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Texto & Contexto - Enfermagem

Print version ISSN 0104-0707

Texto contexto - enferm. vol.21 no.3 Florianópolis July/Sept. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-07072012000300003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Capacitação dos técnicos de enfermagem para as melhores práticas no uso de broncodilatadores em pacientes mecanicamente ventilados

 

 

Mara Ambrosina de Oliveira VargasI; Cassiano TeixeiraII; Francine ZanchinIII; Aline GhiotIV; Karine PauliV, Soraia Dornelles SchoellerVI

IDoutora em Enfermagem. Professora Adjunto da Graduação e Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Santa Catarina, Brasil. E-mail: mara@ccs.ufsc.br
IIMédico Intensivista da UTI-Central do Complexo Hospitalar da Santa Casa de Porto Alegre. Professor Adjunto de Clínica Médica da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail cassiano.rush@gmail.com
IIIEspecialista em Enfermagem em Terapia Intensiva. Enfermeira do Hospital Moinhos de Vento. Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: francine.zanchin@terra.com.br
IVEspecialista em Enfermagem em Terapia Intensiva. Enfermeira do Hospital Pereira Filho Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: ghiotbeck@gmail.com
VEspecialista em Enfermagem em Terapia Intensiva. Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: karinepauli@yahoo.com.br
VIDoutora em Enfermagem. Docente do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina. Santa Catarina, Brasil. E-mail soraia@ccs.ufsc.br

Correspondência

 

 


RESUMO

A inaloterapia de broncodilatadores é uma das principais terapêuticas no tratamento de doenças respiratórias, desde que a administração seja correta para produzir uma absorção e uma ação medicamentosa efetiva. Assim, realizou-se uma pesquisa quantitativa, quase-experimental, com o delineamento pré e pós-teste, cujos objetivos foram avaliar o conhecimento dos técnicos de enfermagem na administração de broncodilatadores inalatórios, em pacientes mecanicamente ventilados, na Unidade de Terapia Intensiva, e capacitá-los para a correta aplicação desses fármacos. Com base no pré-teste, foi realizada a capacitação de 34 técnicos de enfermagem e, após, um pós-teste para a avaliação da técnica de administração dos broncodilatadores. Aplicou-se um questionário. Os resultados sinalizam que nenhum dos entrevistados descreveu, adequadamente, as etapas da nebulização no paciente mecanicamente ventilado no pré-teste. Já no pós-teste, 44,11% responderam adequadamente. Através da análise dos resultados, avaliando os pré e pós-testes, nota-se um aprendizado balizado nas melhores práticas.

Descritores: Unidade de terapia intensiva. Educação em enfermagem. Ventilação mecânica. Broncodilatadores. Doenças respiratórias.


 

 

INTRODUÇÃO

A inaloterapia é hoje uma das principais armas terapêuticas no tratamento de doenças respiratórias e estão sendo usados dispositivos cada vez mais eficazes e medicamentos com baixa incidência de efeitos colaterais.1-6 Os broncodilatadores têm como principal objetivo ativar os mecanismos que induzem relaxamento do músculo liso respiratório e também reduzem a ação dos autacóides e neurotransmissores que desencadeiam o broncoespasmo. A via preferencial para administração dos broncodilatadores é a inalatória, pois por esta via o fármaco é levado diretamente ao pulmão e vias aéreas, tornando-se efetivo em doses que causam menores efeitos adversos sistêmico.7 A broncodilatação depende de um equilíbrio entre os fatores que tendem a relaxar o músculo liso (efluxo de cálcio). O controle do tono bronquiolar é realizado pelos sistemas adrenérgicos (sistema nervoso simpático) e colinérgico (sistema parassimpático) e medicamentos que ativam (agonistas) ou que inibem (antagonistas) os neuroreceptores autômicos, sendo potencialmente importantes na terapêutica farmacológica. A estimulação parassimpática diminui o diâmetro dos brônquios e dos bronquíolos, e a estimulação simpática produz efeito contrário. Os broncodilatadores inalatórios se subdividem em: agonistas adrenérgicos (alfa e beta), como o fenoterol, salbutamol, salmeterol, e os antagonistas colinérgicos, por exemplo, o brometo de ipratrópio.7

Os broncodilatadores têm um importante significado na redução da resistência das vias aéreas, da hiperinsuflação e da dispnéia em pacientes portadores de Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), asma e Auto-pressão Expiratória Positiva Final (PEEP).2 Além disso, eles aumentam a tolerância ao exercício no DPOC6, já que a redução da tolerância a exercícios e da capacidade de executar atividades laborais parece ser uma das suas maiores perdas.8-10 O brometo de ipratrópio e beta-agonistas são igualmente eficazes nas exarcebações na DPOC.11 O ipratrópio reduz o volume do escarro, sem alterar sua viscosidade.7,11

Nesta direção, os broncodilatadores inalatórios, utilizados para tratar doenças pulmonares, são práticos em sua utilização, indolores para os pacientes e eficazes ao considerarmos a alta concentração da droga oferecida.1 Os nebulizadores e o aerossol dosimetrado (dose-medida pressurizados (MDI)) acoplado ao espaçador são as formas mais eficazes para administração dos fármacos em pacientes mecanicamente ventilados, tanto entubados quanto traqueostomizados.1-2

A inalação de broncodilatadores exige uma correta administração para produzir uma absorção e uma ação medicamentosa efetiva.1-2 De outro modo, para se alcançar o efeito almejado, a técnica de administração dos fármacos inalatórios precisa ser adequadamente aplicada. Logo, ao se oferecer uma técnica inadequada compromete-se a eficácia da medicação e, consequentemente, o tratamento do paciente.1-4 A ventilação mecânica tem como objetivo levar um volume de gás até os pulmões, propiciando o ajuste da ventilação alveolar e da oxigenação arterial do paciente, obtendo valores considerados ideais.5 Neste ínterim, nos pacientes mecanicamente ventilados, as drogas inalatórias podem ser realizadas por nebulizadores por ar comprimido, nebulizadores ultra-sônicos e inaladores MDI.2

Na prática, observa-se uma deficiência na técnica de administração dos fármacos, tanto por déficit de conhecimento dos profissionais quanto por falta de treinamentos ou orientações por parte das instituições de saúde. É dessa técnica que depende a eficácia e os efeitos colaterais das medicações inaladas, de maneira que a resposta medicamentosa pode ser muito variável. Nesta perspectiva, a importância desta pesquisa reside na avaliação da técnica de administração dos broncodilatadores em pacientes mecanicamente ventilados.

Portanto, o principal questionamento relacionado a este tema e que motivou esse estudo é: os técnicos de enfermagem estão administrando corretamente os broncodilatadores inalatórios nos pacientes em ventilação mecânica? Nesse sentido, formulam-se os objetivos propostos para o estudo: avaliar o conhecimento dos técnicos de enfermagem na administração de broncodilatadores inalatórios, em pacientes mecanicamente ventilados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), e capacitar os técnicos de enfermagem para a correta aplicação desses fármacos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os dados foram coletados pelas pesquisadoras, na UTI do Pavilhão Pereira Filho (Complexo Hospitalar da Santa Casa de Porto Alegre), UTI especializada em doenças respiratórias, nos meses de setembro e outubro de 2007. Foi aplicado questionário aos técnicos de enfermagem da UTI, que são os responsáveis diretos pela aplicação dos broncodilatadores aos pacientes. A amostra, constituída de 34 técnicos de enfermagem, foi do tipo intencional, definida pelos seguintes critérios de inclusão dos sujeitos: (1) ter no mínimo um mês de trabalho, (2) estar em atividade no turno de trabalho no dia da aplicação do pré-teste.

O projeto foi submetido previamente à avaliação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, obtendo autorização para desenvolvimento, sob o protocolo número 1668/07 e parecer número 382/07. As condutas realizadas no estudo respeitaram a Resolução 196/96 sobre Diretrizes e Normas Regulamentadoras da Pesquisa Envolvendo Seres Humanos.12 Assim sendo, os técnicos de enfermagem receberam informações sobre os objetivos do estudo, garantia de desistência e anonimato. Após lido o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (pós-informado), suas dúvidas foram esclarecidas. O mesmo era composto de duas vias e, depois de assinado, uma delas ficou com o pesquisador e a outra com o pesquisado.

O estudo foi realizado dentro de uma abordagem quantitativa, quase-experimental com o delineamento pré e pós-teste. Este esquema envolve a coleta de dados em dois períodos de tempo: antes (pré-teste) da manipulação experimental e depois (pós-teste). O procedimento desse estudo incluiu três etapas: pré-teste, capacitação e pós-teste. As etapas ocorreram nos três turnos de trabalho (manhã, tarde e noite), sendo que os pesquisadores constituíram dois grupos em cada turno, totalizando seis grupos. Cada grupo participou das etapas pré-teste, capacitação e pós-teste no seu próprio turno de trabalho e em uma sala específica para capacitação localizada na UTI, em um período tempo médio entre 60 a 90 minutos, conforme demanda (tempo preenchimento do pré-teste e do pós-teste e tempo de capacitação).

Com base no pré-teste efetuou-se a capacitação que inclui informação, discussão dos conteúdos, habilidades e atitudes. Após a capacitação, aplicou-se um pós-teste para a avaliação da técnica de administração dos broncodilatadores. Logo, para o pré e o pós-teste utilizou-se um questionário estruturado com 10 perguntas abertas (Apêndice).

Os resultados são apresentados em uma tabela e em cálculos de porcentagem, a análise dos resultados é a descrição do pré-teste e do pós-teste efetuado por 34 técnicos de enfermagem da UTI em estudo. Esta análise é de tendência central, comparando-se as médias dos tópicos avaliados, descritos abaixo. Avaliaram-se as técnicas de administração dos broncodilatadores inalatórios descritas por Duarte e colaboradores:1

- técnica de administração do aerossol por MDI mais o espaçador: (1) aspirar o tubo, (2) ajustar o volume de ar corrente > 500ml, (3) ajustar um fluxo inspiratório < 60L/min, (4) confirmar a posição do dispositivo na alça inspiratória, (5) agitar o fármaco e instalá-lo no espaçador, (6) acionar o dispositivo no início da inspiração e (7) repetir a próxima dose 20 a 30 segundos após o primeiro jato.

- técnica de administração do aerossol por nebulizador: (1) aspirar o tubo, (2) ajustar o volume de ar corrente > 500ml, (3) ajusta um fluxo inspiratório < 60L/min, (4) colocar a solução no dispositivo nebulizador, (5) diluir o medicamento em 4 a 6 ml de solução fisiológica 0,9%, (6) instalar o nebulizador na alça inspiratória a 30cm da conexão do TET, (7) ajustar um fluxo de 6L/min no nebulizador, (8) bater levemente no nebulizador durante a operação e (9) desconectar o nebulizador do circuito.

 

RESULTADOS

No início da capacitação, percebeu-se que os técnicos de enfermagem estavam ansiosos, mesmo que o assunto versasse sobre uma técnica que faz parte de sua rotina de trabalho. Aplicou-se o pré-teste, e, após foi realizada a capacitação, com uma apresentação inicial em PowerPoint, suscitando questionamentos e discussões entre os técnicos de enfermagem e as pesquisadoras, sobre a técnica correta e como era feito até o momento. Depois de terminada a capacitação foi aplicado o pós-teste. Sinaliza-se que o questionário com as perguntas abertas, apresentado no Apêndice, está com as respectivas respostas, consideradas pelos autores do estudo, corretas. O objetivo desta inclusão neste artigo é propiciar informações relevantes para a boa prática assistencial.

A apresentação dos resultados das 10 questões estão demonstradas na tabela 1.

 

 

A figura 1 apresenta a percentagem de erros detectados na oferta de broncodilatadores, através da técnica de nebulização, durante a análise individual das nove etapas do processo, no pós-teste.

 

 

A figura 2 demonstra a percentagem de erros detectados na oferta de broncodilatadores através da técnica de MDI + espaçador, durante a análise individual das sete etapas do processo, no pós-teste.

 

 

Nenhum dos técnicos de enfermagem conseguiu descrever as etapas da técnica de nebulização com nebulímetro no paciente mecanicamente ventilado. Após o treinamento, no pós-teste, 44,11% dos técnicos de enfermagem acertaram esta questão. Os 55,89% erraram por não descreverem todos os itens da nebulização, conforme demonstrado na figura 1.

A questão número 2 do pré-teste pergunta qual o fluxo necessário de ar para realizar nebulização com nebulímetro nos pacientes intubados. Houve 5,88% de acertos. No pós-teste os acertos aumentaram apenas para 38,23%. Detectado problema de entendimento da pergunta, pois das 21 pessoas que erraram no pós-teste, 19 delas colocaram como resposta o fluxo do ventilador e 2 responderam o valor de fluxo do volume de ar corrente, em vez do fluxo do nebulímetro.

No pré-teste da questão 6, nenhum dos técnicos de enfermagem descreveu a administração do broncodilatador com espaçador corretamente, e no pós-teste, 85,36% não descreveram corretamente todas as sete etapas do procedimento, conforme mostrado na figura 2.

Em média, 70,58% dos funcionários, no pré-teste, sabiam que o dispositivo mais eficaz para a oferta de aerossol é o espaçador e não o nebulímetro. Já no pós-teste, todos os técnicos de enfermagem acertaram a resposta. Ainda no pós-teste, quanto à pergunta sobre o porquê do espaçador ser mais eficaz, justificaram da seguinte forma: fornecem uma dose mais confiável: 29,41%; não há risco de contaminação bacteriana: 23,52%; são mais eficazes: 23,52%; não responderam o por quê: 14,70%; e não interfere na ventilação: 8,82%.

Na questão de número 10 foi perguntado se os parâmetros do ventilador mecânico influenciam na oferta de aerossol e por quê. No pré-teste houve 17,64% de acertos e no pós-teste esse valor aumentou para 73,53%. Dos 26,47% das pessoas que erraram essa questão no pós-teste, 44,44% responderam que os parâmetros do ventilador mecânico influenciam na oferta de aerossol, mas não souberam explicar o porquê, 33,33% responderam que não influenciam e também não souberam explicar o porquê e 22,22% não responderam.

 

DISCUSSÃO

Através dos resultados deste estudo, nota-se um aprendizado, por parte dos técnicos de enfermagem, com a capacitação sobre o uso de broncodilatadores em pacientes mecanicamente ventilados. A equipe de enfermagem recebeu orientações sobre administração de broncodilatadores, aumentando assim, seus conhecimentos e, consequentemente, propiciando ao paciente um tratamento mais eficaz. Contudo, a noção de aumentar os conhecimentos significa, aqui, entender que as atividades de enfermagem desenvolvidas são sucessivamente aprendidas e, em função disso, praticadas, alteradas e suplantadas. "O que hoje é tido como conhecimento válido é imediatamente relegado a segundo plano, ou até mesmo abandonado, à medida que um novo conhecimento passa a ser validado".13:172

Convém destacar que as questões de número 1 e 6 exigiam a descrição detalhada dos passos a serem seguidos. Analisando as respostas dessas questões, principalmente no pós-teste, pode-se inferir de um modo mais imediato que, provavelmente, alguns técnicos de enfermagem não mostraram disposição ou paciência para respondê-las, já que suas respostas eram muito sucintas, prejudicando o resultado final. No entanto, isto suscita refletir acerca das melhores estratégias para integrar educação e trabalho. Nesta perspectiva, os resultados desta investigação, também, desencadearam nos pesquisadores, o entendimento de que o cotidiano do profissional está diretamente articulado ao sucesso ou não da transformação de uma realidade, balizada nas melhores práticas. Ou seja, concomitante a qualquer processo de capacitação, há necessidade da valorização da vivência diária da equipe de trabalho e do estímulo à sua consciência crítica, considerando-a como parceira na busca de resultados operacionais concretos.14

Nos pacientes intubados a distribuição do fármaco fica prejudicada. Apenas 2,9% da medicação atinge os pulmões quando administrados por nebulizadores. O aerossol do MDI deve ser usado através de um adaptador ao circuito do ventilador sincronizado com a fase inspiratória. Para garantir uma dose adequada, esta deve ser duas a quatro vezes maior devido a perdas pelo circuito do ventilador.11 A adequada deposição do aerossol, nas vias aéreas inferiores, é dependente de múltiplos fatores. Entre estes múltiplos fatores estão: as propriedades físicas e químicas das medicações, a característica e posição adequada dos geradores de aerossol, os parâmetros e modos ventilatórios, o tipo de circuito ventilatório, a umidificação e aquecimento do ar inspirado, e a anatomia e presença de secreção na via aérea.1 Os pacientes com os parâmetros ventilatórios no modo assistido aumentam em 23% a deposição do aerossol quando comparados a modos controlados, com equivalentes volume de ar corrente. Em adultos é preconizado volume de ar corrente > 500ml para garantir uma adequada liberação do aerossol nas vias aéreas inferiores.1 Logo, estes aspectos foram, adequadamente, inseridos como importantes pelos técnicos de enfermagem, conforme resultados da nona e décima questões.

Para além disso, constatado, pelos resultados do pré teste da sétima e nona questões, que os técnicos de enfermagem já consideravam a administração do broncodilatador por MDI e espaçador mais efetiva do que por nebulizador. Um dos possíveis motivos seria a maior facilidade da realização do procedimento em pacientes mecanicamente ventilados. Neste sentido, estudos recentes mostram que usar o espaçador comum com MDI melhora a eficácia da terapia com broncodilatadores em pacientes mecanicamente ventilados, quando a atuação de MDI é sincronizada com o início da inspiração, com cuidadosa atenção à técnica de administração. Os MDIs são fáceis de administrar, requerem menos tempo, fornecem uma dose mais confiável, e não têm risco de contaminação bacteriana; utilizando um espaçador na linha do circuito do ventilador não necessita ser desconectado, assim diminui o risco de pneumonia associada ao ventilador.1

Estudos sinalizam que os inaladores diferenciam-se quanto ao grau de deposição pulmonar, mas sua eficácia depende também da técnica de inalação e do grau de obstrução das vias aéreas.1,15-16 Quando utilizado aerossóis dosimetrados, a deposição pulmonar representa 5-10% da dose nominal liberada ao paciente. Na verdade, estudos mostram que a eficiência da oferta de aerossol ao trato respiratório inferior nos pacientes em ventilação mecânica com a utilização do nebulizador é de zero a 42% e com MDI é de 0,3 a 97,5%.1-2

Mas, o volume do espaçador pode afetar a disponibilidade das medicações para inalação, a qual também pode variar conforme o medicamento utilizado. Logo, os profissionais devem estar cientes de que os dados de deposição de um espaçador são provenientes de estudos com uma determinada droga, podem não se aplicar a outras drogas.8

No entanto, a quinta questão evidencia porcentagem de acerto baixa tanto no pré como no pós teste, mesmo que a resposta, paradoxalmente, parecesse simples de responder no pós teste. Ou seja, o nebulímetro para deposição do aerossol é mais efetivo quando colocado a uma distância de 30 cm do TET, em comparação ao "Y" do circuito e o TET. Neste caso, o circuito atua como um espaçador com acúmulo de aerossol entre as inspirações.1,15-16 Mais uma vez, este resultado pode estar demonstrando a necessidade dos pesquisadores rediscutirem com os técnicos de enfermagem a sua compreensão na importância da adequada deposição do aerossol para os pacientes que utilizam broncodilatadores.

Ainda, a quarta questão, na qual é solicitado aos técnicos de enfermagem o que deve ser feito com o nebulímetro durante a nebulização, apresentou 0% de acerto no pré-teste, o que significa que nenhum dos técnicos de enfermagem sabia o que fazer com o nebulímetro. Após o treinamento, no pós-teste, 100% das respostas estavam corretas. Neste sentido, sinaliza-se que os nebulizadores são associados com contaminação bacteriana. Levando-se em consideração tal aspecto, assim que terminada a nebulização, eles devem ser limpos e desinfectados para minimizar o risco de contaminação e de pneumonia nasocomial. O fluxo adicional do gás do nebulizador pode criar uma situação em que o paciente é incapaz de realizar o drive respiratório durante a ventilação da sustentação da pressão, podendo causar uma hipoventilação.1

 

CONCLUSÃO

O estudo apresenta algumas limitações: reduzido tamanho amostral, realização em único centro e ausência de acompanhamento do conhecimento dos técnicos durante os meses seguintes. Porém, os pontos fortes são: a constatação de um problema educacional comum em nosso meio, a indicação de que devemos nos ater aos modos de efetivarmos os processos de capacitação e da avaliação dos respectivos resultados, a realização do estudo em um centro de excelência em doenças respiratórias; e a descrição objetiva e criteriosa de uma forma educacional baseada em princípios internacionais.

Através dessa análise dos resultados, avaliando os pré e pós-testes, e a respectiva participação na etapa da capacitação, nota-se um aprendizado por parte dos técnicos de enfermagem sobre o uso de broncodilatadores em pacientes mecanicamente ventilados. A equipe de enfermagem recebeu orientações sobre administração de broncodilatadores, aumentando assim, seus conhecimentos e, consequentemente, possibilitando ao paciente um cuidado balizado nas melhores práticas.

A educação continuada deve ser uma prática dentro dos hospitais, pois técnicas que viram rotina, muitas vezes são esquecidas, e até mesmo ultrapassadas. Em suma, o enfermeiro é responsável técnico e ético pelos cuidados de enfermagem prestados ao paciente. Logo, deve interessar a este profissional trabalhar com uma equipe de técnicos de enfermagem competentes e cientes da necessidade de prestar um cuidado com qualidade e efetividade.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Mara Ambrosina de Oliveira Vargas
Rua Elizeu Di Bernardi, 200 ap.1102 Bl A - Campinas
88101-050, São José, SC, Brasil
E-mail: mara@ccs.com.br

Recebido: 11 de junho de 2011
Aprovação: 20 de abril de 2012

 

 

APÊNDICE - QUESTIONÁRIO ESTRUTURADO COM PERGUNTAS ABERTAS

Adequação do uso de broncodilatadores em pacientes mecanicamente ventilados

Questão 1) Descreva todos os passos de como você realiza a nebulização com nebulímetro no paciente mecanicamente ventilado.

Resposta esperada) Aspirar o tubo; volume de ar corrente > 500ml; fluxo < 60L/min; colocar a solução no dispositivo nebulizador; diluir o medicamento em 4 a 6 ml de solução fisiológica; inserir nebulizador na alça inspiratória à 30cm da conecção; observar o fluxo de 6L/min no nebulizador; bater levemente no nebulizador durante a operação; desconectar o nebulizador do circuito.1

Questão 2) Qual o fluxo necessário de ar para realizar nebulização com nebulímetro nos pacientes entubados?1

Resposta esperada) 6 a 8 l/min.

Questão 3) Qual o volume correto da solução para ser colocado no nebulizador efetivando a nebulização em pacientes mecanicamente ventilados?

Resposta esperada) 4 a 6 ml.1

Questão 4) O que deve ser feito no nebulímetro durante a nebulização?

Resposta esperada) Bater levemente no nebulímetro.1

Questão 5) Qual é a melhor posição do nebulizador no circuito do ventilador para ser eficaz o procedimento?

Resposta esperada) Estar na vertical e a 30 cm do Tubo Endo Traqueal (TET).1, 11

Questão 6) Descreva como você realiza a administração de broncodilatadores com espaçador no paciente mecanicamente ventilado.

Resposta esperada) Aspirar o tubo; observar e manter volume de ar corrente > 500ml; observar e manter fluxo < 60L/min; confirmar dispositivo na alça inspiratória; agitar o fármaco e instalá-lo no espaçador; acionar no início da inspiração; repetir dose 20 a 30s depois; observar a posição correta - ventilador - filtro - espaçador.1

Questão 7) Qual fase da respiração deve-se realizar o jato no espaçador quando administrado os fármacos inalatórios (bombinhas)?

Resposta esperada) Inspiratória.1-6

Questão 8) O que devemos fazer com o frasco do fármaco inalatório antes de administrá-lo no espaçador?

Resposta esperada) Agitar.1

Questão 9) Na sua opinião, você acha mais eficaz a oferta de aerossol por qual dispositivo e por quê? Resposta esperada) Fármaco pelo espaçador. Porque são mais eficazes, mais fáceis de administrar, requerem menos tempo, fornecem uma dose mais confiável e não tem risco de contaminação bacteriana.1-11

Questão 10) Na sua opinião, os parâmetros do ventilador mecânico influenciam na oferta do aerossol e por quê?

Resposta esperada) Sim. Porque os parâmetros ventilatórios no modo assistido aumentam em 23% a deposição do aerossol quando comparado a modos controlados. É necessário volume de ar corrente > 500ml para garantir uma adequada liberação do aerossol nas vias aéreas inferiores.11