SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.16 special issueMeanings regarding the use of alcohol in families of a venezuelan poor communityPerceptions of adolescents students on the consumption of drugs: a case study in Lima, Peru author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Latino-Americana de Enfermagem

On-line version ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.16 no.spe Ribeirão Preto July/Aug. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692008000700007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Álcool, alcoolismo e alcoolista: concepções e atitudes de enfermeiros de unidades básicas distritais de saúde1

 

 

Divane de VargasI; Margarita Antônia Villar LuisII

IProfessor Doutor da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, e-mail: vargas@usp.br
IIProfessor Titular da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, Centro Colaborador da OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, Brasil, e-mail: margarit@eerp.usp.br

 

 


RESUMO

Esse estudo qualitativo tem por objetivo conhecer as concepções e as tendências de atitudes de enfermeiros de Unidades de Atenção Básica Distritais de Saúde (UDBS) frente ao álcool, ao alcoolismo e ao alcoolista. Participaram dez enfermeiros de três UBDS de um município paulista. Os dados foram coletados por meio de registro auto-gravado e submetidos à análise temática de conteúdo. Os temas que emergiram evidenciaram que os enfermeiros são permissivos ao uso moderado do álcool, no entanto rejeitam o alcoolismo, concebendo-o como uma doença que pode ser fatal e tendem a associá-lo à vontade da pessoa, revelando a influência do conceito moral em suas concepções e atitudes. Também, evidenciou-se o conhecimento dos enfermeiros participantes sobre o álcool e alcoolismo. Com base nos resultados, recomenda-se a capacitação desse grupo no sentido de prepará-los para o atendimento, o reconhecimento e a prevenção de transtornos relacionados ao uso/abuso do álcool nesses centros de saúde.

Descritores: centros de saúde; enfermeiros; alcoolismo; atitude


 

 

INTRODUÇÃO

Apesar de amplamente aceito, e até estimulado socialmente, o consumo de álcool, quando excessivo torna-se um problema importante e acarreta altos custos para a sociedade. As intercorrências causadas pelo álcool extrapolam as amplamente divulgadas na literatura, caracterizando-o como um problema que acarreta graves conseqüências sociais e colocando-o entre os principais problemas de saúde pública da atualidade.

Dados do II Levantamento Domiciliar sobre o uso de drogas psicotrópicas no Brasil(1), realizado nas 108 maiores cidades do país apontam que 12,3% das pessoas, com idades entre 12 e 65 anos, são dependentes de álcool e que 74,6% já beberam alguma vez na vida.

Ao considerar que as pessoas dependentes de álcool apresentam uma série de episódios relacionados ao abuso antes de serem diagnosticados como alcoolistas e encaminhados para tratamento específico, e considerando ainda a organização do sistema de saúde brasileiro que têm em suas diretrizes estabelecidas que a porta de entrada para os serviços de saúde são as unidades de atenção primária, é possível inferir que muitos indivíduos com padrão de consumo abusivo são atendidos nesses serviços, muitas vezes, em decorrência das complicações precoces do alcoolismo tais como, traumas, embriagues e violência familiar.

A esse respeito, estudos(2-3) revelam que uma parcela significativa (10 a 40%) da população que procura atendimento anualmente nos serviços de atenção primária a saúde, apresenta problemas relacionados ao uso e abuso de bebidas alcoólicas, o que pressupõe que o enfermeiro de atenção primária mantém contato freqüente com essa clientela.

No entanto, as pesquisas no Brasil sobre à assistência de enfermagem a indivíduos com problemas referentes as substâncias psicoativas são escassas e realizadas em unidades hospitalares(4-5), em especial aquelas relacionadas as concepções e atitudes dos profissionais frente aos indivíduos.

Atitude segundo referencial encontrado nos Descritores em Ciências da Saúde traduzido do Medical Subject Headings (MeSH) e apresentado pelo Literatura Latino Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), por meio do Índex Latino-Americano: seria uma predisposição adquirida e duradoura para agir sempre do mesmo modo diante de uma determinada classe de objetos, ou um persistente estado mental e/ou neural de prontidão para reagir diante de uma determinada classe de objetos não como eles são, mas sim como são concebidos.

Assim, ao considerar a demanda de indivíduos com problemas relacionados ao álcool que são atendidos em unidades de atenção primária a saúde e a escassez de estudos da enfermagem brasileira sobre o tema, julgou-se oportuno realizar um estudo para conhecer as concepções e as tendências de atitudes de enfermeiros de Unidades Básicas Distritais de Saúde (UBDS) frente ao álcool, ao alcoolismo e ao alcoolista.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo qualitativo que teve como objetivo conhecer as concepções e as tendências de atitudes de enfermeiros de UBDS frente ao álcool, ao alcoolismo e ao alcoolista. O cenário do estudo foram as três Unidades Básicas Distritais de Saúde (UBDS) do município de Ribeirão Preto-SP, a escolha por estas unidades, justificou-se pelo fato de se tratarem de unidades de referência secundária com maior capacidade técnica e de atendimento especializado a indivíduos com complicações crônicas e ou agudas, por contarem com um maior número de enfermeiros em seu quadro de trabalhadores e por oferecem atendimento a população 24 horas ininterruptas.

Participaram do estudo dez enfermeiros, esses sujeitos foram selecionados intencionalmente de acordo com o turno de trabalho, tomando-se o cuidado de entrevistar um enfermeiro de cada turno (manhã, tarde e noite) de cada instituição. Uma vez que o sujeito consentiu em colaborar com a pesquisa, foi solicitado que assinasse o Termo de Consentimento Informado. Para preservar a identificação dos entrevistados, optou-se por referenciar os participantes no corpo do trabalho pelo número das entrevistas.

O estudo foi desenvolvido no período compreendido entre maio a julho de 2004, a coleta dos dados foi feita por meio de entrevistas não diretivas e semi estruturadas, contendo três questões norteadoras a saber: "1-Qual sua opinião sobre as bebidas alcoólicas? 2- O que você pensa sobre a pessoa que consome bebidas alcoólicas? 3- Como é o lidar no trabalho com pacientes alcoolistas?"A análise de dados teve como referencial teórico a Análise de Conteúdo(6) e utilizou-se da "análise temática"(6) como técnica para tratamento do material. As entrevistas foram gravadas, transcritas posteriormente e lidas exaustivamente. Dessa forma, foram extraídos de cada depoimento os temas emergentes do discurso dos entrevistados os quais foram agrupados em categorias temáticas compatíveis com referencial teórico referente ao estudo das atitudes. Posteriormente, cada temática foi analisada, procurando apreender das falas o modo como o entrevistado concebe a problemática do álcool e do alcoolismo.

 

RESULTADOS

Dos dez sujeitos da pesquisa somente um era do sexo masculino, a faixa etária mais freqüente foi de 41 a 50 anos. O tempo de formação dos participantes era de 16 a 20 anos, sendo que quatro enfermeiros eram mestres e nove tinham especialização na área de conhecimento da enfermagem.

Da análise dos dados das entrevistas emergiram três temas para apresentação: a) concepções e tendências de atitudes dos enfermeiros diante do álcool e do beber, b) concepções e tendências de atitudes dos enfermeiros diante do alcoolista, c) concepções e tendências de atitudes dos enfermeiros diante do alcoolismo,sobre as quais discorrer-se-á na seqüência.

Concepções e tendências de atitudes dos enfermeiros diante do álcool e do beber

Quando expressam suas concepções pessoais frente à bebida alcoólica, a análise das falas revelou que os enfermeiros apresentam concepções ambivalentes, pois, concebem a substância como algo negativo, no entanto uma parcela significativa desses profissionais atribui a ela algumas propriedades benéficas.

Ao manifestarem concepções negativas frente ao uso do álcool as que mais aparecem são do álcool como uma substância tóxica, capaz de modificar o comportamento e a personalidade do indivíduo que a consome ... Substância que tem poder tóxico que altera o comportamento do indivíduo (E.3). Viciando, alterando o seu psiquismo, tirando-o da normalidade. ... Pra mim a bebida alcoólica é uma substância que vai alterar teu estado emocional, tua parte psicológica, vai te tirar do seu raciocínio normal (E.4).

Mostrando-se contrários às bebidas alcoólicas os enfermeiros apontam a necessidade de fiscalização na comercialização das bebidas, pois segundo eles, a atual legislação não é cumprida e contribui para o uso e conseqüentemente para a dependência. ... Eu acho que a bebida alcoólica em si deveria ter um rigor maior pra comercializar porque do jeito que funciona, no fim você vê que as pessoas acabam assim viciando e tendo vários problemas (E.2). ... Eu acho que as bebidas alcoólicas aqui no Brasil, elas são muito, liberadas né, principalmente para os adolescentes, apesar da lei a gente vê que isso não é respeitado (E.8)

A análise das falas dos sujeitos permitiu evidenciar ainda, que aqueles indivíduos que não fazem uso de bebidas alcoólicas apresentaram concepções mais negativas frente às mesmas, e tendem a considerar o álcool prejudicial em qualquer situação. ... Eu não bebo, acho que o álcool independente da quantidade é prejudicial (E.1). ... Eu detesto álcool, acho que faz muito mal a saúde (E.2).Eu acredito que bebida alcoólica não é boa em qualquer situação.. Eu não bebo (E.8)

Alguns sujeitos expressam concepções positivas sobre as bebidas alcoólicas, quando usadas moderadamente, enfatizando seu lado benéfico para o organismo, servindo como relaxante, ansiolítico, ou como fonte de prazer ... Eu acho que ela é até boa da uma relaxada eu acho que com moderação ela tem até um efeito benéfico, pro organismo da gente(E.4) ... Eu penso que as bebidas alcoólicas são o ansiolítico mais antigo que a gente conhece (E.7) ... O álcool foi feito pra nos dar certo prazer (E.9) As falas evidenciam ainda, que os enfermeiros que fazem uso do álcool tendem a ter atitudes mais positivas frente ao álcool e ao beber do que aqueles que não fazem uso do álcool conforme visto anteriormente ... Eu não tenho nada contra quem bebe, eu também bebo socialmente (E.7).

No entanto, isso parece não ser extensivo àqueles que bebem de maneira abusiva, prevalecendo as concepções negativas, pois quando se trata do beber pesado ou o beber fora de controle, os enfermeiros argumentam que " tem que saber beber", sendo assim a falta de " autocontrole" parece não ter a mesma aceitação. ... Tem que saber beber existe pessoas que bebem e tem controle, sabem se comportar e sabe o momento que tem que parar e aquelas que não tem o controle que bebem e não sabem a hora de parar, e afeta no modo de vida (E.3) ... Eu acho que a bebida alcoólica ela pode ser consumida, desde que seja consumida de uma maneira que não faça mal a saúde e moderadamente, desde que a pessoa saiba beber (E.5). ... Acho que pode beber sim, desde que não seja uma pessoa alcoólatra, que seja uma pessoa moderada, que saiba quando parar de beber (E.7). ... A bebida alcoólica até é uma coisa legal, o problema é quando a pessoa passa do limite então é a falta do auto controle (E.10)

No que se refere ao álcool e ao seu uso, os resultados foram similares: enfermeiros não usuários de álcool tenderam a apresentar concepções mais negativas frente ao beber, do que os usuários. Dentre aqueles sujeitos que se mostram favoráveis e também bebem, parece existir uma concepção ambivalente, pois, se de um lado atribuem propriedades benéficas ao álcool, também acreditam que é necessário "saber beber", o que pode conotar concepções e conseqüentemente atitudes negativas diante da falta de controle sobre a ingestão alcoólica. Ou seja, mesmo aqueles indivíduos favoráveis ao uso do álcool, parecem rejeitar o abuso do mesmo.

Concepções e tendências de atitudes dos enfermeiros frente ao alcoolismo

No que diz respeito ao alcoolismo, os dados permitiram evidenciar que a concepção dominante entre os enfermeiros é a doença, ... Eu considero o alcoolismo uma doença mesmo (E.3) ... É uma doença, eu encaro isso como uma doença (E.5). ... A gente considera como uma doença né (E.6). ... Hoje se sabe que acaba sendo uma doença (E.9). ... O alcoolismo é uma doença (E10). Assume também um caráter de doença grave e fatal, que se não tratada leva a pessoa à morte, conforme se pode evidenciar nas falas que seguem. ... Eu vejo o alcoolismo como uma doença muito séria, se a pessoa não se trata, essa doença pode matar em muito pouco tempo (E.7).

Ainda na concepção de um dos sujeitos, parece existir a concepção de que o alcoolismo é uma doença associada a desordem, " a bagunça" e a curtição e que sem que o indivíduo perceba acaba desenvolvendo a doença do alcoolismo. ... Então um desses pacientes que chega aqui alcoolizado, que ta bebendo na bagunça pode desenvolver mesmo a doença, o alcoolismo (E.8)

Diante desses resultados pode-se dizer que o alcoolismo é concebido pelos enfermeiros desse estudo como uma doença progressiva que se não tratada pode ser fatal, além disso, aparece ainda a associação entre o alcoolismo e "bagunça", levando a inferir que se trata de uma doença que se desenvolve "na desordem".

Concepções e tendências de atitudes dos enfermeiros diante do alcoolista

O alcoolista é concebido como uma pessoa que sente necessidade de fazer uso da bebida alcoólica diariamente. Além disso, para esses enfermeiros o alcoolista é uma pessoa que não consegue ficar longo período sem o álcool. Ao apresentarem essa concepção parecem fazer alusão à dependência do álcool, ou seja, concebem o alcoolista como um dependente. ... As pessoas que consomem álcool são dependentes, elas precisam do álcool, sentem necessidade e acabam ficando dependentes (E.3). ... É a pessoa que realmente ela não fica sem utilizar o álcool, bebe diariamente, ela não fica longos períodos, sem o álcool,é um dependente do álcool (E.10)

Apesar de vislumbrarem a possibilidade de o alcoolista ser um dependente do álcool, um sujeito associa o alcoolismo à compulsão, sendo essa última concebida como uma característica inerente ao alcoolista, pois essa compulsão para beber é comparada a outros comportamentos compulsivos, como o comer compulsivamente, conforme revela a fala do Entrevistado (2). ... É igual aquela pessoa que não quer parar de comer né, quer emagrecer, mas não quer parar de comer, aquela impulsividade, eu acredito que o alcoolismo seja a mesma coisa (E.2)

Mesmo o alcoolismo sendo concebido como uma doença pela maioria dos sujeitos, como evidenciado anteriormente, dois entrevistados revelam em suas falas que nem sempre o indivíduo é visto como tal, e ao alcoolista são atribuídos predicados que não remetem ao conceito de doente e sim do estigma que ainda recai sobre os portadores dessa doença. ... Geralmente se pensa que o alcoólatra é um vagabundo, irresponsável, dá todos esses predicados pro alcoólatra e você não pensa que ele é doente (E.8). ... Engraçado é uma doença, mas, não é visto como uma doença parece que é visto como safadeza falta de vergonha (E.10).

Ainda no que se refere às concepções referentes ao alcoolista parece existir descrédito e pouca esperança dos enfermeiros na recuperação desse indivíduo, pois acreditam que mesmo após ser atendido e desintoxicado na unidade de saúde, a primeira ação do alcoolista será procurar pelo bar para embriagar-se novamente. ... Às vezes ele chega totalmente desorientado e ele sai fisicamente bem, a gente sabe que isso é só momentâneo, daqui a pouco ela vai de novo beber outra bebida (E.3). ... Tenho certeza que a primeira coisa que faz depois que melhora, é ir do outro lado da rua e entrar no bar e beber mais um pouco (E.6). ... Vem buscar um atendimento, faz uma glicose faz as medicações ele sai de alta volta pro bar pra beber (E.10).

O alcoolista é um indivíduo que apresenta problemas repetitivos, e devido à repetição na procura de atendimento é caracterizado como um caso crônico, e algumas vezes, como um caso perdido. ... Porque ela sente a necessidade e ela bebe e volta na unidade pra outro atendimento (E.3). ... Primeira coisa a atender um alcoólatra assim que você vê que é repetitivo (E.4). ... Assim esses casos mais crônicos, que agente vê é um caso assim meio que perdido que não tem jeito (E.5). ... E são aqueles pacientes que estão sempre vindo são sempre os mesmos entendeu? (E.7)

Quando se manifestam sobre a pessoa do alcoolista parece existir uma concepção dominante de que o que falta nesse indivíduo é vontade para, interromper o consumo, acreditando que a pessoa pode ter o domínio sobre a ingestão do álcool, e que "se ela quiser" tem condições de largar o "vício" ... Eu acho que a pessoa tem condições de sair do vício, é só uma questão mesmo de vontade, de a pessoa querer entendeu? (E.4). ... Eu acho que todo o tratamento pro alcoolista é válido, mas tem muito a ver com a vontade também, a gente sabe disso (E.6) ... Então eu acho que nesses casos existem pessoas que bebem muito, mas que têm condições de estar parando, às vezes falta vontade (E.9). Também aparece a influência de situações vividas em família ou no convívio social, levando esse enfermeiro a comparações como vivências pessoais conseqüentemente, à crença de que todo o alcoolista é capaz de parar de beber sem nenhum tipo de ajuda, valendo-se para isso unicamente de sua própria vontade. ... 'Porque eu conheço muitas pessoas que bebiam e que quando resolveram parar, deixar de bebe conseguiram e muito bem, sem ajuda médica, sem ajuda de internação, sem ajuda de medicação. Por pura vontade, mesmo da pessoa. Então porque parou? Como conseguiu?É questão de vontade de querer mesmo (E.8).

Um participante do estudo, no entanto, parece conceber a possibilidade de não ser "à vontade" o único fator determinante do alcoolismo, pois há "outros tipos", são casos específicos, o que pressupõe que sobre a maioria dos alcoolistas ainda parece recair o conceito anterior: a vontade de parar, ou seja, bebe porque quer. ... Agora a gente se depara com outros tipos de paciente que têm alguma outra coisa além da vontade só (E.10).

Esses resultados permitem inferir que a concepção de alcoolista entre os enfermeiros desse estudo é de uma pessoa que tem necessidade do álcool e por isso bebe diariamente. Conceituar o alcoolista como quem não consegue ficar sem o álcool, parece pressupor a instalação da dependência. A análise dos dados mostra também que parece existir influência de concepções determinadas socialmente frente ao alcoolista, dentre elas de que se tratam de indivíduos que bebem por que querem e por falta de vontade de largar a bebida. Concebem ainda o alcoolista como um paciente repetitivo e com baixa probabilidade de recuperação constituindo-se num caso perdido.

 

DISCUSSÃO

Os participantes do estudo demonstraram maior aceitação em relação ao beber do que o encontrado em estudos semelhantes. Ao analisar as atitudes e concepções de enfermeiros hospital geral, alguns autores(5,7), evidenciaram que os profissionais apresentavam atitudes negativas frente ao beber moderado e consideravam o álcool nocivo independente da quantidade ingerida.

A análise das entrevistas possibilitou verificar ainda, que os enfermeiros usuários de álcool, parecem ser mais permissivos quanto ao beber, em contrapartida para aqueles enfermeiros que se dizem abstêmios houve rejeição em aceitar o beber independente da quantidade ingerida. Essa atitude já era esperada, pois existe uma tendência de os profissionais tomarem o seu próprio consumo de álcool como referência de ingestão normal, ou a rejeição do paciente que não "sabe parar de beber"(2,8-9).

Cabe ressaltar como aspecto positivo em relação a estudos anteriores(4,5), o fato de os enfermeiros revelarem seu próprio consumo de bebidas. Em estudo semelhante(7), encontrou-se que os enfermeiros apresentaram resistências em divulgar seu próprio uso de álcool, atitude que pode estar relacionada ao fato desses profissionais sentirem-se pouco confortáveis em assumir que sendo profissionais de saúde também fazem uso de bebidas alcoólicas(7). Tal posição, leva inferir que talvez o consumo de álcool seja visto como algo vergonhoso e imoral por esse grupo profissional.

A revelação do consumo de álcool parece indicar concepções mais permissivas e menos moralistas frente ao uso de bebidas alcoólicas, o que parece ser positivo, na medida que essas visões influenciem na aceitação da pessoa que abusa do mesmo, sempre que não "descambe" para a permissividade total. Por outro lado, apesar de revelarem seu próprio uso de bebidas alcoólicas e apresentarem concepções positivas frente ao beber moderado, os sujeitos do estudo mostram-se contra o beber em excesso ou fora de controle, tendência que tem sido bem relatada tanto nos estudos nacionais(5,9) quanto internacionais(2,10).

O fato de os enfermeiros mostrarem-se permissivos em relação ao beber moderado e no entanto contrários à ingestão excessiva de álcool e ao alcoolismo, parece encontrar respaldo na própria sociedade que incentiva e aceita o beber, mas rejeita o beber excessivo(11). Sendo esse termo controverso, pois a sociedade pode estabelecer o seu padrão com base no padrão pessoal de seus cidadãos, que parece estar mais sujeito à tolerância social.

Na concepção desses enfermeiros o álcool é concebido como algo prazeroso que tem propriedades ansioliticas, mas que se usado de forma inadequada "vicia" ocasionando problemas à saúde do indivíduo, o beber moderado é aceito, no entanto tendem a rejeitar o consumo abusivo, acreditando que deveria haver maior controle sobre a venda do álcool no país.

No que se refere ao alcoolismo ele é concebido por esses enfermeiros como uma doença, esse resultado convergente com os dados da literatura que tem evidenciado essa concepção por parte dos enfermeiros(4-5,7,9). A esse respeito Vargas(12) afirma que vários grupos de profissionais reconhecem o alcoolismo como doença, sendo mais fácil, no entanto aceitar isso intelectualmente do que emocionalmente. De acordo com a literatura(4-5,9) há um consenso entre os profissionais sobre o fato de o alcoolismo caracterizar-se enquanto uma doença, porém, quando se trata de assistir essa clientela, aparecem sentimentos de desconforto e embaraço, sendo o consumo de álcool visto como "moralmente" errado.

O alcoolista é concebido por esses enfermeiros como uma pessoa que necessita do álcool diariamente, fazendo alusão assim, ao conceito de dependência do álcool. Ao apresentarem essa concepção, parecem demonstrar certa compreensão de que o alcoolista é uma pessoa dependente que adoece e necessita da substancia para viver.

Compreender o usuário, com problema como aquele bebe diariamente, parece demonstrar pouco conhecimento dos sujeitos com relação aos estágios de evolução da dependência e do próprio alcoolismo. Pois, segundo o DMS IV(13) a doença alcoólica não implica forçosamente no consumo cotidiano e permanente de quantidades excessivas, pois, certas formas de alcoolização paroxísticas, mesmo muito espaçadas no decorrer do tempo, podem levar a conseqüências somático-psíquicas e sociais graves. Assim toda a utilização patológica do álcool, independente da freqüência, merece ser considerada como uma conduta alcoólica.

Apesar da evidência de mudanças na forma dos enfermeiros perceberem os alcoolistas nas últimas décadas(9,14) os dados deste estudo permitem afirmar que nem sempre lhes são atribuídos o status de doente, e nas falas dos profissionais nota-se que mesmo sendo um doente, nem sempre é visto como tal, permanecendo rótulos como "safadeza e falta de vergonha".

Por décadas, o trabalhador de enfermagem não considerou o paciente alcoolista como um doente, a visão que se tinha desse paciente era de um indivíduo "aproveitador e sem caráter" que quando chegava à emergência alcoolizado tinha consciência de seus atos(15). Estudos(15-16) evidenciaram o alcoolista como não sendo um paciente a ser tratado, que atrapalha a dinâmica de funcionamento do serviço. Esses registros da literatura científica demonstram o peso do caráter moral que recai sobre a pessoa do alcoolista.

Uma outra concepção que aparece nas falas dos sujeitos do presente estudo refere-se ao alcoolista como um indivíduo que apresenta problemas repetitivos, com procura pelo atendimento de maneira recorrente, sendo caracterizado como um caso crônico, ou mesmo um caso perdido. Essa concepção parece revelar, entre os enfermeiros do estudo, que o alcoolista têm poucas chances de recuperação. Talvez por tais fatos, esses pacientes sejam vistos com certo descrédito pelos enfermeiros, conforme revela a fala de um deles: ... Tenho certeza que a primeira coisa que faz depois que melhora, é ir do outro lado da rua e entrar no bar e beber mais um pouco.. Certeza essa, que pode levar o profissional a pouco valorizar o atendimento do alcoolista, uma vez que ao contrário de outros pacientes, ele não terá seu "problema" resolvido, e sempre retornará ao serviço, alcoolizado para um novo atendimento.

Ao assistir o alcoolista o enfermeiro pode ter consigo a expectativa de alcançar seus objetivos, principalmente no que se refere à adesão ao tratamento, e à abstinência, e em isso não ocorrendo de imediato, tal atitude pode ser interpretada pelo profissional como uma resistência à ajuda levando-o a distanciar-se do paciente alcoolista e vivenciar insatisfação em realizar seu trabalho com esse cliente.

A concepção que atribui o alcoolismo à falta de vontade da pessoa, é uma visão reducionista, entretanto, ainda é possível encontrar uma parcela significativa de enfermeiros que continuam considerando o alcoolista como imoral, fraco e com baixa probabilidade de recuperação(9,14). Porém uma concepção secular não se desfaz de um dia para outro, pois enquanto ser social, o enfermeiro, assim como todos os seres humanos, é influenciado pelo meio onde vive, meio o qual, ainda atribui ao alcoolista a "falha moral" e a "fraqueza de caráter" e a própria vontade do indivíduo que adoece.

Atribuir o alcoolismo a fraquezas ou carências individuais permite culpar a pessoa pela sua doença. Assim, o pressuposto de que o alcoolista pode controlar seu hábito de beber, parece não influenciar somente a população de um modo geral, mas também os profissionais de saúde, nesse caso os enfermeiros.

Os enfermeiros do presente estudo mostraram-se favoráveis ao beber moderado, rejeitando o alcoolismo e apesar de concebê-lo como uma doença e o alcoolista como uma pessoa dependente, ainda existe uma forte tendência a associar a doença à falta de vontade. Esse fato preocupa, pois de acordo com os pressupostos da atual política nacional em álcool e drogas o enfermeiro é um profissional que compõe a equipe de atenção aos usuários de álcool e outras drogas(17), e uma vez adeptos dessa concepção é possível que encontrem dificuldades ao prestar assistência a essa população.

 

CONCLUSÕES

Os resultados desse estudo permitiram conhecer as concepções e as tendências de atitudes de enfermeiros de Unidades Básicas Distritais de Saúde de um município do interior paulista frente ao álcool, ao alcoolismo e ao alcoolista.

Como pontos positivos destacam-se o fato de o alcoolismo ser concebido como uma doença, e o alcoolista um dependente; os enfermeiros mostraram-se permissivos em relação ao beber moderado, atribuem propriedades benéficas ao álcool e revelam seu próprio consumo da substancia, o que leva a pressupor que se apresentam menos moralistas em relação à questão do que o que vem sendo apontado na literatura nacional.

O uso pessoal exerce influência na maneira de conceber o álcool e o beber, sendo que os enfermeiros que fazem uso de bebidas alcoólicas tendem a ser mais permissivos ao beber, em contrapartida é possível perceber rejeição do uso do álcool, independente da quantidade pelos enfermeiros que não bebem. Porém quando se trata de beber excessivo os dois grupos demonstram rejeição, evidenciando atitudes negativas frente ao alcoolismo, sendo possível identificar nas falas dos sujeitos a influência do modelo moral na concepção do alcoolismo e do alcoolista, atribuindo seu problema à falta de vontade em parar de beber. Mostram-se ainda, pessimistas em relação ao prognóstico do alcoolismo e julgam haver pouca probabilidade de recuperação.

As concepções e atitudes dos enfermeiros de atenção básica à saúde não diferem significativamente, daquelas encontradas em enfermeiros da área hospitalar, uma vez que conceituam o alcoolista como um doente e o alcoolismo uma doença, persistindo, no entanto as influencias do modelo moral na forma de conceber os dois conceitos.

Existe pouco conhecimento dos enfermeiros na temática, álcool e alcoolismo, daí sugerir a sua capacitação, no sentido de prepará-los para o atendimento, o reconhecimento e a prevenção de transtornos relacionados ao uso/abuso do álcool em unidades básicas de atenção à saúde, pois existem evidências de que usuários dessa substância com padrão abusivo, estão presente nesses serviços, de forma significativa.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a Comissão Interamericana para o Controle do Abuso de Drogas/CICAD da Subsecretaria de Segurança Multidimensional da Organização dos Estados Americanos/OEA, a Secretaria Nacional Antidrogas/SENAD, aos docentes da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Centro Colaborador da OMS para o desenvolvimento da pesquisa em enfermagem, a população da amostra dos estudos e aos representantes dos oito países Latinoamericanos que participaram do I e II Programa de Especialização On-line de Capacitação e Investigação sobre o Fenômeno das Drogas - PREINVEST oferecido no biênio 2005/2006 pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, na modalidade de ensino a distância.

 

REFERENCIAS

1. Carlini EA, Galduróz JCF, Noto AR, Nappo SA. II Levantamento domiciliar sobre uso de drogas no Brasil - 2005. Brasília: Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas, Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina e SENAD - Secretaria Nacional Antidrogas, Presidência da República, Gabinete de Segurança Nacional; 2006.         [ Links ]

2. Lock CA, Kaner E, Lamont S, Bond S. A qualitative study of nurse's and pratices regarding brief alcohol intervention in primary health care. J Adv Nurs 2002;39(4):333-42.         [ Links ]

3. Aalto M, Seppa K, Kiianmaa K, Sillanaukee P. Drinking habits and prevalence of heavy drinking among primary health care outpatients and general population. Addiction 1999;94(9):1371-9.         [ Links ]

4. Vargas D, Labate RC. Alcoolistas - tratar ou punir: disposição de enfermeiros de hospital geral. Rev Enferm UERJ 2003;11:188-92.         [ Links ]

5. Vargas D, Labate RC. Atitude de enfermeiros de hospital geral frente ao uso do álcool e ao alcoolismo. Rev Bras Enferma 2006;59(1):47-5.         [ Links ]

6. Bardin L. Análise do conteúdo. Lisboa: Editora 70; 1994.         [ Links ]

7. Lucca DM, Vargas D, Vargas D. As concepções de enfermeiros de hospital geral frente às questões relacionadas ao álcool e ao alcoolismo. Enferma Bras 2006; 5:260-7.         [ Links ]

8. Perchansky F, Soibelmamm M, Meirelles M, Santana R. Um estudo de alcoolismo em hospital escola. Rev Psiquiatr Rio Gd Sul 1984;1(6):38-42        [ Links ]

9.Vargas D. A construção de uma escala de atitudes frente ao álcool, ao alcoolismo e ao alcoolista: um estudo psicométrico. [tese]. Ribeirão Preto (SP):Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/USP; 2005.         [ Links ]

10. Navarretee PR, Luis MAV. Actitud de la enfermera de un complejo hospitalario en relación al paciente alcoholico. Rev Latino-am Enfermagem 2004;12( n. especial):420-26.         [ Links ]

11. Allen K. Attitudes of Registered Nurses toward Alcoholic Patients in a General Hospital Population. Int J Addictions 1993;28(9):923-30.         [ Links ]

12. Vargas HS. Repercussões do álcool e do alcoolismo. São Paulo: Fundo ed. Byk-procienx; 1983.         [ Links ]

13. American Psychiatric Association. Diagnostic and statistical manual of mental disorders . 4 ed. Washington, DC:APA; 1995.         [ Links ]

14. Howard OM, Chung SS. Nurse's attitudes toward misusers a Surveys. Substance use and misuse 2000;35(3):347-65.         [ Links ]

15. Vargas D, Miron VL. Concepções dos trabalhadores de enfermagem sobre o paciente alcoolista. In: Luis MAV, coordenadora geral. O uso e abuso de álcool e drogas: um desafio para todos. VI Encontro de Pesquisadores em Saúde Mental e V Encontro de Especialista em Enfermagem Psiquiátrica; 2000. abril 17-20; Ribeirão Preto, São Paulo; 2000. p. 20.         [ Links ]

16. Campos CJG. O atendimento do doente mental em pronto socorro geral: sentimentos e ações dos membros da equipe de enfermagem. [dissertação] Ribeirão Preto (SP): Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/USP; 1996.         [ Links ]

17. Brasil. Ministério da Saúde.(BR) Secretaria Executiva. Secretaria de Atenção a Saúde. Coordenação Nacional DST/AIDS. A Política do Ministério da Saúde para Atenção Integral a Usuários de Álcool e Outras Drogas/Ministério da Saúde, Secretaria Executiva, Secretaria de Atenção a Saúde, CN-DST/AIDS. Brasília: Ministério da Saúde; 2003 - (Série E. Legislação de Saúde).         [ Links ]

 

 

Recebido em: 4.9.2007
Aprovado em: 7.3.2008

 

 

1 Artigo extraído de Trabalho de Conclusão de Curso

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License