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Revista Latino-Americana de Enfermagem

versão On-line ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem v.16 n.3 Ribeirão Preto maio/jun. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692008000300010 

ARTIGO ORIGINAL

 

Detecção do vírus da hepatite C em uma população de adultos

 

 

Glauco Danielle FagundesI; Vicente BonazzaII; Luciane Bisognin CerettaIII; Álvaro José BackIV; Jane BettiolV

IMédico, Mestre em Ciências da Saúde, Professor, e-mail: gdf@unesc.net
IIAluno do curso de graduação em Medicina
IIIProfessor
IVDoutor em Estatística, Professor
VDoutor em Medicina, Professor, e-mail: janebettiol@matrix.com.br. Universidade do Extremo Sul Catarinense, Brasil

 

 


RESUMO

O estudo objetivou determinar a prevalência de vírus da hepatite C (HCV) em adultos de Criciúma, SC, e procurar fatores relacionados à transmissão viral.
MÉTODOS: em uma campanha de saúde sobre hepatite C foi aplicado questionário sobre fatores relativos à transmissão de HVC e testes de detecção viral. Estabeleceu-se 300 participantes como amostra representativa da população. Foram aplicados os testes Exato de Fischer, Mann-Whitney e Kappa (significativos valores de p<0,05).
RESULTADOS: hepatite C foi detectada em 7/457 participantes (1,53%). Indivíduos com HCV positivo tiveram média de 5,7 (+/-4,1 DP) parceiros sexuais nos últimos 10 anos e esse valor foi significativamente mais elevado do que para aqueles com HCV negativo (média de 2 parceiros +/-2,5 DP) (p=0,01).
CONCUSÃO: a soroprevalência de HCV em uma população voluntária de adultos de Criciúma, SC, foi elevada, havendo associação entre a presença de HCV e maior número de parceiros sexuais.

Descritores: hepatite C; prevalência; fatores de risco; parceiros sexuais


 

 

INTRODUÇÃO

A infecção pelo vírus da hepatite C (HCV) representa atualmente um dos mais relevantes problemas de saúde pública, devido a características como o longo período de infecção assintomática, fazendo com que o indivíduo não tome conhecimento da doença e, assim, não procure atenção especializada. Além disso, sua capacidade de se tornar crônica em até 85% dos infectados, aumenta o risco de desenvolvimento de complicações graves, como cirrose hepática e câncer de fígado.

A prevalência global de hepatite C é de 3%(1) e nas Américas é de 1,7%(2). No Brasil a prevalência é de 1% a 2%, sendo estimado um índice de 0,65% para a região Sul do país(3).

Por ser um vírus transmitido preponderantemente por contato com sangue contaminado, os indivíduos com maiores riscos são representados pelos usuários de drogas ilícitas endovenosas (EV), hemofílicos, indivíduos infectados pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), pacientes em hemodiálise, população encarcerada, assim como os que sofreram transfusão sanguínea antes de 1992(3). Outras formas parenterais de contaminação são os procedimentos médicos, odontológicos, de acupunturista ou de tatuagem, relacionados sobretudo com material cortante ou perfurante que pode ser veículo transmissor do vírus de uma pessoa para outra. Dentre as formas não-parenterais de transmissão da hepatite C torna-se importante ressaltar a possibilidade da transmissão sexual(4). Há indicação de que o risco para casais monogâmicos heterossexuais, onde um dos cônjuges apresenta infecção pelo HCV, varia de zero a 27%; no entanto a maioria dos trabalhos mostra que as chances de transmissão são baixas ou quase nulas, oscilando entre 0% e 3%(5). A transmissão intradomiciliar é fortemente considerada e mencionada como fator de confusão quando se relaciona transmissão entre casais, pois se deve considerar que o compartilhamento de utensílios de higiene pessoal como lâmina de barbear, escova de dente, alicates de manicure e cortadores de unhas atuam como fator de risco importante para a transmissão do HCV dentro do domicílio(5).

A respeito do conhecimento sobre prevalência e fatores de risco para Hepatite C, são necessários mais estudos, pois persiste ainda um considerável grau de desconhecimento acerca desse tema na população em geral. No sul do Brasil são poucos os estudos populacionais demonstrando a prevalência de Hepatite C, especialmente tentando relacionar à possível forma de transmissão do vírus. A maioria dos estudos identifica a freqüência da presença do vírus da hepatite C em indivíduos doadores de sangue, portanto nem sempre são representativos da população em geral.

Justifica-se realizar um estudo de base populacional em Criciúma, que é uma cidade de aproximadamente 180.000 habitantes, localizada ao sul de Santa Catarina (SC), colonizada por italianos, alemães, poloneses, portugueses e africanos e que constitui importante pólo da região. Assim, o objetivo desse estudo foi detectar a presença do HCV em uma amostra da população adulta de Criciúma, participantes de em uma campanha de saúde sobre Hepatite C.

 

METODOLOGIA

Foi estimada uma amostra de 300 pessoas adultas participantes de uma campanha de saúde realizada na praça do centro da cidade de Criciúma durante o dia 25 de Julho de 2005, onde profissionais de saúde (enfermeiro, técnico de enfermagem ou estudante de medicina) prestavam orientações a respeito da infecção por hepatite C. A campanha se estendeu por mais uma semana com divulgação através dos principais meios de comunicação locais (radio e TV) tentando sensibilizar a população, independentemente de uma condição médica, a ir aos postos de saúde para coleta de sangue, para investigação de hepatite C e possível fatores de transmissão.

Antes da coleta de sangue os participantes preencheram o termo de consentimento livre e esclarecido. Posteriormente, responderam a um questionário com questões que aferiam o motivo de interesse em participar da campanha, a idade, o sexo, o estado civil, uso de drogas injetáveis ilícitas, o número de parceiros sexuais nos últimos 10 anos, histórico de transfusão sanguínea, se usa/usou tatuagens ou piercings e se possuía familiares com história de hepatite.

Material

Foram coletados 10 ml de sangue em tubos secos estéreis sem anticoagulantes, por punção venosa periférica dos indivíduos que voluntariamente se apresentaram para o teste sorológico para detecção do anticorpo contra vírus da hepatite C (anti-HCV). O sangue coletado foi guardado em recipiente de isopor, mantido a 4°C até ser enviado para processamento no laboratório Regional de Criciúma. No laboratório foi centrifugado (3500 rpm, 5 min, 25°C) e o sobrenadante utilizado para detecção do anti HCV, sendo a porção celular reservada à -20ºC para detecção do ácido ribonucléico (RNA) viral em etapa posterior.

Detecção do anti-HCV

A detecção do anti-HCV foi realizada por Kit ELISA (Hepanostika HCV Ultra, fabricado por Beijing United Biomedical Co. Ltd, China). A metodologia seguiu as informações contidas no manual do fabricante.

As amostras inicialmente reativas foram testadas em duplicata. As amostras que não reagiam em nenhum dos testes eram consideradas não-reativas para anticorpos contra o HCV. As amostras reativas em um ou nos dois testes eram consideradas positivas para anticorpos contra HCV e, nesse caso, eram realizadas pesquisas de RNA viral para confirmação da detecção do vírus, através do método de reação em cadeia polimerase (PCR).

Detecção do RNA viral por PCR

Foi utilizado o teste Amplicor Hepatite C virus, versão 2.0 (ROCHE), o qual é um teste qualitativo de diagnóstico "in vitro", para a detecção de RNA do vírus da hepatite C. O processamento do material seguiu-se de acordo com o manual técnico que resumidamente consiste em cinco processos principais: preparação da amostra, transcrição reversa do RNA alvo para produzir o ácido desoxirribonucleico complementar (cDNA), amplificação e sequenciamento de 269 nucleotídeos da região S´ não codificadora do HCV, hibridização dos produtos amplificados com sondas oligonucleotidicas do(s) alvo(s) e detecção dos produtos amplificados e ligados à sonda por determinação colorimétrica.

Naquelas amostras com PCR positivo, para fins de acompanhamento terapêutico, foi realizada genotipagem do HCV.

Análise estatística

Para análise da freqüência de associação das variáveis foram realizados os testes Exato de Fischer e Mann-Whitney, assim como o Teste Kappa para verificar o coeficiente de correlação entre variáveis. O nível de significância foi considerado para valores de p<0,05.

Aspectos éticos

Os resultados de sorologia e dados do questionário dos participantes foram armazenados em um banco de dados apenas com um número de identificação, com objetivo de manter o anonimato dos indivíduos, garantindo sigilo das informações.

O projeto desse estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UNESC (processo nº 294).

 

RESULTADOS

Um total de 457 indivíduos participou de forma espontânea e realizou a pesquisa do anti-HCV, destes 312 responderam ao questionário aplicado, sendo esse considerado um número de amostra representativo da população. As características gerais dos sujeitos que responderam ao questionário estão apresentadas na Tabela 1.

 

 

A detecção de anti-HCV foi positiva em 10 dos 457 participantes. Entre os 10 soropositivos para hepatite C, sete tiveram confirmação por PCR. Como a detecção do vírus é mais sensível e específica através do método de PCR, considerou-se a prevalência de hepatite C nessa população como sendo 1,53%, apesar da soroprevalência de 2,2%. Todos os participantes com anti-HCV e PCR positivos haviam respondido ao questionário.

A freqüência das respostas afirmativas às questões sobre fatores de risco entre os 312 participantes que responderam ao questionário estão mostradas na Tabela 2.

Foram também verificadas as características individuais dos sujeitos com HCV positivo, as quais são demonstradas na Tabela 3. A idade média desses indivíduos foi de 52,6 anos.

Em virtude de ter sido constatada diferença significativa (p< 0,01) na freqüência da resposta "teve mais que 8 parceiros sexuais nos últimos 10 anos" entre os indivíduos com HCV positivo e HCV negativo, foi realizada análise estatística comparando o número de parceiros sexuais entre esses grupos. Para efeito de cálculo, foi considerado o número 9 quando a resposta foi "mais de 8 parceiros nos últimos 10 anos", uma vez que os participantes não tinham outra opção de resposta numérica para a questão relativa. Assim, foi obtida novamente diferença estatisticamente significativa (p= 0,010; teste Mann-Whitney) no número de parceiros sexuais entre indivíduos com HCV positivo (média de 5,7 ± 4,1 parceiros) e HCV negativo (média de 2 ± 2,5), como mostra a figura 1. Além disso, foi verificada correlação entre o número de parceiros sexuais e a presença de HCV (k = 0,193; p < 0,001; teste Kappa)

 

 

DISCUSSÃO

Embora a soroprevalência de anti-HCV tenha sido 2,2%, a prevalência de HCV confirmada por PCR foi de 1,53% em adultos de Criciúma participantes da campanha de saúde sobre hepatite C. Este resultado é compatível com o índice Nacional que é de 1-2%, mas acima da estimada para a região sul, que é de 0,65%, segundo o estudo realizado em doadores de sangue pela Sociedade Brasileira de Hepatologia(3). Nosso estudo foi de base populacional urbana, não direcionado para grupos de risco. No entanto, muitos dos participantes tinham interesse em saber seu estado sorológico possivelmente por considerar-se com risco de ter adquirido o vírus, haja vista a elevada freqüência da resposta "dúvida" entre os indivíduos com HCV positivo, quando a questão era "qual a razão de você estar participando dessa campanha?". Desse modo, pode ter havido uma seleção involuntária desses indivíduos. Isso pode ser uma explicação parcial para a prevalência mais elevada nessa população comparada a da região sul, observada no estudo referido anteriormente. Por outro lado, uma pesquisa realizada no estado de Santa Catarina com doadores de sangue, revelou que a positividade para anti-HCV era de 0,31% a 0,38% entre os anos de 1999 e 2001, sendo que em Criciúma os resultados foram 0,58%, 0,39% e 0,40% nos anos 1999, 2000 e 2001, respectivamente(6). Indivíduos doadores de sangue supõe-se que sejam saudáveis e provavelmente não adotam práticas de risco como o uso de drogas endovenosas ilícitas ou mesmo ter muitos parceiros sexuais, por isso pode se esperar uma menor prevalência de HCV positivo em tal população.

No presente estudo houve correlação entre transmissão do HVC e o relato de muitos parceiros sexuais nos últimos 10 anos. Como especulado anteriormente, se os indivíduos se consideravam de risco, esse provavelmente era o número de parceiros. Entre os 7 indivíduos com HCV positivo, 4 declararam terem tido muitos parceiros sexuais.

Grande parte dos voluntários portadores do vírus participou do estudo justamente pela dúvida de contágio. Este viés pôde influenciar os resultados, porém é difícil de ser excluído num estudo deste tipo. Independente disso, a correlação entre HCV positivo e número de parceiros sexuais merece destaque como um indício de que a transmissão sexual foi a via de infecção pelo HCV nesse grupo. A transmissão por via sexual não é apontada como um fator preponderante de contágio(7), porém alguns estudos indicam o número grande de parceiros sexuais como fator de risco(8) e em alguns casos associado a homens que fazem sexo com homens(9). Os sujeitos que tiveram HCV positivo não revelaram ser homens que fazem sexo com homens. Essa é uma informação que pode gerar desconforto e constrangimento para responder, tendendo a ser omitida ou negada por parte do entrevistado. Com efeito, nenhum dos 312 participantes respondeu afirmativamente este quesito. Concomitantemente, quatro entre os 7 indivíduos com HCV eram casados e entre aqueles, dois revelaram ter muitos parceiros sexuais nos últimos anos e nenhum revelou contato domiciliar com hepatite. Entre casais monogâmicos heterossexuais onde um dos cônjuges apresenta a infecção pelo HCV, a maioria dos trabalhos afirma que as chances de transmissão são baixas, sendo que o risco referido varia de zero a 27%. Esse índice leva em consideração fatores que possam estar relacionados à transmissão como o compartilhamento entre casais de utensílios de higiene pessoal(5). Embora tal consideração seja mais pertinente a casais monogâmicos, não deve ser excluída para indivíduos com múltiplos parceiros.

O estudo não apresentou associação entre positividade para hepatite C e uso de drogas ilícitas endovenosas, apesar de este ser um fator de risco bem determinado na literatura(4,7). Semelhante à resposta sobre homens que fazem sexo com homens, é incomum haver espontaneidade em responder à pergunta sobre o uso de drogas ilícitas. Assim, 4,5% da população total e apenas um entre os 7 sujeitos com HCV positivo responderam afirmativamente à questão. Entretanto, Santa Catarina é um dos estados com maior número de usuários de drogas endovenosas ilícitas e vírus da imunodeficiência humana (HIV), sendo um terço dos infectados por este meio(10).

O uso de tatuagens ou de piercing não apresentou associação com presença de HCV nesse estudo, assim como transfusão de sangue. No entanto, dados de literatura apontam que esses são fatores que podem estar associados à hepatite C, especialmente transfusões de sangue realizadas até o início dos anos 90(4). Nenhum dos sujeitos com HCV referiu uso de tatuagem e/ou de piercing e apenas um deles realizou transfusão sanguínea, sendo essa a possível forma de transmissão do vírus, haja vista a ausência de outros fatores de risco nesse indivíduo.

 

CONCLUSÃO

A prevalência de Hepatite C em Criciúma-SC foi elevada (1,53%) em relação ao Sul do Brasil, sendo a presença do HVC associada ao relato de um maior número de parceiros sexuais. Embora esses resultados possam estar relacionados à condição do estudo, chama atenção a relação entre ter muitos parceiros e a presença de HCV detectável, uma condição que pode ser prevenida com medidas simples como uso de preservativo.

 

REFERÊNCIAS

1. Wong T, Lee SS. Hepatitis C: a review for primary care physicians. CMAJ. February 2006; 174(5): 649-59.         [ Links ]

2. World Health Organization. Hepatitis C - global prevalence (update). Wkly Epidemiol Rec 1999; 74:425-7.         [ Links ]

3. Ferreira CT, Silveira TR. Viral Hepatitis: epidemiological and preventive aspects. Rev Bras de Epidemiol 2004; 7(4):473-87.         [ Links ]

4. Strauss E. Hepatite C. Rev Soc Bras Med Trop 2001; 34(1):69-82.         [ Links ]

5. Cavalheiro NP. Sexual transmission of Hepatitis C. Rev Inst Med Trop São Paulo 2007; 49: 271-7.         [ Links ]

6. Rosini N, Mousse D, Spada C, Treitinger A. Seroprevalence of HbsAg, anti-HBc and Anti-HCV in Southern Brazil, 1999-2001. Braz J Infect Dis 2003; 7(4):262-7.         [ Links ]

7. NIH Expert Panel. NIH Concensus Statement on Management of of Hepatitis C: 2002. NIH Concens Stat Sci Statements 2002;I9:I-46.         [ Links ]

8. Mesquita PE, Granato CF, Castelo A. Risk factors associated with hepatitis C vírus (HCV) infection among prostitutes and their clients in the city of Santos, São Paulo State, Brazil. J Med Virology 1997; 51(4):338-43.         [ Links ]

9. Gambotti L, Batisse D, Colin-de-Verdiere N, Delaroque-Astagneau, Desenclos JC, Dominguez S, et al. Acute hepatitis C infection in HIV positive men who have sex with men in Paris, France, 2001-2004. Euro Surveill. 2005; 10(5):115-7.         [ Links ]

10. Brazilian Ministry of Health - Brazilian National STD and AIDS Programme. Populações: Usuários de drogas (de um modo geral) e usuários de drogas injetáveis. Available from: URL: http://www.aids.gov.br/final/prevencao/udi.htm.         [ Links ]

 

 

Recebido em: 6.6.2007
Aprovado em: 1.5.2008

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