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Revista Latino-Americana de Enfermagem

Print version ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.14 no.4 Ribeirão Preto July/Aug. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692006000400005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Ocorrências éticas de enfermagem: cotidiano de enfermeiros gerentes e membros da comissão de ética de enfermagem1

 

Ocurrencias éticas de enfermería: el cotidiano de los enfermeros gerentes y miembros de la comisión de ética de enfermería

 

 

Genival Fernandes de FreitasI; Taka OguissoII; Miriam Aparecida Barbosa MerighiIII

IEnfermeiro, Professor Doutor, email: genivalf@usp.br
IIEnfermeiro, Professor Titular, email: takaoguisso@uol.com.br
IIIEnfermeiro, Professor Associado, email: merighi@usp.br. Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo

 

 


RESUMO

O objetivo deste estudo foi compreender o significado das ações dos enfermeiros frente às ocorrências éticas envolvendo os profissionais de enfermagem. Os dados foram obtidos por meio de entrevista com enfermeiros gerentes e enfermeiros membros da Comissão de Ética de Enfermagem que vivenciaram o fenômeno. Os dados foram analisados segundo o referencial da fenomenologia sociológica. As experiências dos enfermeiros permitiram desvelar as seguintes categorias concretas de significado vivido, pois eles buscam: a humanização da assistência, a melhoria contínua do processo de cuidar, a credibilidade profissional, a satisfação da clientela, a desmistificação do medo da punição, a parceria no processo educativo, o respeito ao sigilo ético e a expectativa em relação ao encaminhamento da ocorrência à Comissão de Ética. A tipificação foi descrita ao final. As ações dos enfermeiros nas ocorrências éticas despertam o interesse dos profissionais de enfermagem, que querem assegurar uma assistência isenta de riscos ou danos e promover a valorização desses profissionais.

Descritores: ética de enfermagem; organização e administração; educação em enfermagem; ética


RESUMEN

El objetivo de este estudio fue comprender el significado de las ocurrencias éticas involucrando a profesionales de enfermería. Los datos fueron obtenidos por medio de entrevistas con enfermeros gerentes y enfermeros miembros de la Comisión de Ética de Enfermería que pasaron por el fenómeno. Los datos fueron analizados según la perspectiva de la fenomenología social. Las experiencias de los enfermeros posibilitaron desvelar las siguientes categorías concretas del significado del vivido, pues ellos buscan: la humanización de la atención; la mejoría continua del proceso de cuidar, la credibilidad profesional; la satisfacción de la clientela; las demistificación del miedo de la punición, el compartir en el proceso educativo; el respeto al sigilo ético y la expectativa relacionada al posible envío de la ocurrencia a la Comisión de Ética. La tipificación fue descrita al final. Las acciones de los enfermeros en las ocurrencias éticas despiertan interés de los profesionales de enfermería, que desean garantizar una atención libre de riesgos/daños y promover la valorización de esos profesionales.

Descriptores: ética de enfermería; organización y administración; educación en enfermería; ética


 

 

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Depara-se com ocorrências éticas cotidianas, seja como enfermeiros assistenciais, gerentes ou docentes de enfermagem. Diante de tais situações, procura-se o comprometimento e a discussão com os profissionais envolvidos, seja na Comissão de Ética de Enfermagem, ou na clínica, ou unidade onde aconteceu a ocorrência, utilizando, para tanto, dos conhecimentos adquiridos ao longo da formação e atuação, enquanto profissionais. Assim, tendo em vista que ao paciente/cliente deve ser assegurada assistência de enfermagem isenta de riscos ou de danos decorrentes de negligência, imperícia ou imprudência cometidas pelos profissionais de enfermagem, entende-se que seja de fundamental relevância a compreensão do mundo das ocorrências éticas e os modos de vê-las e de lidar com elas, a partir da vivência dos próprios enfermeiros que as vivenciam na sua cotidianeidade, como gerentes ou membros da Comissão de Ética de Enfermagem (CEE).

As ocorrências éticas são eventos danosos causados por profissionais de enfermagem no decorrer do exercício e que têm a ver com a atitude inadequada face ao colega de trabalho, à clientela ou à instituição em que trabalha. Esses eventos podem acarretar alguma forma de prejuízo ou dano aos clientes ou aos próprios profissionais envolvidos, seja devido à falta de atenção, de habilidade, de conhecimento, de zelo, podendo também ser causados por omissão, ou seja, quando o profissional deixa de agir ou fazer algo que deveria fazer e com isso acarreta risco ou prejuízo a outrem(1).

É sabido que as ações de enfermagem estão intrinsecamente ligadas à responsabilização profissional, quando delas advêm prejuízo ou dano ao paciente/cliente. Por outro lado, múltiplos fatores podem contribuir para as ocorrências de riscos ou de danos no processo de cuidar. Nesse sentido, quando acontecem erros envolvendo profissionais de enfermagem, dá-se ênfase maior na punição do culpado, se comparada à análise e melhoria dos processos que ensejam tais ocorrências prejudiciais. Sendo assim, por causa do medo de punição, os profissionais têm receio de comunicar as ocorrências de erros e, conseqüentemente, as oportunidades de aprendizagem com as próprias falhas podem não estar sendo aproveitadas(2).

Percebe-se que alguns pesquisadores investigaram diferentes dimensões da responsabilidade dos profissionais e das instituições de saúde perante as ocorrências prejudiciais aos clientes(1-2). No entanto, esses estudos não respondiam às indagações a respeito das motivações dos enfermeiros ao atuarem face às ocorrências éticas no seu cotidiano, impossibilitando melhor compreensão dos significados atribuídos por esses enfermeiros às suas ações nessas ocorrências. O que justificou, portanto, a realização desta investigação foi a necessidade que se sentiu de compreender o fenômeno das ocorrências éticas de enfermagem, a partir das vivências dos EMs e dos EGs, delineando como objetivos deste estudo conhecer e compreender o significado das ações dos enfermeiros frente às ocorrências éticas de enfermagem.

 

ABORDAGEM TEÓRICO-FILOSÓFICA NO CONTEXTO DO ESTUDO

Buscando ampliar a compreensão sobre o fenômeno das ocorrências éticas, envolvendo os profissionais de enfermagem, a partir da perspectiva dos enfermeiros que compartilham essas experiências, vivenciando-as através das relações interpessoais, conduziu-se a pesquisa para a apropriação da fenomenologia sociológica de Alfred Schütz, por se compreender que esse referencial possibilitaria desvelar o fenômeno das ocorrências éticas, a partir das experiências e das atuações dos enfermeiros membros da Comissão de Ética de Enfermagem (EMs) e dos enfermeiros gerentes (EGs), tendo em vista suas vivências face ao fenômeno investigado.

Percebendo a intencionalidade dos EMs e dos EGs que vivenciam as ocorrências éticas, procurou-se compreender como se manifestam as experiências de agir face às ocorrências éticas no seu dia-a-dia, não se limitando à percepção do projeto individual, contudo, naquilo que a intencionalidade revela para o grupo de profissionais de enfermagem envolvidos nesse fenômeno.

A fenomenologia sociológica se volta não para os atos singulares, os comportamentos individuais, fechados numa consciência de si, mas se volta para a compreensão do que constitui um determinado grupo social, o qual vive uma situação típica. Assim, o mundo cotidiano não é um mundo individual, mas intersubjetivo, no qual se compartilha com os semelhantes, sendo um mundo comum a todos(3).

A intersubjetividade se revela na reciprocidade de motivos e perspectivas. Assim, a ação de um indivíduo provoca a reação do outro, face a uma dada situação, em que um vivencia a situação comum na perspectiva do outro e vice-versa. Isso constitui um relacionamento de nós. Esse, por sua vez, expressa-se na consciência mútua da outra pessoa através de cada pessoa e constitui uma participação geralmente simpática nas vidas uma da outra, mesmo que só por um determinado período de tempo. Esse relacionamento do nós surge da captação da existência da outra pessoa em interações face a face(4).

Outro conceito fundamental na teoria de Schütz refere-se à ação humana, a qual pode ser puramente interior (pensamento) ou exteriorizada pelos movimentos corporais, modificando algo no mundo. A conduta humana é enfocada a partir de um projeto que o homem se propõe realizar(5-6).

O motivo para consiste em um estado de coisas - o objetivo que se pretende alcançar com a ação, ou seja, a orientação para a ação futura e motivo porquê está relacionado às vivências passadas, com conhecimentos disponíveis(7).

Passa-se, a seguir, a discorrer sobre a metodologia percorrida para consecução deste estudo.

 

PERCORRENDO A TRAJETÓRIA METODOLÓGICA

Definiu-se, como critérios de inclusão na pesquisa, que o sujeito fosse partícipe da Comissão de Ética de Enfermagem, como membro efetivo ou suplente, e que tivesse vivência na recepção e acompanhamento das ocorrências éticas encaminhadas a esse órgão; ter vivenciado, como chefe ou gerente de enfermagem, as ocorrências éticas envolvendo o pessoal de enfermagem. Para estabelecer "rapport" e visando introduzir a temática para os sujeitos do estudo, colocou-se as seguintes questões:
- EMs: Como você atua frente às ocorrências éticas de enfermagem em uma CEE? O que leva você a atuar face às ocorrências éticas? O que você espera com essa atuação?
- EGs: Como é para você atuar frente às ocorrências éticas envolvendo o pessoal de enfermagem? O que leva você a atuar face às ocorrências éticas? O que você espera com essa atuação?

Fizeram parte do estudo EGs e EMs de um hospital particular do Município de São Paulo, após obtenção do parecer favorável do Comitê de Ética em Pesquisa da instituição onde o mesmo foi realizado.

Estabeleceu-se relação de proximidade e empatia com cada um dos colaboradores. Para tanto, explanou-se os motivos que nos levaram à busca desses profissionais e os objetivos do estudo, convidando-os, então, a participar, concedendo entrevista. Somente tendo obtido êxito com a manifestação livre e espontânea, solicitou-se ao participante a permissão para o uso do gravador, bem como a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, após ter concedido tempo para cada sujeito ter ciência do seu conteúdo, antes de assiná-lo.

Procurou-se propiciar ambiente favorável, possibilitando que cada depoente pudesse falar livremente sobre as questões propostas. Assim, buscou-se a clareza ao dizer as questões orientadoras e deixar que o colaborador refletisse e dissesse o que estava pensando naquele momento.

Não se estabeleceu o número de sujeitos participantes, tendo cessado as entrevistas quando se percebeu a repetitividade dos motivos que impulsionam a ação dos sujeitos frente às ocorrências éticas. Foram realizadas dez entrevistas com EMs e EGs, no total.

 

CONSTRUINDO AS CATEGORIAS CONCRETAS E O TIPO VIVIDO

A organização e a categorização dos resultados, obtidos no presente estudo, possibilitaram a construção da tipologia do vivido, seguindo os modelos propostos por pesquisadores em Enfermagem que utilizaram a Fenomenologia Sociológica(8-11). Para tanto, foram percorridos os seguintes passos:
- leitura dos depoimentos para apreender a vivência motivada dos sujeitos;
- identificação das categorias concretas que abrangiam os atos dos sujeitos em relação às ocorrências éticas de enfermagem;
- agrupamentos de trechos das falas, isto é, de aspectos afins significativos da ação frente ao fenômeno das ocorrências éticas, envolvendo profissionais de enfermagem;
- estabelecimento dos significados do ato social de atuar frente a essas ocorrências, a partir do típico dos discursos para alcançar a tipologia do vivido dos sujeitos participantes.

Categorias concretas referentes à motivação para dos EGs e dos EMs

As motivações para agirem nas ocorrências éticas de enfermagem dos EGs e dos EMs convergiram nas categorias, apresentadas a seguir.

Humanização

Os sujeitos participantes do estudo consideram necessária a atuação face às ocorrências éticas de enfermagem a fim de garantir o cuidar humanizado, ou seja, baseado no respeito e na dignidade do ser humano, como se pode observar em alguns discursos.

Ao atuar nas ocorrências éticas, procuro orientar o profissional envolvido que se ele quer o paciente bem cuidado ou quer ser bem cuidado, não tem como não estar comprometido com a assistência, com o que faz e a maneira como age (EG4).

Espero que a gente aprenda a trabalhar as ocorrências no sentido de buscar a humanização da assistência de enfermagem, o respeito aos direitos e à dignidade do ser humano (EM2).

Satisfação da clientela

Os EGs e os EMs consideram importante a atuação nas ocorrências éticas a fim de assegurar a satisfação da clientela pelo atendimento das necessidades da mesma, conforme se pode ver nos discursos que seguem.

Trabalhando as ocorrências éticas, espero contribuir para a satisfação do cliente de enfermagem, a valorização do serviço de enfermagem, dessa instituição (...) (EM1).

(...) é isso que espero, quanto à minha atuação nas ocorrências éticas, ou seja, espero que o nosso cliente esteja recebendo a melhor assistência possível ao seu caso (EG3).

Desmistificação do medo da punição

Os sujeitos do estudo desejam que as suas atuações possam contribuir para extinguir o receio da punição, em relação a alguns profissionais de enfermagem, ao serem encaminhados à Comissão de Ética de Enfermagem. Desse modo, eles dizem.

(...) espero isso, que as pessoas aprendam com cada situação e que não seja dado um peso exagerado à ocorrência e um tom de punição (EG3).

(...) também é preciso tirar aquele estigma de punição, que infelizmente ainda existe. A CEE deve chamar a atenção dos enfermeiros chefes, no sentido de que denunciar o profissional não deve ser uma forma de puni-lo, mas de orientá-lo (EM3).

Credibilidade

Os EGs e os EMs esperam que suas atuações nas ocorrências éticas resultem em credibilidade para o profissional de enfermagem, em relação aos clientes e aos outros profissionais da área da saúde, o que se manifesta nos discursos.

O paciente deve ser respeitado e se algo errado acontece, ele precisa ser informado, mas antes precisamos prevenir para que os prejuízos a esse paciente não ocorram (EG4).

Dá um conforto saber que você está atuando no sentido de valorizar e dignificar a profissão, procurando fortalecer a atuação do profissional de enfermagem na instituição, porque quando voce trabalha as ocorrências éticas faz com que o grupo de profissionais de enfermagem seja visto com mais seriedade e também está garantindo ao profissional um suporte, caso ele esteja sendo acusado de forma injusta (EM3).

Parceria no processo educativo

Os enfermeiros consideram importante a parceria da CEE, educação continuada, das gerências do serviço de enfermagem e dos profissionais de enfermagem nas atividades educativas em relação às ocorrências éticas, conforme se vê nos discursos.

(...) espero que a nossa atuação contribua com a educação continuada também. Acho isso: a gente tem feito assim no setor que sou encarregada e também quando enviamos uma ocorrência para a CEE, porque é uma maneira dessa situação estar sendo vista por todas as pessoas (EG3).

A meu ver, no dia-a-dia, cada enfermeiro deve orientar, apontar aonde está a falha, fazer um acompanhamento das pessoas e dar orientações. É um trabalho realmente de educação (...) (EM4).

Melhoria contínua do processo de cuidar

Vários discursos apontam para a necessidade da busca contínua do processo de cuidar como elemento de fundamental importância ao atuarem frente às ocorrências éticas de enfermagem.

(...) Quando atuo em relação à ocorrência ética é para que haja mudança e melhoria no ambiente de trabalho e nas relações das pessoas (EG3).

(...) Ao procurarem a atualização em novos conhecimentos, estes enfermeiros sentem-se seguros de estarem propiciando uma assistência de enfermagem de qualidade aos clientes e utilizando os recursos humanos e materiais disponíveis para assegurar a qualidade do cuidar (EM1).

 

ANÁLISE COMPREENSIVA

As categorias humanização, melhoria contínua do processo de cuidar, credibilidade, desmistificação do medo da punição, satisfação da clientela e parceria no processo de educar, congregam, na maioria, os motivos para convergentes que emergiram tanto nos discursos dos EGs quanto dos EMs.

Os sujeitos do estudo revelaram suas preocupações em assegurar cuidado humanizado e consubstanciado no respeito ao cliente, à sua dignidade e à integralidade humana, enquanto sujeito ativo no processo de cuidar. Assim, a humanização do cuidar representa forte motivo para garantir o direito à assistência de enfermagem digna e segura à clientela.

Propiciar melhorias contínuas do processo de cuidar é também um horizonte vislumbrado pelos EGs e pelos EMs, o que requer investimentos e mudanças na dinâmica de trabalho, na capacitação técnico-científica dos profissionais de enfermagem, a fim de minimizar as ocorrências éticas prejudiciais à clientela e prevenir as reincidências desses eventos.

A categoria credibilidade consiste em importante motivo para os EGs e EMs atuarem em relação às ocorrências éticas de enfermagem. Assim, eles almejam que o cliente tenha confiança nos profissionais de enfermagem e com isso justificam suas preocupações em orientá-los para, sempre que for possível, informar o cliente/família e a equipe médica sobre a ocorrência ética de enfermagem. Agindo dessa maneira, esses enfermeiros esperam que os outros profissionais e o cliente/família valorizem as atuações da equipe de enfermagem frente à ocorrência ética e as providências tomadas no sentido de minimizar as conseqüências malévolas do evento.

Uma outra categoria é a satisfação da clientela, que se tornou perceptível porque propulsiona o agir dos EGs e dos EMs e revela o compromisso desses sujeitos sociais para a obtenção dessa satisfação, como meta a ser alcançada pelos profissionais de enfermagem. Assim, ao lidarem com as ocorrências éticas de enfermagem buscam aproximar-se desse propósito de satisfazer as necessidades da clientela assistida pela equipe de enfermagem.

A categoria desmistificação do medo da punição denota que os EGs e os EMs reconhecem a existência dessa situação de medo da punição, mas ambos sentem a necessidade de superá-lo, por meio da divulgação das funções da CEE e das orientações feitas por ela aos profissionais, tendo em vista a ocorrência ética ou sua prevenção. Nessa ótica, ao atuarem em relação às ocorrências éticas, esses enfermeiros esperam que se rompa com o estigma da punição. Essa expectativa dos EGs e dos EMs vem corroborar outro estudo, segundo o qual os profissionais de enfermagem têm receio de comunicar as ocorrências de erros e, conseqüentemente, não aproveitam oportunidades de aprendizagem com as próprias falhas(2).

A categoria parceria no processo educativo destaca que os EGs e os EMs têm também em mente o projeto de desenvolverem movimentos em parceria com a educação continuada e com os profissionais de enfermagem, gerências e a CEE, a fim de envidar esforços no sentido de comprometer todos com esse propósito educativo e preventivo em relação às ocorrências éticas, por meio do compartilhamento das orientações da CEE e das chefias/gerências, por meio do apoio, da comunicação e da reflexão em relação ao profissional que cometeu determinada falha ou erro.

Existem também reciprocidades de perspectiva nos discursos dos EGs e do EMs quanto às suas atuações. Assim, alguns EMs esperam que os EGs sejam capacitados para decidirem e encaminharem determinadas ocorrências éticas de enfermagem para a CEE. Já os EGs projetam suas atividades, em relação ao encaminhamento da ocorrência ética para a CEE e esperam que os membros da CEE sejam sigilosos, a fim de resguardarem a imagem do profissional envolvido na ocorrência, evitando que venha a sofrer discriminações ou denegrimento de sua reputação.

 

CONSTRUÇÃO DO TIPO VIVIDO

Na perspectiva da fenomenologia sociológica, os tipos vividos idealizados são esquemas interpretativos do mundo social, que fazem parte da bagagem de conhecimento acerca do mundo, têm valor de significação e sempre se toma elementos deles na relação interpessoal(12).

Assim sendo, com base nas categorias emergentes dos discursos dos sujeitos participantes pôde-se construir o tipo vivido em relação às suas vivências face às ocorrências éticas. O estudo apontou que há um tipo vivido comum, o que é compreensível porque esses sujeitos estão inseridos em um mesmo grupo social e têm vivenciado com similaridade os motivos para, com base em um mesmo contexto de significados nessas vivências.

Assim, o EG e o EM são profissionais que almejam com suas ações, face às ocorrências éticas, a humanização e a melhoria contínua do processo de cuidar. Anseiam pela credibilidade do profissional de enfermagem. Querem desmistificar o medo de punição dos profissionais de enfermagem que se envolvem nas ocorrências éticas. Desejam propiciar satisfação à clientela pelo atendimento. Querem parceirizar com a educação continuada e a CEE no processo educativo.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao se desvelar os significados para as ações tipificadas e compartilhadas pelos sujeitos deste estudo, tornou-se possível compreender que é imprescindível a parceria da instituição de saúde e o compromisso de todos os profissionais, a fim de prevenir as ocorrências éticas, mormente aquelas mais prejudiciais à clientela assistida. Nessa ótica, a compreensão das ações dos EGs e dos EMs, face às ocorrências éticas, revelaram que eles acreditam na parceirização para um processo educativo permanente e duradouro frente a esses eventos, por meio do envolvimento dos membros da CEE, das gerências e dos demais profissionais de enfermagem.

Este estudo apontou, ainda, para a necessidade de se afastar o receio da punição que pode estar envolvendo o encaminhamento do profissional que cometeu a ocorrência à CEE. Com essa expectativa, os EGs e os EMs almejam que as metas do serviço de enfermagem e do estabelecimento de saúde contemplem e viabilizem a construção de um processo de participação, diálogo e apoio, baseado na reflexão e na responsabilidade do profissional que cometeu determinada ocorrência ética.

Em relação às ações educativas e gerenciais, propostas pelos EGs e pelos EMs nas ocorrências éticas, compreende-se o significado e a importância dessas ações para a assistência de enfermagem humanizada, segura e eficiente, com isenção de riscos previsíveis nessa assistência. Ademais, este estudo possibilitou compreender a necessidade de que essas ações revistam-se de caráter não punitivo, em relação aos profissionais de enfermagem que cometem falhas, pois atitudes educativas parecem ser mais sábias e eficazes na prática gerencial face às ocorrências éticas de enfermagem.

Ao agirem nas ocorrências éticas, os EGs e os EMs almejam melhorar continuamente o processo de cuidar e a satisfação da clientela assistida, o que para eles poderá tornar-se possível por intermédio de parcerias com a educação continuada dos profissionais de enfermagem e com o trabalho da Comissão de Ética na orientação dos profissionais, ao invés de puni-los. Com isso, esses enfermeiros - que são parte de um mesmo grupo social, têm expectativas convergentes em relação às motivações para as ações, face às ocorrências éticas, pois esperam contribuir para propiciar benefícios à clientela assistida e almejam ser reconhecidos socialmente e valorizados profissionalmente, comprometidos com o processo de cuidar.

As vivências dos EGs e dos EMs revelaram, ainda, que todo enfermeiro precisa lidar com as ocorrências éticas no seu dia-a-dia, tomar decisões, orientar e encaminhar os profissionais de enfermagem à CEE, quando for necessário. Para tanto, eles esperam que haja eqüidade ao se decidir sobre as ocorrências éticas, a fim de que as decisões possam resultar em melhoria da assistência e, por consegüinte, possam redundar em prol da coletividade social.

A vertente fenomenológica compreensiva da ação social, norteadora deste estudo, possibilitou vislumbrar novos horizontes face às ocorrências éticas, envolvendo os profissionais de enfermagem, com vistas a despertar para a relevância desses eventos, bem como as responsabilidades individuais e institucionais, suscitando compromisso de todos s profissionais no aprofundamento dos conhecimentos adquiridos, visando assegurar assistência livre de quaisquer modalidades de riscos ou de danos à clientela.

Em suma, esta pesquisa possibilitou apenas um olhar, de maneira mais aprofundada, sobre as experiências vividas e retratadas pelos próprios sujeitos da ação social, desvelando-se projetos para a construção de conhecimentos para a prática do cuidar com base nas ações desencadeadas perante as ocorrências éticas e que envolvem as responsabilidades, tanto dos profissionais de enfermagem, quanto das instituições de saúde prestadoras de serviços nessa área.

 

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Recebido em: 5.7.2005
Aprovado em: 24.3.2006

 

 

1 Trabalho extraído da Tese de Doutorado