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Revista Latino-Americana de Enfermagem

On-line version ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.9 no.5 Ribeirão Preto Sept. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692001000500015 

Notas e Informações


 

A PARTICIPAÇÃO DA ENFERMEIRA DO TRABALHO NO PROGRAMA DE CONSERVAÇÃO AUDITIVA

 

Maria Cristina Ferreira Baggio1
Maria Helena Palucci Marziale2


O presente texto tem por objetivo ressaltar a importância da participação enfermeira do trabalho no Programa de Conservação Auditiva direcionados a trabalhadores expostos a elevados níveis de ruído através de ações baseadas no processo de enfermagem buscando assim, ampliar os conhecimentos desta especialidade e seu efetivo papel na equipe multiprofissional de atenção ao trabalhador.

PALAVRAS CHAVE: enfermagem, trabalho, ruído, perda auditiva, enfermagem do trabalho


THE NURSE'S PARTICIPATION IN THE WORK OF THE HEARING CONSERVATION PROGRAM

This text aims at pointing out the importance of the occupational nurse's participation in the Hearing Conservation Program for workers exposed to high levels of noise through actions based on the Nursing Process with the purpose to enlarge the knowledge in this specialty and nurses' effective role in the multidisciplinary team for workers' care.

KEY WORDS: nursing, work, noise, hearing loss, occupational nursing


LA PARTICIPACIÓN DE LA ENFERMERA DEL TRABAJO EN EL PROGRAMA DE CONSERVACIÓN AUDITIVA

Este texto tiene el objetivo de resaltar la importancia de la participación de la enfermera ocupacional en el Programa de Conservación Auditiva dirigido a trabajadores expuestos a elevados niveles de ruido, a través de acciones basadas en el proceso de enfermería buscando así, ampliar los conocimientos de esta especialidad y su efectivo papel en el equipo multiprofesional de atención al trabajador.

PALABRAS CLAVES: enfermería, trabajo, ruido, pérdida auditiva, enfermería laboral


 

 

INTRODUÇÃO

A Enfermagem do Trabalho, como especialidade, vem buscando desenvolver e aprofundar conhecimentos e ampliar seu papel junto a área de saúde do trabalhador desenvolvendo pesquisas que visam fundamentar teoricamente sua prática profissional, seguindo a trajetória da enfermagem na conquista de sua profissionalização.

Na evolução da Enfermagem no Brasil, pode-se observar que foram utilizadas diversas formas de organizar o cuidado e a assistência prestada ao cliente, dentre as quais está o processo de enfermagem, considerado um instrumento de trabalho básico para o enfermeiro no desempenho de suas atividades profissionais(1).

Em nossa atuação como enfermeira do trabalho, durante a realização do levantamento de dados sobre os limiares auditivos de trabalhadores de uma usina de açúcar e álcool da região de Ribeirão Preto-SP, expostos a níveis de ruídos elevados, nos chamou a atenção como o planejamento de nossas ações pautadas no processo de enfermagem poderiam ser relevantes para a execução do programa de conservação auditiva direcionados àqueles trabalhadores. Assim, buscando divulgar nossa experiência elaboramos o texto ora apresentado.

 

EXPOSIÇÃO AO RUÍDO

Algumas condições de trabalho expõem o homem a níveis elevados de pressão sonora e, quando esta exposição é prolongada e sem efetiva proteção, poderá ocorrer perda de audição, tornando bastante prejudicada a relação do homem com o meio: o indivíduo se isola ou é isolado(2).

O ruído e suas conseqüências para o ser humano são um problema peculiar às novas gerações. Embora dados históricos apontam a preocupação com seus efeitos desde 47 a. C., nas últimas décadas, ele se transformou numa das formas de poluição que mais atinge a humanidade, trazendo conseqüências muitas vezes irreversíveis(3).

Devido às alterações auditivas que os trabalhadores expostos ao ruído vêm apresentando, muitos estudos têm sido realizados a fim de avaliar os limiares auditivos máximos de exposição, a extensão dos danos causados à audição humana, o investimento das empresas na proteção dos trabalhadores e a conscientização desses trabalhadores mediante o uso adequado de protetores auriculares(4-6).

A exposição contínua ao ruído acima de 80 decibéis durante seis a oito horas diárias, pode levar um indivíduo a uma diminuição gradual da acuidade auditiva(7). Com vistas a prevenção de danos auditivos foram estabelecidas normas legais que estabelecem limites de tempo de exposição a ruídos, métodos de avaliação das perdas auditivas e a necessidade de implantação do Programa de Conservação Auditiva (PCA).

Este programa compreende medidas que visam a redução de riscos ambientais através de proteção coletiva, ou seja, monitorização dos níveis de pressão sonora, modificação ou substituição de equipamentos que elevam o nível de ruído, e proteção individual, que se destina ao fornecimento do equipamento de proteção adequado, conscientização dos trabalhadores quanto ao seu uso e monitorização audiométrica, para medida de controle e avaliação da efetividade do PCA.

O desenvolvimento das atividades do PCA conta com uma equipe multiprofissional, sendo a enfermeira do trabalho um elemento fundamental, devido a sua participação na prevenção primária, secundária e terciária, bem como a reabilitação de funcionários portadores Perda Auditiva Induzida pelo Ruído Ocupacional (PAIRO).

 

RELATO DE NOSSA EXPERIÊNCIA

Atuamos em uma empresa do setor sucroalcooleiro, que desenvolve atividades de cultivo e extração de cana-de-açúcar e produção de açúcar e álcool, que conta com recursos humanos composto por 1200 trabalhadores lotados no setor da agropecuária e 292 trabalhadores lotados na usina de açúcar e álcool, sendo que destes 180 mantêm contrato de trabalho temporário e 102 são fixos.

Dentre os agentes laborais que merecem atenção dos profissionais do serviço de medicina e segurança do trabalho da empresa está o ruído, devido aos níveis observados superiores a 80 decibéis.

Assim, em 1995, iniciamos a realização de exames periódicos junto aos trabalhadores fixos da usina de açúcar e álcool expostos a ruídos. Dentre os 102 trabalhadores submetidos a audiometria tonal, observamos que 69 trabalhadores, ou seja, 62% eram portadores de PAIRO. Diante de tal diagnóstico foi estabelecido como obrigatoriedade o uso dos protetores auriculares como Equipamento de Proteção Individual (EPI).

Os protetores auriculares selecionados foram o do tipo "plug" para serem usados pelos trabalhadores expostos a ruídos até 90 decibéis e do tipo "concha" para àqueles expostos a ruído entre 91 e 110 decibéis.

Os trabalhadores foram orientados individualmente sobre a maneira correta da colocação do protetor auricular e assistiram a uma palestra de orientação quanto a necessidade do uso do referido Equipamento de Proteção Individual.

No início de 2001, durante inspeção aos postos de trabalho observamos que alguns trabalhadores estavam utilizando o protetor auricular de maneira inadequada, diante do fato realizamos uma observação sistematizada solicitando a cada um dos 102 trabalhadores fixos da usina a colocação do referido EPI. Como resultado constatamos que 46(38%) trabalhadores, apesar de afirmarem saber usar corretamente o protetor auricular, quando solicitados para realizar o procedimento, o faziam de forma inadequada.

Buscando pelos resultados das audiometrias constatamos ainda que nestes trabalhadores foram registrados os maiores índices de progressão da perda auditiva, quando comparada a população de trabalhadores do setor.

Esta constatação levou-nos a refletir sobre o papel educativo da enfermeira do trabalho e sobre a avaliação das ações executadas, estabelecendo, neste momento, estreita relação com o processo de enfermagem, ou seja, a coleta de dados, diagnóstico de enfermagem, implementação e avaliação da assistência de enfermagem, devendo, estas fases, serem dinâmicas e inter-relacionadas.

O planejamento da assistência de enfermagem inicia-se com a determinação de um plano de ação aos trabalhadores, envolvendo principalmente a prevenção e promoção da saúde. O estabelecimento de novas metas deve ser centrado no cliente, respeitando a capacidade e limitação do trabalhador e apropriadas à realidade do trabalho.

A avaliação da assistência considera a resposta do cliente aos cuidados prestados e as modificações ou impacto das ações implementadas sobre o cliente em relação ao planejamento. Esta etapa determina até que ponto o plano de trabalho é fragmentado. Por ser dinâmica, deve ser revisada continuamente, pois à medida que mudam as condições do cliente, mudam também os dados, exigindo portanto, constante atualização(1).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O relato ora apresentado nos remete a reflexões sobre quais os fatores que estão potencialmente associados a não utilização do EPI de maneira adequada pelos trabalhadores, entre os quais podem ser destacados o desconforto provocado pelo equipamento, a qualidade e tipo do protetor auricular, a não conscientização da real necessidade de seu uso, a falta de treinamento, a utilização de ações educativas inadequadas e sobre a adequacidade da utilização do processo de enfermagem no direcionamento das ações de enfermagem no Programa de Conservação Auditiva.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Nakatani AYK. Processo de Enfermagem: uma proposta de ensino através da pedagogia da problematização. [tese]. Ribeirão Preto (SP): Escola de Enfermagem/USP; 2000.         [ Links ]

2. Russo IP, Santos TM. A Prática da Audiologia Clínica. São Paulo: Cortez; 1993.         [ Links ]

3. Mendes R. Patologia do Trabalho. São Paulo: Atheneu; 1995.         [ Links ]

4. Correia JW. PAIR e suas complicações médico-periciais. Rev Cipa 2000; 244(21):54-69.         [ Links ]

5. Sousa LCA, Pizza MRT. Proposta de nova abordagem e classificação da PAIRO. Rev Cipa 2000; 244(21):95-100.         [ Links ]

6. Farias FF, Dantas AA. A Perda Auditiva Induzida Pelo Ruído (PAIR) nos músicos de Aracaju 2001; 254(22):46-57.         [ Links ]

7. Brasil, 2001. Normas Regulamentadoras, Brasília, Jun. 2001. (online http://www.ministériodotrabalho.org.         [ Links ]

 

 

1 Enfermeira do Trabalho, Mestre em Enfermagem pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo; 2 Professor Livre Docente da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Centro Colaborador da OMS para o desenvolvimento da pesquisa em enfermagem, e-mail: marziale@eerp.usp.br

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