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Revista Latino-Americana de Enfermagem

Print version ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.7 no.4 Ribeirão Preto Oct. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11691999000400015 

Notas e Informações


 

O REPENSAR DOS CONTEÚDOS ESCOLARES: OS PROCESSOS DE TRANSMISSÃO, AQUISIÇÃO E CONSTRUÇÃO DOS CONHECIMENTOS

 

Maria Célia De Santi1


 

 

Não podemos falar de conteúdos sem lembrar dos conhecimentos, da mesma forma que não podemos falar em escola, sem mencionar Educação. Estão intimamente ligados os processos de transmitir e adquirir conhecimentos, proporcionados pela Educação (e aqui estamos nos referindo à Educação formal, a escolar) e à construção dos conhecimentos.

O que está aqui para impulsionar nossa reflexão, remete-se a indicações de respostas às seguintes questões:

1. quem constrói conhecimentos? 2.como o faz? 3.o que ou quem dá o suporte?

Quem? Qual o sujeito desta ação tão própria do Ser Humano? O próprio Ser Humano. Pode parecer uma obviedade....mas, este Ser é que tem o privilégio de pensar. Pois é, esta nos parece uma frase tão peculiar, verdadeira e ... indiscutível! Concordo com esta verdade, mas não creio somente nela, se retomarmos o caminhar da Escola, nos depararemos com a visão tradicionalista do ensino que acreditava na capacidade, quase incrível, do homem armazenar informações, pois, cria que este Ser se inseria no mundo e se apossaria deste, a partir das informações que alguém lhe forneceria. Ficaria à espreita, preso ao que já fora, crendo no modelo, na elaboração de outrem. O compasso é de espera!

Este sujeito existe? Sim está ainda por aí, esperando uma ação que seja continente ao seu jeito, da mesma forma que existem formas de ação que também estão por aí na busca, deste sujeito. Pode parecer estranha esta relação pois, não se fornece pistas para resolver o impasse: quem cria o que?

Vamos caminhando na trilha da escola e procurar outros sujeitos e bem sabemos que esta caminhada não é linear, pois na realidade estão dispostas as possibilidades conhecidas e desconhecidas, vislumbradas ou adormecidas. Mais à frente um outro sujeito desponta e, aparece como ser dependente das circunstâncias, do meio que determina suas ações. Será? De fato, quem de nós não passa por uma situação ínfima ou não, no nosso dia-a-dia que nos faz por vezes perceber a nossa falta de autonomia, e na escola, principalmente submergido e submetido a um conjunto de normas, regras e padrões, lá está nosso pobre sujeito à busca da informação que lhe é acenada, caso cumpra o determinado previamente. O meio lhe reserva o papel de ser seu produto.

E o Ser Humano continua no seu devir.... atrás da informação! Os conhecimentos a isto foram reduzidos. As propostas em nome da construção de uma vida decente (da virtude de Comenius à cidadania de Saviani)todos acabam pecando por insistir nos conhecimentos como meta a ser perseguida e não caminho a ser palmilhado.

Diferente? Muito! Por quê? Porquê a Natureza deste Ser, na perspectiva exposta nos parágrafos acima não está sendo respeitada, fala-se do que o Ser Humano deve fazer, como deve proceder e o que deve estudar, pensa-se nos projetos, nas metas e nos alvos, não no caminhar.

Mas, não podemos ser rígidos (e nem mentirosos)pois ao longo da história da Escola outras tendências e preocupações em relação à produção de conhecimentos se mostraram: por exemplo as que respeitavam este Ser Humano como sujeito, quer na perspectiva psicológica, interativa com o meio ou sócio-cultural. Cada uma destas posicionando-se frente a visão de homem e de conhecimentos, questões indissociáveis ao se tratar de Educação e, consequentemente de seu centro estruturador: a escola.

O Ser Humano visualizado, predominantemente, em sua perspectiva psicológica sendo sujeito dos conhecimentos, a partir do seu próprio conhecimento, valorizando a experiência direta sobre o meio, através da sua atividade: um ser situado no mundo, único, senhor de suas experiências, um moto contínuo, ou o ser-projeto, permanente e inacabado, perseguindo a auto-realização.

Nesta perspectiva, qual é a noção de conhecimento que a acompanha? A de que ao experenciar, o Ser Humano conhece: "O único homem que se educa é aquele que aprendeu como aprender, que aprendeu como se adaptar e mudar"1. Cito Rogers, pois este autor contribuiu significativamente para que pensássemos na outra possibilidade, além da obviedade dita no início deste texto: este Ser não tem o privilégio de pensar, mas o de sentir, pensar e, sobretudo, agir.

Mas, vamos colocar o nosso pensamento num movimento lento e nos valer da antiga fórmula tradicional e nos perguntar: mas, e os conteúdos fundamentais? Que espaço terão nesta perspectiva? A resposta é abrangente e dicotômica: todo e nenhum. Expliquei-me? Creio que não, pois para nos estendermos a este nível de explicação, precisamos refletir sobre a questão: o que ou quem dá o suporte?

Dewey, Montessori, Decroly, Cousinet, Rogers, investindo nos métodos ativos: alunos na relação com seus problemas desafiantes, buscando soluções, garantindo a possibilidade de colocar as soluções à prova. Os referentes teóricos, os ideários dão o suporte, são os que dão o suporte.

Mas, precisamos nos reportar a quem os dá e, então nossa conversa se encaminha para a ação docente na figura do professor facilitador, que aceita o aluno como este se apresenta. Libâneo2, num de seus mais famosos textos, aponta algumas das ações caracterizadoras deste : ajuda o aluno a se organizar, utilizando-se de técnicas próprias para tal, fortalecimento da relação interpessoal, convicção da capacidade de auto-desenvolvimento do aluno. O professor , digamos é também um forte e espetacular recurso, superando os conteúdos escolares, pois estes, de acordo com a perspectiva que neles incide, nem sempre favorecem a conotação da Educação vislumbrada como processo interno que parte das necessidades dos Seres para adaptação ao meio.

Estou abrindo o leque, pontuando o caminho e o caminhar, não esquecendo que estamos aqui, pensando alto, criando condições para refletirmos a respeito do nosso tema. Estou aqui proferindo conteúdos? Certamente. Utilizando-me de recursos clássicos, mas que tem uma força espetacular de ajudar o pensamento a se constituir, permeado pelo sentir, do desejo, da recordação da experiência, da vontade de desvelar um outro caminho.

E, prosseguindo na história temos outros caminhos e eu vou pegar um atalho e aterrizar na perspectiva sócio-cultural resgatando o interacionismo Ser Humano - Mundo, embora mantenha a ênfase no sujeito como elaborador e criador do conhecimento culminando na ampliação da consciência, pois é o sujeito e responsável pela sua práxis. Sim reconhecemos que esta é determinadora, mas sucumbe à relação materialista histórica - dialética, denotando que estes Seres são concretos, situados no tempo e no espaço, inseridos num contexto sócio-econômico-cultural-político, num contexto histórico2.

A escola, nesta perspectiva, é vista como "uma instituição que existe num contexto histórico de uma determinada sociedade, a escola não é, mas está sendo historicamente. Uma visão da escola que responde às necessidades do Ser para a qual, supostamente existe, mas que nem sempre está sendo o que dela necessitamos. Mas, o que dela esperamos?

Condições mínimas necessárias para que possamos tratar Seres como Seres e mediante a relação estabelecida entre todos nós, Seres, possamos exercitar a possibilidade de construir conhecimentos a partir de nossa própria experiência criando estofo para reconhecer o que nos escora, refiro-me aqui ao conhecimento de outrem, científico, consagrado, mas, sobretudo oriundo de uma dada experiência projetado num determinado momento marcado por um tempo.

O interacionismo Ser Humano - Mundo, se abre para uma outra perspectiva visualizando a escola como a mediadora entre o Ser e o meio social, articulando este Ser concreto,com suas experiências, e o acesso ao Saber Instituído, consagrado. Outra forma de ação docente que se avizinha, o professor como mediador, provedor de condições que proporcionem ao Ser Humano fazer as trocas, ação mobilizadora para o concurso de uma experiência ativa, porém marcando com tintas fortes o já produzido.

Ao tentarmos buscar pistas para as três perguntas norteadoras, creio que pudemos perceber que um dos pontos não está em privilégio em relação ao outro, mas as relações entre os Seres, nos papéis que representam - como alunos e como professores- nos suportes que intuitiva e cientificamente, selecionam para implementação de recursos que vão ressaltar o como fazer.

Se o nosso olhar aqui, neste estudo, incidiu sobre o repensar dos conteúdos, constatamos que por debaixo deste ponto fundamental nos deparamos com outros pontos que guardam relações múltiplas e distintas entre si, mas que coexistem e, portanto não poderão ser descartadas, uma em relação a outras.

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

01. LIBÂNEO, J.C. A democratização da escola pública - a pedagogia crítico-social dos conteúdos. São Paulo: Loyola, 1985.

02. MIZUKAMI, M.G. Ensino: as abordagens do processo. São Paulo: EPU, 1986.

 

 

1 Pedagoga, doutora em Didática pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, professora adjunto da Universidade Federal de São Paulo, responsável pelas disciplinas da área da Educação da graduação e pós graduação do Departamento de Enfermagem