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Texto & Contexto - Enfermagem

versão impressa ISSN 0104-0707versão On-line ISSN 1980-265X

Texto contexto - enferm. vol.26 no.4 Florianópolis  2017  Epub 17-Nov-2017

https://doi.org/10.1590/0104-07072017000680017 

Reflexão

REFLEXÕES SOBRE O ITINERÁRIO DE PESQUISA DE PAULO FREIRE: CONTRIBUIÇÕES PARA A SAÚDE

REFLEXIONES SOBRE EL ITINERARIO DE INVESTIGACIÓN DE PAULO FREIRE: CONTRIBUCIONES PARA LA SALUD

Ivonete Terezinha Schülter Buss Heidemann1 

Indiara Sartori Dalmolin2 

Pamela Camila Fernandes Rumor3 

Camilla Costa Cypriano4 

Maria Fernanda Baeta Neves Alonso da Costa5 

Michelle Kuntz Durand6 

1Doutora em Enfermagem. Docente do Departamento de Enfermagem e do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PEN) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. E-mail: ivoneteheideman@gmail.com

2Mestranda do PEN/UFSC. Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. E-mail: indiarasartoridalmolin@gmail.com

3Doutoranda do PEN/UFSC. Enfermeira do Hospital Universitário Dr. Polydoro Ernani de São Thiago. Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. E-mail: pamrumor@gmail.com

4Mestre em Enfermagem. Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. E-mail: camicypri@gmail.com

5Doutora em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem da UFSC. Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. E-mail: fernanda.baeta@ufsc.br

6Doutora em Enfermagem. Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. E-mail: michakd@hotmail.com


RESUMO

Objetivo:

refletir acerca do itinerário de pesquisa de Paulo Freire como referencial teórico-metodológico desenvolvido no interior dos Círculos de Cultura e suas contribuições para a saúde.

Método:

o texto foi construído com suporte da práxis freireana, buscando refletir sobre seu método de trabalho, que ocorre em três fases dialéticas e interdisciplinares: investigação temática; codificação e descodificação; e desvelamento crítico. O itinerário de pesquisa valoriza as fontes culturais e históricas dos participantes, que podem ser desveladas nos Círculos de Cultura.

Resultados:

esse referencial está embasado em uma pedagogia crítico-social, que tem um compromisso ético de emancipação e libertação da sociedade para promover qualidade de vida. Para que isso ocorra há dois elementos que são fundamentais na sua filosofia: a conscientização e o diálogo. Esses refletem um verdadeiro exercício de transdisciplinaridade, especialmente na área da saúde, que tem suas práticas voltadas ao ser humano. Paulo Freire é um educador que se fundamenta em uma visão político-humanista, cujos principais conceitos são: diálogo, cultura, práxis, opressor/oprimido, emancipação e Círculo de Cultura.

Conclusão:

a práxis freireana reflete a realidade e intervêm sobre ela, teorizando-a não pedagogicamente e sim na sua dimensão política. Articula-se com a pesquisa qualitativa, buscando o desvelamento da realidade social.

Palavras-Chave: Metodologia; Pesquisa qualitativa; Saúde; Enfermagem; Autonomia

RESUMEN

Objetivo:

reflexionar sobre el itinerario de investigación de Paulo Freire como referencial teórico-metodológico desarrollado en el interior de los Círculos de Cultura y sus contribuciones a la salud.

Método:

el texto fue construido con soporte de la praxis freireana, buscando reflexionar sobre su método de trabajo, que ocurre en tres fases dialécticas e interdisciplinares: investigación temática; codificación y descodificación; y desvelamiento crítico. El itinerario de investigación valora las fuentes culturales e históricas de los participantes, que pueden ser desveladas en los Círculos de Cultura.

Resultados:

este referencial está fundamentado en una pedagogía crítico-social, que tiene un compromiso ético de emancipación y liberación de la sociedad para promover calidad de vida. Para que esto ocurra hay dos elementos que son fundamentales en su filosofía: la concientización y el diálogo. Estos reflejan un verdadero ejercicio de transdisciplinariedad, especialmente en el área de la salud, que tiene sus prácticas orientadas al ser humano. Paulo Freire es un educador que se fundamenta en una visión político-humanista, cuyos principales conceptos son: diálogo, cultura, praxis, opresor/oprimido, emancipación y Círculo de Cultura.

Conclusión:

la praxis freireana refleja la realidad e interviene sobre ella, teorizándola no pedagógicamente, sino en su dimensión política. Se articula con la investigación cualitativa, buscando el desvelamiento de la realidad social.

Palabras-clave: Metodología; Investigación cualitativa; Salud; Enfermería; Autonomía

ABSTRACT

Objective:

to reflect on Paulo Freire’s Research Itinerary as a theoretical-methodological framework developed within the Culture Circles and their contributions to health.

Method:

the text was constructed with the support of the Freirean praxis, seeking to reflect on its method of work, which occurs in three dialectical and interdisciplinary phases: thematic research; coding and decoding; and critical unveiling. The research itinerary values the cultural and historical sources of the participants, which can be revealed in the Culture Circles.

Results:

this framework is based on a critical-social pedagogy, which has an ethical commitment to emancipation and liberation from society to promote quality of life. For this to occur there are two fundamental elements in its philosophy: awareness and dialogue. These reflect a true exercise of transdisciplinarity, especially in the area of health, whose practices are aimed at the human being. Paulo Freire is an educator, based on a political-humanist vision, whose main concepts are: dialogue, culture, praxis, oppressor/oppressed, emancipation and Culture Circles

Conclusion:

freirean praxis reflects reality and intervenes in such, theorizing it not pedagogically but in its political dimension. It is articulated with qualitative research, seeking to unveil social reality.

DESCRIPTORS: Methodology; Qualitative research; Health; Nursing; Autonomy

INTRODUÇÃO

O desenvolvimento de pesquisas participativas na saúde proporciona um grande avanço no envolvimento da sociedade e a participação dos sujeitos, verdadeiros autores e condutores de pesquisas que, numa sequência lógica de ações de investigação, aproximam interesses tanto acadêmicos quanto sociais. Ao ter o diálogo como ferramenta-chave na condução e efetivação de seus passos, a pesquisa participativa se caracteriza por compreender e valorizar diferentes conhecimentos, dando destaque a uma ciência ética e politicamente comprometida com a transformação social.1

Os saberes descritos e praticados por Paulo Freire buscam a “transformação” dos homens e mulheres, entre os quais se criam relações de cuidado e de afeto, por meio de uma relação ética e humanística pautada no respeito ao ser humano e aos seus valores e crenças. Porém, ele vai mais longe, trazendo a compreensão de que todo sujeito é portador de saberes e que são imprescindíveis para que se possa estabelecer uma articulação de amorosidade e de trocas.2

Paulo Freire afirma que se faz necessário “o empoderamento do sujeito”, que é a “libertação do oprimido” que existe em cada ser humano. Mas o que ele quer dizer com isso? A forma mais clara de compreender é por meio de sua própria biografia, de sua vida e de sua prática.

O pensamento e a obra de Paulo Freire (1921-1997) refletem, fundamentalmente, o contexto em que viveu no início de sua trajetória de vida no nordeste do Brasil. No final da década de 1950 e início dos anos 1960, quando deu início ao seu trabalho de alfabetização de adultos, metade da população era analfabeta, vivenciado a cultura do silêncio. Sua obra reflete um real exercício de transdisciplinaridade. Freire é um educador baseado na visão humanista internacionalista, e sua obra não é um livro de receitas, mas decorre de uma universidade da aliança da teoria prática.3 Com o golpe militar de 1964 foi preso e se exilou no Chile entre os anos de 1964 a 1969, sob o governo democrata cristão de Eduardo Frei, onde consolidou seu método de alfabetização e pensamento político pedagógico, incluindo sua obra fundamental, “Pedagogia do oprimido”, publicada em 1970, inspirando diretamente a formação da teoria inglesa de empowerment.4

Paulo Reglus Neves Freire, brasileiro, reconhecido internacionalmente como um dos maiores educadores do século XX, “enxergou” a incapacidade das pessoas de se autorreconhecerem como sujeitos de suas vidas, o que os limitava ainda mais em vislumbrar alguma possibilidade de mudança daquela realidade; além disso, percebeu que esses (oprimidos) eram dominados por pessoas que não lhes reconheciam como seres humanos integrais, apenas lhes davam valor por os servirem e, assim alcançarem os seus (dos opressores) próprios interesses.2

Com toda essa realidade arraigada em sua mente, Freire iniciou sua caminhada como educador, onde com um olhar aguçado para as reais necessidades desses sujeitos, desenvolveu o “Método Paulo Freire” de ensinar, de empoderar, valorizando os saberes prévios existentes nesses trabalhadores. Seus ensinamentos ecoaram em todos os hemisférios do globo e trouxeram à luz uma compreensão para a quebra dos paradigmas existentes.2

Embora Paulo Freire não explicite seu pensamento mediante estruturas conceituais formais, deixa implícita sua visão de mundo na complexidade de suas obras, principalmente, em “Educação como prática de liberdade” (1967), “Educação e comunicação: extensionismo rural” (1968), “Pedagogia do oprimido” (1970), Cartas à Guiné-Bissau (1975), “Educação e mudança” (1979), “Pedagogia da esperança” (1992), “À sombra desta mangueira” (1995), “Professora sim, tia não” (1997), “Pedagogia da autonomia” (1997) e “Pedagogia da indignação” (2000). Em todas as suas obras, e sob diferentes ângulos, ele busca a conscientização do sujeito, para reconhecer-se como pessoa.

Em sua obra e pensamento, Freire trabalha principalmente com os conceitos de homem, diálogo, cultura, conscientização, transformação, práxis, opressor/oprimido, educação bancária/libertadora, emancipação, e Círculo de Cultura. Como método de trabalho utiliza o itinerário de pesquisa, que compreende três fases distintas, interligadas dialeticamente: investigação temática; codificação e descodificação; e desvelamento crítico.5

Para Paulo Freire, o diálogo “é este encontro dos homens, mediatizados pelo mundo, para pronunciá-lo, não se esgotando, portanto, na relação eu-tu”.2:91 Segue-se então uma relação de precondições para que este diálogo, como ato criador, ocorra: um profundo amor ao mundo e às pessoas, a humildade, uma intensa fé nas pessoas, na sua capacidade de fazer e criar, o clima de confiança, um mover-se na esperança e um pensar crítico.6

O modus operandi de Paulo Freire é uma opção metodológica pouco difundida, entretanto eficaz, pois nesta estratégia metodológica se utiliza o Círculo de Cultura, no qual pesquisador e pesquisando realizam reflexões e discussões sobre a realidade e coletivamente procuram desvelar e identificam as possibilidades de intervenções. Os participantes, mediante um processo de ação-reflexão-ação, são levados a se perceberem como autores de suas histórias e com isso se conscientizam e se fortalecem para modificar as suas práticas. Este processo reflexivo valoriza as fontes culturais e históricas dos indivíduos, que podem ser desveladas nos Círculos de Cultura.

O Círculo de Cultura é um termo criado por Freire, representado por um espaço dinâmico de aprendizagem e troca de saberes. Os sujeitos se reúnem no processo de educação para investigar temáticas de interesse do próprio grupo. Representa uma situação/problema de situações reais, que levam à reflexão da própria realidade, para, na sequência, descodificá-la e reconhecê-la.5,7

O referencial metodológico de Paulo Freire pode ser delineado como uma pesquisa qualitativa, cujo compromisso é o de transformação política da realidade, em que as pessoas participam ativamente da troca de saberes do vivido e da experiência. Trata-se de um referencial metodológico de troca de saberes entre os participantes e conhecimentos envolvidos na realidade social, dando voz e dialogando sobre o contexto em que as pessoas vivem. A partir das situações sociais, estes buscam uma forma coletiva de melhorar a compreensão da realidade e transformá-la. Seria como ajudar a modificar os costumes de indivíduos e populações para melhorar suas vidas e transformar a sociedade.

A pesquisa qualitativa articula-se com o referencial metodológico de Freire, especialmente porque reflete o contexto social em que os participantes vivem, por meio da dialogicidade promovida pelo Círculo de Cultura. O diálogo em Freire possibilita revelar as contradições e situações-limite dos participantes no contexto pesquisado, refletindo e desvelando o que está oculto e impulsionando a criatividade dos mesmos com novas propostas de ação sobre a realidade. Este referencial em conjunto com a pesquisa qualitativa permite uma integração entre a pessoa e o objeto, com envolvimento e estímulo para que novas ações sobre a realidade possam ser concretizadas.

Por meio desta metodologia podem ser caracterizado os conflitos, as contradições, as diversidades ou positividades que representem uma situação existencial de saúde de uma determinada realidade e que são vivenciadas por homens e mulheres. A concepção dialógica de Freire ampliaria as fronteiras de atuação dos profissionais em uma perspectiva interdisciplinar e intersetorial com maior resolubilidade das ações de saúde e melhores impactos dos indicadores da população assistida.5

Atualmente, os saberes de Paulo Freire têm sido estudados e utilizados por muitos pesquisadores de diferentes áreas de atuação. O Laboratório de Pesquisa em Enfermagem e Promoção da Saúde (LAPEPS), vinculado à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), iniciou suas atividades em 1994 e, desde então, vem utilizando o referencial teórico metodológico freireano em seus estudos. Anteriormente denominado Núcleo de Extensão e Pesquisa em Enfermagem e Promoção da Saúde (NEPEPS), este grupo interdisciplinar, possuindo como tradição a realização de investigações de abordagem qualitativa, estando dentre suas linhas de estudos, os processos educativos em saúde, com caráter participativo, o que justifica a utilização do itinerário de pesquisa de Paulo Freire.

O presente estudo objetiva refletir acerca do itinerário de pesquisa de Paulo Freire, como referencial teórico-metodológico desenvolvido no interior dos Círculos de Cultura, e suas contribuições para a saúde.

Itinerário de pesquisa de Paulo Freire

O itinerário de pesquisa pautado em Freire representa uma abordagem de pesquisa qualitativa participativa e com cunho libertador/emancipador. Dessa forma, expõe-se o esquema do itinerário de pesquisa de Paulo Freire, elaborado pelas autoras, a partir de uma adaptação que sistematiza as etapas que constituem o método,8 conforme a figura 1.

Figura 1 Esquema do itinerário de pesquisa de Paulo Freire 

Neste sentido, para refletir e operacionalizar cada etapa, utilizou-se o artigo intitulado: “Promoção da saúde na atenção básica: estudo baseado no método de Paulo Freire”,9 aliado às suas principais obras, e na literatura que aborda o tema.

Investigação temática

A primeira fase do itinerário de pesquisa é denominada investigação temática, e se caracteriza pelo diálogo inicial, que busca a construção da educação e do pensamento crítico entre os participantes e os mediadores da pesquisa. Nessa etapa ocorre a identificação dos temas geradores, de acordo com a realidade dos sujeitos, por meio do universo vocabular extraído do cotidiano. Com base nisso, a problematização vai acontecendo na medida em que os problemas são levantados por meio do diálogo, no qual os sujeitos participantes falam sobre as contradições, as situações concretas e reais em que estão vivendo o seu aqui e agora.2

A investigação temática se constitui essencialmente da consciência da realidade e da autoconsciência que dá início ao processo educativo libertador.2 O que se busca pesquisar não são os homens, e sim, o pensamento e a expressão da realidade, a concepção do mundo onde se encontram os seus temas geradores, que são identificados não só na vivência existencial como também da reflexão crítica das relações homens/mundo e homens/homens.2,5

Exemplificando, diante do objetivo de “identificar e refletir se as ações de promoção da saúde compreendiam as cinco estratégias da Carta de Ottawa no processo de trabalho das equipes saúde da família, bem como as facilidades e dificuldades para a consolidação da promoção da saúde”,9:4 emergiram no primeiro Círculo de Cultura os seguintes temas geradores: “atendimento individual, imunização, atendimento coletivo, acolhimento, ações comunitárias, visita domiciliar, violência, intersetorialidade, relacionamento da equipe de saúde, atenção ao meio ambiente, dificuldades de recursos para o lazer, saúde do escolar, organização do trabalho deficiente, estrutura material precária, dificuldade em criar vínculo, programas assistenciais, referência e contrarreferência, recursos operacionais”.9:4

Nesse sentido, a investigação dos temas geradores se concretiza pela utilização de um método conscientizador, permitindo apreender e inserir os homens num campo de pensamento crítico sobre o seu mundo. “Isto não significa a redução do concreto ao abstrato, o que seria negar a sua dialeticidade, mas tê-los como opostos que se dialetizam no ato de pensar.”2:161 Essa primeira etapa da educação como prática problematizadora se afirma na busca pela compreensão do mundo em suas relações com homens e mulheres, evoluindo de uma realidade inerte, para um caminho em constante movimento, sendo possível o despertar para a consciência crítica. Assim, a palavra não é mais uma palavra vazia, é práxis, ou seja, a ação e reflexão das pessoas sobre a realidade para transformá-la.2

Ressalta-se que para o registro fidedigno das informações dos Círculos de Cultura, com base nas experiências do LAPEPS, utilizando este referencial metodológico desde 1994, recomenda-se associar estratégias de apreensão, tais como anotações em diário de campo, gravação de áudio e filmagem, para possibilitar uma compreensão mais ampliada das discussões, bem como inter-relações presentes e expressões não verbais.

Codificação

Com o levantamento dos temas geradores, parte-se para a segunda fase da investigação, na qual as temáticas identificadas são codificadas, sendo reveladas as contradições e apontadas as representações das situações vividas.2

Paulo Freire aborda a codificação dos temas geradores como uma situação figurada que antes havia sido apreendida aleatoriamente e passa a ganhar significação na medida em que estes temas são dialogados, contextualizados, substituídos a primeira visão mágica, por uma visão crítica e social do assunto discutido.2,5No primeiro caso, pode-se usar o canal visual, pictórico ou gráfico, o táctil ou o canal auditivo. No segundo, a multiplicidade de canais.2 A seleção do canal visual pictórico ou gráfico é influenciada pela temática codificada e pelos participantes, para, a partir disso, produzir o material didático.2

Na medida em que as codificações (pintadas ou fotografadas) são elaboradas, os participantes vão fazendo a sua análise crítica, obedecendo a alguns princípios que norteiam a confecção visual, como: 1) Os temas codificados representam a realidade das pessoas, o que os faz reconhecíveis por elas; 2) As codificações revelam as contradições que estão ocultas, abrindo-se em um leque que impulsiona a sua descodificação; 3) Os temas a serem discutidos não podem ser explícitos demais pois podem se transformar em codificações propagandísticas, na qual as pessoas apresentam dificuldades para discuti-las; e 4) As codificações não devem ser enigmáticas em demasia, evitando um jogo de adivinhação, onde as pessoas não conseguem realizar a análise crítica da situação.2

Esta fase do método representa as situações existenciais, na qual as codificações oferecem diferentes possibilidades de análises na sua descodificação, o que evita o direcionamento da codificação propagandística. As codificações não são frases prontas, mas objetos cognoscíveis que incitam a reflexão crítica de homens e mulheres sobre a realidade vivida.2

A codificação dos temas geradores ocorreu a partir do registro dos participantes de palavras-chave em tarjetas de papel pardo e painéis, utilizando pincéis de diversas cores. Estas palavras representavam as potências e os desafios da promoção da saúde para os participantes naquele momento.9

Descodificação

A descodificação é a análise da situação vivida, um momento dialético em que os participantes passam a admirar, refletir sobre sua ação. Nesta fase, refazem seu poder reflexivo e se reconhecem como seres capazes de transformar o mundo. Destaca-se a relevância de uma prática concreta para a superação das situações limites. A descodificação compreende quatro momentos subsequentes, no qual as pessoas são questionadas a descrever: o que vêem ou sentem, como definem o nível principal do tema, como vivenciam as experiências, por que estas temáticas existem, e como desenvolver e planejar ações para endereçar os mesmos. Assim, os códigos são gerados e, pelo diálogo, novos códigos podem surgir e expressar a análise crítica do que a codificação apresenta, ou seja, a realidade.2,5,9

No primeiro momento, os participantes do grupo descrevem os elementos codificados como parte do todo. É o silêncio da apreensão do objeto codificado que se evidencia. A descodificação da situação existencial provoca uma abstração, que possibilita um ir e vir das partes para o todo e do todo para as partes, num contínuo processo de reflexão.5

O segundo momento é caracterizado pela cisão da totalidade admirada. Os sujeitos olham a realidade de dentro, mas não conseguem apreender ainda a sua totalidade. Esta separação na fase de descodificação representa a descrição da situação. O todo, que antes havia sido apreendido, passa a ganhar significação na medida em que sofre a cisão e em que o pensar volta a ele, a partir das dimensões resultantes dela.2

Durante o terceiro momento os participantes voltam a admirar e apreendem a situação codificada na totalidade. Em todos os momentos da descodificação é exteriorizada a visão do mundo, a forma de compreendê-lo e a dinâmica do contexto pesquisado. É a partir desta forma de pensar o cotidiano que se realiza o enfrentamento da realidade. Mesmo que um grupo não expresse concretamente uma temática geradora, sugere o tema do silêncio, a adaptação.2

No quarto momento é realizada a análise crítica do que a codificação apresentou. Ocorre uma reflexão ampliada e em profundidade que pode despertar novos olhares sobre a realidade dos participantes. Na medida em que a descodificação vai acontecendo, chega-se ao que Paulo Freire chama de percepção da percepção anterior.2

Cabe ao investigador ouvir e desafiar cada vez mais os participantes, contextualizando de um lado, a situação existencial codificada e, de outro, as próprias respostas emergentes no decorrer do diálogo. Desta forma, todos vão exteriorizando uma série de sentimentos, opiniões de si e do mundo.2

A descodificação representa a análise crítica da situação codificada por meio da leitura atenta, reflexiva e interpretativa dos temas elencados.9 Posteriormente, os participantes dos Círculos de Cultura, descodificaram o significado dos temas gerando um diferente olhar sobre a promoção da saúde.

Desvelamento crítico

A fase do desvelamento crítico se constitui no último momento do itinerário de pesquisa de Paulo Freire.10 De acordo com o esquema,8 retrata a reflexão preliminar das propostas extraídas através da codificação objetiva, abarcando princípios da subjetividade interpretativa. Retrata a realidade e as possibilidades.

Nesta fase, busca-se a redução dos temas, ou seja, a cisão dos mesmos enquanto totalidade para melhor conhecê-los.2 A tomada de consciência da situação existencial, em que se descobrem os limites e as possibilidades da realidade. Acontece, então, o processo de ação-reflexão-ação que capacita as pessoas a compreender e evidencia-se a importância de uma ação concreta, cultural, política e social, mirando situações limites e o enfrentamento das contradições.2,5

Concebe-se o desvelamento da realidade como um processo elaborado em conjunto no qual o diálogo compõe o elemento dinamizador da ação e da reflexão.11 Desta forma, o pesquisador deve ser o mediador deste processo, impulsionar o percorrer de um caminho para a democracia e possibilitar uma compreensão crítica da realidade em que se vive, tendo o ato de dizer a verdade como um dever moral inerente às suas ações, utilizando-se de um diálogo franco e corajoso no decorrer de todo processo.12

Para proceder ao desvelamento das temáticas, os temas são sistematizados e reapresentados nos Círculos de Cultura para análise, reflexão e encaminhamentos. Estas temáticas extraídas da realidade retornam aos sujeitos, como experiências que precisam ser transformadas. Para mediar o debate, procura-se dialogar sobre cada tema, justificando que estes são resultados das reflexões nos Círculos.5,13

Ao perceber o processo da transformação proposta pelos Círculos, os participantes experimentam um processo de metamorfose, transmutando-se em parte da experiência vivenciada pelo coletivo, de modo coletivo e dinâmico, tendo a experiência vivenciada traduzida em verbalizações e revelada pelas histórias compartilhadas, configurando no desvelamento de espaços coletivos, concretos e legítimos, proposto à circulação da palavra.14

Os participantes conduzem o debate a partir dos temas que consideram mais relevantes.9 O objeto de estudo deve ser o foco principal das discussões, com suporte do referencial teórico.

Portanto, a etapa do desvelamento crítico oportuniza a consolidação e socialização das propostas, imbricando-se no processo dialógico e oportunizando a cada participante retirar o véu que não os permite ver e analisar a veracidade das coisas, alcançar o profundo destas, conhecê-las, descobrir o que há em seu interior, atuar sobre o que se conhece para transformá-lo.11,15

Ao final da realização do itinerário freireano, sugere-se uma avaliação conjunta, entre o mediador e os participantes, da experiência vivenciada e das transformações percebidas por eles. Neste estudo, os participantes destacaram os temas relacionados às facilidades e às dificuldades para se desenvolver as práticas rotineiras da unidade, interpretadas como de promoção da saúde e prevenção de doenças. A partir da codificação, decodificação e desvelamento crítico das temáticas investigadas, apontou-se a necessidade de que ocorresse maior diálogo sobre o conceito de promoção da saúde e prevenção da doença.

Reflexões e contribuições para a saúde

Paulo Freire, ao propor o itinerário de pesquisa, operacionalizando-o por meio dos Círculos de Cultura, não pensou na sua aplicabilidade na área da saúde como um método de pesquisa e/ou como um método orientador do processo de trabalho. Todavia, as experiências do Grupo de Pesquisa LAPEPS, ao longo desses 22 anos, têm ratificado que essa metodologia contribui para os estudos e o trabalho em saúde, à medida que agrega um potencial pedagógico transformador e conscientizador aos participantes, sejam docentes, discentes, pesquisadores, profissionais da saúde ou usuários. Possibilita espaços de encontro entre as pessoas, rompendo com as barreiras hierárquicas implicadas na lógica biomédica, democratizando o saber em saúde, valorizando os cotidianos, as culturas e as formas de pensar e viver das famílias, grupos e coletividades. Além disso, esse método viabiliza a participação ativa dos homens e mulheres, sendo construído e ressignificado ao longo de toda a trajetória de pesquisa, em um constante movimento de ação-reflexão-ação.

Atualmente, este método tem sido utilizado em pesquisas na área da saúde e na prática por profissionais preocupados em transformar a realidade dos usuários e dos locais onde atuam, seja na rede pública ou privada, bem como por docentes, na formação profissional, visto que representam/significam um caminho para promover o cuidado crítico e criativo.16

Na pesquisa de saúde de cunho participativo ocorre o envolvimento dos participantes e do pesquisador, que estão interessadas em um determinado tema comum. Neste processo de pesquisa, ampliam-se a relevância e o impacto de mudança na sociedade. Os participantes mediatizados pelo diálogo e a reflexão, podem trabalhar melhor e criar formas de lidar com questões para promover a saúde e os seus cuidados. Este envolvimento durante a pesquisa possibilita a mobilização do conhecimento e tem potencial de transformação de determinada realidade, gerando impacto social.17

Entretanto, a aplicação do itinerário de pesquisa de Paulo Freire ainda envolve desafios nestes campos de atuação, como: a produção de um diálogo libertador a partir de uma educação que promove a reflexão, pois repete-se um diálogo autoritário que Freire chama de educação bancária; o clareamento dos princípios que constituem o referencial metodológico; a realização de uma investigação não diretiva; a possibilidade de participação dos envolvidos com disponibilidade de tempo; e a adaptação da linguagem do método idealizado para alfabetização dos adultos.5,13,18

Tais dificuldades vão além da necessidade da compreensão das concepções freireanas, exigindo uma mudança de paradigma - positivista - cuja superação favorecerá o desenvolvimento de uma nova visão do indivíduo e, consequentemente, uma prática realmente mais humana, afetiva e efetiva.16

Percebe-se, também, que as metodologias participativas de cunho reflexivo e libertador estão em ascensão no âmbito da formação acadêmica, relacionando-se com o desenvolvimento de competências e habilidades. No entanto, esta tendência ainda é tímida e, em alguns casos, não está alinhada com os objetivos da formação como um todo, além de ainda ser pouco compreendida pelos docentes e discentes no cotidiano formativo.19

CONCLUSÃO

Retomando ao objetivo do presente estudo que foi refletir acerca do itinerário de pesquisa de Paulo Freire e suas contribuições para a saúde, fica evidente a relevância em se utilizar a pesquisa participante na saúde, apoiada àquele itinerário, pois possibilita a articulação entre os interesses acadêmicos e a intervenção na população de estudo. Rompe as barreiras entre a academia e a sociedade, levando em consideração a reflexão dos participantes do estudo que, por vezes, dizem se sentir aviltados quando são tratados apenas como objetos de pesquisa.

Paulo Freire, quando propôs em suas obras o seu itinerário de pesquisa, deixou claro que esse deveria ser amplamente divulgado e utilizado nos diversos campos do saber, e que o objetivo final da sua aplicação deveria ser a transformação da realidade dos participantes dos Círculos de Cultura. Ressalta-se que, na pesquisa participante, o pesquisador também é o pesquisado, e deve fazer parte de todo o processo de ação-reflexão-ação.

Recomenda-se que sejam realizadas mais pesquisas participantes na área da saúde, pois estas contribuem para o autoconhecimento e a reflexão dos sujeitos envolvidos no sistema de saúde, proporcionando mudanças significativas, ao mesmo que está em constante aprimoramento e, sobretudo, na forma como as pessoas o utilizam.

Reitera-se a importância de mais estudos que divulguem a viabilidade da utilização deste itinerário como percurso metodológico nos diversos campos do saber. A falta de compreensão quanto aos passos deste itinerário de pesquisa se apresenta como um limitante para a expansão da utilização deste método.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 01 de Março de 2017; Aceito: 03 de Agosto de 2017

Correspondência: Ivonete Terezinha Schülter Buss Heidemann Servidão Natureza, 160 88063-545 - Campeche, Florianópolis, SC, Brasil. E-mail: ivoneteheideman@gmail.com

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