder, o que significa dizer que o autor não considera o poder como uma realidade que possua uma natureza, uma essência que se definiria por suas características universais.

Prandoni utiliza este referencial para estabelecer um paralelo entre o processo de reforma psiquiátrica e os procedimentos disciplinares do século XIX, bem como, para realizar uma análise das relações de poder que se estabelecem entre o trabalhador mental e o sofredor psíquico. Trabalha com a percepção de que o poder é um poder relacional, se exerce mais do que se possui. O sujeito, neste caso, não é somente o outro da relação, despossuído do poder, ou a margem deste, é sujeito ativo e tenta dirigir a conduta do outro. Estas características marcam, assim, a complexidade das relações humanas.15

Borenstein procurou historicizar as relações de poder entre irmãs religiosas que atuavam na enfermagem do Hospital de Caridade e os demais membros, especialmente os médicos; as práticas médicas e de enfermagem realizadas; as condições de trabalho do pessoal de enfermagem; as resistências e rupturas, que ocorreram no período compreendido entre 1953 e 1968. Ao estudar mais profundamente o poder na visão foucaultiana, pôde perceber estreita relação entre a criação do hospital medicalizado e as relações de poder do pessoal de enfermagem e médico que lá atuavam.10

Arejano se propôs a estudar como se constituem as relações de poder entre o trabalhador de saúde mental e o sofredor psíquico, num campo de ação onde se inscreve o comportamento dos sujeitos ativos. Neste estudo, o poder foi entendido como uma estratégia que modela o comportamento do grupo de pessoas que compõem o espaço do serviço de atenção à saúde mental. Esta estratégia é denominada por Foucault de "poder disciplinar" e, esse poder de gerir a vida das pessoas é chamado de biopoder. Tal, poder, surge mais concretamente no século XVII, centra-se no corpo como máquina, o corpo como objeto a ser manipulado e disciplinado. Com este estudo, o autor procurou sensibilizar os profissionais da saúde mental para uma prática reflexiva sobre as estratégias utilizadas pelo poder disciplinar.11

Para Foucault, os dispositivos disciplinares de poder fabricam um corpo dócil para sujeitá-lo e transformá-lo numa aptidão.20 O sujeito é controlado como um objeto a ser manipulado. Estes procedimentos são partes de uma maquinaria de poder que visam a um processo de sujeição do corpo social.

Uma outra afirmativa foucaultiana é a de que a verdade não contém em si a ausência de poder, ou está fora deste. Ela é produzida por múltiplas coações. O sujeito é constituído por uma verdade e não fonte dela. Estes aspectos denotam os jogos de verdade do poder/saber que se estabelecem entre os seres humanos.23

Azevedo aborda que o poder exercido pelos profissionais de enfermagem sobre o "corpo do cuidado" (corpo dos clientes) deixa de ser descendente para se transformar em ascendente, privilegiando o nível molecular do exercício do poder e dele partir para compreender a "rede de poderes" que se estabelecem na relação enfermeiro(a)/cliente. Isto significa que estudar o poder implica buscá-lo nas táticas, nas lutas, nas resistências que lhe são imanentes e impostas a todo o momento, suscitando novos agrupamentos discursivos.2

Com base em Foucault, Madureira estudou o poder na relação de casal heterossexual, apontando não ser mais possível pensar esta relação em termos de polaridades como dominador-dominado, embora não se possa negar que essas relações também existam. Antes, estas relações se assemelham a um jogo no qual as forças oscilam de uma posição a outra. Esta compreensão do poder no plano dos micro-poderes, aliado promoção da saúde, especialmente à prevenção de Aids nas relações de casal, forneceu subsídios para possíveis mudanças e inovações na prática de educação em saúde para prevenção das DST/Aids, iluminando mais um aspecto a ser considerado nesta prática para promover uma maior aproximação entre o que a ciência já sabe sobre a epidemia e o viver cotidiano das pessoas.14

O poder foi compreendido como produtivo, relacional e em rede, e quando aplicado à análises sobre o cotidiano do trabalho, a concepção de poder não se limita ao campo do trabalho, como poder externo aplicável ao trabalhador e aos processos de produção, mas incorpora o trabalho como ação humana essencial, também constituinte de uma identidade humana histórica e expressão da rede de elementos que participam desta construção, entre os quais o poder tem papel estruturante e subjetivante.21,24

A arqueologia e a genealogia nos estudos foucaultianos

Na perspectiva de Foucault, podemos apontar dois métodos distintos, uma "arqueologia do saber" e uma "genealogia do poder", os quais teriam diferentes formas e objetos de análise.25

A análise arqueológica é uma descrição de discurso - em busca das regularidades que funcionam tal qual leis que governam as dispersões dos enunciados que compõem esse discurso. O que interessa para a história arqueológica é buscar as homogeneidades que estão no fundo de determinada episteme. Essas homogeneidades são regularidades muito específicas que formam uma rede única de necessidades na, pela e sobre a qual se engendram as percepções e os conhecimentos.26

O método genealógico é definido como a análise do "porquê dos saberes", que pretende explicar sua existência e suas transformações situando-o como peça de relações de poder ou incluindo-o em um dispositivo político.27

Ao percorrer os estudos aqui analisados, observamos que quatro dos estudos encontrados2,7,9,18 utilizam o método genealógico proposto por Michel Foucault, e duas tese10,15 fazem uso da arqueologia como ferramenta analítica. Os demais estudos utilizam apenas os conceitos foucaultianos, não sinalizando o emprego de nenhum método de análise na perspectiva de Foucault.

A questão da genealogia nos trabalhos de Foucault aparece com mais fluência em seus trabalhos na década de 70, quando seu interesse pelo discurso (arqueologia) é substituído pela ênfase nas formações discursivas (genealogia). No discurso inaugural pronunciado no Collège de France, em 1970, denominado A ordem do discurso, Foucault aborda rapidamente a questão da genealogia e sua relação com a arqueologia. Naquele momento, ele ainda estava tentando preservar suas idéias arqueológicas e complementá-las com a genealogia. Já em "Vigiar e Punir" e "História da Sexualidade I", a genealogia, considerada um diagnóstico que se concentra nas relações de poder, saber e corpo na sociedade moderna,28 e precede à arqueologia.22

A genealogia seria o estudo das formas de poder: "[...] na sua multiplicidade, nas suas diferenças, na sua especificidade, na sua reversibilidade: estudá-las, portanto, como relações de força que se entrecruzam, que remetem umas às outras, convergem ou, ao contrário se opõem [...]".29:71

Entendemos que a genealogia, como procedimento explicativo, desconstrói as lutas no interior do discurso, "assinala a singularidade dos acontecimentos fora de toda a finalidade monótona",21:15 e busca descontinuidade onde desenvolvimentos contínuos foram encontrados. Busca o começo, os detalhes e acidentes que o acompanham, não a origem.22

A história genealógica de Foucault é uma história de "invenções".30 Não de invenções grandiosas e sublimes, mas de mínimas e desprezíveis invenções; não é uma história de objetos que navegam serenos nas águas calmas da maturação, porque falar em genealogia é enunciar o campo de forças, as relações de poder, os jogos de saber-poder, as estratégias e os mecanismos destes jogos configurando o real.

As respostas são dadas ao genealogista através dos mínimos detalhes, da superfície dos acontecimentos, das menores mudanças e dos contornos sutis. Foucault sugere que para fazer a genealogia dos valores, da moral, do conhecimento, devemos ao invés de partir em busca da origem, nos demorar nas "meticulosidades e acasos dos começos, prestar atenção escrupulosa à sua derrisória maldade";21:19 sem negligenciar como inacessíveis todos os episódios da história. O genealogista evidencia que a luta pelos espaços de poder não são apenas relações entre governantes e governados, de dominadores e dominados,22 mas sim, que a "relação de dominação não é mais uma relação em que o lugar onde ela se exerce não é um lugar. E é por isso, que a cada momento da história, ela se fixa num ritual, impõe obrigações e direitos e constitui procedimentos cuidadosos".21:17

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Analisar o uso do referencial foucaultiano é um exercício de ousadia em virtude da dificuldade de lidar com um autor que nunca quis ser modelo, que nunca quis ser fundador de uma discursividade, que recusou as noções convencionais de autor, obra e comentário.31-32

O referencial foucaultiano aponta um novo olhar para os diversos campos de atuação da enfermagem, seja no âmbito institucional, das políticas públicas, do cuidado, das questões de gênero, na formação profissional, na tentativa de entender que estratégias, lutas, saberes e práticas têm influenciado a construção dos sujeitos e o delineamento de técnicas que possibilitam a ampliação dos espaços de autonomia do cliente e da enfermagem.

As idéias de Michel Foucault permitem ao estudante de pós-graduação um novo olhar à sua prática, as suas ações, ao modo como a história vem se construindo; possibilita a problematização das questões do poder e da produção de saber ao propor uma análise crítica do mundo em que vivemos. "Nesse contexto de múltiplas possibilidades de abordagens metodológicas para a análise dos problemas de saúde e de enfermagem, Foucault nos convida a olhar para o que se desenrola ao nosso redor, na tentativa de descobrir quais são os problemas específicos e talvez originais que vêm construindo e sustentando o nosso cotidiano e, quem sabe, a nossa própria existência".33:291

Sem dúvida, os estudos foucaultianos abrem uma perspectiva de análise proveitosa sobre as práticas assistenciais desenvolvidas atualmente pelos profissionais da saúde, na medida em que sua base teórica permite compreender como determinadas verdades são instituídas e apreciar as relações de poder operantes nos serviços e ações de saúde institucionalizadas. Dessa forma, ele incita a estranhar o que se apresenta como natural para buscar, no cotidiano, elementos que permitam construir um inventário capaz de captar o recorte, por vezes, inusitado, da realidade histórica.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço:
Roberta Costa
23 de março, 405
88085-440 - Itaguaçu, Florianópolis, SC, Brasil
E-mail: robertanfr@hotmail.com

Recebido em: 15 de abril de 2008
Aprovação final: 14 de novembro de 2008

 

 

1 Trabalho desenvolvido na Disciplina Tópicos Avançados de Filosofia e Ética - Sujeito e Poder: a crítica pós-estruturalista e o pensamento foucaultiano do Curso de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (PEN/UFSC).

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