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Revista Latino-Americana de Enfermagem

versão impressa ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.18 no.3 Ribeirão Preto maio/jun. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692010000300025 

ARTIGO DE REVISÃO

 

O estudo científico da felicidade e a promoção da saúde: revisão integrativa da literatura1

 

 

Fabio Scorsolini-CominI; Manoel Antônio dos SantosII

IPsicólogo, Especialista em Gestão Educacional, Mestre em Psicologia. E-mail: scorsolini_usp@yahoo.com.br
IIPsicólogo, Doutor em Psicologia, Professor Doutor, Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, Universidade de São Paulo, SP, Brasil. E-mail: masantos@ffclrp.usp.br

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Objetivou-se traçar o perfil das publicações acerca do conceito de bem-estar subjetivo (BES), considerado o estudo científico da felicidade e discutir o impacto do conhecimento acumulado para a promoção da saúde. A revisão foi realizada nas bases PubMed, MEDLINE, PsycINFO, SciELO, LILACS e PEPSIC a partir do descritor subjetive well-being. Foram selecionados artigos publicados em periódicos indexados no período de 1970 a 2008. A partir dos critérios de inclusão/exclusão foram recuperados 19 trabalhos, na íntegra, para discussão. A maioria é relativa à área de saúde e não aborda diretamente o conceito de BES, mas o evoca juntamente com as noções de bem-estar, satisfação e qualidade de vida. Poucos trabalhos abordam a conceitualização do termo ou definem os instrumentos utilizados para a mensuração do BES. Concluindo, os resultados confirmam a atualidade e pertinência do tema para a promoção da saúde e a necessidade de investigações relacionadas à prática dos profissionais de saúde.

Descritores: Felicidade; Literatura de Revisão como Assunto; Promoção da Saúde.


 

 

Introdução

Os estudos científicos, acerca da felicidade ou do bem-estar subjetivo (BES), ganharam impulso com o advento da Psicologia Positiva, notadamente a partir da década de 1990, que propôs mudança de foco: da reparação de aspectos negativos e das doenças para a promoção da saúde e de aspectos positivos do ser humano. Ao analisar os artigos relacionados à temática da felicidade, ou do BES, publicados neste periódico, nos últimos anos, percebe-se que a literatura científica recente tem se ocupado com noções correlatas, como a qualidade de vida(1-2), a satisfação(3) e a promoção da saúde(4), porém, resta ainda lacuna em termos de estudos específicos do conceito de bem-estar subjetivo (BES) e suas dimensões constitutivas.

No âmbito do conhecimento científico, o termo “felicidade” tem sido traduzido por bem-estar subjetivo. Assim, o construto bem-estar subjetivo (BES) tem sido concebido como o estudo científico da felicidade, estando fortemente relacionado à promoção de saúde. Trata-se de experiência interna de cada indivíduo que emite um julgamento de como a pessoa se sente e o seu grau de satisfação com a vida. Prévio levantamento bibliográfico, em outras bases de dados, apontou que, atualmente, as pesquisas direcionam-se para a busca de conceituação mais precisa, além da proposição de estratégias para investigar esse construto de maneira ampla e sistemática. Essa evolução é esperada em se tratando de uma área emergente do conhecimento, para a qual converge multiplicidade de olhares teóricos possíveis. Assim, uma série de questões conceituais e metodológicas ainda não foram equacionadas, o que justifica um olhar que perscrute e examine o estado da arte. Importante enfatizar que, dada a carência de estudos nacionais(5), torna-se difícil estabelecer comparações com a produção internacional, na qual predominam trabalhos na perspectiva transcultural, fortemente relacionados a indicadores econômicos, condições de trabalho e características socioculturais(6-7). Este estudo teve por objetivo sistematizar uma revisão da literatura nacional e internacional sobre esse tema. Para tanto, foi realizado levantamento bibliográfico, cujos resultados serão apresentados e discutidos no presente estudo.

Felicidade e bem-estar subjetivo (BES)

A felicidade pode ser definida como a predominância da frequência de ocorrência de experiências emocionais positivas sobre as negativas(8). A qualidade de vida é subdividida em duas dimensões: bem-estar objetivo (welfare), que abarca as circunstâncias objetivas da vida (renda, educação, saúde, lazer, transporte, entre outros domínios) e bem-estar subjetivo (well-being), explicitado pelas experiências subjetivas da vida(9). O estudo do bem-estar subjetivo (BES) tem como objetivo central compreender a avaliação que as pessoas fazem de suas vidas, podendo receber outras denominações, tais como felicidade, satisfação, estado de espírito, afeto positivo, sendo também considerado por alguns autores como avaliação subjetiva da qualidade de vida. Nota-se a tendência contemporânea para relacionar o BES à promoção de saúde. As delimitações desses conceitos ainda são confusas e, consequentemente, a operacionalização em termos de medida mostra-se muitas vezes deturpada(5).

Discorrendo sobre os fatores que influenciam o bem-estar subjetivo, alguns autores sustentam que se trata de construto que sofre influência tanto dos aspectos culturais (experiências compartilhadas que formam a base de um modo similar de se ver o mundo) como da hereditariedade(5,9). O sentido das experiências dos indivíduos é construído socialmente por meio de crenças, pressuposições e expectativas sobre o mundo. Como a cultura influencia a personalidade e a personalidade influencia a cultura, em relação de reciprocidade, ambos os níveis de análise são considerados fundamentais para o entendimento do BES dentro de uma perspectiva sociocultural.

 

Objetivo

O objetivo deste estudo foi apresentar uma revisão da literatura científica acerca do bem-estar subjetivo (BES), buscando evidenciar o perfil dos trabalhos publicados nas fontes de indexação de maior impacto, nos âmbitos nacional e internacional, de modo a possibilitar maior direcionamento dos estudos relativos a esse conceito.

 

Percurso metodológico

Tipo de estudo

Trata-se de revisão integrativa(10) que sumariza pesquisas passadas e tira conclusões globais de um corpo de literatura em particular. Esse tipo de revisão permite a construção de análise ampla, contribuindo para discussões sobre métodos e resultados de pesquisa, assim como reflexões sobre a realização de futuras pesquisas. É necessário, portanto, seguir padrões de rigor, clareza e crítica na revisão da literatura, de forma que o leitor possa identificar as características mais salientes dos estudos revisados(11).

Na operacionalização desta revisão, foram utilizadas as seguintes etapas: seleção da questão temática, estabelecimento dos critérios para a seleção da amostra, análise e interpretação dos resultados e apresentação da revisão.

Marco teórico

O BES é construto que vem sendo estudado a partir da perspectiva da Psicologia Positiva(12). Esse enfoque teórico é concebido como o estudo científico das forças e virtudes próprias do indivíduo, investigando-se os sentimentos, emoções e comportamentos positivos, que têm como objetivo final promover a felicidade humana. É o enfoque científico e aplicado da descoberta das qualidades das pessoas e da promoção de seu funcionamento positivo(12).

Ainda que tenha um corpo de conhecimento constituído recentemente, a partir do início da década de 1990, tem se expandido extraordinariamente. A ciência e a prática da Psicologia Positiva estão direcionadas para a identificação e a compreensão das qualidades e virtudes humanas, bem como para o auxílio no sentido de que as pessoas tenham vida mais feliz e produtiva.

Procedimento

Para operacionalizar a busca nas bases de dados foi utilizado o descritor (termo de busca) subjetive well-being ou bem-estar subjetivo, consultando-se as seguintes bases indexadoras: PubMed, MEDLINE, PsycINFO, SciELO, LILACS e PEPSIC.

Foram adotados critérios de inclusão e exclusão para recuperação dos trabalhos. Excluídos trabalhos como teses, dissertações, livros e capítulos de livros - exceto aqueles que abordavam diretamente o BES. Essa escolha metodológica objetivou eliminar publicações que não passaram por rigorosa avaliação e revisão por pares, de modo a se selecionar apenas a literatura indexada, complementada por trabalhos na íntegra, oriundos de livros com padrão editorial qualificado. Foram excluídos relatos de pesquisas de áreas distanciadas da Psicologia, a menos que estivessem estritamente relacionados aos aspectos subjetivos envolvidos no processo saúde-doença. Também foram descartados da revisão estudos não relacionados diretamente com o BES.

Em termos do período abrangido pela revisão, aferido pela data de publicação dos trabalhos, foram selecionados estudos publicados entre os anos 1970 e 2007. Em relação ao idioma da publicação, a busca restringiu-se aos trabalhos publicados nos idiomas português, inglês, espanhol e francês.

Após o levantamento das publicações, os resumos foram lidos e analisados, segundo os critérios de inclusão/exclusão estabelecidos. Os trabalhos selecionados por meio desse crivo foram recuperados na íntegra e analisados em profundidade.

Após a leitura dos resumos e a recuperação dos trabalhos, selecionados na íntegra, procedeu-se ao fichamento dos mesmos, de acordo com formulário delineado para essa finalidade, de modo a dar visibilidade aos principais atributos de cada produção (assunto, idioma e ano de publicação, periódico, objetivos, referencial teórico, método empregado - tipo de estudo, participantes, instrumentos utilizados - principais resultados e abrangência das conclusões). Desse modo, os artigos foram apreciados individualmente, segundo suas qualidades científicas. Após essa abordagem preliminar, foi realizada a leitura global do corpus de análise, constituído nas etapas anteriores da revisão integrativa, buscando-se delinear os eixos e tendências mais salientes no conjunto do material coligido.

O resultado dessa avaliação sistemática será apresentado e discutido na sequência. É importante destacar que alguns trabalhos foram capturados em mais de uma base consultada, motivo pelo qual o número de estudos selecionados não corresponde ao número de publicações.

 

Resultados e Discussão

Levantamento bibliográfico

Empregando-se os critérios de inclusão e exclusão adotados, foram localizados 121 trabalhos qualificados. A base de dados na qual foi encontrado maior número de publicações foi a PubMed. Todavia, a maior porcentagem de trabalhos selecionados é advinda da base PsycINFO, base internacional que indexa estudos da Psicologia e áreas afins. Esse resultado reflete a preocupação dos autores dos trabalhos em focalizar os aspectos psicossociais do construto.

Perfil dos trabalhos encontrados

Em relação ao idioma, a maior parte dos estudos foi publicada em língua inglesa, aparecendo também, em proporção reduzida, artigos nos idiomas português e espanhol. Não se encontrou nenhum estudo no idioma francês. O maior volume de trabalhos recuperados foi da área da saúde - cerca de 120 trabalhos, o que corresponde a mais da metade de todos os estudos encontrados. Nessa categoria, encontram-se trabalhos que abordam determinadas doenças, hábitos de vida, estudos sobre o impacto da utilização de técnicas específicas na saúde das pessoas, tecnologia médica e prática clínica. São pesquisas com enfoque médico, que trabalham na perspectiva do processo saúde/doença, encontradas, em sua maioria, na base PubMed, que concentra estudos produzidos no contexto da área da saúde, com enfoque médico e de áreas correlatas. No entanto, como o foco da revisão integrativa era o bem-estar subjetivo de modo amplo, e não a sua vertente puramente biomédica, os trabalhos de cunho eminentemente biológico não foram selecionados para análise na presente revisão.

O segundo eixo temático de maior expressão está representado por produções que apresentam revisões da literatura sobre o BES, totalizando 11 trabalhos. São artigos que abordam o conceito de BES, com revisões críticas da literatura que relacionam o BES a outros construtos, com os quais guarda certa proximidade conceitual, como o de bem-estar psicológico e senso de controle pessoal. Outra vertente de trabalhos encontrada é a que se refere ao desenvolvimento, aplicação ou estudo sistemático de instrumentos de medida, tais como escalas e questionários, que estejam direta ou indiretamente ligados ao BES (sete artigos) e à qualidade de vida no trabalho (oito). Outro eixo de destaque se refere às pesquisas que abordam a influência da cultura nos estudos sobre a felicidade e BES (quatro trabalhos). Outras categorias encontradas foram constituídas por trabalhos que abordam a inclusão e/ou ajustamento social (dois trabalhos), psicoterapia (dois trabalhos), relacionamentos em geral (dois trabalhos), psicopatologia (um trabalho) e violência (um trabalho). Observaram-se, ainda, outras produções com propósitos muito específicos e que não chegaram a constituir propriamente uma categoria de análise.

Em relação à população pesquisada nos estudos específicos sobre o conceito de bem-estar subjetivo, a maioria das pesquisas incluídas focaliza a população idosa. Em relação ao ano de publicação, percebe-se que todas as produções selecionadas datam de 2001 em diante, o que mostra a atualidade do tema e sua circulação científica recente. Na seleção empreendida no presente estudo, as publicações científicas estão concentradas no ano 2005. Contudo, devido ao número restrito de trabalhos selecionados, é preciso relativizar esse aspecto, embora se deva salientar a alta produtividade constatada na primeira década do novo milênio, o que confere relevo ao tema e confirma seu interesse para a prática clínica na área da promoção da saúde.

Análise dos estudos incluídos

O primeiro estudo selecionado apresenta revisão de trabalhos sobre bem-estar subjetivo, publicados em âmbito internacional nos últimos anos, estabelecendo vinculação dos mesmos à dimensão epistemológica do conceito de bem-estar(6). O autor considera que a crescente produção científica atual, acerca do tema, deve ser analisada segundo um movimento que busque compreender a importância dos fatores que levam à saúde, sob perspectiva positiva. Para que uma intervenção seja efetiva no sentido de prevenção e promoção da saúde, é importante que haja compreensão das complexas interações que determinam o bem-estar subjetivo nos níveis macrossocial, microssocial e individual(13).

Em outro estudo selecionado, os autores apresentam os resultados de uma investigação que teve por objetivo determinar os índices de felicidade e BES, e sua relação com o comportamento acadêmico de estudantes universitários de diferentes instituições de ensino superior(14). Os instrumentos utilizados foram: questionário de dados biográficos e escalas sobre o sentimento de felicidade, satisfação e BES.

Em outra publicação, incluída no presente estudo, os autores investigaram a configuração da rede de relações sociais de adultos e a satisfação relatada quanto às suas relações(15). Esse trabalho mostrou que as pessoas que apresentam maior satisfação com a vida atual são aquelas que recebem mais suporte afetivo. Em outro estudo análogo, o autor comenta as teorias de cientistas que se dedicaram ao estudo do BES, como Diener, Lucas e Scollon, e coloca em discussão a escala de BES do Questionário Multidimensional de Personalidade (Multidimensional Personality Questionnaire - MPQ)(16). Segundo o estudo, dentre diversos aspectos apontados, Diener teria falhado ao incorporar em sua teoria a noção de hereditariedade, sustentando a tese de que a mesma afetaria o BES.

Foi investigado, numa população de idosos, como os níveis de satisfação do afeto, reforço comportamental e status, bem como as necessidades sociais humanas relacionadas à idade, perda física e bem-estar subjetivo podem estar correlacionados(17). Segundo os resultados da pesquisa, o afeto apresentou forte correlação com a idade, ao passo que o status mostrou baixa correlação. O afeto e o reforço comportamental apresentaram forte correlação com satisfação com a vida, o status e o reforço foram positivamente relacionados aos afetos positivos e negativamente relacionados aos afetos negativos.

Considerando as evidências disponíveis, outra investigação afirma que o BES é um sistema dinâmico frente à possibilidade de enfrentamento da adversidade(18). Para o autor deste estudo, o BES operaria de diversos modos no nível experiencial, afetando dimensões como o comportamento social. Por esse prisma, a felicidade deveria ser investigada dentro de um cenário específico, em um processo contínuo e constante(18), considerando seu dinamismo peculiar.

Outros autores apresentaram estudo teórico que aborda a influência das crenças no modo como as pessoas analisam a sua própria vida e regulam seus sentimentos, dentro do conceito de BES(19). O estudo salienta a relação entre o conceito de BES e outros correlatos, tais como pensamento positivo, felicidade, satisfação e otimismo. A felicidade corresponderia à diferença entre os afetos positivos e negativos, ambos vivenciados na vida diária em diversas situações e intensidades. Nessa concepção de BES, outro estudo relaciona o modelo de cognição social ao de satisfação com a vida(20). Segundo os achados dessa investigação, a variável relativa à satisfação com a vida é relacionada aos afetos positivos. Outra dimensão essencial do construto foi focalizada por investigação cujos resultados evidenciaram que a satisfação com a vida muda ao longo dos anos e com o passar da idade. Os autores sustentam, contudo, que essa flutuação depende de variáveis individuais(21).

Em outro trabalho selecionado, o autor menciona que as atuais pesquisas na literatura sobre o BES têm minimizado o impacto da prática clínica psicológica para a reflexão atual sobre essa noção(22). Esse artigo critica uma série de estudos que definem o que é BES a partir de suas causas, ou de suas correlações, com outros conceitos. Segundo o autor, deve-se pensar no BES enquanto uma noção distinta, que pode auxiliar o indivíduo em sua adaptação positiva à realidade(22).

Outros autores buscam aproximação com qualidade de vida, um construto crucial na promoção da saúde. Para eles, a qualidade de vida pode ser definida em termos da satisfação com a vida, o BES, a felicidade e a moral(23). O referido estudo investiga o efeito da demografia, das condições de saúde, da afetividade e da idade como fatores relacionados à dimensão subjetiva do conceito de qualidade de vida. As correlações obtidas revelaram o efeito das variáveis sociodemográficas e de saúde sobre a afetividade e a idade, bem como indicaram que os afetos positivos contribuem para a avaliação positiva da qualidade de vida.

Em outro estudo foi examinada a interação entre fatores culturais e variáveis de personalidade como preditores de aspectos afetivos e cognitivos, sendo ambos componentes do BES(24). Essa investigação confirmou a influência da personalidade na obtenção da satisfação com a vida, corroborando os resultados obtidos por outro estudo(25).

Em outra publicação selecionada, os autores abordaram o BES em sua relação com o bem-estar psicológico, que se refere às mudanças que ocorrem durante a vida das pessoas(26). Segundo pesquisa empírica, realizada nos Estados Unidos, com mais de três milhões de participantes, esses dois conceitos estariam intimamente relacionados e tenderiam a aumentar com o avanço da idade, do nível educacional e do comportamento extroversivo(26). Não se encontrou qualquer trabalho abarcando a relação entre esses dois construtos no contexto brasileiro, de modo a possibilitar comparações entre os achados em diferentes culturas.

No campo da economia, por meio de outro estudo, incluído nesta revisão integrativa, foi analisado o contexto social e sua relação com as avaliações de BES, felicidade e saúde(27). Os autores concluíram que fatores tais como manter bons níveis de relações familiares, casamento e engajamento social, por exemplo, aparecem como dimensões independentes do nível de bem-estar subjetivo, porém estão diretamente relacionadas à felicidade e à satisfação, produzindo impacto na saúde das pessoas. No último trabalho selecionado, os autores apresentam uma escala de avaliação do bem-estar e da qualidade de vida de pacientes que passaram por uma experiência de doença, partindo da autopercepção acerca de seus relacionamentos(28). Essa escala, entretanto, foi validada dentro do contexto hospitalar e guarda forte relação com aspectos peculiares como doença, saúde mental e o apoio recebido durante a internação, dentre outros aspectos.

Considerando as técnicas e instrumentos propostos nos estudos incluídos, não se constatou homogeneidade, uma vez que os raros estudos que abordam os instrumentos utilizados mensuram o bem-estar subjetivo de modo indireto, com exceção de uma pesquisa, de âmbito nacional, que validou um instrumento internacional de investigação desse conceito(5). Desse modo, ainda são relativamente poucos os estudos que contemplam a elaboração e utilização de instrumentos como o Questionário Multidimensional de Personalidade -MPQ(16). No entanto, cabe a ressalva de que tal instrumento, assim como outros mencionados em algumas pesquisas, não se propõe a investigar o bem-estar subjetivo especificamente, mas tangenciam esse construto. Assim, constata-se a carência de medidas válidas para o estudo do bem-estar subjetivo, tanto no nível nacional quanto no contexto internacional, o que aponta para a necessidade não apenas de construção de instrumentos padronizados como também de aperfeiçoamento daqueles já existentes, incluindo a adaptação e validação transcultural. A própria emergência da Psicologia Positiva, em um movimento ainda recente, pode contribuir para esse quadro, uma vez que o BES é um dos conceitos centrais nessa abordagem.

 

Considerações finais

De modo geral, nos limites da análise efetuada, pode-se afirmar que a maioria dos trabalhos revisados situa-se dentro da perspectiva da promoção da saúde. Os estudos específicos acerca do bem-estar subjetivo ainda não se destacam, de modo expressivo, na configuração do campo delineado por esta revisão. O movimento percebido, a partir da análise do panorama oferecido pela literatura, é que a produção científica atual, muito mais do que discutir a noção de BES, os problemas envolvidos em sua definição e os pressupostos teórico-conceituais que a sustentam, preocupa-se com o modo como o conceito pode ou deve ser aplicado à prática clínica, mais especificamente na promoção da saúde. A atenção é voltada para delimitar em que medida uma determinada técnica ou intervenção pode contribuir para a melhoria do bem-estar subjetivo das pessoas, o que implica diretamente nos conceitos de qualidade de vida e, consequentemente, no de saúde.

Evidenciaram-se as consequências de diferentes enfoques teóricos na produção de conhecimento, relacionada ao bem-estar subjetivo, principalmente nas variações de concepções sobre o objeto de estudo e as estratégias de investigação. Em relação à definição do BES, os estudos levantados apresentam seus contornos conceituais de modo bastante similar. Essa noção, no entanto, é permeada por outros conceitos que o tangenciam, como o de satisfação com a vida, afetos positivos, bem-estar psicológico e qualidade de vida, todas essas noções contempladas pela Psicologia Positiva. Apesar de estarem intimamente relacionados, esses construtos são diferentes e devem ser considerados em suas nuanças e especificidades, o que não ocorre na maioria das investigações selecionadas. Nesse sentido, são necessários estudos futuros que problematizem a possível dissociabilidade semântica entre esses conceitos quando se pensa e se investiga o bem-estar.

Como se constatou nos resultados apresentados, diversos trabalhos incluídos nesta revisão integrativa estabeleceram correlações entre as variáveis de bem-estar subjetivo e outras como contexto cultural, idade e profissão. Tais estudos também têm impacto sobre a definição do conceito de bem-estar subjetivo, na medida em que auxiliam a hipotetizar quais as variáveis que estariam direta ou indiretamente relacionadas a esse construto. Frente à complexidade que o tema evoca, urge a necessidade de maior refinamento teórico-metodológico, além de adequada contextualização dos processos de investigação para sua melhor compreensão.

Pelo que foi explicitado na análise do perfil desenhado pelos estudos incluídos, há necessidade de aprofundar o conhecimento dos fatores relacionados ao BES, de modo a propiciar maior densidade teórica para esse campo em construção. Por outro lado, a análise empreendida é limitada pela reduzida disponibilidade de estudos publicados e pelas próprias limitações da leitura que deles pode ser feita. De todo modo, esses estudos funcionam como um norte para se conhecer a produção científica, embora nem sempre possuam o alcance necessário para se refletir sobre aspectos teóricos e metodológicos do BES.

Em relação às investigações que abordam o bem-estar subjetivo, sob perspectiva exclusivamente teórica, ou outras, que trabalham apenas com a dimensão prática e com a repercussão desse conceito em relação a outros, tais como o de qualidade de vida, há que se pontuar que as possibilidades de articulação entre teoria e prática deveriam ser mais enfatizadas em novas pesquisas, em um movimento que vem sendo assumido e incentivado pela Psicologia Positiva. Além disso, seria desejável que essas investigações não apenas delimitassem conceitualmente a noção, mas se preocupassem em produzir dados empíricos que contribuíssem para delineamento consistente do conhecimento sobre o bem-estar subjetivo, nas ações de promoção de saúde. Desse modo, o profissional de saúde poderia usufruir de referências para pautar sua prática cotidiana.

Essa articulação teórico-prática, em última instância, é necessária para que se possa pensar na aplicabilidade do construto no planejamento de programas de prevenção e intervenção, visando a transformação dos modelos e práticas, conforme almeja a Psicologia Positiva, que se preocupa com a promoção de saúde, bem como de aspectos salutares e adaptativos do desenvolvimento. Certamente esse caminho inovador se mostra árduo e complexo, pois nele a abertura para o novo tem que operar concomitantemente com a ruptura com o conhecimento estabelecido, de modo que a mudança não apague o que foi construído, mas imprima um novo olhar para as formas cristalizadas de se ver e de se conceber o ser humano. Nesse sentido, a revisão integrativa apresentada é um elo a mais dentro de uma corrente, a partir da qual poderão ser elaborados outros levantamentos bibliográficos e discutir qual o impacto dessas publicações na definição e no estudo científico da felicidade e do bem-estar subjetivo, contribuindo com reflexões conceituais e teórico-metodológicas relevantes para o planejamento de novas pesquisas na área, notadamente da Psicologia Positiva. Desse modo, será possível delinear novas perspectivas de estudos e intervenções em torno do tema.

 

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Endereço para correspondência:
Manoel Antônio dos Santos
Universidade de São Paulo. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto. Depatamento de Psicologia e Educação
Av. Bandeirantes, 3900
Bairro: Monte Alegre
CEP: 14040-901 Ribeirão Preto, SP, Brasil
E-mail: masantos@ffclrp.usp.br

 

 

Recebido: 9.3.2009
Aceito: 3.3.2010

 

 

1 Apoio financeiro Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)