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Revista Latino-Americana de Enfermagem

versão impressa ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem v.4 n.3 Ribeirão Preto dez. 1996

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11691996000300007 

ARTIGO ORIGINAL

 

A teoria fundamentada nos dados como abordagem da pesquisa interpretativa

 

Grounded theory as an approach of interpretative research

 

La teoría basada en datos como abordaje de la investigación interpretativa

 

 

Silvia Helena De Bortoli CassianiI; Maria Helena Larcher CaliriII; Nilza Teresa Rotter PeláIII

IEnfermeira Professora Doutora do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo
IIEnfermeira. Professora Doutora do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos
IIIEnfermeira. Professora Titular do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo

 

 


RESUMO

Pesquisa interpretativa envolve os estudos da linha qualitativa e a pesquisa indutiva. Na classificação apresentada por LOWENBERG (1994) a teoria fundamentada nos dados é um tipo de pesquisa interpretativa situada como uma variante dentro do interacionismo simbólico. Face à pouca utilização desta metodologia nos estudos nacionais, este estudo teve por objetivo tratar da teoria fundamentada nos dados, enquanto referencial metodológico, apresentando e indicando seu método. As seguintes etapas foram apresentadas: coleta dos dados empíricos, os procedimentos de codificação ou análise dos dados; codificação aberta, codificação axial ou formação e desenvolvimento do conceito; codificação seletiva ou modificação e integração do conceito e delimitação da teoria. Os estudos de CALIRI (1994) e de CASSIANI (1994) exemplificaram a utilização deste referencial metodológico. Finalmente visualizou-se a metodologia da teoria fundamentada os dados como um referencial de análise que fornece caminhos e orienta, através de suas etapas, o investigador que pretende utilizá-la.

Unitermos: pesquisa qualitativa, teoria fundamentada nos dados


ABSTRACT

Interpretative research comprehends studies on qualitative methodology and inductive research. According to Lowenberg's classification (1994), grounded theory is a type of interpretative research situated as a variant of symbolic interaction. The purpose of the present study was to discuss grounded theory as a methodological reference, presenting it and indicating its method. The following stages were presented: collection of empirical data, proceedings of data codification or analysis; open coding, axial coding or concept modification and integration and theory delimitation. The studies of CALIRI (1994) and CASSIANI (1994) exemplified the utilization of this methodological reference. Finally, authors visualized grounded theory as an useful reference of analysis, providing means and orienting, through its stages, the researcher aiming at using it.

Uniterms: qualitative research, grounded theory


RESUMEN

La investigación interpretativa envolve estudios de la línea cualitativa y la investigación inductiva. En la clasificación presentada por LOWENBERG (1994) la teoría basada en datos es un tipo de investigación interpretativa situada como una variante del interaccionismo simbólico. El propósito de la presente investigación fue estudiar la teoría basada en datos, como un referencial metodológico, presentando y indicando su método. Las siguientes etapas fueron presentadas: colecta de datos empíricos, los procedimientos de codificación o análisis de datos; codificación abierta, codificación axial o formación y desarrollo del concepto; codificación selectiva o modificación y integración del concepto y delimitación de la teoría. Los estudios de CALIRI (1994) y de CASSIANI (1994) pusieron por ejemplo la utilización de esta referencia metodológica. En el final, las autoras visualizaron la metodología de la teoría basada en datos como una referencia del análisis que indica direcciones y orienta, con sus etapas, el pesquisidor que la pretende utilizar.

Término Claves: investigación cualitativa, teoría basada en datos


 

 

INTRODUÇÃO

A pesquisa interpretativa tem sido utilizada nominando os estudos da linha qualitativa e as pesquisas indutivas. O termo "pesquisa interpretativa" deriva do reconhecimento básico dos processos interpretativos e cognitivos inerentes à vida social e enfatizados nessas abordagens.

LOWENBERG (1993) classifica as pesquisas interpretativas, segundo o esquema apresentado abaixo:

 

 

Analisando esta classificação, a teoria fundamentada nos dados estaria localizada como uma variante dentro do interacionismo simbólico que também incluiria a etnografia. Ficam claras, pois, as raízes da teoria fundamentada nos dados, voltada, segundo a perspectiva interacionista, para o conhecimento da percepção ou do "significado" que determinada situação ou objeto tem para o outro. Segundo LOWENBERG (1993) a pesquisa interpretativa reuniria, pois, estudos que utilizam a fenomenologia e o interacionismo simbólico.

A relação entre as duas abordagens estaria no fato de ambas se relacionarem ao estudo dos aspectos experenciais do comportamento humano, ou seja, a maneira como as pessoas definem os eventos ou a realidade e como agem em relação a suas crenças (CHENITZ & SWANSON, 1986).

O interacionismo simbólico tem sido utilizado como uma abordagem relativamente distinta para o estudo da vida e da ação humana em grupo, tendo sua origem reportada a sociólogos clássicos americanos como John Dewey, Charles Horton Cooley, W.I. Thomas e principalmente George Mead. Tal abordagem concebe a "sociedade" como uma entidade composta de indivíduos e de grupos em interação (consigo mesmo e com os outros), tendo como base o compartilhar de sentidos ou significados sob a forma de compreensão e expectativas comuns (HAGUETE, 1992).

Entretanto os autores interacionistas falham ao descrever a metodologia. A teoria fundamentada nos dados é, portanto, vislumbrada como uma linha metodológica que pode ser utilizada em pesquisas interpretativas uma vez que suas raízes estão ligadas ao interacionismo simbólico.

Em face de tais colocações, este estudo pretende tratar da teoria fundamentada nos dados enquanto referencial metodológico, apresentando-a e indicando o seu método. Antes, pois, faz-se necessário uma introdução sobre os aspectos conceituais de teoria e seus componentes.

 

ASPECTOS CONCEITUAIS DE TEORIAS E SEUS COMPONENTES

O propósito básico da ciência é chegar à teoria, inventar e descobrir explicações válidas de fenômenos naturais. Teoria é, pois, definida como uma explicação sistemática das relações entre um conjunto de variáveis, sendo também considerada uma explicação de um fenômeno particular (KERLINGER, 1980). Para Chinn & Jacobs apud TRENTINI (1987) teoria é definida como uma abstração sistematizada da realidade.

O elemento que emerge dessas definições é a noção de teoria enquanto conjunto, relacionando eventos ou conceitos abstraídos da realidade com o propósito de explicá-la. Esse conceito denota coerência com o que identifica a sistematização de conhecimentos e a explicação dos acontecimentos, o incremento do saber e a avaliação segura das hipóteses com o real objetivo de se elaborar a teoria. Indica também que as asserções feitas pelas teorias destinam-se a sistematizar o que se sabe acerca do mundo que nos cerca.

As teorias podem ser desenvolvidas através do raciocínio indutivo ou dedutivo, ou então obtidas por uma combinação do raciocínio indutivo e dedutivo, como propõe a teoria fundamentada nos dados.

O ponto de destacar, na construção de teoria, é que a teoria obtida de maneira indutiva ou dedutiva permanece como conjectura, até ser testada e confirmada. Sobre o caráter dedutivo, as teorias aparecem no contexto das explicações e explicar um acontecimento teoricamente equivale a deduzir um enunciado que descreve esses acontecimentos, partindo-se de algumas premissas (FIELD & MORSE, 1985).

Conceitos são os componentes da teoria cujo significado, atrelado por definições formais ou pelo uso comum, indicam as representações da realidade, abstrações ou imagens mentais simbolizando a realidade. Três categorias de conceitos são referidas: aqueles que podem ser diretamente observados, os que só podem ser observados indiretamente através de sinais ou instrumentos e os que não podendo ser observados nem direta nem indiretamente são inferidos (Chinn & Jacobs apud TRENTINI, 1987).

Os conceitos usados na construção de teorias são conceitos abstratos (conceitos que independem de tempo e espaço) sendo que a abrangência de uma teoria é determinada pela abstração de seus conceitos ou pela capacidade de o investigador abstrair relações.

Ao descrever as relações entre os conceitos, o teorista estará estabelecendo os componentes dos conceitos ou as categorias.

GLASER (1978) aponta que os elementos da teoria fundamentada nos dados são primeiramente as categorias e suas propriedades conceituais e, a seguir, as hipóteses ou relações geradas entre as categorias e suas propriedades. Indica a categoria como o elemento conceitual da teoria e ela própria e as propriedades dela geradas são conceitos indicados ou formadas a partir dos dados, não os próprios dados, variando no seu grau de abstração. A relação entre as categorias gera hipóteses, que têm, primeiramente, o status de relações sugeridas e provisórias.

 

A TEORIA PROPRIAMENTE DITA

A metodologia da teoria fundamentada nos dados foi originalmente desenvolvida pelos sociólogos americanos: Barney Glaser e Anselm Strauss. Denominaram-na "grounded theory", traduzida para o português como teoria fundamentada nos dados.

Conhecida como abordagem ou como método, trata-se do modo de construir indutivamente uma teoria assentada nos dados, através da análise qualitativa destes e que, agregada ou relacionada a outras teorias, poderá acrescentar ou trazer novos conhecimentos à área do fenômeno.

Seguindo-se aos princípios da metodologia qualitativa, a teoria fundamentada nos dados é uma metodologia de campo que objetiva gerar construtos teóricos que explicam ação no contexto social sob estudo. O investigador procura processos que estão acontecendo na cena social, partindo de uma série de hipóteses, que, unidas uma às outras, podem explicar o fenômeno, combinando abordagens indutivas e dedutivas.

A teoria está assentada ou fundamentada nos dados, não num corpo existente de teoria, embora possa englobar diversas outras teorias, não se pretendendo rechaçar ou provar, mas sim acrescentar novas perspectivas ao entendimento do fenômeno. Tem ainda, características indutivas, é gradualmente construída ou emerge após a coleta dos dados ter iniciado. O trabalho dedutivo é usado para derivar dos códigos iniciais, indutivos, as diretrizes conceituais ou hipóteses, a fim de amostrar mais dados para gerar a teoria.

STRAUSS & CORBIN (1990) dizem que todos os procedimentos da teoria fundamentada nos dados têm o objetivo de identificar, desenvolver e relacionar conceitos.

A fim de representar o método desta abordagem, optamos por reunir as etapas apresentadas por STERN (1980), GLASER & STRAUSS (1967) e STRAUS & CORBIN (1990) e as apresentamos a seguir: coleta dos dados empíricos, os procedimentos de codificação ou análise dos dados; codificação aberta, codificação axial ou formação e desenvolvimento do conceito; codificação seletiva ou modificação e integração do conceito e delimitação da teoria.

a) Coleta dos dados empíricos

A entrevista é uma das opções de coleta de dados qualitativos, apresentando as vantagens de: propiciar oportunidades para motivar e esclarecer o respondente; permitir flexibilidade ao questionar o respondente, ao determinar a seqüência e ao escolher as palavras apropriadas; permitir maior controle sobre a situação e finalmente permitir maior avaliação da validade das respostas mediante a observação do comportamento não verbal do respondente (LODI, 1991).

A entrevista pode ser do tipo formal ou informal. A entrevista formal segue um plano determinado de ação e é empregada quando se deseja informações em profundidade que podem ser obtidas em locais privados e com respondentes recrutados em locais pré-determinados (CHENITZ & SWANSON, 1986).

As entrevistas formais podem ser estruturadas ou não-estruturadas. A entrevista estruturada, também denominada estandardizada ou padronizada, tem a premissa de que todas as respostas devem ser comparáveis com o mesmo conjunto de perguntas e as diferenças refletirão as diferenças entre os indivíduos. As questões devem ter o mesmo significado, podendo haver liberdade na escolha das palavras, na seqüência e no momento de fazê-las.

Na entrevista não estruturada, não padronizada ou não estandardizada o entrevistador nem sempre tenta obter o mesmo tipo de resposta usando o mesmo tipo de perguntas. Tem sido referida como entrevista em profundidade, intensiva ou então denominada entrevista qualitativa. O propósito é obter as informações com as próprias palavras dos respondentes, obter descrição das situações e elucidar detalhes.

Esses dois tipos não excluem, porém, as entrevistas em que os dois tipos são combinados em momentos diferentes, caracterizando uma "entrevista híbrida" ou então as moderadamente padronizadas, quando existe modificação da seqüência, número e palavras das questões.

Os dados para análise geralmente constam de transições das fitas gravadas, relatórios de observações e documentos. Após o investigador ter coletado os dados iniciais, transcreve as fitas, realiza as leituras e procede à codificação ou à análise dos dados.

b) Procedimentos de codificação ou análise dos dados

A codificação ou análise é o procedimento através do qual os dados são divididos, conceitualizados e se estabelece suas relações. Todo o processo analítico que neste momento se inicia, tem por objetivos: construir a teoria, dar ao processo científico o rigor metodológico necessário, auxiliar o pesquisador a detectar os vieses, desenvolver o fundamento, a densidade, a sensibilidade e a integração necessária para gerar uma teoria (STRAUSS & CORBIN, 1990).

Obtendo os dados, o investigador examina-os linha por linha e recorta as unidades de análise. Assim cada unidade de análise é nomeada com uma palavra ou sentença exprimindo o significado desta para o investigador.

Os códigos gerados na teoria fundamentada nos dados são de dois tipos: os códigos substantivos que conceitualizam a substância empírica da pesquisa e os códigos teóricos aos quais se aplicam esquemas analíticos aos dados para aumentar sua abstração, tendo por objetivo ajudar o pesquisador a mover-se de uma estrutura descritiva para uma referencial, favorecendo a abstração do pesquisador sobre os dados.

A codificação substantiva dos dados é feita, segundo GLASER (1978) através da codificação aberta e codificação seletiva. A codificação teórica é realizada através da codificação axial.

Codificação Aberta

Durante a codificação aberta inicia-se o processo de comparar os incidentes aplicáveis a cada categoria (GLASER & STRAUSS, 1967).

O investigador codifica os incidentes em tantas categorias quanto possível. Todos os dados são passíveis, neste momento, de uma codificação. A codificação é o processo em que os dados são codificados, comparados com outros dados e designados em categorias.

Assim que a categoria e as sub-categorias emergirem, o investigador notará dois tipos: aquelas categorias que ele mesmo construiu e aquelas que foram abstraídas da linguagem de pesquisa. Notará que os conceitos abstraídos das situações tenderão a ser os nomes para os processos e comportamentos que estão sendo explicados, enquanto os conceitos, construídos pelo investigador serão as explicações.

Algumas "dicas" não sugeridas pelos estudiosos para se proceder à codificação aberta, quais sejam: submeter os dados a questionamentos: este dado refere-se a este estudo? que categoria este incidente (ou indicador) indica? o que está acontecendo?

Além disto, os estudiosos sugerem analisar os dados linha por linha, constantemente, codificado cada sentença, ou palavra, ou parágrafo; sempre interromper a codificação para anotar uma idéia que tenha emergido (mesmos) e não assumir a relevância analítica de qualquer variável até que ela apareça como relevante.

Os memorandos ou memos são elementos imprescindíveis na elaboração de uma teoria fundamentada nos dados. Os memorandos são uma forma de registro referente à formulação da teoria e podem tomar as formas de notas teóricas, notas metodológicas, notas codificadas e subvariedade delas.

Os memorandos variam no conteúdo e tamanho dependendo da fase da pesquisa, objetivos e tipo de códigos, parecendo muito simples e superficiais no início do estudo e devem ser datados, incluindo a referência dos documentos de onde é extraído. Devem, ainda, conter um título denotando o conceito ou categoria a que ele pertence.

Os memorandos são analisados da mesma maneira que as unidades de análise e incorporados ao paradigma de análise ou ao texto do relatório como notas teóricas ou metodológicas.

Codificação axial - formação e desenvolvimento de conceito

Nesse estágio, um referencial conceitual tentativo é gerado usando os dados como referência. O investigador tenta descobrir o principal problema na cena social, do ponto de vista dos atores ou sujeitos participantes do estudo e como eles lidam com o problema.

Comparando todos os dados assim que os recebe, o investigador faz uma opção à respeito da permanência relativa dos problemas apresentados na cena em estudo.

A redução, procedimento realizado a seguir, é o processo indutivo de agrupamento dos códigos em categorias. Nele, as categorias já formadas são analisadas comparativamente, à luz dos novos dados que estão chegando, com o intuito de tentar identificar naquelas referentes as mais significativas. Esse processo reduz o número de categorias, pois estas se tornam mais organizadas.

O agrupamento de categorias é uma forma teórica de análise, pois assim que as integrações emergem, as categorias reunidas formam outras mais gerais. O passo vital é descobrir o principal processo, denominado variável central, que explica a ação na cena social.

A codificação axial é o meio que auxilia o pesquisador a realizar a integração das categorias. O objetivo é reunir os dados elaborando conexões entre as categorias e as sub-categorias.

Codificação Seletiva - modificação e integração do conceito

Esta etapa pretende a emergência da variável central e de integração das categorias. A categoria central emerge no final da análise e forma o pivô ou o principal tema ao redor do qual todas as categorias giram.

As condições causais, o contexto, as condições intervenientes, as estratégias e conseqüências formam as relações teóricas pelas quais as categorias são relacionadas uma a outra e à categoria central. Esse procedimento força o investigador a desenvolver alguma estrutura teórica e é denominando paradigma de análise.

O paradigma se constitui, portanto, do seguinte formato:

Neste paradigma a condições causais são definidas como o conjunto de eventos, incidentes e acontecimentos que levam à ocorrência ou desenvolvimento do fenômeno. O fenômeno, por sua vez, é a idéia central, o evento, acontecimento e incidente sobre o qual um grupo de ações ou interações são dirigidas ou estão relacionadas. O contexto é tratado como um grupo específico de propriedades que pertencem ao fenômeno, representando um grupo particular de condições dentro do qual as estratégias de ação/interação são tomadas. As condições intervenientes são aquelas condições estruturais que se apoiam nas estratégias de ação/interação e que pertencem ao fenômeno. Elas facilitam ou bloqueiam as estratégias tomadas dentro de um contexto específico. As estratégias para lidar, para serem tomadas ou responder ao fenômeno são denominadas de estratégias de ação/interação.

E finalmente as conseqüências são identificadas como os resultados ou expectativas da ação/interação.

Um exemplo de paradigma de análise envolvendo o fenômeno "Vivenciando uma crise na área" (CASSIANI, 1994) é o seguinte:

 

 

Após a codificação dos dados, passa-se para a fase seguinte que é a redução das categorias.

c) Delimitação da teoria

A redução das categorias é o meio de se delimitar a teoria emergente, momento em que o investigador pode descobrir uniformidades no grupo original de categorias ou suas propriedades e pode, então, formular a teoria com um grupo pequeno de conceitos de alta abstração, delimitando a terminologia e texto.

A lista de categorias é também delimitada quando elas se tornam teoricamente saturadas. Desta maneira a quantidade de dedos que o analista precisa codificar passa a ser consideravelmente reduzida, possibilitando mais tempo para estudar e analisar dados. Portanto o universo dos dados é fruto da redução delimitação e saturação de categorias.

A saturação teórica das categorias ocorre quando: nenhum dado relevante ou novo emerge; o desenvolvimento da categoria é denso e as relações entre as categorias são bem estabelecidas e validadas (STRAUSS & CORBIN, 1990). A codificação seletiva dos dados é empregada de maneira não tão diferente da codificação axial, porém em nível mais abstrato. Há alguns passos a serem tomados como: relacionar as categorias subsidiárias em torno da categoria central através do modelo do paradigma, validar essas relações com os modelos e finalmente complementar com dados adicionais as categorias que necessitarem de refinamento e/ou desenvolvimento. Esses passos não são, entretanto, lineares.

As colocações apresentadas evidenciam que a teoria fundamentada nos dados é um método de pesquisa qualitativa que utiliza alguns procedimentos para desenvolver indutivamente uma teoria derivada dos dados. Não pode ser considerada um processo simples para aqueles que iniciam seu estudo, entretanto é um referencial metodológico que fornece aos investigadores procedimentos para analisar os dados e o desenvolvimento de teorias ou referências úteis em várias disciplinas.

A seguir apresentaremos alguns exemplos de estudos que utilizaram deste referencial.

 

ESTUDOS QUE UTILIZARAM TEORIA FUNDAMENTADA NOS DADOS

Poucos autores nacionais tem utilizado a teoria fundamentada nos dados em seus estudos (ANGELO, 1989; CALIRI, 1994; CASSIANI, 1994; GUTIÉRREZ, 1989; HENSE, 1987; NARCON, 1989; OLIVEIRA, 1994). A maioria destes estudos são frutos de cursos de pós-graduação: mestrado ou doutorado.

A fim de exemplificar a utilização deste método, abordaremos os estudos de CALIRI (1994) e CASSIANI (1994), uma vez que são os mais recentes.

CALIRI (1994) desenvolveu seu estudo junto a oito (8) mulheres submetidas à histerectomia em decorrência de leiomiomas. O processo central vivenciado por elas foi denominado Tentando resolver as incertezas frente a histerectomia, uma vez que as participantes estudadas, segundo a autora, viveram uma situação de incerteza frente a cirurgia e buscavam informações e apoio de elementos do ambiente para encontrar um significado para situação. Esta categoria central representou a interpretação e organização das vivências das participantes.

O processo caracterizando as experiências das mulheres ao enfrentar a histerectomia resultou em dois sub-processos: Procurando informações e Procurando suporte ajuda.

Algumas categorias levantadas no estudo forma: tendo sentimentos em relação à remoção do útero, interagindo com outras mulheres, interagindo com o marido, interagindo com o médico, interagindo com a enfermeira, interagindo consigo mesma, tendo expectativas positivas, tendo expectativas negativas. Algumas estratégias encontradas pelas mulheres foram: aceitando ajuda, buscando e encontrando apoio, esperando a fidelidade do marido, sentindo a indiferença do marido e enfrentando a cirurgia, entre outros.

A autora concluiu que os achados da pesquisa evidenciaram a procura de informações pelas mulheres em todos os períodos do processo de enfrentar a cirurgia, desde o início dos sintomas até a fase final da recuperação, havendo desta forma necessidade da implementação de um planejamento para a alta, antes da cirurgia, auxiliando a reduzir a incerteza das mulheres, auxiliando-as a compreender o que esperar, a avaliar a normalidade ou anormalidade do que estão vivenciando e facilitar a decisão de procurar ajuda quando necessário.

O estudo de CASSIANI (1999) teve por objetivos: analisar o significado expresso pela enfermeira assistencial, ao aperfeiçoamento profissional e identificar as condições que determinariam ou não a ação de aperfeiçoar. Entrevistas foram realizadas com onze enfermeiras assistênciais buscando respostas às seguintes questões: qual significado que o aperfeiçoamento profissional e o que determina ou não as ações tomadas em direção a esta linha de ação. Os dados analisados resultaram no processo Buscando significado para o trabalho que constou de quatro fenômenos: Vivenciando uma crise na área, Não tendo um papel definido, Desejando crescer e Sentindo-se desestimulada a estudar e pesquisar. Algumas categorias destes processos são: tendo déficit de pessoal, tentando estimular o pessoal de enfermagem, vendo saídas para melhorar as condições de trabalho, sentindo-se sobrecarregada, não conseguindo prestar assistência de enfermagem, querendo mais, querendo estudar, querendo o mestrado, querendo fazer cursos de especialização, não sabendo fazer um trabalho científico, buscando contatos com doentes, percebendo os cursos e pesquisas como algo que não modifica a prática, não tendo apoio institucional entre outros.

A categoria central reunindo as outras foi representada pelo processo Buscando significado para o trabalho, tendo duas dimensões: a estrutural/profissional e a individual/ pessoal. A condição causal foi representada pelas categorias do fenômeno Não tendo um papel definido e o contexto representado pelas categorias do fenômeno Vivenciando uma crise na área. Tendo definido a sua situação, as estratégias são tomadas pela enfermeira no sentido de buscar significado para o trabalho. Dois grupos de enfermeiras foram formados no que se refere ao significado que atribuem às estratégias, enquanto algumas manifestam sentir-se estimuladas e desejando crescer, outras se sentem desestimuladas a estudar/pesquisar.

Obviamente, as conseqüências advindas estratégias tomadas, mostraram-se diferentes. As enfermeiras interessadas em estudar/pesquisar e que, agindo, concretizam suas metas, manifestaram um sentimento positivo em relação a si próprias, o de sentir-se produtiva e um novo ciclo advém, uma vez que continuam a querer mais. As outras, sem tal perspectiva, não agindo no sentido de buscar significado para o trabalho de outra maneira, indicaram que não houve mudanças, continuando com os sentimentos de insatisfação.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A metodologia da teoria fundamentada nos dados é, sem dúvida, um processo complexo de análise de dados. Visualizamo-na como um referencial de análise que fornece caminhos, orienta o investigador que pretende utilizá-la e como um referencial metodológico para estudos interacionistas. Tem sido empregada na enfermagem, e a maioria dos estudos que a utilizaram, são produtos de cursos de pós-graduação.

É um referencial que exige intenso envolvimento do investigador em todas as fases dificultando a participação de auxiliares de pesquisa e é, como também outras metodologias são, consumidoras de energia e tempo, especialmente quando se tratar da primeira investigação.

A teoria fundamentada nos dados, como ressaltam CHENITZ & SWANSON (1986) é um método sistemático de coletar, organizar e analisar dados que são extraídos do mundo empírico, aquele onde as enfermeiras desenvolvem a sua prática. É uma promessa para um entendimento global e profundo do conhecimento da enfermagem e um meio de gerar teorias a partir da prática de enfermagem.

Finalmente, em desenvolvendo a teoria fundamentada nos dados, tentamos obter a complexidade e o movimento que só é possível no mundo real, embora saibamos não sermos capazes de visualizá-lo totalmente.

É preciso, pois, que os estudos que a utilizam sejam analisados com base na visão interacionista, a fim de que avanços sejam feitos nessa área de conhecimento.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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