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Revista Latino-Americana de Enfermagem

On-line version ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.16 no.spe Ribeirão Preto July/Aug. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692008000700020 

ARTIGO ORIGINAL

 

Concepção dos estudantes de enfermagem sobre promoção da saúde relacionada ao uso de substâncias psicoativas

 

 

María Delia RojoI; Sonia Maria Villela BuenoII; Edilaine Cristina da SilvaIII

ILicenciada em Enfermagem, Mestre em Sistemas de Saúde e Seguridade Social, Professora da Universidade Nacional de Córdoba, Faculdade de Ciências Médicas, Escola de Enfermagem, Argentina, e-mail: jazni@arnet.com.ar
IIDoutora em Educação, Professora, e-mail: smvbueno@eerp.usp.br
IIIEnfermeira, Doutora em Enfermagem, e-mail: nane@eerp.usp.br. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Centro Colaborador da OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, Brasil

 

 


RESUMO

Este estudo qualitativo objetivou indagar a respeito da concepção dos estudantes de graduação em enfermagem sobre a promoção da saúde, frente ao uso de substâncias psicoativas. Nove estudantes, cursando as últimas matérias do primeiro ciclo da carreira, participaram do estudo e foram reunidos em dois grupos focais. O referencial teórico metodológico se fundamentou na Teoria da Conscientização de Paulo Freire. Os dados foram interpretados mediante a análise de conteúdo, evidenciando-se que os estudantes encontram dificuldades no planejamento de estratégias de intervenção na promoção da saúde frente ao fenômeno das drogas, pois os conhecimentos adquiridos na universidade possuem uma tendência biologista, própria do modelo médico, reconhecendo-se assim uma desarticulação entre a teoria e a prática. Apesar disso, conseguem reconstruir seus conhecimentos e tomar consciência de seu papel como futuros promotores da saúde diante do uso e abuso de drogas.

Descritores: promoção da saúde; estudantes de enfermagem; transtornos relacionados ao uso de substâncias


 

 

INTRODUÇÃO

O fenômeno das drogas tem se convertido em um problema social mundial, e em particular nos países da América Latina. Em crescente aumento e complexidade, este fenômeno está impactando notavelmente a saúde das comunidades.

Uma das metodologias mais apropriadas para que se consiga visualizar e compreender este fenômeno se dá mediante a visão do paradigma holístico na saúde internacional. Isto permite identificar claramente os diversos fatores que intervêm e condicionam a saúde da população, fundamentalmente em países da América Latina - assim como implementar ações direcionadas à promoção da saúde e prevenção do uso e abuso de drogas(1).

O consumo de substâncias psicoativas acompanha a espécie humana desde suas origens e evolução. Na atualidade, os dados referentes à prevalência do consumo de drogas em nossa sociedade sofreram variações freqüentes, produzidas pelo aumento do consumo tanto do cloridrato de cocaína como da maconha em faixas populacionais juvenis, indicando uma tendência progressiva no tempo em relação à magnitude e danos na sociedade gerados pelo uso indiscriminado de substâncias psicoativas. Neste sentido, os profissionais de Enfermagem são agentes-chave no processo de transformação social dos países, que participam de programas de promoção da saúde e redução do fenômeno das drogas(2).

Na Argentina, 40% dos jovens de 12 a 15 anos já consumiram álcool e tabaco. Enquanto isso, o consumo de drogas ilícitas se encontra, em ordem decrescente, a partir de: maconha, cloridrato de cocaína, tranqüilizantes, inalantes e solventes, onde a diferença entre sexos tende a ser mínima(3).

O uso de drogas se converteu em uma prática universal. Nesta, estão relacionados sujeitos e contextos socioculturais que influem negativamente sobre a vida cotidiana das pessoas(4).

Durante as últimas décadas, na Argentina, a percepção sobre problemas de drogas formou parte do imaginário coletivo, de maneira que as substâncias psicoativas ocupam um lugar cada vez mais preponderante em questões que têm marcado a evolução das sociedades. Entretanto, a realidade se modificou objetivamente, e as percepções das sociedades também. Os padrões de consumo têm variado com novas substâncias aparecendo em nosso contexto; a convivência cotidiana matizou a visão dos problemas; e atuações e respostas variadas foram postas em funcionamento, dependendo da visão e concepção social quanto ao uso e consumo de drogas.

Neste contexto, é conveniente ressaltar a importância da formação universitária no âmbito da enfermagem, onde são adquiridos saberes que podem ser aplicados na prática profissional e, em geral, nos cuidados oferecidos à comunidade. A Enfermagem, como profissão, pode intervir criando suportes sociais, reforçando a saúde comunitária e aperfeiçoando-se junto ao resto dos profissionais de saúde, a fim de oferecer uma promoção, prevenção e educação adequadas para a saúde.

A avaliação de crenças e valores envolvidos no ato de cuidar é fundamental, assim como também é necessária uma avaliação da prática profissional assistencial(5). Seguindo esta linha de pensamento, torna-se imprescindível determinar a melhor maneira de responder às inumeráveis mudanças e tendências mundiais que se encontram afetando criticamente a saúde e bem-estar da comunidade. Além disso, é necessário se desenvolver estratégias referentes à promoção da saúde, que abordem as desigualdades e confrontem de forma pertinente as exigências do novo milênio.

Não obstante a grande profusão e diversidade de informação existente em torno da problemática, ainda são insuficientes os estudos que tratam dos aspectos psicossociais e daqueles referentes ao conhecimento do fenômeno das drogas - Especialmente ao se considerar os estudos por um enfoque interpretativo-social, e que possuam como eixo central a descrição de concepções de estudantes de enfermagem sobre promoção da saúde ante o uso de substâncias psicoativas.

 

METODOLOGIA

Esta pesquisa tem caráter descritivo exploratório, emoldurada na lógica da metodologia qualitativa, onde um dos pilares básicos é a orientação problematizadora. Seu objetivo é conhecer a aprendizagem crítica e reflexiva obtida pelos estudantes na universidade.

O problema é abordado de maneira exploratória, identificando a construção dos sujeitos de pesquisa sobre o consumo de substâncias psicoativas e a promoção da saúde, procurando os significados em seus discursos e manifestações, a fim de obter uma maior compreensão de suas concepções. Para se alcançar os objetivos propostos, trabalhou-se em um contexto de descobrimento, analisando os processos em sua complexidade, abordando experiências contextualizadas e tendo presente a realidade social na interação dos integrantes.

Questões ou pressupostos foram descritos na busca de compreender e entender a realidade, na medida em que se tem interagido com a mesma, tal como indica um trabalho sobre este tipo de estudo: "o importante é que o pesquisador encontre sentido e significado nos dados que os sujeitos sociais e o contexto lhe proporcionam"(6).

O enfoque teórico metodológico adotado emoldura-se na Teoria Problematizadora ou de Conscientização de Paulo Freire, que foi considerada apropriada para responder às necessidades dos estudantes de refletir sobre sua própria prática. Do mesmo modo, considerou-se que sua abordagem estimulou a subjetividade dos estudantes, já que estes são sujeitos que tratam, discutem, decidem e operam em função dos conhecimentos adquiridos na universidade.

A amostragem foi intencional e formada por dois grupos, um de cinco estudantes e outro de sete, respectivamente. Estes estudantes estavam cursando as últimas disciplinas do primeiro ciclo do curso de Licenciatura em Enfermagem, integrando assim dois grupos focais. O primeiro grupo foi constituído por estudantes sem experiência trabalhista, enquanto o segundo foi formado por alunos que trabalhavam ou que haviam desenvolvido atividades na área de enfermagem.

Entrevistas em grupos focais e a observação não-participante foram utilizadas para a coleta dos dados. As sessões grupais facilitaram a expressão dos participantes a respeito de suas percepções, crenças, valores e concepções sociais sobre a promoção da saúde e a dependência de drogas. Tais entrevistas foram gravadas em áudio para posterior transcrição, resultando efetivas para solicitar informação sobre perspectivas e experiências vivenciadas.

A observação foi realizada com o propósito de capturar a complexidade do objeto, conhecer o contexto real, o que é percebido e sentido pelos estudantes, assim como as inter-relações entre os membros dos grupos em estudo. Desta maneira, conseguiu-se indagar sobre os processos que os estudantes realizaram ao demonstrar seus conhecimentos a respeito de promoção da saúde e consumo de drogas, a partir de uma perspectiva problematizadora.

A aplicação das técnicas descritas possibilitou a exploração do que os membros dos grupos realizaram em torno de atitudes, modelos de atenção e necessidades de saúde da comunidade, contando com um espaço que lhes permitiu expressar-se livremente em relação ao conhecimento obtido na universidade. A análise de conteúdo(7) foi utilizada para a realização da leitura e descrição dos dados, que ao fundamentar-se em um conjunto de técnicas de análise da comunicação, permitiu a obtenção dos objetivos do estudo.

Realizou-se, então, a exploração e organização do material obtido, tanto de entrevistas grupais, quanto de registros da observação. Em todo o processo metodológico, realizou-se uma análise contínua e seqüencial dos episódios à medida que estes transcorriam, o que possibilitou e facilitou sua interpretação.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Três categorias de análise puderam ser extraídas do discurso dos integrantes dos grupos focais.

Enfermagem e Promoção da saúde. Aplicação no futuro exercício profissional

Os integrantes de ambos os grupos focais posicionaram-se no novo modelo radical, que responde a premissas de promoção e educação para a saúde. Tal modelo focaliza sua orientação na ampliação da consciência crítica das pessoas, incluindo quatro ações específicas tais como: refletir sobre a realidade pessoal, estimular a busca e identificação coletiva das causas e manifestações dessa realidade, examinar as implicações da mesma e desenvolver ações destinadas a mudá-la.

Nesse sentido, os entrevistados consideram que a promoção terá que ser feita entre todos, apoiando ações dirigidas à comunidade e trabalhando em grupos. O modelo citado sustenta que, em vez de trabalhar com indivíduos isolados, devem-se incluir grupos, devido ao fato de que o ambiente grupal facilita o aumento da consciência crítica, por seu potencial para promover mudanças de idéias entre os sujeitos.

É necessário conhecer as necessidades da população. Deve-se ir a campo e poder ver a realidade, falar com as pessoas, escutá-las. O diálogo criado neste contexto determina a conscientização coletiva sobre as condições de vida das pessoas. Todavia, ele também permite reconhecer que, por trás das decisões dos indivíduos, existe uma combinação complexa de fatores e elementos que influem e que influiriam para que o empoderamento, tão aclamado anteriormente, não seja possível.

Os estudantes outorgam grande importância à promoção da saúde ante o uso de substâncias psicoativas, segundo classes sociais, ao sustentar que a pobreza é um fator que predispõe o sujeito ao consumo dessas substâncias, porque lhes permite evadir-se da realidade. Do mesmo modo, ambos os grupos concordam em afirmar que campanhas de promoção ante o uso de drogas não são úteis, já que em sua maioria enfatizam conseqüências negativas, expressando: Não é positivo proibir. Asseguram, também, que quando eles se deparam com sujeitos que se encontram em risco de consumir substâncias psicoativas, precisam tomar ações que lhes ajudem, já que, sozinhos, estes sujeitos não poderiam evitar o uso e abuso das mesmas.

Os entrevistados fazem referência à dificuldade que encontram em planejar ações de promoção da saúde nos cuidados de enfermagem, já que os modelos médicos de atendimento, cura e reabilitação preponderam em sua prática. Expressam que na universidade, embora um amontoado de conteúdos lhes seja transmitido durante o transcurso do primeiro ciclo do curso, os mesmos, geralmente possuem orientação biologista, e só alguns estão direcionados à promoção da saúde frente o uso de substâncias psicoativas. Afirmam também enfrentar obstáculos para poder expressar exatamente o significado que a promoção da saúde possui. Estes obstáculos, por sua vez, lhes impedem de conseguir pensar em intervenções que realizariam na comunidade, aduzindo, para isso, a falta de experiências na prática.

A práxis(8) é destacada como lugar privilegiado para que os enfermeiros apliquem estratégias dedicadas à promoção da saúde frente o fenômeno das drogas. Propõe-se, desta forma, o desenvolvimento de atividades de educação para a saúde, pautadas em alguns orçamentos básicos, que incorporem o reconhecimento da dignidade e a integridade dos sujeitos envolvidos no processo educativo, incluindo a conscientização e a liberdade.

Geralmente, um enfoque vertical, uma aprendizagem bancária e um conceito biomédico em saúde preponderaram na grande maioria das correntes educativas em saúde. Em contraposição a isto, Paulo Freire, em sua educação popular, afirma que os métodos participativos ativam a confiança e a livre determinação das pessoas. Estes métodos se encontram em auge, observando-se sua aplicação tanto no campo da educação como no da comunicação em saúde.

O fenômeno das drogas: apreciações e crenças sobre o uso de substâncias psicoativas

Os dados compilados, expressos pelos estudantes, revelam a importância relativa que outorgam ao fenômeno. Em um primeiro momento, eles não conseguem visualizá-lo como uma situação-problema, que possam enfrentar mediante ações ou estratégias de intervenção na comunidade.

Nos últimos tempos, as conseqüências negativas do consumo de drogas se fazem cada vez mais evidentes, e se mostram tanto no setor da saúde como no social. Estas incluem tanto as conotações sociais da dependência de drogas, traços de marginalidade, ilegalidade e criminalização, como as infecções e doenças associadas ao consumo por via intravenosa(9).

Na Argentina, a idade de início para drogas ilícitas e lícitas se encontra entre 8 e 12 anos. As estatísticas indicam que o consumo de inalantes começa a partir de uma idade precoce. Estes dados têm se revertido fortemente nos últimos tempos, observando-se que crianças de pouca idade se iniciam no uso de todo tipo de drogas, conforme estas estejam ao seu alcance, respondendo, para isso, à classe social a que pertencem. Além disso, evidencia-se uma tendência marcante ao poli-consumo de substâncias tóxicas, entre as quais se destacam o álcool e os psicofármacos, entre outras.

Ambos os grupos entrevistados outorgam maior importância à idade, com relação à adolescência. Eles mencionam que a promoção deve ser iniciada neste grupo etário vulnerável.

Quanto ao estado em que este fenômeno se encontra atualmente na Argentina, os estudantes admitem não conhecer dados a respeito de leis existentes no país sobre drogas, mas afirmam que os argentinos são de infringir as leis, não as cumprem. Eles manifestam que as drogas se constituíram em um comércio que move o mundo e, se existem leis, estas favorecem os distribuidores, porque há dinheiro envolvido; desconhecendo, por sua vez, se o Estado estaria disposto a realizar ações para realmente enfrentar a problemática.

Os integrantes dos grupos incorporam dados referentes a modelos explicativos do uso de drogas e à imagem que possuem do usuário de tais substâncias em suas expressões. Desta forma, sustentam o modelo moral, ao expressar que podem ver o usuário como um doente, um ladrão, concordando assim com aqueles que sustentam que o consumo de determinadas drogas causa danos ao indivíduo e à sociedade, razão pela qual o consumidor deve ser punido.

Os estudantes do grupo que não desenvolve atividades trabalhistas manifestam: podemos observar os sujeitos consumidores como 'drogados' que não procuram soluções, por isso os tornamos culpados. Ainda assim, também é possível vê-los como doentes, difíceis de curar.

Estes modelos caracterizam o comportamento de vício de tais substâncias como um transtorno progressivo e incurável, cuja origem é genético-biológica. Além disso, quando associado a dificuldades de desenvolvimento individual, estes provocam suscetibilidade e dependência(10-11)

O grupo que trabalha faz uma breve referência ao modelo cultural. Estes enfatizaram a auto-estima e a importância do que a família e a escola ensinam.

Em outra ordem de considerações, recentemente, conteúdos sobre o fenômeno das drogas têm sido incorporados ao currículo pré-graduação das escolas de enfermagem. Tal feito ocorre por serem considerados imprescindíveis na formação crítica de enfermeiros, com o objetivo de oferecer cuidados apropriados à comunidade.

Entretanto, observa-se nos integrantes de ambos os grupos focais certa escassez de conhecimento referente à dependência de drogas, já que parte de suas apreciações resultam superficiais e impregnadas de conhecimento intuitivo. Disso, é possível inferir que os conteúdos curriculares mencionados foram abordados superficialmente ou os alunos lhe outorgaram relativa importância, sem realizar a aprendizagem autônoma, o que dificulta não só a visualização do fenômeno como um problema social, mas também impossibilita serem criativos na hora de responder sobre estratégias superantes que planejariam a respeito da promoção, prevenção e educação para a saúde.

Um olhar crítico sob a realidade dos estudantes. Apropriação de conhecimentos significativos na universidade

A educação sobre o fenômeno das drogas deve incluir-se, coerentemente, a outros aspectos da vida das pessoas. Desta forma, esta é integrada ao marco da promoção da saúde, não sendo considerada apenas como um processo de informação, já que não conduz a modificações do comportamento, mas sim, devem-se promover pautas de conduta que superem as motivações da aproximação a elas(9).

Neste contexto, a universidade é considerada uma instituição social, responsável pelo desenvolvimento de um alto nível acadêmico dos recursos humanos. Assim sendo, esta deve formar e preparar profissionais para que consigam enfrentar os crescentes desafios atuais com êxito, nas esferas científica, técnica e cultural(11).

Com relação a isto, os integrantes dos grupos expressam que na universidade os alunos contam com grandes iniciativas para realizar intervenções na abordagem de alguns conteúdos na prática, mas que posteriormente não podem dar continuidade em sua aplicação. Apesar dos conteúdos oferecidos, não temos a promoção da saúde incorporada frente à dependência de drogas, e sim ao tratamento do consumidor, que depende da postura que os docentes de diferentes cadeiras possuem.

Cabe mencionar, neste sentido, a importância que a integração dos conteúdos tem no projeto curricular, em duas direções. Por um lado, a integração concebida em sentido vertical com as conexões de conteúdos de uma mesma disciplina, e por outro, a integração horizontal, que implica relações significativas entre conteúdos curriculares de disciplinas diferentes(12).

Os integrantes do grupo que possui experiência trabalhista na área consideram a importância de aprender e trabalhar na promoção da saúde, e na dependência de drogas de forma interdisciplinar, já que sustentam que a enfermagem, apenas como disciplina, pode realizar um tratamento parcial da problemática.

A complexidade do fenômeno do abuso de drogas evidencia uma multi-causalidade de fatores que obrigam a renunciar à ilusão de uma visão completa do mesmo. Conseqüentemente, gera-se a necessidade de efetuar abordagens de diversas disciplinas que tentam, assim como enfermagem, compreender o homem, para formar um marco de trabalho interdisciplinar e intersetorial.

Entretanto, à medida que a interdisciplinaridade avança, aparecem cada vez mais novos desafios. As áreas das ciências se comunicam pouco e, muitas vezes, resistem a comunicar-se, conseguindo assim, apenas prejudicar a inovação(13).

Reunir informação a respeito da construção do conhecimento é a chave para compreender o processo realizado. Isto se explica, pois os conhecimentos que os estudantes possuem são indicadores das articulações entre pensamento e ação.

Na atualidade, privilegia-se o construtivismo sócio-histórico e cultural como perspectiva pedagógica, no qual se destaca a relação intersubjetiva como base fundamental da aprendizagem. A partir da interação, do reconhecimento de saberes e experiências de vida, reaparece a teoria crítica de superação, a pedagogia da conscientização.

Do mesmo modo, observa-se que os estudantes sabem de forma superficial o que está acontecendo na atualidade. Estes não possuem muitos dados da realidade que os circunda, sem preocupar-se em obter conhecimento a respeito da temática abordada, através da aprendizagem autônoma e independente, e, conforme o que Paulo Freire disse: não conseguem passar da curiosidade ingênua à curiosidade epistemológica.

A formação profissional é considerada como um processo no qual se transita por diferentes experiências e se interage com diversos corpos de conhecimentos e enfoques, abrangendo tanto o período de preparação formal e sistemática, como a prática profissional(14). Contamos com alguns conhecimentos, mas nos falta a prática - sustentam ambos os grupos focais.

Com relação ao vínculo teoria-prática, este estudo atentou-se aos primeiros anos de experiência prática e ao valor formativo que isto oferece. Ao mesmo tempo em que incorpora esquemas de ação, introduz o aluno na cultura da instituição onde se realiza. Neste sentido, impõe-se a idéia de reflexão sobre a prática, na atualidade, conseguindo que a mesma seja consciente e autônoma, onde exista uma estreita relação entre intenções, realidade e as relações entre teorias de base e teorias para a ação.

Na apresentação da prática, de uma perspectiva interpretativa e crítica, tenta-se superar limitações incorporando noções de compreensão, interpretação, significado e ação. Desta forma, a teoria se constrói em articulação com a prática(15).

Os estudantes expõem incertezas sobre o espaço que podem e devem ocupar como futuros promotores de saúde, quando e como participar, o que potencializa esta problemática pela insegurança que sua falta de experiência lhes provoca. Assim sendo, é necessário que se realize uma transformação pedagógica, onde se modifiquem as relações, funções e papéis dos educadores e educandos, introduzindo uma metodologia participativa, criando condições que permitam desenvolver a criatividade e a capacidade de pesquisa.

As necessidades mutáveis, a natureza e o grau de abuso de substâncias requerem que as enfermeiras estejam preparadas para trabalhar com aquelas pessoas cujos problemas estão relacionados ao abuso de álcool e drogas. O desempenho das enfermeiras é um recurso essencial no cuidado dos indivíduos, famílias e comunidades. Além disso, para poderem realizar suas atividades, estas devem ser capacitadas em suas habilidades clínicas, cognitivas e relacionais(16).

Vale se destacar que, no momento de síntese das reuniões grupais realizadas, os estudantes conseguiram realizar avaliações do contexto, da realidade e, dos próprios recursos que dispõem, para contribuir com estratégias de abordagem e solução, tentando recuperar aprendizagens na reconstrução do conhecimento profissional.

A sociedade e a cultura exigem reflexão sobre os problemas de saúde, como atos que fazem parte de uma configuração social complexa. Se a promoção e prevenção da saúde permitem visualizar o processo vital do sujeito na própria dinâmica de cotidianidade, indicando o trabalho de transformação de formas de vida, de reflexão sobre os próprios julgamentos e medos, será possível abordar as diferentes situações que se pressentem como conflitantes.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em algumas linhas gerais, o acesso às concepções dos estudantes sobre a promoção da saúde, em seu contexto sócio-cultural, com características próprias na construção do mundo que os circunda, determinou o significado que eles outorgam ao uso de substâncias psicoativas, assim como as possibilidades de pôr em prática os conhecimentos, em sua futura prática profissional. Nestas reflexões, deu-se lugar a questões relativas ao papel que a articulação teoria-prática possui no desenvolvimento das experiências dos estudantes.

A prática profissional aparece como um elemento definidor na incorporação de problemas significativos que afetam o exercício profissional. Esse tipo de representação, com relação à prática, implica reconhecer a vigência de certos traços identificadores da profissão, emoldurados nas condições históricas em que se manifestam em uma determinada sociedade.

A forma com que se incluem essas práticas, sua ocultação ou explicitação, a alocação que as disciplinas e as aprendizagens promovidas lhes conferem, são questões que fazem à apresentação do conteúdo e delimitam um campo interessante para a reflexão sobre a estrutura curricular da carreira.

A importância que outorgam à interdisciplina para a abordagem destes temas é factível, sempre que há uma visão do mundo com pontos em comum, certa afinidade de intenções, valores compartilhados, perspectiva de superação das burocracias e estruturas acadêmicas rígidas, assim como a convicção de que a tarefa compartilhada é muito mais rica que o andar solitário.

A contribuição deste estudo focou em um marco problematizador, onde os estudantes conseguiram articular a temática abordada em seu discurso. Isto se deu por meio de argumentações e reflexões, evidenciando seus processos de construção do conhecimento e, incluindo-se no cenário, como futuros promotores da saúde, ao descobrir que possuíam conhecimentos prévios, possíveis de recuperar.

Os profissionais da saúde são capazes de gerar competências cognitivas e metacognitivas, apropriar-se de saberes socialmente válidos e reproduzi-los, no contexto onde lhes corresponda atuar em sua prática profissional.

Segundo Paulo Freire, é necessário poder se questionar: Por que não discutir com os alunos a realidade concreta a que se deve associar a matéria cujo conteúdo se ensina? Por que não estabelecer um elo entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social, que eles possuem como indivíduos?(17)

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a Comissão Interamericana para o Controle do Abuso de Drogas/CICAD da Subsecretaria de Segurança Multidimensional da Organização dos Estados Americanos/OEA, a Secretaria Nacional Antidrogas/SENAD, aos docentes da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Centro Colaborador da OMS para o desenvolvimento da pesquisa em enfermagem, a população da amostra dos estudos e aos representantes dos oito países Latinoamericanos que participaram do I e II Programa de Especialização On-line de Capacitação e Investigação sobre o Fenômeno das Drogas - PREINVEST oferecido no biênio 2005/2006 pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, na modalidade de ensino a distância.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em: 31.8.2007
Aprovado em: 18.12.2007

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