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Revista Latino-Americana de Enfermagem

On-line version ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.16 no.spe Ribeirão Preto July/Aug. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692008000700017 

ARTIGO ORIGINAL

 

Percepção de estudantes de enfermagem sobre os preditores do uso de drogas

 

 

Alfonsyna Montoya de AbarcaI; Sandra Cristina PillonII

IMestre em Saúde Pública, Enfermeira, Professora Titular, Universidade Nacional Autônoma de Honduras, Faculdade de Ciências Médicas, Honduras
IIProfessora Doutora, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade São Paulo, Centro Colaborador da OMS para o Desenvolvimento de Pesquisa em Enfermagem, Brasil, e-mail: pillon@eerp.usp.br

 

 


RESUMO

Ao estudar a percepção de 264 (33,2%) estudantes de enfermagem, do grupo Profissionalizante e do grupo Regular, sobre os fatores que predizem o consumo de drogas, concluímos que estes consomem álcool e tabaco e percebem o álcool como uma propensão ao consumo de drogas. O grupo de profissionalização consome tranqüilizantes e estimulantes em maior quantidade do que o grupo do Plano Regular. O grupo de profissionalização percebe a família e a igreja como fatores protetores, enquanto que amigos e escola são considerados fatores de risco. Consideram entre as motivações para o uso, carga excessiva (estudo, trabalho e família) e estresse. Percebem os usuários de drogas como amorais e viciados. A escola é considerada fator de risco e a sociedade, igreja e a família fatores protetores. Esse estudo nos fornece indicadores para repensar ações concretas na formação dos enfermeiros.

Descritores: fatores de risco; enfermagem; drogas ilícitas; estudantes de enfermagem


 

 

INTRODUÇÃO

O fenômeno das drogas alcançou proporções mundiais, e Honduras não é uma exceção. As organizações internacionais(1) indicam que o problema mais importante de todas as regiões do mundo está relacionado com as drogas legais, álcool; tabaco e psicofármacos.

Honduras, além de contar com o problema das drogas, não possui uma cultura de pesquisa em geral e tampouco relativa ao fenômeno das drogas, o que torna necessário levar propostas aos mais altos níveis políticos e técnicos do país. O objetivo do presente estudo é entrar em um programa de capacitação das estudantes de enfermagem, partindo da identificação da percepção que elas têm sobre os fatores que predizem o consumo de drogas e aos que elas enfrentam.

Ao falar de fatores de risco se faz referência a "circunstâncias pessoais e sociais que, relacionadas com as drogas, aumentam a possibilidade de que um sujeito inicie o consumo"(2). A abordagem destes fatores está relacionada de forma direta com a exposição a eles, ou seja, "... a exposição a um fator significa que uma pessoa esteve em contato com um ou mais fatores antes de manifestar um problema"(3). Conseqüentemente, é preciso acrescentar-se os fatores de proteção: escola, trabalho, família; e o individual, como a auto-estima, que, "embora pareça uma situação isolada, há que ver dentro do componente social. Por isso, a comunicação é um item chave na formação de valores da auto-estima, tanto positiva quanto negativa"(4-5).

Mediante a pesquisa, as causas do vício ainda não foram identificadas, mas é do consenso de muitos estudos que as decisões que os jovens adotam para consumir drogas ou não dependem muito das percepções que estes têm com relação às drogas. Neste sentido, há que se examinar cuidadosamente este aspecto, de maneira que se possa vê-lo em sua real magnitude e alcance, a fim de aplicar medidas congruentes e oportunas.

 

MARCO TEÓRICO

As estatísticas nacionais quanto ao uso de drogas ilegais e álcool de Honduras contemplam apenas os homens, não havendo dados quanto às mulheres. De acordo com tais estatísticas, 13,3% dos homens entre 15 e 19 anos de idade dizem já ter consumido drogas alguma vez na vida, sendo mais comuns o uso de maconha 88,6%; cocaína 31,3%; "resistol" 7,2%; e "crack" 5,9%(6).

As diferenças sociais, que são muitas, são consideradas um elemento importante que favorece os fatores de risco da dependente de drogas. O narcotráfico corrompeu igualmente algumas instituições e funcionários do estado em vários países Ibero-Americanos. A corrupção, o tráfico de armas em maior ou menor escala, a delinqüência e os grupos armados são conseqüências do cultivo e tráfico de entorpecentes em vários países da América Central e do Sul.

As instituições de saúde e os profissionais ali imersos como atores do processo são importantes mecanismos de preservação da qualidade de vida do indivíduo e da sociedade em geral(7). Assim, a enfermeira é a profissional com maior campo de ação neste âmbito, e tem, portanto, de se capacitar para entender o fenômeno das drogas no contexto social, político, econômico e humano, com estratégias que contribuam para a superação do problema. Neste sentido, a enfermeira latino-americana demonstrou um forte compromisso social, ajustando-se às lutas que representam as necessidades de saúde na sociedade, favorecendo um processo de viver e ser saudável. Entretanto, ela também está influenciada pelo já mencionado grupo de fatores negativos que lhe prende também ao consumo de drogas.

Não existe uma cultura de pesquisa em geral em alguns países da América Latina, nem o tema da percepção dos fatores de risco pelos usuários sobre o consumo de drogas. Tal fato faz necessário o desenvolvimento de uma consciência de pesquisa nas estudantes da carreira de enfermagem, de forma que elas possam ajudar a si mesmas, suas famílias, a comunidade e outros no uso de seus resultados, fortalecendo os fatores de proteção de modo que inibam ou limitem o impacto dos fatores de risco.

Mediante a avaliação da relação do vício, educação e crenças das estudantes de enfermagem e sua relação com o consumo de álcool, estudou-se a efetividade de dois métodos de ensino aplicados a dois grupos de estudantes de enfermagem referentes ao vício do álcool. O grupo número um recebeu conferências sobre o alcoolismo; o segundo grupo, por sua vez, além das conferências, estabeleceu relações com pessoas que tinham deixado de beber por vários anos. Ambos os grupos melhoraram seus conhecimentos e crenças; no entanto, o segundo grupo teve mais conhecimentos e crenças mais precisas e mais avançadas a respeito das pessoas alcoólicas(8).

As afecções mentais e os transtornos neurológicos que 400 milhões de pessoas sofrem estão associados aos abusos do álcool, tabaco e drogas, dado o considerável aumento nos problemas por vício. Conseqüentemente, as enfermeiras requerem educação para desenvolver, implantar e renovar seus conhecimentos e habilidades na gestão e abuso de substâncias e transtornos que implicam dependência. A relação da educação e as crenças que as estudantes de enfermagem têm sobre o abuso do álcool e o consumo de drogas é evidente(1).

Uma pesquisa sobre os fatores de risco e de proteção identificados em adolescentes consumidores de substâncias psicoativas focou no risco à saúde pública para aproximar-se da rede causal de alguns fatores de risco e de proteção. As relações entre os fatores de risco são complexas, pois estes atuam de modo distinto em diferentes indivíduos e sob diversas circunstâncias; assim mesmo, um resultado (dano) em uma determinada seqüência pode em um futuro constituir um fator desencadeante de outro problema em uma série de acontecimentos(9).

Um estudo de seguimento de 25 anos encontrou uma relação entre o comportamento e os fatores de risco, havendo, igualmente, uma relação com o fator socioeconômico (nível de renda e nível social); o que também é um fator de predição de uma saúde pobre e de abuso de drogas. O risco de ter uma saúde pobre e o abuso de drogas entre as pessoas com nível econômico baixo é três vezes maior em comparação com o grupo de alta renda(10).

O abuso e os transtornos produzidos pelas substâncias permitem que os profissionais de saúde ofereçam cuidados às pessoas com estes transtornos, apoiando-se em evidências e experiências, podendo dar uma atenção efetiva às pessoas afligidas pelo abuso. Entretanto, enfermeiras não são vistas, e nem o serão, como um grupo que possa fazer a diferença entre a incidência e a prevalência destes transtornos, até que estas tenham uma melhor compreensão e conhecimentos sobre o abuso das substâncias e sua relação com os problemas de saúde.

A seguir, deu-se a avaliação dos julgamentos em diferentes idades a respeito dos riscos e percepções e da vulnerabilidade em adolescentes e adultos. As percepções individuais sobre a magnitude dos riscos pessoais para experimentar resultados negativos mostraram uma relação inversa com a idade. A maioria dos participantes acertou e superestimou os riscos(11).

O conceito de percepção de risco não só se relaciona com o consumo de substâncias, mas também com diversas condutas de risco, seja com relação a atividades sexuais, violência, ou outros. A percepção de riscos faz o sujeito tomar uma decisão para conduzir-se de uma determinada maneira a partir da ponderação de diversos aspectos intrapessoais e ambientais, a favor ou contra si mesmo. A percepção de risco se estabelece a partir das decisões aduzidas do indivíduo para envolver-se ou não no consumo, nas crenças, expectativas de pessoas significantes e a auto-eficácia(12).

Em um estudo(13) feito na Venezuela sobre os fatores de risco entre os estudantes adolescentes, descobriu-se que as áreas de alto risco, associadas ao uso de drogas, são relativas à família e a saúde mental; as de risco moderado são as de recreação, conduta e escola; e as de baixo risco são as habilidades sociais e uso de drogas.

Com relação ao impacto(14) dos fatores de risco e de proteção no desenvolvimento da conduta de vício, os fatores de risco estão relacionados com as variáveis pessoais (estabilidade emocional); interações familiares (modos de criação, superproteção dos pais e as dificuldades na comunicação); escola (os adolescentes confiam mais em seus amigos que em sua família); e comunidade (desorganização para enfrentar problemas).

 

METODOLOGIA

Este é um estudo do tipo Descritivo-Transversal. Foi realizado no Departamento de Educação de Enfermagem, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Nacional Autônoma da Honduras (UNAH), Tegucigalpa, Honduras. A Escola de Enfermagem conta com 795 estudantes matriculados; a amostra do estudo foi de 264 (33,2%) estudantes de ambos os planos de estudo, ou seja, do grupo de Profissionalização e do grupo Regular. O projeto de estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Biomédica, CEIB. O grupo de pesquisadores foi capacitado na coleta de dados. Como parte inicial do questionário auto-administrado, incluiu-se informação sobre os fatores que predizem o consumo de drogas e a vulnerabilidade das estudantes de Enfermagem a ditos fatores. Para o processamento dos dados, o grupo trabalhou em um banco de dados com o programa SPSS 11 (Statistical Program of Social Science) para o Windows.

 

RESULTADOS

Perfil sócio-demográfico

A amostra foi composta pelo sexo feminino. A idade média foi de 35,6 anos para o Plano Regular, e de 36,3 anos para o Plano de Profissionalização. Dentre estas estudantes, 62,7% são casadas; 62,7% trabalham. O salário mensal oscila entre 2 mil e 8 mil lempiras (entre US$ 105,00 e 420,00), com uma média de 5,335 lempiras, sem considerar o grupo que não trabalha. Quanto à religião que as estudantes praticam, 43,9% são católicas, 52,3% são protestantes de diversas denominações, e 3,8% manifestou não ter nenhuma. Entre 1 e 15 pessoas convivem com elas na mesma casa, um valor médio de 7, para uma separação típica de 3,2. Dentre elas, 44,7% vivem com seu marido ou companheiro e 32,6% com seus pais, localizando-se estas nas porcentagens mais altas.

Percepção de fatores de risco e proteção que predizem o consumo de drogas

Dentre o grupo do Plano Regular, 43,3% vêem a família como fator protetor, em contraste com 22,6% que a considera um fator de risco, assim como a sociedade, com idêntica percentagem. O grupo de amigos, 33,9%, ocupa o primeiro lugar como fator de risco.

O grupo de profissionalização enxerga a família de forma similar ao grupo do Plano Regular, com 38,4% como fator de risco. Ao relacionar a percepção de risco com outras condutas, em geral para ambos os grupos, a violência sexual alcança o primeiro lugar, 33,3%; para o grupo do Plano Regular a violência representa 18%. Para o grupo de profissionalização, a desintegração familiar, roubo, violações, homicídios, assaltos e seqüestros ocupam os primeiros lugares, com percentagens similares, para um total conjunto de 58,8%.

Relacionando a religião com os fatores de proteção, as estudantes do Plano Regular, tanto católicas como protestantes, 52,6% e 31%, respectivamente, vêem a família deste modo. Entretanto, é notório que as católicas concebem a escola como fator protetor com apenas 3,2%, em contraste com 24,2% para as protestantes.

No grupo de profissionalização, por sua vez, as católicas outorgam 16,5% à escola, e as protestantes 12,5% a característica de fator protetor. As maiores percentagens como fator de proteção estão no grupo de amigos: católicas, 40,9%, e protestantes 52,5%. Em geral, ambos os grupos, 60,3% consideram as pessoas que consomem drogas viciadas, e 19,3% as acham amorais.

Com relação ao contexto de vida e fatores de risco e de proteção, 22,9% do grupo de estudantes solteiras vêem a família como fator de risco, e 38,3% de proteção.

Fatores que predizem o consumo de drogas

Este aspecto tratou de identificar a vulnerabilidade das estudantes de enfermagem ao consumo de drogas. As drogas de maior consumo para o grupo do Plano Regular são o tabaco, 38,5%; e o álcool, 22,7%, e, ainda que em menores percentagens, consomem tranqüilizantes e estimulantes. Do grupo do Plano de Profissionalização, 27,8% consomem tranqüilizantes, e 22% estimulantes. Entretanto, 20% consomem tabaco e álcool, indicando, em ambos os grupos, o estresse, 22,1%, e a escola, 19,7%, como motivações.

Em geral, 98,5% percebem que o consumo de álcool propende ao uso de drogas. Quanto às experiências que as estudantes de enfermagem tiveram com pessoas que consomem drogas, no grupo do Plano Regular, estas foram vividas com a família, amigos e pacientes, enquanto no grupo de Profissionalização, com a família, companheiras de estudo, amigos e vizinhos.

O grupo do Plano Regular considera a escola um fator de risco, 27,8%; a sociedade, 21,7%; o grupo de amigos, 23,6%, e como fatores protetores estão a família, 36,7% e a igreja, 27,5%. A auto-estima é vista como fator de risco dentro do fator individual. O grupo do Plano de Profissionalização vê a escola, 27,5%, como fator de risco, assim como o fator individual, com 25,3%, incluindo nele a auto-estima, e o grupo de amigos (16,7%).

 

DISCUSSÃO

Com base nos achados da pesquisa, revela-se que:

Relativo ao perfil sócio-demográfico

Ao contrário do que era de se esperar, uma população muito jovem foi encontrada. A idade das estudantes do Plano Regular vai desde menos ou igual a 20 até 55 anos. Dados similares aos do grupo do Plano de Profissionalização, posto que apenas 3,2% passam dos 55 anos.

Dentre as estudantes do Plano Regular, 12,1% trabalham na Secretaria de Saúde como auxiliares neste campo. Tal número é considerado alto pela escassez de formação prévia em enfermagem.

As estudantes de ambos os Planos mostram uma diferença clara no que se refere a seu estado civil, pois 55,7% do Plano Regular são solteiras, contra apenas 21,5% do Plano de Profissionalização. Do primeiro grupo, 42,5% são casadas e do segundo, 69%. Tal fato é compreensível, posto que 88,4% estão no intervalo de menos ou igual de 20 até 35 anos de idade, observando-se que estão ocorrendo mudanças em relação à concepção da mulher e sua idade para casar-se ou viver em união livre em Honduras.

É importante considerar que ambos os grupos, Plano Regular e Plano de Profissionalização, têm de trabalhar entre 1 a 35 e 1 a 25 anos, respectivamente. Em nenhum caso se obtém um salário superior a 8,000 lempiras (moeda nacional, equivalente a US$ 420,40); o que obriga algumas estudantes do Plano de Profissionalização a trabalharem de forma permanente em duas instituições de saúde, 11,9%, ou seja, 15 de 125. O mesmo não ocorre no grupo do Plano Regular, pois o total de estudantes que trabalha só o faz em uma única instituição, provavelmente por não contar com uma preparação prévia em enfermagem. As estudantes de ambos os grupos têm entre 1 e 5 filhos, sendo que 70% do grupo do Plano Regular não têm filhos e não trabalham; 9,5% do Plano de Profissionalização não têm filhos (n=12), mas trabalham.

Pouco mais de um terço das estudantes do Plano Regular, 43,9%, são católicas (religião tradicionalmente majoritária em Honduras) e 52,3% pertencem a religiões de outras denominações cristãs. Do grupo de profissionalização, 43,6% (n=55) pertencem ao Catolicismo. Como se vê, a diferença em ambos os grupos é a mesma: 10 %.

Quanto à percepção das estudantes de enfermagem sobre os fatores que predizem o consumo de drogas

O grupo do Plano Regular percebe que a família constitui um fator protetor. No entanto, sua percentagem de respostas não chega a 50% (43,3%), o que equivale a 117. Assim mesmo, quase um quinto, 22,6% a consideram como um fator de risco. Disto se infere que estudos relativos às funções da família deverão ser feitos, sem menosprezar os contextos restantes, como a sociedade, com igual percentagem.

Um estudo(13) sobre os fatores de risco entre estudantes (Carabobo, Venezuela) revelou que as áreas de alto risco, associadas ao uso de drogas, são as relativas entre outros à família e entre os de risco moderado à escola. Resulta coincidente que para o grupo de profissionalização a família também constitui um fator protetor, mas em menor percentagem, 38,4%, destacando-se a diferença ao ver a família como um fator de risco em somente 5,3%. Entende-se que os fatores de risco são atenuados quando os fatores de proteção(13) estão presentes.

A escola e a sociedade também constituem fatores de risco: 14,6 e 17% respectivamente. Para ambos os grupos o grupo de amigos é o fator de risco que ocupa o primeiro lugar, 33,9 e 46,5%. As diferenças entre estas percentagens e as dos fatores que ocupam o segundo lugar são muito nítidas. Assim mesmo, as estudantes de ambos os grupos vêem as pessoas que consomem drogas como viciadas, em um total de 52,8 e 69,2%; e como amorais em 23,3 e 14,6%.

Esta percepção provavelmente incide na qualidade do atendimento e no respeito que lhes deve como seres humanos. Além disso, 5,9% os vêem como pessoas que não têm possibilidade de curar-se, fato que exacerba esta situação, no sentido de que a atitude do provedor é importante, o que determina a qualidade do cuidado.

No relativo às mudanças percebidas para favorecer o consumo de drogas como estudantes da área da saúde de ambos os grupos, pode-se ver em primeiro lugar as novas substâncias que têm aparecido, 26,6 e 28,6%. Em segundo lugar está o fato de que se operaram mudanças nos padrões de consumo, 16 e 19%, e a convivência cotidiana modificou a percepção do problema.

Quanto à percepção de risco relacionada a outras condutas, as estudantes enunciam tanto a violência sexual como a violência em geral, desintegração familiar, roubo, homicídios, assaltos e seqüestros, assim como doenças como a AIDS, ocupando as maiores percentagens. O autor(12) enfatiza que o conceito da percepção de risco não somente se relaciona com o consumo de substâncias, mas também com diversas condutas de risco. Estes últimos fazem com que o indivíduo tome decisões sobre como agir com relação ao consumo de drogas, aspecto que influirá a favor ou contra si mesmo.

É preocupante ver que 21% vêem as drogas como um medicamento qualquer. Tal percepção pode chegar a constituir um fator de risco na capacidade para apoiar outros e na prevenção do uso e abuso de drogas, mesmo que os outros 79% concebam as drogas como substâncias psicoativas.

Com relação aos fatores que predizem o consumo de drogas

O Plano Regular identifica como fatores de risco a escola, 27,8%; a sociedade, 21,7%; e o grupo de amigos, 23,5%. O Plano de Profissionalização identifica a escola com 27,5%; o individual, 25,3%; e o grupo de amigos com 16,7%. Estas são as maiores percentagens observadas. Além disso, ambos os grupos assinalam dentro do contexto individual a idade, o estresse, a imaturidade, a solidão, os valores (auto-estima) e os problemas econômicos. Pela idade, se faz referência aos menores de 20 anos.

Apesar do mencionado anteriormente, evidencia-se que todos os contextos constituem fatores de risco para ambos os grupos, com exceção da igreja, 27,5%; e da sociedade, com 34,7%, como fatores protetores para o Plano Regular. Para o Plano de Profissionalização, os fatores protetores são a família, 37,7%; e o contexto individual, 31,7%. Estes últimos poderão atenuar ou reduzir em alguma medida os fatores de risco identificados, tal como o diz Rojas em sua classificação dos fatores de risco(11).

É possível ver que 45% de ambos os grupos identificam as influências normativas como limitantes do consumo de drogas. Tal identificação evidencia que isto não é o suficiente para prevenir o uso e abuso de drogas.

A família tem o maior predomínio no que se refere aos fatores de risco e de proteção associados ao consumo de drogas. Seja pelas reuniões nas quais se consome álcool, pelo estudante que sai de noite sem permissão, ou pelos pais que passam muito tempo fora de casa.

Em relação ao consumo, ambos os grupos de estudantes consomem drogas lícitas e ilícitas. No Plano Regular 38,5% consomem tabaco e 22,7% consomem álcool, além de tranqüilizantes e estimulantes em menor percentagem. No grupo do Plano de Profissionalização 20,1% consomem tabaco e 21,1% álcool. Mas este grupo também admite consumir drogas ilícitas como tranqüilizantes, 27,8%, e estimulantes, 22,0%. Infere-se que isto pode ser motivado pelo acesso fácil às drogas, 5,8% e 6,5%, pelo estresse, 24,3% e 19,5% em ambos os grupos, e pela carga excessiva (trabalho, escola e família).

Ambos os grupos expressam que o consumo de drogas é pouco freqüente entre estudantes de enfermagem, assim o diz o grupo do Plano Regular, 70% e 60,3% do Plano de Profissionalização. No entanto, é alarmante que 30% e 39,7% respectivamente o faça em média ou muito freqüentemente.

Entre as motivações para que as estudantes de ambos os grupos consumam drogas preponderam o estresse e o grupo de amigos, sendo para o Plano Regular 24,3 e 19,5% respectivamente, e para o Plano de Profissionalização 11,1 e 14,6% igualmente; e a escola (pressão escolar contínua), 19,9% para o Plano Regular e 19,5% para o Plano de Profissionalização.

Na experiência das estudantes de ambos os grupos com outras pessoas que consomem drogas estão a família, grupos de amigos e companheiros de estudo. Assim mesmo, quase um terço (32%) do Plano Regular não teve nenhuma experiência, assim como 1,6% do Plano de Profissionalização.

Em geral, as estudantes consideram que as pessoas que ingerem bebidas alcoólicas são propensas ao consumo de drogas, o que é congruente com o que expressa outro estudo sobre o consumo de drogas(15):"as drogas legais como o tabaco e o álcool devem constituir a porta de entrada para o consumo de drogas".

 

CONCLUSÕES

O estudo do fenômeno das drogas mostra que é inevitável incluir este componente no currículo de formação dos estudantes de enfermagem, considerando uma visão das políticas, saúde internacional e globalização, e com uma visão da relação entre as drogas e as políticas nacionais relativas à saúde. Tal necessidade é confirmada, uma vez que o estudo revelou um baixo perfil deste grupo no componente de drogas e, sobretudo, à situação social e econômica em que vive Honduras, país que deixou de ser um consumidor de baixa escala para chegar, em poucos anos, à comercialização e a servir de ponte para tráfico de drogas. A estudante se capacitará na promoção, prevenção e integração social.

Este estudo revela uma realidade em que as estudantes vivem e desenvolvem sua aprendizagem, que se dá na escola, local que consideram como um fator de risco. Com isto, se abre a possibilidade para que o pessoal docente do Departamento de Educação de Enfermagem e outras instâncias da UNAH assumam a responsabilidade de fomentar fatores protetores. Trata-se de nos aproximar mais para conhecê-las melhor e trabalhar com elas de forma integral.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a Comissão Interamericana para o Controle do Abuso de Drogas/CICAD da Subsecretaria de Segurança Multidimensional da Organização dos Estados Americanos/OEA, a Secretaria Nacional Antidrogas/SENAD, aos docentes da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Centro Colaborador da OMS para o desenvolvimento da pesquisa em enfermagem, a população da amostra dos estudos e aos representantes dos oito países Latinoamericanos que participaram do I e II Programa de Especialização On-line de Capacitação e Investigação sobre o Fenômeno das Drogas - PREINVEST oferecido no biênio 2005/2006 pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, na modalidade de ensino a distância.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em: 28.3.2007
Aprovado em: 10.1.2008

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