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Revista Latino-Americana de Enfermagem

versão impressa ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem v.15 n.4 Ribeirão Preto jul./ago. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692007000400026 

COMUNICAÇÕES BREVES/RELATO DE CASOS

 

Saberes dos enfermeiros em uma unidade de internação psiquiátrica de um hospital universitário1

 

 

Agnes OlschowskyI; Maria de Lourdes Custódio DuarteII

IProfessor Doutor da Escola de Enfermagem, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil, e-mail: agnes@enf.ufrgs.br
IIMestranda da Escola da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, Centro Colaborador da OMS para o desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, Brasil, e-mail: malulcd@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

Este estudo tem o objetivo de identificar os saberes dos enfermeiros em uma unidade de internação psiquiátrica em um hospital universitário. Trata-se de pesquisa exploratório-descritiva, com abordagem qualitativa, utilizando a entrevista semi-estruturada. Os enfermeiros relatam transformação no cuidado assistencial a partir de sua experiência no modo asilar, fazendo referências às concepções do modo psicossocial: integralidade, acolhimento, interdisciplinaridade e relacionamento interpessoal. O cuidado integral e individual, o conhecimento sobre as síndromes psiquiátricas e seu tratamento e a consideração da subjetividade do indivíduo, em sofrimento psíquico, são saberes que norteiam as ações de enfermagem em saúde mental.

Descritores: saúde mental; enfermagem psiquiátrica; hospitais universitários


 

 

INTRODUÇÃO

A assistência de enfermagem em saúde mental vem passando por um processo desafiador: o de vivenciar mudança de paradigma do modelo asilar para o modelo psicossocial. Essa transformação inicia, no Brasil, na década de 1970, em meio a um movimento político chamado Reforma Psiquiátrica, o qual visa a implementação de serviços extra-hospitalares, com ênfase na assistência do sujeito no território, objetivando a superação do manicômio enquanto espaço de segregação, de tutela e de isolamento.

Nesse novo contexto, o modelo psicossocial, preconizado pela Reforma Psiquiátrica, direciona seu olhar para o sujeito como um ser pleno de subjetividades, preocupando-se com o cotidiano desse indivíduo, sua família, escola, igreja, clube e outros. Consequentemente, as ações dos enfermeiros devem objetivar um cuidado que vise a totalidade do sujeito: considerá-lo uma pessoa plena de sentimentos, pertencente (e tendo) uma família, inserida em um contexto social que não pode ser descartado, mas utilizado em prol do seu tratamento.

Mediante essa nova concepção ampliada de assistência, pretende-se conhecer quais são os saberes dos enfermeiros psiquiátricos, entendendo-se por saberes o conhecimento e as concepções que esses profissionais têm sobre o seu trabalho. Saber é definido como conhecer, ser instruído, ter informações e possuir conhecimento(1).

No contexto do manicômio, o papel do enfermeiro era, na maioria das vezes, o de assistente, observando e registrando o comportamento dos pacientes ou seja, cabia-lhe a vigilância dos "loucos", isto é, vigiava e repreendia os doentes mentais(2). Cabia-lhe, também, tarefas de cuidado direto: medidas de higiene e de conforto, administração da medicação, contenção, vestuário e alimentação do paciente.

Na atualidade, o enfermeiro utiliza a formação do vínculo terapêutico como uma das principais ferramentas de trabalho. Esse processo de ajuda ao sujeito psiquiátrico implica conhecimento teórico, associado à capacidade de comunicação e de autoconhecimento do enfermeiro, a qual lhe exige alguns requisitos básicos: capacidade para amar, empatia pelo outro, capacidade técnica, científica e de consciência crítica(2).

Concomitante à mudança das funções do enfermeiro psiquiátrico, mudou, também, a demanda da população, o que levou o enfermeiro a assumir novos papéis e a impor-se como profissional gabaritado para o desempenho das funções de mais alto nível assistencial e científico(3).

Assim, o objetivo deste estudo é identificar os saberes dos enfermeiros em uma unidade de internação psiquiátrica de um hospital universitário.

 

REFERENCIAL METODOLÓGICO

Este estudo tem caráter exploratório-descritivo, com abordagem qualitativa. A pesquisa foi realizada em um hospital universitário, tendo como sujeitos todos os enfermeiros (oito profissionais) que trabalham na unidade de internação psiquiátrica. O tipo da amostra foi intencional, por convite. O instrumento utilizado na coleta de dados foi a entrevista semi-estruturada. A análise de dados foi dividida em três etapas de acordo com Minayo(4): ordenação dos dados, classificação dos dados e análise final. Este estudo foi encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa, tendo a aprovação do Projeto 05-331, em 25 de agosto de 2005.

 

SABERES DOS ENFERMEIROS

Os saberes dos entrevistados apontam para o conhecimento do modelo psicossocial em oposição ao modelo asilar(5). Esse modelo reduz o cuidado da clínica a uma classificação da loucura como doença que deve ser tratada, curada e controlada. Nesse sentido, o modelo psicossocial propõe a ampliação do conceito de loucura, percebendo o sujeito em sua individualidade e subjetividade, inserido no contexto social, sendo valorizado como cidadão com direitos e deveres na sociedade(5). Referente à mudança de paradigma, os entrevistados visualizam os conhecimentos dessa transformação.

Eu tive experiências anteriores que o direito do paciente não eram tão atendidos. Ele era visto como aquela coisa antiga do doente mental, do paciente louco. E que aqui, o paciente psiquiátrico é um paciente que está em sofrimento psíquico e que precisa de cuidados e de auxílio [...] Então, temos que acolher ele (E1).

Observa-se a transformação do foco da doença mental, considerando-se a existência do sofrimento do paciente. Nesse depoimento transparecem conhecimentos sobre acolhimento, vínculo, responsabilidade e contrato de cuidados que são diretrizes da atenção integral em Saúde Mental. Assim, busca-se entender saúde como condição global, resultante de funcionamento individual e de relações sociais(6).

A relação enfermeira-paciente deve se caracterizar como relação de parceria que requer do enfermeiro competência, responsabilidade social, colaboração interdisciplinar e parâmetros éticos-legais(7).

Aqui, a gente é mais enfermeiro, mais cuidador. A gente participa mais do tratamento do paciente em todos os sentidos. Conversa com a família, tem troca de informações, discussões com a equipe médica, têm reunião [..]. As principais ferramentas da enfermagem psiquiátrica, acho que é a comunicação, a empatia e o autoconhecimento do profissional.(E2).

O relato mostra um saber que reconhece que são necessárias ações que requerem disponibilidade para atendimento e escuta. O cuidado em saúde deve se pautar por novas concepções e, assim, os profissionais efetivam suas ações orientadas por uma ideologia de cidadania, ética, humanização e assistência integral(8). Os entrevistados preocupam-se com seu próprio eu, como ferramenta de trabalho. A partir desse conhecimento, o profissional conhecerá suas possibilidades e limites. O autoconhecimento é a primeira etapa para melhor compreender o outro, perceber os próprios sentimentos, as sensações, as emoções e isso implica dar-se conta de que as mazelas do outro também podem estar em si. A descoberta do próprio eu pode ser utilizada como um recurso a mais para o tratamento do outro(9).

Outra questão apresentada pelos entrevistados refere-se ao conhecimento das síndromes psiquiátricas, sua assistência e tratamento, dando ênfase aos quadros psicopatológicos que habilitaram o enfermeiro à assistência qualificada.

Conhecimentos de patologia, de sintomatologia, de tratamento, de medicação, de efeitos adversos. Acho que de sintomatologia, que guia bem o cuidado (E6).

Essa fala centra-se na idéia de normal e patológico, tendo como foco de ação o sintoma, o que explica a importância desse conhecimento enquanto saber necessário e valorizado. É preciso que esse profissional consiga efetuar entrelaçamento entre conhecimentos, e a importância da patologia que acomete o sujeito(10).

Os enfermeiros entrevistados apontam a importância do saber, em que o conhecimento, por ser dinâmico, transforma-se na realidade da prática assistencial.

Procuro me manter atualizada, estudando [...]. A gente tem que tentar manter-se atualizada na teoria, com novos conhecimentos, muita leitura. Ficar por dentro das novidades, para poder estar auxiliando o paciente (E3).

Buscar conhecimento teórico, através do estudo e de leituras, para embasar o conhecimento prático é apontado por esses profissionais como de extrema importância para o seu saber, orientando sua prática profissional.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os entrevistados relatam, a partir de sua experiência no modo asilar, transformação no cuidado assistencial, fazendo referências às concepções do modo psicossocial: integralidade, acolhimento, interdisciplinaridade, interlocução, autoconhecimento e existência de sofrimento do sujeito singular. O conhecimento das síndromes psiquiátricas, sua assistência e tratamento, é outro saber valorizado pelos enfermeiros.

Esses saberes apontam o conhecimento técnico e científico dos enfermeiros, porém, a capacidade política ainda deve ser aprimorada, enquanto espaço de participação, devendo a enfermagem procurar maior articulação entre os movimentos e as transformações da assistência psiquiátrica. A crítica e o debate possibilitam o pensar e o repensar da enfermagem psiquiátrica.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Ferreira ABH. Dicionário Aurélio Eletrônico: século XXI [CD-ROM]. Versão 3.0. Rio de Janeiro (RJ): Nova Fronteira; 1999. Saber.         [ Links ]

2. Rocha RM. Enfermagem psiquiátrica: que papel é este? Rio de Janeiro (RJ): Instituto Franco Basaglia; 1992.         [ Links ]

3. Rodrigues ARF. Enfermagem psiquiátrica e saúde mental: prevenção e intervenção. São Paulo: EPU; 1996.         [ Links ]

4. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. Rio de Janeiro (RJ); 1994.         [ Links ]

5. Costa-Rosa A. O modo psicossocial: um paradigma das práticas substitutivas ao modo asilar. In: Amarante P, organizador. Ensaios: subjetividade, saúde mental, sociedade. Rio Janeiro (RJ): Fiocruz, 2000.         [ Links ]

6. Olschowsky A. O ensino de enfermagem psiquiátrica e saúde mental: análise da pós-graduação "Latu Sensu". [tese]. Ribeirão Preto (SP): Escola de Enfermagem/USP; 2001         [ Links ]

7. Laraia MT, Stuart GW. Enfermagem psiquiátrica: princípios e prática. Porto Alegre (RS): ARTMED; 2001.         [ Links ]

8. Vilela SC, Sacartena MCM. A enfermagem e o cuidar na área de saúde mental. Rev Bras Enfermagem 2004 novembro/dezembro; 57(6):738-41.         [ Links ]

9. Rocha RM, Kestenberg CCF, Oliveira EB, Silva AV, Nunes MBG. Construindo um conhecimento sensível em Saúde Mental. Rev Bras Enfermagem 2003 julho/agosto; 56(4):378-80.         [ Links ]

10. Rodrigues RM, Zanett ML. Teoria e prática assistencial na enfermagem: o ensino e o mercado de trabalho. Rev Latino-am. Enfermagem 2000 dezembro; 8(6):102-9.         [ Links ]

 

 

Recebido em: 27.4.2006
Aprovado em: 4.6.2007

 

 

1 Trabalho extraído de Trabalho de Conclusão de Curso