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Texto & Contexto - Enfermagem

Print version ISSN 0104-0707On-line version ISSN 1980-265X

Texto contexto - enferm. vol.26 no.4 Florianópolis  2017  Epub Jan 08, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/0104-07072017001420017 

Reflexão

REFLEXÕES TEÓRICAS E METODOLÓGICAS PARA A CONSTRUÇÃO DE TEORIAS DE MÉDIO ALCANCE DE ENFERMAGEM

REFLEXIONES TEÓRICAS Y METODOLÓGICAS PARA LA CONSTRUCCIÓN DE TEORÍAS DE MEDIO ALCANCE DE ENFERMERÍA

Marcos Antônio Gomes Brandão1 

Jaqueline Santos de Andrade Martins2 

Mauricio de Abreu Pinto Peixoto3 

Rafael Oliveira Pitta Lopes4 

Cândida Caniçali Primo5 

1Doutor em Enfermagem. Professor do Curso de Graduação e Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: marcosantoniogbrandao@gmail.com

2Doutora em Enfermagem. Coordenadora do Curso de Graduação em Enfermagem da Associacao Brasileira de Ensino Universitario - Centro Universitário. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: jaquelinedeandrademartins@gmail.com

3Doutor em Medicina. Professor do Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde da UFRJ. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: geac.ufrj@gmail.com

4Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery. Professor do Curso de Graduação da Universidade Estácio de Sá. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: pitta_rafael@hotmail.com

5Doutora em Enfermagem. Professora do Curso de Graduação e Mestrado Profissional em Enfermagem da Universidade Federal do Espírito Santo. Vitória, Espírito Santo, Brasil. E-mail: candida.primo@ufes.br

RESUMO

Objetivo:

refletir sobre estratégias e procedimentos para o desenvolvimento de teorias de médio alcance e as contribuições dessas teorias em conectar níveis abstratos e empíricos da disciplina à prática da enfermagem.

Método:

estudo de reflexão com característica analítica.

Resultados:

são apresentadas considerações sobre o desenvolvimento de teorias de médio alcance de enfermagem, tendo por ilustração a Teoria Interativa de Amamentação derivada do Modelo Conceitual de Sistemas Abertos de Imogene King. São tratados aspectos reflexivos do não aproveitamento dos elementos teóricos contidos na produção de enfermagem brasileira, especialmente em teses de doutorado. Defende-se a relevância do debate sobre estratégias para a expansão do desenvolvimento de teorias de médio alcance de enfermagem no Brasil.

Conclusão:

as teorias de médio alcance, por estarem a meio caminho das grandes teorias e da prática, guardam características de referenciais teóricos e também metodológicos. Fornecem uma maneira prática para os enfermeiros conectarem as perspectivas filosóficas da disciplina com o mundo real e as aplicações da teoria à prática clínica, sendo assunto de alta relevância.

DESCRITORES: Modelos teóricos; Teoria de enfermagem; Pesquisa metodológica em enfermagem; Formação de conceito; Enfermagem baseada em evidências

RESUMEN

Objetivo:

reflexionar sobre estrategias y procedimientos para el desarrollo de teorías de medio alcance y las contribuciones de esas teorías en conectar niveles abstractos y empíricos de la disciplina en la práctica de la enfermería.

Método:

estudio de reflexión con característica analítica.

Resultados:

se presentan consideraciones sobre el desarrollo de teorías de mediano alcance de Enfermería, teniendo por ejemplo la Teoría Interactiva de Lactancia derivada del Modelo Conceptual de Sistemas Abiertos de Imogene King. Se tratan aspectos reflexivos del no aprovechamiento de los elementos teóricos contenidos en la producción de enfermería brasileña, especialmente en tesis de doctorado. Se defiende la relevancia del debate sobre estrategias para la expansión del desarrollo de teorías de medio alcance de enfermería en Brasil.

Conclusión:

las teorías de medio alcance, por estar a medio camino de las grandes teorías y de la práctica, guardan características de referenciales teóricos y también metodológicos. Proporcionan una manera práctica para que los enfermeros conecten las perspectivas filosóficas de la disciplina con el mundo real y las aplicaciones de la teoría a la práctica clínica, siendo asunto de alta relevancia.

DESCRIPTORES: Modelos teóricos; Teoría de enfermería; Investigación metodológica en enfermería; Formación de concepto; Enfermería basada en evidencias

INTRODUÇÃO

Na classificação das áreas de conhecimento da enfermagem proposta ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico o eixo das teorias e metodologias é reconhecido pela capacidade de tornar os produtos do conhecimento circuláveis e de validade mais abrangente. Os modelos e as teorias próprios da disciplina são necessários, assim como aqueles retraduzidos de outros campos disciplinares.1 O valor de modelos conceituais e teorias de enfermagem é ponto de defesa entre os acadêmicos, chegando-se a afirmar que a legitimação de uma profissão tem base em sua habilidade de criar e aplicar teorias.2

Mesmo se reconhecendo que enfermagem, enquanto uma disciplina, produz conhecimento novo e próprio, também há que se reconhecer a existência de certa brecha entre a teoria e a prática, comumente atribuída ao fracasso da aplicação prática dos modelos e das grandes teorias produzidas no período de 1970 e 1980.2 Frente a isso, requerer-se-á a definição de estratégias para criar pontes entre teoria, pesquisa e prática de enfermagem. Dentre as diferentes possibilidades de se reduzir a mencionada brecha, tem se dado crescente relevância para a produção de Teorias de enfermagem mais aproximadas do nível empírico, em especial, àquelas classificadas como de médio alcance (middle-range theories ou mid-range theories).

As teorias de médio alcance são as que estão delimitadas em sua área de aplicação, cumprindo um papel teórico intermediário entre as hipóteses de trabalho específicas e todas as especulações que compreendam um esquema conceitual maior.3 Assim, têm sido consideradas de alta aplicabilidade na pesquisa e prática clínica, porém são múltiplas e complexas as estratégias e bases metodológicas para o seu desenvolvimento, exigindo que mais produção sobre o tema esteja disponível.

Destaca-se que um estudo de revisão4 baseado em revistas de enfermagem internacionais de maior fator de impacto demonstrou que, mesmo com o crescimento significativo das pesquisas em enfermagem, a proporção de artigos publicados que usaram Teorias de enfermagem, nos períodos de 1986-1990 e 2002-2006 manteve-se próxima dos 20%.4

Também se apontam o interesse e a necessidade crescente por teorias de enfermagem, especialmente, as de médio alcance e as de prática, que se tem observado em alguns países,5 bem como a variedade e a imprecisão dos termos empregados no campo teórico e na multiplicidade e complexidade metodológica. Reconhecendo as necessidades e possibilidades aventadas é que o presente artigo tem por objetivo refletir sobre as estratégias e procedimentos para o desenvolvimento de teorias de médio alcance e as contribuições dessas teorias em conectar níveis abstratos e empíricos da disciplina à prática da enfermagem.

TEORIAS DE ENFERMAGEM: CONCEITOS E ESTRATÉGIAS GERAIS DE DESENVOLVIMENTO

A teoria é uma representação simbólica de aspectos da realidade que são descobertos ou inventados para descrever, explicar, prever ou prescrever respostas, acontecimentos, situações, condições ou relações. É geralmente construída para expressar uma nova ideia ou uma nova visão na natureza de um fenômeno de interesse, sendo o principal meio para a construção do corpo de conhecimento específico da enfermagem.6 Ainda, é definida como uma ou mais conceituações relativamente concretas e específicas que são derivadas de um modelo conceitual e de suas proposições, com afirmações concretas e relações específicas entre dois ou mais conceitos.7

Muitas são as definições para o termo “teoria”, porém elas servem de referencial para analisar a prática de enfermagem. Elas explicam, cada uma a seu modo, a prática por meio de conceitos que expressam o desenvolvimento de ações e que explicitam a visão de mundo dos profissionais e objetivam consolidar a enfermagem como ciência e arte na área da saúde.8

Os níveis de abstração e escopo teóricos são variados. A metateoria é a de maior abstração, seguida pelas grandes teorias, teorias de médio alcance e, finalmente, as teorias práticas ou de situação específica, consideradas as menos abstratas.9 Por possuírem mais concretude do que as grandes teorias - e consequentemente possuírem elementos mais aplicáveis - as teorias de médio alcance têm recebido uma atenção maior nas pesquisas.7

De certo modo, o interesse pelas teorias de médio alcance se contrapõe ao desconforto difundido no diálogo academia-serviço de se considerar as grandes Teorias de enfermagem muito amplas ou abstratas para orientar diretamente as intervenções de enfermagem.10

Em relação ao desenvolvimento, as teorias de médio alcance podem seguir comumente uma orientação indutiva ou dedutiva e, até mesmo, conjugar ambas. As estratégias dedutivas tomam por base grandes teorias ou modelos teóricos, enquanto a orientação indutiva parte dos dados para organizar e construir uma nova teoria. A orientação por um ou outro raciocínio traz implicações na seleção de estratégias e procedimentos para o desenvolvimento de uma teoria.

Os procedimentos gerais para a formulação de uma teoria de médio alcance podem ser: indução por meio da pesquisa e da prática; combinação das Teorias de enfermagem e de não enfermagem; derivação de teorias de outras disciplinas que se relacionam com a enfermagem; derivação das diretrizes práticas e dos padrões com base na pesquisa e dedução a partir da pesquisa e da prática ou da aplicação de grandes teorias.10-11 Outros autores classificam os procedimentos como: indução da prática; indução da pesquisa; construção de conceitos seguida de teste na pesquisa e prática; dedução a partir de teorias de nível de abstração mais elevado e, derivação de teorias de outras disciplinas.12

A estrutura Conceitual-Teórico-Empírico (C-T-E) é útil na reflexão sobre dois tipos de pesquisa: uma voltada para criar teorias e a outra para testar teorias de médio alcance.13

Os procedimentos de criação de teorias tendem a considerar resultados de pesquisa (fatos particulares) para produzir as conclusões generalizantes que seriam as teorias em si.14 Nessa perspectiva, aplica-se a indução para criar teorias minimamente ou não vinculadas ou derivadas de modelos já concebidos, usando basicamente os dados para teorizar (exemplo: Teoria Fundamentada nos Dados); ou adotam modelos conceituais (componente C) apenas para guiar uma pesquisa descritiva criadora de teoria, gerando uma orientação do tipo C-E-T;13 ou utilizam apenas conceitos ou constructos mais gerais para criar teorias de médio alcance ou de situação específica; por exemplo, como na adoção do conceito de “transição”.15

Por outro lado, os procedimentos de testar teorias de médio alcance exigem que inicialmente os conceitos e proposições da teoria de médio alcance estejam ligados a um modelo conceitual, para então se fazer o teste teórico. A trilha é no sentido do C-T-E, sendo a pesquisa (componente E) descritiva, correlacional ou experimental.13 O raciocínio da dedução tende a ser o modo mais predominante. Teorias produzidas por dedução de um modelo conceitual ou grande teoria ou por conjugação de dedução e indução, mas, ainda, seguindo a lógica C-T-E exigem teste futuro (validação). De fato, o modelo mais clássico da ciência (visão recebida) reconhece que se deve perseguir a testagem de teorias mais abrangentes com base na experiência científica.

CARACTERÍSTICAS E REFLEXÕES GERAIS SOBRE O MÉTODO INDUTIVO DE PRODUZIR TEORIAS

No método de indução, partindo da pesquisa e da prática, a Teoria Fundamentada nos Dados, a Fenomenologia, e outros desenhos de pesquisas qualitativas ou quali-quantitativas que teorizam a partir de dados são formadoras de elementos para teorias de médio alcance.

Entende-se que a Pesquisa Convergente Assistencial possui características que a tornaria mais afeita a elaborar teorias de situações específicas,16 contudo, também tem elementos que possivelmente poderiam gerar teorias de médio alcance por indução.

No âmbito internacional encontram-se várias teorias desenvolvidas por indução: a Teoria de Transição de Meleis ligada ao conceito de transição observado em diversas pesquisas da autora e colaboradores;17 a Teoria sobre vigilância familiar fornece diretrizes acerca das intervenções de Enfermagem para familiares quando acompanhando seus entes hospitalizados;18 a Teoria de controle da dor aguda que foi desenvolvida a partir de diretrizes clínicas,19 entre outras.

Destaca-se que teses de doutorado de enfermagem podem fornecer direção para a produção de teorias de médio alcance.10 No entanto, na enfermagem brasileira não se tem verificado amplamente um reconhecimento do potencial produtor de teorias das teses de doutorado orientadas por raciocínio indutivo. Igualmente, salvo no caso específico da Teoria Fundamentada nos Dados, pesquisadores e seus orientadores não se atentam para o fato de que os modelos prescritivos ou explicativos das teses contêm elementos ou até estruturas moldadas já compatíveis com teorias de médio alcance. Portanto, uma florescente produção teórica de médio alcance pode estar contida na produção dos programas de Pós-Graduação em enfermagem do Brasil e, ainda assim, permanecer oculta, cabendo a isso reflexão e investigação.

Considerando a impossibilidade de exaurir o tema, os autores do presente artigo definiram por abordar e refletir sobre questões ligadas à estratégia metodológica dedutiva de derivação teórica de grandes Teorias de enfermagem, uma vez ainda são raras as teorias de médio alcance elaboradas no Brasil e respeitando a maior familiaridade com o desenvolvimento de teorias por uso desse procedimento.

A ESTRATÉGIA METODOLÓGICA DE DEDUÇÃO OU DERIVAÇÃO TEÓRICA DE TEORIAS DE MÉDIO ALCANCE A PARTIR DE GRANDES TEORIAS

A dedução aplica as estratégias de análise, síntese e derivação para o desenvolvimento de teorias de médio alcance da enfermagem. Na análise, o teórico deve “dissecar o todo em partes” para que possa ser melhor compreendido. Na síntese, as informações baseadas na observação são usadas para construir um novo conceito, uma nova afirmação e uma nova teoria. A derivação consiste na transposição ou redefinição de um conceito, afirmação e teoria de um contexto ou campo para outro.9 Essas estratégias são alinhavadas na construção de uma teoria pelo raciocínio dedutivo ou pela conjugação do dedutivo com o indutivo.

Para ilustrar a estratégia de dedução de teoria de médio alcance a partir de modelo conceitual, apresentam-se os procedimentos desenvolvidos na Teoria Interativa de Amamentação. A mencionada teoria, desenvolvida no Brasil, toma como base as evidências da literatura científica sobre o tema da amamentação, sendo derivada do Modelo Conceitual de Sistemas Abertos de Imogene King,20 que foi adotado por propor uma visão sistêmica e interacionista da realidade, o que para os autores pareceu concernente aos atributos do fenômeno da amamentação. Tem como finalidade descrever, explicar, predizer e prescrever a amamentação, examinando os fatores que antecedem, influenciam e são consequentes ao processo de amamentar.21

O ponto de partida para a construção da Teoria Interativa de Amamentação foi selecionar um modelo conceitual (componente C) que guiaria o processo de criação da teoria, especificamente o Modelo Conceitual de Sistemas Abertos. O componente conceitual tem sua relevância por representar a estrutura, sistema ou paradigma mais abrangente para a teoria. Ainda que não possa ser testado, o modelo conceitual guia a pesquisa ao oferecer uma estrutura de referência, limitando as perguntas que serão feitas na pesquisa, o que será estudado, as respostas obtidas e quais as regras de interpretação que serão aplicadas.13

Para o desenvolvimento dessa teoria foram realizadas três estratégias metodológicas: análise de conceito, síntese da literatura científica e derivação de teoria,9 conforme a figura 1.

Figura 1 Fluxograma de elaboração de uma teoria de médio alcance de amamentação, seguindo o modelo de Walker e Avant20  

A análise de conceito como estratégia no desenvolvimento de teorias

A análise de conceito de amamentação foi o caminho metodológico para descrever o fenômeno da amamentação e identificar os conceitos relacionados ao processo. A análise de conceito é uma estratégia de investigação altamente aplicada no desenvolvimento de teorias de médio alcance como uma das etapas iniciais de desenvolvimento. No entanto, na enfermagem brasileira, a análise de conceito parece estar sendo mais explorada na validação de diagnósticos de enfermagem ou para clarificação de conceitos de relevância para a prática profissional, sem prosseguir para as demais fases de teorização.22-25

No estudo exemplo, a amamentação foi o conceito selecionado para ser analisado. A autora buscou concepções sobre a amamentação presentes na literatura, valendo-se de seis etapas da análise: seleção do conceito, determinação dos objetivos para a análise conceitual, identificação dos possíveis usos do conceito, determinação dos atributos definidores ou críticos, identificação de antecedentes e consequentes do conceito e, definição dos indicadores empíricos.9 Selecionado o conceito e determinado os objetivos da análise, foi feita uma revisão integrativa de literatura para nortear essa análise.

A análise de conceito produziu um conjunto de dados e informações sobre o fenômeno da amamentação, tendo cunho empírico (componente E). Os conceitos e definições são elementos mais compatíveis com pesquisas geradoras de teorias, ao passo que números e dados quantitativos de pesquisas alinham-se à validação de teorias.

Nessa teoria, a partir da análise de conceito (técnica de análise da pesquisa) foi obtido um produto síntese ou definição de amamentação que foi alinhada ao modelo conceitual de referência (componente C). O modelo conceitual que, no exemplo, presume conceitos como sistema, interação e dinamismo, orientou o processamento e análise dos dados, gerando uma definição compatível com o referencial teórico.

A análise dos dados conceituais identificou onze conceitos centrais que foram utilizados para a construção da teoria de médio alcance (componente T).21

A síntese teórica como estratégia de criação de teoria

De posse dos dados empíricos analisados (componente E) foi desenvolvida a estratégia de síntese que utilizou as evidências da literatura para produzir afirmações teóricas. A síntese especificou as relações entre dois ou mais conceitos com base nas evidências que derivaram de pesquisas qualitativas e quantitativas baseadas na revisão de literatura conduzida pela autora. As afirmações teóricas produzidas foram dos tipos não relacional (definição teórica ou operacional do conceito) e relacional (a que declara algum tipo de relação entre dois ou mais conceitos e pode afirmar uma associação ou causalidade).9

A estratégia de síntese está alocada na lógica C-T-E como o componente T. É justamente, nessa fase, que a teoria de médio alcance começa a ser gerada a partir das orientações do modelo conceitual (componente C) com o uso de dados das pesquisas revisadas (componente E). Os elementos centrais de delimitação e conexão de conceitos são elaborados por meios das afirmações teóricas.

Na Teoria Interativa de Amamentação, um exemplo de afirmação não relacional é a definição apresentada para o conceito de estresse na amamentação como um estado dinâmico que é aumentado ou diminuído pela ação de estressores decorrentes das interações entre a mulher, a criança e o ambiente. Envolve troca de energia e informações entre a mulher, a criança e o ambiente para regulação e controle dos agentes estressores na amamentação, que podem ser internos ou externos ao binômio mãe-filho. Enquanto um exemplo de afirmação relacional pode-se citar a relação entre os conceitos de interação dinâmica mãe-filho, tempo e estresse: a interação dinâmica entre mãe-filho modula o tempo de amamentação e o estresse.21

A derivação teórica na construção da teoria de médio alcance

O desenvolvimento da Teoria Interativa de Amamentação aplicou a derivação teórica a partir de modelo conceitual mais abrangente da disciplina. A derivação é um caminho criativo e focado para desenvolver teorias em um novo campo em que é requerido: habilidade para ver a dimensão analógica do fenômeno em dois contextos ou campos distintos de interesse e habilidade para redefinir e transpor o conteúdo e/ou estrutura de um contexto ou de um campo a outro.9 A derivação foi feita a partir do Modelo Conceitual de Imogene King.20-21

Utilizando os procedimentos gerais de formulação de teorias de médio alcance, o que foi denominado como derivação de teoria no exemplo, seria melhor expresso como dedução de teorias de nível de abstração mais elevado,5,10 isso porque, nessa classificação, a derivação refere-se ao processo de adotar uma teoria parente de outra disciplina ou campo para que se derive. Entretanto, pelo método dedutivo uma teoria de médio alcance sempre será derivada de elementos mais abstratos contidos em grandes teorias e modelos conceituais. Por exemplo, a Teoria do Alcance de Metas foi derivada do Sistema Conceitual de King em acordo com a lógica contida no modelo C-T-E (conceitual-teórico-empírico),7 e representa o elemento “T” na estrutura. Isso torna correto o entendimento de que a Teoria Interativa de Amamentação21 (componente T) foi uma derivação teórica de um modelo conceitual (componente C).

Há de se destacar que o componente C já havia sido utilizado para guiar a análise de conceito do fenômeno (componente E), entretanto dado que a teoria de médio alcance foi intencionalmente alinhada ao modelo conceitual, esse continuou sendo aplicado como orientador para construir os elementos da teoria durante o processo de geração da teoria em si.

REFLEXÕES SOBRE O USO DA LÓGICA CONCEITUAL - TEÓRICO - EMPÍRICO E OUTRAS NAS ESTRATÉGIAS PARA A EXPANSÃO DO DESENVOLVIMENTO DE TEORIAS DE MÉDIO ALCANCE DE ENFERMAGEM NO BRASIL

Como se verifica, em procedimentos dedutivos que seguem a lógica do C-T-E, os modelos de enfermagem ou grandes teorias podem servir de base para a derivação de um número expressivo de teorias de médio alcance ou teorias de situação específica. De certo modo, isso traz algumas consequências que merecem reflexões.

Em primeiro lugar, muito do que sabemos correntemente no Brasil sobre teorias de enfermagem refere-se exclusivamente ao conhecimento das grandes teorias (o “C” do modelo C-T-E). Elas, por natureza, são voltadas a produzir afirmações mais genéricas, abstratas e, de certa maneira, filosóficas e até especulativas sobre a natureza da disciplina de enfermagem. Por causa disso, os argumentos contrários à impossibilidade de aplicar as teorias na prática clínica seriam produto de uma tentativa inapropriada de usar teorias que são muito gerais ou transversais para tratar de hipóteses específicas voltadas a problemas pragmáticos de características particulares. Em que pese todo o valor das grandes teorias, sua relevância está posicionada na esfera de abstração e generalização mais elevados.

Em relação à aplicação das teorias na prática de enfermagem brasileira, encontrou-se estudo de revisão que analisou a produção do conhecimento sobre Teorias de enfermagem publicada em periódicos da área, entre 1998 e 2007, e os resultados apontam que a publicação brasileira na temática lidava especialmente com as grandes Teorias de enfermagem, mantendo-se uma quase invisibilidade das teorias de médio alcance e das teorias práticas.8 Movimento contrário se observa nos Estados Unidos da América com as disciplinas teóricas dos programas de mestrado profissional e dos doutorados de prática de enfermagem (DNPs), abordando a aplicação de teorias na prática.10 Na experiência estadunidense, as teorias de médio alcance (componente T) estão entre a meta desses programas, especialmente os DNPs.

Ainda que tenhamos poucas publicações abordando a formação teórica na pós-graduação no Brasil, o que parece se depreender é que o ensino da aplicação prática das Teorias de enfermagem ainda tende a ser direcionado, especialmente, para modelos conceituais e grandes Teorias de enfermagem, o que pode ser um complicador.

Mesmo que já se observe uma mudança com a ampliação de publicações de teorias de médio alcance na enfermagem brasileira, permanece a reflexão sobre se não seria o momento da implantação de novas estratégias indutoras. Dentre as possibilidades, a criação de iniciativas institucionais que pudessem alavancar a produção e testagem de teorias; por exemplo, o lançamento de editais de fomento à pesquisa, debate entre pesquisadores, no Seminário Nacional de Pesquisa em Enfermagem, e colaboração entre programas de pós-graduação, especialmente, experimentando as possibilidades indutoras da lógica C-T-E.

Em segundo lugar, a possibilidade de deduzir teorias menos abstratas de modelos conceituais da própria enfermagem preservariam o amplo conhecimento derivado das grandes teorias e modelos conceituais, garantindo um avanço da disciplina. Um esforço por manter a riqueza de conhecimento próprio da enfermagem parece ser tanto um desafio quanto uma necessidade em uma sociedade de crescimento exponencial da informação.

Para muitos do corpo social da enfermagem, o cuidado tem papel central tanto para a disciplina quanto para a profissão. As Teorias de enfermagem justificam-se no que oferecem de conhecimento sobre os conceitos, regras e critérios de verdade para as buscas da ciência, com contribuições explicativas e satisfazendo a necessidade de reflexão epistemológica dos interessados no conceito de cuidado de enfermagem.26 Configura-se, então, a sua contribuição para uma epistemologia do cuidado de enfermagem.

Em terceiro lugar, ao derivar-se o conhecimento das grandes teorias para as de médio alcance, a estrutura C-T-E contribui para a definição de desenhos de pesquisa que vão aproximar as teorias da pesquisa em enfermagem tanto nas finalidades de desenvolvimento quanto de testagem, pois as pesquisas descritivas servem para produzir e testar teorias de médio alcance descritivas; já os desenhos correlacionais para testar teorias explicativas; e os desenhos experimentais para testar as teorias preditivas.13

CONCLUSÃO

As teorias de médio alcance, por se localizarem a meio caminho das grandes teorias e da prática, guardam características de referenciais teóricos e também de referenciais metodológicos. Elas fornecem uma maneira prática para os enfermeiros conectarem as perspectivas filosóficas da disciplina com o mundo real e as aplicações da teoria à prática clínica.

Observa-se, na enfermagem, um crescimento no desenvolvimento dessas teorias a fim de preencher as lacunas entre as grandes teorias e a prática profissional.

Faz-se imprescindível um avanço no estudo de teorias e de todos os seus componentes, pois são essenciais para o desenvolvimento da enfermagem. Sua utilização na prática é capaz de promover o conhecimento como base de uma estrutura que guie as ações da profissão.

Entendem-se necessários os avanços epistemológicos na enfermagem, especialmente em aspectos atrelados à realidade brasileira, entre eles: ampliar o desenvolvimento de pesquisas teóricas de enfermagem, inclusive as de maior abrangência, revisitar as poucas Teorias de enfermagem brasileiras produzidas e submetê-las aos critérios atuais de avaliação de teorias, investir na tradução de referências bibliográficas consagradas internacionalmente e rediscutir a relevância dos referenciais teóricos nas pesquisas.

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Recebido: 14 de Março de 2017; Aceito: 23 de Agosto de 2017

Correspondência: Marcos Antônio Gomes Brandão, Departamento de Enfermagem Fundamental. Escola de Enfermagem Anna Nery. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rua Afonso Cavalcanti 275. Cidade Nova, 20211-110 - Centro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: marcosantoniogbrandao@gmail.com

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