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Texto & Contexto - Enfermagem

Print version ISSN 0104-0707

Texto contexto - enferm. vol.21 no.3 Florianópolis July/Sept. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-07072012000300018 

ARTIGO ORIGINAL

 

Processo de resiliência nas mulheres vítimas de violência doméstica: um olhar fenomenológico1

 

 

Liliana Maria Labronici

Doutora em Enfermagem. Professora Associado do Departamento de Enfermagem e Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Paraná. Paraná, Brasil. E-mail: lililabronici@yahoo.com.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Pesquisa fenomenológica desenvolvida no Centro de referência e atendimento à mulher em situação de violência doméstica de Curitiba e região metropolitana, de abril a agosto de 2010, com cinco mulheres. Teve como objetivo desvelar a manifestação do processo de resiliência nas mulheres vítimas de violência doméstica. As descrições foram obtidas mediante entrevistas abertas gravadas e analisadas de acordo os seguintes momentos: descrição, redução e compreensão do fenômeno. Constatou-se que o processo de resiliência iniciou quando o agressor concretamente tentou matá-las, agredir e/ou matar os filhos. A ameaça à vida as fez saírem do estado de imobilidade, e a mobilização interna as colocou em movimento existencial, em busca de ajuda nas redes de apoio social que são fundamentais para o enfrentamento, pois possibilitam narrar o trauma vivido. A narrativa fez com que atribuíssem um novo significado ao sofrimento vivido e, desta forma, houve a superação e estímulo ao processo de resiliência.

Descritores: Violência contra a mulher. Violência doméstica. Resiliência psicológica.


 

 

INTRODUÇÃO

A resiliência é um conceito utilizado há muito tempo na física e engenharia, e está relacionado à resistência dos materiais. Ao transpor os muros destas ciências, despertou interesse de pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, passando a ser objeto de estudos nas últimas três décadas.1

A noção de resiliência emergiu nos países anglo saxões nos anos de 1950, nos trabalhos de psicologia clínica e psicopatologia. Nos Estados Unidos, os estudiosos que verdadeiramente abriram caminho para a sua utilização foram os psicólogos americanos Emmy Werner e, posteriormente, Norman Garmezy e Michael Rutter.2

Na psicologia, a resiliência tem sido foco de interesse na pesquisa há mais de 20 anos, e as publicações que surgiram no final da década de 1990, relacionavam-se com populações em situações de risco como vítimas de violência, crianças e adolescentes em situação de rua, entre outras adversidades. Atualmente essa tendência continua, porém, com menor intensidade.3

As ciências humanas utilizam o conceito de resiliência para descrever a capacidade do indivíduo ou de um grupo de se constituir ou reconstituir de maneira positiva diante às adversidades, mesmo se mantendo em um ambiente desfavorável.4 Essa capacidade é construída durante o processo de desenvolvimento humano, razão pela qual não pode ser compreendida como algo estático e linear.3

Nas ciências da saúde e humanas a resiliência é um tema novo, e nesta se caracteriza pela "capacidade do ser humano responder às demandas da vida cotidiana de forma positiva, apesar das adversidades que enfrenta ao longo de seu ciclo vital de desenvolvimento, resultando na combinação entre os atributos do indivíduo e de seu ambiente familiar, social e cultural".5:498

A resiliência, sob esse olhar, "é um fenômeno complexo, construído mediante a intersecção entre os múltiplos contextos com os quais o ser humano interage de forma direta ou indireta, e cuja presença é observada com mais clareza, quando está vivenciando uma situação adversa de caráter temporário ou constante em sua vida".6:93

A diferença essencial entre o significado da palavra resiliência na física e do seu sentido na psicologia é que nesta ciência, relaciona-se a uma dinâmica positiva, a uma capacidade de ir adiante. Neste sentido, a resiliência humana não se limita a uma atitude de resistência como na física, porquanto permite a construção, e até mesmo a reconstrução da vida.7

Na enfermagem, a resiliência passou a ser abordada a partir da década de 1990 com enfoque maior nos periódicos americanos e europeus, nos quais as publicações relacionavam-se às áreas da saúde mental, pediatria, enfermagem clínica e administração em enfermagem. Entretanto, no Brasil há escassez de produção científica, e há uma lacuna no que diz respeito à utilização deste conceito na enfermagem, na América Latina.8 Além disso, há a necessidade de se implementar na prática pesquisas sobre resiliência, promoção da saúde e qualidade de vida.9

Há que destacar que a produção de conhecimento sobre resiliência associado à violência contra as mulheres é escassa, concentra-se apenas em torná-la visível, tipificá-la e mostrar suas consequências prejudiciais à saúde, mas não há aprofundamento no que se refere às características de superação diante da violência vivida.10 Sob esta ótica a pesquisa em tela se justifica, porque o fenômeno violência doméstica é uma experiência traumática que causa sofrimento, afeta o corpo vivido na sua totalidade, é um problema de saúde pública, e está cada vez mais visível na realidade brasileira.

A violência doméstica contra a mulher é qualquer ação ou omissão que baseada no gênero cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial à mulher, e que pode ser praticada por pessoas com ou sem vínculo familiar, que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa, inclusive as esporadicamente agregadas.11 É um fenômeno complexo desencadeado por uma multiplicidade de fatores, que afeta não apenas as vítimas, mas seus familiares e a sociedade como um todo.12

Ao compreendermos que a experiência traumática vivenciada pelas mulheres vítimas da violência doméstica nas suas múltiplas formas de manifestação, deixa no seu corpo explorado, sofrido e maltratado marcas visíveis e invisíveis, afeta a totalidade mediante a expressão de sintomas diversos, provoca transformações no ser e estar no mundo, na constituição da subjetividade, o questionamento que surge é: as mulheres que sofrem violência doméstica conseguem ser resilientes?

Diante do exposto, a pesquisa tem como objetivo desvelar a manifestação do processo de resiliência nas mulheres vítimas de violência doméstica.

 

O CAMINHO METODOLÓGICO PERCORRIDO

Trata-se de pesquisa fenomenológica, fundamentada no referencial de Maurice Merleau-Ponty, filósofo existencialista que teve em seu pensamento o corpo como um dos seus temas mais importantes, compreendido como uma estrutura que é estruturante do mundo vivido ou o mundo da vida; o único capaz de dar sentido e significação. A partir dele toda a experiência e conhecimento do mundo são possíveis, e isso se dá pela percepção.

A percepção atravessa todas as dúvidas possíveis para instalar-se em plena verdade, que nos faz conhecer existências e problemas vividos, e está presente em cada momento como recriação ou reconstituição do mundo.13

A opção metodológica ocorreu porque a fenomenologia possibilita compreender, a partir da experiência vivenciada, o fenômeno interrogado. Esta compreensão é possível quando se analisa e interpreta a subjetividade armazenada no corpo. Esta vem à tona, isto é, é projetada para fora, por meio da linguagem. Desta maneira, a interpretação do discurso ou da descrição, e a compreensão, estão entrelaçadas, visto que uma não existe sem a outra, e possibilitam encontrar a essência do fenômeno.

O local que possibilitou encontrar os atores desta pesquisa, e, assim, a obtenção das descrições do fenômeno vivido foi o Centro de referência e atendimento à mulher em situação de violência doméstica de Curitiba-PR e região metropolitana, que é coordenado pelo Conselho Estadual da Mulher, e vinculado à Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania.

O período de obtenção das entrevistas com cinco mulheres que estavam em atendimento/acompanhamento no Centro de referência foi de abril a agosto de 2010. A aproximação ocorreu com a ajuda da psicóloga que faz atendimento/acompanhamento.

O encontro individual foi marcado de acordo com a disponibilidade delas e da pesquisadora. No dia agendado, e em uma sala privativa no Centro de referência, houve a apresentação formal na qual o projeto foi elucidado. Após a manifestação do interesse em participar da pesquisa foi feito novo agendamento para a realização da entrevista, a fim de obter as descrições da experiência vivida.

As entrevistas abertas foram gravadas, tiveram duração aproximada de 80 minutos, e tiveram a seguinte solicitação inicial: fale-me sobre a experiência vivida de sofrer violência doméstica. Após a obtenção de cada uma, ocorreu a transcrição na íntegra e, em seguida, realizada a análise de acordo com a trajetória metodológica,14 constituída de três momentos: descrição do fenômeno, redução e compreensão fenomenológica.

A descrição na pesquisa fenomenológica é a exposição do fenômeno vivido que se dá mediante a linguagem, e assume a forma de um texto à espera de análise, interpretação e compreensão.15 Esta expressa as experiências do corpo vivido, mostra sua subjetividade e os significados a elas atribuídos. Neste primeiro momento do processo da análise foram feitas várias leituras de cada uma das entrevistas, a fim de se familiarizar com a experiência vivida, e em seguida procedeu-se a redução.

A redução possibilita selecionar quais partes da descrição são essenciais, e refletir sobre aquelas que parecem possuir significados, para poder obter as unidades de significado. Estas serão analisadas e sintetizadas pelo pesquisador, a fim de que se possa chegar à compreensão do fenômeno investigado que surge em conjunto com a interpretação.14

Neste momento, foi possível constatar que havia convergência entre as descrições, razão pela qual não foi necessário realizar outras entrevistas. Da síntese das unidades de significado foi possível encontrar o tema: "A ameaça à vida como estímulo desencadeante do enfrentamento e do processo de resiliência".

No que diz respeito aos aspectos éticos, em 2010 a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Setor de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Paraná (CAAE 0826.0.000.091-10), e seu início ocorreu após esclarecimento minucioso sobre a pesquisa e assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) em duas vias.

O anonimato das mulheres participantes da pesquisa foi garantido mediante a substituição do nome das participantes pela letra E, seguida de algarismo arábico em ordem crescente de realização da entrevista.

 

A COMPREENSÃO DO FENÔMENO

O fenômeno em tela pode ser apreendido mediante a descrição da dinâmica relacional do casal. Esta mostra que as mulheres participantes da pesquisa têm uma existência compartilhada com seus companheiros, e todas constituíram uma família que compartilham o mesmo espaço: o lar.

O lar representa o mundo privado do casal, e deveria ser um ambiente no qual a segurança, a confiança, a harmonia, o equilíbrio, a afetividade, a empatia, a cumplicidade, o respeito à autonomia deveriam estar presentes. Contudo, a possibilidade de ser-estar-com o outro, de coexistência para as mulheres participantes da pesquisa foi conflituosa, vez que a violência estava presente, e isso pode ser percebido nos fragmentos dos discursos: [...] anos atrás ele já vinha agredindo, agredia, e a gente deu uma separada, a gente se separou [...] ele ia pro chute, tapas. Era esse tipo de agressão que ele fazia (E2); ás vezes ele me empurrava, puxava os meus cabelos. [...] e foi assim bastante tempo [...] . Eu me casei com ele bem novinha, com 16 anos [...] . Já desde o começo, sempre foi assim (E3).

A violência estava presente no cotidiano do casal, e ao ser expressa de diferentes maneiras, mostra que há uma relação de sujeição, de força e dominação, que possibilita manipular e anular o outro. A manipulação também pode se manifestar por meio de pequenas tramas, com o objetivo consciente de instalar o poder, porquanto todo relacionamento humano conduz a uma relação de forças que ninguém pode escapar, e engloba mecanismos incontornáveis, reforçados pelo contexto no qual o casal está inserido.16 Isso pode ser constatado nos fragmentos dos discursos: [...] ele não deixava trabalhar [...] me infernizava, ele morria de ciúmes (E3); [...] então eu aprendi a trocar meus filhos no escuro pra não acender a luz pra não acordar ele porque ele tinha que levantar cedo no outro dia (E1).

Dia após dia, o outro, enquanto corpo vivido, expressava sua maneira de estar no mundo,13 mediante a imposição de sua vontade, e esta intencionalidade fazia destas mulheres corpos objetos. Essa condição existencial percebida como dominação foi gradativamente modificando a maneira de ser e estar no mundo e a constituição da subjetividade, e destruindo a relação em que não há troca, consequentemente, não existe a complementaridade.

O outro é para as mulheres vítimas da violência doméstica, o manipulador perverso, aquele que as consomem em sua totalidade, mediante a imposição de ordens, intimidação, acusações sem sentidos, por tudo e por nada, faz críticas frequentes que as desvalorizam, diminuem a autoestima, humilham, e as levam a pensar que não servem para nada,16 e isso pode ser observado nos discursos abaixo: [...] ele fala que eu sou gorda, gorda feia, e eu me achava horrível de feia [...] e daí tem uma pessoa o tempo todo falando gorducha do inferno, gorducha do diabo. Eu não sei sabe, cadê a minha autoestima? (E1); ele é muito possessivo [...] pedi pra fazer tratamento psicológico, psiquiátrico [...] ele dizia que não precisava; dava a entender que eu é que era a louca, e daí ficava cada vez mais possessivo (E4).

Os fragmentos dos discursos mostram mediante a percepção das mulheres, o comportamento de dominação do agressor no coexistir cotidiano. A percepção é o modo de acesso à verdade, ao mundo, às coisas e ao conhecimento, se realiza e se constrói com estados de consciência a partir do real que se mostra, e visa às intenções humanas. Isso significa que este ato humano nos dá uma visão parcial, incompleta, porém, real, e pode ter múltiplas interpretações.13

O real, o manipulador, parece ter feito dessas mulheres fantoches humanos, corpos objeto da sua intencionalidade. Esse modo de ser e coexistir não permite qualquer tipo de afrontamento, porque é o dominador, e, como tal, é incapaz de se colocar em questão e de reconhecer seus erros; estabelece um conflito destruidor no qual não há comunicação, envenena e reaviva as feridas, subtrai a vontade da vítima, a estima de si, seu futuro, seu impulso vital, a vida.16

A relação estabelecida na existência compartilhada das participantes da pesquisa com o agressor que estava lá embaixo do mesmo teto provocou traumatismo psíquico. Este é desencadeado por ameaças graves à vida ou à integridade psíquica ou física, como é o caso da violência em suas múltiplas formas de expressão, tentativas de mortes, entre muitos outros fenômenos existenciais presentes no mundo. Essas situações fazem com que o ser humano se confronte brutalmente com a possibilidade de destruição de seu corpo, de seus valores, de seus apegos, enfim, da sua condição humana.17

A percepção da destruição da família e da finitude humana vivida pelas mulheres vítimas de violência doméstica, as fez perceber que estavam acorrentadas ao ciclo de violência e risco na temporalidade do aqui e agora, e isso poderia fazer da existência delas uma trajetória sem sentido, insípida, deixando, na memória um passado marcado pelo acúmulo de sucessivas manifestações de agressões.

As diversas formas de agressão deixam múltiplas cicatrizes no corpo e na alma, e fazem com que o amanhã possa ser destituído de qualquer fio de esperança, porque ela - a violência, estaria sempre ali, e poderia concretamente, a qualquer momento, matá-las e/ou destruir a família, conforme pode ser percebido nos fragmentos dos discursos a seguir: [...] ele me pegou pelo pescoço com as duas mãos [...] e eu não conseguia me livrar [...] meu filho veio pra tentar me tirar, ele começou a agredir, dar soco nele [...] o meu filho revidou. Daí falou: 'com você é na bala' [...] veio com a arma já engatilhada e mirando na cabeça [...] mirou no meu filho que tava fora e atirou. Quando ele virou pra mim e foi atirar, falhou [...] (E2); [...] ele encostou uma faca no meu pescoço [...] nesse dia eu resolvi que não dava pra ficar mais com uma pessoa que não me respeitava [...] (E5).

A partir do momento em que as mulheres mesmo estando em processo de sujeição e desestruturação da própria vida e da família, em função da violência sofrida durante a trajetória existencial, foram surpreendidas por um comportamento de violência extrema, no qual o agressor, concretamente, tentou matá-las, agredir e/ou matar os filhos. O enfrentamento, que é primeiro momento do processo de resiliência foi iniciado, visto que se deparam com a possibilidade da finitude humana.

A morte, apesar de aterrorizar, amedrontar o ser humano, faz parte da vida, mas não pensamos nela o tempo todo. Provavelmente venha ao pensamento, quando nos deparamos com algum fenômeno ameaçador, que pode nos apontar ou conduzir para o fim da existência. A ameaça concreta de morte foi descrita pelas participantes da pesquisa, e as colocou em absoluta situação de vulnerabilidade e fragilidade existencial, na qual tiveram de resistir à destruição, a fim de não serem mais consumidas pelo outro.

O ir e vir entre a temporalidade do presente e passado possibilitou um balanço existencial, a partir da experiência vivida e armazenada em seus corpos, e despertou o desejo de sair desse vale das sombras, no qual estavam presentes os medos, a angústia existencial, o sofrimento, a dor que transcende o concreto da existência - o corpo, o veículo do ser no mundo,13 e se instala na sua essência, na sua alma.

A projeção para o mundo exterior, um horizonte temporal de possibilidades infinitas, esta saída do estado de imobilidade as colocou em um movimento existencial, e isso só foi possível depois do evento objetivo - o trauma18 vivido pelas mulheres participantes da pesquisa, porquanto, no momento em que acontece, o ser humano é envolto por um turbilhão de informações que não o deixam decidir nem reagir.19

O movimento iniciado a partir do balanço existencial as estimulou ao enfrentamento, e essa atitude positiva de mobilização interna as fez procurar recursos externos, como a Delegacia da Mulher e o Centro de referência e atendimento à mulher em situação de violência doméstica de Curitiba e região metropolitana, e isso pode ser constatado nas seguintes falas seguintes: [...] na delegacia da mulher registrei acho que uma vez, e daí um dia eu vi o cartaz desse centro de referência [...] e estou tendo atendimento psicológico (E4); [...] fui parar na delegacia da mulher e depois vim aqui no centro (E5).

O estar-com-o outro em redes de apoio social permitiu a continuidade do processo de resiliência, mediante a narrativa da experiência vivida. Essa forma de expressão do corpo propiciou a manifestação dos significados atribuídos à experiência. São as experiências perceptivas do corpo próprio que fornecem uma camada de impressões que estão, cada qual, carregadas de sentido13, e podem ser modificados. Desta maneira, o falar possibilitou a mudança no que se refere à percepção da violência sofrida, e isso pode ser percebido nos seguintes fragmentos da experiência vivida: [...] com a psicóloga consegui ver o que estava acontecendo [...] (E3); [...] o apoio de todo o pessoal daqui do Centro está sendo fundamental, porque ajuda a enxergar coisas que a gente não queria ver, ou de repente esconde (E2).

Quando a mulher vítima da violência doméstica consegue falar, expor sua subjetividade, a partir da experiência traumática, poderá atribuir um novo significado à vivência armazenada, e, ao fazê-lo, será possível mudar a significação do sofrimento, e, assim, superá-lo.

Na medida em que as lembranças de imagens, de cenas, são cercadas de palavras, e vêm para o aqui e agora, para o mundo presente, há a representação. Neste sentido, os relatos necessitam de uma reorganização dos fatos de memória, a fim de que intencionalmente sejam remetidos para aqueles que estão próximos, para a cultura, para um terceiro real ou imaginário. Além disso, a narrativa para si próprio, sobre o trauma vivido, que possibilita dar sentido ao que aconteceu e remanejá-lo afetivamente, pode ser compreendido com um fator de resiliência, além da narrativa para o outro.19

Há que se destacar que o projetar para além dos muros do mundo privado, propiciou às participantes da pesquisa encontrar nas redes de apoio social um dos fatores de resiliência, entre outros como a capacidade de encontrar um sentido à vida, e esse aspecto diz respeito à espiritualidade e religião, atitudes e sentimentos de pelo menos um pouco de domínio sobre a própria vida, amor próprio e senso de humor.7 Isso pode ser percebido no fragmento do discurso a seguir: [...] e outra coisa que é fundamental é minha religião. É Deus mesmo que está me mantendo, me abrindo os caminhos [...]. Quando casei eu era uma pessoa mais frágil, precisando de uma pessoa do meu lado [...]. e foi passando os anos, eu fui vendo que cada vez mais eu estava sozinha. Então eu fui largando, fui deixando, porque não podendo mais contar com ele, eu fui bancando o homem da casa, então [...] eu fui crescendo, e nessa parte, realmente, eu não tenho medo de assumir nada, fui tomando todas as decisões que tinham de ser tomadas sozinha [...] (E2).

Como cada ser humano enquanto corpo vivente que vê e é visto, toca e é tocado, sente e é sentido porque é objeto sensível13 vive seus dramas e carrega as feridas existenciais de maneira única e individual, é importante conhecer os fatores de resiliência para compreendê-la, porquanto não é um estado estável e definitivo, mas, sobretudo, um processo comportamental constituído de altos e baixos, razão pela qual é mais justo dizer que uma pessoa está em percurso de resiliência do que afirmar que está resiliente.18 Isso pode ser constatado nas falas a seguir: [...] eu estou tentando, mas eu não imaginava que fosse ser tão difícil, essa parte de você sair. Estou bem consciente que quando eu sair de casa não vou mais voltar. [...] o importante é que agora, emocionalmente eu choro, mas estou me sentindo melhor, bem tranqüila sabendo que eu vou sair daqui (E1); [...] a gente passou por vários processos, e anos atrás a gente deu uma separada [...] já fez 29 anos que a gente se casou [...] e eu, na minha cabeça, sempre achei que ele poderia melhorar, tinha aquela esperança quando ele estava bem [...]. Eu fui dar conta, realmente caiu a ficha, acho que foi o ano passado quando vi que não tem volta, que infelizmente ele é uma pessoa doente (E2); [...] foram várias vezes que eu terminei com ele, fui pra casa da minha mãe, e voltava de novo, porque achava que ele mudou. Foi assim por nove anos. Fui burra em insistir nisso. (E3)

As mulheres participantes da pesquisa tentaram em outros momentos, romper com o ciclo da violência sem ajuda de profissionais que constituem as redes de apoio social, mas isso não foi suficiente para continuarem o processo, o percurso de resiliência, porquanto vai além do enfrentamento.

A resiliência é composta de duas dimensões: a resistência à destruição, que se relaciona à capacidade de proteger sua integridade sob fortes pressões, e a capacidade de se construir, criar uma vida digna de ser vivida, apesar das circunstâncias adversas. Pode ser estimulada, mantida e construída por diferentes atores sociais, e, para tal, é interessante conhecer e compreender os diversos aspectos que a constituem, mediante a metáfora da "Casita da resiliência", na qual cada peça representa um domínio de intervenção potencial7, a saber:

- solo - necessidades físicas fundamentais como sono, cuidados de saúde, enfim, aquelas que condicionam a existência;

- subsolo - redes de relações mais ou menos informais: família, amigos, vizinhos, colegas da escola e/ou do trabalho;

- térreo - a capacidade de encontrar sentido, coerência na vida;

- primeiro estágio - três quartos: estima de si, competências e atitudes, e o humor, juntamente com outras estratégias de ajustamento;

- sótão - abertura para outras experiências.

Para se trabalhar com os elementos que constituem a "Casita da resiliência", cada ser humano deverá discernir sobre uma situação concreta, sobre quais móveis deseja colocar em cada peça, isto é, qual ação precisa deseja conduzir. Ela não é uma estrutura fixa, razão pela qual não deve imperativamente responder ou seguir a ordem nela apresentada. Percorrê-la de modo a se interrogar sobre os pontos fortes e sobre as faltas, pode servir para detectar forças e fraquezas de uma pessoa e de seu entorno.

A representação da "Casita da resiliência" abriu concretamente a possibilidade da enfermeira poder atuar na sua prática de cuidado como tutora da resiliência. Para tanto, é necessário conhecer o outro na sua totalidade, e esse conhecimento que permite penetrar na profundidade do corpo vivido se dá pela percepção. Esta nos faz conhecer existências e problemas vividos, e está presente em cada momento como recriação ou reconstituição do mundo.13

Destarte, a enfermeira poderá pela percepção, captar a subjetividade, mas para isso deverá assumir a postura de abertura e flexibilidade, de escuta atentiva, do olhar sensível e hermenêutico que capta o outro em sua multidimensionlidade,20-21 e encontrar elementos que a ajudarão a perceber se as mulheres vítimas de violência doméstica estão em processo de resiliência. Estes elementos tanto são constituintes da subjetividade das mulheres, como podem estar relacionados ao contexto onde estão incertas, e à sua dinâmica relacional existencial na dimensão pessoal, social e profissional.

 

REFLEXÕES

Ao finalizar a caminhada percorrida para desvelar o fenômeno em tela, foi possível perceber e compreender que a violência sofrida pelas mulheres em suas múltiplas formas de expressão, fizeram de sua existência uma via crucis de sofrimento, em função da relação de sujeição, de dominação absoluta que desencadeou a desestruturação da própria vida e da família, e culminou no ato de violência extrema: a ameaça à vida.

A ameaça à vida despertou nas mulheres participantes da pesquisa o desejo de romper com o ciclo da violência doméstica, e de se libertarem do seu agressor e manipulador, e as fez saírem do estado de imobilidade.

A mobilização interna as colocou em movimento existencial, em busca de ajuda obtida nas redes de apoio social como a Delegacia da Mulher e o Centro de referência e atendimento à mulher em situação de violência doméstica de Curitiba e região metropolitana, desencadeou o enfrentamento, e, assim, a possibilidade de falar sobre o trauma vivido, dar um outro significado ao sofrimento, e estimular o processo de resiliência. Neste sentido, os recursos externos representados pelos dois serviços podem ser considerados como importantes fatores propiciadores de resiliência.

A trajetória percorrida durante o desenvolvimento da pesquisa possibilitou compreender mediante fragmentos de experiências humanas relacionadas com a violência doméstica, que a resiliência é um processo de mobilização interna que desencadeia um movimento de rupturas e de abertura existencial em direção ao outro, com o intuito de ser ajudado, de transcender a experiência vivida e encontrar um novo sentido para a existência, mesmo que provisório, e que pode ser estimulado também pela enfermeira.

Destarte, a presença da enfermeira nas redes de apoio social é importante, porque paralelamente ao trabalho de outros profissionais, poderá também entre outras ações de cuidado ser tutora da resiliência. Para tanto, deve despir-ser de preconceitos e julgamentos, ser capaz de perceber e captar a totalidade da mulher vítima de violência doméstica, de modo a compreendê-la como um corpo vivido, como um corpo dominado, explorado e sofrido, que guarda sua história na subjetividade, e que ao compartilhá-la clama por ajuda.

A utilização da "Casita da resiliência" pode ser trabalhada pela enfermeira na consulta de enfermagem com as mulheres vítimas de violência doméstica de maneiras diversas, mas, de qualquer forma, é preciso a intencionalidade no sentido de querer ajudar o outro a ser resiliente e/ou continuar seu processo de resiliência. É necessário o movimento existencial em direção ao outro que propicia a aproximação e o encontro.

O encontro permeado pelo diálogo, pela linguagem possibilita a interação, a descoberta do outro, propicia penetrar sua superfície, de modo a transcendê-la. Essa transcendência permitirá conhecer a subjetividade das mulheres vítimas de violência doméstica, porquanto é nela que ficam armazenadas as marcas invisíveis da violência sofrida, os significados e os sentidos atribuídos às experiências vividas durante a trajetória existencial.

Estimular o outro a ser resiliente significa cuidar, porquanto o cuidado é uma ação intencional, que se concretiza mediante a situação de encontro/interação, é uma relação de ajuda, de troca, reciprocidade e descobertas. Assim, a enfermeira ao estimular o processo de resiliência das mulheres vítimas de violência doméstica poderá promover a saúde, e, consequentemente, melhorar a qualidade de vida delas.

Cuidar neste contexto significa ajudar na superação do vivido pelas mulheres vítimas de violência doméstica, que implica em rupturas com o outro e com o passado, para que possam se libertar, superar e adaptar-se ao novo. O novo sentido que estão tentando encontrar não apagará o vivido, mas poderá servir como fator de resiliência para a reconstrução de uma nova existência.

 

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Correspondência:
Liliana Maria Labronici
Rua Lothário Meissner, 632 - Jardim Botânico
80210-170, Curitiba, PR, Brasil
E-mail: lililabronici@yahoo.com.br

Recebido: 05 de abril de 2011
Aprovação: 28 de março de 2012

 

 

1 Pesquisa desenvolvida com apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.