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Texto & Contexto - Enfermagem

versão impressa ISSN 0104-0707

Texto contexto - enferm. v.17 n.4 Florianópolis out./dez. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-07072008000400012 

ARTIGO ORIGINAL
PESQUISA

 

A etapa de análise no método história de vida - uma experiência de pesquisadores de enfermagem

 

The analysis stage in the life story method - a experience of nursing researchers

 

La etapa de análisis en el método historia de vida - la experiencia de los investigadores de la enfermería

 

 

Inês Maria Meneses dos SantosI; Rosângela da Silva SantosII

IDoutoranda em Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EEAN/UFRJ). Professor Adjunto da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Brasil
IIDoutora em Enfermagem. Professor Titular da EEAN/UFRJ. Pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). Rio de Janeiro, Brasil

Endereço

 

 


RESUMO

Esta pesquisa documental teve como objetivo descrever os procedimentos adotados por pesquisadores de enfermagem na etapa de análise ao utilizar o método história de vida. A amostra constou de 23 estudos (teses e dissertações) da Escola de Enfermagem Anna Nery que utilizou o método história de vida com o referencial de Daniel Bertaux, no período de 1995 a 2006. Foi feita análise temática dos capítulos referentes ao processo analítico. As etapas da análise temática foram utilizadas em todos os estudos. Conclui-se que o emprego dessa metodologia de análise permite aos autores construírem as categorias analíticas a partir do discurso dos sujeitos. Porém, destaca-se o cuidado dos pesquisadores, durante a seleção dos temas, para que não fosse modificado o significado que cada depoente atribuiu a sua própria vida.

Palavras-chave: Metodologia. Análise de dados. Pesquisa qualitativa.


ABSTRACT

This documental study aimed to describe the procedures adopted by nursing researchers in the analysis stage when using the life story method. The sample consisted of 23 graduate studies completed between 1995 and 2006 (theses and dissertations) from the Anna Nery School of Nursing which used the life story method, based on Daniel Bertaux. Among these studies, thematic analysis was carried out for the analytical process chapters. Thematic analysis stages were utilized in all studies of the sample. We conclude that the use of this analysis methodology allows the authors to construct analytical categories from the subjects' discourses. However, it is important to highlight care taken by the researchers during the selection of themes, so that the meaning each witness gave his own life was not modified.

Keywords: Methodology. Data analysis. Qualitative research.


RESUMEN

El objetivo de este estudio documental fue describir los procedimientos adoptados por los investigadores de enfermería en la etapa de análisis mediante el método historias de vida. La muestra consistió de 23 estudios (tesis y disertaciones), de la Escuela de Enfermería Anna Nery, que utilizaron el método relato de vida a partir del referencial de Daniel Bertaux, en el período de 1995 a 2006. Se hizo un análisis temático de los capítulos referente al proceso analítico. Las etapas de ese análisis temático fueron utilizadas en todos los estudios. Se concluyó que la utilización de esa metodología de análisis permite a los autores construir las categorías de análisis a partir del discurso del sujeto. Sin embargo, se destaca el cuidado de los investigadores, durante la selección de los temas, de modo que no se modifique el sentido que cada testigo le da a su propia vida.

Palabras clave: Metodología. Análisis de datos. Investigación cualitativa.


 

 

INTRODUÇÃO

"Pelo termo 'história de vida' designamos metodologias e métodos muito diferentes, seja pela qualidade da presença do pesquisador na coleta de dados, seja pela análise dos materiais, seja pelo tipo de hipóteses científicas que ela verifica".1:260

A história de vida permite obter informações na essência subjetiva da vida de uma pessoa. Se quisermos saber a experiência e perspectiva de um indivíduo, não há melhor caminho do que obter estas informações através da própria voz da pessoa. O método utiliza-se das trajetórias pessoais no âmbito das relações humanas. Busca conhecer as informações contidas na vida pessoal de um ou de vários informantes, fornecendo uma riqueza de detalhes sobre o tema. Dá-se ao sujeito liberdade para dissertar livremente sobre uma experiência pessoal em relação ao que está sendo indagado pelo entrevistador.

Quanto ao significado do termo história de vida, a língua inglesa dispõe de duas palavras para traduzir o vocábulo francês historie, que são story e history, conforme esclarece Bertaux: A life story, é a estória ou o relato da vida, que designa o relato de vida narrado tal como a pessoa vivenciou. O pesquisador não confirma a autenticidade dos fatos, pois o importante é o ponto de vista de quem está narrando. Já a life history, ou estudo de caso clínico, é o estudo sobre a vida de um indivíduo ou grupo de indivíduos. Inclui, além da narrativa da vida, todos os documentos que possam ser consultados como prontuário médico, processo judiciário, testes psicológicos, testemunhos de familiares, amigos, entrevistas com pessoas que conhecem o sujeito ou a situação do estudo.2

As investigações na enfermagem têm buscado maior aproximação com os sujeitos do estudo, procurando escutá-los, e não apenas tratá-los como simples objetos de pesquisa, numa relação impessoal e fria. Neste sentido, o método história de vida oportuniza aos pesquisadores aprender a ouvir o sujeito que vivenciou a situação que se quer estudar, o que implica em tê-lo como um parceiro, como alguém que é ativo no estudo e que reflete sobre sua própria vida. Essa reflexão dos depoentes, que deixam vir à tona aspectos tão particulares, é a diferença primordial que aparece nas categorias de análise.

Porém, no transcorrer de uma pesquisa que utiliza o método história de vida, ao chegarmos à fase de análise de dados ficamos diante de um montante significativo de informações e a necessidade de escolher uma técnica que permita uma análise rica e aprofundada das narrativas, com articulação dos dados concretos a uma fundamentação teórica bem estruturada. Diante dessa dificuldade, propôs-se realizar este estudo que tem por objetivo descrever os procedimentos adotados por pesquisadores de enfermagem na etapa de análise ao utilizar o método história de vida.

Como as teses e dissertações, via de regra, limitam-se a registrar como os depoimentos foram coletados e a seguir apresentam as categorias de análise, o leitor fica sem saber quais os procedimentos utilizados para chegar à categoria de análise. Daí a importância deste estudo, visto que não há publicações que abordem o processo de análise em história de vida.

 

METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa documental, que teve por amostra a produção stricto sensu da Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN) que utilizou o método história de vida. O critério de inclusão foi a utilização do referencial teórico metodológico de Daniel Bertaux, sociólogo que introduziu na França, nos anos 70, os trabalhos da Escola de Chicago e tem uma vasta publicação do método até os dias de hoje.3 Por Escola de Chicago costuma-se designar um conjunto de trabalhos de pesquisa sociológica realizado, entre 1915 e 1940, por professores e estudantes da Universidade de Chicago. Caracteriza-se antes de tudo pela pesquisa empírica.4

Foi realizado o levantamento da produção stricto sensu por meio de busca eletrônica na Base Minerva - sistema de documentação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que contém as teses e dissertações da UFRJ. Utilizou-se como descritores história de vida e enfermagem, selecionou-se a instituição EEAN. Não se utilizou recorte temporal. A coleta de dados ocorreu nos meses de fevereiro e março de 2008.

O material de análise foi obtido por meio manual na Biblioteca Setorial da EEAN e por meio eletrônico e abrangeu todos os estudos indexados até o mês de março de 2008. Foram encontradas 23 produções no período de 1995 a 2006: 15 dissertações e oito teses. Utilizou-se a seguinte codificação D para dissertação e T para tese, seguida de algarismo arábico, numerado na seqüência da ordem de defesa.

De posse das pesquisas selecionadas, procedeu-se a análise temática dos capítulos referentes ao processo analítico empregado, ou seja, leitura dos textos, destaque dos temas relevantes e posterior categorização. Os resultados apresentados a seguir descrevem as etapas de análise descritas pelos pesquisadores em seus estudos.

 

APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Todos os autores analisados empregaram a análise temática que, "consiste em reportar em cada relato de vida as passagens concernentes a tal ou qual tema, com o objetivo de comparar depois os conteúdos dessas passagens de um relato a outro".3:99

Como a etapa de campo é de vital importância para o processo de análise na história de vida, alguns aspectos do registro das entrevistas são apresentados antes de nos determos na análise propriamente dita.

A gravação da narrativa da história de vida

O método de investigação permite o uso de vídeo, mas este recurso não foi utilizado nos estudos analisados. Todos usaram o gravador como recurso, que é bastante prático para o método, sendo fundamental, pois além de preservar e registrar todos os detalhes da fala dos depoentes, a técnica permite que o entrevistador preste mais atenção ao depoimento cedido.

Na dissertação de D1 "as entrevistas foram gravadas em fitas magnéticas, com a autorização dos depoentes, o que traduz em maior liberdade, durante a mesma, para o pesquisador ouvir, intervir e observar pontos que considere relevantes e para o sujeito falar livremente".5:38 Para D3 "a gravação permitiu a apreensão de todo o discurso, a entonação e as pausas".6:25

A transcrição da gravação

Todos os autores pesquisados iniciaram a etapa de análise realizando a transcrição das entrevistas. A investigação não consiste em elaborar primeiro um corpus de material empírico, relatos de vida ou outras formas de dados e depois unicamente dedicar-se a análise desse corpus. A análise começa, imediatamente e se desenvolve simultaneamente a compilação dos testemunhos.3

Na tese de T1 "a análise dos depoimentos iniciou-se após a transcrição de cada entrevista. No caso de dúvida sobre uma palavra, devido à falha na gravação, ela foi omitida e representada por reticências".7:78

A transcrição é uma tarefa árdua que demanda tempo, mesmo para um pesquisador experiente na técnica. Necessitam-se aproximadamente de cinco a seis horas para transcrever uma hora de entrevista, o que equivale cerca de trinta páginas de texto em espaço duplo. Em uma conversação entre duas pessoas, a comunicação passa por três canais simultâneos: a comunicação não verbal (gestos, movimento dos olhos, expressões do rosto); a entonação da voz e as palavras próprias mesmas. Então é necessário escutar de novo a entrevista e ao ler o texto da transcrição, indicar os silêncios com sua duração e as entonações. A esse texto se adicionará parte do diário de campo concernente à entrevista.3

Deve-se "só escrever num dos lados da folha, deixar margens bastante largas, espaçar as linhas de pelo menos dois centímetros, numerar as páginas e arrumá-las em classificadores. As correções, anotações e arranjos do texto, através da utilização de tesouras e de fitas autocolantes, far-se-ão então facilmente".8:58

Em uma das dissertações analisadas, D6, encontramos: "Todas as entrevistas foram gravadas e a maioria transcrita no dia seguinte, palavra por palavra, inclusive conservando os erros de português. A seguir foram digitadas, cortando as repetições e corrigindo alguns erros de português, para que a leitura ficasse mais fácil para o leitor. Alguns erros foram mantidos, para não se perder a espontaneidade e originalidade. Quanto mais rápido forem as transcrições melhor para o pesquisador, pois ele ainda terá nítido na memória aquelas falas, o que poderá auxiliar em caso de alguma dúvida sobre o que está ouvindo. Fiz um diário de campo, onde anotei alguns dados sobre a identidade pessoal e social dos sujeitos, assim como algumas impressões minhas, gestos, atitudes e sentimentos aflorados destes sujeitos".9:54

O fato de a transcrição ser realizada pelo próprio pesquisador, permite uma auto-avaliação no seu papel como entrevistador, possibilitando ajustes na trajetória do estudo e um crescimento pessoal, como nos relatos das pesquisadoras a seguir:

"À medida que as transcrições das fitas magnéticas iam ocorrendo, o que facilitou a avaliação do procedimento metodológico, criando possibilidades de ajustes no processo, no caso de incorreções, bem como direcionando o caminhar da pesquisadora".10:66

Para T5, "ao me apropriar do método de coleta de dados foram descartadas as cinco primeiras entrevistas, já que, em alguns momentos, sem pensar, eu acabava fazendo algumas perguntas sobre o seu tratamento, muitas vezes recriminando ou argumentando com as depoentes o que deveria ter sido feito. Esses depoimentos não fizeram parte do estudo, mas foram aproveitados para a construção de um artigo científico (...). A minha postura assistencialista, no início das entrevistas, fez com que eu interrompesse a todo o momento as falas, mas com o passar do tempo, fui me apropriando do método e percebi mais do que tudo, que era mais importante escutar as mães".11:46-7

A tese de T7 ressalta que "Ouvir é um trabalho árduo que demanda concentração e atenção focalizada. (...) A escuta deve ser atenta, mas não passiva. A experiência de campo ajudou-me a melhorar progressivamente a capacidade para entrevistar e escutar com atenção o que estava sendo dito; a compreender, naquele momento, as palavras do outro, a dominar meus impulsos e fazer as perguntas certas no momento certo. Ao prestar profunda atenção no que as mães tinham para me dizer, fazia com que elas se sentissem importantes, contribuindo para o desenrolar das entrevistas. Ouvir bem significa ter respeito pela pessoa que está nos contando sua história de vida".12:76

O silêncio - o 'não dito'

Em seis dos trabalhos analisados, houve a referência ao não dito. "Um silêncio, mesmo uma parada completa por alguns momentos, pode ser o tempo necessário para outras reflexões, um tempo para deixar pensamentos íntimos virem para fora".13:44

D12 "ao transcrever as entrevistas relembrava o encontro e a emoção, muitas vezes contida no não dito, nas palavras marcadas por lágrimas e silêncios. A postura de respeito e cumplicidade do entrevistador que, em algumas situações, chega a se emocionar diante do que escuta, contribui para garantir a extrema sensibilidade do momento".14:46

O ponto de saturação

Na pesquisa qualitativa, não há determinação prévia do número de entrevistas. Propõe-se o ponto de saturação, que surge a partir de certo número de entrevistas, quando o pesquisador tem a impressão de não apreender nada de novo no que se refere ao objeto de estudo.2

A leitura flutante

Leitura flutuante "consiste em estabelecer contato com os documentos a analisar e em conhecer o texto deixando-se invadir por impressões e orientações. (...) Pouco a pouco a leitura vai se tornando mais precisa, em função de hipóteses emergentes, da projeção de teorias adaptadas sobre o material e da possível aplicação de técnicas utilizadas sobre materiais análogos".15:96

D3 descreve que "após a transcrição dos depoimentos, foi realizada uma leitura flutuante de todas as entrevistas, destacando os pontos relevantes e selecionando os temas mais marcantes".6:30

A análise temática

A análise de uma entrevista biográfica tem por objetivo explicitar as informações e significados pertinentes nela contidos. A maioria dessas informações e significados não aparece na primeira leitura; sem dúvida, a experiência demonstra que vão surgindo umas atrás das outras no transcurso das leituras sucessivas. Cada leitura revela novos conteúdos semânticos.3

Todas as pesquisas adotaram a análise temática que consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõem a comunicação e cuja freqüência de aparição podem significar alguma coisa para o objetivo analítico escolhido.15 Tema é a "unidade de significação que se liberta naturalmente de um texto analisado segundo critérios relativos à teoria que serve de guia à leitura".15:105

A organização do material recolhido, a sua sistematização e a sua condensação são necessárias. As aproximações com as narrativas, anteriores ou ulteriores, de uma mesma situação, devem ser efetuadas com um sublinhado ou com jogos de cores, organizando-se os elementos que trazem os suplementos de informação que será preciso integrar no texto, de forma que, sem perder o seu caráter próprio, ele dê conta, por enriquecimentos sucessivos, do máximo de fatos expressos. Além disso, sugere-se que, em cada uma das frases, devem ser agrupados os temas que voltem em várias conversas e que constituem um núcleo temático em torno do qual, num inquérito por histórias de vida a informação vai se saturar, o que preparará o ordenamento temático.8

Em T6 "a primeira leitura objetivou conhecer o teor do depoimento; a segunda leitura destinou-se a selecionar e grifar com canetas coloridas, o que mais chamava a atenção nos depoimentos; por fim, procedeu-se à análise do que havia sido destacado, construindo um breve esboço analítico. Através da técnica de recorte e colagem, foram destacadas dos depoimentos as partes que haviam sido grifadas que, a seguir, foram reagrupadas de acordo com as cores grifadas, representando uma possível categoria. Denominamos esse exercício de codificação dos dados, que consiste na marcação de partes consideradas importantes para atingir os objetivos da pesquisa. De posse do material codificado, foi elaborado um quadro demonstrativo com os seguintes itens: desdobramento temático, apresentado os temas que surgiram; agrupamento, apresentando os sub-tema agrupados por afinidade temática; decodificação, apresentando a interpretação do significado obtido, e a síntese, pautada no referencial teórico. A partir da elaboração desse quadro, foi possível visualizar o panorama geral do encaminhamento dos dados que, naquele momento, mostravam seis categorias emergentes. Cabe ressaltar que este não foi só um longo trabalho de construção e reconstrução contínua, mas também, um salutar processo de investigação, onde cada fazer e refazer tornou possível a eliminação de idéias preconcebidas e, desta forma, a visualização com mais clareza e veracidade do que estava emergindo dos dados".16:56-7

É interessante frisar que em todos os estudos analisados, as categorias de análise não foram determinadas antes do trabalho de campo, foram construídas a partir dos dados coletados nas entrevistas. O método de história de vida preconiza que os fragmentos dos depoimentos não devem ser utilizados de forma isolada. Um depoimento "só pode ser compreendido re-inserido na história do sujeito, poderemos preceder sua citação, com um resumo desta história que lembrará o que é necessário conhecer dela para não interpretar indevidamente a citação".3:100 É só a partir do significado atribuído por cada depoente, a sua história de vida, que o pesquisador pode determinar a orientação teórica do estudo.

Tempo, cronologia e diacronia

A história de vida não é uma progressão ao longo de um continuun, mas um vai-e-vem sobre a experiência anterior de um indivíduo ou de um grupo, se revela estranha a um modelo de sucessão cronológica linear. Em relação ao entrevistado, a história de vida constitui um conjunto significativo para sua seleção, seus procedimentos, sua ordem narrativa. Organiza-se apenas com dificuldade a partir de uma reconstrução temporal definida. Corresponde muito raramente a um critério pré-estabelecido que reparte o passado e o futuro em relação a um presente bastante flutuantes que derrota a precisão e o final do tempo cronológico. Esta linha de separação evolui continuamente em função não apenas dos pesquisadores, mas também de situações diferentes no âmbito de uma pesquisa. A definição de um ponto zero temporal da parte dos pesquisadores é sempre uma convenção arbitrária, da parte do entrevistado-narrador, é sempre uma escolha fluida.1

Não confundir diacronia e cronologia. A diacronia se refere à sucessão temporal de acontecimentos, é dizer as relações de antes/depois. A cronologia se refere à datação de quanto à data do acontecimento, ou quanto à idade. No transcurso da entrevista há de se oportunizar que o sujeito ofereça os elementos necessários para a reconstrução da diacronia, e não importuná-lo com constantes perguntas sobre as datas precisas de tal ou qual acontecimento.3

Cita-se como exemplo de diacronia as categorias de análise montadas por D1, em que a autora representou três momentos na vida do cliente renal crônico. O primeiro momento o passado, no qual este cliente realizava suas atividades tidas como normais e em função do seu estilo de vida traçava planos para o futuro. O segundo momento o presente, com o diagnóstico de sua doença repleto de sentimentos desagradáveis e angustiantes, as limitações advindas da patologia e o tratamento rígido e permanente. O terceiro momento representa um momento mágico de sonhos e fantasias, onde vislumbra uma esperança de cura definitiva ou um possível transplante.5

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nas investigações de enfermagem analisadas, que utilizaram o método história de vida, o emprego da análise temática permitiu aos autores apreender os núcleos de sentido (temas) contidos nas entrevistas. De posse dos temas dissecados, foram construídas as categorias analíticas a partir do discurso dos sujeitos, analisadas à luz de um referencial teórico apropriado a cada pesquisa.

A análise temática oportunizou aos pesquisadores compararem aspectos particulares ora em comum, ora divergentes, relatados pelos sujeitos que vivenciaram a situação a ser estudada.

Porém, percebeu-se o cuidado dos pesquisadores, durante a seleção dos temas, para que não fosse modificado o significado que cada depoente atribuiu a sua própria vida. Destarte, aspectos do contexto social, não aventados pelos autores durante a construção do projeto, surgiram espontaneamente, trazendo à tona assuntos que enriqueceram as pesquisas, a partir dos quais se puderam ver outras dimensões das vidas dos entrevistados.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em: 15 de abril de 2008
Aprovação final: 19 de novembro de 2008