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Revista Latino-Americana de Enfermagem

On-line version ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.18 no.2 Ribeirão Preto Mar./Apr. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692010000200015 

ARTIGO ORIGINAL

 

Concepções e sentimentos de enfermeiros que atuam no atendimento pré-hospitalar sobre a prática e a formação profissional

 

 

Evânio Márcio RomanziniI; Lisnéia Fabiani BockII

IEnfermeiro, Pronto Atendimento Médico Cruzeiro do Sul, RS, Brasil, e Hospital Geral de Porto Alegre, RS, Brasil. Pós graduando do programa de Pós - Graduação em Enfermagem em Cardiologia, Instituto de Cardiologia de Porto Alegre, RS, Brasil. E-mail: maromanzini@yahoo.com.br
IIEnfermeira, Hospital Moinhos de Vento de Porto Alegre, RS, Brasil. Professor, Centro Universitário Metodista do Sul - IPA, Brasil. Doutoranda, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Universidade Federal de Santa Catarina, SC, Brasil. E-mail: ffabibock@hotmail.com

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este é estudo descritivo, com abordagem qualitativa, e teve como objetivo identificar os sentimentos resultantes da atuação e formação dos enfermeiros do serviço de atendimento pré-hospitalar (APH) móvel de urgência. Foram entrevistados 9 enfermeiros, em setembro de 2007. Utilizou-se a técnica de análise de conteúdo de Bardin, que auxiliou na formação de seis categorias: “sentimentos despertados no APH”, “experiências decorrentes no dia a dia do trabalho”, “atividades do enfermeiro no APH”, “preparo pessoal e profissional”, “refletindo sobre a formação profissional” e “percepção do enfermeiro sobre o APH”. A importância deste trabalho reside na necessidade de enfermeiros com capacitação pessoal, profissional e emocional, também no reconhecimento e valorização da atuação da enfermagem nesse Serviço. Os resultados revelaram que os enfermeiros do APH se sentem seguros, preparados e motivados para atuar, experimentam diversos sentimentos como compaixão, gratidão, raiva, pena, tristeza, ansiedade, e consideram como motivador o reconhecimento e a possibilidade de restaurar vidas.

Descritores: Serviços Médicos de Emergência; Enfermagem em Emergência; Equipe de Assistência ao Paciente; Primeiros Socorros; Socorro de Urgência.


 

 

Introdução

Ao longo da história, a enfermagem teve participação marcante na prestação de socorro, no atendimento inicial e resgate de doentes e feridos de guerras. Na sociedade moderna outra guerra não declarada, “a das causas violentas, doenças cardiovasculares, respiratórias e metabólicas”, é a principal responsável pela mortalidade decorrente de situações de urgência/emergência(1-3).

O atendimento pré-hospitalar (APH) surge no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, em 1893, como medida de intervenção por parte do Estado, através do Setor de Saúde e Segurança Pública, como forma de proporcionar atendimento precoce, rápido, com transporte adequado a um serviço emergencial definitivo, a fim de diminuir os riscos, complicações, sequelas e aumentar a sobrevida das vítimas. Existem hoje dois modelos de atuação dos serviços de APH: o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), de origem francesa, com equipes compostas por médicos especialistas na área de emergência, e o modelo americano que inclui os técnicos em emergências médicas no nível básico, intermediário e paramédicos(2).

Em Porto Alegre, o SAMU foi implantado através de termo de cooperação com a França, em 1995, e utiliza modelo mesclado de atuação, com médico regulador que decide o envio de uma unidade básica, composta por um técnico de enfermagem, ou suporte avançado com enfermeiro e médico, ou veículo rápido com médico para dar apoio à unidade básica(2-4).

O APH compreende as ações iniciais realizadas em curto espaço de tempo pela equipe de resgate no local onde ocorre o agravo à saúde, seja ele traumático, clínico ou psíquico. A remoção das vítimas com segurança e com suporte de vida até um centro de atendimento hospitalar de referência tornou-se indispensável, atualmente. O enfermeiro, por estar inserido nesse cenário, encontra diversos desafios relacionados à operacionalização do serviço e sua formação pessoal/profissional(3,5-6).

A existência de lacunas na formação dos enfermeiros, aliadas às dificuldades apresentadas pelos acadêmicos de enfermagem em relação à teoria e a prática nas situações que envolvem a fragilidade humana, o preparo pessoal, o perfil legal necessário para atuar no APH e a necessidade de profissionais capacitados motivaram os pesquisadores para este estudo(6-7).

A importância deste estudo encontra-se na possibilidade de ampliar o conhecimento acerca do papel que os enfermeiros vêm desempenhando no APH, analisar o sentimento decorrente da prática do Serviço, as atribuições, competências, responsabilidades e a realidade dos enfermeiros, com o intuito de buscar subsídios para permitir que a enfermagem seja incluída, ativamente, como componente multiprofissional no processo decisório relativo às questões do APH.

Como forma de conhecer os sentimentos dos enfermeiros, relacionados à atuação e formação para o atendimento pré-hospitalar, estipularam-se como questões desta pesquisa: “quais os sentimentos dos enfermeiros que atuam no APH frente à sua prática e formação profissional? E quais as experiências decorrentes da prática?”

Com tais inquietações, este estudo teve como objetivo identificar os sentimentos dos enfermeiros que atuam no APH, relacionados à prática e à formação profissional.

 

Métodos

Trata-se de estudo qualitativo, descritivo, realizado com enfermeiros do serviço público de atendimento pré-hospitalar da cidade de Porto Alegre, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – SAMU, que concordaram participar do estudo.

Do total de enfermeiros existentes no Serviço, 9 foram entrevistados (56,2%), sendo a maioria do sexo feminino (88,8%), com idade entre 41 e 45 anos (33,3%) e tempo de formação entre 12 e 16 anos (44,4%). Do total, 66,7% eram especialistas, sendo 22,2% na área de urgência e emergência, 22,2% mestres e 11,1% doutores. A maioria tinha entre 5 e 7 anos de atuação no SAMU (66,6%) e foi unânime a aceitação de todos os enfermeiros em participar do estudo.

Foram excluídos os enfermeiros que não estavam exercendo suas atividades no período de setembro de 2007, ou que ainda não haviam realizado atendimento pré-hospitalar. As informações foram obtidas através de entrevista onde as falas foram gravadas, atendendo a um questionário com roteiro semiestruturado, elaborado pelos pesquisadores com cinco perguntas relacionadas à prática e à formação profissional, bem como às situações experienciadas no dia a dia no APH.

O estudo foi iniciado após ter sido aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Secretaria de Saúde de Porto Alegre, e autorização da Direção do Hospital de Pronto-Socorro e Coordenação do SAMU. A entrevista foi individual em datas aleatórias, em ambiente tranquilo nas bases de atendimento, conforme disponibilidade dos participantes.

O anonimato dos participantes foi mantido pela adoção de pseudônimos, utilizados na comunicação entre as equipes. Exemplo: Enfermeiro Alfa, Bravo, Charlie, Delta, Eco, Foxtrot, Golf, Hotel e Índia, de acordo com a ordem cronológica de realização das entrevistas. Todos os participantes assinaram e receberam uma cópia do instrumento de pesquisa e do termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), de acordo com o Art. 25 da Resolução 196/1996, do Conselho Nacional de Saúde.

Foi utilizada a análise de conteúdo proposta por Bardin, norteados pelos pressupostos da pesquisa qualitativa(8). As entrevistas foram transcritas na íntegra, mantidas a linguagem própria dos sujeitos, incluindo o tempo de pausa, de silêncio, aspectos comportamentais e manifestações corporais demonstradas pelos entrevistados.

A elaboração de categorias para análise dos conteúdos permitiu fazer relações entre as falas, o pensamento e o objeto, porque eles estão envolvidos um no outro, tornando possível a construção de um saber intersubjetivo(9).

 

Resultados e discussões

Através dos dados obtidos significativos e fiéis e da fundamentação teórica, deu-se a interpretação e propostas aos objetivos do trabalho, sendo elaboradas seis categorias, relacionadas ao atendimento pré-hospitalar.

Primeira categoria: “sentimentos despertados no atendimento pré-hospitalar”

A presente categoria apresenta os sentimentos despertados durante e após a prestação do socorro e resgate do paciente. Os sentimentos são diversos e chocam emocionalmente os profissionais devido à violência de algumas cenas, sendo sempre uma novidade para o enfermeiro do APH.

Enfº Bravo - Compaixão, segurança, de uma certa maneira um orgulho pessoal, às vezes indignação e por fim uma grande satisfação. Existe um reconhecimento por parte do paciente e de sua família, o que tu não tem no dia a dia no intra-hospitalar.

Enfº Charlie - Cada cena, cada atendimento é diferente, já senti raiva, já senti pena [...], tristeza, dá para sentir todas as emoções que existem e que tu pode descrever.

Enfº Delta - Ansiedade, receio, não saber o que encontrar e depois de atuar ver os resultados: algumas vezes satisfação, outras vezes frustração, na verdade os sentimentos são diversos, [...] tem momentos em que a gente está atendendo situações entre policiais, fugitivos [...] surgem ambiguidades, tu não tem como fugir disso, posso estar atendendo alguém que poderá estar assaltando a minha família no futuro.

Os relatos dos enfermeiros Bravo, Charlie e Delta demonstram a constante preocupação em prestar assistência visando a vítima como um todo, valorizando inclusive o contexto social em que ela está inserida, sendo essa uma característica fundamental da Enfermagem - ter empatia pelas pessoas, buscando atendê-las de forma integral, mesmo nas situações de emergência, o que é plenamente notado através dos diversos sentimentos adquiridos e manifestados pelos enfermeiros do APH.

Segunda categoria: “experiências decorrentes no dia a dia do trabalho”

São considerados positivos os atendimentos de ocorrências, onde a equipe do APH consegue resgatar, estabilizar a vítima e transportá-la, fornecendo suporte de vida, até a um hospital de referência, mesmo se ela já estiver em parada cardiorrespiratória (PCR), por exemplo, ou com outros tipos de traumas graves. Os enfermeiros consideraram positivo também as atitudes de reconhecimento e gratificação que recebem das pessoas pelo serviço prestado.

As experiências negativas estão relacionadas às constantes mudanças de membros das equipes, ao preparo insuficiente dos médicos e da enfermagem, recém-ingressos no APH, o despreparo das pessoas na rua, as ocorrências onde houve falhas na comunicação e também quando a unidade móvel chega ao local da ocorrência e já é tarde demais. Isto é, quando já não há o que fazer, quando a vítima já está morta ou é criança.

Quando o atendimento ocorre dentro daquilo que é estipulado, a equipe consegue trabalhar integrada, não ocorrem falhas significativas e o atendimento é realizado de forma adequada, mesmo que não haja sucesso na tarefa de salvar a vida, é considerado positivo para a equipe, porque conseguiu fazer o que tinha que ser feito da melhor maneira possível.

Enfº Alfa - Ah eu creio que as positivas são de restaurar a vida [...], muitas vezes a gente não consegue [...]. Atendi uma moça que tinha sido esfaqueada no abdômen ah... ela era garota de programa, tinha eviceração [...], estava muito mal, pálida, tinha perdido muito sangue. Depois de três dias ela veio agradecer e escreveu uma carta muito emocionada. Tínhamos mudado a vida dela e já estava com outra perspectiva de vida.

Enfº Bravo - Foi uma situação de um rapaz de 22 anos que estava dormindo e quando foi se virar não conseguiu [...] entre resgatá-lo e entregá-lo no Hospital da PUC/RS, levamos 25 minutos e quando o entregamos, ele já estava com disfasia, tinha ficado midriático e pálido [...]. Há algum tempo atrás, caminhando, ele foi nos agradecer na base. A gente tem a convicção, que se não fosse a ação imediata do pré-hospitalar esse menino hoje, certamente estaria plégico e sem se comunicar.

Enfº Golf - Acabei de chegar de uma experiência extremamente positiva. Fomos atender uma PCR, um senhor de 50 anos teve um mal súbito, tiramos ele do carro e o deitamos no asfalto, ficamos 50 minutos em manobras de reanimação, revertemos e o paciente está bem, está vivo aqui no Politrauma.

A presença de enfermeiro no atendimento das ocorrências proporciona maior segurança na tomada de decisões e tranquilidade à equipe, além de ter iniciativa e satisfação em ajudar, sem medir esforços, agindo sempre em benefício do paciente. O enfermeiro como membro da equipe contribui na realização das intervenções e procedimentos durante o atendimento a fim de aumentar a sobrevivência das vítimas(10-11).

Os discursos dos enfermeiros Alfa, Bravo e Golf revelam que eles se sentem gratificados quando conseguem restabelecer ou preservar a vida e a integridade das vítimas. Motivo de satisfação pessoal e profissional, principalmente quando há o reconhecimento manifestado por parte do próprio paciente ou de familiares e amigos.

As dificuldades apontadas pelos enfermeiros são decorrentes da organização do APH, da relação entre os membros das equipes, da exposição desnecessária aos riscos das cenas e da relação com a população.

Enfº Alfa - Um fato negativo é quando a equipe não está preparada, desde a equipe médica até a equipe de enfermagem. Na prefeitura isso acontece muito, porque entram muitos médicos novos e demoram a pegar a rotina do APH.

Enfº Bravo - A gente estava atendendo uma PCR em via pública, [...] o paciente no chão e o familiar chutou as costas do socorrista que estava fazendo a massagem cardíaca [...], toda situação de urgência numa família, com um ente querido, gera um estresse, que as pessoas agem de maneira que às vezes não conseguem realmente controlar.

Enfº Eco - Eu tive uma situação de ter que entrar num beco comprido, com um policial armado e não podendo dizer não, porque tinha uma população atrás. Não nos disseram que as pessoas já estavam mortas, e nos expuseram sabendo que a gente não iria poder fazer nada. Ser exposto desnecessariamente é bem ruim.

Enfº Golf - A primeira ocorrência que atendi foi uma menina de 16 anos que se suicidou, então nós chegamos ao local e não tinha mais o que fazer [...] achei que a equipe se desequilibrou. Nós não conseguimos manter a integridade da equipe na cena, era o pai desesperado porque ela tinha se matado com a arma dele.

As falhas de comunicação, atrasos no atendimento, chegar tarde demais ao local do agravo, vítima morta, ou quando tem crianças envolvidas, são situações que podem desestabilizar as equipes. No entanto, possibilitam momentos de reflexão e conscientização, de que nem tudo pode ser perfeito, que existem falhas, e que devem servir de aprendizado e amadurecimento pessoal e profissional.

Terceira categoria: “atividades do enfermeiro no atendimento pré-hospitalar”

Identifica, através dos depoimentos dos enfermeiros do APH, as principais responsabilidades e atribuições no planejamento, organização e prestação do Serviço.

Enfº Eco - Na base o enfermeiro tem responsabilidade de conferir a ambulância, é responsável pelo material e pela assistência nas ocorrências [...] e também pela supervisão do motorista.

Enfº Alfa - A coordenadora é a gerente, que faz a parte de planejamento e acompanhamento. O enfermeiro está vinculado direto às UTIs móveis [...] observando as intercorrências [...]. É o enfermeiro que organiza, passa plantão, faz o chek-list diário dos equipamentos e materiais que passam por todas as bases.

Enfº Hotel - Gerenciar uma equipe de cento e poucos funcionários [...] O enfermeiro coordena a sua base, vai contribuir com a coordenação de enfermagem em termos de sugestões às questões que estão surgindo no dia a dia [...].

A presença de enfermeiro é de fundamental importância na assistência direta às vítimas, na capacitação técnica das equipes, na elaboração de protocolos de atendimentos e material didático e na supervisão do pessoal. Proporciona atendimento mais rápido, organizado, seguro e tranquilo, sendo considerado um ponto de apoio para as equipes(3-10).

Quarta categoria: “preparo pessoal e profissional”

Identificou-se como os enfermeiros se sentem em relação ao seu preparo pessoal e profissional para atuar no APH, considerando a recente existência do Serviço, a formação dos enfermeiros e o seu tempo de atuação no SAMU de Porto Alegre. Também, ficou evidente o preparo emocional para agir em situações de estresse e pressão psicológica, tendo em vista as peculiaridades do Serviço.

Enfº Golf - Quando entrei no SAMU, encontrei bastantes dificuldades [...], o atendimento na rua é muito diferente [...], a gente tem que lidar com o paciente, com a população, com a situação de risco da cena [...]. Tem que ter um preparo mais emocional que técnico [...] lidar com situações que estão no limiar da paciência [...], as pessoas se metem [...] tentando ajudar, muitas vezes somos agredidos.

Enfº Alfa - Na minha graduação, eu não tive nada relacionado com o pré-hospitalar [...] Quando eu vim para o SAMU [...] tive que incorporar tudo aqui dentro do serviço mesmo.

Estudos anteriores indicam que existe pouca atenção das escolas formadoras, em relação à preparação para a atuação no atendimento pré-hospitalar(6-7,10).

Enfº Índia - A faculdade não nos prepara para o atendimento pré-hospitalar [...]. Eu realmente cheguei sem saber absolutamente nada, aprendi tudo no Serviço.

Enfº Bravo - Hoje eu me sinto extremamente segura de tudo aquilo que faço, não tenho a menor dúvida das atitudes que eu tomo.

Estudo, realizado no SAMU de São Paulo, analisou o conhecimento necessário para o enfermeiro atuar no APH. Os resultados indicaram que os conhecimentos preconizados na Portaria nº2048/02 do Ministério da Saúde são básicos. Consideraram essenciais atualizações teóricas, desenvolvimento de habilidades técnicas, tomada de decisões, prontidão, destreza e saber atuar em situações de alto estresse, ou com população específica, o que indica a necessidade de programas específicos de capacitação para o atendimento pré-hospitalar(12).

Quinta categoria: “refletindo sobre a formação profissional”

A fim de fornecer subsídios à discussão sobre o perfil legal exigido para atuar no APH e a formação dos enfermeiros, investigou-se o que faltou ou o que poderia ter sido diferente durante a formação dos enfermeiros.

Enfº Alfa - Na minha formação acadêmica não se falava em pré-hospitalar [...]. Somos treinados para trabalhar no hospital, onde tudo é mais acessível, onde tem profissionais à sua volta e não para atuar sozinho na rua [...]. Dentro da disciplina de emergência poderia se estender um leque para se falar um pouco do atendimento.

Enfº Foxtrot - Não era tão organizado como agora, eu sou formada há doze anos e o SAMU tem onze, então faltou um estágio nessa área, um estágio de observação, de atuação nessa área [...].

Enfº Índia - Sobre trauma, não se aprende absolutamente nada na faculdade, nada. O pré-hospitalar é uma área [...] que tu tem que ter afinidade com a emoção forte, controlar tua emoção. Na hora, tu tem que agir, sem tempo para pensar.

Os cursos de enfermagem ainda estão procurando se adaptar às necessidades do momento, de acordo com a evolução social ocorrida, embora alguns aspectos ainda necessitem ser repensados e reformulados(6,11).

Enfº Hotel - Não existe estágio para os acadêmicos de enfermagem no atendimento pré-hospitalar. Acho necessário, pois o pré-hospitalar está aí e veio para ficar [...], hoje tem SAMU em todas as capitais do Brasil e nas grandes cidades.

A formação acadêmica dos enfermeiros é generalista e ainda não contempla a necessidade legal, exigida no APH, de um enfermeiro capaz de enfrentar desafios muitas vezes maiores que os da prática intra-hospitalar(6,12).

Enfº Golf - Eu sou avaliadora de um programa de acreditação e acho que a formação acadêmica tem que mudar. Cobrar mais na postura do aluno diante do paciente [...], a postura está muito inadequada [...], as pessoas subestimam as queixas dos pacientes [...] se referem às pessoas de uma forma pouco ética. O pessoal sai muito cru da faculdade, mas a gente nota que algumas pessoas são melhores em função desta postura [...], profissionais não podem se formar assim com tanta facilidade [...] eu acho que eles têm que sofrer mais.

Os enfermeiros têm buscado formas para compensar essa lacuna e complementar sua formação, através de cursos e treinamentos como o Advanced Cardiac Life Suport (ACLS), Advanced Trauma Life Support (ATLS), Pré hospital Trauma Life Support (PHTLS) ou até mesmo do Basic Life /Support (BLS), mas, mesmo assim, não foram considerados suficientes para as reais exigências do APH, devido às dificuldades de adaptação em laboratório das situações reais encontradas na prática do Serviço, como o difícil acesso ao local onde se encontram as vítimas, ou de atendimentos no interior de ambulâncias(6,12).

Sexta categoria: “percepção do enfermeiro sobre o APH”

São muitos os desafios e dificuldades encontradas pelos enfermeiros no ingresso ao APH, mas mesmo assim eles têm conquistado seu espaço, realizando com sucesso a prestação do cuidado que é a principal função da Enfermagem.

Enfº Golf - É muito bom trabalhar no SAMU [...] é o lugar que me traz satisfação [...], eu fico pensando que daqui a pouco eu vou ter que sair, mas eu não consigo ver outro lugar para trabalhar fora do pré-hospitalar. É o lugar que mais me agradou.

A motivação para realizar o trabalho com dedicação, com amor e com eficiência vem da satisfação em pertencer ao SAMU e atuar no APH, sentimentos que refletem a valorização e reconhecimento que recebem.

Enfº Charlie - O enfermeiro do pré-hospitalar é um “megaenfermeiro”, tem que dominar as patologias, as técnicas e protocolos para ser um bom enfermeiro.

Os relatos indicam que o enfermeiro que atua no pré-hospitalar é profissional diferenciado, possuidor de grande habilidade técnica, equilíbrio emocional e preparo pessoal.

Enfº Hotel - No início tu te assusta, mas no momento que tu começa a te envolver com o pré-hospitalar é uma coisa fascinante, tu acaba se apaixonando [...]. Acaba tomando ciência de como está toda a rede de atendimento.

A grande mobilidade do serviço de APH proporciona ao enfermeiro do SAMU a possibilidade de observar e avaliar a situação de saúde do município.

Enfº Bravo - Eu espero que os enfermeiros realmente assumam isso como uma profissão independente [...]. Na medida em que tu tens o conhecimento, tu passas a ser respeitado, e a gostar mais do que tu faz. Eu pessoalmente estou realizada como enfermeira.

Mudanças em relação à formação acadêmica estão surgindo, embora com certo atraso, em relação às necessidades reais observadas e no nível profissional dos enfermeiros que já atuam no APH.

 

Considerações finais

Os sentimentos relacionados ao APH, evidenciados neste estudo, caracterizam o APH como Serviço que exige capacidade profissional, conhecimentos gerais, específicos, domínio de técnicas, patologias, protocolos, capacidade de liderança, gerenciamento e equilíbrio emocional. É o lugar onde os enfermeiros entrevistados encontraram maior satisfação, realização pessoal e profissional, além da valorização e reconhecimento pelos pacientes/vítimas, família, população e pelo próprio Serviço.

Quanto à formação profissional dos enfermeiros, o estudo evidenciou a necessidade de maior exigência das escolas formadoras em relação à postura adequada dos acadêmicos diante dos pacientes e a necessidade de realização de estágios de observação e atuação no APH, durante a graduação.

O estudo realizado em São Paulo, em 2008, com enfermeiros atuantes no APH, com o objetivo de verificar a opinião dos mesmos sobre o conhecimento teórico e habilidades de enfermagem necessários para o exercício em APH, comprova a necessidade da aquisição de habilidades e competências específicas, reforçando a importância da capacitação na área(12).

Isso novamente é evidenciado nesta pesquisa, realizada em Porto Alegre, onde os enfermeiros relatam que a preparação para atuar no APH é adquirida dentro do SAMU e através de cursos, treinamentos e do aprendizado contínuo no Serviço. Nenhum dos enfermeiros desta pesquisa recebeu preparação específica sobre APH durante a formação acadêmica, no entanto, consideram a experiência anterior no intra-hospitalar como importante para o desempenho da função.

O enfermeiro do APH, além das atribuições e responsabilidades específicas de assistência e tudo o que envolve a assistência, também contribui nas ações de planejamento, organização e coordenação gerencial do SAMU.

As experiências positivas relatadas foram consideradas relevantes na medida em que servem de estímulo para a adequada prestação do Serviço. Já as experiências negativas, embora possam desestabilizar as equipes, muitas vezes servem de base para entender a realidade de algumas populações e motivam o trabalho de conscientização e educação das pessoas na prevenção de acidentes e agravos à saúde.

As maiores dificuldades evidenciadas foram relacionadas ao ingresso no Serviço, ao preparo acadêmico insuficiente, às adversidades do cenário, à exposição aos riscos das cenas e público e à falta de apoio psicológico.

Os enfermeiros do APH vêm conquistando e preservando o seu espaço através da busca de novos conhecimentos, da conduta que possuem e do trabalho que realizam. As lacunas encontradas nesta pesquisa, bem como a carência de estudos publicados sobre a temática que envolva a prática e formação dos enfermeiros no APH, impedem esgotar o assunto e indicam a necessidade de realização de novos estudos de revisão de literatura, reflexão, relatos de experiência e pesquisas de campo na área. Cabe ressaltar que devido às limitações deste estudo, não se pode generalizar seus resultados a toda a categoria, no entanto, é possível afirmar que esses resultados revelam a realidade de um serviço de uma capital do Brasil. Espera-se, com esta pesquisa, contribuir para o desenvolvimento científico dessa especialidade e ampliar as discussões sobre a formação e a prática profissional dos enfermeiros de APH, possibilitando melhorias no ambiente de trabalho e propiciando o desenvolvimento de prática saudável.

 

Referências

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Endereço para correspondência:
Lisnéia Fabiani Bock
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E- mail: ffabibock@hotmail.com

 

 

Recebido: 23.3.2009
Aceito: 7.10.2009

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