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Revista Latino-Americana de Enfermagem

Print version ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.14 no.2 Ribeirão Preto Mar./Apr. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692006000200008 

ARTIGO ORIGINAL

 

A gravidez na adolescência sob a perspectiva dos familiares: compartilhando projetos de vida e cuidado

 

Adolescent pregnancy from a family perspective: sharing projects of life and care

 

El embarazo en adolescencia en la perspectiva de los familiares: compartiendo proyectos de vida y cuidado

 

 

Lucía SilvaI; Vera Lúcia Pamplona ToneteII

IEnfermeira, Especialista em Saúde da Família, Mestranda da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde para o desenvolvimento da pesquisa em Enfermagem, e-mail: lucia_funes@yahoo.com.br
IIProfessor Assistente da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP, e-mail: vtonete@uol.com.br

 

 


RESUMO

Estudo qualitativo, que objetivou apreender o significado da gravidez da adolescente para seus familiares. Empregou-se a entrevista semi-estruturada e discurso do sujeito coletivo. A gravidez da adolescente é representada como problema a ser enfrentado com o suporte familiar. As famílias preocupam-se e se mobilizam para resolver as adversidades. Além do choque pela notícia, impotência quanto à prevenção da gravidez, conformismo, alegria e melhora no relacionamento familiar pela chegada do bebê, evidenciou-se a frustração devido à interrupção/mudança no projeto de vida familiar em relação à adolescente sem um relacionamento estável com o pai da criança. Considera-se que, ao se valorizar a perspectiva dos familiares sobre a gestação na adolescência, o cuidado profissional à adolescente grávida e à família pode se dar em parceria e sintonia com o contexto familiar e social, facilitando o enfrentamento de conflitos e reconhecendo a família como sujeito ativo nesse processo.

Descritores: saúde da família; relações familiares; gravidez na adolescência; enfermagem


ABSTRACT

This qualitative study aimed to apprehend the meaning of adolescents' pregnancy for their families, using semistructured interviews and collective subject discourse. Adolescent pregnancy is represented as a problem to be faced with family support. The families worry and are mobilized to solve adversities. Besides the shock about the news, impotence as to pregnancy prevention, conformism, happiness and improvement in family relationships due to the baby's arrival, participants evidenced frustration due to the interruption/change in the family life project in terms of the adolescent being pregnant without a stable relationship with the child's father. In valuing the family perspective on adolescent pregnancy, professional care to pregnant adolescents and their families can be delivered in partnership with the family and social context, making it easier to cope with conflicts and recognizing the family as an active subject in this process.

Descriptors: family health; family relations; pregnancy in adolescence; nursing


RESUMEN

Este estudio cualitativo tuvo por objetivo aprehender el significado del embarazo de adolescentes para los familiares, mediante entrevistas semiestructuradas y discurso del sujeto colectivo. El embarazo de la adolescente se representa como un problema a ser enfrentado con apoyo familiar. Las familias se preocupan y se movilizan para resolver las adversidades. Además del susto por la noticia, impotencia en cuanto a la prevención del embarazo, conformismo, felicidad y mejora en la relación familiar por la llegada del bebé, la frustración se evidenció debido a una interrupción/cambio en el proyecto de vida familiar por el adolescente no tener un relacionamiento estable con el padre del bebé. Consideramos que, cuando se valora la perspectiva de los familiares sobre la gestación en la adolescencia, el cuidado profesional a la adolescente embarazada y la familia puede pasar en sintonía con el contexto familiar y social, facilitando el enfrentamiento de conflictos y reconociendo a la familia como sujeto activo en este proceso.

Descriptores: salud de la familia; relaciones familiares; embarazo en adolescencia; enfermería


 

 

INTRODUÇÃO

A adolescência é a fase de transição entre a infância e a idade adulta, quando o desenvolvimento da sexualidade reveste-se de fundamental importância para o crescimento do indivíduo em direção à sua identidade adulta, determinando sua auto-estima, relações afetivas e inserção na estrutura social(1).

Modificações no padrão de comportamento dos adolescentes, no exercício de sua sexualidade, exigem atenção cuidadosa por parte dos profissionais, devido a suas repercussões, entre elas a gravidez precoce(1).

Estima-se que, no Brasil, um milhão de adolescentes dão à luz a cada ano, o que corresponde a 20% do total de nascidos vivos. As estatísticas também comprovam que, a cada década, cresce o número de partos de meninas cada vez mais jovens em todo o mundo(2).

Essas adolescentes têm sido consideradas cientificamente como um grupo de risco para a ocorrência de problemas de saúde em si mesmas e em seus conceptos, uma vez que a gravidez precoce pode prejudicar seu físico ainda imaturo e seu crescimento normal. Esse grupo também está sujeito à eclâmpsia, anemia, trabalho de parto prematuro, complicações obstétricas e recém-nascidos de baixo peso(2). Além dos fatores biológicos, a literatura correlata recente acrescenta que a gravidez adolescente também apresenta repercussões no âmbito psicológico, sociocultural e econômico, que afetam a jovem, a família e a sociedade(2).

Parece haver consenso no reconhecimento de que uma gravidez, nessas circunstâncias, configura-se como um ponto de grande interesse social e até como um problema de saúde pública, dadas as conseqüências já mencionadas, necessitando de atendimento diferenciado nos serviços de saúde(3).

Nesse sentido, tem-se sugerido, sempre que possível, a inclusão do pai do bebê, da família ou até de outra pessoa significativa no acompanhamento das gestantes adolescentes pelos serviços de saúde, no intuito de garantir uma gestação prazerosa e com menor índice de intercorrências(3).

Tem-se, por parte da sociedade, a expectativa de que a família produza cuidados a seus membros e, nesse processo, pode estar envolvida a utilização de cuidados do sistema profissional de saúde para apoiá-la, fortalecê-la e orientá-la(4). Incluir famílias no cuidado do enfermeiro não apenas exige atenção especial às interações, ao impacto das vivências, mas também exige conhecer dinâmicas, crenças e formas de adaptação a situações diversas(5). Logo, na prática da enfermagem com famílias, os fenômenos que envolvem os processos de saúde e doença de seus membros devem levar em consideração as expectativas, relações e os contextos familiares.

Ao se revisar a literatura científica que privilegia a gravidez na adolescência, sob uma abordagem compreensiva*, depara-se com a crescente preocupação em apreender a perspectiva das adolescentes sobre esse fenômeno, entretanto, constata-se, ao mesmo tempo, que existe uma produção ainda incipiente de pesquisas explorando a visão dos familiares quando vivenciam esse processo em suas famílias.

Assim, perante os argumentos apresentados, a principal questão que impulsionou a realização deste estudo foi: - O que tem significado para a família a gravidez da adolescente?

 

OBJETIVOS

Em geral, teve-se como objetivo apreender o significado que os familiares atribuem à gravidez na adolescência, quando levam em consideração a adolescente grávida e sua própria família. Especificamente, buscou-se identificar e analisar as representações sociais elaboradas por esses sujeitos sobre a descoberta de uma adolescente grávida na família e sobre as mudanças ocorridas na vida da adolescente e na vida familiar em razão desse fenômeno.

Ao desvendar esse fenômeno sob a perspectiva dos familiares, considerando suas representações sobre o mesmo, teve-se como finalidade obter subsídios para realizar avaliação e propor intervenções junto às famílias que o estão vivenciando, por se acreditar que é recebendo cuidados que a mesma poderá processá-los.

 

ASPECTOS METODOLÓGICOS

Adotou-se, no presente estudo, a abordagem qualitativa, definida como aquela que se preocupa com um nível de realidade que não pode ser quantificado e que trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes que, por sua vez, correspondem a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis(7). E, para atingir os objetivos propostos, procurou-se fundamentar este estudo em alguns princípios do referencial das representações sociais.

O termo representações sociais designa tanto um conjunto de fenômenos quanto o conceito que os engloba e a teoria construída para explicá-los, identificando vasto campo de estudos psicossociológicos(8). A teoria das representações sociais procura abarcar um fenômeno, sobretudo urbano, em que o homem manifesta sua capacidade inventiva para assenhorar-se do mundo por meio de conceitos, afirmações e explicações, originados no dia-a-dia, durante interações sociais, a respeito de qualquer objeto, social ou natural, para torná-lo familiar e garantir comunicação no interior de um grupo e, também, interagir com outras pessoas e grupos(6).

O estudo foi realizado em domicílios de familiares de gestantes adolescentes usuárias de uma unidade básica de saúde de um município do interior paulista, de médio porte. Essa unidade que se configura como um serviço-escola, abrange extensa área geográfica, com população diversificada em suas características sociodemográficas e epidemiológicas. No decorrer do trabalho de campo, também foram incluídos familiares de gestantes adolescentes usuárias de outra unidade básica de saúde que, ao ser inaugurada no período de realização desta pesquisa, passou a cobrir parte da área de abrangência do primeiro serviço citado e que, por sua vez, configura-se como unidade de saúde da família que atende uma população com menor poder aquisitivo e com problemas sociossanitários relevantes.

Participaram familiares que atenderam aos critérios de inclusão desta pesquisa, a saber, ser familiar de primigestas adolescentes, sem intercorrências, atendidas pelas duas unidades acima referidas, sendo indicados por essas jovens como potenciais informantes sobre o impacto de suas gestações no âmbito familiar e por serem os familiares mais próximos e significativos no acompanhamento desse processo, junto às adolescentes grávidas.

Tratando-se de estudo qualitativo, perante o universo de famílias que corresponderam aos critérios acima estabelecidos, a seleção da amostra considerou a variabilidade e qualidade dos sujeitos entrevistados, a fim de que eles pudessem fornecer dados ricos, interessantes e suficientes para elaborar as representações acerca da gravidez adolescente vivenciada. Foram excluídos, por conseguinte, somente os familiares que não concordaram em participar, em qualquer momento da realização desse trabalho.

Os dados foram colhidos no período de fevereiro a setembro de 2004. A quantidade de entrevistas realizadas foi definida no processo do trabalho de campo, por meio do critério de exaustão das respostas obtidas. Por esse critério, constata-se quando as respostas às perguntas do trabalho começam a se repetir, demonstrando a suficiência do material coletado para alcançar o objetivo estabelecido(7).

Como instrumento para coleta de dados, foi utilizada a entrevista semi-estruturada. O roteiro da entrevista foi composto por questões relativas ao momento da descoberta da gravidez para a família, mudanças no convívio familiar, a vivência da gravidez para a família e a possibilidade de mudar algo em relação a esse processo.

Para caracterização dos familiares, foram incluídas no roteiro da entrevista questões sobre o entrevistado como sexo, idade, parentesco, anos de aprovação escolar, ocupação, renda mensal e se esse familiar morava no mesmo domicílio da gestante. Além dessas, foram levantadas algumas características relativas à própria adolescente como o estado civil, situação de trabalho e estudo antes e após a gravidez.

A presente investigação foi avaliada e aprovada por Comitê de Ética em Pesquisa e todos os familiares que assentiram em participar do mesmo receberam explicação detalhada sobre sua finalidade e objetivo e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para Participação em Estudo Científico.

As entrevistas foram gravadas após o consentimento dos sujeitos por escrito e, posteriormente, foram transcritas na íntegra.

Para a organização e apresentação dos dados, foi utilizado o método elaborado por Lefèvre e colaboradores, dando destaque à identificação das expressões-chave, à apreensão das idéias centrais e à construção do discurso do sujeito coletivo. As expressões-chave são constituídas por transcrições literais de parte dos depoimentos, que permitem o resgate do que é essencial no conteúdo discursivo dos segmentos em que se divide o depoimento; a idéia central de um discurso pode ser entendida como a(s) afirmação(ões) que permite(m) traduzir o essencial do conteúdo discursivo explicitado pelos sujeitos em seus depoimentos; e o discurso do sujeito coletivo é a reconstrução, com pedaços de discursos individuais, de tantos discursos-síntese quantos forem necessários, para expressar um dado pensar ou representação social sobre um fenômeno(9).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Fizeram parte do estudo um grupo de nove mulheres com idade entre 19 e 58 anos, assim constituído: cinco mães, uma sogra, uma tia, uma irmã e uma avó. A maioria delas possuía de cinco a oito anos de aprovação escolar. Predominantemente, exerciam atividade remunerada sendo citadas as ocupações: auxiliar de serviços gerais, quituteira, empregada doméstica e faxineira aposentada. A renda mensal variou de cento e vinte a mil reais. Cinco familiares, quatro mães e uma sogra moravam no mesmo domicílio da gestante.

No tocante à caracterização das jovens, três delas eram solteiras e seis tinham relacionamento estável com o pai da criança, sendo que duas delas oficializaram essa união. A maioria não trabalhava no momento em que descobriu que estava grávida e, em relação aos estudos, mais da metade interrompeu-os ao saber que estava grávida.

Partindo desse universo de sujeitos, e seguindo a proposta metodológica, apresenta-se, a seguir, os resultados e a análise dos dados. Para essa apresentação, os discursos do sujeito coletivo (DSC) foram agrupados por tema abordado, que correspondem, basicamente, aos objetivos específicos propostos. A cada DSC, foi associada a idéia central correspondente para que, dessa forma, fosse possível analisar os depoimentos colhidos, tendo por referência a literatura científica atual sobre o assunto.

A abordagem dos familiares mais significativos para as jovens iniciou-se pela busca das representações desses sujeitos sobre a constatação pela família do fato de se ter uma adolescente grávida.

Tema A - A notícia sobre a gravidez da adolescente

Em relação ao sentimento da família no momento da descoberta da gravidez, a análise dos discursos deste estudo permitiu que se identificasse que a notícia sobre a gestação da adolescente solteira, em um primeiro momento, representou um "choque" para seus familiares, por se tratar de um acontecimento inesperado. Entretanto, aos poucos, as famílias passaram a aceitar e a se conformar com a situação, consoante ilustra o DSC 1.

Eles contaram primeiro para o pessoal lá da vila, não queriam contar, mas aí quando a gente ficou sabendo, a gente ficou muito nervosa. Na hora, a gente levou aquele choque, né? Foi inesperado e aí, a gente ficou um pouco abalada. Ela estava namorando esse rapaz e aí, de repente, logo em seguida, ela engravidou. Eu não gostei muito... Não era para ter ficado grávida, ainda mais moça assim! Conversava tanto com ela sobre isso dentro de casa. Falava para ela "olha, cuidado, um filho não é brincadeira". Aconselhava, explicava, ensinava... Ela viu o que já passei com essas crianças dentro de casa. Também, tive filho cedo. Enfim, eduquei e ensinei; fiz minha parte. Então, acho que aconteceu mesmo por um descuido dela... Elas não ouvem o que a mãe fala, né? Já tenho outras duas moças que tiveram filho... a gente acaba acostumando, né? Fazer o quê? Se tá na chuva é para se molhar... São muito novas, mas a gente vai segurar elas como? A gente tem que acostumar, não tem outro jeito, né? Tem que se conformar... (DSC 1 - Idéia central - Choque e conformismo diante de uma gravidez precoce e inesperada).

Por esse discurso, pode-se apreender que as famílias representam a gravidez na adolescência como um problema, ancorando, a princípio, esse julgamento nas próprias experiências prévias e com outras adolescentes de suas famílias, deixando claro que não gostariam que suas filhas, sobrinhas ou netas se deparassem com as mesmas dificuldades.

Ainda, o DSC 1 sinaliza que, em geral, os familiares acreditam que fizeram tudo o que estava a seu alcance para advertir as adolescentes sobre os infortúnios de uma gravidez nessa circunstância, demonstrando a sua impotência para evitar uma gravidez precoce na família. De outra maneira, eles imputam a responsabilidade desse problema, às próprias jovens.

Além disso, o discurso deixa transparecer o sentimento de conformismo da família, que se baseia na familiaridade com a situação e na impotência diante da mesma, fazendo-a aceitar e se acostumar com o fato.

Mesmo exercendo o papel de informantes, muitas vezes, a rede de apoio familiar da adolescente mostra-se falha em prestar esclarecimentos ou reduzir as incertezas das jovens. Além de despreparados, os interlocutores apresentam dificuldades associadas à falta de informação e à não aceitação da sexualidade adolescente(10). E, confirmando essa falta de comunicação entre os familiares e adolescentes, no início do DSC 1, pode-se observar que as próprias adolescentes que engravidam preferem se comunicar, por vezes, com pessoas fora do meio familiar, ou seja, da comunidade em que vivem, talvez por terem uma relação mais significativa. Tal comportamento demonstra coerência com a própria fase de desenvolvimento psicossocial do adolescente, quando se encontra no processo de definição de sua identidade, independência e emancipação, podendo surgir, por um lado, conflitos importantes em relação ao controle paterno e, por outro, cumplicidade e identificação em relação ao grupo de amigos(11).

Em contrapartida, nas famílias que reportaram o desejo prévio de que a adolescente engravidasse, ligando essa expectativa ao relacionamento fixo dessa última com o pai do concepto, coerentemente, o impacto da notícia foi positivo, deixando transparecer nos discursos dos familiares a sua grande alegria.

Foi aquela festa, a maior felicidade do mundo, uma alegria enorme, porque a minha nora já estava casada com o meu filho; eles estavam querendo filho desde o começo do ano e agora conseguiram. Tá todo mundo feliz lá em casa: as avós, as tias, os tios. Logo vou ver o rostinho dele, ai Deus do Céu! O negócio é esperar nascer e dar muito amor pra essa criança porque acho que pra neto o amor é o mesmo que pros filhos; ou até maior... (DSC 2 - Idéia central - Alegria perante uma gravidez desejada).

Existem estudos que evidenciam as diferentes vivências da maternidade para as adolescentes. Para algumas delas, essa experiência é plena de significados positivos(12). No presente estudo, constatou-se também que, para os familiares, a gravidez na adolescência pode ser permeada por significados positivos, se ocorre em condições pré-estabelecidas por elas mesmas. Ou seja, em uma sociedade que culturalmente admite o matrimônio como condição prévia para a formação de uma família, a união estável da adolescente com o pai da criança parece contribuir para a representação da gestação precoce como evento natural e desejado.

Convém ressaltar que a existência de significados positivos, na complexa rede de inter-relações que caracteriza a gestação na adolescência, pode fazer parte de um projeto de vida da adolescente, na tentativa de alcançar reconhecimento e autonomia econômica e emocional em relação à família de origem(13). Através do DSC 2, é possível apreender que essa afirmação pode ser verdadeira também, ao se considerar o projeto de vida que os familiares têm em relação aos seus membros, no sentido de emancipá-los para terem seus próprios núcleos familiares, dando continuidade e ampliando sua própria família.

Tema B - As mudanças familiares em decorrência da gravidez da adolescente

Ao se reportarem ao tema em questão, os entrevistados apontaram suas representações quanto às repercussões da gravidez da adolescente no âmbito familiar, destacando as mudanças ocorridas quanto à aceitação da notícia, ao comportamento da adolescente e às relações e aos projetos familiares de vida.

À medida que a notícia da gravidez passa a ser difundida entre os membros da família, expressam-se, entre eles, sentimentos positivos de satisfação, influenciando a convivência que passa a ser mais tranqüila e denotando boas expectativas em relação ao nascimento da criança, conforme pode ser observado pelo DSC 3, abaixo apresentado.

Olha, mudou muita coisa lá em casa... todo mundo era, assim, meio bravo, de um ficar gritando com o outro. Agora está todo mundo mais calmo. Ficou uma beleza, porque está todo mundo contente com o nenê que está vindo. Antes, todo mundo brigava dentro de casa, era um xingando o outro, mas graças a Deus isso acabou. Parece até que, agora, a gente está conversando muito melhor do que antes; não é que a gente não se falasse, não é isso; é que agora tá melhor... (DSC 3 - Idéia central - Melhora no relacionamento familiar pela alegria da chegada do bebê).

Pode-se constatar que, de um modo geral, os sujeitos entrevistados confirmam mudança positiva no convívio familiar com a gravidez da adolescente.

Em estudo sobre as percepções e práticas de adolescentes grávidas e suas famílias no tocante à gestação, evidenciou-se que quase metade dos familiares relatou mudanças na dinâmica familiar relacionadas à melhoria dos cuidados dispensados à jovem e melhor aceitação da gravidez, visto que, nesse contexto, a gestação na adolescência não era percebida como um problema e sim um objetivo a ser alcançado no projeto de vida(13). Assim, a aceitação social do bebê, independente da idade materna, pode estar refletida no lar através de uma interação familiar harmônica(12).

O presente trabalho permitiu identificar que ocorrem mudanças específicas nas relações e práticas entre os familiares e a gestante adolescente, sendo que, integradamente, a família preocupa-se com o bem-estar físico da adolescente e se mobiliza através do cuidado e do oferecimento de suporte durante a gravidez e, também, elabora planos para o momento após o nascimento da criança.

Ah, a gente se preocupa mais, né, fica com mais cuidado. Ela está tendo muito enjôo e não é tudo que consegue comer e ela precisa se alimentar bem. Todo dia de manhã ela vomita, então, a gente que é mãe fica preocupada, né? Às vezes, ela começa a inchar, passa muito mal, sabe? No que a gente pode ajudar a gente ajuda, dá todo o apoio, porque não quer filha desamparada. Ela não está sozinha nessa... Você tem que proteger. Dei o maior apoio; jamais iria colocar na rua se falasse: "mãe, tô grávida". Sempre passo para ver como ela está. Está todo mundo ajudando ela com as coisas... Quando precisa de alguma coisa, a gente vê quem pode comprar, e dá um jeito. Agora, depois que (o nenê) nascer, também vai ser essa correria... Todo mundo vai entrar na dança. Às vezes, vejo ela meio pálida e pergunto se tem alguma coisa que ela tá com vontade de comer e fico no pé pra ela tomar as vitaminas certinho. Quando ela vem aqui em casa eu aconselho como é o parto e falo assim: "agora você vai sentir isso, vai sentir aquilo, vai sentir dor, mas é normal, toda mulher grávida sente". Vou querer batizar a criança; se for a madrinha já falei que compro berço, compro roupinha, compro tudo! (DSC 4 - Idéia central - Preocupações e cuidados da família).

Pode-se perceber que as famílias de gestantes adolescentes, realmente, mobilizam-se na formação de uma verdadeira rede de ajuda. Atualmente, na sociedade ocidental, é dever da família oferecer elementos que incluam relação amorosa, oportunidades para a vinculação, continuidade da assistência e carinho(12).

Na percepção das próprias adolescentes, o suporte familiar recebido durante a gravidez pode ser composto por ajuda financeira, explicações, conselhos, carinho, apoio emocional(13). O DSC 4 exemplifica que os familiares representam o suporte familiar da mesma forma, deixando claro que a família tem responsabilidades em relação à adolescente e à criança que irá nascer, independente de estar morando junto a ela.

Por outro lado, embora haja a configuração dessa rede de apoio familiar, foi possível identificar, através deste estudo, que os familiares têm expectativas em relação aos papéis a serem desempenhados pela adolescente grávida, estando atentos se ela está assumindo as responsabilidades com sua gestação, com seu comportamento social e, no âmbito familiar, se está se preparando para assumir suas responsabilidades com o filho que irá nascer. O DSC 5 ilustra essa afirmação.

Acho que antes ela não tinha muito juízo não. Agora, sei lá, parece que ela está tendo mais responsabilidade, pensa como vai cuidar do nenê... Apesar de ser criança ainda, ela está bem responsável: cuida da casa, não fica saindo, faz comida, sabe? Acho que ela tá bem responsável para a idade dela (DSC 5 - Idéia central - Aquisição de responsabilidade da adolescente diante do papel de mãe).

Para as mulheres, a adolescência pode ser caracterizada como uma fase de transição na qual existe o condicionamento e o treinamento de sua "aptidão" para o papel de mãe e esposa que deve ser assumido na sociedade(14).

Os familiares entrevistados percebem o crescimento pessoal da adolescente uma vez que ela se torna mais responsável com o acontecimento da gravidez. As novas responsabilidades e o amadurecimento pessoal são fatores que podem estimular, inclusive, o cuidado ao recém-nascido(12). Em muitas famílias, o cuidado das jovens com os bebês é percebido como atencioso, zeloso, dedicado e supridor das necessidades básicas da criança(15).

Torna-se necessário destacar que apenas um familiar demonstrou sentir isenção total de responsabilidade, desejando, inclusive, que a adolescente solteira fosse morar com o namorado como conseqüência do ocorrido.

Foi ela que arrumou filho! Agora tem que ver se vai lá morar com ele, porque eles não moram juntos ainda (DSC 6 - Idéia central - Total responsabilidade da adolescente diante do papel de mãe).

As reações da família diante da jovem grávida tendem a ser contraditórias, sendo comum a sobreposição de sentimentos de revolta, abandono e aceitação do "inevitável"(13).

Dentre as representações sobre as mudanças do contexto familiar após a gravidez das adolescentes, que eram solteiras por ocasião da concepção, pode-se apreender, através dos discursos de seus familiares, que se faz presente forte sentimento que diz respeito à frustração de se ter um projeto de vida familiar interrompido e/ou modificado para sempre, conforme evidencia o DSC 7.

O ruim é que ela estava estudando... Falava para mim que iria fazer curso disso, curso daquilo. Mas não deu, né? Insisti mais com ela para ela não parar os estudos. Já tinha feito a matrícula dela na 5ª série...A gente fica triste com isso. Não queria que ela passasse pelo que passei. Porque, ela tinha toda uma vida pela frente... (DSC 7 - Idéia central - O projeto de vida familiar frustrado).

No tocante aos estudos, muitos familiares lamentam o fato de a adolescente deixar a escola em decorrência de seu estado gravídico. Esse achado mantém coerência com dados da literatura que mostram a gravidez precoce como fator que pode desencadear, além da baixa auto-estima, o abandono da escola, do trabalho e até mesmo do lazer(3).

Dentre os fatores que determinam a saída da adolescente da escola antes do nascimento do filho estão o constrangimento e as pressões de diretores, professores, colegas e pais de colegas. Após o nascimento, o abandono dos estudos se deve ao fato de a jovem ter de pagar, com seu trabalho doméstico, à família que abriga seu filho ou necessitar ganhar o sustento de ambos. Nesse cenário, alguns pais contribuem para esse abandono ao preferirem esconder a situação vergonhosa da gravidez de sua filha(14).

É importante ressaltar que as relações na família se expressam através do significado dos vários papéis familiares: mãe, esposa, filhos, pais, e no próprio ciclo de vida do lar, em que as trajetórias de vida individuais devem ser conciliadas aos projetos coletivos e isso permeia toda a vida doméstica. Quando os planos individuais tomam rumos diferenciados da trajetória de vida familiar ocorrem divergências entre o que é estabelecido como objetivo grupal e os desejos individuais(16). Os projetos da família são formulados de acordo com a tradição, formada pelos hábitos e padrões que moldam os comportamentos e pela influência "do todo sobre as partes"(17). Os componentes do grupo doméstico, geralmente marido e esposa, organizam o projeto coletivo no intuito de assegurar a manutenção integral do grupo(16).

Por seus depoimentos e por suas características sociodemográficas, pode-se inferir que os familiares entrevistados ancoram seus projetos de vida nas expectativas das famílias de classes sociais menos favorecidas que planejam o futuro familiar e de suas crianças e adolescentes a partir da possibilidade de completarem seus estudos e se qualificarem para o trabalho de onde tirarão seu sustento e o de outros membros de suas famílias e que, até então, devem permanecer sob o sustento tutelado dos pais. Dessa forma, o evento da gravidez na adolescência interrompe/muda esse curso, impulsionando a adolescente e sua família a refazerem seus projetos de vida.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com a realização deste trabalho, pode-se reafirmar que a questão da gravidez na adolescência realmente não deve ser marcada apenas como experiência negativa e insalubre para as jovens e suas famílias.

Para os familiares, esse acontecimento familiar e social, esperado ou não, deve ser assumido e vivenciado pela jovem, porém, com o suporte familiar, cada qual com suas responsabilidades quanto ao ciclo gravídico-puerperal e à maternagem. Nesse sentido, considera-se que a experiência com a gestação precoce, impregnada por significados e vivências, por vezes contraditórios, pode contribuir não só para o desenvolvimento global da adolescente, como também para o desenvolvimento global de sua família.

E, levando em consideração as crenças, os valores e o modo como representa e age a família perante a situação, ou seja, considerando as potencialidades e os limites da família, os profissionais têm a possibilidade de exercerem a escuta, o acolhimento e o cuidado, tanto da adolescente grávida quanto dessa família, inseridos em seu contexto familiar e social. Dessa forma, facilita-se a aquisição e o desenvolvimento de recursos próprios, por parte do núcleo familiar, no enfrentamento de momentos conflituosos, reconhecendo a família como sujeito ativo nesse processo.

 

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Recebido em: 13.1.2005
Aprovado em: 16.12.2005

 

 

* A abordagem compreensiva é aquela que elege como tarefa a compreensão da realidade humana vivida socialmente, manifestando, como conceito central de investigação, o significado do fenômeno pesquisado para os sujeitos sociais(8).